E, no sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré,
a uma virgem desposada com um homem cujo nome era José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria.
E, entrando onde ela estava, disse: Salve, agraciada; o Senhor é contigo: bendita és tu entre as mulheres.
Ela, porém, perturbou-se muito com aquela palavra e considerava que saudação seria esta.
E o anjo lhe disse: Não temas, Maria; porque achaste graça diante de Deus.
E eis que conceberás em teu ventre e darás à luz um filho, e chamarás o Seu nome Jesus.
Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; e o Senhor Deus Lhe dará o trono de Davi, Seu pai;
e Ele reinará eternamente sobre a casa de Jacó; e o Seu reino não terá fim.
E Maria disse ao anjo: Como se fará isto, visto que não conheço homem?
E o anjo, respondendo, disse-lhe: O Espírito Santo virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a Sua sombra; por isso também o Santo que há de nascer será chamado Filho de Deus.
E eis que Isabel, tua parenta, também concebeu um filho em sua velhice; e este é o sexto mês para aquela que era chamada estéril.
Porque, para Deus, nenhuma palavra será impossível.
E Maria disse: Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra. E o anjo se ausentou dela.
E, ao terceiro dia, houve um casamento em Caná da Galileia; e a mãe de Jesus estava ali;
e Jesus também foi convidado, com os Seus discípulos, para o casamento.
E, tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus Lhe disse: Não têm vinho.
E Jesus lhe disse: Mulher, que tenho Eu contigo? Ainda não é chegada a Minha hora.
Sua mãe disse aos serventes: Fazei tudo quanto Ele vos disser.
E estavam ali seis talhas de pedra, colocadas segundo o costume de purificação dos judeus, e em cada uma cabiam duas ou três metretas.
Jesus lhes disse: Enchei de água as talhas. E encheram-nas até a borda.
E Ele lhes disse: Tirai agora e levai ao mestre-sala. E levaram.
E, quando o mestre-sala provou a água tornada em vinho, não sabendo de onde viera, embora os serventes que haviam tirado a água o soubessem, chamou o noivo,
e lhe disse: Todo homem põe primeiro o vinho bom; e, quando os homens já beberam à vontade, então o inferior; tu guardaste o vinho bom até agora.
Este princípio dos Seus sinais fez Jesus em Caná da Galileia e manifestou a Sua glória; e os Seus discípulos creram nEle.
E, estando Ele ainda a falar às multidões, eis que Sua mãe e Seus irmãos estavam do lado de fora, procurando falar-Lhe.
E alguém Lhe disse: Eis que Tua mãe e Teus irmãos estão lá fora, procurando falar Contigo.
Mas Ele, respondendo, disse ao que Lhe falara: Quem é Minha mãe? E quem são Meus irmãos?
E, estendendo a Sua mão para os Seus discípulos, disse: Eis aqui Minha mãe e Meus irmãos!
Porque qualquer que fizer a vontade de Meu Pai, Que está nos céus, esse é Meu irmão, e irmã, e mãe.
E junto à cruz de Jesus estavam Sua mãe, e a irmã de Sua mãe, Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena.
Vendo Jesus Sua mãe e, junto dela, o discípulo a quem Ele amava, disse à Sua mãe: Mulher, eis aí teu filho!
Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe! E, desde aquela hora, o discípulo a recebeu em sua própria casa.
Todos estes perseveravam unanimemente em oração, com as mulheres, e Maria, mãe de Jesus, e com os Seus irmãos.
Temos considerado juntos esta questão da mudança dos tempos. Há cerca de dois mil anos, Deus estava para mudar os tempos. Ele estava para trazer Seu Filho a este mundo.
Por causa disso, vemos que Deus procurou instrumentos — instrumentos que Ele pudesse usar para trazer Seu Filho. Vocês provavelmente ainda se lembram de que João Batista foi um instrumento escolhido por Deus para preparar o caminho do Senhor.
Mas João Batista não foi o único. Vemos que havia um remanescente entre os judeus que realmente aguardava a consolação de Israel. Foram essas pessoas, esse remanescente, que de fato trouxeram o Senhor.
E, naturalmente, quando pensamos nesse remanescente que trouxe o Senhor a este mundo, não podemos nos esquecer de Maria, aquela que deu à luz o Menino.
Deus estava procurando um instrumento por meio do qual Seu Filho pudesse ser trazido a este mundo. Havia muitas virgens na terra da Judeia e na Galileia naquele tempo, mas os olhos de Deus pousaram sobre uma virgem que vivia em um lugar remoto, nas colinas de Nazaré.
Ela era descendente da casa de Davi, de uma nobre família real. Mas, naquele tempo, sua condição era tão humilde que ela vivia em Nazaré e estava desposada com José, que também era da casa de Davi, da família real. Contudo, naquele tempo, José era apenas um carpinteiro naquele lugar.
Eles se encontravam em uma condição muito humilde, embora pertencessem à casa de Davi. Naquele tempo, quem ocupava o trono em Jerusalém era um idumeu, Herodes. Ele havia sido colocado naquele trono por uma potência estrangeira, o Império Romano.
Segundo todas as aparências exteriores, Maria era uma mulher humilde. Contudo, Deus não olhava para a aparência exterior. Deus sempre olha para o coração. Ali, naquela virgem, Deus viu um coração perfeito para com Ele.
Exteriormente, ela era humilde, mas, interiormente, era nobre aos olhos de Deus. Por isso, Deus enviou o anjo Gabriel até ela, e Gabriel a saudou, dizendo:
Salve, agraciada por Deus.
O Senhor é contigo.
Bendita és tu entre as mulheres.
Quando ouviu essa saudação, ela ficou perturbada em seu coração. Por quê? Porque não conseguia entender por que um anjo se dirigiria a ela daquela maneira. Em outras palavras, ela não conhecia a própria grandeza.
Ela era grande aos olhos de Deus e, no entanto, não sabia disso. Por não saber, ficou surpresa com aquela saudação. Pensou que uma saudação assim deveria ser dirigida a alguém nobre, a alguém importante — não a ela, apenas uma virgem escondida em algum lugar nas colinas.
Ela nada era aos seus próprios olhos. Por isso, ficou perturbada com aquela saudação. Meus queridos irmãos e irmãs, algumas pessoas sabem que são grandes e, porque sabem que são grandes, já não são grandes aos olhos de Deus.
A verdadeira grandeza diante do Senhor é algo que permanece oculto aos nossos próprios olhos, e isso é realmente grande. Vocês se lembram da história de Moisés — de como ele permaneceu quarenta dias e quarenta noites diante do Senhor. Por causa disso, seu rosto resplandecia, e ele não sabia.
Quantas vezes tentamos olhar no espelho para ver se nosso rosto realmente resplandece! É por isso que ele não resplandece. A verdadeira grandeza está associada à humildade.
Aos olhos dos homens, Maria era uma mulher humilde, e ela era humilde de coração. Contudo, era realmente grande aos olhos de Deus.
Então, o anjo disse: “Você é a agraciada de Deus, porque Deus vai usá-la para trazer Seu Filho, Que Se assentará no trono de Davi, e o Seu reino não terá fim”. Um privilégio tão grande veio sobre essa mulher humilde.
Sabemos que, quatro mil anos antes, no jardim do Éden, imediatamente após a queda do homem, Deus prometeu que o Descendente da mulher viria para ferir a cabeça de Satanás, e Satanás feriria o Seu calcanhar.
Esse Descendente da mulher havia sido prometido quatro mil anos antes. Agora, finalmente, essa promessa de Deus estava para se cumprir. Era um privilégio extraordinário.
Não creio que possa haver privilégio maior concedido a uma mulher do que este: ter essa promessa de Deus, a promessa da salvação, cumprida por meio do ventre de uma mulher.
Maria perguntou: “Como poderá ser isso?”, porque não conhecia homem algum. Embora estivesse comprometida com José, eles ainda não haviam se unido. Por isso, ela perguntou:
Como se fará isto, visto que não conheço homem?
Ao fazer essa pergunta, ela não demonstrava incredulidade. Vocês sabem, no mesmo capítulo, quando aquele mesmo anjo apareceu a Zacarias e lhe disse que teria um filho, Zacarias perguntou: “Como poderá ser isso?”. E era incredulidade, porque Deus o julgou.
Mas, neste caso, foi diferente. Maria perguntou: “Como poderá ser isso?”. Não era sinal de incredulidade. Era simplesmente algo tão extraordinário que ela não conseguia compreender como poderia acontecer.
Em outras palavras, não havia incredulidade em seu coração. Mas, por não saber, ela queria entender como aquilo poderia acontecer. Irmãos e irmãs, às vezes, quando fazemos uma pergunta, isso pode ser sinal de incredulidade. Em outras ocasiões, podemos fazer uma pergunta sem que haja incredulidade. É algo que Deus nos explicará.
A diferença sutil está, na verdade, no coração. Se julgarmos pela pergunta, poderemos pensar que é a mesma pergunta: por que Deus julgaria um e aceitaria a outra? Mas, na realidade, vemos que é uma questão do coração.
No coração de Maria, não havia dúvida. Mas, em sua mente, ela não conseguia compreender como aquilo poderia acontecer. Por ter perguntado, foi-lhe mostrado de que maneira aconteceria.
Deus disse:
O Espírito Santo te cobrirá com a Sua sombra.
E seria dessa maneira que ela conceberia e daria à luz um Menino. Quando o anjo lhe explicou isso, Maria disse:
Eis aqui a serva do Senhor;
cumpra-se em mim segundo a tua palavra.
Agora, queridos irmãos e irmãs, precisamos nos lembrar de que, embora um grande privilégio lhe tivesse sido concedido, com esse privilégio vinha um grande problema. Por quê? Porque, segundo a lei, uma mulher que concebesse sem estar casada era considerada culpada de fornicação.
Se fosse esse o caso, ela deveria ser levada para fora e apedrejada publicamente. Como Maria poderia explicar? Não havia como explicar isso ao mundo. Não havia como explicar a seu noivo, José, caso aquilo acontecesse.
Não havia explicação. Não apenas sua vida estaria em perigo, mas seu relacionamento com José chegaria ao fim, praticamente falando. Seus pais sofreriam terrivelmente.
Em outras palavras, no que dizia respeito ao mundo e à sociedade humana, ela perderia tudo. Perderia tudo se concordasse com o que o anjo havia dito.
Mas aqui vemos que não houve hesitação nem reservas. Por quê? Porque o coração de Maria era perfeito para com Deus.
Seu coração era tão perfeito para com Deus que, no momento em que soube que aquela era a vontade de Deus e que Deus tinha um meio de realizá-la, imediatamente se entregou a Ele e disse:
Eis aqui a serva do Senhor.
Ela conhecia seu lugar diante de Deus. Sabia que, diante de Deus, era apenas uma serva, uma escrava. Tudo o que o Senhor desejasse, isso deveria ser feito.
Cumpra-se em mim segundo a tua palavra.
Ela não levou em conta sua reputação. Não levou em conta seu relacionamento com José. Não levou em conta sua vida. Não levou em conta o que o mundo diria.
Ela estava disposta a abrir mão de tudo, até mesmo do amor de José, a quem amava profundamente, para que o Filho de Deus pudesse ser trazido ao mundo. Estava disposta a abrir mão de tudo para que a vontade de Deus fosse feita.
Foi por isso que ela foi bendita entre as mulheres.
Outra coisa que precisamos saber é que, por se tratar de algo tão incomum e, ao mesmo tempo, tão grandioso, sua fé precisava ser fortalecida. Por isso, o anjo lhe deu uma confirmação, e essa confirmação veio por meio de sua parenta, Isabel.
Isabel já estava em idade avançada, sem possibilidade de ter um filho, e, no entanto, Deus tornou isso possível. Assim, se esse era o caso, então também seria possível com Maria.
Vemos que houve confirmação. Logo depois, Maria foi visitar Isabel, e tudo foi plenamente confirmado. Tudo o que vem de Deus será confirmado.
Vocês não precisam ter medo. Não precisam se precipitar em nada sem receber confirmação. É correto buscar a confirmação da vontade de Deus.
Mas o ponto que gostaríamos de observar é este: aqui estava uma mulher que Deus desejava usar para trazer Seu Filho. Ela estava disposta a abrir mão de tudo para esse propósito e, por essa razão, foi bendita entre as mulheres.
Irmãos e irmãs, se aplicarmos isso a nós hoje, em um sentido amplo, veremos que o princípio é o mesmo. Deus vai trazer Seu Filho ao mundo novamente. Deus vai trazer Seu Rei a este mundo.
Mas por meio de quem Ele poderá trazer Seu Filho? Ele também precisa de um instrumento. Precisa de um instrumento coletivo, e esse instrumento coletivo é a igreja.
A igreja deve trazer o Rei de Deus a este mundo. Essa é a missão da igreja. Coletivamente, é a missão da igreja; individualmente, é a missão de cada crente.
Para que o Filho de Deus volte a esta terra e traga Seu reino, Ele precisa da igreja. Precisa de Seu próprio povo para trazê-Lo.
Mas, para que isso aconteça, é necessária uma atitude de coração da nossa parte. Nossa atitude é:
Eis aqui a serva do Senhor;
cumpra-se em mim segundo a tua palavra.
É um grande privilégio, irmãos e irmãs, tanto para a igreja coletivamente quanto para nós como indivíduos, que Deus nos use para trazer o Rei, mudar os tempos e trazer o reino.
É um grande privilégio, mas há algo envolvido nisso. A pergunta é: estamos dispostos a abrir mão de tudo para esse propósito? Esse propósito de Deus é suficientemente grande para que abramos mão de tudo?
Ou devemos levar em conta nossa própria vida, nossos relacionamentos, nossa posição, nosso nome, ou seja lá o que for? Devemos levar em conta a nós mesmos?
Se sabemos que essa é a vontade de Deus e temos certeza disso, então devemos assumir uma atitude de coração e dizer: “Senhor, somos Tuas servas. Cumpra-se em nós segundo a Tua palavra”.
Em outras palavras, estamos dispostos a abrir mão de tudo para que Cristo seja trazido a este mundo como Rei?
Isso aponta para o futuro. Mas, quanto à realidade espiritual, mesmo nesta hora, como Cristo pode nascer e ser manifestado ao mundo? Tem de ser por meio de Sua igreja, por meio de Seu próprio povo.
Em outras palavras, é nossa responsabilidade que nossa vida manifeste Cristo. Que nossa vida dê à luz, por assim dizer, Cristo, para que o mundo possa tê-Lo.
Devemos dar à luz o Filho. Para que isso seja espiritualmente verdadeiro em nossa vida diária, devemos ter esta atitude todos os dias: “Senhor, somos Tuas servas, Teus servos. Cumpra-se em nós segundo a Tua palavra”.
Como precisamos entregar nossa vida — uma entrega absoluta —, para que nossa vida esteja completamente entregue ao Senhor e Seu propósito seja plenamente cumprido! Isso nos permitirá ser contados entre aqueles que são abençoados pelo Senhor.
Agora, esse é apenas um lado da questão. Quero prosseguir com o outro lado da vida de Maria. Vemos que Maria se entregou a Deus e se tornou a mãe de Jesus. Que honra!
Ainda hoje, nós a honramos como tal. É claro que, no mundo, algumas pessoas talvez a honrem mais do que deveriam, chegando até a chamá-la de mãe de Deus. Ora, Deus não tem mãe. Ela é a mãe de Jesus.
Mas vemos que, por causa de sua entrega absoluta a Deus, Ele a usou de maneira tão poderosa e singular que ela é bendita entre as mulheres, e devemos honrá-la como tal.
Mas isso não lhe deu uma posição superior à do Senhor Jesus. Ao lerem as Escrituras, vocês verão que, embora ela fosse a mãe de Jesus, em um sentido muito verdadeiro, era discípula de Cristo.
Em diversas ocasiões, podemos ver como ela aprendeu na escola de Cristo.
Vocês se lembram de quando nosso Senhor Jesus tinha doze anos. Era o tempo de Seu bar mitzvah. Nosso Senhor tornou-Se um filho da lei.
Quando a família foi a Jerusalém para adorar o Senhor, depois de terminado o período de adoração, eles voltaram, mas o Senhor permaneceu em Jerusalém, porque era um filho da lei. Ele tinha o direito de fazer perguntas e de responder a perguntas no templo. Por isso, ficou para trás.
No terceiro dia, Seus pais O encontraram no templo. Maria, como mãe — vocês conhecem o coração de uma mãe —, disse: “Por que fizeste isso conosco? Teu pai e eu estávamos tão aflitos por Tua causa. Por que nos fizeste uma coisa dessas?”.
Vocês se lembram de que o Senhor Jesus disse: “Por que fizeram isso Comigo? Não sabiam que devo ocupar-Me dos negócios de Meu Pai?”. Contudo, o Senhor Jesus, por ter apenas doze anos, obedeceu a Seus pais terrenos. Voltou com eles e lhes obedeceu.
Maria não compreendeu quando o Senhor Jesus disse: “Não devo ocupar-Me dos negócios de Meu Pai?”. Mas havia uma coisa boa em Maria: ela guardou isso em seu coração.
Maria tinha uma boa característica em sua vida. Quando ouvia algo que não compreendia plenamente, não simplesmente descartava aquilo e dizia: “Isso é difícil demais”. Não.
Sempre que ouvia algo que não compreendia, guardava aquilo em seu espírito e meditava sobre isso em sua mente. Essa é uma qualidade muito boa.
Vocês se lembram de que, antes disso, quando José e Maria foram ao templo para apresentar o Primogênito a Deus, Simeão tomou o Bebê em seus braços e começou a dizer certas coisas. Naturalmente, Maria não compreendeu tudo plenamente.
Vocês também se lembram dos pastores. Quando Jesus nasceu e os pastores chegaram, eles louvaram o Senhor porque a promessa de Deus de um Salvador havia se cumprido. Maria não compreendia plenamente. Sabia em parte, mas não compreendia plenamente, e guardava essas coisas em seu espírito e meditava sobre elas em sua mente.
Para ser discípulo, essa característica é muito importante. A primeira coisa exigida de um discípulo é o ouvido — não a mão, não os pés, mas o ouvido.
Para ser discípulo, é preciso aprender a ouvir e a escutar. Mas, é claro, não para que algo entre por um ouvido e saia pelo outro. Isso não é escutar; isso não é ouvir.
Para ser discípulo, é preciso saber escutar e ouvir. Invariavelmente, vocês ouvirão coisas que não compreendem plenamente. Se pudessem compreender tudo plenamente, não precisariam mais escutar — já saberiam.
Ser discípulo significa que há muitas coisas que vocês não sabem ou não compreendem plenamente. Por isso, precisam ouvir o Mestre.
Quando ouvirem o Mestre, naturalmente não conseguirão compreender tudo plenamente de imediato. Isso leva tempo. Portanto, tudo o que ouvirem precisa ser guardado em seu coração ou em seu espírito. Vocês precisam meditar sobre isso.
Precisam orar a respeito. Precisam buscar o Senhor acerca disso até que, gradualmente, lhes seja dada revelação. Então compreenderão plenamente. Esse é o caminho do aprendizado.
Há pessoas que, quando ouvem algo que não compreendem, simplesmente o descartam e dizem: “É difícil demais”, e vão embora.
Quando nosso Senhor Jesus estava na terra, Ele encontrou pessoas assim. Em João 6:27,35, o Senhor Jesus começou a lhes explicar:
Não busqueis o alimento que perece, mas o alimento que permanece para sempre.
Eu sou o pão da vida que desceu do céu.
Essas pessoas haviam ido até Ele em busca de pão material.
Elas começaram a dizer: “Isso é difícil. Não entendemos. Como podemos comê-Lo? Como podemos bebê-Lo? Isso é impossível”.
Quem é um verdadeiro discípulo de Cristo? Um verdadeiro discípulo de Cristo é aquele que permanece com o Senhor, mesmo sem compreender plenamente.
Um verdadeiro discípulo do Senhor é alguém disposto a escutar — disposto a escutar coisas que não compreende plenamente. Mas não é por não compreender plenamente que você as rejeita.
Você pode não compreender, mas guarda aquilo em seu coração. Medita sobre isso. Busca o Senhor para obter entendimento. Esse é o caminho do aprendizado.
Aqui vemos que Maria tinha essa maravilhosa característica. Por causa disso, ela pôde aprender muito.
Queridos irmãos e irmãs, não podemos ser descuidados diante de Deus. Uma pessoa descuidada não aprende. É preciso cuidado para aprender.
Precisamos ser cuidadosos diante de Deus. Devemos guardar as coisas em nosso coração e meditar sobre elas até que agrade a Deus nos revelar Seu pensamento e nos dar entendimento.
Isso é algo muito importante na vida de um discípulo.
Em segundo lugar: como discípulo, a pessoa é colocada sob a disciplina do Senhor. Não se pode separar o discipulado da disciplina.
Um discípulo não é apenas alguém que ouve e aprende. Um discípulo também é alguém que está sendo treinado, que está sob disciplina.
Naturalmente, o Senhor disciplinará ou treinará cada um de nós de maneira diferente, porque nossos problemas são diferentes. No caso de Maria, vemos que ela enfrentava um enorme problema como seguidora do Senhor.
Por quê? Porque, segundo a carne, ela era a mãe de Jesus; mas, segundo o Espírito, era discípula de Cristo. Como conciliar esses dois relacionamentos? Como colocar esses relacionamentos no devido equilíbrio?
Muitas vezes, vemos que esses dois relacionamentos entram em conflito. Como mãe de Jesus, ela tinha uma reivindicação natural sobre Ele. Pensava que tinha certo privilégio sobre Jesus por ser Sua mãe.
Mas, como discípula de Cristo, precisava obedecer ao Senhor, e não tentar impor sua vontade a Ele. Como conciliar essas duas coisas?
Em nosso caso, naturalmente, isso talvez não seja tão intenso, mas a questão é a mesma. Por quê? Porque há carne em nós, e a carne em nós sempre procura se intrometer e interferir ou intervir nas coisas espirituais.
Nosso Senhor Jesus tinha trinta anos. Quando chegou aos trinta anos, deixou Sua casa, respondeu ao chamado de Deus e começou a pregar.
Então, certo dia, houve um casamento em Caná. A mãe de Jesus foi convidada, e Jesus e Seus discípulos também foram convidados. Assim, estavam em uma festa de casamento.
Antigamente, as festas de casamento eram muito diferentes. Nos tempos modernos, acho que é muito mais prático, porque, depois de um casamento, provavelmente há uma recepção, alguns amendoins ou biscoitos.
Mas, antigamente, não se podia imaginar um casamento assim. Depois de um casamento, festejava-se por três dias — em alguns casos, até por sete dias.
Os parentes e amigos vinham todos, ficavam ali e celebravam com vocês por três dias, talvez por sete dias. Portanto, quando havia um casamento, era preciso ter uma grande quantidade de provisões. Eles comiam e se hospedavam ali.
Evidentemente, esse jovem casal devia ser muito popular. Esperavam que certas pessoas viessem e haviam feito provisão para elas, mas, pelo visto, vieram mais pessoas.
Naturalmente, quando chegavam mais pessoas, não se podia dizer: “Agora, vão embora”. Então, precisavam receber essas pessoas e, ao recebê-las, o vinho foi diminuindo até quase não restar nada.
Antigamente, em uma festa judaica, ficar sem vinho era algo impensável.
A mãe de Jesus devia ser uma amiga próxima daquela família. Os convidados não sabiam disso; não deveriam saber. Mas a mãe de Jesus sabia, porque devia ser muito próxima da família.
O que fazer em uma situação assim? Bem, Maria pensou que certamente Jesus poderia fazer alguma coisa. Ela tinha fé em seu Filho. Acreditava que seu Filho poderia fazer alguma coisa.
Então, aproximou-se do Senhor — de seu Filho — e disse:
Não têm vinho.
Aquilo era uma sugestão. Em outras palavras: “Eles não têm vinho. Faze alguma coisa. Tu podes fazer isso. Ajuda-os”.
Isso é natural. Ela era a mãe de Jesus. Ele era seu Filho. Ela tinha fé em seu Filho, acreditava que Ele poderia fazer aquilo. Então, simplesmente perguntou ao Filho: “Por que não os ajudas?”.
Mas como o Senhor respondeu? O Senhor não disse: “Mãe”. O Senhor disse: “Mulher”.
Agora, não entendam mal o Senhor. A palavra “mulher” aqui não é uma palavra áspera. É uma forma de tratamento muito amorosa e íntima.
O Senhor não disse “mãe”, porque não podia. Por quê? Porque, em casa, Maria era a mãe de Jesus. Mas, na obra de Deus, nenhum relacionamento natural podia entrar.
Se permitirem que algum relacionamento natural entre na obra de Deus, isso prejudicará a obra de Deus. Por isso, o Senhor disse: “Mulher”. Ele não a chamou de “mãe”.
“Mulher, Eu a amo, mas ainda não é chegada a Minha hora. Não cabe a você determinar isso. Na obra de Meu Pai, cabe ao Pai dar as ordens.”
Se o Pai no céu não deu a ordem, ninguém pode dar uma ordem, porque é a obra de Deus. Assim, o Senhor rejeitou a sugestão dela e disse:
Ainda não é chegada a Minha hora.
“Você não pode interferir nisso. Não tem direito de exigir algo de Mim, porque, na obra, o Pai é tudo. Não posso fazer nada sem a palavra do Pai. Você não pode ordenar que Eu faça alguma coisa. Na obra de Deus, tenho de olhar para o Pai.”
Maria compreendeu. Foi uma recusa, mas vejam como Maria a recebeu. Maria talvez tenha ficado magoada. Seu coração de mãe provavelmente ficou ferido.
Uma mãe sempre gosta que seu filho faça algo que lhe traga algum reconhecimento. Quando o Senhor Se recusou a fazer aquilo, naturalmente o coração da mãe ficou ferido. Mas aqui vemos que Maria imediatamente compreendeu seu lugar.
Ela se voltou para os serventes e disse:
Fazei tudo quanto Ele vos disser.
Ele é o Senhor. Eu, como Sua mãe, não posso dar ordens a Ele. Ele é o Senhor. Vocês precisam ouvi-Lo. Se Ele disser alguma coisa, façam.
Naquele momento, o Senhor disse aos serventes o que fazer. Aqui vemos um caso em que Maria foi submetida à disciplina. Não foi fácil, mas ela aceitou e, porque aceitou, o Senhor pôde realizar aquele milagre.
Permitam-me apresentar outro caso. Nós o encontramos em Mateus 12:46-50, Marcos 3:20-21,31-35 e Lucas 8:19-21. Naquele tempo, o Senhor estava muito ocupado. Grandes multidões vinham até Ele.
O Senhor estava tão ocupado ministrando àquela grande multidão que Ele e Seus discípulos não tinham tempo para comer. Estavam tão ocupados no ministério que não tinham tempo nem mesmo para se alimentar.
Quando a notícia chegou a Maria, a mãe de Jesus, e aos irmãos dEle, aparentemente Seus irmãos devem ter feito uma sugestão. Esse é meu entendimento, porque Seus irmãos não criam nEle.
Maria cria nEle, mas Seus irmãos não criam nEle. Quando ouviram que Jesus estava tão ocupado no ministério que não tinha tempo para comer, disseram: “Nosso irmão deve estar louco. Deve estar fora de Si”.
“Tudo bem ministrar, mas ainda é preciso comer. Não se deve ministrar a tal ponto que nem se coma. Tu deves estar louco. Deves ser um fanático. Foste ao extremo. Deves estar maluco.”
De alguma maneira, eles sugeriram isso a Maria, a mãe de Jesus. Naturalmente, seu coração de mãe reagiu. Seu Filho não estava comendo. Ah, não! Era preciso fazer alguma coisa.
Então, Maria e seus outros filhos foram procurar Jesus. Queriam tirá-Lo dali para que Ele não fosse ao extremo.
Mas, como a multidão era muito grande, não conseguiram chegar até Ele. Por isso, enviaram um recado ao Senhor Jesus. A mensagem chegou ao Senhor: “Tua mãe e Teus irmãos estão esperando lá fora. Querem falar Contigo”.
O que o Senhor disse? O Senhor disse:
Quem é Minha mãe?
Quem são Meus irmãos?
Então, olhou para as pessoas ao Seu redor e disse:
Qualquer que fizer a vontade de Meu Pai, esse é Meu irmão, e irmã, e mãe.
Exteriormente, parece que nosso Senhor Jesus fez algo muito cruel. Ele rejeitou Sua mãe e Seus irmãos. Mas, é claro, não foi isso. Por quê?
Porque, na obra de Deus, nenhum relacionamento segundo a carne deve entrar. É por isso que, repetidas vezes, nosso Senhor diz que, se alguém ama seu pai, sua mãe, seu irmão, sua irmã, sua esposa, seus filhos ou até a si mesmo mais do que a Ele, não pode ser Seu discípulo.
É preciso renunciar a tudo e tomar a cruz. Caso contrário, não se pode ser Seu discípulo. Isso não significa que o Senhor não honre os relacionamentos humanos. Certamente, Ele os honra.
Mas, quando entramos na esfera de Deus e de Sua obra, vemos que nenhuma carne pode tocar nisso. Ela precisa ser colocada de lado.
Esse é o significado da cruz. A cruz precisa operar em nossa vida, de modo que tudo o que é da carne, seja da nossa própria carne, seja da daqueles que nos cercam, tenha de ser cortado. Somente assim a vontade de Deus poderá ser feita.
Maria foi novamente submetida à disciplina. Do ponto de vista natural, ouvir seu Filho dizer algo assim a respeito de Sua mãe — como uma mãe se sentiria? Mas Maria aceitou. Ela aprendeu algo.
Finalmente, quando nosso Senhor Jesus foi crucificado, Seus discípulos fugiram. Apenas João voltou, acompanhado de algumas mulheres, e Maria, a mãe de Jesus, estava ali.
Agora, pensem nisso. Ela não abandonaria seu Filho, nem mesmo naquele momento. Isso era amor de mãe. Quem quer estar com alguém crucificado? É uma vergonha.
Mas ali estava Maria, a mãe de Jesus, aos pés da cruz de Cristo. De fato, era como se uma espada lhe tivesse atravessado a alma. Cristo foi crucificado na cruz e, como mãe, ela foi crucificada aos pés da cruz.
Então, vemos o Senhor Jesus. Quando o Senhor viu Maria ali, dirigiu-Se a ela e disse:
Mulher, eis aí teu filho.
Depois disse a João:
Eis aí tua mãe.
Aqui vemos algo. É verdade que, quando entramos na esfera espiritual, esse relacionamento natural precisa ser tratado. Caso contrário, não podemos seguir o Senhor.
Mas isso não significa que nos tornemos desumanos. O afeto natural é algo dado por Deus. Quando as pessoas não têm afeto natural, isso é considerado pecado. Encontramos isso em Romanos 1:31:
Sem afeto natural.
Embora nosso Senhor Jesus estivesse naquele momento na cruz, em tremenda agonia e sofrimento, ainda assim Ele pensou em Sua mãe.
Ele a chamou novamente de “Mulher”. “Mulher, por causa da obra de Deus, tive de ser crucificado. Não podia levar você em conta e, por sua causa, não podia Me recusar a ir à cruz apenas para não ferir seu coração. Eu tinha de fazer isso.”
“E, no entanto, preciso prover o seu sustento. Por isso, mulher, eis aí teu filho.” Ele não quis dizer: “Eis-Me aqui”. Não; “teu filho” significava João.
João tomaria Seu lugar no cuidado com ela. Daquele dia em diante, João levou Maria para sua casa e a tratou como sua própria mãe.
Aqui vemos como nosso Senhor era equilibrado. Por um lado, há um relacionamento humano que é apropriado e deve ser mantido. Se não for mantido, isso é pecado.
Contudo, por outro lado, quando se trata da esfera espiritual, vemos que os relacionamentos naturais não podem intervir nem interferir na obra de Deus.
Irmãos e irmãs, é nisso que precisamos aprender juntos. Em nossa vida pessoal e na história da igreja, encontraremos inúmeros exemplos em que relacionamentos humanos, naturais e segundo a carne começam a exercer poder e influência sobre pessoas, decisões, situações e a obra.
Sempre que essas coisas acontecem, a obra de Deus sofre. A vida espiritual sofre. Surgem conflitos e situações de conflito.
Mesmo em sua própria vida, ao olhar para trás, você pode perceber isso. As mãos humanas sempre gostam de se intrometer e ter uma participação, uma reivindicação, um direito.
Mas lembrem-se: quando se trata da obra espiritual, nenhum ser humano deve pôr as mãos nela. Isso, porém, não nos torna desumanos.
As pessoas podem ir aos extremos. Algumas são humanas demais, de modo que o divino não consegue se expressar. Outras se tornam tão superespirituais, tão pseudoespirituais, que o humano se perde.
Isso é algo que precisamos aprender na escola de Cristo. Aqui vemos que Maria aprendeu sua lição. Por isso, ela estava entre os cento e vinte que se reuniram no cenáculo.
No dia de Pentecostes, ela era um membro do corpo de Cristo. Que o Senhor nos ajude.
Vamos orar?
Nosso Pai celestial, nós Te agradecemos por nossa irmã Maria. Ela é bendita entre as mulheres. Tu a usaste de uma maneira muito singular, como nenhuma outra mulher foi usada.
Nós Te agradecemos e Te louvamos por seu coração perfeito para Contigo, por sua entrega absoluta a Ti. Nós Te agradecemos porque essas coisas não a ensoberbeceram; pelo contrário, ela foi uma fiel seguidora Tua.
Tu não a poupaste da disciplina e, no entanto, quão terno és para com ela! Ah, como Te louvamos porque verdadeiramente a treinaste de tal maneira que ela foi encontrada na igreja.
Senhor, pedimos que todas essas coisas sejam verdadeiras lições para nós, para que também possamos ser usados por Ti e também possamos ser treinados por Ti. Pedimos em Teu precioso nome. Amém.