Agora, pois, se perdoares o seu pecado…; e, se não, risca-me, peço-Te, do Teu livro, que tens escrito.
—Êxodo 32:32
Porque eu mesmo poderia desejar ser anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, que são meus parentes segundo a carne.
—Romanos 9:3
Creio, queridos amigos, que nessas duas declarações de dois servos notáveis de Deus — talvez os dois mais notáveis das duas dispensações, a antiga e a nova, Moisés e Paulo — temos representado o ponto mais elevado do serviço ao Senhor.
Todos nós nos preocupamos com essa questão de servir ao Senhor, e estamos sempre procurando saber como esse serviço pode ser realizado da melhor maneira e como podemos alcançar o nível mais elevado possível de serviço a Ele.
Repito que essa declaração, essa oração de Moisés — e, se vocês consultarem a nota à margem das palavras de Paulo, verão que aquilo também era uma oração; a palavra desejar é, na verdade, oração, ou orar: “Eu poderia orar” —, essas duas orações desses dois servos notáveis de Deus representam o grau mais elevado de serviço ao Senhor.
Isso porque não há nada além dessas declarações, absolutamente nada além delas, no que diz respeito à abnegação. Não se pode ir além disto:
Risca-me […] do Teu livro, que tens escrito.
—Êxodo 32:32
Anátema, separado de Cristo.
—Romanos 9:3
Não há grau algum além desse.
A expressão máxima da abnegação está nessas orações. Elas representam uma preocupação com o povo de Deus maior não apenas do que a bênção pessoal, a vindicação pessoal, a posição ou a reputação, mas do que a própria vida.
É apenas outra maneira de esses homens dizerem: “Minha vida começa e termina com o povo de Deus. Não tenho nada além disso. E, se eles sofrerem alguma perda ou algum sofrimento que eu, de alguma maneira, pudesse ter evitado, então deixo de cumprir todo o propósito da vida e o próprio propósito da minha salvação”.
Essa é a soma e a finalidade de tudo. Mas que dedicação! Que diferença! Isso é serviço.
Havia certas coisas que Paulo e Moisés tinham em comum e que culminaram nessas orações. Observem o contexto das passagens; observem o pecado do povo do Senhor.
Êxodo 32 é o relato daquele terrível fracasso sob a liderança de Arão: a construção do ídolo, a adoração a ele e o afastamento de Deus:
Estes são teus deuses, ó Israel.
—Êxodo 32:4
A apostasia do povo do Senhor.
Quanto ao contexto de Paulo, trata-se daquilo que Israel havia feito ao Senhor ao matar Cristo.
A questão é que essa dedicação não era dirigida a um povo que a despertava por sua bondade, pela nobreza de seu caráter ou por sua natureza amável. Essa dedicação é tremendamente impressionante quando reconhecemos que tipo de pessoas eram aquelas às quais esses corações se entregaram tão inteiramente.
Isso é uma repreensão para nós em nosso serviço. É tão fácil dar, dedicar-nos, trabalhar por aqueles que nos dão algo em troca, que demonstram bondade e que são pessoas agradáveis — pessoas que consideramos dignas desse esforço.
Aqui está um amor levado ao extremo por pessoas que eram tão completamente indignas dele. Isso Paulo e Moisés tinham em comum.
Mas, além disso, tinham mais isto em comum: eles próprios eram alvo das acusações e da perseguição daquele povo. Quando Moisés procurava tirar o povo do Egito, eles se voltaram contra ele e o culparam pela situação difícil em que se encontravam. Mesmo depois desse episódio, muitas vezes insultaram Moisés e lhe atribuíram todos os seus problemas.
Quanto a Paulo, como sofreu nas mãos de Israel — dos judaizantes e de todos os demais! Como sofreu! Eles o denunciavam como traidor.
E, no entanto, embora esses homens fossem pessoalmente alvo da oposição daqueles aos quais haviam dedicado a vida, este era o espírito e a atitude deles:
Se perdoares o seu pecado…
—Êxodo 32:32
Moisés interrompe a frase; ele não a termina. Mas prossegue:
E, se não, risca-me […] do Teu livro.
—Êxodo 32:32
Eu mesmo poderia desejar ser anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos.
—Romanos 9:3
Que espírito de serviço! Digo novamente: uma terrível repreensão para nós.
Aqui estão esses homens exemplificando o Espírito de Cristo. Esse é o ponto. Estamos em Gálatas, e basta nos lembrarmos:
Fez-Se maldição por nós.
—Gálatas 3:13
Eu mesmo poderia desejar ser anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos.
—Romanos 9:3
Ele Se fez maldição.
Ele levou o espírito de serviço até o ponto de ser separado de Deus — aquele momento eterno em que o Pai ocultou o Seu rosto — por amor de Seus irmãos. Abram em Hebreus, e sabemos que foi por Seus irmãos:
Eis-Me aqui a Mim e aos filhos que Deus Me deu.
—Hebreus 2:13
Os irmãos, sim.
Tão completa foi a Sua entrega que Cristo realmente sofreu, naquele momento, a perda de Deus — a perda de tudo. Esse é o Espírito do próprio Cristo. Quão longe isso deve nos levar!
Agora, quando vocês examinam essas duas passagens em seu contexto, há muito a aprender. Observem que, em cada caso, o capítulo anterior é maravilhosíssimo e abençoado.
Êxodo 31 apresenta Moisés no monte, em comunhão com Deus, recebendo o modelo do tabernáculo. Que coisa maravilhosa era aquela! Era o monte da revelação, podemos dizer, no sentido da revelação de Jesus Cristo em toda a plenitude de Sua obra mediadora, pois é isso que o tabernáculo representa. Esse modelo foi mostrado no monte, e Moisés estava ali com Deus. É um capítulo maravilhoso.
Logo adiante, tudo isso será retomado e colocado em prática. Mas há um capítulo sombrio no meio.
Vejam Romanos. Todos sabem do que trata Romanos 8. Poucas coisas são mais belas e gloriosas do que as palavras finais desse capítulo:
Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por Aquele que nos amou. Pois estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem as potestades, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.
—Romanos 8:37-39
Na carta de Paulo não havia capítulos; ela prossegue diretamente para aquilo que, em nossa divisão, é Romanos 9. Maravilhoso é Romanos 8. Somos elevados às alturas da maravilha do amor divino. Logo adiante, tudo isso será retomado em Romanos 12 e nos capítulos seguintes; agora aquilo começa a ser colocado em prática. Mas, novamente, no meio, há o capítulo sombrio — o capítulo sombrio.
Aqui está aquilo para o qual somos chamados: o serviço da casa de Deus, o serviço da revelação de Jesus Cristo, o serviço do amor de Deus — tudo isso deve ganhar forma concreta no povo do Senhor.
Mas, entre a revelação e a concretização, há uma batalha terrível. Em cada caso, nesses casos — e é sempre assim —, há uma batalha terrível no meio. Sempre há aquilo que encontramos em Êxodo 32: a entrada do inimigo para estragar tudo, a manifestação da carne nos homens, o espírito de idolatria.
Isso é algo muito mais amplo e maior do que simplesmente a adoração de algum ídolo. É esse movimento tão abrangente de afastamento de Deus, alimentado pela ação de forças malignas sobre a natureza humana. Esse é o campo da batalha — aquilo que precisa ser enfrentado e removido do caminho.
Moisés e os levitas enfrentaram isso e o removeram do caminho; então puderam prosseguir com o tabernáculo. Eles trataram dessa questão em Israel de maneira muito drástica.
Creio que esse é o ponto da carta aos Gálatas. Espero não insistir em um ponto de modo a criar dificuldades para algum irmão, mas vocês sabem que posso dizer isto aqui: a carta aos Gálatas registra uma batalha travada até o fim, que nunca mais precisou ser travada daquela mesma maneira.
De uma vez por todas, ao longo daquela carta, Paulo resolveu a questão dos judaizantes em seu tempo, e aquilo ficou encerrado. Eles estavam fazendo exatamente o que aquelas pessoas faziam ao pé do monte. Há uma batalha, uma batalha total, para deixar o caminho livre para o propósito de Deus.
Agora, isso, naturalmente, nos apresenta o ponto central desta mensagem: a dedicação — a dedicação total ao propósito de Deus para o Seu povo — fará a exigência máxima de qualquer servo de Deus. Ela porá à prova e revelará o nosso espírito de serviço.
Se realmente vamos servir a Deus dessa maneira absoluta, isso nos levará ao ponto em que não teremos mais nada em que nos apoiar — nossos interesses pessoais, nossa posição ou nossa bênção. Trata-se simplesmente de Deus, e somente de Deus. Se Deus não o fizer, estamos acabados, sem nada pelo que viver.
Não temos nada pelo que viver. Não temos alternativa. Não temos uma segunda linha de defesa. Estamos comprometidos com o propósito e os interesses do Senhor até a última gota de nosso sangue. E, se isso não se realizar, então não há mais nada para nós.
O propósito de Deus e o Seu povo exigirão isso. Mais cedo ou mais tarde, descobriremos. Não adianta, não adianta. Não podemos ter alternativa alguma; não podemos ter um segundo caminho. É tudo ou nada — tudo ou nada.
Seremos, e devemos estar, preparados para chegar ao ponto de nós mesmos sairmos inteiramente do caminho, completamente do caminho, em todos os sentidos, se assim o Senhor puder alcançar Seu objetivo. Contanto que Ele alcance Seu objetivo, nós não importamos.
Foi isso que Moisés disse: “Eu não importo. Minha salvação não importa. Minha vida não importa”. Paulo disse o mesmo. O que importa é que o Senhor alcance Seu objetivo em Seu povo. Se isso não for alcançado, então não sei para que estou vivo. Não sei para que fui salvo.
Como isso está distante de sermos salvos para obter coisas para nós mesmos, nesta vida e na eternidade — para sermos felizes, para sermos abençoados e para recebermos toda espécie de coisas! Essas são as coisas oferecidas, desde que aceitemos ser salvos. Mas descobrimos que somos salvos para sermos introduzidos no grande propósito de Deus, como Seus servos.
Não adianta reclamar — não adianta reclamar — nem dizer: “Bem, isso custa caro demais”, ou: “Isso custa caro”, ou: “Isso é um trabalho difícil”. Não adianta. Estamos comprometidos com isso até a morte. Estamos simplesmente comprometidos até a morte.
O Senhor disse isso logo no princípio:
Quem achar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua vida por amor de Mim achá-la-á.
—Mateus 10:39
É uma questão de vida. Salvar ou perder o quê? A bênção? Não — a sua vida. Nada menos do que isso está em jogo.
Às vezes, nosso coração está de fato tão ligado àquilo que importa ao Senhor — não a nós mesmos, mas ao Seu povo, à Sua igreja —, tão ligado a isso, que não temos mais nada pelo que viver. Esse é o nosso horizonte. Esse é o nosso princípio e o nosso fim. É somente para isso que estamos nesta terra: para que o Senhor tenha, em Seu povo, aquilo em que colocou o Seu coração.
Bem, essa é a palavra. Essa é a mensagem. Não estou buscando algo para mim mesmo na obra de Deus ou na salvação. Não estou buscando elogios. Não estou buscando nome ou reputação. Não estou buscando ganho algum. Estou inteiramente comprometido com aquilo que importa ao Senhor e com o Seu propósito em um povo.
Longe, muito longe de causar dano a essas pessoas — de ferir o povo do Senhor. Há muitos cristãos ferindo o povo do Senhor, causando muito dano ao povo do Senhor e aos interesses do Senhor em Seu povo. Longe disso, preferiríamos morrer a permitir que o Senhor perdesse alguma coisa em Seu povo.
Esse é o espírito dessas palavras, e essa é a mensagem: simplesmente isto — um chamado ao serviço, a reconhecer o que esse serviço é. É o serviço de Cristo, e o serviço de Cristo foi obediente até a morte, sim, a morte de cruz.
Isso me leva a esta última palavra, muito breve, que é outra reafirmação de algo dito recentemente: os sofrimentos e as provações peculiares, específicos, dos servos do Senhor.
Não sofremos pela nossa salvação. Não pagamos preço algum pela nossa redenção. Tudo isso é gratuito, e o recebemos sem dinheiro e sem preço. Nunca associem os seus sofrimentos à sua salvação. Mantenham sempre essas duas coisas separadas.
Mas não é preciso lhes dizer: quando vocês entram em uma vida de dificuldades, adversidades, provações, aflições e sofrimentos, por que isso acontece? Porque vocês não foram chamados apenas à salvação; foram chamados ao serviço.
A condição de servo exige essas provações mais profundas, nas quais a escória do interesse próprio é removida. Esse é o efeito de nossas adversidades e de nossos sofrimentos, se produzirem o efeito correto: tratar inteiramente de toda essa questão do interesse pessoal, do interesse egoísta e de nós mesmos ocupando lugar de destaque na obra de Deus.
O fogo, o fogo trata da escória do ego, que é sempre a ameaça ao serviço.
Olhem para o Senhor Jesus, o Servo por excelência, o grande Servo. Uma coisa que é mais clara do que qualquer outra, mais destacada Nele, é que, embora fosse o eterno Filho de Deus encarnado, Ele pôde deixar de lado a Sua glória, cingir-Se com a toalha, tomar uma bacia com água e lavar os pés dos discípulos.
Ali está a imagem do Filho esvaziando-Se inteiramente de Si mesmo, de reputação, de importância própria, de prestígio, de posição, de dignidade e de tudo o mais. Desapareceu — o espírito do ego.
Porque o Filho do Homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida em resgate de muitos.
—Marcos 10:45
Esse é o espírito disso. Ele nos leva até o fim. Nada de nós mesmos nos resta nesse serviço.
Mas, como eu estava dizendo, a explicação de nossas provações, de nossos sofrimentos e de nossa disciplina é simplesmente esta: tornar-nos servos melhores, tornar-nos servos verdadeiros. Essa obra foi realizada em Moisés até que fosse possível dizer:
E era o homem Moisés mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra.
—Números 12:3
Por isso, Moisés se ergue como um gigante em todo o Antigo Testamento, com uma palavra, um título: Moisés, o servo de Deus.
Quanto a Paulo, não precisamos dizer mais: servo de Jesus Cristo. Se alguma vez houve um servo nesta dispensação, ele o foi. Mas olhem para esse homem: “Eu poderia orar para ser anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos”. Esse é o espírito de serviço.
Que o Senhor incuta esse espírito em nós.