Não, acho que podemos enfrentar isso. É uma questão de esforço. Temos caminhado ao redor, e só podíamos ir até certo ponto. Agora vamos tentar entrar.
Vou ler apenas uma parte da mensagem, no segundo capítulo do livro de Apocalipse, Apocalipse 2:1-5:
Isto diz Aquele que tem na Sua destra as sete estrelas, que anda no meio dos sete castiçais de ouro:
Conheço as tuas obras, e o teu trabalho, e a tua perseverança, e que não podes suportar os maus; e puseste à prova os que se dizem apóstolos e não o são, e os achaste mentirosos;
E tens perseverança, e por amor do Meu nome suportaste, e não te cansaste.
Tenho, porém, contra ti que deixaste o teu primeiro amor.
Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras; se não, venho a ti e removerei do seu lugar o teu castiçal, caso não te arrependas.
Portanto, o que precisamos fazer, buscando a ajuda do Senhor, é chegar ao próprio coração dessa mensagem e descobrir o que era — e continua sendo — aquilo de que tudo depende.
Como vimos, a continuidade desse instrumento a serviço do propósito do Senhor não dependia de uma série de coisas muito boas e louváveis, mas de uma única coisa. É o que se chama de “teu primeiro amor”.
Vamos fazer a pergunta e procurar respondê-la, ao menos em alguma medida: o que é o primeiro amor?
Permitam-me dizer aqui, antes de prosseguir, que não tenho a intenção nem a expectativa de fazer algo como um estudo exaustivo dessas mensagens. Na verdade, não sei se tratarei de todas elas. Mas, seja o que for que façamos, procuraremos chegar ao próprio coração da mensagem e descobrir exatamente do que se trata.
Qual é essa expressão de Cristo tão vital e tão cheia de consequências que transforma toda essa questão da continuidade do ministério numa crise? Não há dúvida: estamos diante de uma crise quando nos deparamos com essas mensagens. Há nelas um desfecho real, de caráter absolutamente decisivo e definitivo.
Queremos descobrir o que traz consigo tantas implicações e significa tanto para a igreja e para o Senhor.
Eu disse: “essa expressão de Cristo”. Aqui eu deveria dedicar algum tempo, novamente, a uma introdução ao assunto, mas não farei isso. Recebi uma indicação de que estou incluindo coisas demais, ou tentando incluir.
Mas é perfeitamente claro, mesmo para o leitor mais simples, que aquele retrato do Senhor Jesus em Apocalipse 1 se distribui por essas sete mensagens. Vocês provavelmente notaram que algo daquela descrição do Senhor Jesus é usado na introdução de cada mensagem.
Há apenas uma pequena alteração, na mensagem a Filadélfia: em vez da descrição de Apocalipse 1:18,
Aquele que tem as chaves da morte e do Hades,
a expressão passa a ser, em Apocalipse 3:7:
Aquele que tem a chave de Davi.
Com essa exceção, ou alteração, cada mensagem contém algo extraído da descrição do Senhor Jesus: “Aquele que…”, e então temos algo do retrato completo e da apresentação de Cristo. Isso claramente implica que aquilo que é de Cristo é o que governa em cada caso.
Em toda parte, em todos os lugares, em cada ocasião, é algo vital de Cristo que está em questão. Isso é o que importa observar.
Agora vamos a Éfeso. É claro que Éfeso era a igreja-mãe da Ásia. Sabemos disso porque se diz que, durante aqueles três anos ali em Éfeso, toda a Ásia ouviu a Palavra, tanto judeus como gregos. Era a igreja-mãe.
Na introdução da mensagem a Éfeso, o Senhor descreve a Si mesmo como Aquele que tem as sete estrelas e anda no meio dos sete castiçais de ouro. Éfeso inclui todas; Éfeso é abrangente.
Portanto, o que se diz a Éfeso não é dito apenas a Éfeso. Essa mensagem é bastante abrangente. À medida que conseguirmos identificar essa questão vital no próprio coração de tudo, tenho certeza de que, mesmo sem eu apontar isso, veremos que ela não é, de modo algum, exclusivamente local ou própria de uma igreja em particular.
É algo que sempre constitui um perigo para o povo de Deus. Assim, voltamos a perguntar: “O que é isso que se chama ‘teu primeiro amor’?”
Para encontrar a resposta, é claro, temos de — ou deveríamos — voltar à grande carta de Paulo que hoje leva o nome de Carta aos Efésios. Sabemos que ela foi dirigida a outras igrejas além de Éfeso, e que Éfeso era uma dessas igrejas, talvez a primeira cujo nome foi associado à carta durante sua circulação.
Para o nosso propósito, podemos chamá-la de Carta aos Efésios. Se vocês se lembrarem do conteúdo dessa carta, recordarão que ela tem muito a dizer sobre o amor.
Efésios 2:4:
Pelo Seu muito amor com que nos amou.
Efésios 5:2:
Andai em amor, como também Cristo vos amou.
Efésios 5:25:
Como também Cristo amou a igreja e a Si mesmo Se entregou por ela.
Efésios 3:17:
Arraigados e alicerçados em amor.
Efésios 3:19:
Conhecer o amor de Cristo, que excede todo o conhecimento.
Não é uma carta longa, em termos de quantidade de palavras, mas que declarações imensas são essas! Que amor tremendo está representado ali!
Sim, Éfeso era a igreja que havia recebido um ministério e uma revelação de amor — o amor que excede o conhecimento. E Éfeso havia correspondido a isso. Não há dúvida.
Leiam Atos 19 e Atos 20. Vejam como corresponderam àquele amor e ao homem que lhes havia trazido o conhecimento desse amor. Ele se despediu deles; ajoelharam-se juntos; ele orou; e eles choraram muito por causa de sua partida. Toda aquela cena expressa uma correspondência ao amor divino.
Éfeso era, num sentido muito real, o amor personificado: vindo de Deus e retornando a Deus, vindo de Cristo e voltando a Cristo. Sim, tudo isso é muito verdadeiro.
Mas vocês precisam acrescentar outra palavra ao lado dessa para chegar ao significado desse “primeiro amor”. É a outra palavra que ocupa o maior espaço nessa Carta aos Efésios: a palavra graça.
Graça. Não vou gastar tempo apresentando a vocês todas as nove referências ou menções à graça nessa carta, mas a graça está em toda parte. A graça percorre tudo. Tudo é graça.
Por que houve tamanha resposta ao amor de Deus? Porque eles reconheciam e tinham plena consciência de quão grande devia ser a graça para que pessoas como eles fossem amadas daquela maneira.
Esse primeiro amor não é algo sentimental. Quando falamos de primeiro amor, muitas vezes há bastante sentimentalismo associado à expressão. Não, isso não é algo sentimental; é uma qualidade do amor.
Senhor, ajuda-me a mostrar a vocês a qualidade desse amor.
O Senhor amou Israel no passado. Ah, como os profetas proclamaram esse amor; como o Senhor tornou conhecido o Seu amor por aquele povo! Não há dúvida: o Senhor amou Israel.
Mas Israel perdeu muito depressa a percepção da infinita condescendência de Deus ao amá-los — a infinita condescendência de Deus ao escolhê-los dentre todos os povos da terra.
Muito depressa, Israel se permitiu pensar que era alguma coisa e que era digno daquele amor. Tornou-se orgulhoso e passou a considerar aquele amor como algo garantido.
O pecado de Israel foi exatamente esse. No fim, foi exatamente isso: eles eram o povo. Eles eram o povo. Sim, mereciam aquilo; eram dignos daquilo; eram alguém que devia ser levado em conta. Eram o povo, e Deus tinha a obrigação de amá-los.
Foi assim que aconteceu com Israel. Por essa mesma razão, a aliança foi quebrada, e os gentios foram introduzidos em seu lugar.
Vocês percebem algo a respeito dos gentios? Quando o apóstolo se voltou para os gentios, quando a mensagem chegou aos gentios, sempre — invariavelmente — encontramos esta reação: “É a coisa mais maravilhosa que se pode imaginar: que nos seja permitido participar disso!”
Nunca se tinha ouvido falar de algo assim. Os gentios, os pagãos, as pessoas que Israel chamava de cães, foram acolhidos plenamente — dentro da própria família — e receberam todos os privilégios de filhos. Coisas maravilhosíssimas!
Era um reconhecimento tremendo do amor divino. Vocês ouvem as orações do nosso irmão, e parece que ele sabia o que eu ia dizer: primeiro amor, primeiro amor, primeiro amor.
Bem, neste caso, vejam, era assim. Aqui está uma esposa; aqui está uma noiva: a igreja como noiva de Cristo, que não diz: “Ele tem sorte de me ter como esposa. Sou perfeitamente digna dEle. Ele deveria estar muito agradecido por ter uma esposa como eu”.
Não. Pelo contrário: “É a coisa mais extraordinária que Ele sequer tenha olhado para mim, que tenha pensado em mim uma primeira vez e depois voltado a pensar em mim. Jamais poderei explicar isso, jamais compreender. Por toda a eternidade, nunca serei capaz de saber por que Ele pensou em mim, quanto mais por que me amou e Se entregou por mim”.
Vejam, esse é o espírito da igreja. Esse era o espírito dos gentios quando os judeus simplesmente consideravam tudo como algo garantido. Tudo se tornou tão comum para eles.
Tudo o que Deus lhes havia dado e mostrado — bem, já não havia nada de muito maravilhoso naquilo. Perdeu o brilho, a glória, o encanto, a capacidade de surpreender. Agora era tudo tão comum.
Podiam fazer o que quisessem com aquilo: aceitar ou deixar de lado. Não era assim com os gentios.
Vejam-nos na Galácia — nossa, que receptividade! Vejam-nos em Filipos — que abertura de coração; como absorvem tudo aquilo! Vejam-nos em Tessalônica, como diz 1 Tessalonicenses 2:13:
Recebestes a palavra, não como palavra de homens, mas, segundo é na verdade, como palavra de Deus.
Sempre que saímos de Israel, encontramos um intenso reconhecimento, um tremendo deslumbramento. E, voltando a Éfeso, o que encontramos ali?
Em Éfeso encontramos isto, em Atos 19:19:
Muitos dos que praticavam artes mágicas trouxeram os seus livros e os queimaram diante de todos; e, calculando o seu valor, acharam que montava a cinquenta mil peças de prata.
Isso é reconhecimento. Isso é reconhecimento. Não há nada de comum aí. Isso é primeiro amor, queridos amigos. Isso é primeiro amor.
O perigo é este: mesmo em seu trabalho, em sua perseverança, em seu cuidado em fazer o que é certo, em sua sinceridade e em todas essas obras e atividades, perdeu-se a glória, o assombro, o deslumbramento pelo simples fato de terem sido salvos.
Toda essa maravilhosa revelação que Deus deu a respeito da eleição, do chamado, da vocação e do destino da igreja — o que se chama de propósito eterno — vocês podem ouvi-la sem adorar. Podem ter tudo isso, e ainda assim não serem movidos a uma profunda gratidão e adoração.
Tudo se tornou tão comum, tão familiar. Perdeu seu encanto. Esse é o coração da mensagem. Esse é o perigo que a igreja enfrenta em todos os tempos.
Deus deu tanto, e começamos a tornar tudo isso comum, ou permitimos que se torne comum. “Ah, já ouvimos isso antes. Sabemos tudo sobre isso. Você não pode nos dizer nada que já não saibamos a respeito desse assunto. Já temos tudo; já temos tudo.”
E não estamos prostrados diante de Deus perante tudo isso, dizendo: “Que maravilha extraordinária! Que coisa extraordinária, eu ter um lugar nisso!”
Considera de onde caíste. Em Éfeso, as coisas terrenas se tornaram nada — nada — quando eles viram o Senhor Jesus.
Trouxeram todas aquelas coisas valiosas para os homens e para este mundo, às quais davam tanta importância — sim, de grande valor, segundo os padrões deste mundo — e as queimaram diante de todos. “Aquilo é lixo! Nós vimos Jesus.”
E só depois de vocês verem Jesus é que tudo o mais se torna sem brilho e sem valor, sem outra utilidade senão virar fumaça. Vejam a Ele!
Ah, a revelação de Jesus Cristo não deveria ser um ensino, uma verdade, uma interpretação ou um livro. Deveria ser adoração.
Apocalipse 1:17:
E, quando O vi, caí a Seus pés como morto.
Vocês já viram Jesus de tal maneira que fossem levados a se prostrar assim? Já viram o que Ele lhes deu a ponto de dizerem: “É a coisa mais maravilhosa que alguém poderia imaginar: que isso me tenha sido dado, que eu tenha um lugar ali”?
Vocês percebem como precisamos ser restaurados? Não vamos culpar Éfeso. Esse é o nosso inimigo constante; é o meu inimigo constante.
Meu contato contínuo com essas coisas ao longo dos anos, sempre tratando desses assuntos e ministrando sobre eles — meu inimigo permanente é a familiaridade, o contato com tudo isso apenas como verdade, como verdade: perder o deslumbramento.
E é maravilhoso. Queridos amigos, esse é o perigo que vocês correm quando ouvem essas coisas contínua e repetidamente. Lá está a história conhecida — sim, uma história maravilhosa —, mas que nunca nos leva a nos curvar diante de Deus em adoração.
Esse é o nosso perigo. É disso que trata o primeiro amor.
Agora vocês podem ver que é possível ter muitas coisas e não ter isso — muitas coisas boas. Ah, não se trata de dizer que vocês são inteiramente maus, ou que nós somos inteiramente maus, e que não há nada de bom a dizer a nosso respeito.
Há muita dedicação; há muito trabalho; muito, sim. Mas o que Ele procura é esse verdadeiro reconhecimento, de coração, de Quem Ele é, do que Ele fez e do que Ele deu.
Entramos neste livro e descobrimos que entramos numa esfera de adoração, como em Apocalipse 1:5-6:
Àquele que nos ama e nos libertou dos nossos pecados pelo Seu sangue;
E nos fez reino, sacerdotes para Seu Deus e Pai;
A Ele sejam a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém.
O que podemos dizer? Apenas: “A Ele seja a glória”. Chegamos a Apocalipse 4 e Apocalipse 5, e é isso que encontramos: a igreja no céu, uma igreja que adora, no verdadeiro e pleno reconhecimento do Senhor.
Bem, isso não é sobrecarregá-los de conteúdo, mas é colocar sobre nós uma responsabilidade muito grande. Creio, queridos amigos, que esta é exatamente a palavra que o Senhor diria a todos nós neste momento.
Estou perfeitamente satisfeito em encerrar aqui esta noite. Conferência após conferência, conferência após conferência — se vocês vissem meu escritório, veriam uma pilha de relatórios de conferências realizadas ao longo dos anos, que chega à metade da minha altura.
Tenho de perguntar: com todas essas resmas, esses volumes, esses volumes que têm sido apresentados ao longo dos anos, quanta adoração isso produziu? Até que ponto estamos realmente conscientes de tudo o que o Senhor nos deu?
Mas, por favor, não pensem que estou fazendo disso uma questão pessoal; estou apenas ilustrando o que quero dizer.
Nós, que somos tão privilegiados — não apenas aqui, mas nós, a igreja em nosso tempo —, que temos tudo isso, tão privilegiados por termos a revelação de Jesus Cristo: quanto custou àqueles primeiros servos do Senhor nos transmitir isso, quanto custou ao próprio Senhor para que o tivéssemos!
Ah, sim, que preço está por trás de tudo isso! Quanto adoramos hoje? Quanto isso realmente significa para nós? Quanto é apenas ensino, verdade e Bíblia? Quanto realmente toca o nosso coração?
Essa é a questão. E esse é o significado do primeiro amor: o reconhecimento pessoal de que o Senhor tenha olhado em nossa direção, sem falar em ter derramado generosamente sobre nós tudo o que Ele reuniu.
Bem, aí está a mensagem. Vejam, agora podemos compreender por que o Senhor não podia Se satisfazer com uma série de coisas muito boas. Trata-se daquela única coisa: faltava a essência por trás de tudo.
Não é de admirar que Ele diga, em Apocalipse 2:5:
Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras.
Ali estão elas.
Ah, sim, não há dúvida: eles deram ao Senhor uma resposta maravilhosa e custosa, segundo os padrões deste mundo. Leiam a história de Paulo em Éfeso, em Atos 19 e Atos 20.
Houve um tumulto tremendo, no qual queriam despedaçar aquele apóstolo. Alguns desses efésios não apenas falaram, mas agiram para protegê-lo: “Não vá lá fora. Fique aqui dentro. Nós nos colocaremos entre você e eles”.
Não permitiram que ele saísse ao encontro daquela gente em sua fúria descontrolada. Queriam proteger esse homem porque ele havia sido o instrumento de Deus por meio do qual tanto lhes fora concedido. Tudo isso é um retrato maravilhoso de como valorizavam aquilo que haviam recebido.
Agora o Senhor diz: “Vocês caíram daquela posição. Vocês deixaram aquilo”. Vocês não abandonaram a obra cristã; não abandonaram todas as virtudes cristãs. Há muitas coisas boas em vocês, mas é aquilo que importa.
Não preciso acrescentar mais palavras. Vejam, tudo se resume ao reconhecimento da graça de Deus — da graça de Deus.
Onde estaríamos se não fosse a graça de Deus? Ah, a graça já não tinha significado para Israel. Eles não sentiam necessidade dela; eram autossuficientes e haviam perdido tudo.
As pessoas que realmente atribuem valor supremo à graça são as que possuem tudo. “Nós a temos.” Que o Senhor faça de nós pessoas assim, que mova o nosso coração, nos desafie e restaure em nós esse primeiro amor.