Estamos prosseguindo na linha que cremos que o Senhor nos indicou para este momento. Como há pessoas que não estiveram conosco anteriormente, procurarei, da maneira mais breve possível, situá-las nesta reflexão e, então, avançar um pouco mais, conforme o Senhor nos capacitar.
Começamos com uma nova contemplação da grandeza de Cristo. Depois, passamos a recordar que tudo o que diz respeito à realização do grande propósito de Deus ao criar o homem, este mundo e o universo é uma questão de conhecer Deus em Cristo, porque conhecer Deus significa conhecer Cristo.
Cada aspecto e detalhe da vontade de Deus, do caminho de Deus e do propósito final de Deus para nós é uma questão de conhecer o Senhor Jesus. Todo progresso, toda vida, repousa sobre isso: conhecê-Lo — o conhecimento de Cristo.
A vida cristã deve ser uma vida de crescimento e progresso contínuos. Mas isso só acontece à medida que chegamos a conhecer, e continuamos conhecendo, o significado do Senhor Jesus.
Esse progresso não cessará quando deixarmos este mundo e quando o tempo der lugar à eternidade.
Do incremento do Seu governo e da paz não haverá fim.
— Isaías 9:7
A estagnação não é sinal de vida. A vida estará sempre se manifestando de formas novas e mais maravilhosas. Portanto, o conhecimento de Cristo, que no tempo e na eternidade será o segredo do crescimento e do progresso, continuará no céu. Será necessária a eternidade — não para esgotá-lo; seriam necessárias algumas eternidades para esgotar o conhecimento de Cristo —, mas para conhecer como, mesmo agora, em nosso mais elevado grau de conhecimento, não podemos conhecer.
Todo crescimento, progresso e frutificação repousam sobre esse conhecimento crescente do Senhor Jesus. Mas, visto que Ele é tão vasto, tão imenso, tão multifacetado, só podemos contemplá-Lo de um ponto de vista por vez. Precisamos nos mover ao Seu redor e vê-Lo de todos os ângulos.
Neste momento, estamos contemplando o Senhor Jesus de um desses muitos ângulos — de um ponto de vista. Este aspecto específico do Seu significado é que Ele, em Sua Pessoa e em Sua obra, está relacionado a uma ordem eterna e celestial.
Ele mesmo, em Sua maravilhosa e complexa Pessoa, é a própria personificação de todos os princípios e leis de uma grande ordem celestial. Quando tudo estiver conformado a Cristo e receber Dele o seu caráter, será um todo glorioso e harmonioso, aperfeiçoado em um só: tudo — não dois, ou três, ou dez mil, mas uma única e gloriosa unidade.
É isso que estamos procurando compreender neste momento: a relação de Cristo com essa ordem eterna e celestial.
Naturalmente, estabelecemos nosso fundamento na Palavra de Deus. Deixamos que isso chegasse até nós por meio de uma declaração maravilhosa do apóstolo Paulo: na plenitude dos tempos, Deus determinou reunir, ou reunir novamente, todas as coisas em Cristo.
Para a dispensação da plenitude dos tempos, reunir todas as coisas em Cristo;
As coisas nos céus e as coisas sobre a terra.
— Efésios 1:10
A própria palavra contém essa ideia de reunir novamente. Ela implica, se não declara, que houve uma ordem gloriosa em determinado momento, quando tudo era como Deus pretendia que fosse.
Quando as estrelas da alva juntas alegremente cantavam,
E todos os filhos de Deus rejubilavam.
— Jó 38:7
Isso implica que essa ordem foi perdida. No lugar daquela ordem, veio a desordem; e declara que ela será restaurada em Cristo. Esse é o grande significado do Senhor Jesus. Entendam, repetimos: Ele, pessoalmente, é a personificação disso, e Sua obra está relacionada a isso.
Isso nos levou ao ponto em que essa grande revelação se divide em quatro partes. Primeiro, Deus é o Deus de ordem. Avançaremos um pouco mais nisso nesta tarde, embora o assunto esteja inteiramente além de nossa capacidade de abrangê-lo; é tão grande, tão pleno.
Esse fato — Deus ser assim — é claramente revelado, primeiro, em Sua obra criadora, em Sua criação; segundo, nas grandes representações que temos em tipos e símbolos no Antigo Testamento; terceiro, em Sua obra redentora; e quarto, no ministério do Espírito Santo.
Em todas essas quatro maneiras, há uma revelação maravilhosa de que Deus é o Deus de ordem. Pensem, por um ou dois minutos, na primeira delas: a revelação na criação.
Embora, naturalmente, nos deparemos com tantas coisas neste mundo e no sistema atual que parecem ser desordem, desarranjo, discórdia e confusão — até mesmo na natureza —, ainda é possível discernir na natureza um maravilhoso sistema ordenado subjacente.
Isso é algo que, naturalmente, tem ocupado pessoas durante toda a vida e é uma maravilhosa fonte universal de instrução e fascínio. Aqui está um breve trecho de uma grande obra de um dos mais destacados biólogos. Ele escreve assim:
As multidões de organismos vivos não são criaturas dispostas ao acaso. Podem ser classificadas em batalhões e regimentos. Tampouco são criaturas isoladas, pois cada fio da vida está entrelaçado com outros em uma teia complexa. Esta é uma das verdades biológicas fundamentais: as correlações entre os organismos na teia da vida.
Nenhuma criatura vive ou morre para si mesma. Não há isolamento na natureza. Um organismo se vincula a outros e se torna dependente deles para a própria continuidade de sua espécie. Flores e insetos se ajustam como a mão à luva. Quando aprendemos algo sobre as intricadas relações de troca, oferta e procura, ação e reação entre plantas e animais, entre flores e insetos, começamos a vislumbrar uma vasta organização na criação.
Pois bem, considerem isso. Vale a pena. Vocês verão que essas poucas frases reúnem algo que poderia ser desenvolvido de maneira extraordinária. Procurem por toda parte.
Por trás desta criação há uma mente. Por trás desta criação há uma mente que ama ter as coisas devidamente ordenadas e reguladas. Por trás desta criação há um sistema espiritual perfeito. Deus é o Deus de ordem.
O que é verdadeiro na história natural se mostra verdadeiro em todos os outros campos. Deus organizou o ano em estações. Deus organizou a cooperação entre o céu e a terra; os corpos celestes governam os movimentos da lua, as marés e assim por diante. Não saberíamos onde parar se nos permitíssemos continuar nesse assunto.
Há um hino em nosso hinário suplementar que ainda nunca cantamos aqui: “O Vasto Firmamento nas Alturas”. Observem que a conclusão desse hino é: “Tudo isso declara uma mente divina”.
Se quiséssemos prosseguir nisso, não precisaríamos ir tão longe, até os corpos celestes ou até objetos fora de nós mesmos. Basta termos um pouco de conhecimento sobre nosso próprio corpo humano para vermos que o corpo humano saudável é um maravilhoso sistema de funções, princípios e elementos relacionados, dependentes, interdependentes e cooperativos.
Penso que qualquer pessoa que realmente tenha algum conhecimento do corpo humano deveria ser o maior adorador que existe e deveria se prostrar diante dessa maravilha. Poderíamos ficar inteiramente absorvidos apenas por seu poder de atração e fascínio, se dedicássemos nosso tempo a isso nesta tarde.
Mas aí está: a maravilhosa unidade na diversidade. Tudo fala desse princípio de ajuste como a mão à luva — uma coisa se encaixando em outra em perfeita harmonia e simetria.
Não fizemos mais do que declarar o fato de que, onde quer que vocês possam identificar a mão de Deus, antes que outra mão interfira — seja a mão do homem, seja a mão do diabo —, encontrarão essa bela harmonia, essa maravilhosa ordem.
Passando ao Antigo Testamento, quem está familiarizado com ele não precisa de provas exaustivas desse grande fato: as representações do pensamento de Deus no Antigo Testamento.
Começamos com Deus fazendo surgir ordem do caos. No início de tudo, Deus, que é o Deus de ordem, reage contra esse estado de caos, e Sua reação resulta em uma ordem maravilhosa, uma ordem bela, uma ordem perfeita.
Essa verdade de Deus fazer surgir ordem do caos parece ser um princípio em ação ao longo de todo o Antigo Testamento. Vocês o veem atuando em pessoas representativas.
Aqui, queridos amigos, estão a glória e a tragédia de Israel. Israel foi separado dentre as nações para ser a personificação e a manifestação de uma ordem celestial nesta terra. Essa é a glória de Israel. A tragédia de Israel é que Israel terminou em caos.
Contudo, aí está. Vocês os veem no Egito, e o que era verdadeiro na natureza era verdadeiro espiritual e moralmente acerca de Israel no Egito: caos, ausência de ordem, trevas, esterilidade, frustração, confusão, desesperança. Essa era a condição do povo no Egito.
Mas vejam esse povo em Êxodo. Êxodo é o livro da saída de tudo isso. Eles não são uma turba, uma multidão de refugiados saindo para o deserto. Estão ordenados em suas fileiras. Observem essas coisas ao lerem com atenção. Não, eles não são simplesmente uma multidão confusa e desordenada, correndo de qualquer maneira para sair do Egito. Vejam-nos marchando como um exército, na ordem que lhes foi determinada.
É ordem surgindo do caos. Vejam-nos no Sinai: Deus lhes deu Seu modelo para a vida nacional. Ninguém olha para uma dessas ilustrações de Israel reunido ao redor do tabernáculo sem perceber algo disso.
Não estou dizendo que, na realidade, tudo era tão nitidamente definido assim, mas não há dúvida quanto à primorosa disposição — à ordenação — das multidões em suas tribos. Ali estão: maravilhosa simetria, maravilhoso equilíbrio, maravilhosa disposição; as tribos sob seus próprios estandartes, em seus lugares especificamente designados, em relação àquele elemento central, o tabernáculo.
Depois, há a ordem do serviço. Êxodo é a saída do caos para a ordem, e ali está a ordem estabelecida no deserto. Levítico é o livro da ordenação do culto, e que sistema maravilhoso esse livro apresenta: a ordem do culto.
Não se trata apenas de Deus ter dito que isto e aquilo deveriam fazer parte dos sacrifícios, das ofertas e das festas. Vocês perceberão uma sequência maravilhosa, uma sequência ordenada, na qual a necessidade é atendida em cada ponto. É uma ordem progressiva: o desenvolvimento do culto, da aproximação de Deus, tudo sob um governo especificado e detalhado. Que livro maravilhoso é esse livro de Levítico.
Avancem para o livro de Números, e o próprio nome do livro indica do que ele trata. Esse é o livro das marchas do povo pelo deserto. Tudo é contado; tudo é registrado; tudo é ordenado.
Então, quando vocês chegam ao templo, esta é uma das coisas que deveriam deixá-los maravilhados: a ordem extraordinária e meticulosa dessa tenda. Cada detalhe, cada medida, o tamanho de tudo, o lugar de tudo, o material de tudo.
E o que diremos dos turnos dos cantores e dos turnos do sacerdócio — todos em sua sequência, ao longo de todo o dia? Há prescrições para tudo.
Quando a rainha de Sabá veio e contemplou a ordem da casa, ficou sem fôlego. Isso era o que impressionava. Tudo era regulado de maneira tão serena, harmoniosa e bela. Tudo fala de uma Mente Suprema.
Esse é Deus. Ele deu o modelo para aquilo. Ele deu as normas para aquilo. Mesmo depois que tudo foi desfeito, que veio o cativeiro e que eles passaram seus setenta anos no exílio, o retorno do remanescente e a reconstrução do muro e da casa são novamente marcados por isso.
Temos lido e estudado o livro de Neemias de outros pontos de vista. Talvez não tenhamos nos impressionado com esta característica específica dele: uma organização maravilhosa. Observem que um capítulo inteiro é dedicado a “junto a ele”, “junto a ele” e “junto a ele”. Tudo está disposto; tudo está ordenado; tudo está, se quiserem, organizado. Podemos usar essa palavra no Antigo Testamento; no Novo, não podemos.
Neemias representa um grande organizador nas coisas de Deus. Tudo isso está sob direção divina. Tudo aponta para isto: Deus é o Deus de ordem.
Precisamos ser profundamente impressionados por isso, amigos. Não é algo a ser contemplado apenas de maneira objetiva ou histórica. Vocês e eu precisamos ser tremendamente impressionados por isso. Vejam como Deus é muito criterioso quanto à maneira como as coisas são feitas, quanto às coisas que são feitas, quanto a quem as faz e quanto às relações existentes entre aqueles que são empregados nessa obra.
Deus é muito criterioso. Como dissemos, isso não acontece simplesmente porque Deus gosta de ter tudo exatamente assim — porque essa é Sua natureza. Sabemos muito bem que o verdadeiro progresso, a verdadeira frutificação e a verdadeira realização exigem ordem.
Entramos em um lugar que está todo de cabeça para baixo e desarrumado, com tudo espalhado, e temos um trabalho a fazer. Começamos dizendo: “Bem, não podemos fazer nada enquanto não colocarmos isso em ordem”. É assim com Deus. Não podemos prosseguir enquanto não colocarmos tudo em ordem. Nunca chegaremos a lugar algum enquanto as coisas não forem acertadas.
Isso começa na vida individual. Voltaremos a esse ponto. Mas não quero simplesmente acumular uma porção de informações sobre vocês. Isso tem consequências espirituais de importância vital: precisamos assimilar que Deus é criterioso e que Ele não vai ignorar nem contornar coisa alguma.
Ele terá as coisas assim, ou não as terá de modo algum. Ele será paciente. Ele esperará. Ele fará muito para que sejam assim. Pode levar anos para que sejam assim, mas isso será para nosso prejuízo. Se Ele pudesse ter as coisas à Sua maneira, prosseguiria imediatamente com Sua obra, tendo tudo de acordo com Sua ordem.
Frustração, demora e falta de fruto sempre se devem à ausência da maneira de Deus fazer as coisas, do propósito de Deus nelas, ou daquilo que Deus quer que seja feito e da maneira como Ele quer que seja feito.
Talvez isso seja suficiente para enfatizar o fato de que Deus é o Deus de ordem. Eu apenas abri para vocês uma janela pela qual podem contemplar um universo.
Chegamos ao próximo ponto: ruptura e desordem.
Há um sentido em que toda a Bíblia se ocupa de confrontar essa desordem prolongada, obstinada e incorrigível, bem como as forças malignas que estão por trás dela. Vocês a encontram por toda parte: a batalha para estabelecer a ordem, preservá-la e lidar com as forças que interferem nela. Isso se encontra em quase toda a Bíblia.
A Bíblia mostra a origem dessa ruptura e dessa desordem. Não vou gastar tempo, queridos amigos, tentando obter sua concordância quanto ao fato de que a desordem existe. Estamos todos bem conscientes de sua presença em toda parte neste universo, nesta criação. Há uma ordem rompida; há desordem; há uma grande divisão por toda parte. Isso é verdade, não é?
Pois bem, partindo do princípio de que vocês concordam que é assim, a Bíblia nos mostra de onde isso veio. A Bíblia nos mostra sua abrangência. Ela nos mostra sua entrada neste mundo, seu desenvolvimento neste mundo, sua natureza e seus efeitos, e sua causa principal.
A Bíblia nos mostra que essa desordem começou no céu. As Escrituras nos falam da revolta que ocorreu no céu. Falam de alguém que se levantou para desafiar a supremacia de Deus e de Seu Filho, o Herdeiro de todas as coisas.
Mostram-nos que houve uma grande cumplicidade entre esse ser e uma vasta multidão de anjos, dos quais se diz que não guardaram seu estado original, mas estão reservados em prisões eternas.
E aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação,
Ele os tem reservado em prisões eternas, na escuridão, para o juízo do grande dia.
— Judas 1:6
Essa revolta no céu — foi ali que tudo começou. Então, entrou neste mundo. Entrou pela porta do homem. Conhecemos a história dessa entrada. Foi um elemento de ruptura que entrou. Foi uma rebelião contra Deus.
O primeiro resultado? O primeiro resultado foi que o próprio homem se tornou uma criatura dividida — um centro de guerra civil em sua própria natureza. Por natureza, o homem já não é uma unidade. Ele mesmo é um conflito, uma turbulência.
O salmista ora:
Une o meu coração ao temor do Teu nome.
— Salmos 86:11
“Une o meu coração.” Nossos corações são divididos. O homem é uma divisão. O homem, em si mesmo, é um conflito. Isso começou ali e depois se espalhou.
Quando falo do homem, estou incluindo o homem e a mulher. Isso se tornou verdadeiro acerca de cada um deles individualmente e, depois, naturalmente, tornou-se verdadeiro acerca deles como casal: dividir o marido e a esposa.
Essa força atingiu em cheio aquela maravilhosa unidade. As Escrituras fazem questão de descrever e enfatizar essa unidade:
Serão uma só carne.
Há tanto a dizer sobre essa unidade entre marido e esposa. Mas essa influência e esse poder de ruptura entraram e os dividiram.
Do marido e da esposa, isso alcançou a família. Não demora muito até vocês encontrarem a família dividida: Caim e Abel, um assassinando o outro, destruindo a vida familiar.
Da família, isso se estendeu até abranger toda a humanidade. Vocês sabem como o livro de Gênesis contém a história da ruptura e da confusão da raça humana? Isso se tornou universal.
Está nas regiões inferiores dos céus:
O espírito que agora opera nos filhos da desobediência.
O príncipe da potestade do ar.
Vocês podem respirar isso; podem senti-lo neste mundo — antagonismo, ódio, malícia e muito mais desse tipo.
Isso penetrou na vida humana, no indivíduo, e nas relações humanas mais próximas de nós. Penetrou na família, e que problema a vida familiar se tornou hoje. Como ela é uma chave para tantas outras coisas, até que toda a humanidade esteja inteiramente permeada por esse espírito e poder de ruptura e desarticulação.
Sim, isso está aqui. Vemos de onde veio, onde começou, como entrou, sua abrangência, seu desenvolvimento, sua natureza e seus efeitos: colocar cada homem contra seu irmão.
Sua causa principal — seu curso principal — talvez isso seja algo muito importante. Tudo é importante, mas este é um ponto no qual precisamos nos deter por um momento.
A causa principal: lembrem-se de que a Bíblia sempre considera essa questão como rebelião — uma rebelião, um espírito de rebelião.
Conhecemos isso em nossa própria natureza. Sob tensão, sob provação, sob pressão, sabemos muito bem que isso faz parte de nossa constituição. Há algo que se rebela e que chegaria a se rebelar contra Deus e Seus caminhos, questionando Sua sabedoria e Seu amor.
Essa é uma verdade e um fato terríveis que estamos dispostos a encarar, se de fato conhecemos a nós mesmos. A sede dessa rebelião está no próprio homem. Ele é um ser que provoca ruptura — não apenas rompido em seu relacionamento com Deus, mas também dividido em sua própria personalidade. O homem é uma criatura dividida em si mesma. Nós somos assim. Essa é nossa condição.
O espírito de rebelião entrou, e a palavra iniquidade, tão característica do Antigo Testamento, tem suas raízes nessa mesma ideia de rebelião.
Agora, a verdadeira natureza dessa questão está aqui. Talvez possamos ilustrá-la melhor olhando para o corpo físico. Os médicos podem tapar os ouvidos por um minuto.
Há algo nas leis da saúde e da doença físicas. Dizem-nos que tudo é uma questão do ambiente da célula viva. Esta é uma citação, não uma afirmação minha: “É o ambiente celular que é responsável por qualquer doença que afete o corpo humano — seja a presença de veneno no ambiente imediato das células, seja a ausência de algum componente essencial”.
Isso é técnico demais. Vocês podem deixar de lado os detalhes técnicos, se quiserem, mas a conclusão a que chegaram é esta: todos esses milhões de células vivas estão envoltos por esse fluxo de linfa, que fornece o necessário para sua vida. Esse fluxo de linfa é seu ambiente.
Se algum veneno entrar nesse fluxo, ou se faltar algo essencial à sua vida, então as células vivas adoecem, e toda a ordem do corpo é perturbada. A doença é simplesmente desordem, não é? É desordem.
Eu tomo essa ilustração. Deus escreveu Suas leis espirituais em toda a Sua criação e, penso eu, de maneira especial no corpo humano. Vejam, toda essa desordem resulta em doença. Toda a dor e a agonia causadas por essa ruptura se devem ao fato de o homem ter deixado seu ambiente.
Deus é nosso ambiente. Deus é o verdadeiro ambiente do homem. Nele não há treva alguma, nenhum veneno. Nele está tudo de que precisamos para nossa vida e nossa saúde.
O homem deixou seu ambiente. Retirou-se do ambiente de Deus. Tomou a própria vida em suas mãos para dizer o que faria e o que não faria, o que teria e o que não teria.
Tornou-se uma lei para si mesmo, rebelando-se contra Deus, Sua lei e seu próprio ambiente. O que aconteceu? Entrou em um ambiente de veneno e de uma falta fatal daquilo que era necessário à sua própria vida.
Agora, amigos, peguem sua Bíblia. Comecem de novo. Para que ela serve? Toda esta Bíblia trata de trazer os homens de volta a Deus, trazer os homens para dentro de Deus, restaurar o homem ao seu ambiente.
Porque Nele vivemos, e nos movemos, e existimos.
— Atos 17:28
Essa é uma verdade fundamental da vida espiritual.
Há uma coisa que sugiro a vocês e que, se pudessem compreendê-la, lhes seria de tremenda ajuda. Quando o Senhor diz alguma coisa — qualquer coisa que o Senhor diga —, à primeira vista ela pode parecer muito simples, nada profunda ou maravilhosa.
Qualquer coisa que venha do Senhor, embora aparentemente muito simples, contém todo o vasto conhecimento e entendimento que o Senhor possui. Deixar de levar em conta aquilo que vocês talvez considerem tão simples pode lhes trazer uma enorme quantidade de problemas.
Quando o Senhor Jesus diz:
Permanecei em Mim.
— João 15:4
Ah, isso parece tão simples. Parece tão comum: “Permanecei em Mim”. Mas contém toda essa história; contém esse grande princípio e essa verdade. Se vocês saírem de seu ambiente, ficarão expostos a todos os venenos, a tudo o que produz doença espiritual.
Permanecei em Mim.
Por causa de sua saúde, por causa de sua vida, por causa de tudo.
Permanecei em Mim, e Eu em vós.
Vocês compreenderam isso? Olhem novamente para qualquer coisa aparentemente pequena que o Senhor diga e, se pudessem enxergar, descobririam que há nela um universo de significado.
A causa principal de tudo isso é sair de sua esfera legítima em Deus. É isso que acontece. Certamente, como veremos quando chegarmos à obra redentora: voltem. Voltem ao seu lugar; voltem à sua cobertura em Deus. Abandonem seu vaguear, que é um caminho por fora. Deixem sua independência. Entrem.
Isso traz consigo toda a questão da supremacia e da soberania absolutas, indivisas e inquestionadas de Deus em nossa vida agora, em Jesus Cristo e por meio Dele.
Dito de outra maneira: entrega absoluta, submissão, aceitação sem questionamento da autoridade de Jesus Cristo como Cabeça. Esse é o caminho da vida, o caminho da saúde, o caminho da frutificação, o caminho do progresso.
Sabemos muito bem que a frustração, a limitação, a inquietação, a esterilidade e tudo isso existem porque ainda há em nossa vida alguma falta de submissão a Ele. Adão tomou as coisas em suas próprias mãos e disse: “Eu serei o senhor da minha vida. Eu direi o que farei e o que não farei”.
Estabeleceram-se essa mente independente e essa vontade independente, causando todos os problemas. Somos assim por natureza, e receio que, na graça, ainda não tenhamos nos afastado tanto disso.
Encontramos um homem ou uma mulher que tem sua própria maneira de pensar, sua própria vontade e seu próprio caminho, e que jamais permitirá que vocês lhe ensinem ou lhe digam o que deve fazer. Não aceita ser ensinado, não se dobra — não.
Queridos amigos, mesmo que alguém seja muito firme e muito forte a respeito de uma questão correta, lembremo-nos de que há uma enorme diferença entre força humana, força natural e força espiritual. São coisas de natureza inteiramente diferente.
Se vocês encontrarem uma pessoa que, assim que tocam em algum assunto ou começam a conversar com ela, lhes dá a entender que não aceitará nada de vocês, que já tem sua opinião formada, talvez estejam diante de algo que causará ruptura no corpo espiritual — no corpo coletivo.
Isso pode causar verdadeira inquietação, não apenas na vida dessa pessoa, mas também na vida da comunidade da qual ela faz parte.
Uma disposição amável e sensata, abertura à instrução e ao conselho, prontidão para aprender — esse é o Espírito de Jesus Cristo, que disse:
Sou manso e humilde de coração:
Tomai sobre vós o Meu jugo, e aprendei de Mim.
— Mateus 11:29
Espero que vocês vejam mais do que sou capaz de dizer. Aqui está o fato dessa grande ruptura; aqui está sua verdadeira natureza: sair de Deus.
Ah, deveríamos nos examinar. Não queremos tornar a vida cristã difícil — por mais difícil que ela seja —, mas deveríamos, queridos amigos, estar mais dispostos a examinar isto: “Eu disse aquilo no Espírito ou disse na carne? Fiz aquilo no Espírito ou fiz na carne?”
Vejam, a marca de uma verdadeira medida espiritual aparece quando vocês encontram uma pessoa assim. Vocês já encontraram pessoas assim; eu também. Algumas pessoas disseram alguma coisa, e eu soube, quando disseram e pela maneira como disseram, que estavam falando na carne. Então, voltaram um pouco depois e disseram: “O que eu disse, disse na carne. Por favor, me perdoe. Eu não estava no Espírito quando disse aquilo”.
Ah, vejam, isso faz muita diferença, não faz? Muita diferença. Há um caminho aberto para o Senhor quando é assim. Chegaremos a algum lugar quando for assim. Mas isso significa fraqueza; a verdadeira humildade significa graça para permanecer em Cristo.
Em algum momento, preciso encerrar isto. Talvez vocês já saibam que é uma coisa muito simples, mas, no Novo Testamento, a palavra salvação é, na verdade, a palavra saúde ou integridade.
O Senhor Jesus disse àquele pobre homem em sua incapacidade:
Queres ficar são?
— João 5:6
A palavra são é exatamente a mesma palavra que vocês encontrarão traduzida em outros lugares como salvação. Ser salvo é ser tornado são. Por trás disso está a ideia de desordem no corpo.
A salvação é corrigir a desordem espiritual e nos tornar íntegros — nos tornar íntegros, nos tornar completos, nos tornar sãos. É uma questão de saúde. Isso é salvação.
Permitam-me encerrar com isto: dor. Dor. Toda dor existe por causa de desordem. A dor é a natureza gritando: “Há algo errado”.
Isso é verdadeiro no âmbito físico. Vocês podem eliminar a dor. Há muitas coisas disponíveis para eliminar a dor. Bem, receio que eu seja um daqueles que dizem: “Graças ao Senhor por isso”. Mesmo assim, nenhuma pessoa sensata pensa que eliminar a dor é se livrar do problema.
Não, vocês podem eliminar a dor e silenciar o clamor, e o problema que realmente está ali poderá seguir seu curso até levá-los à morte. Eliminar a dor não significa que vocês curaram a desordem.
O mundo está tentando silenciar esse clamor de dor, amortecer esse sofrimento, seguir em frente como se não houvesse nada errado. Mas o problema está ali.
O que é verdadeiro no âmbito físico é verdadeiro no espiritual. A dor em nossa vida espiritual, a dor em nossa vida coletiva, é o clamor de que algo está errado. Há desordem em algum lugar. As coisas não estão como o Senhor pretendia que estivessem.
Há um deslocamento nas articulações. Há uma fratura na comunhão. Há uma doença — um pecado — no corpo. Algo está errado se há dor.
Queridos amigos, não podemos simplesmente tomar alguma coisa para amortecer a dor e silenciar os clamores, e seguir em frente como se tudo estivesse bem. Não, aquilo seguirá seu curso, e Deus sabe. Deus sabe. Precisamos parar.
Parar e dizer: “O que é isso? Onde está a desordem? Onde as coisas estão erradas? De que maneira isso contraria o pensamento de Deus?” Enquanto não conseguirmos identificar isso, não haverá esperança de resolver a situação. Essa é a pergunta: o que é isso?
A desordem é uma doença espiritual.
Bem, penso que preciso parar aqui e voltar a isso mais tarde. Mas será que dissemos o suficiente, de um lado, para mostrar como Deus está comprometido com uma ordem — no homem, nos relacionamentos do homem, em Sua igreja? Precisaremos chegar a isso mais tarde.
Deus está comprometido com essa ordem. Ele não agirá à parte dela. Precisamos tê-la. O clamor de todos os profetas, corretamente compreendido e interpretado, era o clamor pela recuperação de uma ordem perdida.
Essa ordem perdida, essa ruptura, deve-se principalmente a uma coisa: a vida do homem fora de Deus.
Para nós, é uma questão de quanto de nossa vida está em Deus. Temos uma parte de nossa vida em Deus, mas temos uma parte de nossa vida em nós mesmos. Temos uma parte de nossa vida no homem, em outras pessoas.
De um lado, buscamos uma vida com Deus pela oração e pelo estudo de Sua Palavra. Depois, entramos no mundo e permitimos que pessoas de outra mentalidade, que desprezam os cristãos, nos influenciem. Nós nos ajustamos a elas. Escondemos nossa fé. Como o camaleão, assumimos a cor de nosso ambiente.
Ah, permanecer nesse único ambiente — seja na reunião, no lugar secreto ou no mundo —, permanecer no Senhor.