Os princípios de Pentecostes e o significado do Espírito Santo.
Já avançamos muito e percorremos um caminho extenso demais para fazer uma revisão e uma síntese adequadas. Mas, em consideração aos amigos que estão conosco pela primeira vez, vou indicar, o mais rapidamente possível, onde estamos hoje — sem voltar além desta manhã.
Hoje estamos vendo que o livro conhecido como Gênesis, no Antigo Testamento, é o livro dos princípios da criação material; e que o livro de Atos, no Novo Testamento, é o livro dos princípios da nova criação em Cristo Jesus.
No primeiro, os princípios espirituais estão envolvidos em formas e meios naturais. No segundo, esses princípios são apresentados sem revestimento. Aqui temos os princípios espirituais de todas as obras e de todos os propósitos de Deus expostos claramente.
A nova criação segue, em princípio, a mesma linha da antiga, passo a passo, etapa por etapa. Nesta manhã, consideramos três desses movimentos na antiga criação como ilustrações e representações dos movimentos da nova criação em Cristo.
Começamos com as primeiras palavras:
No princípio, Deus.
Dedicamos algum tempo a isso no livro de Atos. O livro de Atos apresenta uma nova intervenção de Deus na história deste mundo.
O que temos ali é o encontro com Deus — não apenas em coisas materiais, símbolos, representações e figuras, mas em realidade espiritual direta, no poder do Espírito Santo.
Nossa ênfase, nesse sentido, foi esta: a vinda do Espírito Santo, a presença do Espírito Santo, o advento do Espírito Santo — o significado de Pentecostes — é trazer a este mundo uma nova e poderosa manifestação da realidade de Deus.
Isso não é apenas uma declaração da verdade; é uma prova da vida. É uma prova de que estamos, individual e coletivamente, local e universalmente, realmente vivendo os benefícios do advento do Espírito Santo — o impacto, o efeito, a influência, a percepção: Deus está presente. Deus está aqui. Deus está conosco.
Assim foi no segundo Gênesis. Os homens pensavam que estavam lidando com homens; por isso, lançavam-nos na prisão, martirizavam-nos e os perseguiam. Pensavam que estavam lidando com um novo movimento, uma religião, um sistema ou uma seita.
Tratavam aquilo dessa maneira; então, deparavam-se com Deus e descobriam, como disse Gamaliel, que não estavam lutando contra homens nem contra um sistema de verdades: estavam lutando contra Deus.
Portanto, o primeiro significado da nova criação em Cristo é este: Deus está aqui. Não em formas, não apenas por meio de instrumentos, como no Antigo Testamento, mas aqui pessoalmente, de fato, diretamente, imediatamente. Deus está aqui.
Temos de levar Deus em conta, mas também temos de desfrutar de Deus. Isso funciona nos dois sentidos. Essa é a primeira coisa em ambas as criações: o princípio — Deus.
A segunda coisa que observamos foi o Espírito que pairava:
O Espírito de Deus pairava sobre a face das águas.
Vimos que não se tratava apenas de um pairar abstrato, indefinido.
Havia propósito, expectativa, um movimento que chamava a atenção para algo que precisava acontecer. Alguma coisa precisava ser feita com aquela situação. Aquilo não era o que Deus havia planejado.
Aquele estado de coisas era contrário ao pensamento de Deus, e o Espírito estava ali com essa disposição — pairando, movendo-Se sobre algo que jamais poderia satisfazer a Deus.
Chegamos ao livro de Atos. Temos um período, que pode parecer breve, de dez dias após os quarenta, durante o qual eles estavam esperando. A atmosfera estava cheia de expectativa. Alguma coisa iria acontecer.
E alguma coisa acontece. Eles permanecem à espera de que isso aconteça. Não foram simplesmente informados de que algo aconteceria e depois saíram para passear enquanto esperavam. Estavam tomados pela expectativa, concentrados. O Espírito estava pairando. Algo estava para vir à existência.
Então passamos à terceira coisa: o decreto divino.
E disse Deus: Haja luz; e houve luz.
Passando ao livro de Atos, vimos como, com o dia de Pentecostes e o advento do Espírito Santo, as trevas — até mesmo as que estavam sobre a mente dos presentes — foram dissipadas.
De fato, eles vinham tateando no escuro, em meio ao mistério e à perplexidade, perguntando-se o que tudo aquilo significava: aquela crucificação, morte e ressurreição. Tudo era tão estranho. Precisavam de uma explicação — uma explicação poderosa. Precisavam compreender o verdadeiro significado de tudo aquilo.
Então o Espírito veio, e a primeira coisa que aconteceu, imediatamente, foi que a Bíblia se abriu com uma nova luz. Pedro, pondo-se em pé com os onze, tomou sua Bíblia. Era um livro novo.
Ele jamais poderia ter se comportado como se comportou se tivesse visto o significado da cruz: que tudo aquilo havia acontecido segundo a presciência e o conselho determinado de Deus. Agora ele conhecia o aspecto interior da cruz, que nunca havia visto. Jamais poderia ter negado seu Senhor se tivesse conhecido e visto aquilo.
Assim, ele toma sua Bíblia, recorrendo a Joel e a Davi, e, naquele maravilhoso discurso, expõe as Escrituras, assim como o Senhor as havia exposto aos discípulos. Agora ele faz isso sob os raios dessa nova luz que havia raiado. Deus havia dito:
Haja luz.
E houve luz.
Isso traz consigo muito mais, e não vamos repeti-lo agora; estou apenas indicando as linhas que seguimos.
Agora, nesta tarde, avançaremos o quanto pudermos nesse assunto e chegaremos ao quarto grande fato desse movimento paralelo. O quarto foi a separação entre o céu e a terra.
Essa foi uma das primeiras ações de Deus. O céu e a terra haviam perdido suas características distintas. Estavam todos misturados no caos. Não se podia distinguir um do outro.
O céu havia descido e envolvido a terra; a terra havia ficado encoberta. Tudo estava ali, como uma única massa indefinida.
O Senhor disse, em essência: “Precisamos separar essas duas coisas. Precisamos definir claramente essas duas esferas e colocar cada uma em seu lugar. O que pertence ao céu deve ser colocado ali, e o que pertence à terra deve ser colocado ali. Deve haver uma esfera ou um domínio permanente de separação entre o céu e a terra”.
Passamos ao livro de Atos e ao Novo Testamento. Permitam-me apenas dizer, para esclarecer uma questão em suas mentes, que os quatro Evangelhos, encadernados em nosso volume do Novo Testamento antes de Atos, não foram escritos antes de Atos.
A questão é que temos muita coisa nos Evangelhos ilustrada na vida do Senhor Jesus, e o significado espiritual dessas coisas se revela no livro de Atos. Vocês verão isso, pelo menos em um aspecto, daqui a pouco.
Aqui, então, com esse movimento — esse ato de Deus que estabelece distinções —, a porta se abre, e entra todo o ensino que temos no Novo Testamento sobre a diferença entre o celestial e o terreno; ou, se preferirem, entre o natural e o espiritual.
Vocês, meus queridos amigos, tenho certeza, percebem em alguma medida que muitos problemas surgem por falta de discernimento entre essas duas coisas: separá-las, colocá-las no lugar a que pertencem e saber o que pertence a esta esfera e o que pertence àquela.
No ato de Deus que estabelece e ordena as coisas, deve haver um firmamento, uma expansão entre o céu e a terra. Enquanto isso não acontecer, ainda haverá confusão.
Ainda haverá confusão. A incapacidade de distinguir e discernir é a causa de problemas e dificuldades quase incalculáveis.
Um grande exemplo está no terceiro capítulo do Evangelho de João — uma maravilhosa ilustração de toda essa questão: Nicodemos.
Qual foi a conclusão do Senhor em Sua conversa com Nicodemos? Em que ponto tudo culminou? Qual foi o veredito que o Senhor finalmente pronunciou a respeito de Nicodemos?
Se vos falei de coisas terrestres, e não crestes, como crereis, se vos falar das celestiais?
Isso resume tudo. Aqui está um homem de grande inteligência, grande instrução e grande influência, inclusive religiosa; um homem que conhecia muito bem sua Bíblia, o Antigo Testamento, e que certamente estava plenamente familiarizado com todos os movimentos da história, especialmente a história de seu próprio povo, Israel.
Ele era um homem que representava, no sentido mais pleno, aquilo que é terreno no âmbito religioso — tateando no escuro, andando nas sombras, procurando alguma coisa como um cego.
Jesus, ao falar com ele sobre nascer do alto como a necessidade fundamental para começar a compreender as coisas celestiais, diz, em essência: “Essas são duas esferas, e você as misturou completamente. Você está todo confuso, em completa desordem. Você está no escuro, Nicodemos”.
Até que algo vindo do céu aconteça em você — um novo nascimento —, até que ocorra esta segunda realidade, você não terá nem um vislumbre, nem um lampejo do significado das coisas celestiais:
O que é nascido da carne é carne;
e o que é nascido do Espírito é espírito.
Aí está um exemplo. Há, naturalmente, muitos outros. Quando chegamos ao livro de Atos, encontramos caso após caso: homens que haviam herdado a antiga ordem e sido criados na plenitude de seus ensinamentos, mas que estavam completamente no escuro.
O eunuco etíope podia subir a Jerusalém, ao templo, ao próprio centro de tudo aquilo. Estando ali, sem dúvida, como evidentemente estava, na condição de alguém que buscava — um homem à procura de alguma coisa —, saiu de Jerusalém e voltou sem ter encontrado o que fora buscar. Continuava sendo um homem no escuro.
Então o Espírito age. Esse é o ponto central. O Espírito Santo disse a Filipe:
Chega-te e ajunta-te a esse carro.
Agora, o que acontece? O homem estava lendo as profecias de Isaías, no capítulo 53. Ele tinha o texto. Tinha a Bíblia. Tinha aquilo que poderíamos chamar de o coração da questão, no que dizia respeito à letra.
Filipe, pelo Espírito, diz:
Entendes tu o que lês?
Esse é o ponto.
Ah, a diferença entre ler a Bíblia e compreender o que se está lendo à luz e sob a iluminação do Espírito Santo! Duas coisas diferentes, dois mundos diferentes. Você pode ler a Bíblia e estar em um mundo; depois, pode lê-la novamente e estar em um mundo inteiramente diferente.
O pobre homem, no escuro, diz:
Como poderei entender, se alguém me não ensinar?
Partindo daquela mesma Escritura, Filipe lhe anunciou Jesus.
O Espírito Santo havia entrado em ação e criado o espaço de separação, colocando as coisas no lugar a que pertenciam — essa maravilhosa ordenação. Mas isso deve tê-lo levado muito longe.
Deve tê-lo levado muito longe em Isaías 53. Duvido que vocês já tenham ouvido um sermão sobre o batismo dos que creem pregado a partir de Isaías 53. Evidentemente, Filipe fez isso.
Espontaneamente, o homem disse, sem que a narrativa tivesse feito qualquer referência anterior ao batismo:
Eis aqui água; que impede que eu seja batizado?
Filipe evidentemente o havia ensinado que Aquele de Isaías 53 morrera por ele e em seu lugar, representando-o na morte e sob o juízo de Deus. Isso deve tê-lo levado muito longe.
O homem evidentemente, embora isso não esteja registrado, deve ter dito: “Ah, agora vejo, agora vejo! Eu estava completamente confuso a respeito disso. Tudo isso estava envolto em neblina para mim. Agora vejo. Está claro”.
As coisas celestiais haviam se tornado reais. As coisas do céu agora estavam claras para ele. Vocês percebem o ponto sem que eu precise me deter muito nele.
A condição de Nicodemos, desse homem ou de qualquer outro — e talvez um exemplo ainda mais notável dessa mesma realidade fosse Saulo de Tarso — era a de um homem que conhecia o lado exterior das coisas religiosas. Ele conhecia. No entanto, era um homem no escuro, não era?
Mais tarde, ele disse repetidamente coisas que indicavam claramente o quanto sabia. Mas, até que o céu interviesse, era um homem em trevas.
Aprouve a Deus revelar Seu Filho em mim.
É apenas outra maneira de dizer: “Quando Deus interveio, quando Cristo interveio, Ele colocou as coisas em seu devido lugar e me mostrou que tudo aquilo era, afinal, conhecimento terreno”. Podia ser religioso, mas era todo conhecimento terreno. Era simplesmente sua capacidade natural de manejar e lidar com a Palavra de Deus — e que confusão ele havia feito de tudo aquilo!
Mas agora, ao estabelecer uma separação entre o natural e o espiritual e colocar cada um em seu lugar, que diferença tremenda isso fez! Um não tem vida; o outro é vivo.
Agora, o que isso significa? Significa simplesmente isto: uma marca da espiritualidade — o que é apenas outra maneira de dizer uma vida governada pelo Espírito Santo — é essa capacidade de discernir entre as coisas que são terrenas e procedem do homem e as coisas que são celestiais e procedem de Deus.
Ao dizer isso, queridos amigos, eu disse algo de enorme importância. Posso dizer: algo muito mais importante do que receio que vocês talvez percebam, porque é justamente aqui que se encontra grande parte dos problemas.
Escutem: há entre os cristãos uma diferença tão grande quanto a que existe entre não cristãos e cristãos.
O cristianismo hoje está, em grande parte, dividido entre os chamados liberais e conservadores, modernistas e fundamentalistas. Eles afirmam que esses dois grupos estão em polos opostos. Bem, talvez.
Mas o que estou dizendo é isto: há uma diferença igualmente grande entre muitos cristãos evangélicos ou fundamentalistas e as pessoas espirituais.
O fato de você crer na divindade de Cristo, no nascimento virginal, na morte expiatória, na ressurreição corporal, em Sua volta pessoal, na inspiração das Escrituras e assim por diante não faz de você um homem ou uma mulher espiritual.
Você pode ter tudo isso e ser uma pessoa nada espiritual na vida e no comportamento. Sim, você pode ser, para usar o termo, um fundamentalista do tipo mais ferrenho e ainda assim ser um homem ou uma mulher sem santificação e sem espiritualidade.
Há uma grande, uma grande distância, mesmo aí, entre o terreno e o celestial. Uma das coisas que constituem uma pessoa espiritual, ou que a caracterizam, é a capacidade de discernir entre as coisas que diferem.
Essa é uma expressão paulina:
As coisas que diferem.
Toda a sua primeira carta aos Coríntios se baseia nisso. Que caos! Que desordem havia em Corinto! Que confusão, que contradição, que ineficácia, que fraqueza, que vergonha!
Por quê? A mente natural havia entrado na igreja, apoderado-se das coisas espirituais e as rebaixado àquele nível. Todo o esforço do apóstolo é trazer a cruz para estabelecer uma separação nítida entre a vida natural e a mente espiritual.
Ele diz:
O que é espiritual discerne bem tudo.
Vocês compreendem isso? De fato, foi isso que aconteceu com esses homens no dia de Pentecostes. Até aquele momento, eles eram muito piedosos — muito dedicados religiosamente —, mas o Espírito Santo estabeleceu uma separação entre alma e espírito, entre o terreno e o celestial, entre o natural e o espiritual.
Se vocês tomarem isso como uma chave, encontrarão muita coisa no Novo Testamento. O Senhor Jesus usou o método das parábolas justamente por causa disso.
Ele disse aos Seus discípulos:
A vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus;
mas aos demais não lhes é dado.
Percepção, discernimento, entendimento, capacidade de distinguir — essa faculdade concedida pelo Espírito Santo reconhece o que é celestial e o que não é celestial, o que é terreno.
Hoje o cristianismo é uma terrível mistura do mundo com coisas religiosas, com coisas cristãs. Uma coisa encobriu a outra, e a maioria dos cristãos não sabe distinguir entre elas.
Já disse o suficiente? Não importa. Vocês veem que o grande princípio enunciado no início, no âmbito material, está aqui exposto e aplicado no âmbito espiritual.
Sob o governo do Espírito, há sempre uma distinção, um discernimento e uma separação claros entre o que é celestial e o que é terreno.
Se você não tem isso em sua vida, não tem testemunho. Está tudo misturado. Embora você seja cristão, sabe muito bem que sua vida não causa impacto sobre o ambiente ao seu redor. Você está neutralizado, assim como estavam as coisas antes de Deus separar o céu da terra.
Agora, isso pode parecer muito misterioso para alguns de vocês que são mais jovens. Se não conseguem compreender ou apreender isso, não o descartem simplesmente como algo sem significado. À medida que prosseguirem numa vida no Espírito, vocês aprenderão.
O Espírito lhe dirá em seu próprio coração: “Isso pertence a uma esfera à qual você já não pertence, filho de Deus. Não mexa nisso. Deixe isso”. Ele também dirá: “Veja, isto é o que lhe faz bem, o que lhe traz proveito. É aqui que você deve ir, onde deve estar, o que deve fazer para o seu bem-estar espiritual”.
Ele estabelecerá essa distinção para você em seu próprio coração. Ah, que tenhamos vidas e igrejas tão governadas pelo Espírito que não haja mistura nem confusão e, portanto, nenhuma neutralização da verdadeira eficácia!
Bem, ficamos tempo demais em um só assunto, não é? Vamos ao próximo.
Acho que provavelmente devo apenas mencionar isso e seguir adiante, porque quero dizer muito mais a respeito, provavelmente à noite. A próxima coisa que aparece nessa ordem — o fato que governa tudo — é a colocação do homem em sua posição.
Vou apenas mencioná-lo. Vocês se lembrarão de que o homem era a coroa e o centro de tudo no propósito criador de Deus. O Novo Testamento é assim.
Posso deixar isso por enquanto, para não prejudicar o assunto por falta de tempo? É de importância tão fundamental. Quando passo à próxima coisa nesse movimento, já chegamos a este ponto: o homem está em seu lugar. O homem em seu lugar é a chave de tudo.
O próximo: o adversário.
É muito difícil não dizer mais sobre aquele outro assunto no livro de Atos, mas fica perfeitamente claro que o homem está em seu lugar quando chegamos a Atos. O homem está em seu lugar, como centro e chave de tudo. Vamos deixá-lo ali por enquanto.
Então, o adversário. O adversário, como seu nome indica, é aquele que se opõe — opõe-se a tudo o que Deus fez; opõe-se a Deus; opõe-se à luz; opõe-se à ordem; é o deus da confusão; opõe-se a tudo — e concentra sua oposição no homem.
Isso está perfeitamente claro. O homem está em seu lugar, e o Espírito Santo vem e constitui, no início, aqueles cento e vinte como uma expressão coletiva do Homem: Cristo em representação e expressão coletivas. Paulo o expressa assim:
Um novo homem.
O movimento seguinte é contra o Homem no céu e contra o homem aqui representado naquela comunidade. É uma ação para estragar, uma ação para arruinar a nova criação, como ele fez com a antiga.
O livro de Atos é, como vocês bem sabem, um relato longo e muito completo das atividades variadas e maliciosas do adversário.
É quase fascinante observar seus movimentos: às vezes sutis, aproximando-se como um anjo de luz; às vezes pronto para atacar com seu veneno. Ali está ele. Observem-no.
Logo depois deste belo momento:
E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão,
no partir do pão e nas orações.
O adversário diz: “Vou destruir isso. Vou arruinar isso. Vou estragar isso”.
Ananias e Safira se tornam seu instrumento. Temos a terrível história de uma invasão daquela comunhão, daquela vida coletiva — algo planejado para romper e desintegrar, para trazer morte, morte, morte, morte, diretamente ao coração.
Não vou percorrer o livro com vocês; vocês o conhecem. Mas pensem novamente. Vocês veem o adversário trabalhando contra essa nova criação para levá-la à ruína. Parece que ele não recua diante de nada.
Muito bem, mas o que pensamos? Vocês estão percebendo? Como dissemos, aqui está o encontro com Deus.
Ah, graças a Deus, queridos amigos, porque nesta dispensação Deus Se comprometeu, envolveu-Se e entrou em Sua igreja para enfrentar essa força do mal.
Embora a igreja sinta o golpe, e os crentes conheçam a pressão desse antagonismo espiritual, o resultado de cada ataque — o resultado de cada ataque — é que o Senhor tem a situação e o desfecho em Sua mão.
Eu pretendia examinar alguns exemplos disso. O livro está cheio deles. Por meio daquele Herodes, energizado e inspirado por Satanás, Satanás atacou a igreja. Ele atingiu um ponto muito, muito vital da igreja quando atacou Pedro.
Mas o céu tem interesse nisso. Herodes, e aquele que o inspira e lhe dá poder, têm de haver-se com Deus. O desfecho é ainda pior para Herodes.
O livro se resume a isto: Deus sabe; Satanás faz seus cálculos; e Deus faz a última jogada todas as vezes.
Isso acontece porque Deus está envolvido nessa questão com Seu povo. Deus Se comprometeu com Sua igreja. Pentecostes significa isso.
A vinda do Espírito significa que Deus Se comprometeu. Deus entrou em ação. Deus, em essência e em ato, disse: “Esse é o Meu negócio. Esse é o Meu assunto. Se você tocar nisso, estará tocando em Mim. Se lutar contra isso, estará lutando contra Mim”.
Quem poderá dizer — por mais difícil que seja quando olhamos para o todo —, ainda assim, quem poderá dizer que aquela interferência inicial, original, de Satanás no jardim não foi tomada por Deus para introduzir algo maior do que talvez jamais tivesse existido?
Esse algo maior é a graça. Graça. Se o homem nunca tivesse caído, a graça nunca teria entrado no dicionário.
Digo que é difícil afirmar isso à luz de tudo o que a graça exige. Ainda assim, a graça é a coisa mais maravilhosa que já foi revelada ao homem, e ela só pode vir mediante a interferência de Satanás. É uma maneira de colocar as coisas, mas é a chave de muita coisa neste livro de Atos.
Sofrimento? Sim, Satanás os fez sofrer. Mas eles aprenderam maravilhosas lições celestiais por meio de seus sofrimentos e cresceram extraordinariamente no âmbito espiritual por meio da atividade de Satanás.
O apóstolo, que foi uma das figuras desse livro e ele mesmo um exemplo notável dessa realidade, disse mais tarde:
E quero, irmãos, que saibais que as coisas que me aconteceram
contribuíram para maior proveito do evangelho.
Considerem as coisas que lhe aconteceram. Vocês podem ver com muita clareza a mão de Satanás trabalhando para arruiná-lo e destruí-lo, mas essas coisas contribuíram para o progresso do evangelho.
Muito bem, o Espírito Santo está no comando.
Agora, queridos amigos, com uma breve palavra sobre mais um ponto, encerraremos por esta tarde. A próxima coisa nesse movimento foi o grande fato da expansão.
Aqui há um movimento. A próxima coisa no relato de Gênesis é que Satanás interferiu e realizou sua obra maligna. Mas não frustrou o objetivo de Deus.
Uma maravilhosa expansão vai acontecer por todo o horizonte. É possível enxergar grandes distâncias. Abrem-se possibilidades que estão muito além dos limites daquele jardim e de seu muro ou de sua cerca.
A partir daquela concentração da obra divina, toda a terra será cheia, povoada e suprida. O fruto se expandirá, se multiplicará e crescerá até o fim.
Se, de um ponto de vista, aquilo foi uma espécie de ruptura, de outro foi uma abertura.
Quando chegamos ao livro de Atos, vemos isso com muita clareza na realidade espiritual.
Aqui está Jerusalém, e aqui está um terrível ataque contra os discípulos no assassinato de Estêvão. Parece que o veneno de Satanás foi mais mortífero contra Estêvão, por meio daqueles de quem o próprio Senhor Jesus disse que eram filhos de seu pai, o diabo:
Vós tendes por pai ao diabo e quereis satisfazer os desejos de vosso pai.
Ele foi homicida desde o princípio.
Aqui está ele, por meio deles — seus filhos —, demonstrando sua terrível hostilidade, sua fúria, seu ódio. Eles rangiam os dentes contra Estêvão, taparam os ouvidos e todos correram contra ele. Que retrato do inferno mobilizado contra o céu!
Sim, isso parece uma calamidade, uma tragédia, um fim? Então, os que foram dispersos por ocasião da morte de Estêvão foram por toda parte pregando a Palavra.
Mas os que andavam dispersos iam por toda parte, anunciando a palavra.
Jerusalém foi despedaçada, mas Jerusalém foi espalhada. É simplesmente maravilhoso. É quase romanesco.
Até os apóstolos estavam impondo limites às coisas. O pobre Tiago havia proposto seu acordo em torno do voto de nazireu, mantendo tudo dentro de certos limites. Eles mesmos não tinham intenção de derrubar o muro de Israel.
O Espírito Santo tinha essa intenção e precipitou os acontecimentos — primeiramente pela própria morte de Estêvão. Ele os espalhou por toda parte e, depois, por meio do próprio Pedro, levou a obra até Cesareia, à casa de Cornélio.
Pedro estava numa situação extremamente constrangedora ali, mas disse:
Quem era então eu, para que pudesse resistir a Deus?
O Espírito Santo tem essa questão em Suas mãos, apesar de tudo. O Senhor havia dito:
Até aos confins da terra.
Não apenas Jerusalém, não apenas acrescentando Samaria, nem mesmo toda a Judeia, mas até os confins da terra.
O Senhor havia dito isso. Eles demoravam a agir, e Satanás foi um instrumento, mas o Espírito Santo tinha a questão em Suas mãos. E assim aconteceu.
Vejam: Atos se divide em duas grandes seções. Até o capítulo 12, trata-se do estabelecimento da igreja na Palestina — Jerusalém e Judeia. Do capítulo 13 em diante, trata-se dos confins da terra, chegando até Roma.
Estes são os atos do Espírito Santo.
Agora, queridos amigos, vocês veem a aplicação, a implicação, o significado do Espírito Santo. Você nunca poderá ser meramente local, restrito à sua comunidade, estreito ou pequeno em sua perspectiva, visão, interesse e preocupação se for uma pessoa do Espírito.
Se você está sob o governo do Espírito Santo, seu interesse não pode ter um alcance menor nem um horizonte mais estreito do que a totalidade daquilo de que Deus constituiu Seu Filho herdeiro.
Se você realmente é assim, se nós realmente somos assim, as coisas acontecerão. Você não precisa tentar fazê-las acontecer nem organizar tudo para que aconteçam. Elas acontecerão.
O Senhor tem isso em Suas mãos. Tudo de que Ele precisa é ter-nos em Suas mãos, inteiramente em Suas mãos.
Não precisamos nos preocupar. Todos os nossos problemas, todas as nossas dificuldades, tudo o que nos causa aflição será resolvido quando o Espírito Santo realmente tiver pleno controle de tudo. A obra prosseguirá.
Por enquanto, vamos ficar por aqui.