No Evangelho de João 3:14-15:
E, como Moisés levantou a serpente no deserto,
assim importa que o Filho do Homem seja levantado;
para que todo aquele que crê tenha Nele a vida eterna.
João 8:28:
Disse, pois, Jesus: Quando levantardes o Filho do Homem, então sabereis que Eu sou.
João 12:32:
E Eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a Mim mesmo.
Quando pensamos na cruz do Senhor Jesus Cristo, naturalmente, e com razão, associamos a ela toda a questão do pecado. Com razão, porque as Escrituras dizem tanto sobre Ele ter levado os nossos pecados em Seu corpo sobre o madeiro.
Mas a Palavra de Deus nos apresenta muitos aspectos do pecado. Diz-se que o pecado é muitas coisas. O pecado tem muitas formas; abrange um vasto campo; está relacionado a muitas questões; produz muitos efeitos diferentes.
Mas há algo que todos os aspectos do pecado têm em comum, tanto em sua natureza quanto em seu efeito. Esse elemento, ou fator, comum a todas as formas de pecado é seu efeito desagregador — seu efeito divisivo. Ele provoca divergência. Ele rompe a unidade da vida.
Toda forma de pecado faz isso. O pecado, seja qual for a maneira como se manifeste, produz esse resultado.
Na Bíblia, o pecado é considerado uma doença espiritual. Sabemos que a grande ilustração do pecado na Bíblia, talvez a principal, é a lepra.
E sabemos que o efeito da lepra é desintegrar o corpo, desfazer completamente sua unidade, destruir sua integridade. E é isso que Deus pensa a respeito do pecado. Ao escolher essa doença como a principal ilustração do efeito do pecado, Ele apontou precisamente para esse elemento mais profundo e universal.
E isso certamente nos mostra, com muita clareza, como a divisão, a ruptura, a desunião e a desintegração são terríveis aos olhos de Deus — como são contrárias à natureza divina, como são abomináveis à natureza divina.
Temos na Bíblia imagens vívidas do leproso: ele precisava ser colocado inteiramente de fora. E, se chegasse perto de outras pessoas, precisava cobrir a boca com um pano de linho e seguir seu caminho, clamando com sua voz cavernosa: “Imundo, imundo, imundo”.
Deus tomou isso como o grande símbolo do pecado e de seu efeito: desintegrar o indivíduo afetado e desintegrar a sociedade à qual ele pertence; romper a comunhão e romper os relacionamentos. Talvez não tenhamos imagem mais terrível do pensamento de Deus a respeito da divisão — o efeito do pecado.
Bem, esse é o contexto da cruz, entendem? Aqui temos Jesus dizendo que o efeito de ser levantado — isto é, de Sua cruz — seria reunir:
Atrairei todos a Mim mesmo.
A cruz destruiria esse fator do pecado que dispersa, divide e desagrega; ela o neutralizaria, inverteria o processo e voltaria a unir.
Quando for levantado, atrairei todos a Mim mesmo.
A cruz faria isso porque trataria da doença que desintegra — o pecado que divide.
Ah, essa afirmação que fiz é muito séria, muito forte — algo muito terrível. Falei assim porque, sabem, queridos amigos, tratamos essa questão com demasiada leviandade.
Ah, se eu falasse sobre o pecado — se falasse sem parar sobre o pecado —, é claro que todos vocês concordariam plenamente comigo e diriam: “Ah, vamos ficar o mais longe possível disso. Vamos fazer tudo o que pudermos para nos livrar disso”. Entendem? Quem quer ter alguma coisa a ver com o pecado? Quem quer o pecado? Todos diríamos: “Não”.
Mas Deus chama a divisão de pecado. E vocês têm certeza de que estamos tão desesperados com essa questão da divisão quanto estamos com aquilo que chamamos de pecado? Estamos levando isso tão a sério quanto aquilo que chamaríamos de pecado?
Mencionamos algumas coisas que são chamadas de pecado. Lemos as manchetes dos jornais e não continuamos a leitura, porque há algo em nós que se revolta contra o que está ali — coisas que até o mundo chama de pecado. Sentimos que fomos tocados pela impureza. Não queremos isso. Lamentamos profundamente que essas coisas sejam expostas dessa maneira, que encham os nossos jornais, que as pessoas queiram esse tipo de conteúdo. Nós o odiamos. Nós o abominamos.
Mas Deus diz que o fator comum ao pecado, em todas as suas formas, é este: ele separa; ele divide; ele desagrega; ele destrói; ele desintegra. E é esse efeito que Deus odeia — Ele o odeia profundamente.
Veremos daqui a pouco por que é assim. Mas aí está.
Voltando à cruz do Senhor Jesus, há uma palavra que sempre associamos à cruz e ao Seu sangue derramado nela, e essa palavra é expiação.
Consideramos Sua obra expiatória fundamental para a fé cristã. Dizemos que Sua morte expiatória é um dos principais pilares da verdade cristã. Nunca poderemos dar importância demais a isso. Mas o que queremos dizer? O que queremos dizer?
Bem, suponho que queremos dizer que Ele expiou o pecado do homem. Isso seria inteiramente verdadeiro e correto. Queridos amigos, porém, essa é apenas uma parte muito pequena do significado.
A própria palavra inglesa nos dá o significado pleno: atonement — at-one-ment, tornar um, colocar em unidade. Ele expiou o pecado. Graças a Deus por isso. Portanto, nosso pecado foi expiado; não precisamos expiar o nosso pecado. Isso é muito bendito, muito precioso. Vamos nos apegar a essa verdade.
Mas isso pode nos levar apenas até certo ponto. De fato, nos leva até certo ponto e nos coloca numa determinada posição que chamamos de justificação — justiça pela fé.
Mas a expiação significa unidade. Significa que esse fator comum e universal de separação, em todas as suas direções e aspectos, foi tratado na cruz, e que o efeito universal da cruz é colocar em unidade — tornar um.
A cruz é, portanto, o grande poder reunificador, ou unificador, de Deus.
E não reconhecer isso, e violar isso, é tornar vão todo o significado do Calvário. Isso é terrível, não é? É terrível.
Aos olhos de Deus, é isso que a desunião significa — é isso que a divisão significa: tornar sem efeito a cruz de nosso Senhor Jesus.
Se isso é verdade — e é a própria palavra Dele, Sua própria palavra: “Quando for levantado, atrairei todos a Mim mesmo” —, se isso é verdade, e não encontramos nosso centro e nossa unidade em Cristo, a cruz não realizou sua obra.
A cruz, como dissemos, é, portanto, o grande poder de unificação.
Agora, isso nos leva de volta a tudo o que tem ocupado nossa atenção nestas reuniões. Um dos grandes frutos do pecado neste universo, que poluiu, corrompeu e contaminou todo este universo, é aquela obra desintegradora dos poderes do mal desde o princípio, fazendo dele um universo inteiramente atravessado por conflitos e contendas, divisão e tudo o que pertence a isso — uma criação desintegrada e despedaçada.
Apesar de todas as tentativas do homem ao longo dos séculos, isso nunca, nunca poderá ser reparado. Todos os maiores esforços, instituições e organizações humanas para combater isso acabam se tornando inteiramente risíveis.
As Nações Unidas — que nome inadequado. As Nações Unidas, cuja carta existe para proteger os povos fracos: hoje, o Tibete faz da Carta das Nações Unidas motivo de escárnio, assim como aconteceu com a antiga Liga das Nações.
Não estou entrando em questões políticas; estou apenas ilustrando. As maiores instituições e organizações humanas acabam se tornando risíveis diante desse imenso poder de desintegração que existe no universo. Há forças em ação, e tudo o que se faz para desfazer sua natureza e sua obra fracassa.
Isso entrou no princípio. Cresceu e se tornou universal, e hoje, mais do que nunca, está evidente por toda parte. Os homens estão descobrindo que é inútil tentar reparar esse estrago. Um após outro, líderes e países sucumbem diante dessa força — quebrados, quebrados. Ela é grande demais.
Há apenas uma coisa que pode enfrentar isso e resolver isso, e que de fato o faz — pode fazê-lo e o faz quando lhe é dada oportunidade —, e essa coisa é a cruz do Senhor Jesus.
A primeira grande ruptura que veio com o pecado foi entre o céu e a terra. O céu e a terra não apenas se fecharam um para o outro, mas entraram em conflito um com o outro.
Não havia passagem — não havia passagem para o homem. O caminho para o céu está fechado. O homem, por natureza, não tem correspondência, comunhão, comunicação, nenhum caminho aberto da terra para o céu.
Até que a cruz entra em cena. E, com o Senhor Jesus levantado, a ligação é estabelecida novamente.
A um homem chamado Natanael, Ele disse:
Eis aqui um verdadeiro israelita, em quem não há dolo!
Bem, na verdade: “Eis aqui um israelita em quem não há Jacó”. Vocês se lembram de Jacó.
E então Ele continuou, dizendo a Natanael:
Na verdade, na verdade vos digo que vereis o céu aberto, e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem.
É exatamente o mesmo título, vejam, que Ele usa para Si mesmo: o Filho do Homem, levantado. Aquele Jacó foi tratado — o suplantador, o enganador, o homem que dividiu a família, o homem cuja presença, onde quer que estivesse, era um fator de desintegração. Ele não conseguia se dar bem com ninguém; ninguém conseguia se dar bem com ele. Era isso que ele representava no mundo enquanto era Jacó — sempre causando perturbação, inquieto, insatisfeito, egoísta, astuto.
Jacó é tratado; Israel aparece. A visão, ou o sonho, que ele teve agora encontra a possibilidade de realização. O céu pode descer até ele, abençoá-lo, conduzi-lo em seu caminho e cumprir toda a promessa e a aliança. Finalmente, ele chegou a conhecer o significado da comunicação entre o céu e a terra — a escada erguida.
Então Jesus aplicou tudo isso a Si mesmo e disse a Natanael: “Está chegando, Natanael, um novo e verdadeiro israelita que entrará em tudo isso. Você verá os céus abertos e verá os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem”.
Era apenas uma maneira figurada de dizer: “Está chegando, Natanael, um tempo em que esse caminho fechado entre o céu e a terra será aberto novamente, em que essa grande ruptura e esse conflito entre o céu e a terra terão sido sanados, e ambos serão unidos pelo Filho do Homem”.
E Eu, quando for levantado, atrairei todos a Mim mesmo.
O céu está novamente aberto para todos os homens. A divisão desapareceu; o pecado foi tratado.
Esse efeito extraordinário — esse efeito terrível — do pecado, de separar o céu e a terra, fechando um para o outro, é remediado na cruz do Senhor Jesus.
Não preciso lembrar vocês de que, na Bíblia, repetidas vezes encontramos um céu fechado. Um céu fechado.
Basta destacar uma dessas muitas ocasiões: a vida de Elias. Por causa do pecado de Israel, Elias disse:
Vive o Senhor, perante Quem estou, que nestes anos nem orvalho nem chuva haverá, senão segundo a minha palavra.
E os céus foram fechados. Lemos essa história. É uma história muito terrível: aquele céu fechado, aquela bênção retida, aquela falta de comunicação — uma história terrível.
Vejam, um céu fechado, fosse isso literal no Antigo Testamento ou não, é sempre a marca do juízo pelo pecado: a divisão entre o céu e a terra, um juízo pelo pecado.
Na cruz do Senhor Jesus, esse juízo é tomado por Ele sobre Si mesmo, e o céu e a terra são unidos novamente.
E essa é uma maravilhosa declaração da verdade. Vocês e eu, aqui nesta noite — suponho que mais de noventa por cento dos presentes —, sabemos por experiência como isso é verdadeiro. Qual é a nossa primeira percepção quando recebemos o Senhor Jesus em nossa vida, em nosso coração? O céu não está tão longe quanto pensávamos.
O céu não está fechado como sabíamos que estava. Digam como quiserem: o céu está aberto. A experiência de todo filho de Deus verdadeiramente nascido de novo é que o céu desceu para saudar sua alma. É um céu aberto.
O pecado, que separava o céu e a terra, foi tratado, e a unidade entre o céu e a terra foi restabelecida.
E não apenas isso: uma unidade entre o homem e o homem. Vimos anteriormente como, com a entrada do pecado, o homem foi colocado contra o homem. Isso começou na família e foi se espalhando, se espalhando — essa ruptura, essa contenda —, até se tornar universal.
O homem contra o homem em seu coração: ciúmes, inveja, cobiça, orgulho — ah, a prole ímpia desse pecado, a divisão.
Quando for levantado, atrairei todos a Mim mesmo.
Sanar essa ruptura entre o homem e o homem; unir novamente o homem ao homem.
Já nos referimos a isso ontem à noite, mas vale a pena mencionar novamente. Vocês se lembram das palavras do Senhor a Jó? Jó havia esgotado tudo o que podia dizer, tentando justificar-se, colocar-se em situação correta diante de Deus e dos homens. Tudo havia desmoronado, fracassado. Ele não estava conseguindo avançar muito com aquilo.
Entre ele e os outros homens, não havia restauração, não havia comunhão. Todo esforço para alcançar comunhão, acertar as coisas, encontrar uma base de unidade fracassava. Todos eles — todos aqueles homens — haviam tentado isso, talvez por semanas ou meses. Haviam tentado encontrar um terreno comum no qual todos concordassem, e tudo fracassou.
E, quando todos fracassaram e chegaram à última palavra que podiam dizer, o Senhor interveio. O Senhor disse a Jó:
Quem é este que escurece o conselho
com palavras sem conhecimento?
Onde estavas tu, quando Eu fundava a terra?
Quando as estrelas da alva juntas alegremente cantavam,
e todos os filhos de Deus rejubilavam?
Que imagem. Que descrição. Antes que tudo isso entrasse — tudo isso, Jó, que você tem tentado superar —, havia um estado de bela harmonia. As estrelas da alva cantavam, cantavam com alegria, cantavam em uníssono ou em harmonia. Não havia nenhuma nota discordante. Nenhuma nota discordante naquele tempo. Era uma unidade, um cântico. Era assim antes.
Dali, saltamos para Apocalipse 7:9-10:
Depois destas coisas, olhei, e eis aqui uma grande multidão, a qual ninguém podia contar, de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas, que estavam diante do trono e perante o Cordeiro, trajando vestes brancas e com palmas nas suas mãos;
e clamavam com grande voz, dizendo: Salvação ao nosso Deus, Que está assentado no trono, e ao Cordeiro.
Aqui, no fim, assim como no princípio, há um grande cântico. Seja em uníssono ou em harmonia, não importa; não há nenhuma nota discordante. Ela desapareceu — aquela nota estranha que entrou e estragou a harmonia da criação e dos relacionamentos humanos. Ela foi eliminada, e as coisas agora são como eram — talvez melhores do que eram antes de tudo isso entrar.
Agora, aqui temos os dois cânticos: o cântico de uma criação em harmonia, sem pecado e sem qualquer divisão ou discórdia; e o cântico da redenção, sem nenhuma nota estranha, todos cantando juntos. Todos cantando juntos. Por quê? É claro: o ponto central é o Cordeiro.
E Eu, quando for levantado, atrairei todos a Mim mesmo.
De todas as nações, tribos e línguas.
Mas qual era a nota discordante? Se pudermos identificar precisamente essa nota, teremos chegado ao coração de toda a questão. Se pudermos ver qual foi aquela nota estranha, alheia, que entrou — a oitava divina estava sendo tocada e, de repente, entrou outro som que não pertencia a ela de modo algum, e desarmonizou tudo, estragou tudo —, qual era essa nota?
Podemos identificar essa nota. Ela nos é descrita. Vou apresentá-la a vocês. Está nas profecias de Isaías 14:12-14:
Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filha da alva!
Como foste lançado por terra, tu que prostravas as nações!
E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu,
acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono;
e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do norte;
subirei acima das alturas das nuvens;
e serei semelhante ao Altíssimo.
Qual é a nota discordante? É esse espírito — uma vez, duas vezes, do começo ao fim —: “Eu farei, eu farei”. É isso. O coração de tudo: “Eu quero”, em oposição à vontade de Deus.
É sempre isso que causa o mal. É sempre isso que está por trás da divisão, da ruptura. Em algum lugar, de alguma maneira, se pudéssemos sondar até o âmago da raiz, encontraríamos algo assim: “Eu”, “eu”. A Bíblia inteira mostra isso.
Mas, queridos amigos, isto é maravilhoso. Em oposição àquele “Eu quero, eu quero” — “tu dizias: eu” —, temos a cruz.
E temos a maravilhosa descrição Daquele Que foi à cruz:
Sendo em forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus algo a que Se apegar;
mas esvaziou-Se a Si mesmo,
tomando a forma de servo.
E, por fim, Ele Se tornou obediente até à morte, sim, à morte de cruz. E, ao aproximar-Se dela, na noite escura que a precedeu, no jardim, Ele disse:
Não se faça a Minha vontade, mas a Tua.
Tu dizias: “Eu quero”. Ele disse: “Não a Minha vontade”. A cruz do Senhor Jesus não foi apenas a eliminação, a aniquilação, daquela nota estranha que traz toda a discórdia para todos os relacionamentos. “Eu, eu, eu” — isso foi morto na cruz, na pessoa do Senhor Jesus.
Ponham isso para fora. Ah, se pudéssemos tirar isso de nós mesmos e de todos os outros, o cântico começaria imediatamente.
Sabemos, ao percorrer este mundo e visitar todas as nações, que, quando encontramos os filhos de Deus — de toda e qualquer nação, língua ou povo —, todos cantamos o mesmo cântico. Temos algo que nos coloca em sintonia uns com os outros.
Observem bem: enquanto permanecemos sobre a base da cruz. Se passamos para outra base, descobrimos que isso se estraga. Mas, enquanto permanecemos juntos sobre a base de Cristo, temos uma comunhão maravilhosa. Isso está comprovado, está comprovado.
Não temos apenas a prova de que a grande ruptura entre o céu e a terra foi transposta, ou eliminada. Quando chegamos ao Senhor Jesus, sabemos que temos o céu aberto. Mas, ao viajar pelo mundo, sabemos que o efeito da cruz é ter criado uma maravilhosa unidade entre homens de todas as nações.
Tentem fazer isso sem a cruz. Vejam o que conseguem fazer.
Ah, os governos tentaram fazer isso com exércitos. Hoje estamos sofrendo dolorosamente sob a terrível vergonha e desonra, sob o fracasso de tentar vencer alguma hostilidade pela força. Não se pode eliminar isso do universo de Deus por meio de leis, nem expulsá-lo pela força.
Isso apenas aprofunda a malícia e fortalece o ódio, fazendo com que dure ainda mais. Essas feridas duram muito tempo. Tentaram isso ao longo dos séculos; não funciona. Mas introduzam nisso a cruz do Senhor Jesus — ela funciona.
Fundamentalmente, na essência, há algo que todos os crentes têm em comum e que os torna um. Enquanto permanecemos nessa base, isso é verdade, não é?
Bem, isso é elementar, eu sei. Mas é isso que Ele quis dizer:
Quando for levantado, atrairei.
Não afastarei. Não dispersarei. Não dividirei.
Atrairei todos a Mim mesmo.
Afinal, há um magnetismo na cruz do Senhor Jesus, não há?
O que tenho dito, é claro, traz consigo um grande desafio à vida do eu, não é? A vida do eu está por trás de nossas divisões.
Agora, levem isso a sério, queridos amigos. Vocês e eu — vocês farão, nesta noite, uma aliança com o Senhor neste lugar? Vocês e eu precisamos nos empenhar nessa batalha pela unidade. Precisamos decidir que, pela graça e pela ajuda de Deus, não deixaremos intocado nada que precise ser entregue à cruz.
Cristo crucifica Seus direitos nisso, ao vencer as divisões que encontramos entre nós e os outros. Isso precisa ser uma batalha desesperada — ou melhor, é uma batalha desesperada. Mas a cruz pode vencer nisso, desde que realize sua obra em nós.
Se ao menos aquela coisa em nós, o “eu”, fosse tratada — tão enganosa, tão enganosa. É claro, a outra pessoa está sempre errada; nós estamos sempre certos. E é justamente aí que o “eu” tem sua maior força.
Se nos humilhássemos e disséssemos: “É bem provável que, afinal, eu seja o responsável”, pelo menos abriríamos o caminho para essa convicção.
Se tudo o que disse nesta noite é verdadeiro quanto à atitude de Deus e à Sua interpretação do pecado, se isso é verdade, é algo muito terrível, não é? Mas o significado da cruz é algo muito grandioso.
Se queremos ser verdadeiramente companheiros da cruz de nosso Senhor Jesus, precisamos nos dedicar a isto: com Sua ajuda, não toleraremos nenhum tipo de divisão, exceto a divisão entre o que é de Deus e o que é do diabo.
Atrairei.
A cruz exerce uma atração, não é? Porque, vejam, a cruz é a grande revelação da misericórdia divina. E todos os homens precisam dela, e a maioria sabe que precisa.
Se conseguirmos apresentar-lhes a cruz corretamente, ela exercerá sua atração. Todos os homens precisam da misericórdia de Deus e sabem que precisam dela. Apresentemos Cristo crucificado como a grande revelação da misericórdia divina, da graça divina, e ela atrairá. Ela atrairá.
É a grande revelação de que Deus não está contra os homens, mas voltado para os homens — a favor dos homens. É a prova de que Deus me quer; Ele não está contra mim.
E não é essa uma necessidade universal, da qual a maioria dos homens tem consciência — saber de fato e poder crer que Deus é por nós, que Deus está do nosso lado, que Deus não está contra nós?
A primeira insinuação do diabo no jardim foi que Deus não estava realmente a favor do homem. Ele não estava realmente a seu favor. Ao proibi-lo de fazer aquilo, Ele estava, na verdade, contra seus interesses mais elevados. Uma insinuação terrível.
Vocês notaram os efeitos? Muitas das religiões mais influentes deste mundo colocam os homens numa condição de medo e pavor de Deus. Eles estão sempre tentando, de alguma maneira, por algum meio, acertar as contas com Deus — vencer aquilo em Deus que está contra eles. Apaziguamento, apaziguamento: essa é a palavra em todo esse terrível domínio, apaziguar Deus de alguma forma — um Deus que precisa ser apaziguado.
Sei que temos um evangelho melhor do que esse. Nosso Deus não precisa ser apaziguado. Ele é a favor do homem. Ele está voltado para os homens. Ele demonstrou isso na cruz. Seus braços estão estendidos para os homens. Sua grande palavra, por meio daqueles lábios humanos, é:
Vinde a Mim.
A cruz é a grande revelação de que Deus assumiu a responsabilidade por nós — por nós em nosso pecado e por tudo.
Ele precisava fazer isso. As pessoas ficam perplexas diante da cruz. Deus decidiu criar o homem; Ele assumiu riscos tremendos, e sabia disso. Porque, para ter um homem em conformidade com Sua própria vontade e Seu pensamento, Ele precisava lhe dar livre-arbítrio.
O homem jamais deveria ser forçado, coagido ou obrigado a seguir numa direção como uma máquina. O homem podia escolher. Todas as maiores coisas para Deus estão ligadas ao homem escolher, querer, desejar, preferir.
Assim, Deus assumiu o risco de lhe dar livre-arbítrio, sabendo exatamente como isso poderia se desenrolar — ou devemos dizer como isso se desenrolaria? Mas, vendo todas as terríveis consequências da responsabilidade que Ele mesmo assumiu ao criar o homem dessa maneira, o Cordeiro foi morto desde a fundação do mundo.
A cruz não é uma ideia posterior; é uma provisão eterna na mente de Deus — algo que já estava ali antes do pecado do homem —, de modo que, quando o homem usasse mal a grande responsabilidade de escolher que lhe fora confiada, e isso conduzisse a tudo isto, o remédio já estivesse disponível desde a eternidade.
A cruz é a grande prova de que Deus assumiu a responsabilidade não apenas por criar o homem, mas por todos os resultados de tê-lo criado. Isso é bom, sabem. É claro, isso é teologia, mas é um bom evangelho — um bom evangelho.
Vocês não se alegram por o próprio Senhor ter assumido a responsabilidade por vocês — por seu pecado e por vocês? Apenas venham à cruz do Senhor Jesus; é ali que vocês encontram Deus assumindo a responsabilidade por vocês.
Penso que essa provisão é tão grandiosa quanto a de podermos ter a resposta de uma boa consciência. Não é tremendo — uma boa consciência para com Deus?
A Bíblia diz:
A resposta de uma boa consciência para com Deus.
Quanto os homens fazem para conseguir isso.
Vejam, todo o sistema católico romano está edificado sobre isso: o sacerdote será a sua consciência; você não precisa se preocupar; tudo ficará bem com você. Apenas livre-se de toda preocupação; você não precisa carregá-la. O sacerdote será responsável por você.
Mas isso não resolve, não é? Simplesmente não resolve. Há algo falso nisso.
E o tremendo sucesso desse sistema, sua expansão pela terra, acontece porque os homens, em toda parte, querem uma boa consciência e querem que alguém assuma a responsabilidade por sua consciência e os livre de uma consciência culpada.
Tudo isso é uma deturpação. A verdade é que, no Calvário, em Cristo, Deus assumiu por nós a responsabilidade por tudo, e é ali que encontramos a base de uma boa consciência para com Deus.
Algo tremendo. O apóstolo fala de não haver mais consciência de pecado, usando a palavra “consciência” neste sentido: não haver mais uma consciência culpada. Maravilhoso — a cruz é exatamente isso.
A partir daí, poderíamos continuar, mas, queridos amigos, tudo isso se reúne numa só coisa: unidade com Deus, comunhão com Deus.
E a comunhão estabelecida entre Deus e nós, e entre nós e Deus, deve se espalhar cada vez mais pela família, por todos os nossos relacionamentos. Assim como o contrário se espalhou no princípio — a desintegração começou com um e se espalhou, cresceu, cresceu e cresceu —, a cruz inverte esse processo e põe as coisas em ordem no indivíduo; depois, espera-se que seu efeito se estenda a todos os relacionamentos.
Quando for levantado, atrairei todos a Mim mesmo.
Ah, como é imperfeita a minha tentativa de apresentar isso. Espero sinceramente que, por meio de tantas palavras, tantas palavras, e de explicações incapazes de expressar tudo, vocês tenham um vislumbre do grande significado da cruz e daquilo a que ela nos compromete: essa questão de nos empenharmos em guardar a unidade do Espírito.
A comunhão do Espírito Santo seja com todos nós.