E aconteceu que, chegando Ele perto de Jericó, estava um cego assentado junto do caminho, mendigando.
E, ouvindo passar a multidão, perguntou que era aquilo.
E disseram-lhe que Jesus de Nazaré passava.
Então clamou, dizendo: Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim!
E os que iam passando repreendiam-no para que se calasse; mas ele clamava ainda mais: Filho de Davi, tem misericórdia de mim!
Então Jesus, parando, mandou que lho trouxessem; e, chegando ele, perguntou-lhe:
Que queres que te faça?
E ele disse: Senhor, que eu veja.
E Jesus lhe disse: Vê; a tua fé te salvou.
E logo viu, e seguia-O, glorificando a Deus. E todo o povo, vendo isto, dava louvores a Deus.
Esse título, ou designação, de nosso Senhor está repleto de um significado maravilhoso. Dessa plenitude, vou tomar apenas uma pequena parte nesta manhã e apresentá-la a vocês: Jesus.
Havia tantos homens chamados Jesus naquela terra. Era um dos nomes mais comuns e apreciados entre os judeus, vindo de muito tempo atrás, do Antigo Testamento: Josué, Jesua. No original, são o mesmo nome.
O povo de Israel amava esse nome e frequentemente o dava a seus meninos. A terra estava cheia de homens chamados Jesus. Josefo, o historiador, nos diz que havia pelo menos vinte homens bem conhecidos com esse nome naquela terra quando nosso Senhor esteve ali.
Assim, de alguma maneira, precisavam distingui-Lo dos demais. Chamavam-No de Jesus, Aquele de Nazaré — algo bastante comum, bastante corriqueiro, algo que, por si só, não tinha nenhuma associação extraordinariamente marcante ou impressionante.
Nazaré. Nazaré. Sabemos o que Natanael pensava de Nazaré. Quando alguém lhe disse a respeito de Jesus: “Encontramos o Messias, Jesus de Nazaré”, ele respondeu, como lemos em João 1:46:
Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?
Evidentemente, Nazaré tinha má fama.
Sabemos que, depois de Sua tentação no deserto, Jesus voltou para Nazaré. E o que aconteceu? Ele se deparou com a intolerância — a intolerância — daquela pequena cidade, com seu exclusivismo. Levaram-No até o alto do monte sobre o qual a cidade fora construída, para lançá-Lo dali.
Jesus de Nazaré. Agora, queridos amigos, o ponto, por enquanto, é este: tudo isso está em plena harmonia com algo no grande plano divino.
Do ponto de vista natural, era uma desvantagem: o desprezado Nazareno, com um nome comum, sem destaque entre os demais em Seu tempo e em Sua terra, e com associações que não Lhe conferiam nenhuma honra ou glória neste mundo.
Ele carregou consigo, nesta vida, uma desvantagem. Jesus de Nazaré, até o dia de Pentecostes, era apenas um título sem honra.
E o grande sentido e significado divino disso é este: os verdadeiros valores de Jesus são espirituais, não naturais.
Se Ele há de significar alguma coisa neste mundo para alguém, em qualquer lugar; se há de haver alguma glória e honra, tudo será na esfera espiritual. Ele não tinha nada disso na esfera natural. Na verdade, desde Seu nascimento, esteve em desvantagem, do ponto de vista natural, durante toda a Sua vida, sem nada que Lhe desse posição ou honra neste mundo.
Seu próprio nome não trazia nada que O recomendasse neste mundo. E, no entanto, no entanto, que forças tremendas foram desencadeadas neste mundo por meio daquela vida! Que significado Ele realmente passou a ter!
Sabemos disso agora, depois de dois mil anos de Sua influência neste mundo. Mas sabemos muito bem que não é porque Ele veio a este mundo com alguma fama, honra ou posição mundana — com algo que O recomendasse aos homens do ponto de vista deste mundo.
Tudo se deve ao Seu significado e valor espirituais. E essa é a esfera em que os valores são realmente postos à prova e comprovados. Tudo o mais passa, por maior que seja; isso é eterno.
E vocês percebem que isso é algo que o Senhor tem a dizer a todos nós. A associação com o Senhor Jesus significará exatamente o mesmo no que diz respeito a nós.
Não importa o que somos naturalmente, grandes ou pequenos; não importam nosso nome, título, sucesso, realizações, diplomas ou qualquer outra coisa. O verdadeiro valor será espiritual: aquilo que somos e a medida espiritual que possuímos.
Assim foi com Ele; e, se assim foi com Ele, quanto mais verdadeiro deve ser a nosso respeito.
Nascido, criado e vivendo com uma desvantagem natural, enquanto os homens pronunciavam Seu nome com certo desprezo, como uma censura:
Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?
“Não me diga. Não me diga que alguma coisa boa pode vir de lá.”
Esse é o descrédito do ponto de vista natural. Como profetizou o profeta em Isaías 53:3:
Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens.
E, no entanto, em contraste com isso, que força espiritual!
Parece acontecer com tanta frequência que, onde está o maior valor espiritual, o Senhor precisa cuidar para que não haja nada de natural, nem nada neste mundo, de que possamos nos gloriar.
Mesmo que realizemos alguma coisa, mesmo que alcancemos alguma honra e algum sucesso neste mundo, lembrem-se sempre de que essa não é a medida de vocês diante de Deus. Sua medida diante de Deus é seu valor espiritual.
E lembrem-se também — e tenho certeza de que isso se aplica à maioria de nós — de que, naturalmente, podemos ter aquilo que chamaríamos de uma desvantagem. Temos algo que não nos daria nenhum lugar de honra entre os homens. Podemos estar entre os desprezados e, quando os homens procuram qualificações, podemos ser rejeitados por eles.
Mas essa não é, de modo algum, a medida. O que importa é a medida espiritual — a medida espiritual. E Deus está empenhado nisso. Ele está concentrado na medida espiritual.
E, se Ele puder fazer isso surgir em meio às limitações naturais e às coisas que não nos dão posição alguma, tanto maior será o louvor a Ele.
Assim, vocês veem, esta pequena história que lemos é sobre um homem com uma desvantagem — e que desvantagem: a cegueira. Ele a sentia. Ela o confrontava todos os dias. Ele gemia e clamava contra ela, com todas as limitações que lhe trazia.
Naqueles dias, não havia escolas para cegos nem tudo aquilo que hoje se oferece para ajudá-los a se reerguer e a se tornar autossuficientes. Um mendigo — um mendigo cego; um mendigo porque era cego. Que desvantagem!
Ali, entre os que não tinham honra — e havia muitos, muitos assim por toda a terra —, Jesus de Nazaré entrou em sua vida e trouxe valor espiritual.
O resultado? Ele glorificou a Deus, e o povo glorificou a Deus. A glória a Deus flui pelos canais mais profundos, e Deus Se empenha em abrir canais muito profundos.
Porque o valor espiritual tem o maior peso para Ele, e isso explica muito de Sua maneira de lidar conosco.
Jesus de Nazaré passa. Qual é a questão que se apresenta neste caso e que sempre se apresenta quando Jesus de Nazaré Se aproxima de uma vida?
A maior de todas as questões, creio eu, ligada à aproximação do Senhor Jesus de nós, é nada menos que termos os olhos abertos — recebermos visão espiritual. E a visão espiritual é o maior de todos os valores espirituais: ver.
Esse homem foi introduzido em um mundo que lhe estivera fechado, em possibilidades que lhe estavam inteiramente vedadas: um novo mundo, uma nova vida, uma nova perspectiva — tudo novo —, porque seus olhos foram abertos para ver.
E aqueles de vocês que conhecem o ensino espiritual apresentado mais adiante no Novo Testamento sabem que tremendo valor se atribui à visão espiritual.
Sabem, estamos até familiarizados demais com as palavras sobre esse assunto, em Efésios 1:18-19:
Tendo iluminados os olhos do vosso entendimento, para que saibais
qual seja a esperança da Sua vocação,
e quais as riquezas da glória da Sua herança nos santos,
e qual a sobre-excelente grandeza do Seu poder sobre nós, os que cremos.
Não são coisas pequenas para se conhecer. São as coisas mais elevadas do conhecimento espiritual, e a palavra é esta: elas vêm por meio da iluminação dos olhos do coração.
Entrar em contato com Jesus de Nazaré traz toda a questão da visão espiritual. Primeiro, vê-Lo como Salvador e Senhor — nosso Salvador, nosso Senhor — e, depois, continuar a vê-Lo em Sua grande plenitude de significado e valor.
Isso está ligado ao contato com Jesus de Nazaré. Se Ele Se aproxima, é assim que acontece.
Mas Jesus de Nazaré passa. Como é que Ele passou por ali? Pode ser que tenha passado por muitos cegos. Já dissemos que havia muitíssimos; era uma enfermidade comum naquelas regiões.
Esse homem passou a desfrutar dos valores de Jesus de Nazaré porque clamou e clamou, e não ia deixá-Lo passar sem se apropriar desses valores.
Ora, isso tem uma aplicação muito ampla. Antes de tudo, aplica-se à nossa salvação.
A reunião dos cristãos na manhã do Dia do Senhor talvez não seja considerada a ocasião para pregar o evangelho da salvação, mas pode ser. Já vimos pessoas não salvas serem salvas na reunião matinal do povo do Senhor.
Jesus de Nazaré está aqui, com todo o Seu maravilhoso potencial e todas as Suas possibilidades para sua vida. Você pode chegar a um conhecimento e a uma visão que lhe darão uma nova vida. Vai deixá-Lo passar?
Não é por acidente que Ele vem por este caminho; não é mero acaso ou coincidência. Você vai dizer: “Jesus, tem misericórdia de mim”?
E não se deixar abafar nem absorver por coisa alguma, por consideração alguma — nem pela opinião pública, nem pelo pensamento do que os outros vão dizer. Não, por absolutamente nada.
É tão profundamente importante que você tenha esse novo mundo de Sua vida e luz. Você deve dizer, recusando-se a ficar calado: “Tem misericórdia de mim”.
Isso tem uma aplicação ainda mais ampla e profunda para nós, cristãos. Há um sentido em que Jesus entra na vida dos cristãos, passa pelo caminho deles, onde existe um desejo secreto de algo mais em suas vidas.
E, em Sua própria presença, há uma plenitude maior oferecida por meio do ministério, oferecida por meio da comunhão, oferecida desta ou daquela maneira — uma plenitude maior. Sua própria presença sempre significa algo mais. Significa algo mais nesta manhã.
E, no entanto, podemos deixá-Lo ir, por assim dizer. Tratar tudo como algo corriqueiro; dar tudo por garantido. “Sim, creio no que você diz. Jesus está perto, está aqui. Não foi Ele Quem disse, em Mateus 18:20:
Onde estiverem dois ou três reunidos em Meu nome, aí estou Eu
?” É claro que cremos.
Sim, mas há coisas de enorme importância ligadas a cada contato com Ele. E uma delas é esta possibilidade de enorme importância: que Ele siga adiante e nós não recebamos aquilo que Ele queria que recebêssemos.
E, ao pensar nisso, tenho me lembrado de tantos e tantos lugares e pessoas que conheci ao longo da vida, nos meus primeiros anos de trabalho cristão. Tive contato com pessoas e lugares.
E vocês sabem, queridos amigos, isso se aplica a uma área mais ampla, mas, por todo este nosso país, nesta nossa cidade e em seus arredores, há lugares que um dia foram mundialmente conhecidos por seu valor espiritual.
Eu poderia mencionar os nomes. Poderia dizer onde ficam: este lugar, aquele lugar e aquele outro — lugares de destaque. Pessoas de todas as partes do mundo vinham até eles por causa do valor espiritual que encontravam ali. Seus nomes estão registrados na história e na tradição.
Hoje, estão abandonados. Simplesmente abandonados. Vão até lá — conheço um, conheço vários. Pensem em um deles: toda vez que o local abria, ficava lotado, com mil e duzentas pessoas. Hoje, há trinta pessoas se reunindo naquele lugar.
Os edifícios continuam de pé. Eles ainda tentam prosseguir: trinta pessoas. Costumavam realizar uma poderosa reunião ao ar livre, um pouco adiante, aos domingos à noite — grandes multidões. Hoje, têm seis homens tentando manter a reunião ao ar livre.
E posso repetir isso muitas e muitas vezes: lugares aos quais o Senhor veio, onde houve um encontro com o Senhor, mas que, por alguma razão, como as igrejas da Ásia, as igrejas do norte da África e de outras partes do mundo mencionadas na Bíblia, viram seus nomes desaparecer. Seu testemunho desapareceu. Já não está ali.
Jesus de Nazaré passou. Não precisamos nos deter para tentar enumerar as razões. É sempre assim.
O ponto é este: aproveitemos, aproveitemos bem cada oportunidade que Ele nos dá. Cuidemos de nos apropriar de cada possibilidade ligada a Ele e à Sua presença, para que não nos tornemos uma tragédia como essa — um dia de grande oportunidade que passou.
Jesus de Nazaré não quer algo muito grandioso e maravilhoso do ponto de vista deste mundo. Ele não precisa disso para nos conduzir a uma grande medida espiritual. Não foi assim com Ele; não precisa ser assim conosco.
O que é necessário? Algo da persistência, da tenacidade e da entrega de todo o coração desse homem, que disse: “Não vou perder minha oportunidade. Não vou perder nenhuma das possibilidades que este momento tem para mim”.
“Simplesmente me recuso a tratar isso como algo casual — algo que talvez continue à minha disposição. De modo algum.” Há sempre, de um lado, essa tremenda possibilidade contida em Jesus de Nazaré.
Vocês notam que, no dia de Pentecostes, Pedro se levantou? Era esse o nome: Jesus de Nazaré, um homem poderoso em obras. Deus estava com Ele. O Pentecostes procedendo de Jesus de Nazaré.
Tudo isso, tudo isso, neste Homem — considerado como nada neste mundo, sem nada neste mundo que O distinguisse, vindo de Nazaré. Isso era tudo. Que distinção!
E você e eu passamos a conhecê-Lo de verdade e colocamos nosso coração em conhecer tudo o que há para conhecer Nele. Que palavra!
E, para todos nós — não apenas para as pessoas não salvas, mas para todos nós —, precisa haver esta determinação, esta resolução firme: “Não vou perder nada daquilo que Deus me ofereceu em Seu Filho e trouxe para perto da minha vida”.