Temos acompanhado os movimentos de progresso na nova criação, observando que esses movimentos seguem, de maneira espiritual, os movimentos da criação material.
Não vamos fazer nem mesmo uma breve recapitulação. Nesta noite, vamos nos concentrar em um aspecto — o aspecto central de tudo isso.
Quero ler dois ou três trechos das Escrituras, deixando de lado a passagem do Antigo Testamento sobre a criação do homem. Vamos diretamente ao Novo Testamento e ler esses trechos. Como estamos tratando tanto do livro de Atos, veremos duas passagens ali.
Atos 2:32-33
Deus ressuscitou a este Jesus, do que todos nós somos testemunhas.
Exaltado, pois, à destra de Deus, e tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, Ele derramou isto que vós vedes e ouvis.
Exaltado à destra de Deus, Ele havia obtido isso.
Atos 7:55-56
Mas ele, estando cheio do Espírito Santo, fitou os olhos no céu e viu a glória de Deus, e Jesus em pé à destra de Deus;
e disse: Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem em pé à destra de Deus.
Hebreus 2:5-11
Porque não foi aos anjos que Ele sujeitou o mundo vindouro, do qual falamos.
Mas alguém, em certo lugar, testificou, dizendo:
Que é o homem, para que Te lembres dele?
Ou o filho do homem, para que o visites?
Tu o fizeste um pouco menor que os anjos;
de glória e de honra o coroaste,
e o constituíste sobre as obras de Tuas mãos:
todas as coisas sujeitaste debaixo de seus pés.
Pois, ao sujeitar-lhe todas as coisas, nada deixou que não lhe estivesse sujeito. Mas agora ainda não vemos todas as coisas sujeitas a ele.
Vemos, porém, Aquele que foi feito um pouco menor que os anjos, Jesus, coroado de glória e de honra por causa do sofrimento da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todo homem.
Porque convinha Àquele para Quem são todas as coisas e por meio de Quem todas as coisas existem, ao conduzir muitos filhos à glória, aperfeiçoar, por meio dos sofrimentos, o Autor da salvação deles.
Porque tanto Aquele que santifica como os que são santificados são todos de um só; por essa causa, Ele não Se envergonha de lhes chamar irmãos.
Por fim, na primeira carta aos Coríntios, capítulo 15:
1 Coríntios 15:45
O primeiro homem, Adão, tornou-se alma vivente. O último Adão tornou-Se espírito vivificante.
Na primeira criação, coroada pela criação e pelo estabelecimento do homem, poderíamos dizer que ele foi a razão de tudo. Isto é, tudo o que veio antes conduziu até ele, e tudo o que veio depois procedeu dele. Ele é a chave.
O mesmo é verdade — uma verdade de modo transcendente — na nova criação. O Homem é apresentado, e o Homem é estabelecido: tudo o que veio antes conduzindo a Ele, e tudo o que vem depois partindo Dele, procedendo Dele.
O homem é a chave de ambas as criações. O homem é um pensamento especial de Deus.
Mas há algo sobre o qual precisamos ter muita clareza: no homem da primeira criação, nunca tivemos o pensamento pleno de Deus acerca do homem — apenas a intenção de Deus quanto ao homem, não a sua realização; o começo de Deus com o homem.
Na nova criação, é diferente. No último Adão, temos o pensamento pleno de Deus acerca do homem: perfeito, completo, sem nada mais a acrescentar quanto a Ele mesmo, como expressão pessoal e corporificação do pensamento pleno de Deus acerca do homem.
E, tendo-O aperfeiçoado — Ele foi aperfeiçoado por meio do sofrimento —, tendo-O completado, tendo-O levado à Sua condição definitiva, Deus pôde glorificá-Lo e estabelecê-Lo ali para ser o primeiro de toda uma raça semelhante a Ele.
É um grande movimento. Um grupo piedoso de queridos crentes adotou o nome “a família de Jesus”. Não sei se tinham plena compreensão disso ou não. Bem, no que diz respeito a eles, esse nome talvez se refira apenas a uma parte da família, mas é isso que ela é. É isso que ela é.
Toda esta nova criação é a família de Jesus.
Por essa causa, Ele não Se envergonha de lhes chamar irmãos.
E diz:
Eis-Me aqui, e os filhos que Deus Me deu.
Somente numa família espiritual o seu filho é seu irmão. Sabemos em que sentido isso é dito. Timóteo era filho de Paulo na fé; Timóteo era irmão de Paulo no Senhor. Isso, de passagem.
Mas há duas coisas com as quais devemos nos contentar nesta noite, e elas são mais do que suficientes. Precisamos ter muita clareza sobre isso.
Por um lado, Jesus — estamos usando agora apenas o nome, como é usado aqui nestas passagens —, Jesus é a representação efetiva da intenção de Deus no que diz respeito ao homem. Ele está estabelecido à destra de Deus como o modelo, o padrão para o homem.
O homem é chamado a ser conformado a essa imagem — a alcançar a Sua imagem —, não como Deus, mas como o Filho, como homem. Essa é a primeira coisa sobre a qual você e eu precisamos ter muita clareza.
Por outro lado, a tarefa do Espírito Santo nesta dispensação — Sua verdadeira tarefa, para a qual Ele veio, com a qual está comprometido e que explica todos os Seus tratos conosco — é reproduzir esse Homem na família, se preferirem; na raça; nos filhos de Deus.
Essa é a tarefa do Espírito Santo. Para esse fim, Ele pode fazer muitas coisas. Pode inspirar a evangelização, a conquista de almas; pode conduzir a diversas formas de atividade. Mas nenhuma delas deve ser considerada um fim em si mesma. Se forem, certamente ficarão aquém do propósito de Deus para elas.
Toda atividade e todo interesse inspirados pelo Espírito Santo — quer seja a evangelização, a salvação dos não salvos, quer sejam todos os demais meios e caminhos de edificação e instrução —, toda atividade do Espírito Santo tem apenas um objetivo em vista: conduzir muitos filhos à glória.
Isto é, reproduzir o Filho nos filhos; reproduzir Cristo numa humanidade chamada, escolhida, eleita por Deus.
Ter muita clareza sobre isso talvez corrija algumas de nossas ênfases desproporcionais, nossos erros e nossas deficiências. Vejam exatamente o que o Espírito Santo está fazendo. Isso explicará muita coisa.
É a única explicação para muitas coisas. Bem, alguns dos maiores evangelistas tiveram seus ministérios de evangelização interrompidos, e eles mesmos ficaram reclusos e confinados durante anos, sem poder realizar nada disso.
À primeira vista, parece que houve uma falha em algum lugar. Onde está o Espírito Santo? Onde está a soberania de Deus?
A resposta é: Deus está mais interessado no crescimento de Seu Filho nessas pessoas do que em todas as atividades delas. Voltaremos a isso à medida que avançarmos, mas essas são as coisas que precisamos enxergar.
Cristo está estabelecido como a plena corporificação desse pensamento original de Deus acerca do homem — perfeito. O Espírito Santo vem para tornar Cristo, naquilo que Ele é, real e cada vez mais pleno em homens e mulheres, para trazer à existência um único e grande homem coletivo em Cristo.
Ora, vocês estão tão familiarizados com afirmações como essas. Não podemos avançar enquanto não colocarmos tudo em seu devido lugar. Observem que foi com o estabelecimento disso que tudo começou e prosseguiu no Novo Testamento.
Nada podia prosseguir antes que o Homem, aperfeiçoado, glorificado e estabelecido à destra de Deus, estivesse em Seu lugar — em Seu devido lugar.
Há um significado mais profundo, muito mais profundo, na proibição do Senhor Jesus de que saíssem para pregar e começar a obra antes que o Espírito Santo viesse. Lucas diz que Ele havia dado mandamentos por meio do Espírito Santo; e Seu mandamento foi:
Permanecei em Jerusalém até que sejais revestidos de poder do alto.
O significado mais profundo era este: o mandamento não era apenas que recebessem o Espírito Santo e, assim, recebessem poder; Ele vinculou a isso:
Sereis Minhas testemunhas.
De Quem e de quê deveriam dar testemunho? Bem, ouçam Pedro. Ele começa a dar esse testemunho em Jerusalém, e o testemunho se espalha. E qual é a grande ênfase desse testemunho?
Exaltado à destra de Deus.
Tudo está ligado a isso. Permaneçam, não apenas até que o Espírito venha e vocês recebam poder, mas permaneçam porque, quando o Espírito vier, será porque Jesus foi glorificado.
Bem, o último Adão — o último Adão. Não citem as Escrituras incorretamente, chamando-O de segundo Adão. Ele não é. Ele é o segundo Homem; Ele é o último Adão. Não há necessidade de outro; não há lugar para outro. Nele se alcança o caráter definitivo.
O último Adão está entronizado, está estabelecido, porque foi aperfeiçoado e glorificado. E, exaltado à destra de Deus, Ele derramou isto: o Espírito de Jesus glorificado.
O Espírito Santo é chamado de Espírito de Jesus. Esse é um de Seus títulos: o Espírito de Jesus aperfeiçoado, glorificado e estabelecido.
Como o sopro da nova criação, Ele entra no homem da nova criação em sua dimensão coletiva. Foi isso que aconteceu no dia de Pentecostes.
Foi o cumprimento daquela palavra pela qual o Senhor Jesus reservou esses homens para aquele dia. Ele soprou sobre eles e disse:
Recebei o Espírito Santo.
Eles não receberam o Espírito Santo naquele momento. Foi um ato simbólico, um ato pelo qual Ele, por assim dizer, os reservou para isso. Ele disse: “Eu separo vocês para isso”.
O recebimento efetivo do sopro, correspondente ao sopro de Deus no primeiro Adão, aconteceu no dia de Pentecostes. Os pulmões da igreja foram cheios. Todo o organismo, esse novo corpo espiritual, entrou em ação quando o sopro entrou.
Não é preciso argumentar para perceber que eles estavam bastante desamparados antes que isso acontecesse. Tudo começou naquele momento: o sopro da nova criação entrou. Lembrem-se disso. Não é apenas história. Não estamos apenas olhando para trás, para o Novo Testamento.
O Espírito Santo, queridos amigos, é o próprio sopro da nova criação. Nesse sopro de Cristo, nós nos tornamos partes orgânicas de Cristo: o corpo de Cristo, membros de Cristo, o único novo homem.
Agora, o que precisamos fazer, o mais rapidamente possível, é examinar esse Homem sendo reproduzido. É um estudo muito maior do que podemos abordar nesta noite, mas é perfeitamente claro — e sobre essas coisas precisamos realmente ter perfeita clareza — que, quando o Espírito Santo entrou neles, ocorreu uma tremenda mudança quanto à ordem de humanidade a que pertenciam.
Dizer que se tornaram criaturas diferentes dificilmente é suficiente. Gostaria que vocês estudassem de perto e de maneira completa o que lhes aconteceu e a mudança que de fato ocorreu. Vou indicar rapidamente algumas dessas coisas.
Vocês sabem, pela leitura dos Evangelhos — penso que esse é um dos benefícios de os Evangelhos estarem encadernados antes de Atos, embora não tenham sido escritos antes dele —, vocês sabem como esses homens estavam presos à terra.
Seu horizonte não ia além da terra e daquilo que podiam ver com seus olhos naturais. A ideia que tinham do reino de Deus, por exemplo, era terrena, temporal e exterior. Suas ambições, expectativas, esperanças, interesses e atividades estavam todos dentro desse pequeno círculo.
Eram homens pequenos porque tinham um horizonte tão pequeno. Viva todos os seus dias numa pequena aldeia, e você será uma pessoa pequena. Comece a percorrer o mundo, e sua visão se ampliará maravilhosamente.
Essas pessoas não enxergavam nada além de Israel, nada além dessa pequena região — além de sua própria terra natal, de sua própria cidade. Aquilo era o país. Eram homens presos à terra.
Olhem novamente: Jesus está no céu. Ele pertence ao céu. Não sei onde o céu termina, mas sei que é um lugar imensamente grande — capaz de ampliar tremendamente suas concepções de espaço, distância e alcance.
Jesus está no céu. O Espírito Santo desce do céu e entra nessas pessoas, e imediatamente elas são transformadas — ou começam a ser transformadas —, radicalmente transformadas de pessoas terrenas em pessoas celestiais.
Para elas, o centro de tudo está no céu: a destra de Deus. Elas se tornam, em sua própria constituição, natureza e consciência, pessoas celestiais.
Até o último instante antes de o Espírito Santo vir, elas estavam dizendo:
Restaurarás Tu neste tempo o reino a Israel?
Esse era o horizonte delas. Ele desaparece quando o Espírito Santo vem.
O horizonte vai sendo ampliado cada vez mais — sim, por meio de crises, e às vezes crises constrangedoras e dolorosas. Ainda assim, ele se estende, se expande. O céu se tornou o âmbito da vida delas.
O povo celestial. Eu poderia, é claro, passar horas tratando disso na própria Palavra. Vocês sabem quanto essas pessoas do livro de Atos falaram depois sobre esse mesmo assunto.
Olhem para esse homem, Paulo. Mais do que o de qualquer outro, seu horizonte havia sido este: Jerusalém. E, depois:
Nos fez assentar com Ele nas regiões celestiais em Cristo Jesus.
Ele está falando das regiões celestiais o tempo todo.
Penso, de fato, que ele teve uma grande participação na escrita da carta aos Hebreus. Quer a tenha escrito ou não, de alguma forma ele está presente ali o tempo todo. A carta trata inteiramente disso, não é? Do lado celestial das coisas:
Portanto, santos irmãos, participantes de uma vocação celestial.
O fato é que, quer tivessem nascido em Jerusalém, na Galileia ou em qualquer lugar desta terra, quando o Espírito Santo veio, eles nasceram do céu.
Discutam comigo, se quiserem, mas sustento isto: esses homens não nasceram de novo antes do dia de Pentecostes. Eram discípulos, eram seguidores, receberam poderes e autoridade delegados, mas não nasceram de novo antes do dia de Pentecostes.
Mas, então, nasceram. Nesse nascimento, nasceram do alto. Jesus havia dito que todo homem precisa nascer do alto. Um reino celestial exige um povo celestial.
Não apenas nasceram do alto, mas também receberam os direitos de cidadania do alto — tornaram-se cidadãos.
Chegastes à Jerusalém celestial.
A Jerusalém que é de cima é a mãe de todos nós.
Os apóstolos, depois de voltarem de uma daquelas missões para as quais haviam sido enviados com autoridade, começaram a contar ao Senhor Jesus o que havia acontecido. Disseram:
Até os demônios se nos sujeitam.
Jesus disse: “Calma. Calma. Cuidado. Se vocês começarem a se vangloriar diante do diabo, estarão em terreno perigoso”.
Não vos alegreis nisso; alegrai-vos por estarem os vossos nomes inscritos no céu.
Esse é um lugar seguro para vocês: ser cidadãos do alto, estar inscritos no céu, ter os direitos de cidadania da cidade celestial. Sua segurança não está em se gloriar em qualquer coisa que sejam capazes de fazer contra os poderes das trevas. Sua única segurança e glória é ter uma cidadania celestial e seus nomes inscritos no céu.
Vocês sabem que essa é uma ideia do Novo Testamento, não é? O livro de Apocalipse trata justamente disso: aqueles cujos nomes estão no Livro da Vida do Cordeiro, inscritos no céu.
Nascidos ali, cidadãos do céu. O apóstolo afirma:
A nossa cidadania está no céu, de onde também aguardamos um Salvador.
Não apenas nascidos, não apenas investidos dos direitos de cidadania, mas sustentados pelo céu. Este livro de Atos é um maravilhoso registro de como o céu sustenta seus próprios cidadãos e compatriotas, não é?
Sim, o céu cuidou deles — proveu, sustentou, conduziu-os em meio às dificuldades, veio em seu auxílio. Digam como quiserem: o céu foi fiel ao seu próprio povo. O céu era sua fonte de recursos e possuía todos os recursos de que precisavam.
Quando esses recursos faltavam — quando tudo aqui deixava de lhes oferecer qualquer esperança ou força —, eles recorriam ao céu em oração e tinham seus recursos renovados.
Então, queridos amigos, há algo que constato — ao menos, não sei se vocês também constatam —: nem todas as minhas orações são respondidas. Peço ao Senhor muitas coisas que Ele não faz.
Mas isto eu constato invariavelmente: se me retiro e passo algum tempo em oração, sou revigorado. Sinto-me melhor por causa disso. Não é imaginação. Não é algo que aconteça por si só: em poucos minutos, passar de um estado de completo esgotamento, cansaço e tensão — quando é impossível continuar — e voltar descansado, revigorado, renovado.
Dez minutos na presença do Senhor, recorrendo aos recursos celestiais — isso, pelo menos, eu constato, e já é alguma coisa neste mundo. Experimentem.
Seus recursos estavam no céu em todos os sentidos. Mas observem, então, o início e o desenvolvimento do caráter celestial.
É algo extraordinário: a mudança no caráter desses homens. Não foi apenas psicológica; foi radical, foi uma mudança em sua própria constituição.
Poderíamos, é claro, abordar isso e examiná-lo por muito tempo. Mas há um ponto que penso que poderíamos destacar, porque sinto que, no que diz respeito a mim — e, sem dúvida, a muitos de vocês —, é um ponto que precisa de atenção.
Aqui está o homem mais proeminente de todo esse grupo, de todos os 120 reunidos naquele cenáculo no dia de Pentecostes. O mais proeminente é Pedro. Agora, olhem rapidamente para trás.
Ele tem sido chamado de o grande pescador. Não sei qual era sua estatura física, mas sei que falava muito. Sei que estava sempre se metendo à frente — era impetuoso.
Você não precisa ser uma pessoa fisicamente pequena para ser covarde. Não há dúvida: Pedro era terrivelmente covarde. Quando chegou a verdadeira prova, bastou que uma criada no pátio lá embaixo apontasse o dedo e dissesse: “Você é um deles”, para arrancar de Pedro uma negação veemente.
Não estou minimizando o que estava em jogo para Pedro, caso confessasse. Mas não há dúvida: a coragem moral realmente não era um dos pontos fortes de Pedro.
O Senhor Jesus o confrontou depois de Sua ressurreição, vocês sabem, de maneira muito profunda a esse respeito. Pedro havia dito:
Eu Te seguirei até à morte.
Ainda que todos Te abandonem, eu não Te abandonarei.
Simão, amas-Me mais do que estes?
“Você ama?” Ele está sendo confrontado exatamente quanto àquilo em que havia fracassado de maneira tão vergonhosa: o testemunho do Senhor Jesus — o testemunho público do Senhor Jesus.
Numa prova real, vocês sabem — diante de pessoas que têm o poder de fazer algo contra vocês, talvez crucificá-los, talvez privá-los de uma promoção no trabalho ou de outras coisas —, é aí que está a questão.
Agora, olhem para isto: o que acontece quando o Espírito Santo vem. Somos informados de que Jesus deu boa confissão diante de Pôncio Pilatos. Ele enfrentou a situação. Não foi Jesus Quem Se acovardou diante de Seus juízes; foram os juízes que se acovardaram diante Dele. A coragem moral de Jesus surpreendeu Pilatos e irritou os outros.
O Espírito de Jesus entrou em Pedro no dia de Pentecostes, e vejam: ele é transformado nesse aspecto — entre muitos outros, mas também nesse.
Ao verem a ousadia de Pedro e João.
Vocês podem ouvi-lo falando:
Mais importa obedecer a Deus do que aos homens.
“Eu lhes pergunto: estamos certos?”
Julgai vós se é justo obedecer aos homens antes que a Deus.
Ele está argumentando sobre essa questão, e seus opositores ficam sem resposta. É tremendo — Pedro de pé, firme, depois que o Espírito Santo veio sobre ele.
Jesus sabia o que aconteceria, e disse:
Quando o Espírito Santo vier, sereis testemunhas.
Não antes. Será necessário o Espírito Santo para fazer de alguém como você, Pedro, uma testemunha.
Agora, meus amigos, é uma questão simples, mas realmente sinto que você e eu precisamos do Espírito Santo nesse assunto. Não somos, diante das pessoas, as testemunhas que deveríamos ser. Quando chega a hora decisiva, isso fica evidente. Não damos testemunho. Produzimos qualquer tipo de argumento para escapar disso.
Não estou sugerindo que vocês saiam correndo desta reunião, abordem todo mundo e comecem. Mas, sabem, muita gente diz: “Você só criaria muitos problemas, problemas desnecessários, se começasse a fazer esse tipo de coisa”. Você tem certeza — absoluta certeza — de que não está usando isso como desculpa?
O que aqueles com quem você faz negócios sabem sobre Jesus pela sua conduta nos negócios? O que aqueles que vivem ao seu redor sabem sobre Jesus pela sua vida?
Vejam, aqui todos sabiam, e não podiam deixar de saber, quando o Espírito Santo entrou nesses homens. Em círculos cada vez mais amplos, as pessoas ficavam sabendo.
E creio que o verdadeiro valor de tudo isso não é que nós saibamos que as pessoas sabem; é que elas saibam, mesmo quando não sabemos que elas estão percebendo. Mas é assim. O Espírito Santo age dessa maneira.
Gostaria de poder abordar com muito mais profundidade toda essa questão da mudança nessas pessoas depois que o Espírito Santo veio — a mudança de caráter. Sim, o Espírito de Jesus, e elas já começam a ser conformadas à Sua imagem: Sua coragem moral, Suas virtudes espirituais e muito mais.
Isso continua. Há crises nesse processo; não importa. O que importa é que elas estão a caminho — a caminho. Gosto de ler aquelas cartas de Pedro, escritas tantos anos depois, e ver o que a graça havia feito naquele homem: a medida de Cristo que havia sido formada nele. Essa é a obra do Espírito Santo.
Posso destacar mais uma coisa aqui? Observem a mudança coletiva — não apenas individual e pessoal, mas a mudança coletiva.
Bem, é uma afirmação simples, mas creio que significa bastante:
Pedro, pondo-se em pé com os onze.
Havia 120 pessoas reunidas naquele cenáculo. Deve ter sido um cenáculo bastante grande — 120 pessoas reunidas ali, homens e mulheres.
Na sinagoga, estariam separados. Os homens teriam de se sentar de um lado, e as mulheres, do outro. Não creio que isso tenha acontecido no cenáculo. Estavam todos juntos, misturados.
É uma bela representação de que, em Cristo Jesus, não há homem nem mulher, mas um único novo homem. Não interpretem mal essa afirmação; não vou parar para explicar o que quero dizer.
Mas, em Cristo Jesus, há um único novo homem. Aqui está o começo dessa comunhão — juntos. A partir daquele momento em que o Espírito veio, vocês encontram essa comunhão em movimento, em ação, em desenvolvimento.
Tinham todas as coisas em comum, e nenhum deles dizia que as coisas que possuía eram suas. Vocês não teriam encontrado isso nos velhos tempos: “Olhe aqui, o que é meu é meu — tire as mãos”.
Isso era verdade até mesmo entre os discípulos. Havia atitudes terríveis, não é? Todos buscavam sua própria posição e seu próprio lugar no reino, discutindo enquanto caminhavam com o Mestre. O Mestre percebeu e discerniu que estavam discutindo quem seria o maior no reino — rivalidades, ciúmes, ambições, egocentrismo pessoal.
Isso desaparece a partir do dia de Pentecostes. Desaparece. Eles são unidos numa única realidade coletiva. Isso começou, pelo menos, de uma maneira muito maravilhosa. É isso que o Espírito Santo faz quando realmente assume o controle.
Não precisamos disso? Não precisamos do Espírito Santo numa plenitude maior de poder? Vocês conhecem toda essa tremenda atividade e organização, toda a conversa sobre a reunificação das igrejas e coisas assim.
Ah, a imensidão da propaganda e da estrutura! Tudo isso iria pela janela se o Espírito Santo entrasse. Cessaria — desnecessário, um verdadeiro contrassenso — se o Espírito Santo ocupasse o Seu lugar.
Vocês teriam toda a unidade que o céu requer. Essa é a única unidade que vale a pena ter, não é?
Preciso concluir, relutantemente, com mais dois pontos. Um deles é este: observem que essas pessoas eram sempre atraídas para o alto — sempre atraídas para o céu.
O céu não era apenas o lugar de sua origem, de onde haviam vindo. O céu não era apenas seu sustento numa terra estrangeira e alheia. O céu era seu objetivo, sua meta.
O que as governava era esse desfecho final: estar com Ele na glória — no céu. Seus espíritos eram atraídos para o céu.
O magnetismo deste mundo havia perdido o poder sobre elas. Fora quebrado e anulado; já não as atraía. Elas se afastavam cada vez mais desta terra. Vocês podem ver isso acontecendo.
O templo era algo terreno, e vocês podem ver como, silenciosa e continuamente, elas se afastavam do templo. Jerusalém deixa de retê-las. Vocês nunca poderão apontar o dia e o momento exatos em que romperam com aquele sistema e aquele centro, mas isso aconteceu.
Por fim, vocês as encontram fora de todo aquele sistema, afastando-se de todo vínculo terreno. O maravilhoso é que isso é uma lei do Espírito Santo. Isso acontece.
Você e eu, se somos homens e mulheres governados pelo Espírito Santo, já não nos ajustamos a este mundo. Este mundo está perdendo — se já não perdeu completamente — qualquer tipo de interesse para nós.
Esta não é a nossa vida. Este não é o nosso lugar. Precisamos estar aqui; simplesmente precisamos estar aqui até que o Senhor diga o contrário. Mas não gostamos disso. Nossos espíritos não gostam disso.
Quanto a gostar deste mundo, de qualquer maneira que seja, acontece justamente o contrário. Sentimos cada vez mais como estamos fora de tudo isso — não fazemos parte disso. A terra não deveria nos satisfazer.
É verdade: vá para o seu trabalho. Mas, ah, quanto mais você gostaria de permanecer na comunhão do povo celestial. Você precisa ir; o Senhor o chama para lá.
Eles eram assim — sempre atraídos para o céu e se afastando interiormente, interiormente, do mundo.
Mais uma coisa, e encerro por enquanto. Observem a maravilhosa ampliação que começou a acontecer no dia de Pentecostes também neste sentido: aquilo que tantas vezes temos chamado de universalidade de Cristo.
A universalidade de Cristo. Vocês não podem prender Cristo Jesus a nada que pertença a este mundo. Não podem confiná-Lo a nenhuma nacionalidade. Ele Se ajusta a todas elas, e não pertence exclusivamente a nenhuma delas.
Vocês não podem confiná-Lo a uma única língua. Ele pode ser compreendido em todas as línguas, e compreende todas as línguas. E poderíamos continuar. Essa maravilhosa universalidade.
Vejam: aqui está o dia de Pentecostes, e o que aconteceu?
Atos 2:7-11
E todos estavam atônitos e se maravilhavam, dizendo: Eis que não são galileus todos estes que falam?
Como, pois, os ouvimos, cada um em nossa própria língua em que nascemos?
Partos, medos e elamitas, e os habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia,
da Frígia e da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia próximas de Cirene, e os visitantes de Roma, tanto judeus como prosélitos,
cretenses e árabes — nós os ouvimos falar em nossas línguas as grandezas de Deus.
Uma verdadeira arca de Noé — um pouco de cada espécie. A universalidade de Cristo.
É a estratégia do Espírito Santo fazer com que Cristo satisfaça a necessidade de todo tipo de criatura, em todas as nações e línguas, ajustando-Se a elas.
Não sei quantos dos três mil representavam todos aqueles segmentos da humanidade depois de Pentecostes, mas penso que isso, por si só, é uma maravilhosa demonstração da universalidade de Cristo — o Espírito Santo tornando conhecida a grandeza de Cristo.
Ah, queridos amigos, o Espírito Santo faz esse tipo de coisa. Ele derruba as barreiras de nacionalidade e de temperamento. Ele constitui esse novo homem sobre o princípio celestial e universal.
Os odres velhos de um nacionalismo meramente restrito se rompem quando o vinho novo entra, e ele flui, transborda, para todas as nações.
Paulo suplicou aos coríntios:
Dilatai-vos também vós.
Nosso coração se dilatou; dilatem-se também vocês. Como?
Bem, a única maneira eficaz de nos libertar de nossas pequenezas, nossas mesquinharias, nossos exclusivismos — ampliando-nos até as dimensões das regiões celestiais — é sermos poderosamente cheios do Espírito Santo. É isso que Ele faz.
Haverá um efeito. Se você tem alguma experiência, alguma experiência real do Espírito Santo, houve uma crise em sua vida, num momento antes do qual você estava preso àquelas restrições e limitações da velha vida natural.
E depois — depois daquela crise em que o Espírito de Deus entrou em sua vida —, você sabe muito bem: a igreja deixou de ser algo sectário, composto de tantas seitas e divisões. Não vou usar a outra palavra.
Seu horizonte deixou de ser algo local. Sua visão se ampliou até as grandes dimensões de Cristo e desta igreja, que é o Seu corpo, na qual não há judeu nem grego — não os dois, nem um nem outro —, mas apenas um único novo homem.
Pessoas são tiradas de todas as nações por causa de Seu nome, para serem chamadas pelo Seu nome: a família de Jesus. Não vamos adotar esse nome, mas é isso que ele significa.
Agora, vocês veem como somos colocados diante de uma tremenda responsabilidade. Que o Senhor aplique ao nosso coração algo disso. Isso realmente nos desafia. Não é apenas uma declaração da verdade; é um desafio.
Eu sou assim — realmente? O Espírito de Deus realizou algo disso em mim? Ele está realizando? Está dando continuidade a isso? Esse é o desafio.
Senhor, torna isso realidade.