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    Spiritual Ascendancy
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    Austin-Sparks, T.

    A vocação celestial do povo de Deus

    Salmo 125:1-2: A segurança dos que confiam no Senhor

    Os que confiam no Senhor
    São como o monte Sião, que não se abala, mas permanece para sempre.
    Como os montes estão ao redor de Jerusalém,
    Assim o Senhor está ao redor do Seu povo,
    Desde agora e para sempre.

    Aqueles de vocês que estiveram aqui na última quinta-feira à noite devem ter meditado no Salmo 84. Embora eu não estivesse aqui, ficaria surpreso se não tivesse sido dito algo sobre Salmo 84:6: passando pelo vale de lágrimas.

    Depois do Salmo 84, com todo o seu contexto na história de Davi, passando por um vale de lágrimas muito profundo, escuro e amargo, chegamos aos Salmos 120 a 134, que, como vocês podem ver, formam um pequeno volume próprio dentro do livro inteiro: os Salmos, ou Cânticos de Romagem.

    Os Cânticos de Romagem e a subida às alturas

    Subindo. No Salmo 84, vocês estão no vale. Chegam ao Salmo 120 e começam a subir, saindo do vale, cantando enquanto sobem, prosseguindo assim até o Salmo 134. É uma subida acompanhada de cânticos: os Salmos, ou Cânticos de Romagem.

    Assim, observem o que diz Salmo 121:1-2:

    Elevo os meus olhos para os montes:
    De onde me virá o socorro?
    O meu socorro vem do Senhor.

    E Salmo 123:1:

    A Ti elevo os meus olhos,
    Ó Tu que habitas nos céus.

    E Salmo 125:1-2:

    Os que confiam no Senhor são como o monte Sião;
    Como os montes estão ao redor de Jerusalém.

    Então temos o povo de Deus onde o Senhor sempre deseja que ele esteja. Devemos sublinhar estas duas palavras: “passando pelo” vale de lágrimas. Esse não é o lugar de morada do povo de Deus. É uma passagem, algo pelo qual ele passa.

    Mas Sião — os montes —, esses são os lugares de morada que Deus designou para o Seu povo.

    Certamente é instrutivo observar que o Senhor estabeleceu, como ordenança em Israel, subidas periódicas: todos os homens deveriam subir três vezes por ano.

    Essas ordenanças em Israel, esse subir, subir, tinham uma natureza governante. Isto é, o povo não deveria ser governado pelas planícies ou pelos vales; deveria ser governado pelos lugares altos. Deveria ser governado por essa posição elevada, ser um povo dos montes.

    Talvez passassem algum tempo, talvez muito tempo, lá embaixo, mas o Senhor queria que isso fosse interrompido repetidamente. Deveriam ser lembrados de que aquela não era, de fato, a sua vida normal. Sua verdadeira vida estava lá em cima, nos lugares altos. Sua vida deveria ser influenciada pelos montes.

    Se vocês pudessem, em sua imaginação, juntar-se àquelas caravanas, àquelas procissões, três vezes por ano, quando se preparavam e se punham a caminho, deixando os vales e as planícies e subindo para Jerusalém, poderiam se misturar com elas. Descobririam que elas realmente exerciam uma tremenda influência sobre a vida do povo.

    Esses cânticos, ou salmos, por exemplo, tornaram-se cânticos para todos os tempos, não apenas para a subida. Nasceram da subida; foram preparados para a ascensão nessas ocasiões específicas. Mas não permaneceram apenas como cânticos de três vezes por ano; são os cânticos permanentes de Israel.

    Leiam esses quatorze ou quinze salmos, e verão quanto há neles de valor permanente e duradouro.

    Mas quero apenas enfatizar este pensamento nesta manhã: o propósito do Senhor para o Seu povo não é que permaneça nos lugares profundos e sombrios. Embora, de tempos em tempos, tenha de seguir por esse caminho e passar pelos vales, o pensamento e a intenção do Senhor para o Seu povo são que ele seja um povo das alturas, dos lugares altos.

    Aquilo que está no alto, e não embaixo, deve governar toda a sua vida.

    Os montes na vida e no ministério de Jesus Cristo

    Tenho ficado muito impressionado com o lugar tão importante que os montes ocuparam na vida e no ministério de nosso Senhor. Abram o Evangelho de Mateus, e vocês verão que ele está repleto de montes.

    Em Mateus 5, Jesus sobe ao monte, chama os Seus discípulos para junto de Si e então lhes apresenta aquilo que o Dr. Campbell Morgan chamou de manifesto do Rei — aquele maravilhoso discurso que, em si mesmo, estava em um nível tão elevado, mais elevado do que qualquer outro discurso ou ensinamento em toda a Bíblia. Nós o chamamos de Sermão do Monte. Ali estava o monte da instrução.

    Em Mateus 14, Ele despede os Seus discípulos e a multidão, e sobe sozinho a um monte para orar: o monte da comunhão com Deus.

    No capítulo seguinte, Mateus 15, nós O vemos subindo novamente pela encosta do monte e alimentando milagrosamente a multidão — os quatro mil: os montes do pão, do alimento para os famintos.

    Em Mateus 17, Ele leva os Seus discípulos a um alto monte e é transfigurado diante deles: o Monte da Transfiguração.

    Em Mateus 24, Ele lhes fala, no monte, sobre os sinais do fim — o fim da dispensação e a Sua vinda. Em Mateus 26, Ele lhes fala sobre a Sua morte e ressurreição. Leva-os à parte e lhes revela o que está prestes a acontecer, mas também o que virá depois, quando Ele ressuscitar.

    Então, finalmente, em Mateus 28, depois de Sua ressurreição, Ele Se encontra com eles no grande monte onde havia marcado o encontro e lhes dá a grande comissão mundial.

    Vocês veem: ao longo de todo esse Evangelho, as coisas estão relacionadas aos montes. Agora, é claro, cada uma delas exige cerca de uma hora para que seu verdadeiro valor seja considerado. Não tenho intenção — não se preocupem — nem sequer de começar a examiná-las. Estou apenas apontando que havia algo nos montes que encontrava correspondência no próprio coração e na natureza de nosso Senhor.

    Quando pensamos nisso, Jesus desceu e passou por este caminho, por este vale, podemos dizer, justamente para nos tirar dele e nos levar para o alto. Toda a Sua vida, em cada aspecto — oração, ensino, ação —, foi uma vida em um plano ascendente: uma vida para elevar, uma obra para elevar.

    Era um movimento de retorno ao céu, para levar de volta Consigo o maior número possível de pessoas. Era uma atração para o alto que caracterizava a Sua vida. Não me surpreende que os montes O atraíssem, porque não há nada neste nível inferior aqui que encontre correspondência Nele ou que Lhe agrade.

    Há, na natureza e na vida de nosso Senhor, uma completa oposição ao que é natural aqui. Apesar de tudo o que os homens argumentam com tanta habilidade, o curso natural deste mundo é descendente. Não se enganem quanto a isso.

    Podem falar o quanto quiserem sobre evolução e assim por diante, mas o curso natural é descendente em todas as esferas. É uma batalha tremenda resistir a esse curso — no corpo humano, na natureza ao redor de vocês, em toda parte; na sociedade, nas relações internacionais, em toda parte, em tudo. O curso natural é para baixo.

    Apesar da educação, apesar daquilo que se chama civilização, a tendência é de mal a pior: para baixo, para baixo. Essa é a natureza. Mas o Senhor Jesus é uma completa oposição a isso. Toda a influência e o efeito de Sua presença em qualquer lugar — de Sua vida, Sua obra, Seu ensino — visam inverter esse curso natural e elevar.

    Sabemos que isso é verdade. Sua presença nos eleva, e Ele só veio pelo caminho do vale de lágrimas para nos conduzir para fora dele.

    Elevação e posição nas alturas

    Agora, há muito que se pode dizer sobre essa questão dos montes. Vamos talvez nos concentrar em uma ou duas coisas perfeitamente evidentes: os montes sugerem e representam elevação, uma posição nas alturas.

    Elevo os meus olhos para os montes.

    Tirem os olhos daquilo que está aqui — de nós mesmos, de nossas condições e deste mundo — e fixem-nos no Senhor, alto e sublime em Seu trono, como Senhor dos senhores, acima de tudo. Isso nos eleva. Isso nos liberta. É, em si mesmo, algo que nos ergue.

    Desviar os olhos de tudo o mais e olhar para Jesus é algo que nos tirará do nosso vale de lágrimas. O lugar em que fixamos os olhos afetará muito a nossa vida.

    Elevo os meus olhos para os montes:
    De onde me virá o socorro?
    O meu socorro vem do Senhor.

    Assim como os montes estão ao redor de Jerusalém, estar unido ao Senhor no céu nos eleva em todos os sentidos: eleva-nos moralmente, liberta-nos espiritualmente, liberta-nos socialmente.

    Queridos amigos, talvez aquilo de que a maioria de nós mais precisa, tanto quanto de qualquer outra coisa, seja um nível mais alto de vida. É uma vida mais elevada. Somos pequenos demais.

    Vocês sabem, o vale geralmente é um lugar cercado, um lugar estreito, um lugar limitado. No monte há amplitude, não é verdade? Realmente há amplitude. Ora, alguns de nós amamos tanto os montes. Eles nos dão a sensação de sermos libertos das pequenas coisas da vida, livres da pequenez, de toda a mesquinhez.

    Ninguém que viva entre montes pode ser pequeno. Apliquem isso ao âmbito espiritual.

    Lembrem-se destas palavras, que talvez tenham perdido um pouco de sua força para nós por estarmos tão familiarizados com elas, em Efésios 2:6:

    E nos ressuscitou juntamente com Ele, e nos fez assentar com Ele nos lugares celestiais, em Cristo Jesus.

    Tanto individual quanto coletivamente, a igreja tem muitíssimos problemas, paralisia, fraqueza e miséria no presente porque essa posição não é assumida e mantida: nos lugares celestiais em Cristo.

    Poderíamos subir mais alto, chegar a um terreno mais elevado e deixar tudo o que pertence ao lugar das sombras e do ar insalubre. A vontade do Senhor é que vivamos em terreno elevado. É isso que Ele deseja para nós.

    A segurança nos lugares altos

    Então, como o salmo indica, não há apenas elevação e uma posição nas alturas; há segurança.

    O meu socorro. O meu socorro.
    Porque os montes estão ao redor de Jerusalém,
    Assim o Senhor está ao redor do Seu povo,
    Desde agora e para sempre.

    O salmista prossegue falando das coisas que se levantam contra o povo de Deus, e o livramento, ou a segurança, para ele está no lugar alto. Sim, segurança.

    Quantas vezes as fortalezas foram construídas nas alturas, não é verdade? Elas estão espalhadas por todo o mundo: os lugares altos são lugares de fortalezas, de refúgio.

    Nossa força, nossa segurança, está em nos afastarmos das coisas baixas, mesquinhas, desprezíveis — em subir, subir para o alto com o Senhor. É o lugar seguro. Lá embaixo, estamos no lugar de todas essas correntes, influências e forças que estão em ação. Elas se enfurecem nos lugares baixos, nos lugares escuros.

    Encontrar nossa força, nosso livramento, nosso refúgio, nossa segurança exige que abandonemos esses lugares baixos.

    Como posso expressar isso melhor? Vocês sabem, o maligno e as forças do mal estão tremendamente empenhados em nos derrubar e nos manter lá embaixo. Se conseguirem nos abater espiritualmente, mentalmente ou até fisicamente, simplesmente farão estragos em nós lá embaixo. Eles nos despedaçam. Atormentam-nos e nos inquietam dia e noite lá embaixo.

    Esse é o seu impulso, a sua direção: derrubá-los, derrubar-nos.

    O refúgio não está em lutar no terreno baixo. Está em fugir para as alturas, em escapar para junto do Senhor no lugar secreto.

    Creio que o próprio Senhor Jesus fazia isso. Nos momentos em que a pressão era grande, e Ele sentia o assédio e a força que O puxava para baixo em todas aquelas condições terrenas — decepções, até mesmo com os Seus próprios discípulos —, Ele dizia: “Deixem-Me afastar-Me de tudo isso por algum tempo, subir ao monte com Meu Pai”.

    Ele descia fortalecido, maravilhosamente fortalecido. Sim, era fortalecimento nas alturas. Assumam o seu lugar elevado; preservem-no como seu lugar de escape. Mantenham preservado o seu monte de comunhão com Deus, porque isso é força, isso é fortalecimento.

    A visão a partir do monte

    Concluo com outra coisa evidente sobre os montes: os montes são o lugar da visão, não é verdade? São o lugar de onde se avistam grandes distâncias.

    De fato, chegamos ao fim da Bíblia, aos seus últimos capítulos. Somos levados a um monte muito grande e alto, e nos é mostrada a cidade santa, a nova Jerusalém. Por fim, a cena final é uma cena no monte.

    Finalmente, a igreja chegou: a igreja celestial. E esse é o monte da visão.

    É sempre assim. Portanto, de maneira muito simples e verdadeira, queridos amigos, repetidas vezes a grande necessidade de cada um de nós e da igreja é uma ampliação da visão.

    Nossa visão é pequena demais. Nosso Deus é pequeno demais. Nossa esperança é pequena demais. Nosso propósito na vida é pequeno demais. A salvação que tanto prezamos é, afinal, pequena demais. Como é estranho que reduzamos tanto as coisas o tempo todo, em todos os sentidos.

    Precisamos da visão do monte. Se perdermos a nossa visão, não há dúvida: vamos nos desintegrar. Vamos nos despedaçar.

    É uma grande visão que nos salvará, mas somente uma grande visão nos salvará. Se perdermos a nossa visão, estaremos acabados; estaremos derrotados.

    Se vocês não tiverem uma grande visão do propósito de Deus, da intenção de Deus e da capacidade de Deus de alcançar o Seu objetivo, de fato serão derrotados por tudo o que está acontecendo aqui neste mundo.

    Por isso, sempre que Ele tinha algum assunto de grande importância a tratar, levava os Seus discípulos para o alto. Levava-os ao monte. Vocês e eu precisamos nos ocupar com assuntos de grande importância. Isto é, precisamos ter uma visão ampla.

    Agora vocês dizem: “Tudo isso é muito verdadeiro, muito bom, mas como?”

    A natureza celestial da vida cristã

    Bem, afinal, a resposta está na própria natureza da vida cristã, não é verdade? O começo da vida cristã é algo que vem do céu. É algo que vem do céu para nos levar de volta ao céu. É vida do alto.

    Todos sabemos muito bem que, desde o dia em que realmente entramos nessa união vital com nosso Senhor ressuscitado e assunto ao céu, começa em nós um processo de atração para o alto. Algo que é do céu entrou em nós, e sabemos imediatamente que já não pertencemos a este lugar.

    Assim, pela própria natureza da vida cristã desde o seu início, à medida que prosseguimos, sabemos que a peregrinação da vida cristã nos leva para cada vez mais longe deste mundo — tornamo-nos estranhos a este mundo, e este mundo se torna estranho para nós. Afastar-nos dele traz muitas dificuldades, muitos problemas, alguns constrangimentos, mas o fato permanece: já não podemos, como antes, encontrar aqui o nosso lar, encontrar aqui a nossa satisfação.

    Isso é a evidência de que somos filhos de outra pátria, uma pátria celestial. E a consumação da vida do crente, do filho de Deus, é sermos recebidos no alto por nosso Senhor. Do princípio ao fim, tudo é para o alto.

    O ponto é simplesmente este: assim como o próprio Senhor fez, precisamos responder a essa atração celestial. Não nos agarrar a nada aqui; não permitir que as coisas daqui nos prendam.

    Podemos passar por um período miserável e penoso, mas não devemos nos revolver na lama. Precisamos reagir com essa reação do céu que, pelo novo nascimento, faz parte da nossa própria constituição, e dizer: “Este não é o meu lugar. Esta não é a minha vida”.

    O Senhor Jesus fazia isso continuamente, continuamente. Ele respondia ao chamado interior do céu, e, ao subir fisicamente ao monte, estava apenas respondendo a uma atração interior: sair disso e subir, sair disso e subir.

    Posso crer que nunca houve um coração mais satisfeito, inteiramente satisfeito e realizado do que o Dele quando, finalmente, ascendeu ao Seu Pai.

    Não sei, mas penso que, enquanto Ele subia, enquanto ia, a mais perfeita sensação de alívio e satisfação tomou conta Dele.

    Será assim conosco. Por fim, será assim conosco. Não haverá arrependimentos, nenhuma despedida triste deste mundo. Não; é lá que pertencemos. Foi para isso que fomos feitos: feitos para o céu, onde tudo em nossa nova constituição encontra correspondência.

    Busquemos agora, dia após dia, a graça para repudiar todo apego à terra e nos recusar a morar nos vales. Talvez tenhamos de passar por eles, mas cuidemos para não parar ali. Não façamos deles a nossa morada permanente.

    Como lemos em Hebreus 13:14:

    Porque não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a que há de vir.