Vou levá-los novamente às palavras do Evangelho de Lucas 3:21-22:
E aconteceu que, sendo todo o povo batizado, sendo batizado também Jesus, e estando Ele a orar, o céu se abriu; E o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corpórea, como uma pomba; E veio uma voz do céu: Tu és Meu Filho amado; em Ti Me comprazo.
Lucas 4:17-18:
E, abrindo o livro, achou o lugar em que estava escrito: O Espírito do Senhor está sobre Mim, Porque Ele Me ungiu.
Vou parar aí. O que vem depois nos ocupará mais adiante.
Quero apenas acrescentar uma palavra de 2 Coríntios 1:21-22:
Mas Aquele que nos confirma convosco em Cristo, e nos ungiu, é Deus; O Qual também nos selou e deu o penhor do Espírito em nossos corações.
Ao prosseguirmos em nossa consideração deste grande e importante assunto da unção com o Espírito Santo, nesta tarde vamos concentrar nossa atenção em um aspecto dessa questão, talvez o mais importante. É este: a unção sempre se relaciona com uma coisa, e essa coisa é a vocação.
Lemos que a unção veio sobre o Senhor Jesus, e então Ele mesmo declarou por que a unção havia vindo sobre Ele:
Porque o Senhor Me ungiu para pregar.
A unção do Espírito Santo diz respeito à vocação. Se vocês quiserem substituir a palavra por ministério, podem fazê-lo; mas, muitas vezes, o conceito de ministério fica limitado demais. Vocação talvez seja um termo mais abrangente.
Permitam-me salientar novamente que as passagens das Escrituras que lemos, às quais muitas outras poderiam ser acrescentadas, deixam bem claro que aquilo que era verdadeiro a respeito do Senhor Jesus, nesse sentido, é verdadeiro a respeito da igreja.
Entendo que essa mensagem aos coríntios é uma mensagem à igreja. Era a igreja em Corinto, mas a mensagem abrange toda a igreja. Porque, entre a unção pessoal Dele no Jordão e essa mensagem em 2 Coríntios, temos o dia de Pentecostes — a unção da igreja para sua grande missão em Cristo.
Isso é bastante simples e evidente, mas quero muito que vocês compreendam essa questão — não apenas como algo que foi dito, mas com verdadeira consciência do que ela significa. Há muita diferença entre saber alguma coisa de certa maneira e perceber de fato que você a possui ou a conhece. Temos muitas coisas sem perceber exatamente o que temos e o valor daquilo que temos.
É essa percepção, para além da declaração e da verdade em si, que espero que venha a vocês.
Você, querido amigo, e eu, se estamos em Cristo, como diz essa palavra aos coríntios, devemos ter a unção em Cristo:
Aquele que nos confirma convosco em Cristo, e nos ungiu, é Deus.
Em Cristo, todos devemos ser pessoas ungidas. Não se trata de como você se sente neste momento; trata-se do fato divino. Você está em Cristo? Se sua resposta é afirmativa, muito bem: então isso é verdade. Você foi introduzido na unção que está sobre Cristo. Você herda, depois da morte Dele, aquela unção que veio sobre Ele. Você é uma pessoa ungida.
Dissemos anteriormente que não há nada maior que possamos conceber do que sermos pessoas ungidas com o Espírito Santo, se ao menos soubéssemos o que isso significa. Contudo, aqui está a verdade.
Então, se isso é verdade, a unção que está sobre nós em Cristo tem em vista uma vocação. O grande fator que rege a unção é a vocação. Ela nos introduz no propósito divino. Isso significa que todo aquele que está em Cristo está em Cristo para um propósito.
Não deveria haver ninguém em Cristo sem um propósito na vida, pelo Espírito Santo. Talvez precisemos de instrução e esclarecimento quanto ao que esse propósito é; por enquanto, estou me empenhando em sublinhar e enfatizar o fato.
Se você não tem nenhuma consciência desse fato, mesmo sem explicação ou interpretação, então deveria levantar uma questão que diz respeito, penso eu, nada menos que à sua posição em Cristo — ao significado de estar em Cristo.
E, a meu ver, isso não é tão difícil quanto pode parecer. Se, quando você veio ao Senhor, ou depois de ter vindo ao Senhor, não nasceu em você a percepção de que a vida adquiriu um novo significado, de que passou a haver em sua consciência um sentido para a vida — apenas uma percepção, apenas algo que você reconhece ter acontecido —, então há algo errado com seu novo nascimento, com sua união com Cristo.
Isso poderia ser expresso de várias maneiras. Agora há algo pelo qual viver. Agora você é impelido a fazer alguma coisa. Agora há um alvo em direção ao qual você precisa avançar. Vejam, isso pode ser dito de muitas maneiras, mas todas se resumem a isto: você começou a seguir um caminho que tem significado.
E esse é o próprio espírito da vocação. Você fará alguma coisa. Você buscará alguma coisa. Você terá um objetivo na vida. Você percebe que está sendo impelido por algo.
Portanto, a própria presença do Espírito Santo como o Espírito da unção traz consigo exatamente isso, inseparável da vocação.
Comecei pelo fato individual. É importante começar aí, mas precisamos tratar isso como uma questão pessoal. Não somos passageiros nessa questão. Não somos coisas a serem levadas adiante por alguma máquina, instituição ou organização.
Podemos ser engrenagens muito pequenas no mecanismo inteiro, mas o conjunto todo ficaria comprometido se não cumpríssemos nossa função. Precisamos perceber isso. Penso que há gente demais sem essa consciência de estar sendo impelida pelo Espírito Santo em direção a alguma coisa.
Mas quero levar isso além do pessoal e do individual, porque nós, como indivíduos, na verdade só recebemos isso em um contexto mais amplo.
Se formos ao Novo Testamento, por exemplo, há muitos indivíduos profundamente envolvidos. Mas, na realidade, eles chegaram à sua percepção pessoal da iniciativa, do impulso, do estímulo e da motivação divinos porque a igreja passou a ser poderosamente impelida e movida pelo Espírito Santo. Antes de tudo, a igreja foi envolvida nessa questão.
E é muito difícil não perceber que esse tremendo senso de comissão e vocação veio com o Espírito Santo. Naquele dia, e a partir daquele dia, a igreja passa a ter um propósito e uma motivação, uma tremenda força propulsora; e todos os indivíduos recebem desse todo seu próprio senso pessoal de significado. Teremos de voltar a isso daqui a pouco.
Mas, antes disso, aqui vai uma palavra: qual é a justificativa essencial, indispensável, para a existência das igrejas — expressões locais da única igreja?
Por que o povo de Deus deveria se reunir, em grupos menores ou maiores, em determinado lugar? O que justifica sua existência? Qual é, de fato, a base para estarem ali?
É apenas para estar juntos, ter uma boa comunhão, ajudar uns aos outros a seguir em frente e ser um pequeno grupo agradável naquele lugar — prosseguindo felizes, ou prosseguindo miseravelmente —, ocupados consigo mesmos, ministrando uns aos outros, cuidando uns dos outros? É isso?
Bem, essas coisas podem fazer parte. Mas, meus queridos amigos, os grupos locais são, afinal, apenas partes da única igreja universal. E o propósito, a natureza e a justificativa da igreja universal, que se estendem à igreja local, são de caráter vocacional. Não pode haver dúvida a esse respeito.
Qualquer grupo local que não esteja realmente cumprindo uma vocação, que não esteja ali com uma vocação ungida, não está justificando sua existência.
O Senhor traz esses grupos à existência não para serem alguma coisa em si mesmos, não para serem um fim em si mesmos e não apenas para cuidarem de si mesmos, mas para terem uma vocação no mundo ao seu redor. Precisam estar ali com esse senso de responsabilidade para além de si mesmos, esse senso de missão para além de si mesmos, esse senso de vocação.
Ora, poderíamos recorrer à Bíblia inteira para mostrar que isso é verdade:
O Espírito do Senhor está sobre Mim, Porque Ele Me ungiu para…
O que vem depois é um propósito.
Porque o Senhor Me ungiu para…
Para alguma coisa.
Bem, tendo dito isso, precisamos chegar a essa vocação sob a unção. Não vou deixar esse assunto sem ter certeza de que vocês realmente compreenderam essa questão.
Se sua vida, querido amigo, está realmente sob o governo do Espírito Santo, ela não será um caminho sem saída. Se qualquer grupo do povo do Senhor está sob o governo do Espírito Santo, ele não será um caminho sem saída.
Se você está onde está porque o Senhor o conduziu até ali — e é assim que deveria ser —, você está ali com uma vocação, uma vocação divina, para cujo cumprimento pode contar com a unção: em sua profissão, em seus negócios, em seu lar e em sua congregação, como parte dela. Essa é a lei.
Portanto, há algo além da coisa em si. Você é chamado para uma vocação; você recebeu o Espírito Santo. Isso pode dar sentido à vida.
Nós nos retiramos das mãos do Espírito Santo, escolhemos nosso próprio caminho, vamos aonde achamos que devemos ir e tomamos nossas próprias decisões; e, muitas vezes, nessas coisas, acabamos num remanso, à margem da corrente. Ficamos simplesmente fora do caminho, e nada resulta disso.
Mas, se estivermos muito, muito seguros de que buscamos primeiro o reino de Deus — o que é apenas outra maneira de dizer que nos movemos pelo Espírito naquilo que fazemos —, não nos encontraremos simplesmente ali, sem nenhum significado além daquilo que fazemos dia após dia para esta vida temporal.
Esse é o significado da unção.
Mas e essa unção? O que é ela? A Bíblia se desdobra de maneira bastante natural em três aspectos da unção.
Esses três aspectos, na concepção divina, são inerentes à própria criação do homem. Adão foi criado para ser o vaso, o veículo e o instrumento da vocação divina — e de uma vocação em três formas.
Adão abriu mão disso. A tragédia de Adão é a perda da vocação divina.
Há profundezas de significado aqui que talvez fosse até perigoso tentar sondar, mas há indícios de algo tremendo nessa questão.
A Bíblia revela um querubim ungido que cobre — Lúcifer, filho da manhã, hoje conhecido como Satanás —, em sua condição anterior à queda. E há fortes indícios de que sua vocação tinha relação com esta criação.
E ele a perdeu ao tomá-la em suas próprias mãos, fora da unção. Porque, se a unção significa alguma coisa, ela certamente significa dependência absoluta de Deus. Significa que tudo vem de Deus, e não da pessoa em questão.
Significa que Deus zela intensamente por manter as coisas em Suas próprias mãos. As coisas só podem ser como devem ser quando Deus mantém o governo de tudo por Seu Espírito. A unção foi violada dessa maneira, e aquela posição elevada foi perdida.
Adão foi criado. Adão teria entrado na unção para cumprir aquele grande propósito se não tivesse falhado e deixado de alcançar a unção.
Deus introduz Cristo e O unge com esse mesmo objetivo. E assim a Bíblia se desdobra segundo essas três linhas: primeiro, a criação do homem e o objetivo de sua criação; depois, o desenvolvimento de uma nação para ser a demonstração concreta do que a unção significa quanto à vocação, nos três sentidos; e, então, Cristo e a igreja, que é Seu corpo, são introduzidos como a realização bem-sucedida de Deus nessa questão que, desde o princípio, era inerente à criação do homem.
Qual é a vocação? Antes de tudo, é domínio. Se preferirem, é autoridade, governo ou, para usar o título do Novo Testamento, realeza — condição real em sentido divino.
Não se tem reconhecido suficientemente que a unção do Senhor Jesus às margens do Jordão incluía e envolvia essa tríplice vocação. Seu primeiro aspecto era o governo: autoridade, realeza, poder de governar, domínio. Vimos ontem que era isso que o inimigo estava tentando minar.
Governo — realeza. Bem, vocês sabem que essa é uma das grandes linhas do Antigo Testamento. Mas a realeza não é uma questão de cargo. Não é algo temporal, como a entendemos na esfera temporal.
A realeza é um espírito. A condição real é uma natureza. O domínio é algo de ordem espiritual.
Posso explicar isso. Mas, antes de tudo, vocês reconhecem que o Antigo Testamento se desdobra naturalmente nessa direção, como uma de suas três linhas. Ele começa com o homem criado para exercer domínio.
Então vocês descobrem que, antes de isso assumir a forma de posições oficiais, já existia de maneira espiritual e moral.
Isso é tremendamente impressionante. Abraão, como vimos, é mencionado no Salmo 105 como um dos ungidos do Senhor — dos ungidos do Senhor. Muito bem.
Abraão está na presença de reis, e Abraão é superior — absolutamente superior. Esses reis da terra se acovardam diante de Abraão e se curvam perante ele. Moral e espiritualmente, ele está, por assim dizer, muito acima deles. Na presença desses homens, ele é, de fato, o rei. Uma realidade espiritual.
Considerem Israel. O que é Israel, naturalmente, do ponto de vista deste mundo que o observa? Ah, sabemos muito bem o que a nação de Israel era por natureza.
E quanto a Balaão, contratado por Balaque com a intenção de amaldiçoar esse povo, para que fosse completamente subjugado, dominado e desprezado? Mas Israel, ali mesmo, naquele momento, com tudo o que era ou não era por natureza, com todas as suas fraquezas, imperfeições e falhas, elevou-se a uma estatura tremenda.
Não viu iniquidade em Jacó; Nem contemplou perversidade em Israel: O Senhor seu Deus é com ele, E o brado de um Rei está no meio deles.
Ali se ergue, no meio da nação, o padrão espiritual e moral que incorpora o princípio da unção: domínio, realeza. Está ali antes que exista qualquer posição oficial; é moral e espiritual.
E poderíamos continuar. Como isso era verdadeiro a respeito do Senhor Jesus! Todos os governantes ficavam completamente perplexos e sem saber o que fazer na presença Dele. Não conseguiam lidar com esse Homem. Não conseguiam humilhar esse Homem espiritual e moralmente, não importava o que fizessem. Ele estava acima deles o tempo todo.
Isso é verdadeiro a respeito da igreja quando ela se move sob a unção. Ah, mas tudo isso é objetivo. E quanto a você? E quanto a qualquer crente?
Não é verdade, queridos amigos, que, quando um homem ou uma mulher vem a Cristo, recebe Cristo em sua vida — o que é apenas uma maneira de falar de receber o Espírito —, imediatamente, sem nenhum raciocínio, cálculo ou reflexão a respeito, um novo espírito de elevação começa a agir naquela vida?
Vocês veem isso. Eu já vi: um pobre homem em completos farrapos, que nunca havia usado um colarinho decente; uma criatura miserável, infeliz, que se arrastava por aí. Sua casa não podia ser chamada de lar — era um casebre. A esposa e os filhos na situação mais deplorável; pobreza e miséria, tudo coberto pelo pecado. Vi esse homem nascer de novo.
Nascer de novo — ah, sim, verdadeiramente nascer de novo. E, dentro de uma semana, ao vir à reunião, o primeiro passo: uma aparência limpa, um pequeno lenço amarrado ao pescoço e suas roupas um pouco mais escovadas. E vi isso continuar até que ele tivesse um colarinho e um terno decentes, sapatos para calçar, e seu lar começasse a mudar, assim como seus filhos e sua esposa.
Ninguém jamais lhe disse nada — nem uma palavra. Ninguém teria ousado. Aconteceu. Aconteceu de dentro para fora.
E quero dizer que esse é o espírito da realeza em ação, o espírito da aristocracia celestial agindo no coração, o espírito de glória. Bem, é isso que pertence aos reis: glória. E o Espírito Santo é chamado de Espírito da glória. O Espírito Santo é a luz.
Ora, essa pode ser uma ilustração extrema, mas é muito verdadeira. Acontece repetidas vezes. É isso que acontece.
Surge um senso de vergonha, e a pessoa cora por causa de certas coisas — maneiras de falar, velhos hábitos e assim por diante — que demoram a desaparecer. Mas surge um senso de vergonha e constrangimento que nunca existiu antes, e ela percebe que determinada coisa era errada ou duvidosa, caso volte a aparecer.
O que é verdadeiro nesses casos extremos, vejam, é um princípio e uma lei da vida governada pelo Espírito: se você é governado pelo Espírito, se está sob a unção, não pode ser desleixado. Não pode ser descuidado em sua vida, em seus hábitos e em sua maneira de se vestir. Não pode ter um lar desarrumado, uma situação de desordem ou negligenciar suas responsabilidades. Simplesmente não pode ser assim.
E você não deveria precisar que alguém lhe apontasse que aquilo está errado e isto não está certo. O próprio Espírito, diz João, habitando em vocês, ensina-lhes:
E não necessitais de que alguém vos ensine; A unção vos ensina todas as coisas.
E essa é uma das coisas que a unção lhes ensina.
Ela transforma algo desordenado em algo ordenado, e é isso que vocês esperam encontrar nas casas dos reis. Torna respeitável uma vida de má reputação. Põe a vida em ordem em todos os aspectos. O Espírito Santo é o Espírito de reis e príncipes. É uma questão espiritual e moral, vejam.
O ponto é que a unção significa elevação. Significa elevação, e sempre age nessa direção: para a elevação, para um nível mais alto de vida. Ela eleva. Enobrece. Refina. Forma pessoas de nobreza e piedade.
Esse é o espírito da realeza, e essa é a lei do governo e da ascendência espirituais. É muito melhor tê-la assim do que ter o cargo e o título enquanto as condições os contradizem. Não: os príncipes em Israel são, antes de tudo, pessoas espirituais e morais, antes de ocuparem uma posição oficial. A unção significa isso.
Isso é extraordinário. Jesus podia Se inserir em qualquer situação. Podia Se inserir em qualquer situação, em meio a pessoas iradas, ignorantes e humildes. Ele Se inseria perfeitamente, mas era a unção.
Será que já disse o suficiente sobre essa questão? Vejam, nesta dispensação, a realeza de Jesus é uma realidade espiritual e moral. É o poderoso poder de elevar as pessoas, tirando-as do monturo e colocando-as entre príncipes.
Portanto, a unção deveria significar para nós um refinamento crescente, uma sensibilidade cada vez maior ao que é apropriado, ao que é digno e ao que pertence ao palácio. Somos filhos do Rei, filhos de Deus.
Bem, isso pode ser visto de duas maneiras. Pode fazer você se sentir desconfortável e parecer uma imposição legal que se opõe à sua tentativa de tornar a vida digna de ser vivida. Bem, se você entende assim, é claro que perdeu completamente o sentido.
A lei da Palavra de Deus é sempre positiva:
Andai pelo Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne.
Isto é, se você vive pelo Espírito, isso acontecerá. É isso que acontecerá. O que acontece, ou o que não acontece, simplesmente mostra quanto estamos sendo governados pelo Espírito.
Portanto, quanto à realeza, com todo o seu maravilhoso significado: não é dar importância a nós mesmos, não é causar uma impressão por nosso próprio esforço, mas simplesmente ser diferentes — ser diferentes.
Vocês estão antecipando os outros aspectos da unção, da vocação. Compreenderam o ponto do que tenho dito? Aqui está uma vocação. É um ministério. É um serviço. É algo concreto. Mas é realmente ministério.
Creio, sabem, que é muito, muito mais eficaz neste mundo ser uma pessoa de dignidade e caráter espiritual como esse do que andar por aí com sua Bíblia, pregando e dirigindo reuniões.
Se você é uma pessoa assim, andando no Espírito, com esse caráter — esse caráter pessoal, essa força espiritual — que não se rebaixa a algo vil, que não considera nada mesquinho ou desprezível, você está moralmente acima disso. “Alguém como eu? Eu desprezaria a ideia de fugir.” Vejam, esse é o espírito do Rei.
Se você é uma pessoa assim, e essa dignidade é encontrada em seu lar — seu lar é um lugar digno —, onde quer que você tenha alguma influência ou autoridade, isso se manifesta na ordem, no refinamento e no caráter. Esse é um tremendo testemunho do Senhor.
Considerem o contrário e vejam como o Senhor é desonrado quando não é assim. O Senhor perde. Isso é vocação: ser, ser.
Vocês reconhecem que estou falando, em grande parte, a pessoas com responsabilidades. Reconhecerão que a lei da Palavra de Deus é sempre, em todas as questões, que a pessoa precisa ser aquilo antes de receber o nome, o título e o cargo. Você precisa ser um presbítero antes de poder ser constituído presbítero. Precisa ser um príncipe antes de poder ser chamado de príncipe. Essa é uma lei da Palavra de Deus. Você precisa ser isso.
É a unção que torna tudo isso realidade.
Podemos passar com bastante facilidade ao segundo aspecto dessa vocação, que é o sacerdócio. Assim como os reis eram ungidos e eram reis pela unção, também os sacerdotes eram sacerdotes pela unção.
Outra coisa inerente, desde o princípio, ao pensamento de Deus a respeito do homem: o sacerdócio. Antes que houvesse necessidade de sacrifício de sangue, de expiação; antes que a questão do pecado entrasse em cena, exigindo certos aspectos do sacerdócio, toda a questão de estar entre Deus e Sua criação, em mediação e intercessão, já estava presente.
O homem foi criado para ser sacerdote nesse sentido. Aqui está Deus; aqui está Sua criação; e deve haver alguém entre ambos, para comunicar de um ao outro, para representar um diante do outro — nas duas direções. Adão foi destinado a ser isso: rei e sacerdote nesse sentido espiritual.
E assim o Antigo Testamento também se desdobra na linha do sacerdócio — sacerdócio ungido. É verdade que agora entrou em cena toda essa questão do pecado, trazendo consigo todo o sistema de sacrifícios de sangue. Mas o princípio permanece: a unção significa que há, entre Deus e os outros, um meio pelo qual Ele Se dá a conhecer, comunica a Si mesmo, entrega a Si mesmo e os conduz ao conhecimento de Deus.
O sacerdócio, como vocês sabem, significa, antes de tudo, mediação — isto é, estar entre — e, então, estar entre para ministrar da parte de Deus ao homem e da parte do homem a Deus. E, depois, ensinar:
Porque os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento; E da sua boca devem os homens buscar a lei.
O aspecto do sofrimento também entrou agora no sacerdócio — no verdadeiro sacerdócio. O sofrimento é algo com que o sacerdote precisa lidar.
Mas, depois de dizer todas essas coisas a respeito dele, a igreja é chamada a ocupar o lugar de Israel em todo este universo em que Adão falhou. Cristo veio e trouxe Sua igreja à existência para ser um reino e sacerdotes para Seu Deus.
Ele nos fez reino, sacerdotes para Seu Deus e Pai.
Não é nosso título. Não é nosso cargo. Você, cristão jovem, cristão de longa data, seja quem for, está aplicando isso a si mesmo? Tão verdadeiramente quanto Arão e seus filhos, e sua longa linhagem de filhos, e os primogênitos de todas as famílias de Israel eram sacerdotes em Israel, ocupando essa posição santa e sagrada, com a mesma certeza você é isso no pensamento de Deus.
Você está nessa posição? Quando vem a uma reunião de oração, você vem com base em seu sacerdócio e pode atuar sob a unção em intercessão, permanecendo ali em sua santa vocação para ministrar da parte de Deus aos outros e levar os outros, com suas necessidades, a Deus. Isso é mediação. Isso é sacerdócio.
E o que é verdadeiro a respeito da oração e da intercessão dessa maneira, que é a grande vocação da igreja, também é verdadeiro de muitas outras maneiras: estamos aqui nessa tremenda vocação. O indivíduo, o grupo local, está ali não como um fim em si mesmo, mas entre o alto céu e o Deus Todo-Poderoso e aquela vizinhança.
Ministrar Deus, suprir a necessidade com aquilo que vem de Deus — ah, o que podemos fazer se apenas reconhecermos nossa unção, o significado de nossa unção!
Preciso deixar isso aqui e passar rapidamente ao terceiro e último desses aspectos da grande vocação da unção: o do profeta.
Mais uma vez, a Bíblia se desdobra de maneira bastante natural nessa terceira linha. Esses são os três grandes desdobramentos da Bíblia: os profetas — ungidos, ungidos.
Jesus foi ungido primeiro como Rei. Depois foi ungido como Sacerdote e, por essa unção, percorreu todo o caminho em um sacrifício diário até o grande e definitivo sacrifício da cruz, o grande Sacerdote oferecendo a Si mesmo a Deus.
O que é verdadeiro a respeito de Sua realeza, de Sua condição real, de Seu domínio; o que é verdadeiro a respeito de Seu sacerdócio, como Mediador entre Deus e o homem; é verdadeiro nesse terceiro aspecto, o profeta. Ele foi ungido como o Profeta do Senhor, reunindo em Si mesmo toda a linha do significado profético do Antigo Testamento.
O Senhor vosso Deus vos levantará, dentre vossos irmãos, um profeta semelhante a mim.
Assim disse Moisés. Ao longo de todo o caminho, eles não apenas viam e ouviam seus profetas, mas esperavam pelo Profeta. Quando Jesus veio e perguntou: “Quem dizem os homens que Eu sou?”, alguns disseram: “O Profeta”. Eles estavam certos: Aquele de Quem Moisés falou.
“Este é o Profeta.” Ah, mas Ele era mais que um profeta. Pela unção, Ele era isso. Mas qual é a função do profeta? É chamar de volta e recuperar tudo o que foi perdido e que pertence ao propósito de Deus para Seu povo.
Chamar o povo de volta àquilo que exige enxergar o que Deus quer, e recuperar o que foi perdido e trazê-lo de volta — uma tremenda vocação.
Mas, querido amigo, ah, se você percebesse que, em seu grupo local, seja aqui neste lugar, seja nos outros lugares de onde vocês vêm, é para isso que vocês deveriam estar ali: para chamar de volta e recuperar.
Isso significa que, como grupo, vocês precisam saber o que Deus sempre teve em vista e o que o povo de Deus perdeu. E isso precisa ser, para vocês, como era para os profetas: um trabalho de parto para recuperar aquilo e trazer o povo de volta. Isso é uma vocação.
Uma vocação para proclamar e anunciar todo o conselho de Deus. Essa é a função profética.
E, se tomarmos Jeremias como indicação, há também o arrancar. Esse talvez seja o aspecto mais difícil da obra profética — ter de arrancar pela raiz.
Toda planta que Meu Pai celestial não plantou será arrancada.
Vejam Jesus fazendo esse trabalho de arrancar pela raiz. Ora, Ele estava arrancando coisas falsas que não haviam sido plantadas por Seu Pai. Estava arrancando-as. Um trabalho difícil de fazer, mas é isso.
Há um aspecto destrutivo do ministério profético que não tolera aquilo que o homem colocou no lugar de Deus. As coisas que o homem colocou no lugar do pensamento de Deus precisam ser arrancadas pela raiz.
Por outro lado, nem tudo é destrutivo. Há um plantar, plantar, plantar a ser feito.
Estamos aqui para isso. Estamos, ou deveríamos estar, em qualquer lugar para isso. É para isso que somos ungidos. Isso exige a unção. Mas tudo isso está implícito na unção.
É algo grandioso estar na unção de Cristo. Não é nada menos que o cumprimento de toda a revelação divina das Escrituras, desde Adão até o fim. Ungidos hoje.
Mas é isso que acontecerá. É isso que torna a questão simples, se ela parece complexa e difícil. Isso a simplificará: é exatamente o que acontecerá espontaneamente se estivermos nos movendo sob a unção.
Essas coisas acontecerão. Elas se realizarão. Serão a própria natureza de nossa presença onde estamos, a maneira como ela se manifestará.
Haverá uma luta, uma anulação e um arrancar pela raiz das coisas que não são do Senhor. Haverá um plantar daquilo que é de Deus. Todas essas coisas acontecerão.
Não preciso me empenhar em tentar produzir e realizar todas essas coisas. O que você e eu precisamos fazer é viver no poder da unção, e elas acontecerão.
Ah, que haja, então, mais indivíduos ungidos, ou mais pessoas vivendo no poder da unção; mais grupos locais assim; essas coisas acontecendo.
Talvez o Senhor esteja simplesmente nos dizendo essas coisas para nos lembrar, para nos despertar quanto a toda essa questão, para nos mostrar que não estamos aqui apenas para arrastar uma existência dolorosa e tentar continuar até o fim.
A unção significa mais que isso. Sim, significa. Significa ascendência espiritual e moral. Significa ser o veículo de suprimento de Deus. Significa chamar de volta e recuperar tudo o que Deus sempre teve em vista para Seu povo.