Nesta manhã, gostaria de ler novamente uma passagem muito conhecida da Palavra de Deus: Mateus 18. Vamos ler Mateus 18:15-20.
Ora, se teu irmão pecar contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele só; se te ouvir, ganhaste teu irmão.
Mas, se não te ouvir, leva ainda contigo um ou dois, para que pela boca de duas ou três testemunhas toda palavra seja confirmada.
E, se não os escutar, dize-o à igreja; e, se também não escutar a igreja, considera-o como gentio e publicano.
Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu; e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu.
Também vos digo que, se dois de vós concordarem na terra acerca de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por Meu Pai, Que está nos céus.
Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em Meu nome, aí estou Eu no meio deles.
Em Mateus 16, vemos que, depois de Pedro confessar o Senhor como o Cristo, o Filho do Deus vivo, nosso Senhor Jesus disse a Pedro:
Tu és Pedro,
uma pedra,
e sobre esta pedra edificarei a Minha igreja; e as portas do Hades não prevalecerão contra ela.
Pela primeira vez, vemos nosso Senhor Jesus usar a palavra igreja — ekklesia, aqueles que foram chamados para fora e reunidos. O Senhor disse:
Edificarei a Minha igreja sobre esta pedra.
Sabemos que a rocha não é outro senão o próprio Senhor Jesus, Aquele a Quem o Pai havia revelado e a Quem Pedro havia confessado.
À medida que recebemos essa revelação do Pai e O confessamos como o Cristo, o Filho do Deus vivo, tornamo-nos pedras vivas. Como pedras vivas, o Senhor nos edifica juntos, formando uma casa, uma casa de Deus, sobre a rocha. As portas do Hades não prevalecerão contra ela.
Em outras palavras, no processo de edificação, a igreja de Deus passará por muitas provações, tribulações, ataques e investidas do inimigo. Mas as portas do Hades não prevalecerão contra ela. Deus terá Sua casa entre Seu povo.
Agora, em Mateus 18, nosso Senhor Jesus mencionou a palavra igreja pela segunda vez. Essas são as únicas duas vezes nos Evangelhos em que nosso Senhor Jesus menciona a igreja.
Mas vocês verão uma diferença aqui. Em Mateus 16, quando nosso Senhor Jesus disse:
Edificarei a Minha igreja sobre esta pedra; e as portas do Hades não prevalecerão contra ela,
Ele estava nos dando os princípios espirituais referentes à igreja. Estava nos mostrando a igreja universal.
Isto é, ao longo de todas as eras, aqueles que receberam uma revelação do alto a respeito de Jesus, que creram Nele e O confessaram como o Cristo, o Filho do Deus vivo, são edificados juntos para formar a igreja de Deus — universal — com base no princípio da revelação e da fé. O conflito é espiritual, mas a vitória está garantida.
Mas, em Mateus 18, quando nosso Senhor Jesus mencionou a palavra igreja pela segunda vez, Ele nos apresentou um aspecto diferente da igreja. Mostrou-nos a prática dos princípios espirituais e o aspecto local da igreja.
Isso não significa que existam duas igrejas, uma universal e outra local. Há somente uma igreja, mas essa única igreja tem dois aspectos: o aspecto universal e o aspecto local.
A razão é que ainda estamos neste corpo e, por estarmos neste corpo, somos limitados pelo tempo e pelo espaço. Não podemos estar em todos os lugares nem em todas as épocas. É por isso que, para a igreja ser expressa neste mundo, ela precisa ser expressa localmente.
O Senhor disse:
Onde estiverem dois ou três reunidos em Meu nome, aí estou Eu no meio deles.
“Onde” — isso indica a localidade. “Dois ou três” — esse é o número mínimo para uma expressão corporativa. “Reunidos” — isso mostra que esses dois ou três não estão dispersos, mas reunidos: o princípio da vida corporativa.
“Em Meu nome” — isso confere a essa reunião seu caráter singular. Neste mundo, há muitas reuniões. Algumas são clubes sociais; outras são associações fraternais. As pessoas se reúnem com diferentes propósitos e sob diferentes nomes. Mas nós nos reunimos em nome de nosso Senhor Jesus. Isso nos torna singulares.
Essa reunião é diferente de todas as reuniões do mundo, porque nos reunimos em Seu nome. Colocamo-nos sob a autoridade de Seu nome. Nós O reconhecemos como nosso Cabeça e nosso Senhor. Quando nos reunimos assim, o Senhor diz:
Aí estou Eu no meio deles.
Essa é a igreja.
Portanto, aqui encontramos o aspecto local da igreja. A igreja tem esses dois aspectos. Por um lado, pertencemos à igreja universal. Seja Pedro, Martinho Lutero, John Wesley ou quem quer que seja, todos os que creram no Senhor Jesus pertencem a essa única igreja universal. O Senhor está nos edificando juntos para sermos uma santa habitação para Si mesmo.
Mas, ao mesmo tempo, como vivemos neste século XX e estamos aqui em Richmond, nós nos reunimos em nome de nosso Senhor Jesus. Agradecemos ao Senhor por Sua promessa de que estará presente e porque Ele está presente conosco.
Como eu disse da última vez, em Mateus 16, o que realmente consideramos não foi apenas o fato de que o Senhor edificaria Sua igreja sobre a rocha, mas como Ele edificaria Sua igreja. Em Mateus 16, vemos que o Senhor edifica Sua igreja pelo princípio da cruz.
Em outras palavras, sem a cruz não pode haver edificação conjunta. A menos que neguemos a nós mesmos, tomemos nossa cruz e sigamos o Senhor, não poderemos ser edificados juntos para formar a igreja de Deus.
Nesta manhã, faremos a mesma coisa. Nosso propósito não é apenas dizer a vocês que existe uma igreja local, mas ver como a igreja local funciona. Em outras palavras, como a igreja local é edificada em conjunto?
Aqui encontramos outro princípio: o princípio do amor. Não podemos ser edificados juntos a menos que haja amor. O amor fraternal — amar uns aos outros — é o princípio e a prática da igreja local.
Aqui nosso Senhor Jesus disse:
Se teu irmão pecar contra ti.
Em outras palavras, quando nos reunimos, nós nos reunimos como irmãos. Sabem, isso é algo maravilhoso.
Há mais de cento e cinquenta anos, houve um grande movimento na terra. Os historiadores consideram que esse movimento teve um impacto ainda maior que o da Reforma. Foi o Movimento dos Irmãos, de 1828.
Quando o Espírito do Senhor começou a levantar esses irmãos, o Senhor reuniu pessoas de todo tipo de origem social. Alguns tinham títulos de nobreza; outros eram pessoas de grande erudição, com doutorados e assim por diante. Havia também aqueles que não tinham tanta instrução ou pertenciam às classes mais baixas.
Mas, quando o Senhor os reuniu, todos deixaram de lado sua posição social. Ninguém era chamado de senhor, duque, doutor ou qualquer outro título. Eles simplesmente se reuniam como irmãos. Deixaram todos os seus títulos e se reuniram apenas como irmãos. Havia tanto amor entre eles, e é isso que a história nos conta sobre o Movimento dos Irmãos.
Irmãos — queridos irmãos e irmãs —, quando nos reunimos, somos todos irmãos. Por quê? Porque todos recebemos a vida de nosso Senhor Jesus. Compartilhamos a mesma vida. Pertencemos a uma irmandade.
Essa irmandade é ainda mais forte que nossos laços naturais de irmãos — isto é, de irmãos segundo a carne. Creio que cada um de vocês já teve essa experiência.
Lembro-me de quando me acheguei ao Senhor. Eu vinha de uma família em que nós, irmãos e irmãs, éramos muito unidos. Mas, depois que me acheguei ao Senhor, algo aconteceu. Os irmãos e as irmãs no Senhor pareciam mais próximos de mim do que meus irmãos e minhas irmãs segundo a carne.
Às vezes, os irmãos e as irmãs segundo a carne podem sentir inveja ou ciúmes disso, mas não posso evitar. Existe uma irmandade mais forte que os laços de irmãos segundo a carne. Pertencemos uns aos outros. Temos a mesma vida. Estamos na mesma família. Somos membros uns dos outros.
É mais do que uma congregação. Se fosse apenas uma congregação, poderíamos nos congregar e depois nos dispersar. Mas é um corpo, uma família. Somos uma irmandade. Somos inseparáveis.
Em 1 Pedro 2:17, encontramos Pedro dizendo:
Amai a irmandade.
Amamos a irmandade. Nós nos comprometemos não apenas com o Senhor, mas também uns com os outros. Já não somos estranhos, peregrinos ou estrangeiros uns para os outros.
Em Efésios 2:19, somos informados de que já não somos estrangeiros nem forasteiros, mas pertencemos à família. Somos cidadãos da nação santa e celestial, e somos irmãos uns dos outros. É isso que somos.
Porque somos irmãos e nos reunimos como irmãos, vamos agir como irmãos. Às vezes, nos reunimos como se fôssemos estranhos, como se fôssemos estrangeiros. Não nos comportamos como irmãos.
Nós nos comportamos como irmãos? Estamos realmente comprometidos uns com os outros? Realmente cuidamos uns dos outros? Realmente nos amamos como irmãos?
A passagem que lemos diz:
Se teu irmão pecar contra ti.
Lembrem-se: é um irmão pecando contra outro irmão. Ainda assim, ambos são irmãos.
Se um irmão peca contra outro irmão e se recusa a ser restaurado, qual é a consequência? Então você o considera como gentio e cobrador de impostos. Em outras palavras, somos irmãos; somos uma irmandade. Mas, se alguém viola o princípio da irmandade e se recusa a ser restaurado, então ele é como um gentio, alguém das nações, um cobrador de impostos — não alguém a ser odiado, mas alguém de quem se deve ter compaixão.
Lembrem-se: somos irmãos, e nos reunimos nessa condição. Portanto, precisamos amar uns aos outros.
Quando um intérprete da lei veio ao nosso Senhor Jesus para pô-Lo à prova e perguntou: “Qual é o maior mandamento?”, o Senhor Jesus disse:
Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento.
Este é o grande e primeiro mandamento.
E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.
No Novo Testamento, isso não mudou. Continua sendo o maior mandamento. Nós, que estamos no Novo Testamento, devemos amar o Senhor, nosso Deus, de todo o nosso coração, de todo o nosso entendimento, de toda a nossa força e de toda a nossa mente.
A única diferença é que, no Antigo Testamento, havia uma ordem, mas não havia o suprimento. No Novo Testamento, há uma ordem e há graça. A graça nos é suprida para que possamos amar o Senhor, nosso Deus. Ela torna possível amarmos o Senhor, nosso Deus, de todo o coração, de toda a mente e de todo o entendimento. Esse é o Novo Testamento.
Então há o segundo mandamento:
Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
No Novo Testamento, vemos que ele tem uma nova aplicação. Quem é o seu próximo? Seu próximo é seu irmão.
Por isso, o Senhor disse:
Amai-vos uns aos outros, assim como Eu vos amei.
Irmãos e irmãs, precisamos amar o Senhor, nosso Deus, de todo o coração e, ao mesmo tempo, precisamos amar nossos irmãos.
Mas há uma diferença. No Antigo Testamento, a ordem é:
Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
Todos somos centrados em nós mesmos; isso é natural. Amamos a nós mesmos. Se você consegue amar seu próximo como ama a si mesmo, isso é o máximo que pode fazer. Sob a lei, você não consegue ir além disso.
Mas, sob a graça, é diferente. Sob a graça, não basta apenas amar seu irmão como você ama a si mesmo. Sob a graça, você deve amar seu irmão a ponto de dar a vida por ele.
Em outras palavras, devemos negar a nós mesmos. Devemos abrir mão de nós mesmos por nosso irmão. Esse é o Novo Testamento.
O Senhor Jesus nos amou e deu Sua vida por nós. Portanto, devemos dar nossa vida por nossos irmãos. Isso é amor fraternal. O amor fraternal nada mais é do que amar alguém porque ele ou ela é um irmão.
Certo dia, nosso querido irmão Watchman Nee disse a outro irmão: “Vá e diga aos irmãos isto e aquilo”. O irmão que o ouviu perguntou: “Irmão Nee, a quem o senhor quer que eu diga — aos irmãos do sexo masculino ou aos irmãos do sexo feminino?”
É verdade: sejam homens ou mulheres, vocês são irmãos. Somos todos irmãos.
Amamos uns aos outros por uma única razão: porque somos irmãos. Não é porque ele é amável que o amamos; nem é porque ele não é amável que deixamos de amá-lo.
É verdade que somos todos diferentes. Temos temperamentos diferentes, e isso é um grande problema. Temos origens diferentes, culturas diferentes, criações diferentes, formações diferentes e costumes diferentes. Somos diferentes de muitas maneiras. Mas o maravilhoso é que, apesar de todas essas diferenças, podemos amar uns aos outros. Por quê? Porque somos irmãos.
Nada edifica mais a igreja do que esse amor. Sem esse amor, a igreja não pode ser edificada. Mas, com esse amor, podemos edificar uns aos outros em Cristo.
Creio que aquilo que lemos no início ilustra esse ponto. Muitas vezes, quando lemos, ficamos apenas na letra:
Se teu irmão pecar contra ti,
faça alguma coisa. Mas por quê?
Se seu irmão peca contra você, certamente esse irmão está com você, no mesmo lugar, ao mesmo tempo, reunido com você. Caso contrário, como ele poderia pecar contra você?
Muitas vezes ouvimos as pessoas dizerem: “Ah, eu amo os irmãos e as irmãs da Austrália, mas simplesmente não amo estes irmãos e estas irmãs daqui”. Bem, isso é natural.
Suponhamos que nos reunamos apenas como uma congregação. Nós nos reunimos por apenas uma hora, ou talvez duas — embora alguém possa achar que duas horas já é tempo demais. Talvez nos reunamos por uma hora por semana. Quando chegamos, todos vestimos nossa melhor roupa de domingo. Podemos ouvir um sermão curto — vinte minutos já bastam — e nos entreter com um pouco de música.
Depois do nosso chamado culto, apertamos as mãos e nos despedimos uns dos outros. Podemos nos dar ao luxo de ser muito educados e corteses e não pecar uns contra os outros, porque não nos vemos com muita frequência.
Como congregação, não há problema. Se vocês não querem ter nenhum problema, reúnam-se como uma congregação.
Mas, se nos reunimos como uma assembleia, como a igreja de Deus, como uma irmandade, não podemos ficar tão distantes de nossos irmãos e irmãs. Estamos intimamente unidos. Estamos juntos. Adoramos juntos e servimos juntos.
Como estamos juntos nessa intimidade, há muitas oportunidades de pisarmos no pé uns dos outros. Surgem atritos entre nós porque estamos muito próximos. Sempre existe a possibilidade de pecarmos uns contra os outros.
É verdade: se vocês lerem todo o capítulo de Mateus 18, nosso Senhor Jesus diz:
Tende cuidado para não fazer tropeçar ninguém, nem mesmo os pequeninos, porque os anjos dos pequeninos veem continuamente Meu Pai.
Em outras palavras, fazer um pequenino tropeçar é algo muito sério, muito grave.
Não façam ninguém tropeçar. Se vocês fizerem tropeçar um dos pequeninos que crê no Senhor Jesus, estarão ofendendo o próprio Senhor. Isso é terrível. Não sejam descuidados a ponto de simplesmente sair pisando no pé de qualquer pessoa. É algo sério. Não ofendam ninguém.
Mas parece que as ofensas são inevitáveis. Então, se seu irmão pecar contra você, o que fazer?
Muitas vezes pensamos que, se um irmão peca contra outro irmão, agora temos um problema. Como seria bom se ninguém pecasse contra ninguém! Então todos manteríamos certa distância, seríamos muito educados e corteses, e nenhum problema surgiria.
Mas, irmãos e irmãs, esse não é o problema. O problema não é um irmão pecar contra outro irmão. O problema é: há amor suficiente? Se houver amor, o problema poderá ser resolvido.
Ao resolver o problema, a irmandade é fortalecida. A igreja não pode ser edificada sem problemas. Os problemas, quando enfrentados da maneira correta, fortalecem e edificam.
Por isso, o Senhor Jesus disse:
Se teu irmão pecar contra ti.
É melhor não pecar contra seu irmão. Mas, se seu irmão pecar contra você, o que acontece?
Quando um irmão peca contra outro irmão, vemos que a comunhão é quebrada. Somos uma irmandade; existe uma comunhão da irmandade. Mas, se um irmão peca contra outro irmão, a comunhão é prejudicada. A comunhão é interrompida. Cria-se uma distância entre esses dois irmãos. Algo está prejudicando a irmandade.
O que você fará?
“Se seu irmão pecar contra você, será olho por olho?” Bem, isso é a lei. Não podemos fazer isso.
Ou talvez digamos: “Bem, ele é um irmão. O que posso fazer? Vou simplesmente suportar. Infelizmente, tenho de sofrer, não é? Não posso pagar na mesma moeda porque sou um irmão”.
É essa a sua atitude? Se essa for sua reação, a comunhão não será restaurada.
Se seu irmão pecar contra você, o que o Senhor diz que você deve fazer? Acho que Ele nos manda fazer algo em que dificilmente pensaríamos, ou quase nunca pensaríamos em fazer:
Se teu irmão pecar contra ti, vai.
“Ah, não! Se meu irmão pecar contra mim, que ele venha. Por que eu deveria ir? Ele pecou contra mim. Ele é que deveria vir e me pedir desculpas. Eu não vou. Vou ficar sentado aqui e esperar que ele venha pedir desculpas. Esse é meu direito.”
Bem, você pode ficar sentado até a eternidade, e talvez ele não venha. Por quê? Porque seu irmão está em trevas. Você está na luz, mas seu irmão está em trevas e, estando em trevas, ele não consegue enxergar.
Por isso, o Senhor diz:
Se teu irmão pecar contra ti, vai.
Ir para fazer o quê? Repreendê-lo. “Ah, chegou a minha oportunidade! Posso ir e realmente esmagá-lo, provar que estou certo e despejar minha ira e minha indignação sobre ele. Como você ousa pecar contra mim?”
Não, não é isso que a palavra significa. Repreender significa expor a verdade, procurar convencê-lo. Ele está em trevas. Talvez nem saiba que pecou contra você. Talvez não saiba que fez algo errado. Ele precisa ser confrontado com a verdade e convencido.
Você precisa partir do princípio de que ele não fez isso de propósito. Há algo que às vezes não entendo — embora em outras ocasiões eu entenda: quando nosso Senhor Jesus foi crucificado, Ele disse:
Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.
Às vezes, penso que eles certamente sabiam o que estavam fazendo. Mas, em outras ocasiões, penso que provavelmente não sabiam. Não sabiam de fato, verdadeiramente, o que estavam fazendo. Se soubessem que Ele era o Senhor da vida, não O teriam crucificado.
Oh, que misericórdia! Oh, que amor! Deus sempre considera que não fazemos isso de propósito. E, porque não fazemos de propósito, Ele está pronto a perdoar.
Portanto, se seu irmão pecar contra você, vá e repreenda-o. Mostre-lhe a verdade. Procure trazê-lo para a luz, para que ele seja recuperado e restaurado.
É claro que, antes de ir, você precisa já tê-lo perdoado. Se você tem um espírito que se recusa a perdoar, não vá. Se vai para provar que está certo, não vá.
Você já deve tê-lo perdoado. Não apenas perdoou sua ofensa, mas o ama tanto que não quer vê-lo em trevas. Não quer vê-lo sofrer. Não quer vê-lo perder a comunhão.
Você quer restaurar seu irmão. Tem orado por ele. Carrega um encargo por ele. Importa-se com sua alma. Por isso, vai com um espírito de amor. Procura restaurá-lo, mostrando-lhe em que errou, para que ele se arrependa e seja recuperado.
Se ele ouvir você, você ganhou seu irmão. A irmandade foi preservada. A comunhão foi restaurada. Não há sombra nem obscuridade. Oh, como é abençoada essa comunhão!
Não é uma questão de dever; é uma questão de amor. Muitas vezes vivemos pelo princípio do dever: “Se é meu dever, vou fazer”.
Mas, queridos irmãos e irmãs, a irmandade não é governada pelo dever; é governada pelo amor. O amor sempre anda a segunda milha.
Se teu irmão pecar contra ti, vai e repreende-o; se te ouvir, ganhaste teu irmão.
Mas suponhamos que ele não ouça. Será que, pelo fato de ele não ouvir, seu dever está cumprido e sua responsabilidade terminou? Não. O amor nunca desiste.
Mesmo depois de você ter ido até ele, a sós, e ele não ter ouvido, lembre-se de que o Senhor diz:
Se teu irmão pecar contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele só.
Ninguém mais.
Vocês sabem o que fazemos. Se meu irmão peca contra mim, e eu sei que, por ser um irmão, não posso pagar na mesma moeda, então faço o seguinte: percorro toda a assembleia e conto a cada irmão e irmã como ele pecou contra mim — mas não falo com ele. Essa é a maneira pela qual tento retribuir o que ele fez.
Todos sabem, menos aquele irmão. Esse é o problema na igreja hoje. Quando seu irmão peca contra você, você conta a todos, menos àquele irmão. Isso é vingança. Isso não é amor.
Não conte a ninguém. Fale primeiro com ele.
Oh, se apenas soubéssemos isto: enquanto não falarmos com o irmão que pecou contra nós, não devemos falar com ninguém. Mais da metade das dificuldades na igreja seriam resolvidas.
A igreja, muitas vezes, é uma casa de fofocas. A fofoca causa mais dano do que a ofensa. A fofoca aumenta a distância entre os irmãos e as irmãs.
Oh, que Deus tenha misericórdia de nós e ponha fim a toda essa fofoca! Se você não tem o amor e a coragem de ir ao seu irmão e procurar restaurá-lo, mantenha a boca fechada. Você pode falar com Deus, mas não fale com ninguém. E, quando estiver falando com Deus, não acuse seu irmão.
Vá ao seu irmão, a sós. Não deixe que mais ninguém saiba. Resolva essa questão imediatamente, para que ela não afete toda a família.
Mas, se ele não ouvir, o que você fará? Você precisa andar a terceira milha. Chame um ou dois outros irmãos e vá até ele com eles. Pela palavra de duas ou três testemunhas, tudo será confirmado. Espera-se que, por esse meio, aquele irmão seja convencido.
Ele não quis ouvir você sozinho porque seu coração está muito endurecido. Mas, com dois outros irmãos presentes, talvez seu coração seja abrandado.
É claro que, ao chamar um ou dois irmãos, você não chama alguém da Inglaterra para vir ajudar, quando ele nem sequer conhece a situação. Esses um ou dois devem estar ali mesmo, na mesma assembleia.
E não chame simplesmente um ou dois que sejam seus amigos íntimos, aqueles que se solidarizam com você e sempre concordam com você, esteja você certo ou errado. Não.
O que a Escritura quer dizer ao mandar chamar um ou dois irmãos é que esses irmãos tenham peso espiritual. São respeitados na igreja, não apenas por você, mas também por aquele irmão. Como têm peso espiritual, suas palavras têm peso, e aquele irmão terá de ouvi-los.
Se eles também percebem que o irmão está em trevas, então ele deve considerar isso com muito cuidado. Portanto, você leva um ou dois consigo, na esperança de que aquele irmão se arrependa e seja restaurado.
Agora, suponhamos que aquele irmão esteja tão endurecido que se recuse a enxergar e a se arrepender. E então? Somente nesse momento você fala à igreja.
A igreja é o último recurso — não o primeiro, mas o último.
Ao falar à igreja, é claro que você não fala à igreja universal. Isso é impossível. Como você vai falar à igreja universal? Aqueles que já partiram não podem ouvir você. Aqueles que ainda não nasceram não podem ouvir você. Mesmo que você tentasse falar pela televisão, talvez em alguma aldeia não houvesse televisão. Como você pode falar à igreja universal? Não pode. Ela é grande demais.
Até mesmo a ação da igreja local já é suficientemente séria. A disciplina da igreja local é tão séria que, em 2 Coríntios, Paulo diz a respeito daquele irmão que estava sob a disciplina de toda a igreja:
Ele já sofreu o suficiente. Arrependeu-se. Agora, perdoai-lhe. Amai-o, para que não seja consumido por excessiva tristeza. Não ignoramos os desígnios do inimigo.
A igreja universal é grande demais para exercer disciplina. A mão seria pesada demais para qualquer pessoa. Portanto, deve ser a igreja local, onde todos esses irmãos estão reunidos.
Falar à igreja não significa que, numa reunião da igreja, você se levante e declare: “O irmão Fulano pecou contra mim”, enquanto aquele irmão está sentado ali. Não. Falar à igreja significa falar aos irmãos que têm responsabilidade pela igreja.
Esses irmãos assumem a responsabilidade por toda a igreja. Eles irão procurar restaurar aquele irmão que pecou.
Pensem no amor que está por trás disso. Não é apenas o seu amor; é também o amor de um ou dois outros irmãos. Não é apenas o amor de um ou dois outros irmãos; é o amor de toda a igreja. Toda a igreja ama aquele irmão.
É exatamente como o seu corpo. Quando algo espeta seu dedo, todo o corpo corre em seu socorro. Aqui, toda a igreja vem, procurando restaurar aquele irmão. Oh, o amor que está por trás disso!
Mas, se ele não ouvir a igreja, o que acontece?
Considera-o como gentio e publicano.
Pensem nisso. Um irmão caiu tão baixo que passa a ser considerado como alguém das nações e como um cobrador de impostos. Pensem nisso.
Ele não se comporta como irmão. Portanto, será considerado como um incrédulo. Não, ele é um crente, mas será considerado como estrangeiro, gentio, cobrador de impostos. Ele se afastou da comunhão da irmandade.
Mas o Senhor não diz que ele é excomungado. O Senhor diz:
Seja ele para ti.
Em outras palavras, é somente para você que ele será considerado assim. Ele pecou contra você; não pecou contra toda a assembleia. Não cometeu um pecado grave que exija excomunhão.
Ele pecou apenas contra você. Como pecou contra você, você o considera como alguém das nações e como cobrador de impostos. Ele ainda pode permanecer na assembleia. Continua na irmandade. Continua se reunindo com os irmãos e as irmãs.
Mas, no que diz respeito à relação dele com você, você o considera como gentio, como pecador. Como olhamos para o gentio e para o pecador? Olhamos para eles com ódio? Não — com compaixão.
Você ainda precisa amá-lo. Tem compaixão dele. Continua orando por ele. Portanto, irmãos e irmãs, vocês veem que isso é amor fraternal.
É muito significativo que, em ligação com isso, encontremos os versículos seguintes — Mateus 18:18-20:
Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu; e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu.
Também vos digo que, se dois de vós concordarem na terra acerca de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por Meu Pai, Que está nos céus.
Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em Meu nome, aí estou Eu no meio deles.
Vocês veem alguma ligação entre o que vem antes e o que vem depois? O Senhor está falando de um irmão que peca contra outro irmão e do que você deve fazer. Você o ama, ama e ama, até chegar ao ponto em que, embora não possa recebê-lo na plena comunhão de um irmão, ainda pode amá-lo como pecador.
Então, de repente, o Senhor diz:
Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu; e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu.
Se dois de vós concordarem na terra acerca de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será concedido.
Qual é a ligação entre essas duas coisas?
Acho que está claro. Há um problema na igreja. Por um lado, esse problema precisa ser resolvido pelo amor. Por outro, precisa ser resolvido por meio da oração.
Não se trata apenas de você ir, depois um ou dois irem e, em seguida, toda a igreja ir. Ao mesmo tempo que você vai, ao mesmo tempo que um ou dois vão e ao mesmo tempo que a igreja vai, você está orando, um ou dois estão orando e toda a igreja está orando.
Todos os problemas na igreja são resolvidos, por um lado, pelo amor — e o amor é ativo — e, por outro, pela oração.
Se for apenas uma questão de ir, sem essa oração por trás, você descobrirá que a ida não será eficaz. Por que a ida é eficaz? Porque, por trás da ida, há oração.
Oh, como precisamos orar!
Quando oramos:
Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu; e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu.
Algumas traduções dizem:
Tudo o que ligardes na terra terá sido ligado no céu; e tudo o que desligardes na terra terá sido desligado no céu.
Seja qual for a tradução, aqui vemos o céu e a terra dando as mãos.
Quando o céu e a terra dão as mãos? Quando o povo de Deus se ajoelha e ora.
Aqui está uma situação: um irmão precisa ser desligado, liberto. Ajoelhem-se e orem para que ele seja liberto. É a vontade do céu que ele seja liberto.
Ou, às vezes, vocês percebem que um irmão precisa ser ligado. Em outras palavras, ele precisa ser disciplinado. Como essa é a vontade do céu, podemos orar para que ele seja ligado a fim de ser liberto.
Se dois de vós concordarem na terra.
Agora, como duas pessoas podem concordar na terra? Vejo um verdadeiro problema aqui. Não há duas pessoas na terra que concordem perfeitamente. Podemos chegar a um meio-termo. Podemos ceder um pouco de cada lado. Mas concordar de verdade — não.
A palavra concordar, no original, significa estar em harmonia, como numa sinfonia. Há diferentes instrumentos com diferentes sons, mas eles se harmonizam em uma unidade. É isso que significa concordar.
Somos todos tão diferentes e, ainda assim, estamos tão harmonizados que somos um. Como isso pode acontecer? Não é você concordar comigo ou eu concordar com você. É todos nós concordarmos com o Cabeça.
O Senhor diz:
Aí estou Eu no meio deles.
Portanto, concorde com Ele. Se você concorda com Ele e eu concordo com Ele, então nós concordamos.
Ele é como o regente. Olhem para o Regente. Sigam Sua direção. Então vocês verão todos esses instrumentos tocando juntos em perfeita harmonia e produzindo uma bela música.
Irmãos e irmãs, é disso que se trata. Não oramos porque eu quero que seja assim. Oramos porque o Senhor quer que seja assim.
Quando concordamos com o Senhor e nos dedicamos à oração com outros irmãos e irmãs, o poder da oração é ilimitado. Irmãos e irmãs serão libertos de suas prisões, e irmãos e irmãs serão ligados se estiverem livres demais.
É assim que a igreja é edificada. Portanto, queridos irmãos e irmãs, vamos nos lembrar disto: como a igreja é edificada? Como devemos nos comportar na igreja como irmãos? Como os problemas da igreja são resolvidos?
Eles são resolvidos por dois princípios: amor e oração.
Se soubermos amar uns aos outros e se soubermos orar, a igreja será edificada. A irmandade não será apenas preservada, mas também fortalecida.
Que o Senhor nos ajude. Vamos orar?
Oh, Pai celestial, nós Te louvamos e agradecemos porque Tu nos trouxeste para uma irmandade celestial, bela e maravilhosa.
Oh, Senhor, desejamos saber como nos comportar como irmãos. Não permitas que sejamos como estranhos e estrangeiros uns para os outros. Oramos para que nos comprometamos uns com os outros, cuidemos uns dos outros, amemos uns aos outros e restauremos uns aos outros em amor.
Senhor, oramos para que não insistamos em nossos próprios direitos, mas estejamos dispostos a nos entregar, até mesmo a dar nossa vida, por nossos irmãos. Oh, desejamos ver a irmandade não apenas preservada, mas fortalecida.
Senhor, ensina-nos a orar, para que possamos concordar Contigo e trazer Teu poder do céu à terra para a edificação da Tua igreja.
Pedimos tudo em nome de nosso Senhor Jesus e somente para Sua glória. Amém.