Continuamos a tratar do assunto que nos foi colocado no coração para este tempo: o servo do Senhor.
Estamos reunidos em torno daquele pequeno trecho das profecias de Isaías, no capítulo 41:
Eis o Meu Servo.
Vimos que a lei do serviço é central em tudo neste universo. Este universo existe para servir a Deus.
Vimos que essa lei foi estabelecida na criação deste mundo e do homem, quando, imediatamente após ser constituído, o homem recebeu uma responsabilidade: conservar tudo, desenvolver tudo, para Deus. Um ministério; uma responsabilidade confiada a ele.
E essa lei, estabelecida no princípio, como vocês podem ver, percorre toda a Bíblia e, por fim, aparece no estado eterno:
Os Seus servos O servirão; e verão o Seu rosto.
Uma longa história de serviço e ministério para o prazer e a glória de Deus.
Depois, vimos o método e os meios do serviço. Vimos uma nação escolhida e separada de maneira particular, específica, para servir ao prazer de Deus. O Senhor disse a Faraó:
Deixa ir o Meu povo, para que Me sirva.
Uma nação inteira.
No centro da nação deveria estar a expressão concreta desse princípio universal, para conduzir a nação a ele. Contudo, vimos que aquela nação, eleita para esse propósito, como um todo fracassou — fracassou de maneira triste e terrível.
Então Deus interveio, nessas profecias de Isaías, com uma extensa seção na qual esse Servo é introduzido e apresentado — Aquele que cumpriu completa e perfeitamente, em todos os aspectos, essa lei do serviço, essa satisfação de Deus: o Servo do Senhor, Aquele a Quem se refere o nosso trecho:
Eis o Meu Servo.
Depois de isso ter sido prefigurado e predito — que, no tempo do fracasso da nação inteira, o próximo movimento seria confiar o princípio do serviço a um remanescente —, encontramos muitas referências nessas profecias e em outros lugares que mostram esse remanescente como o depositário de Deus para o serviço do Senhor. Isto é, eles recebem Dele o seu caráter e levam adiante essa grande responsabilidade, privilégio e encargo de servir ao Senhor.
Esse é o Antigo Testamento: uma figura do pensamento divino. Passando ao Novo Testamento, aquela nação é posta de lado; aquele Servo, agora não mais em predição, mas presente, está aqui, cumprindo o Seu ministério, a Sua condição de Servo, e levando-a à perfeição.
Então é introduzida uma nação para ocupar o lugar daquela que foi posta de lado, cumprindo a palavra do Senhor:
O reino de Deus vos será tirado e será dado a uma nação que produza os seus frutos.
Uma nova nação é introduzida. Pedro a chama de “nação santa”; isto é, a Igreja.
E então, cedo demais, há uma repetição: um fracasso geral e uma repetição dos métodos do Senhor — um apelo àqueles que, dentro do corpo geral, formarão para Ele esse remanescente desta dispensação, para assumir, levar adiante e representar o princípio, a lei, da satisfação de Deus e do prazer de Deus, para os quais tudo foi criado.
Bem, isso nos ocupou por bastante tempo nesta conferência. Não devemos gastar mais tempo olhando para trás. Nesta tarde, voltamos às profecias de Isaías, a uma parte que vocês talvez pensem ter sido deixada de fora, mas que é uma miniatura de todo este assunto.
Refiro-me a Isaías 6. É tão familiar a vocês, e, no entanto, sinto-me bastante certo de que o Senhor deseja que algo seja dito sobre isso neste momento.
No ano em que morreu o rei Uzias, eu vi o Senhor assentado sobre um trono, alto e sublime; e a orla das Suas vestes enchia o templo. Acima Dele estavam os serafins: cada um tinha seis asas; com duas cobria o rosto, com duas cobria os pés e com duas voava. E um clamava ao outro, dizendo: Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da Sua glória. E os fundamentos dos umbrais se moveram à voz daquele que clamava, e a casa se encheu de fumaça. Então disse eu: Ai de mim! Pois estou perdido; porque sou homem de lábios impuros e habito no meio de um povo de lábios impuros: pois os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos. Então um dos serafins voou para mim, trazendo na mão uma brasa viva, que tirara do altar com uma tenaz: E com ela tocou a minha boca e disse: Eis que isto tocou os teus lábios; e a tua iniquidade foi tirada, e o teu pecado, perdoado. E ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei, e quem há de ir por Nós? Então disse eu: Eis-me aqui; envia-me. E Ele disse: Vai e dize a este povo: Ouvi, de fato, mas não entendais; e vede, de fato, mas não percebais. Engrossa o coração deste povo, torna pesados os seus ouvidos e fecha os seus olhos; para que não veja com os seus olhos, nem ouça com os seus ouvidos, nem entenda com o seu coração, nem se converta e seja curado. Então disse eu: Senhor, até quando? E Ele respondeu: Até que as cidades sejam devastadas, sem habitantes, e as casas fiquem sem homens, e a terra seja inteiramente assolada, E o Senhor tenha afastado os homens para longe, e sejam muitos os lugares abandonados no meio da terra. E, se ainda nela houver uma décima parte, tornará a ser consumida: como o terebinto e como o carvalho, cujo toco permanece quando são derrubados; assim a santa semente é o seu toco.
Digo a vocês: isto é uma miniatura — uma miniatura de todo o assunto. Aqui temos toda a história da nação condensada.
Vamos procurar, tão rapidamente quanto possível, já que há tanto a percorrer, ver ao menos o esboço do que está aqui. Antes de tudo, portanto, estamos diante da tragédia de uma grande época.
O reinado do rei Uzias havia sido um dos mais gloriosos de Israel — verdadeiramente notável, um ponto muito luminoso em um período longo, sombrio e conturbado. Uzias havia alcançado grande destaque e grande glória.
Mas, como acontece tão frequentemente com os seres humanos, ele não foi capaz de suportar a responsabilidade da prosperidade. Seu coração se exaltou; e, quando isso acontece, é o começo do fim da glória. A calamidade não está longe.
Com o coração exaltado pelo orgulho, Uzias presumiu que sua herança, sua posição e a bênção de Deus lhe davam liberdade para agir. Presumiu isso e tomou as coisas santas em suas próprias mãos.
Vocês conhecem a história. Enquanto fazia isso, foi subitamente atingido pela lepra, saiu da presença do Senhor e, pelo resto da vida, viveu no isolamento de um leproso; depois morreu.
Essa é a história da nação. A nação havia alcançado grande destaque entre as nações — grande prosperidade, poder, riquezas e influência — e então começou a presumir que tudo isso lhe dava liberdade para agir, a tomar tudo como garantido, a pensar que, por haver tanta bênção e tanta responsabilidade confiada pelo Senhor, nada mais importava. “Façam o que quiserem.” E as mãos dos homens se apoderaram das coisas santas para usá-las em benefício de seus próprios objetivos.
Essa é a história de Israel. Sugiro a vocês, queridos amigos, que essa é, em grande medida, a história da Igreja.
Estamos sempre olhando para trás, para os grandes dias da Igreja; e hoje, neste dia em que se comemora o Pentecostes, olhamos para aqueles grandes dias. Que dias foram aqueles! Que poder, que bênção, a presença de Deus tão manifesta no meio deles.
E então tudo foi tomado pelas mãos dos homens, manipulado, modificado e usado para a glória humana. Introduziu-se todo um sistema de pessoas com nomes e títulos pomposos, com homens ganhando destaque; e a Igreja tornou-se um palco para a exibição da glória humana.
Os dias de bênção da Igreja declinaram. Talvez seja dizer demais afirmar que ela foi atingida pela lepra, mas, ainda assim, houve uma tragédia no fim de uma época gloriosa, exatamente como aconteceu com Uzias.
Foi naquele ponto — naquele ponto — que Deus interveio com Isaías e, por meio de Isaías, com o Servo do Senhor. No próprio Isaías, em sua experiência e história, muita coisa correspondia à experiência do grande Servo, seu Mestre, nosso Senhor Jesus. É por isso que chamo isso de uma miniatura de toda a situação.
Se vocês aceitarem como verdadeiro o que eu disse — e penso que é —, aquilo exigia, demandava uma intervenção celestial. Quando a ordem terrena desembocou em tragédia e teve de ficar, em tão grande medida, sem sua glória original e imaculada, Isaías tornou-se a figura, o tipo, da intervenção celestial em um tempo como aquele.
Essa tragédia chegou ao seu ápice em Israel quando o céu interveio com o maior dos Profetas, o Senhor Jesus. O céu irrompeu, em uma grande reação contra aquele estado trágico, e trouxe o Servo de Deus para lidar com ele. O Senhor Jesus veio em um tempo como aquele, um tempo de terrível tragédia entre o povo de Deus.
No ano em que morreu o rei Uzias…
Vocês poderiam expressar isso de várias outras maneiras: em tal tempo, quando tais condições prevaleciam…
Eu vi o Senhor.
Contra o pano de fundo sombrio do fracasso, do colapso e da tragédia, é dada uma visão celestial. Permitam-me sublinhar uma expressão: uma visão celestial. Aqui há uma transição do terreno para o celestial. O céu assume o comando. O céu irrompe. E esse é o caminho da restauração, o caminho da salvação.
Antes de tudo:
Eu vi o Senhor, alto e sublime.
Alto e sublime.
Vocês sabem que essa é uma expressão usada no contexto imediato do Servo do Senhor em Isaías 53:
O Meu Servo procederá com sabedoria; Ele será exaltado e elevado.
É muito impressionante que João, ao escrever seu Evangelho, se refira a Isaías 6 em João 12:41 e diga:
Isaías disse estas coisas porque viu a Sua glória; e falou Dele.
Quem foi que Isaías viu, alto e sublime? João diz que era Jesus.
Esse é sempre o começo de uma grande mudança na situação. É sempre o novo começo de Deus: vê-Lo alto e sublime. Uzias, e tudo o que ele representa, pode ter caído como um ídolo derrubado; mas há Um que está alto e sublime para salvar a situação.
A exaltação do Senhor Jesus significa, em primeiro lugar, que uma obra foi realizada e concluída, sobre a qual o futuro repousa com segurança. Está consumado. Ele não foi elevado, exaltado e glorificado antes de terminar a Sua obra como Servo; e sobre essa obra consumada foi fundamentado todo o futuro.
Sua autoridade universal foi estabelecida:
Toda a autoridade Me foi dada no céu e na terra.
Ele tomou o Seu lugar à direita da Majestade nas alturas. Seu nome está entronizado acima de todo principado, de toda autoridade e de todo nome que se nomeia, não somente nesta era, mas também na que há de vir.
A partir disso, Deus começa de novo. Foi o que fez com Isaías. Onde quer que haja restauração, ainda que seja em um remanescente, por mais imperfeita que seja, há, contudo, alguma restauração à qual o Senhor volta com grande prazer. “Meu tesouro peculiar”, Ele chama o remanescente que surge dessa visão do Senhor alto e sublime.
E, queridos amigos, isso é verdade. Se é tão verdadeiro a respeito da Igreja quanto foi a respeito de Israel que houve perda e tragédia, e que aquelas primeiras condições gloriosas se apagaram — como todos reconhecem e admitem —, então Deus começará como sempre começou: com alguém ou com algumas pessoas, um remanescente, se vocês quiserem, uma pessoa coletiva, recebendo uma nova compreensão e percepção da grandeza de Cristo.
O único caminho — o único caminho —, mas é o caminho seguro; é o caminho de Deus: a grandeza de Cristo, o senhorio de Cristo, a supremacia absoluta de Cristo. Cristo sobre todos, em todos e por meio de todos: alto e sublime.
Esse é o método de Deus ao longo de todas as dispensações. É o Seu método com cada vida individual. Se você caiu em uma tragédia, se o brilho e a glória dos primeiros tempos da experiência cristã se apagaram em sombras ou até em trevas, se há tragédia em sua própria vida espiritual, o que o salvará? Somente uma nova percepção da grandeza de Cristo.
Desvie os olhos da sua tragédia, de si mesmo, dos seus desejos, das coisas ao redor, e erga-os para vê-Lo alto e sublime — grande o suficiente para lidar com a sua tragédia, e grande o suficiente para lidar com a tragédia de um universo, assim como com a da Igreja.
Eu vi o Senhor, alto e sublime; e a orla das Suas vestes enchia o templo.
Na visão celestial, as coisas passaram do templo em Jerusalém, marcado pela tragédia, para o templo no céu. Isaías viu um templo celestial substituindo aquilo que era terreno e havia fracassado: uma casa celestial de Deus.
Esse é o segundo movimento no caminho da restauração. Observem como ele é fiel ao princípio segundo o Novo Testamento: primeiro, sempre primeiro, a grandeza de Cristo — a exaltação de Cristo. Esse é sempre o começo. Depois, a grandeza da Igreja, a grandeza da casa de Deus, a grandeza dessa concepção e realidade de um lugar de habitação de Deus.
Mas sabemos que aquilo que é terreno está em tragédia, e vocês não vão reconstruí-lo. Não vão restaurar algo terreno. A Igreja agora é algo celestial, uma realidade celestial.
Você e eu precisamos nos colocar em terreno celestial se quisermos ser uma verdadeira expressão da Igreja — de sua unidade e de sua vida. Toquem nesta terra, e tocarão em tudo o que divide, em tudo o que traz conflito, em tudo o que contradiz essa ideia divina. Saiam do terreno das coisas e das pessoas terrenas e passem para o terreno celestial; imediatamente, um novo tipo de Igreja se torna evidente. É algo celestial.
Primeiro, o Cabeça da Igreja; depois, a Igreja. Primeiro, o Senhor alto e sublime; depois, o templo do Senhor, que Ele enche. O terreno é substituído pelo celestial.
Senhor, livra-nos das nossas ideias terrenas, das nossas limitações terrenas, das nossas concepções terrenas e das nossas amarras terrenas. Ah, como a igreja terrena contradiz a Igreja segundo o pensamento de Deus!
E a orla das Suas vestes enchia o templo.
As abas das Suas vestes enchiam a casa. Essa é uma linguagem simbólica. Aqui, neste templo ou casa celestial, Cristo permeia tudo e abrange tudo. Ele enche todas as coisas. Não há espaço para mais ninguém nem para qualquer outra coisa.
O fato de Ele encher a Sua casa significa que não há lugar para qualquer outra coisa — pessoas ou coisas. Não há lugar para os deuses deste mundo. Nos conselhos eternos de Deus, Ele foi designado e destinado a encher todas as coisas; e o primeiro lugar que Ele enche é a Sua própria casa, a Igreja.
Isso nos põe profundamente à prova, não é? Homens entraram na casa de Deus, e coisas foram introduzidas nela. Há muita coisa hoje que corresponde à condição dos dias em que o Senhor esteve aqui, a respeito da qual Ele poderia repetir Suas palavras:
Tirai daqui estas coisas; elas não pertencem à casa de Meu Pai.
Tirem daqui estas coisas. Elas não pertencem à casa de Meu Pai. Não condizem com o lugar da morada, da habitação, do Senhor. Tirem-nas.
Essa casa celestial está cheia de Cristo. As vestes ou suas abas são apenas símbolos — o próprio Deus em Sua plenitude, permeando tudo —, de modo que o homem é deposto e não tem lugar ali como homem, assim como Uzias foi expulso. Os sacerdotes o pegaram e o expulsaram do templo.
É preciso abrir espaço para o Senhor em Sua casa celestial.
Então, a próxima coisa na visão — na visão celestial — são os servos celestiais e seu serviço. Eles são chamados de serafins:
Acima Dele estavam os serafins.
Servos celestiais cumprindo um ministério celestial.
Cada um tinha seis asas, e as asas representam diferentes aspectos de seu serviço celestial. Com duas, cobriam, ou velavam, o rosto.
Esse serviço, que dará a Deus a Sua satisfação, alcançará o Seu objetivo, cumprirá o Seu propósito e estará de acordo com Suas intenções originais, é realizado em um espírito de profunda reverência, humildade e temor.
Imagino que esses serafins fossem, eles mesmos, seres belos e gloriosos. Em outras passagens, vocês encontram indicações de que era assim. Mas, independentemente do que fossem em si mesmos, eles se cobriam na presença do Senhor e no serviço do Senhor. Eles se ocultavam. Eles se ocultavam.
Isso é muito diferente, não é, de boa parte do que se chama de trabalho cristão? Ele é usado para colocar pessoas em destaque. Quantos há que se expõem no trabalho do Senhor, e vocês só veem essas pessoas — é com elas que se deparam; são elas que estão em evidência. Mas estes, que cumprem o verdadeiro ministério celestial de Deus, cobrem a si mesmos.
É um espírito de profunda reverência e humildade. Depois, com duas asas, cobriam os pés — os símbolos de seus movimentos, de seu andar, de seu trabalho. Tudo isso permanecia muito encoberto, sob governo e em sujeição àquele trono.
Eles estão diante do trono; estão na presença do Deus santo. Todos os seus caminhos, seu andar e seu trabalho são governados por esse senso de santidade e reverência. Não estão simplesmente correndo de um lado para outro, fazendo isto e aquilo segundo seus próprios caprichos, fantasias, impulsos e ideias. Tudo é governado sob a disciplina do céu.
Cobriam os pés. E com duas asas voavam. Só voavam por ordem Dele; todos os seus movimentos eram em obediência a Ele. Voavam para fazer a Sua vontade.
Seu voo era muito rápido e imediato. Ao discernirem intuitivamente o pensamento Dele sobre qualquer assunto, estavam instantaneamente prontos para cumpri-lo. Essa é a natureza do servo do Senhor: obediência, sujeição ao governo, disciplina, humildade, reverência e, ainda assim, prontidão para fazer a Sua vontade.
E um clamava ao outro: Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos.
O que é isso? Penso que essa é a essência de tudo — a essência de todo o ministério deles, a essência do ministério celestial.
Quando vocês têm um vislumbre do céu, em qualquer passagem da Bíblia, o que encontram acontecendo ali? Adoração. Adoração. Adoração incessante.
Essa é a grande realidade que se manifesta na consumação, no livro de Apocalipse. No fim, na consumação dos séculos, Deus tem o Seu propósito realizado por meio do Cordeiro, e o céu está cheio de adoração. Adoração, adoração, adoração. Esse é o ministério celestial.
O que é adoração? A adoração, naturalmente, é o serviço do Senhor, porque adorar é dar a Deus os Seus direitos — dar a Deus os Seus direitos. Tudo retorna ao Senhor; tudo é atraído para Deus. Isso é adoração.
Todas as coisas são conservadas para Ele e dirigidas a Ele. Ele é o centro, e toda corrente flui em Sua direção. Esse é o significado da adoração, e esse é o serviço último e supremo: eles adoram o Senhor.
A adoração deve caracterizar tudo em nossa vida. Nossos lares devem ser mantidos para o Senhor, de modo que não sejam apenas lugares onde temos cinco ou dez minutos, ou uma ou duas horas, de oração e adoração. Tudo deve ser para o Senhor — tudo para o Senhor.
Tudo o que temos deve ser uma expressão de adoração; nós o conservamos para Deus. Tudo. A vida inteira deve estar voltada para Deus em cada assunto. Isso é serviço. Isso é ser servo: cuidar para que Deus tenha o Seu lugar e os Seus direitos, e participe de tudo.
O que vocês poderiam esperar, o que nós poderíamos esperar, e o que aconteceria subitamente se isso nos viesse como uma visão — se tivéssemos o céu aberto assim — é o quebrantamento do servo.
Ai de mim! Ai de mim!
Com tudo o que poderia ser dito sobre esse assunto, permitam-me resumir assim: vocês nunca, nunca serão servos do Senhor segundo Jesus Cristo, segundo o Seu princípio de serviço, até que tenham sido profundamente humilhados aos pés de Deus.
Ah, como Ele honrava o Pai — como Ele honrava o Pai, sempre, em todo tempo e em todas as coisas. Ele era o Servo da honra e da glória do Pai.
Embora nunca tenha sido verdade a respeito Dele, pessoalmente, que fosse um homem de lábios impuros, para nós, queridos amigos, não haja engano: o caminho de ser servo é o caminho do despedaçamento dessa vida do eu, da exposição da nossa própria corrupção.
Isso traz alguma esperança a vocês? Eu me esforço para extrair alguma esperança disso. O Senhor certamente Se empenha infinitamente em nos despedaçar, nos quebrar, nos esvaziar e nos fazer descer ao pó. Mas, se isso tem algo a dizer para o nosso encorajamento e consolo, é que esse é o caminho do serviço. É o caminho de um serviço maior, o caminho de sermos capazes de servir ao Senhor.
No princípio, em algum lugar deste universo, havia um grande ser glorioso que era um ministro de Deus — o querubim ungido que cobria. Glorioso! Mas, quando passou a dar importância a si mesmo e a pensar que tinha em si a fonte de tudo, que era autossuficiente, perdeu seu ministério por toda a eternidade. Perdeu seu lugar na glória.
Isso é sempre verdade. Qualquer orgulho, qualquer exaltação de si mesmo, autossuficiência, confiança em si mesmo, qualquer forma de egocentrismo — qualquer egoísmo — é o caminho para arruinar a nossa utilidade para Deus. Não haja engano quanto a isso.
Assim, era necessário, na reação de Deus à situação, tanto em Israel quanto na Igreja, que o instrumento para o Seu propósito de restauração viesse a existir inteiramente esvaziado, enfraquecido e quebrantado — levado ao lugar onde não há nada a dizer senão:
Ai de mim.
Isso abre uma perspectiva quando chegamos a esse ponto, como aconteceu com Isaías: primeiro, o quebrantamento do servo; depois, por meio do quebrantamento, a unção.
O que vejo aqui é o elemento da unção: a brasa viva do altar, embebida no sangue do sacrifício, viva com o fogo dentro dela. O sangue e o Espírito juntos — os dois símbolos da purificação e da capacitação.
No sistema levítico era assim, não era? O sangue e o fogo do altar eram para a purificação do sacerdócio e para constituí-los servos de Deus no serviço divino.
Assim, a unção desse servo significava que ele precisava conhecer o poder do sangue em sua própria experiência. Todo verdadeiro serviço a Deus tem de proceder de um conhecimento pessoal da eficácia do sangue do Cordeiro.
A tremenda efetividade e eficácia desse sangue precisam estar profundamente enraizadas, não em nossa doutrina e teoria, mas em nossa experiência e história. Ah, o valor infinito do sangue! E, de modo correspondente, o poder infinito do Espírito.
Precisamos conhecer, em nossa experiência, o poder de Deus que purifica e limpa, mas que também fortalece e vivifica. Esse é o preparo do servo.
E, quando vocês chegam a esse ponto, vem o chamado do servo:
Ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei, e quem há de ir por Nós?
Isso parece contradizer diretamente o que eu disse ontem à noite: não há nada voluntário nesse serviço; ele é obrigatório. Mas não é uma contradição. Pensem um pouco além da superfície.
Não, esse serviço é obrigatório. É o serviço do escravo, que não tem opção, alternativa nem direito. Contudo, aqui está ele, suspenso, por assim dizer, no ar:
A quem enviarei?
À espera de uma resposta, à espera de um voluntário.
Vejam como tudo havia sido muito pessoal para esse homem até esse ponto. Antes de tudo, ele tinha um nome: Isaías — “a salvação do Senhor”. Seu próprio nome indicava seu ministério, um senso de destino na própria designação que trazia.
Talvez a maioria de vocês não entenda isso, mas alguns talvez entendam. Desde os seus primeiros dias, vocês tinham uma percepção — embora não fossem salvos, embora não conhecessem o Senhor — de que havia algo além desta vida nesta terra e neste mundo ligado à sua existência.
Vou ilustrar com a minha própria experiência. Não quero dar a entender que sou algum grande servo, mas acontece que estou no serviço do Senhor. Lembro-me de que, quando era um menino pequeno, de uns cinco, seis ou sete anos, uma parenta me levou para conhecer um daqueles antigos teólogos escoceses, o Dr. Blake, então o idoso pastor de oitenta e dois anos da grande Igreja Wellington, em Glasgow.
Ela me levou ao escritório dele. Ele pôs a mão no meu ombro, puxou-me para junto de si, olhou para mim e disse: “Meu menino, quando você crescer, vai ser pastor”.
Uma ideia dessas nunca havia me ocorrido — ser pastor, quando eu tinha apenas seis ou sete anos. Mas lembro-me de que algo se moveu dentro de mim quando ele disse aquilo e, sem saber o que estava dizendo, respondi: “Eu gostaria de ser”.
Ele pôs a mão sobre a minha cabeça e disse: “Deus o abençoe, meu menino, e faça de você um dos Seus servos”. Tive de admitir que os anos que se seguiram não tiveram muito do serviço do Senhor nem da glória do Senhor, mas aquilo nunca me deixou. Conservou algo dentro de mim, como um senso de destino.
Isaías tinha algo assim em seu próprio nome. E então, como eu disse, tudo isso era tão pessoal para ele. Havia recebido uma visão celestial; havia sido tocado pela brasa viva; havia ouvido a voz dizendo:
Eis que isto tocou os teus lábios; e a tua iniquidade foi perdoada.
O que mais vocês querem para fazer de alguém um servo e convencer um homem de que ele tem um chamado? Antes de se comprometer, ele já havia sido alcançado por Deus. Não há nada voluntário nisso; tudo é soberano da parte de Deus.
Então, o que dizer desse chamado que fica suspenso?
A quem enviarei, e quem há de ir por Nós?
Por que esse elemento aparentemente opcional? Não era para fazer dele Isaías, o profeta; isso já estava inteiramente decidido na soberania de Deus. Mas olhem para o que ele tinha de fazer.
Leiam a última seção do capítulo. Ora! Ele não foi chamado para um trabalho popular. Não foi chamado para nada que lhe agradasse, nada que lhe desse satisfação pessoal.
Não, não era um trabalho popular nem agradável aquele para o qual ele foi chamado. Poderia algum homem ser chamado para algo mais doloroso e mais angustiante?
Vai e dize a este povo: Ouvi, de fato, mas não entendais.
O que você acha disso, ministro? É o fracasso do seu ministério escrito sobre ele desde o começo:
Vede, de fato, mas não percebais. Engrossa o coração deste povo, torna pesados os seus ouvidos e fecha os seus olhos; para que não veja, nem ouça, nem entenda.
O Senhor não nos deixa em dúvida sobre esse assunto. Se vocês vão prestar a Ele um verdadeiro serviço, não serão pregadores populares. Não vão obter nada disso para si mesmos. Vão passar por dificuldades. Em sua maioria, as pessoas não receberão a palavra de vocês. Não gostarão do que vocês disserem.
Se a tradição é verdadeira, Isaías foi o homem que, no fim, foi serrado ao meio. O martírio estava no percurso desse ministério, desse serviço. Você o aceitará? Não: “Você será profeta?”. Não: “Você será servo?”. Mas: “Você Me servirá, ainda que não obtenha nada disso para si?”.
Talvez seja aí que entre o elemento voluntário. Não, Ele não vai impor essa honra; Ele procura cooperação. Quer que saibamos em que estamos envolvidos. Quer que encaremos isso de frente e olhemos diretamente para essa realidade.
Esse tipo de ministério do remanescente, que se mantém firme em favor da plenitude do pensamento de Deus, não será bem recebido por todo Israel. Na verdade, encontrará todo tipo e grau de rejeição. Vocês serão desprezados e rejeitados pelos homens.
O profeta entrou na experiência Daquele que viu — Aquele de Isaías 53:
Desprezado e rejeitado pelos homens; homem de dores e experimentado no sofrimento.
Isaías conhecia muito disso.
Por favor, não tenham ilusões a esse respeito. Conheço a ideia de jovens que desejam entrar no ministério e na obra do Senhor e se tornar grandes evangelistas, grandes pregadores ou alguma outra coisa grandiosa. Ah, não é isso.
Quanto mais perto vocês chegarem do coração de Deus, quanto mais profundamente forem batizados na plenitude do pensamento e do propósito de Deus, menor será o número de seus seguidores e de seu público, mais estreito será o caminho de sua aceitação e menos popular será o seu ministério. É isso que se diz aqui.
E, queridos amigos, talvez vocês estejam pensando apenas em termos pessoais: um profeta. Aqui estamos, várias irmãs, vários irmãos, vários jovens, e vocês talvez digam: “Tudo isso pode estar certo para um profeta como Isaías, mas onde eu entro nisso?”.
Vocês não ouviram o que tenho procurado dizer? Esse serviço e ministério é o ministério de um grupo, assim como de indivíduos — um remanescente. Vocês podem cumprir esse mesmo serviço e ministério, não individualmente e de forma separada, mas em virtude de sua ligação com um remanescente, com um corpo do povo do Senhor que se mantém firme por Ele dessa maneira.
Vocês o cumprem de maneira tão verdadeira coletivamente, como corpo, quanto individualmente. E conhecerão isso; enfrentarão tudo isso em virtude de seus relacionamentos e vínculos. Enfrentarão isso não por causa de si mesmos, mas por causa desses vínculos.
Mas não preciso dizer mais nada sobre isso. Aqui estamos: penso que a situação está claramente definida. Em Jesus Cristo, como Servo e em Seu serviço, tudo isso foi verdadeiro a respeito Dele, o grande Servo. E, se o Mestre seguiu esse caminho, nós, Seus servos menores, certamente devemos dizer:
Eis-me aqui; envia-me.