Gostaria de estabelecer um fundamento para a nossa meditação na Palavra de Deus, indicando algumas passagens para lermos.
Primeiramente, a carta aos Gálatas, Gálatas 3:13-14:
Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-Se maldição por nós: porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro;
Para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios em Cristo Jesus; para que pela fé recebêssemos a promessa do Espírito.
Vamos abreviar essa declaração:
Cristo nos resgatou da maldição da lei, para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios em Cristo Jesus; para que pela fé recebêssemos a promessa do Espírito.
Gálatas 3:26:
Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus.
Gálatas 4:5-7:
Para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos.
E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de Seu Filho, que clama: Aba, Pai.
Assim que já não és mais servo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro por Deus.
A primeira carta de João, 1 João 3:1-2:
Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, para que fôssemos chamados filhos de Deus; e o somos.
Por isso o mundo não nos conhece, porque não O conheceu.
Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifesto o que havemos de ser.
Sabemos que, quando Ele Se manifestar, seremos semelhantes a Ele; porque assim como é O veremos.
Depois, a carta aos Romanos, Romanos 8:16:
O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus.
Romanos 8:21:
A própria criação também será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade dos filhos de Deus.
Romanos 9:8-9:
Não são os filhos da carne que são filhos de Deus; mas os filhos da promessa são contados como descendência.
Porque a palavra da promessa é esta: Por este tempo virei, e Sara terá um filho.
Às vezes, é útil declarar, logo de início, precisamente aquilo em que vamos pensar e com que vamos nos ocupar. Não por ser um assunto apropriado para esta época, mas porque, creio eu, o Senhor nos conduziu assim, vamos nos ocupar com o grande momento decisivo de Pentecostes e com o imenso significado do Espírito Santo.
Seria difícil enfatizar demais a importância do Espírito Santo. Temos recebido tanto, talvez saibamos tanto, que a dimensão desse assunto pode deixar de nos impressionar como deveria a cada nova lembrança.
Mas precisamos, talvez tanto quanto de qualquer outra coisa, de um senso de novidade em tudo aquilo com que estamos tão familiarizados. Há uma alegria particular, singular, que surge quando percebemos algo novo em cenários antigos e familiares.
Imagino que muitos de vocês saibam o que quero dizer. Podemos estar muito familiarizados com certos lugares, com certas relações. Talvez os conheçamos há toda a vida, ou há muitos anos.
Então levamos alguém que nunca os viu antes — levamos um amigo — e, enquanto mostramos isto e aquilo, descrevemos isto e aquilo, contamos a história disto e daquilo e vemos o frescor da apreciação desse amigo, como aquilo que é antigo se torna novo para nós!
E começamos a enxergar coisas que nunca havíamos visto, ao mostrá-las sob a inspiração do prazer que ele encontra em algo inteiramente novo. Isso é verdade, não é?
Alguns de nós já percorremos determinado caminho muitas e muitas vezes, e então levamos alguém que nunca passou por ali. Diante de sua alegria e satisfação, ou quase de seu êxtase, ficamos surpresos — talvez um pouco envergonhados — por nunca termos visto aquilo dessa maneira, ou por aquilo ter perdido seu verdadeiro encanto para nós. E, no entanto, é algo tão antigo.
Vocês não sentem, queridos amigos, que precisamos recuperar algo assim em relação às coisas familiares da Palavra de Deus?
Deixem-me colocar assim: suponhamos que vocês e eu não conhecêssemos absolutamente nada do cristianismo e da Bíblia, e estivéssemos realmente muito desejosos de conhecer o significado do cristianismo e o significado da Bíblia — que estivéssemos de fato interessados em saber —, a ponto de nos sentarmos com toda a diligência, seriedade e atenção, e começarmos a ler o Novo Testamento.
Aqui vai um parêntese: posso sugerir que uma coisa muito útil é tentar esquecer que vocês já o conhecem e imaginar que nunca o leram antes? Aproximem-se dele como se fosse a primeira vez. Experimentem; vocês descobrirão que há um valor real nisso.
Bem, supondo que vocês estivessem realmente fazendo isso pela primeira vez, o que acham que chamaria sua atenção, talvez mais do que qualquer outra coisa?
Vocês pegariam esse Novo Testamento, leriam os Evangelhos com expectativa e cuidado, se veriam envolvidos em toda aquela vida e movimento tão vívidos do livro de Atos, e depois avançariam pelo restante — as cartas e a consumação —, procurando obter uma impressão nítida. Qual acham que seria essa impressão?
Sugiro a vocês, queridos amigos, que seria esta: este livro trata inteiramente de uma Pessoa. Essa Pessoa Se chama Jesus.
Jesus viveu na terra por algum tempo e depois foi morto. Mas esse livro declara, por toda parte, que Deus O ressuscitou dentre os mortos. Essa é a cena que se destaca em toda parte: Deus O ressuscitou dentre os mortos.
Mas isso não é tudo. Esse livro está cheio de vida porque a ressurreição de Jesus dentre os mortos se tornou uma experiência viva nas pessoas envolvidas, pelo poder do Espírito de Deus.
Vocês concordam que isso seria o que mais os impressionaria, se não conhecessem a história, se não conhecessem o livro? Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos, e o Espírito de Deus tornou isso uma realidade viva na vida de toda uma multidão — uma multidão cada vez maior — de homens e mulheres.
Para eles, o Espírito Santo não era um tema e um assunto, uma doutrina e uma verdade a serem discutidos e debatidos, mas uma experiência: a experiência de Jesus estar vivo depois de ter morrido.
Quando vocês realmente põem o dedo nisso — e posso ver que isso causa muito pouca impressão em vocês; não lhes parece algo tão maravilhoso, porque estão muito familiarizados com isso —, aí está. Ao porem o dedo nisso, vocês tocaram num segredo fundamental: o maravilhoso significado do Espírito Santo.
O cristianismo está edificado sobre estas duas coisas: Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos, e o Espírito Santo torna isso real na vida dos crentes. Jesus ressuscitado; o Espírito Santo concedido: dois grandes fundamentos do cristianismo.
Mas isso nos leva a um campo muito amplo. Vocês verão que há nisso um aspecto voltado para o passado: o Espírito Santo lança plena luz sobre Jesus, desde Seu nascimento até Sua cruz, e explica tudo em Sua vida.
Vocês nunca desfrutarão do benefício e do valor da vida do Senhor Jesus, desde Seu nascimento até Sua cruz, sem que o Espírito Santo a interprete, a explique e a torne viva. Terão apenas uma história, um pouco de história e biografia. Não receberão luz daqueles anos e de tudo o que neles aconteceu até que o Espírito Santo tome a encarnação, o andar, o ensino, a atuação e a morte de Jesus, e os torne vivos.
Precisamos do Espírito Santo. Ele é indispensável para compreendermos a vinda do Senhor Jesus e Sua presença aqui nesta terra.
Agora, considerem um fator que abrange tudo isso: por que Ele veio? Por que Ele veio? Por que esteve aqui? Para que viveu, trabalhou, ensinou e morreu?
Por uma única coisa. Vocês poderiam responder de muitas maneiras, mas a única coisa que abrangia tudo era trazer o homem de volta a uma união viva e consciente com Deus.
Isso resume todo o significado da vida do Senhor Jesus nesta terra e de Sua morte. Repito: trazer o homem a uma união viva e consciente com Deus.
Vocês reconhecem que esta é a característica do cristianismo que o distingue de todas as outras religiões: uma união e comunhão viva e consciente com Deus?
Mas, se isso é verdade — se foi para isso que Ele veio, viveu, trabalhou, ensinou e morreu —, tudo foi em vão até que o Espírito Santo viesse e tornasse isso real e vivo. Ele veio em vão, viveu em vão, ensinou em vão, andou em vão, morreu em vão, até que o Espírito Santo viesse.
Por isso, Ele atribui esta tremenda importância ao Espírito Santo:
Convém-vos que Eu vá: porque, se Eu não for, o Consolador não virá a vós; o Espírito da verdade.
O significado da vida de Cristo não se efetiva sem a dádiva e a habitação do Espírito Santo. E a primeira coisa que o Espírito Santo faz é tornar imediatamente real tudo aquilo para o qual Cristo veio.
O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus.
Mas isso não significa um relacionamento vivo e consciente com Deus? O que significa? Ele próprio testifica. Aí está.
Todo o significado da vinda de Cristo se concretiza imediatamente quando recebemos o Espírito Santo — ou começa a se concretizar. Ele assume tudo isso e o torna real.
Em nossas leituras desta tarde, destacamos uma palavra. Espero que vocês a tenham destacado enquanto líamos: o fator comum de tudo o que estávamos lendo, de todas aquelas passagens. Há muitas outras que poderiam ser acrescentadas.
Na declaração de João, por exemplo:
Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, para que fôssemos chamados filhos de Deus.
Filhos de Deus. Agora somos filhos de Deus.
E vocês sabem que uma declaração fundamental acerca da vinda do Senhor Jesus a este mundo é que, mediante a fé Nele, crendo Nele, teríamos o direito de ser chamados filhos de Deus — o direito de ser chamados assim. Foi para isso que Ele veio.
Foi para isso que Ele veio: para constituir esta família celestial, espiritual — filhos de Deus. Esse é o objetivo em vista.
Agora, tendo acabado de fazer essa declaração, queridos amigos, vamos permitir que o livro de Atos, e depois o Espírito Santo no dia de Pentecostes, nos levem para um passado muito distante.
Vocês sabem que a Bíblia é um livro de crises — isto é, de pontos de virada que apresentam características distintas. As palavras “crise” e “crítico” vêm da mesma raiz, e o crítico é alguém que examina um assunto em determinado ponto e indica as diferenças, como elas são vistas e interpretadas, para que sejam percebidas naquele ponto.
E isso é uma crise. É um ponto a que se chega no qual as coisas vão mudar, e haverá uma diferença. Vocês verão uma diferença entre o que foi e o que será.
Ora, a Bíblia é um livro de crises. Há quatro grandes momentos decisivos na Bíblia, com muitos outros menores entre eles.
O primeiro grande momento decisivo é o da criação. De fato, foi uma crise. Foi a intervenção de Deus em relação ao propósito — a reação de Deus à vaidade, ao que é vazio, àquilo que não tem propósito nem significado, que não serve a nenhum fim real.
Ora, a terra era sem forma e vazia. Deus interveio, e isso foi uma crise; e a diferença, é claro, é bastante evidente.
O segundo grande momento decisivo é o da redenção: Deus intervindo para recuperar.
O terceiro momento decisivo foi o de Pentecostes: a intervenção da plenitude espiritual, em contraste com figuras, representações e fragmentos; agora, para trazer o que é real e pleno.
A palavra plenitude está sempre associada ao Espírito Santo. Por meio de Pentecostes, o céu intervém para trazer a plenitude espiritual. Eu poderia me estender sobre isso. Sem dúvida, muitas coisas relacionadas ao Espírito Santo vêm à mente de vocês se eu apenas mencionar o número sete associado ao Espírito. Vocês sabem que ele significa plenitude espiritual: uma grande intervenção, plenitude celestial, no dia de Pentecostes.
Então, o quarto grande momento decisivo, é claro, é o da Sua volta: a intervenção para a restauração e a restituição universais. Há muitos aspectos, mas é isso que ela representa, e é por esse momento decisivo que esperamos.
Agora, observem: em cada um desses grandes momentos decisivos, o Espírito Santo está muito claramente em evidência.
O Espírito de Deus pairava sobre a face do abismo e era o agente e a força da criação. Tudo o que diz respeito ao momento decisivo da redenção está nas mãos do Espírito Santo. O Redentor nasce do Espírito. O Redentor é ungido pelo Espírito. O Redentor ofereceu-Se sem mácula a Deus pelo Espírito eterno. Ao longo de toda a obra da redenção, o Espírito Santo foi a força, o agente, o guardião.
É evidente que o terceiro grande momento decisivo, Pentecostes, estava nas mãos do Espírito Santo. Naquele ponto, Ele assumiu tudo. O próprio Senhor Jesus estipulou de maneira muito, muito clara que nada deveria ser feito — nem mesmo uma tentativa de pregar — até que o Espírito viesse.
Ele deu uma ordem. Lucas diz:
Depois de ter dado mandamentos.
Qual foi Sua ordem?
Esperai até que sejais revestidos.
Essa era a ordem: nenhum movimento, nenhuma tentativa de fazer coisa alguma, até que o Espírito Santo viesse. Então Ele assumiu todo o programa.
Será menor Sua participação no momento decisivo final da volta de Cristo? Não, queridos amigos; será simplesmente a consumação da obra do Espírito nesta era.
Então Ele terá realizado Sua obra. Terá feito nascer os filhos para sua manifestação. Terá efetuado seu crescimento e aperfeiçoamento espirituais. Como o servo de Abraão, Ele trará a noiva e a apresentará ao Noivo.
Por isso, o final do livro de Apocalipse diz:
O Espírito e a noiva dizem: Vem.
Ele está em evidência em todas as relações, ao longo de todo o desenvolvimento do propósito divino.
Mas, depois de termos dito isso sobre os quatro grandes momentos decisivos e os muitos menores entre eles, o que permanece em primeiro plano o tempo todo?
Há muitas outras inteligências e seres criados ao fundo, observando, às vezes atuando como agentes e instrumentos nesse grande drama. Mas, em primeiro plano, ou bem no centro do palco, está uma criação chamada homem: uma criação única, uma criação particular, a coroa da criação.
Ele está ali, no centro de toda a atenção, interesse e atividade ao longo de todas as eras. Ele prende a atenção do céu. De um ponto de vista, a Bíblia é a história do interesse do céu pelo homem — da preocupação do céu com o homem: um interesse ativo, um grande interesse.
De tempos em tempos, vemos o céu e os agentes do céu intervindo em favor do homem. Esses são os episódios. É uma grande história: o homem ali, no centro do palco, e todo o céu observando, todo o céu interessado, todo o céu em atividade.
Percorram novamente a Bíblia com esse pensamento em mente. Deus criou uma ordem de seres chamada homem. Não há outra ordem chamada homem. Desde o princípio, Deus é visto como o centro do céu, ocupado com o homem ao longo de toda a história.
E todo o céu participa com Deus desse interesse: anjos, arcanjos e conselhos celestiais, todos estão interessados no homem. Ele prende a atenção do céu.
É uma grande, uma grande declaração, aquela do escritor da carta aos Hebreus:
Não foi aos anjos que Ele sujeitou o mundo vindouro.
Mas alguém, em certo lugar, disse:
Que é o homem, para que Te lembres dele?
Não aos anjos, mas ao homem. O céu está interessado.
E todo o inferno está concentrado nessa ordem particular da criação. O homem prende a atenção de todo o sistema do mal. Ele está concentrado no homem.
É um reino, mas é um reino dividido. Bem, disso nós nos lembramos: o reino de Satanás é um reino dividido, dividido em si mesmo. Jesus disse que ele era dividido. Ele não colocou um “se” nisso. Ele disse:
Um reino dividido contra si mesmo; uma casa dividida contra si mesma.
E vocês podem ver como, de maneira contraditória, esse reino do mal atua em relação ao homem. Por um lado, dedica-se com tamanha aplicação, determinação e sutileza a degradar o homem, a torná-lo menor do que realmente é — a rebaixá-lo, a desonrá-lo.
A evolução pode ter esse efeito, roubando do homem a dignidade que ele possui na mente e no pensamento de Deus.
Toda a terrível história da guerra — o que é ela? O que é, senão o resultado da perda do senso da sacralidade da vida humana, da sacralidade da humanidade? Os homens se tornam alimento para a espada e o canhão.
Vejam: onde o mal é mais proeminente e Deus é mais rejeitado, a vida humana tem menos valor: a liquidação do homem. Ela não importa — tamanha é a desvalorização da vida humana.
Degradar, desonrar e desvalorizar essa grande criação, com o destino que lhe está vinculado, é um sinal da atividade dessa casa dividida.
Por outro lado, em sua contradição, esse reino procura fazer do homem sem Deus algo maior do que ele é, e, sem Deus, algo maior do que corresponde à verdade sobre ele.
Aí vocês encontram tudo o que produz presunção, autossuficiência, arrogância — o homem arrogando para si direitos, capacidades, autoridade e independência: toda uma série de coisas para fazer do homem, sem Deus, algo maior do que ele realmente é sem Deus.
A destruição do homem, queridos amigos — a destruição do homem espiritual, moral e, por fim, fisicamente — é o objetivo desse grande sistema de maldade.
Deus tem um grande juízo reservado, diz a Palavra, para aqueles que destroem — aqueles que destroem Sua criação.
Agora, o que tudo isso tem a ver com o Espírito Santo? Bem, nunca poderemos compreender Pentecostes, o advento do Espírito Santo, até reconhecermos que é pela vinda do Espírito Santo, e somente assim, que Deus obtém o homem que sempre pretendeu ter.
A intenção original na criação do homem era que ele fosse um filho de Deus, que os homens se tornassem filhos de Deus. Paulo diz:
Predestinados para a adoção de filhos, para serem conformes à imagem de Seu Filho.
Portanto, Pentecostes nos leva de volta ao pensamento e ao propósito originais de Deus na criação do homem, e os traz ao presente.
Assim, quando vocês e eu, ou qualquer homem ou mulher que crê, recebemos o Espírito Santo em nosso interior, tudo o que Deus pretendia na criação começa a acontecer e entra na primeira fase de sua realização. Isso jamais poderia ter acontecido antes.
E vocês podem ver, como talvez veremos mais adiante, à medida que prosseguirmos, a tremenda mudança no tipo de pessoa que resultou do dia de Pentecostes.
Vocês não vão me dizer que aqueles homens e mulheres antes de Pentecostes — aqueles tão intimamente associados ao Senhor Jesus em Sua obra — correspondiam ao pensamento original de Deus. Mas observem agora: o Espírito Santo veio sobre eles e para dentro deles. São criaturas diferentes. Poderíamos dizer que pertencem a uma ordem diferente de seres. A mudança é tão grande em tantos aspectos.
Passaram de um reino para outro. Aqui, de fato, estão as manifestações da filiação, porque o próprio Filho, pelo Espírito de filiação, entrou neles.
Repito: não podemos compreender o significado de Pentecostes até reconhecermos a intenção de Deus ao criar o homem. Assim que reconhecemos isso, vemos a chave para a vinda do Espírito Santo.
Tudo vinha apontando para isso nas intervenções e atividades do Espírito Santo ao longo da antiga dispensação. Há cerca de oitenta e oito referências diretas ao Espírito Santo no Antigo Testamento. Vocês percebem seu caráter parcial, fragmentário, seu simbolismo, suas representações? Elas apontam para algo adiante.
Agora vocês percebem algo mais naquele trecho de Gálatas?
Para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios em Cristo Jesus; para que pela fé recebêssemos a promessa do Espírito.
A promessa a Abraão? Qual era a promessa a Abraão? A filiação universal em Jesus Cristo, não era?
Ah, há coisas tremendas na carta aos Gálatas. A filiação universal pela fé em Jesus Cristo. Todos filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo. Era algo universal — as estrelas do céu, a areia à beira-mar.
Mas Paulo concentra tudo isso e diz:
A descendência não são muitas descendências; é uma só descendência. É Cristo.
A promessa a Abraão era a filiação em Jesus Cristo.
E agora, diz o apóstolo, isso se concretiza pela dádiva do Espírito Santo:
Para que pela fé recebêssemos a promessa do Espírito.
Este universo será, por fim, povoado por filhos de Deus. A criação, gemendo e sofrendo dores de parto, sujeita à vaidade, aguarda a manifestação dos filhos de Deus — para ser povoada pelos filhos de Deus.
Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, para que fôssemos chamados filhos de Deus; e o somos.
Ainda não é manifesto o que havemos de ser; mas sabemos que, quando Ele Se manifestar, seremos semelhantes a Ele.
Isso é João. E Paulo entra justamente aí e diz:
Sim, predestinados para serem conformes à Sua imagem — à imagem de Seu Filho.
Seremos semelhantes a Ele.
A consumação da obra do Espírito está em filhos conformados à imagem do Filho de Deus. É isso que Ele está fazendo agora: trazendo os filhos, fazendo-os nascer, tudo pelo Espírito; formando-os como filhos.
Deus vos trata como filhos.
Aperfeiçoando a filiação.
Eu gostaria muito, queridos amigos, que isso chegasse a vocês com a devida força, que vocês realmente se apoderassem disso. Não é apenas ensino e verdade. É a coisa mais maravilhosa que já foi revelada no universo de Deus.
Isso é graça. Isso é misericórdia. Isso é poder. Isso é sabedoria. Tudo o que é onipotente, infinitamente sábio, onisciente e pleno de graça está concentrado nisto: conduzir muitos filhos à glória.
Isso ocupa o centro do palco deste universo.
Daqui a pouco, direi algo mais sobre isso de outro ângulo. Mas, nesta tarde, queremos apenas ter em vista o objetivo — o grande significado de Pentecostes.
Ah, como temos limitado Pentecostes! Como temos colocado a ênfase no lugar errado! Sim, com a melhor das intenções, percebendo a grande importância do Espírito Santo — percebendo corretamente essa grande importância —, temos colocado toda a nossa ênfase num só lugar, inteiramente em certas linhas exclusivas.
Mas todas as linhas, toda a ênfase, convergem aqui: o Espírito Santo de Deus, desde a criação até a consumação, está ocupado com uma única coisa — formar para Deus uma família de filhos conformados à imagem de Seu Filho.
Isso explica tudo, e todo o Seu trato conosco. Que o Senhor grave profundamente esse objetivo em nosso coração.