Senhor, há, como Tu mesmo sabes, e sabes no que diz respeito a nós, uma necessidade muito especial relacionada a este momento. É a necessidade de sermos libertos da familiaridade, da aceitação corriqueira, da tradição, do hábito, de simplesmente fazermos algo porque é algo que se faz entre os cristãos.
E tenho percebido essa necessidade de uma maneira nova, com um novo impacto quanto ao que isso significa. Podemos realizar esta celebração, encerrar a conferência com ela, mas ela pode ser o momento mais marcante de todos. Pode ser algo de que nunca, nunca nos esqueçamos, algo que sulque profundamente o nosso próprio ser e transforme toda a nossa concepção.
Bem, Senhor, se Tu realmente consideras isso necessário, se vês que é necessário, então faze-o e torna esta ocasião verdadeiramente sagrada e memorável.
Oh, que haja, de fato, no âmbito do espírito, um saborear das coisas que Tu, Deus vivo, tens preparado. Pedimos: guarda agora o nosso coração. Faze, de todas as maneiras, com que estejamos devidamente relacionados e ajustados ao que estamos prestes a fazer. Ouve e responde, por amor do Teu nome. Amém.
Serei o mais breve possível na palavra que tenho a dizer, para não sobrecarregar este momento com palavras. Mas confio que o Senhor concederá que, por mais breve que seja, ela realize uma obra interior — algo que vá mais fundo do que as palavras e as ideias e seja operado no íntimo.
Por favor, abram nas passagens das Escrituras que, naturalmente, nos são tão familiares neste contexto. No Evangelho de João, em João 6:51:
Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que Eu der é a Minha carne, que Eu darei pela vida do mundo.
Disputavam, pois, os judeus entre si, dizendo: Como nos pode dar Este a Sua carne a comer?
Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o Seu sangue, não tereis vida em vós mesmos.
Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue tem a vida eterna, e Eu o ressuscitarei no último dia.
Porque a Minha carne verdadeiramente é comida, e o Meu sangue verdadeiramente é bebida.
Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue permanece em Mim, e Eu nele.
— João 6:51-56
Agora, 1 Coríntios 10:16:
Porventura, o cálice de bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é, porventura, a comunhão do corpo de Cristo?
Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo; porque todos participamos do mesmo pão.
— 1 Coríntios 10:16-17
O cálice: não é uma participação no sangue de Cristo? O pão: não é uma participação no corpo de Cristo? Participação — essa é a palavra. Um só pão. Falaremos do pão, do corpo.
Aqui se afirma precisamente que há uma identidade entre o verdadeiro crente e Cristo. É uma participação comum de um com o outro. Trata-se, naturalmente, de um corpo espiritual — não físico —, uma entidade espiritual.
E a afirmação aqui é tão absoluta quanto qualquer afirmação poderia ser. O contexto, como vocês percebem, é aquilo de que já ouvimos falar: comer carne oferecida aos ídolos. E o apóstolo diz que aqueles que fazem isso se tornam participantes com os ídolos, com os demônios. São participantes com os demônios.
Eles absorvem o que é diabólico. Tomam isso para dentro de si, e isso passa a constituir o seu próprio ser. São participantes; comem à mesa dos ídolos. É algo muito radical.
E assim o apóstolo diz, a respeito dos crentes, que, quando comem à mesa do Senhor, de maneira espiritual estão absorvendo, incorporando à própria constituição aquilo que é Cristo — tornando-se constituídos por Cristo.
Ora, vocês sabem que somos constituídos pelo que comemos. Em primeiro lugar, a nossa própria dimensão depende da nossa alimentação — de quão contínua ela é. Parem de comer, e vocês definharão. Irão diminuindo cada vez mais, até não restar nada.
Existimos porque comemos. É uma linguagem muito simples, mas isso vai ao cerne da questão. Existimos porque comemos. E, em grande medida, o nosso caráter e a nossa disposição são determinados pelo que comemos.
Vocês veem pessoas que comem em excesso determinado alimento. Algo acontece na própria constituição delas. Se vocês comerem alimentos enlatados em excesso, a pele ficará pálida. As pessoas saberão do que vocês se alimentam; e o que é verdade nesse aspecto é, naturalmente, verdade em outros. Nós nos tornamos aquilo que comemos.
O mistério da transformação do alimento em nós mesmos talvez nunca seja desvendado pelos melhores especialistas em medicina, mas o fato permanece. O fato permanece. E assim, para obter determinados benefícios para a sua constituição, vocês comem certas coisas.
Imagino que a experiência com a alimentação de vocês tenha demonstrado que comer bastante peixe favorece a capacidade cerebral. E, para isto ou aquilo, no que diz respeito à sua constituição, vocês devem comer determinados alimentos. E esses alimentos fazem de vocês, mental e fisicamente, aquilo que são. Bem, não preciso me alongar nisso. Todos sabem disso. Mas é isso que está aqui.
Aquilo que vocês recebem para dentro de si torna-se parte de vocês. Essa é a sua constituição.
Ora, a Palavra afirma com toda clareza que, ao Se tornar alimento para nós, Cristo estabelece esta verdade fundamental: Cristo Se torna a nossa constituição, a nossa vida, a nossa natureza, a nossa disposição, o nosso comportamento, o nosso temperamento, o nosso tudo. Ele Se torna, literalmente, o nosso próprio ser.
É isso que significa participar de Cristo. É uma união na qual — bem, se vocês conseguirem separar o alimento que comem daquilo que pensarão amanhã, terão realizado um milagre.
Vocês começam a se alimentar e, depois, mais cedo ou mais tarde, começam a pensar. E, quando expressam seus pensamentos, na realidade estão apenas expressando aquilo que comeram alguns dias antes. Não é possível separar essas duas coisas. É um fato; é uma identidade, não é? Entre alimento e ser, entre alimento e vida.
Ora, o Senhor Jesus está simplesmente dizendo que a união entre Ele e nós é assim. Ele Se torna a nossa constituição, a nossa natureza, a nossa disposição, a nossa conduta, o nosso comportamento. Ele simplesmente Se torna o fundamento essencial da nossa vida.
Há outras metáforas, naturalmente. Marido e mulher:
E serão os dois uma só carne.
Na realidade mais profunda do relacionamento deles, há uma afinidade; e, se for o relacionamento correto, um relacionamento constituído por Deus, um não consegue viver sem a outra metade.
Vocês percebem que há uma lacuna, um vazio que chega a matar, se o relacionamento for como deve ser. As Escrituras dizem que a união entre Cristo e o crente é assim.
E, para mim, para vocês, estar separado do Senhor Jesus, mesmo temporariamente, ou afastado dEle significa que, bem, tudo se foi da nossa vida. Perdemos o verdadeiro sentido da vida.
Uma participação comum — isso é dito aqui duas vezes —, uma participação comum no corpo de Cristo. Não se pode descrever. Não se pode descrever. Mas essa é a realidade.
E, queridos amigos, isso não revolucionaria o que chamamos de Santa Comunhão, Ceia do Senhor, sacramento, ou seja qual for o nome que vocês lhe deem? Isso revolucionaria completamente a nossa concepção e a nossa ideia.
Quando viéssemos a esta mesa, seríamos lembrados — realmente lembrados — e recordaríamos a nós mesmos esta posição: estou testemunhando o fato de que há uma união tão profunda entre o Senhor Jesus e mim que Ele e eu nos tornamos uma só entidade. E separar-nos é tirar a nossa própria vida.
Essa é uma linguagem simples, mas é vida. Não estamos falando agora da nossa vida cristã e de como estamos vivendo; estamos falando do que queremos dizer quando nos aproximamos desta mesa.
Não é uma cerimônia, não é um simples ritual. Não é algo que os cristãos fazem como parte do credo e da prática cristã. É um testemunho de um dos fatos mais profundos e maravilhosos deste universo: entre nós e Cristo, e entre Cristo e nós, estabeleceu-se uma união constitutiva.
Oh, como eu gostaria que todos realmente compreendessem isso! Porque, vejam, há tantos que pensam que podem abandonar o cristianismo — abandonar a vida cristã. E às vezes pensam que vão fazer isso. Sentem-se tentados, como dizem, a desistir de tudo.
Bem, se isso é real, seria o mesmo que ir até o mar e afogar-se, porque vocês estariam desistindo de si mesmos; estariam cometendo suicídio. Estariam tirando a própria vida. Não, vocês não podem fazer isso. Simplesmente não podem fazer isso.
Se vocês realmente sabem o que significa ser um verdadeiro cristão nascido de novo, não podem dizer: “Vou me desligar. Vou desistir”. Simplesmente não podem pensar assim. Sabem muito bem que estarão arrancando o próprio coração do seu ser se fizerem algo assim.
E algumas pessoas que entram em trevas e desespero e aceitam a sugestão de que o Senhor as abandonou — elas já estão no inferno. Já estão no inferno. O céu se foi, a vida delas se foi, tudo o que é de Deus se foi. Estão vagando em desolação. Não é verdade?
Tão real é a verdadeira participação com Cristo.
Agora, vamos seguir adiante com isso. Esse é o corpo. O corpo, naturalmente, é o veículo do espírito — do Espírito de Cristo. E passemos ao cálice.
O corpo é união com a Sua humanidade. O cálice é união com a vida nessa humanidade. E tudo o que o Senhor Jesus disse a respeito do cálice foi que, nessa participação comum, entramos em uma aliança.
Este cálice é a nova aliança no Meu sangue.
Uma aliança. E devemos saber de onde isso veio e o que significa: uma aliança de sangue.
Isso é reconhecido também fora do âmbito cristão. Provavelmente teve origem entre os semitas; não sabemos se veio de outro lugar e foi adotado pelos semitas, por Abrão e outros, ou se começou ali. Mas o fato é que é reconhecido quase universalmente, sobretudo no Oriente.
E Henry Clay Trumbull investigou isso e nos trouxe muitos esclarecimentos. Ele diz que essa mesma prática, essa aliança de sangue entre os árabes, funciona assim.
Dois árabes, que não têm parentesco natural, desejam entrar em uma comunhão de vida, vincular-se um ao outro e comprometer-se inteiramente um com o outro. Então estabelecem uma aliança.
Eles se encontram, e cada um descobre o braço. Cada um abre uma artéria, e então encostam os braços no ponto da abertura, onde o sangue de cada um flui para o outro.
É uma aliança de sangue, e agora os termos são: “Você tem a minha própria vida em você. Aonde quer que vá, leva consigo a minha vida, e eu levo a sua. Tudo o que for feito a você será feito a mim. Tudo o que for feito a mim será feito a você”.
“Se alguém falar contra mim, você dirá imediatamente: ‘Olhe aqui, você está falando contra mim’. É contra mim, não contra ele; você está falando contra mim. Se alguém me causar algum dano, você dirá: ‘Olhe aqui, esse dano foi causado a mim’. Eu sou ele — isso está gramaticalmente correto? Eu sou ele. Temos o mesmo sangue em nós.”
Somos um pela aliança de sangue, de modo que, enquanto vivermos, um vive para o outro. Somos um o outro, ainda que estejamos a milhares de quilômetros de distância. Essa é a aliança, diz Trumbull, feita em sangue entre os árabes.
Ora, mais uma vez, não importa onde ela se originou. Mas é isso que o Senhor Jesus está dizendo:
Este cálice é a nova aliança no Meu sangue.
Uma aliança estabelecida entre nós.
Uma aliança exige duas partes. Eu a faço com vocês, mas vocês entram nela Comigo. E, por causa do Meu sangue, que é a Minha vida entregue, aonde quer que vão, vocês Me representam.
O que acontece com vocês acontece Comigo; afeta-Me. E assim, inversamente, se o Senhor é atacado, isso nos fere; atinge-nos. Qualquer coisa dita a respeito do Senhor — ora, isso nos toca de maneira aguda e profunda.
Tão grande é essa união:
Aquele que tocar em vós toca na menina do Seu olho.
E isso, naturalmente, se fôssemos desenvolver o assunto, é o verdadeiro significado da unção:
Não toqueis nos Meus ungidos.
A unção significa que Ele Se comprometeu com o ungido. Toquem no ungido, e estarão tocando no Senhor. Davi, mesmo quando Saul o perseguia, um dia cortou a orla do manto de Saul; e está escrito que o coração de Davi o acusou. “Ousarei tocar no ungido do Senhor, ainda que ele esteja me perseguindo?” Essa unção nos coloca em uma esfera diferente.
Bem, não quero dizer demais — usar palavras demais. O que quero destacar é isto: aqui estamos nós. Esta mesa realmente significa isso para nós quando nos aproximamos dela hoje?
Uma relação de aliança no sangue tão profunda que compartilhamos uma só vida, temos uma participação comum, um interesse comum. Creio que isso faz bem a todos nós. Mas, vocês sabem, podemos nos habituar ao costume. Podemos participar da mesa do Senhor e ir embora; e isso faz parte do culto, seja pela manhã, seja à noite, realizado talvez uma vez por semana, ou com maior ou menor frequência.
Mas, oh, que possamos estar na presença dessa realidade! Vejam, isso é uma comunhão no sangue, uma comunhão no corpo. Significa, por um lado, a comunhão dos Seus sofrimentos — a participação nos sofrimentos de Cristo. Vocês já ouviram muito sobre isso.
Essa aliança também significa uma comunhão na segurança. A aliança nos torna seguros.
Se Cristo puder ser morto e deixar de existir, então nós também poderemos. Se Ele não puder, então nós também não poderemos. No Seu sangue, estamos seguros.
Eu não sei — não vou abrir a discussão sobre se podemos repudiar a aliança, considerar profano o sangue da aliança com que fomos santificados e ultrajar o Espírito da graça. Bem, deixemos isso. Mas, enquanto vocês e eu permanecermos fiéis à aliança, estamos seguros, sejam quais forem os inimigos, as forças em ação.
Comunhão: participação nos Seus sofrimentos, participação na Sua segurança.
Fico feliz por saber que o Senhor Jesus está no céu, e vocês? Ele está no céu. Sabem, falamos da ascensão, mas ela não é mencionada com tanta frequência no Novo Testamento. Ele de fato diz:
Quando Ele subiu ao alto.
Mas fala com mais frequência de Ele ter sido recebido na glória.
Isso significa que Ele podia ser recebido ali; o céu podia estar aberto para Ele porque Ele havia cumprido tudo o que o céu exigia. O céu estava satisfeito e, por isso, Ele podia ser recebido pelas portas eternas.
Levantai, ó portas, as vossas cabeças; levantai-vos, ó entradas eternas, e entrará o Rei da glória.
Quem é este Rei da glória? O Senhor forte e poderoso.
Ele é o Rei da glória. Uma acolhida grandiosa para Ele.
Ele Se assentou à direita da Majestade nos céus — seguro. Nem os céus nem a terra podem atingi-Lo, e o inferno não pode atingi-Lo. E estamos assentados com Ele nessa segurança, se estamos em Cristo, no sangue da aliança.
E então: participação na Sua glória. Na Sua glória. Se sofrermos com Ele, seremos glorificados juntamente com Ele.
É todo esse “com, com, com” — um poderoso “com”. E essa é a expressão que paira sobre a mesa: com Ele. No mais profundo do nosso ser, na nossa própria constituição, na nossa conduta, no nosso serviço e, por fim, em nossa própria pessoa, na Sua glória — participantes.