O Senhor tem nos conduzido, nestes dias, a nos ocuparmos com a revelação de Jesus Cristo.
Até aqui, o apóstolo João tem sido nosso intérprete. Agora vamos deixar que Paulo nos diga algo a respeito desse assunto.
Abram, portanto, na segunda carta de Paulo aos Coríntios, em 2 Coríntios 4:6.
Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, é Quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo.
A luz do conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo. Coloquem ao lado disso estas palavras de sua carta aos Gálatas, em Gálatas 1:15-16.
Mas, quando aprouve a Deus revelar Seu Filho em mim.
Aprouve a Deus revelar Seu Filho em mim. “Resplandeceu em nossos corações”; “na face de Jesus Cristo”.
Essa é a maneira como ele descreve a grande revolução de sua vida. Esse é seu testemunho pessoal do que aconteceu quando viu a face de Jesus Cristo.
E, como vocês podem perceber, ele comparou isso à ordem divina na criação. Deus, que disse: “Haja luz”, repetiu isso de maneira espiritual em meu coração.
A implicação é clara: aquilo que aconteceu na criação, quando Deus ordenou que a luz resplandecesse, aconteceu em Paulo quando ele viu a face de Jesus.
E, quando vocês aplicam isso a um homem como Saulo de Tarso, mais tarde Paulo, as implicações são realmente tremendas.
É uma admissão tremenda da parte dele. Porque, quando Deus disse no princípio, na criação: “Haja luz”, não havia luz. Tudo era escuro. Havia trevas sobre a face do abismo.
E aqui está esse homem — um homem como sabemos que ele era, com toda a iluminação que alegava possuir — dizendo: “Até que vi a face de Jesus, era assim que eu estava”.
Antes, ele jamais teria admitido que estava nas trevas e que tudo era escuridão. Teria afirmado ser um dos homens mais esclarecidos.
Agora, quando viu a face de Jesus, ele disse: “Percebo agora que, até então, as trevas primordiais da criação eram minha condição espiritual”.
Mais do que isso: quando Deus disse pela primeira vez: “Haja luz”, tudo estava em caos — um estado de desordem, desorganização, sim, caos.
Esse era Saulo de Tarso. E Paulo ousa dizer aqui: “Afinal, com tudo o que eu tinha e havia aprendido, e com tudo o que afirmava ser, até que vi a face de Jesus, era assim que eu estava. Quero dizer: um caos”.
E, além disso, até que Deus dissesse: “Haja luz”, havia completa desolação e esterilidade — realmente não havia coisa alguma ali.
Tudo isso significa que ele percebeu — ah, sim, vocês encontrarão muito sobre isso em seus escritos posteriores, e Romanos o confirma — que, para ele, a face de Jesus significava luz em contraste com as trevas.
Não apenas um pouco mais de luz, mas o poderoso contraste entre luz e trevas. Ver a face de Jesus significou, para ele, ordem em lugar do caos, sentido em lugar da falta de sentido e, ainda, fecundidade em lugar da esterilidade e da desolação.
Digo que as implicações são tremendas; mas, ao dizer isso, ele realmente admite tudo aquilo.
E, queridos amigos, embora o modo e a maneira como nossa vida e experiência cristãs começam possam variar — pode haver muitas maneiras diferentes pelas quais entramos na nova vida em Cristo —, por mais variados que sejam os caminhos, essas devem ser as marcas e características de todos os que entram nesse relacionamento com o Senhor Jesus.
Deve ser como passar verdadeiramente das trevas para a luz; não apenas receber alguma luz, mas experimentar a diferença entre o dia e a noite, entre a noite mais escura e o dia mais luminoso.
Deve ser a diferença entre o caos, a confusão e a desorganização, de um lado, e a ordem — uma bela ordem, cheia de sentido —, de outro; entre o vazio, a ausência de conteúdo e a carência, de um lado, e a plenitude, a fecundidade e a abundância, de outro.
Deve ser assim em todos os casos.
Mas observem o ponto principal e grandioso de tudo isso: tudo estava na face de Jesus Cristo. Na face de Jesus Cristo.
Quando isso aconteceu, a pergunta foi: “Quem és Tu?” A resposta veio clara: “Eu sou Jesus. Eu sou Jesus”.
Nunca, nunca conseguiremos compreender as tremendas — e não estamos exagerando quando dizemos extraordinárias — implicações que aquela palavra, “Jesus”, teve para aquele homem naquele momento. Tudo isso, tudo isso, na face de Jesus.
É nisso que quero me deter por alguns momentos, porque esse é realmente o ponto central. Há muito que se pode dizer, mas queremos realmente sentir a força desta mensagem.
É claro que sabemos que o uso da palavra face é metafórico. Na língua original, a palavra significa mais do que simplesmente semblante; ela também traz consigo a ideia de pessoa ou personalidade.
Entendemos isso, mas, metaforicamente, a face é a expressão da pessoa. Portanto, está envolvido tudo o que há na Pessoa de Jesus Cristo, tudo o que Paulo viu e passou a conhecer por experiência.
Agora, é isto que quero enfatizar logo de início. Se vocês e eu, queridos amigos, vamos fazer algum progresso semelhante ao que Paulo fez como recém-convertido e como cristão em crescimento; se vamos ter algo do peso que ele teve em sua influência e em seu impacto espirituais; e se vamos ter alguma importância na obra do Senhor, como ele teve, uma coisa é absolutamente essencial.
Agarrem-se a isto — você que é o cristão mais novo, agarre-se a isto, e todos os demais também. Se tomarmos nossa salvação, nossa conversão ou qualquer coisa relacionada a ela como algo em si mesmo, haverá limitação.
Precisamos ver tudo à luz da Pessoa de Jesus Cristo. Isto é, não devemos considerar a salvação como um dom em si mesmo, nem qualquer outra coisa na vida cristã como um dom em si mesmo.
Precisamos olhar para isso e dizer: “O que isso revela a respeito de Quem o dá? O que isso revela a respeito de Cristo? O que isso significa a respeito da fonte da minha salvação?”
Talvez vocês não compreendam o ponto, mas ele é de importância infinita, porque todo progresso na vida cristã e todo poder no serviço cristão vêm, não de compreender, apreender e desfrutar a salvação em si, mas de ver Jesus.
Porque, vejam, Jesus é a totalidade de toda a plenitude divina.
Ao longo de uma extensa experiência no ministério e na obra cristã, tenho convivido muito com cristãos e tido bastante contato com o que podemos chamar de centros missionários e salões de missão.
Maiores ou menores, em alguns casos havia ali um número muito grande de cristãos reunidos. Ao ouvir suas orações ou seus cânticos e observar sua vida cristã, vemos que são cristãos há anos — há décadas.
E tudo o que têm para contar é sobre o dia em que foram salvos, ou sobre amigos que vieram ao Senhor, quando o Senhor os encontrou. Eles continuam lá atrás.
Quando vocês se aproximam dessas pessoas, que têm anos de vida cristã, com qualquer coisa que vá além do mais elementar, elas não sabem do que vocês estão falando. Estão em outra faixa; não conseguem acompanhar. Vocês não têm sobre o que trabalhar.
Elas não cresceram. Não conseguem receber alimento sólido. Tudo o que querem, como dizem, é o evangelho simples: “Vamos ouvir o evangelho simples”.
Agora, isso não pretende ser uma crítica ou um julgamento, mas uma ilustração. O que elas fizeram? Tomaram a salvação em si mesma e não viram a salvação como apenas uma parte de algo muito, muito maior, mais imenso.
E essa plenitude maior é Cristo. É a coisa, e não a Pessoa, que ocupa sua atenção; e isso faz toda a diferença.
Vejam, volto a este ponto. O que explica o avanço impetuoso de Paulo na vida cristã, seu rápido progresso espiritual, sua estatura espiritual e sua tremenda influência sobre a dispensação?
A resposta é: ele viu tudo na face de Jesus — tudo.
E, vejam, Paulo era judeu. Tanto pessoalmente quanto como nação, os judeus buscavam luz. Estavam sempre à procura de luz, afirmando ser os mais esclarecidos; mas era luz que buscavam o tempo todo — luz em relação a Deus e ao homem em sua relação com Deus.
E o próprio Paulo diz que, embora isso fosse verdade a seu respeito, como a respeito de todos os judeus — talvez ainda mais no caso dele do que no de muitos de seus compatriotas —, toda aquela busca por luz só começou a encontrar resposta quando ele viu a face de Jesus Cristo.
Isso foi algo tão tremendo, tão avassalador para ele.
A vida cristã e tudo o que diz respeito a ela são, em sua totalidade e em seu fundamento, uma revelação de Jesus Cristo no coração.
Isso pode estar ali na Palavra. Agora, observem: Paulo provavelmente conhecia o Antigo Testamento tão bem quanto qualquer outra pessoa, e melhor do que a maioria. Estava tudo ali.
Mas somente depois que isso aconteceu ele realmente compreendeu seu Antigo Testamento, ao vê-lo na face de Jesus Cristo.
Vocês nunca conhecerão sua Bíblia como ela precisa ser conhecida para produzir efeito espiritual até que, pelo Espírito Santo, vejam Jesus Cristo em toda parte.
Não a Bíblia, não os livros da Bíblia, não a análise dos livros da Bíblia, não os temas e assuntos da Bíblia; mas, em todos eles e por meio de todos eles, a face de Jesus.
Isto é, de que maneira Ele é representado aqui, de que maneira Ele está implícito aqui, o que isso significa em relação a Ele próprio. Essa é a chave.
Paulo nunca teve essa chave até que viu a face de Jesus. E então, depois disso, para onde quer que olhasse — para qualquer lugar neste universo, na Bíblia ou fora da Bíblia —, ele via a face de Jesus. Isso estava claro para ele onde quer que olhasse.
E isso não é exagero. Sabem, às vezes, se vocês olham diretamente para o sol, depois, para onde quer que olhem, não veem as coisas que estão ali; veem apenas o sol. Ficam cegos para todo o restante.
Foi exatamente isso que aconteceu com Paulo. Em certo sentido, ele ficou até mesmo cego para todo o restante. Vocês já viram a face de Jesus?
Tudo na vida, tudo no caráter, tudo na perseverança em meio à provação, à oposição e ao sofrimento, tudo na vitória sobre a oposição e a adversidade, tudo no serviço dependerá inteiramente de quanto temos visto na face de Jesus Cristo.
Não se enganem quanto a isso, queridos amigos. Este, como temos dito — como dissemos novamente em oração aqui nesta manhã —, é um tempo muito crítico na história do povo de Deus, assim como na história deste mundo.
E, se não estou enganado, esta conferência acontece em um momento muito crítico. Estamos avançando rapidamente, e cada vez mais profundamente, para a prova final de todas as coisas.
Ah, como isso é literalmente verdade em algumas partes deste mundo. A prova decisiva está acontecendo na vida de muitos do povo do Senhor. E não pensem que escaparemos disso; de uma forma ou de outra, seremos realmente colocados à prova.
O mundo caminhará para uma situação em que os fundamentos de cada cristão serão, com toda certeza, severamente provados.
Talvez vocês já estejam experimentando isso de maneira espiritual. Quantas pessoas me disseram, a respeito deste encontro: “Nossa, que batalha foi chegar até aqui”.
Todas aquelas coisas incomuns acontecendo, que em outras circunstâncias não aconteceriam — coisas estranhas. Tudo isso acontece justamente quando vocês têm algo do Senhor em vista. Ah, sim, e esses acontecimentos muitas vezes são provas muito, muito difíceis. Podem abalar vocês.
Bem, é assim. Longe de mim querer desanimá-los; isso vai aumentar. Mas, vejam, o ponto é este: até mesmo nossa salvação, como tal, será colocada à prova.
Até mesmo tudo o que realmente temos será colocado à prova. E não será tão difícil questionarmos nossa salvação, questionarmos o próprio Senhor.
Se nossa vida cristã for uma espécie de coisa exterior, composta de coisas — composta de reuniões, composta de ensino, composta de comunhão, composta de crenças —, não será difícil questionarmos a realidade de tudo isso.
A realidade de tudo isso. Isso parece algo terrível de dizer? A realidade do cristianismo. Não será difícil dar lugar a essa pergunta.
A questão se resumirá a uma única coisa: até que ponto tudo isso é uma questão de Deus ter resplandecido em nossos corações.
Vou expressar isso de uma maneira que tem causado bastante dificuldade, mas que, mesmo assim, talvez mereça receber seu devido peso: aquilo que temos nos veio pela revelação de Jesus Cristo.
Enfatizo que isso não significa algo além da Bíblia. Mas aquilo que está na Bíblia foi iluminado em nossos próprios corações pelo Espírito Santo.
Isso saiu da Bíblia e entrou em nós por um ato de Deus — uma ordem soberana de Deus. Nós o vimos em nossos corações. Isso se tornou, para nós, uma questão do coração.
Quando é assim — bem, creio que ontem mencionei o piedoso Policarpo, mártir da fé naqueles dias das primeiras perseguições.
Já idoso, com seus cabelos brancos e o rosto enrugado, ele estava sendo levado à força por judeus cruéis e perversos para ser queimado. Uma autoridade que estava por perto olhou e ficou profundamente comovida ao ver um homem como aquele sendo levado para tal destino.
E se aproximou e disse: “Amaldiçoe Jesus, e eu o salvarei”.
Policarpo respondeu: “Há quarenta e seis anos sirvo ao meu Mestre, e Ele nunca me fez mal algum. Você acha que eu diria alguma coisa contra Ele para salvar minha vida?”
Assim, ele seguiu para o martírio.
Isso é um relacionamento de coração, não é? É algo maior do que a vida, maior do que qualquer outra coisa.
Digo que foi isso que sustentou Paulo em todos os seus sofrimentos: ver a face de Jesus. Foi isso que constituiu a força e a substância de seu grande ministério: ver a face de Jesus. Foi isso que fez dele o cristão que ele era.
Por favor, não formem imagens mentais de visões exteriores da face de Jesus. Não é disso que estou falando — de ver um rosto.
Quero dizer simplesmente que, pelo Espírito Santo, chegou ao coração de vocês um conhecimento do significado de Jesus Cristo em todo este universo, nos desígnios de Deus. Uma revelação de Jesus Cristo.
Essa é a luz — o conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo.
Isso é Cristo. Isso traz força ao coração. Tenho plena certeza de que há alguns aqui hoje que caminham com o Senhor há muitos anos e que poderiam dizer comigo: se aquilo que temos, sustentamos e ensinamos fosse uma mera teoria, já teríamos abandonado tudo há muito tempo.
Não há dúvida quanto a isso. É porque podemos dizer, se assim posso me expressar, que vimos alguma coisa. Há algo que acontece quando vocês veem; algo é realizado.
Que efeito isso teve sobre Paulo! Em primeiro lugar, vejam que homem isso fez dele.
Observem o contexto daquelas palavras que lemos em Gálatas:
Quando aprouve a Deus revelar Seu Filho em mim.
O que fiz? Fui consultar os que eram apóstolos antes de mim para saber se eu estava certo? Fiquei pensando se estava enganado, se aquilo estava de acordo com a tradição?
Não, de modo algum. Não subi a Jerusalém para consultar carne e sangue e conversar a respeito, a fim de saber se eu estava certo. Isso me firmou de tal maneira que, para mim, não havia dúvida alguma. Ninguém poderia acrescentar coisa alguma para confirmar a realidade e a veracidade disso.
Tantos queridos cristãos vivem o tempo todo correndo de uma pessoa para outra em busca de conselho sobre sua vida cristã, sobre isto e aquilo.
Agora, por favor, não me entendam mal. Recebam toda a ajuda que puderem. Mas, de alguma forma, parece que algumas pessoas nunca conseguem se manter de pé por conta própria por muito tempo. Não têm certeza alguma. Não têm certeza de nada.
Qualquer coisa que surge, elas vão questionar. “Você precisa ouvir alguma opinião sobre esse assunto.” Agora, vocês precisam, sim, de ajuda e devem buscá-la.
Mas existe, afinal, algo fundamental, algo na raiz, que faz vocês saberem onde estão firmados — em Cristo, por uma obra de Deus. Algo foi realizado. Vocês jamais poderão questionar isso.
Foi isso que colocou Paulo naquela posição. Bem, ele não era independente e, mais tarde, subiu a Jerusalém e passou vários dias em uma boa conversa com Pedro. Imagino que tenham conversado sobre diversos assuntos.
Mas isso só aconteceu depois que Paulo enfrentou toda essa questão por si mesmo e a resolveu entre ele e o Senhor.
E todos esses outros efeitos de uma nova criação começaram seu maravilhoso desenvolvimento depois que ele viu a face de Jesus.
Uma certeza e uma segurança verdadeiras — um fundamento profundo de sua vida e de seu serviço cristãos — vieram por causa desta única coisa: ele havia visto tudo em Jesus, toda liberdade em Jesus.
Que libertação isso lhe trouxe — que emancipação! Temos dito muitas vezes que não havia poder algum neste mundo capaz de transformar aquele judeu furioso e fanático, Saulo de Tarso, em um cristão e em alguém que amava Jesus.
Nenhum poder neste mundo poderia ter feito isso, a não ser ver o próprio Jesus dessa maneira. E isso o fez. Ele foi emancipado. Estava livre.
Não é de admirar que, de todos os seus escritos, o mais enérgico e veemente seja sua carta aos Gálatas, a carta da liberdade em Cristo. E ela começa com isto:
Deus revelou Seu Filho em mim.
E isso me libertou de todas as outras coisas.
Não adianta dizer às pessoas que isto, aquilo e mais alguma coisa são uma limitação, e que elas devem buscar amplitude saindo disso. Essa é uma abordagem infrutífera e sem proveito — na verdade, perigosa — para se adotar com qualquer pessoa.
Mas, novamente, se tão somente pudermos apresentar-lhes Cristo, em todo o Seu significado divino, em todo o Seu sentido e abrangência, e o Espírito Santo puder revelá-Lo no coração, ah, isso resolverá. Isso resolverá.
Elas nunca mais se contentarão com nada que as limite — as faixas funerárias da religião. Isso libertou Paulo do judaísmo, e nenhuma outra coisa o teria feito.
O caminho de escape, o caminho de ampliação, o caminho da perseverança é ver Jesus.
Não é aprender isto, aquilo ou mais alguma coisa. Não é pela escola. Paulo tinha tudo o que as escolas de religião podiam oferecer. Ele não recebeu isso por meio da escola, e nós nunca o receberemos por meio da escola.
Não por essa via da instrução técnica, sobre coisas cristãs ou religiosas. Isso não é, de modo algum, uma coisa meramente mental, acadêmica ou intelectual. É uma obra do Espírito Santo.
Bem, esse é um fundamento. E que o Senhor, agora mesmo, comece a resplandecer em nossos corações.
Vou continuar apenas por mais um pouco, respondendo à pergunta: o que Paulo viu na face de Jesus Cristo?
Sim, ele viu a luz do conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo — uma visão abrangente do que todo este cenário representa em Cristo.
Se quiserem deixar de lado a palavra face, podem fazê-lo. O que ele viu quando viu Jesus Cristo? Iluminação divina.
E sugiro a vocês que a primeira coisa que ele viu foi Cristo como o propósito de Deus.
Cristo como o propósito de Deus. Se havia uma coisa verdadeira a respeito de Saulo de Tarso, era que ele era um homem de propósito. Era um homem determinado, sem dúvida alguma.
Estava empenhado em alguma coisa. Era ardoroso. Buscava algo, esforçava-se ao máximo para alcançar algo. Isto é, era caracterizado por esse espírito, por esse senso de propósito.
Agora, como judeu, como membro da nação judaica, todo o seu horizonte era Israel.
Para ele, todo o propósito divino estava centrado em Israel. Era a nação que ocupava o centro do propósito de Deus para ele — como nação, como superior a todas as nações, acima de todas as nações, governando todas as nações.
Ocupando esse lugar central em meio às nações, para fazer com que todas as nações a servissem — e, bem, sim, para servir a todas as nações.
Isso era o que o propósito divino significava para Saulo de Tarso, assim como significava para todo judeu, todo membro da nação judaica. Esse era todo o horizonte. Tudo isso era temporal. Tudo isso era terreno, embora fosse religioso. Mas esse era todo o horizonte.
Esse era o propósito para todo judeu. E, visto que Saulo de Tarso era um judeu ainda mais zeloso que os demais, podemos perceber como essa ideia do propósito divino para sua própria nação era intensamente forte para ele.
Que alguém ousasse questionar isso! Essa era, de fato, a causa e a razão de seu antagonismo demoníaco contra Jesus.
Vocês sabem muito bem que foi por isso que os judeus O crucificaram. Disseram:
Se deixarmos este Homem continuar, os romanos virão e tirarão nossa nação, nosso reino.
E Saulo era um deles. Ele via que Jesus, ao estabelecer outro reino, era uma ameaça a Israel e a toda a herança de Israel.
Esse, para ele, era o significado do propósito divino.
Quando viu a face de Jesus Cristo, tudo isso mudou. Tudo isso mudou. Todo o seu horizonte se expandiu para o universo.
E que universo é esse que nos é apresentado em sua carta aos Efésios — uma imensa extensão e abrangência do propósito divino.
Ele passa a falar assim:
Chamados segundo o Seu propósito.
Aquele que faz todas as coisas segundo o conselho da Sua própria vontade.
De eternidade a eternidade: o propósito divino.
O pequeno Israel foi diminuindo, diminuindo, até que, nos dias de Paulo, embora ele desejasse que os israelitas fossem salvos e desse qualquer coisa para vê-los salvos, eles já não ocupavam aquele lugar. Seu horizonte havia se tornado universal.
E, novamente, o temporal deu lugar ao espiritual e ao eterno: toda bênção espiritual nas regiões celestiais, pelos séculos dos séculos.
Esses, vejam, são todos termos que explicam o que aconteceu nessa tremenda revolução, na qual o horizonte de Paulo foi ampliado até os limites mais extremos.
Ah, tudo isso na face de Jesus. Jesus significa isso. Jesus é a personificação e a totalidade do propósito, de eternidade a eternidade.
É o eterno propósito em Cristo Jesus.
Essa é a linguagem dele. Ele é o propósito de Deus.
E não é algo desta terra — temporal ou temporário, material e passageiro. É do céu, da eternidade, e está tudo Nele, reunido em Cristo, a plenitude de todas as coisas.
Se tão somente pudéssemos reunir a tremenda quantidade de citações de Paulo sobre isso — o propósito de Deus a respeito de Seu Filho: que Ele encha todas as coisas, que Ele seja a plenitude de todas as coisas, que todas as coisas habitem Nele, que todas as coisas sejam reunidas Nele.
De fato, seu mundo foi ampliado, e todas as barreiras foram derrubadas.
O que isso significa para nós? Isso não é apenas uma bela história ou descrição do que aconteceu com um homem. Estou falando de princípios espirituais.
Se vocês e eu realmente tivéssemos uma visão do significado de Jesus Cristo, se realmente víssemos a glória de Deus em Sua face, nunca poderíamos ser pequenos. Nunca poderíamos ficar presos apenas às nossas pequenas questões locais.
Vocês nunca poderiam ser sectários, nem coisa semelhante. Isso deveria abranger tudo.
Entramos em muitas dificuldades porque não podíamos nem queríamos aceitar os limites dos sistemas humanos, da compartimentalização cristã e de tudo isso.
Uma vez que vocês tenham visto o Senhor Jesus, ficam completamente livres disso. Todo esse absurdo sem sentido — igrejas, capelas e coisas assim —, Cristo é muito, muito maior e mais vasto do que tudo isso.
Para que seus horizontes se ampliem, vocês precisam apenas vê-Lo. Para serem libertos, precisam ver o que aconteceu com Paulo.
A universalidade da visão e do ministério de Paulo, seu impacto espiritual e celestial sobre esta terra ao longo dos séculos, deve-se a isto: na face de Jesus Cristo, ele viu a grandeza do propósito de Deus para este universo.
O universo estava centrado em Cristo, não em Israel. Cristo.
Ele viu que o propósito divino está centrado em Cristo.
Essa revelação, esse ver, esse compreender trouxe consigo certas outras coisas. Trouxe consigo a compreensão, ou o reconhecimento, da atuação do poder de Deus em relação a Cristo.
A atuação do poder de Deus em relação a Cristo. Ele passou a ver que a criação existia por meio de Cristo e para Cristo.
E todas as forças da Divindade mobilizadas na criação — as tremendas forças mobilizadas na criação deste universo —, todas essas forças em ação na criação trabalhavam em direção à herança de Cristo.
Novamente:
Para Cristo; porque para Ele foram criadas todas as coisas, as coisas nos céus e as coisas na terra, para Ele.
A poderosa atuação de Deus na criação, transformando o caos em ordem, as trevas em luz e o vazio em plenitude — todo aquele poderoso, poderoso poder de Deus. Mas tudo era para Seu Filho.
O objetivo é que Ele fosse o herdeiro de todas as coisas; ou melhor, Ele foi constituído herdeiro de todas as coisas e estava vindo receber Sua herança.
Agora, temos nos detido no livro de Apocalipse. Estes são os movimentos finais: o reino se tornando o reino de nosso Deus e de Seu Cristo — a herança de Seu Filho.
Mas isso é apenas um pequeno fragmento de toda a história da atuação do poder divino. Depois daquela criação, vemos a queda do homem e a queda desta terra, e é uma queda tremenda.
Não é apenas um colapso moral. Nem ousamos nos deter para contemplar a imensidão daquilo que aconteceu quando Adão desobedeceu a Deus, tudo o que ele arrastou consigo e todas as tremendas forças do mundo espiritual exterior que se concentraram sobre ele para fazê-lo agir assim.
A imensidão de tudo isso envolveu, de fato, coisas tremendas e de longo alcance, como sabemos muito bem.
Mas Deus abandona tudo? Ele desiste? Imediatamente Ele reage a isso e, com uma nova aplicação de Seu poder e uma nova atuação, prossegue em Seu caminho — o mesmo caminho, em direção a Seu Filho.
E imediatamente Ele anuncia que tudo isso que acaba de acontecer, que veio do grande inimigo, a serpente, o diabo, um dia terá sua cabeça esmagada para sempre.
Imediatamente Ele reage. Vocês e eu, queridos amigos, sabemos que poder é necessário para realizar isso — a atuação do poder de Deus em relação a Seu Filho.
Deus disse que a descendência da mulher ferirá a cabeça da serpente. Isso não é uma mera declaração de princípio; é um conflito tremendo — a batalha dos séculos.
Mas, por fim, nós o vemos: as hostes nos céus são lançadas para baixo, já não se acha lugar para elas, são lançadas no abismo. Está feito.
Mas essa é a atuação do poder de Deus em relação a Seu Filho.
E isso, novamente, é apenas um fragmento. Um povo no qual tudo isso deve encontrar sua ilustração e manifestação, Israel, acaba se encontrando, por causa de seu fracasso — seu fracasso espiritual em tudo o que diz respeito à aliança —, na escravidão do Egito.
E que escravidão! Vejam, Deus teve o cuidado de nos mostrar que isso envolvia um tremendo poder político.
Ficamos impressionados, não é, com a maneira como Faraó conseguia resistir. Ora, certamente ele os deixaria ir depois da primeira, da segunda e da terceira praga. Não, de modo algum.
Vocês ficam admirados. Arrisco-me a dizer que vocês não se agarrariam a coisa alguma se passassem por um pouco daquilo.
Aqui está Ele: Deus prolonga esse processo, procurando mostrar que força extraordinária está por trás de toda essa questão. E então, finalmente, com um só golpe, Ele despedaça tudo aquilo e liberta aquele povo.
E, para sempre, a libertação deles do Egito se torna a ilustração, no Antigo Testamento, da suprema grandeza de Seu poder.
Sempre se volta a isso como exemplo do poder extraordinário de Deus — a libertação do Egito. Mas tudo está em consonância com Seu Filho.
Algo está avançando — a atuação do poder de Deus, vejam.
Deixei de mencionar o dilúvio — outro acontecimento, uma grande reação ao desvio do mundo. Portanto, precisamos continuar acompanhando isso ao longo do Antigo Testamento.
Israel atravessa o deserto até a fronteira da terra, e então, novamente, tudo desmorona por causa da incredulidade.
Deus desiste deles? Não. Aquela terra permanece para sempre como figura de Seu Filho, e é na plenitude Dele que Ele conduzirá um povo.
Ele não pode desistir disso à luz de seu significado espiritual. Não pode desistir e dizer: “Bem, preciso abandonar Meu propósito. Que a próxima geração fracasse”. Não; Ele terá outra geração e a fará entrar.
E vejam a poderosa atuação de Deus nesse novo povo, à medida que toma posse da terra e vence nela.
Considerem isso mais uma vez, e temos o exílio na Babilônia. Certamente agora os propósitos de Deus foram derrotados. A terra está desolada, a cidade está em ruínas, e o povo se foi.
Não.
Por amor de Mim, enviei à Babilônia e fiz cair todos os seus poderosos.
Um remanescente voltará.
Mas isso não é história por si só; o objetivo — o objetivo final — continua em vista: o reino de Seu Filho avançando.
E assim prosseguimos. Chegamos, como temos visto neste livro de Apocalipse, à perseguição catastrófica e angustiante de Sua igreja e ao martírio.
Mas como isso termina? Bem, termina na vitória de Deus, no poder de Deus, na atuação de Deus. Não é assim?
Seu Filho está, por fim, no trono. Esse é o ponto — o propósito de Deus mobilizando o poder de Deus, tudo em relação a Seu Filho.
E o que lhes disse é apenas uma parte daquilo que está contido nos escritos de Paulo. Não inventei nem imaginei isso. Apresentei-lhes de maneira imperfeita, mas está tudo ali. Foi isso que Paulo viu.
O propósito de Deus mobilizando o poder de Deus. Ele expressa isso em uma passagem familiar:
A suprema grandeza do Seu poder para conosco, os que cremos, segundo a operação da força do Seu poder, que Ele exerceu em Cristo, ressuscitando-O dentre os mortos e fazendo-O sentar à Sua direita, muito acima de todo principado e autoridade, e de todo nome que se nomeia.
A suprema grandeza — a atuação do poder de Deus em relação ao Seu propósito a respeito de Seu Filho.
Ah, portanto, na face de Jesus Cristo, repito, vemos algo disso.
Isso será uma força tremenda para nós. Significará uma tremenda ampliação, um enriquecimento e um fortalecimento que nos sustentarão até o fim.
Agora, por causa da minha advertência de não lhes dar coisas demais de uma só vez, vou parar aqui. Há muito mais no pensamento de Paulo a respeito desse mesmo assunto — o pensamento de Deus acerca de Seu Filho, o propósito. Talvez ainda tenhamos outra sessão.