Por favor, abram no Evangelho segundo Lucas.
Houve, nos dias de Herodes, rei da Judeia, um sacerdote chamado Zacarias, da turma de Abias;
e sua mulher era das filhas de Arão, e seu nome era Isabel.
E ambos eram justos perante Deus, andando irrepreensivelmente em todos os mandamentos e preceitos do Senhor.
E não tinham filhos, porque Isabel era estéril, e ambos eram já avançados em idade.E aconteceu que, exercendo ele o sacerdócio diante de Deus, na ordem da sua turma,
segundo o costume do sacerdócio, coube-lhe por sorte entrar no templo do Senhor para queimar incenso.
E toda a multidão do povo estava do lado de fora, orando, à hora do incenso.
E apareceu-lhe um anjo do Senhor, em pé à direita do altar do incenso.
E Zacarias, vendo-o, turbou-se, e o temor caiu sobre ele.Mas o anjo lhe disse: Não temas, Zacarias, porque a tua súplica foi ouvida;
e Isabel, tua mulher, te dará à luz um filho, e lhe porás o nome de João.
E terás alegria e regozijo; e muitos se alegrarão com o seu nascimento.
Porque será grande diante do Senhor, e não beberá vinho nem bebida forte;
e será cheio do Espírito Santo, já desde o ventre de sua mãe.
E converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus.
E irá adiante da Sua face, no espírito e poder de Elias,
para converter o coração dos pais aos filhos,
e os desobedientes, para que andem na sabedoria dos justos;
a fim de preparar para o Senhor um povo disposto para Ele.
Estamos vivendo numa época muito semelhante aos dias de João Batista. Na época de João Batista, Deus estava para mudar a era. Ele iria encerrar a dispensação da lei e dos profetas e introduzir no mundo uma nova dispensação: a da graça.
A lei e os profetas terminaram com João Batista, e, a partir daquele momento, Cristo veio ao mundo. Portanto, sabemos que a época de João Batista foi uma época extraordinária. Foi um período de grande mudança.
Em certo sentido, irmãos e irmãs, estamos vivendo no limiar de outra grande mudança de era. Cremos que Deus vai encerrar esta era e introduzir no mundo a era vindoura. Até mesmo esta presente era da graça está chegando ao fim. Uma nova dispensação — a dispensação, digamos, da justiça — virá sobre a terra.
Quando o Senhor voltar, a justiça governará o mundo inteiro. O Senhor está voltando, e Ele virá em breve.
A época de João Batista e a nossa época são muito semelhantes em vários aspectos. Para realizar aquela mudança de era, Deus procurou um vaso.
É assim que Deus sempre trabalha. Sempre que Ele quer fazer alguma coisa na terra, Ele a fará; contudo, para que aquilo que Ele deseja seja realizado na terra, Ele sempre procura um vaso por meio do qual possa fazer o que pretende.
Quando Deus estava para passar da dispensação da lei e dos profetas para a dispensação da graça, Ele encontrou um vaso na terra. Esse vaso era João Batista. Com esse vaso, Deus pôde realizar aquela mudança e cumprir o Seu propósito.
João Batista, portanto, era um vaso de Deus que marcava uma nova época. Sabemos que Deus tem muitos vasos, mas há um tipo de vaso que tem valor especial para Ele e para a Sua economia: um vaso que marca uma nova época.
Um vaso que marca uma nova época é um vaso que pode ser usado para realizar uma mudança de era, de modo que o plano de Deus se aproxime de sua realização final.
Na Bíblia, encontramos várias pessoas como João Batista, que foram vasos que marcaram novas épocas. Abraão foi um desses vasos. A partir da época de Abraão, Deus já não estava trabalhando apenas com um indivíduo. Por meio de um indivíduo, Ele iria formar uma família e, por meio de uma família, formar uma nação.
Moisés foi outro vaso que marcou uma nova época, porque, por meio de Moisés, aquela nação finalmente veio a existir. Daniel foi outro vaso que marcou uma nova época, porque, por meio de Daniel, os filhos de Israel que estavam no cativeiro foram restaurados à terra prometida, e o templo foi reconstruído.
Assim, na Bíblia existem esses vasos que marcam novas épocas, e, com esses vasos, Deus pode mudar a era e cumprir o Seu propósito. Irmãos e irmãs, os caminhos de Deus e os princípios de Deus permanecem sempre os mesmos.
Como Deus vai mudar a era, Ele está procurando hoje um tipo de vaso semelhante a João Batista. Mas, à medida que nos aproximamos do fim desta era, cremos que, embora no passado um vaso que marcava uma nova época fosse um indivíduo, como João Batista, em nosso tempo esse vaso de Deus será um vaso coletivo.
Será um povo que tenha as mesmas características desse tipo de vaso que marca uma nova época. É isso que Deus está procurando hoje.
Irmãos e irmãs, sinto que é de grande urgência que Deus encontre hoje um vaso assim na terra. Sem esse vaso, o plano de Deus, por assim dizer, será adiado e retardado. Mas, se Ele encontrar na terra um povo que possa usar como um vaso que marca uma nova época, então creio que a mudança virá, e virá muito rapidamente.
Por essa razão, gostaríamos de considerar juntos esse homem, João Batista — não apenas como uma figura histórica, mas para que, a partir dele, possamos ver que tipo de pessoa, ou de povo, Deus está procurando para serem os Seus vasos que marcam uma nova época em nosso tempo.
Em primeiro lugar, precisamos começar pelos pais dele. Ali encontramos um homem chamado Zacarias. Ele era sacerdote da turma de Abias.
Sabemos que os sacerdotes serviam no templo em vinte e quatro turmas, e Zacarias pertencia à turma de Abias. Ele tinha uma esposa das filhas de Arão, cujo nome era Isabel.
Esse casal era justo diante do Senhor. Eles observavam todos os preceitos e mandamentos do Senhor de maneira irrepreensível. Em outras palavras, encontramos um casal que andava diante do Senhor com devoção, piedade e honestidade. Eles serviam ao Senhor juntos, como família.
Por isso, poderíamos pensar que Deus os abençoaria grandemente com muitos filhos e filhas. Segundo as promessas do Antigo Testamento, aqueles que temiam a Deus e honravam a Deus seriam honrados com muitos filhos, muitas filhas e prosperidade física e material.
Agora, é claro, no Novo Testamento trata-se de bênção espiritual nas regiões celestiais, em Cristo Jesus. Contudo, aqui encontramos algo bastante estranho: um casal andava diante do Senhor de maneira tão irrepreensível e, ainda assim, não tinha filhos.
Por essa razão, creio que eles devem ter orado a Deus muitas e muitas vezes, ano após ano, pedindo que Deus lhes desse filhos, pedindo que Deus cumprisse a Sua própria promessa, pedindo que Deus demonstrasse que eles eram justos e que Ele próprio era fiel. Mesmo assim, não havia resposta.
Chegaram ambos a uma idade avançada, em que era humanamente impossível terem um filho. Talvez, nesse ponto, tenham desistido de orar. Pensavam que simplesmente não adiantava mais.
Mas o maravilhoso era isto: eles não se ressentiram de Deus. Continuaram servindo a Deus com a mesma fidelidade de antes.
Vocês sabem, queridos irmãos e irmãs, como é fácil nos escandalizarmos com o Senhor. Pedro disse:
Todos os outros se escandalizarão, mas certamente eu não me escandalizarei por causa de Ti.
Mas, por estranho que pareça, nós, que somos os redimidos do Senhor, podemos nos escandalizar com ninguém menos que o próprio Senhor.
Podemos pensar que as pessoas do mundo nos ofenderão, é claro, porque não compreendem. Até nossos irmãos e irmãs podem nos ofender, porque não nos conhecem de verdade. Mas certamente, pensamos nós, o Senhor nunca nos ofenderá, e nunca nos ressentiremos Dele.
Contudo, queridos irmãos e irmãs, há momentos em que o Senhor parece não tratar vocês da mesma maneira que trata outras pessoas. Há momentos em que o Senhor parece demorar ou não cumprir a Sua promessa a vocês, como faz com tantas outras pessoas.
Há momentos em que vocês vão ao Senhor, se apegam à Sua promessa e creem plenamente que Ele honrará a Sua palavra; mas Ele não o faz. Então vocês começam a se perguntar se o Senhor realmente Se importa com vocês, se Ele realmente os ama ou se Ele é justo.
Até João Batista teve esse problema. Quando estava na prisão, enviou seus discípulos ao Senhor e disse:
És Tu Aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?
A resposta do Senhor foi:
Bem-aventurado é aquele que não se escandalizar em Mim.
O Senhor talvez não explique a vocês o motivo. Ele espera que vocês creiam Nele. Ele espera que confiem Nele e não se escandalizem.
Queridos irmãos e irmãs, creio que, ao seguirmos o Senhor, haverá momentos em que seremos provados dessa maneira. Quantos se escandalizam com o Senhor e deixam de segui-Lo porque Ele não corresponde às suas expectativas!
É claro que o Senhor tem as Suas razões. O Senhor sabe quanto podemos suportar. O Senhor sabe até que ponto pode nos provar. Assim, vemos que Ele provou Zacarias e Isabel além da sua capacidade natural, e, mesmo assim, eles confiaram no Senhor.
Eles não compreendiam. Nunca lhes foi dada uma explicação, mas continuaram crendo em Deus e servindo a Deus com a mesma fidelidade de antes. Não se escandalizaram. Deus sabia quanto podiam suportar.
Deus fez isso por uma razão especial. Ele estava procurando nesta terra um vaso que marcasse uma nova época. De onde viria esse vaso? Ele precisava vir de algum lugar.
Vemos, então, que Deus tomou esse casal idoso e o provou, levando-o além da sua capacidade natural. Ainda assim, eles confiaram em Deus. Por isso, Deus pôde trazer à existência aquele vaso que marcaria uma nova época.
Certo dia, Zacarias estava servindo no templo. Creio que estava perto da época de se aposentar — talvez fosse até a última vez. Aconteceu que a sorte caiu sobre ele para queimar incenso no templo.
Antes de amanhecer, antes que a porta do templo fosse aberta, os sacerdotes que serviam na turma daquele dia se reuniam numa sala na área do templo, e lançavam sortes para decidir quem realizaria cada serviço durante o dia.
Alguns serviriam no altar de bronze; outros serviriam junto ao candelabro. Mas, de todos os serviços do sacerdócio, o serviço mais nobre que poderia caber a um sacerdote era queimar incenso no altar de ouro do incenso.
Por quê? Somente o sumo sacerdote podia entrar além do véu, uma vez por ano, com sangue e incenso, apenas para estar diante da arca e depois se retirar rapidamente. Portanto, para os sacerdotes, o lugar mais próximo do propiciatório era o altar de ouro do incenso, porque ele ficava bem diante do véu, diante da arca e do propiciatório.
Queimar incenso naquele altar era considerado o mais elevado privilégio de um sacerdote. Muitos sacerdotes serviam no templo a vida inteira, e essa oportunidade nunca lhes chegava. Segundo o costume judaico, uma vez que alguém tivesse o privilégio de queimar incenso no altar de ouro, não poderia repeti-lo. Era uma única vez na vida.
Aqui encontramos Zacarias servindo a Deus no templo e sabendo que estava para se aposentar. Graças a Deus, no último momento a sorte caiu sobre ele. Assim, entrou no lugar santo para queimar incenso no altar.
Quando o sacerdote queimava incenso no altar, ninguém mais estava no lugar santo. Todos estavam no pátio, orando, e ele era o único no templo propriamente dito. Ele representava a nação inteira, queimando incenso e oferecendo oração a Deus. Era o momento mais sagrado.
Enquanto queimava incenso no altar, de repente um anjo apareceu à direita do altar, e ele ficou com medo. O anjo disse:
Zacarias, não temas. A tua súplica foi ouvida;
e terás um filho, e o seu nome será João.
Isso é muito incomum. Quando Zacarias estava queimando incenso no altar, ele estava oferecendo oração a Deus; mas a oração que oferecia naquele momento não poderia ser uma oração particular, pessoal. Ele estava ali como representante.
Ele representava a nação inteira e fazia a oração da nação. Qual era a oração da nação de Israel? “Ó Deus, envia o Messias. Envia o Messias.” Essa era a oração da nação.
Sem dúvida, essa foi a oração que Zacarias fez naquele momento. No entanto, o anjo disse:
A tua súplica foi ouvida, e terás um filho.
Enquanto ele e a esposa oravam por um filho, não havia resposta. Quando ele deixou de orar por um filho e orou pelo Messias, veio a resposta: “Você terá um filho”.
Irmãos e irmãs, qual é a ligação? Vocês oram por uma coisa, e Deus lhes responde a respeito de outra. A ligação é que o filho que lhe foi dado estava relacionado ao Messias.
Quando eles oravam por um filho para si mesmos, não havia resposta. Mas, quando oraram pelo Messias, Deus disse: “Vocês terão um filho, porque esse filho será o precursor do Messias”.
Não é verdade que muitas vezes oramos, oramos e oramos por alguma coisa para nós mesmos, e não há resposta? Se você é um novo convertido, muitas vezes haverá uma resposta. Mas, quando você já é um cristão há mais tempo, às vezes ora, ora e ora, e não há resposta.
Então você começa a se perguntar: “Por que, quando eu era um novo convertido, sempre que orava, Deus vinha imediatamente e supria minha necessidade? Agora, isso já não acontece. Por que minha oração não é respondida?”.
Você pode ter todas as razões legítimas para pedir a Deus que supra aquela necessidade. Pode dizer: “Senhor, não é por mim, mas para que a Tua própria fidelidade seja demonstrada”. Mas, na verdade, também é por você.
Irmãos e irmãs, vocês podem estar orando, orando, orando, e não há resposta. Às vezes, vocês se perguntam se Deus mudou. Estão se ressentindo Dele?
Se não estão se ressentindo, sabem que Deus está tentando tirá-los de si mesmos e envolvê-los na necessidade Dele? Às vezes, só vemos a nossa própria necessidade e não conhecemos a necessidade de Deus.
Deus precisa de um filho — um vaso que marque uma nova época para preparar o caminho do Seu Filho amado. Contudo, vocês estão orando apenas por um filho para si mesmos. Deus os considera espiritualmente maduros o suficiente para não responder à sua oração, e espera que vocês não se escandalizem.
Até começarem a perceber que a necessidade Dele é mais importante que a sua, vocês talvez continuem orando por si mesmos. Mas, quando começarem a esquecer a sua necessidade e a pensar somente na necessidade Dele — “Ó Deus, envia-nos o Messias” —, então Deus dirá: “Sim, Eu lhes darei um filho, e ele preparará o caminho do Messias”.
Irmãos e irmãs, creio que há uma lição muito necessária que precisamos aprender se quisermos ver esse vaso de Deus que marca uma nova época vir à existência. Deus precisa nos envolver na necessidade Dele.
A maioria das pessoas conhece apenas a própria necessidade. Mas aqueles que estão crescendo em Cristo devem começar a perceber que Deus também tem necessidades, e a necessidade Dele precisa se tornar a nossa. A menos que estejamos dispostos a fazer a oração Dele, a carregar o Seu encargo e a sofrer, por assim dizer, dores de parto em oração — passando por dificuldades, fracassos e perplexidades por amor a Ele —, a necessidade de Deus não poderá ser suprida.
Estamos dispostos a ser pessoas como Zacarias e Isabel? Deus pôde trazer João Batista à existência. Agora gostaríamos de considerar algumas coisas a respeito de João Batista — aquelas coisas que fizeram dele um vaso de Deus que marcou uma nova época.
Em primeiro lugar, o nome de João foi dado pelo anjo. Seu nome não foi dado por seu pai nem por sua mãe.
Quando João nasceu, no oitavo dia eles o circuncidaram, conforme o costume, e se reuniram para lhe dar um nome. Sua mãe disse:
Seu nome será João.
Mas os amigos e parentes disseram: “Não, não, não. Não há ninguém com esse nome na sua família”. Segundo o costume judaico, eles procuravam na família do pai ou na família da mãe e encontravam ali um nome — talvez o de um tio, uma tia ou uma avó de quem gostassem muito.
Eles pensaram que talvez o menino devesse se chamar Zacarias Júnior. Então se voltaram para o pai. Por causa da sua incredulidade, ele havia ficado mudo. Fizeram-lhe sinais, perguntando como o menino deveria se chamar. Ele pediu uma tabuinha e escreveu:
Seu nome é João.
Então sua língua foi solta, e ele louvou a Deus.
O nome foi dado pelo anjo. Qual é o significado do nome João? João significa: “O Senhor é gracioso”.
No próprio nome desse menino, vemos a graça de Deus. Ou, dizendo de outra maneira, João é uma expressão concreta da graça de Deus. Se não fosse pela graça de Deus, não teria havido João.
Seu pai e sua mãe eram ambos avançados em idade e não podiam ter um filho. Deus os levou à morte, por assim dizer, e até além disso. Eles estavam completamente sem possibilidade alguma. Deus esgotou a força natural deles, de modo que era absolutamente impossível terem um filho. Então a graça de Deus começou a operar e trouxe à existência aquele vaso que marcaria uma nova época.
É sempre assim que a graça opera. A graça de Deus não pode operar enquanto a sua força natural ainda estiver disponível.
A razão pela qual não conhecemos mais da graça de Deus é que a nossa força natural é muito forte. Se ainda houver em nós um pequeno vestígio de força natural, Deus diz: “Preciso esperar”. Se Ele agisse naquele momento, compartilharíamos a Sua glória. Pensaríamos que nós é que havíamos feito aquilo.
Vocês se lembram de quando o Senhor Jesus ressuscitou Lázaro. As irmãs enviaram uma mensagem ao Senhor, dizendo:
Aquele a quem Tu amas está enfermo.
Elas esperavam plenamente que o Senhor voltasse imediatamente, mas o Senhor permaneceu onde estava.
Ele só chegou quando Lázaro já estava no túmulo havia quatro dias. Em outras palavras, a morte havia realizado plenamente a sua obra. Marta disse:
Senhor, já cheira mal.
Mas o Senhor chegou no momento em que a ressurreição podia operar.
Queridos irmãos e irmãs, se ao menos enxergássemos esse princípio básico: quando a graça começará a operar em nossa vida? Quando o nosso homem natural, a nossa força natural e a nossa energia natural estiverem completamente esgotados.
Quando uma pessoa está se afogando, você não pode resgatá-la imediatamente, porque, se fizer isso, ela ainda terá força, agarrará você com os braços e o puxará para baixo junto com ela. Aqueles que sabem resgatar pessoas esperam. Se não puderem esperar, talvez tenham de golpeá-la para que fique quase inconsciente; então poderão puxá-la para cima.
Irmãos e irmãs, não é verdade que a graça só começa a operar quando aquilo que é natural está completamente esgotado?
Como isso é verdadeiro a nosso respeito! Quando cremos no Senhor Jesus pela primeira vez, como tentamos acumular méritos, apresentar atos de justiça próprios e oferecer nossos frutos naturais, pensando que, por meio deles, podemos apaziguar a Deus.
Somente depois de esgotarmos toda a nossa força natural, todos os nossos recursos e todos os nossos caminhos é que nos vemos desamparados, exatamente como somos. Então a graça nos diz:
Pela graça sois salvos, por meio da fé;
e isto não vem de vós; é dom de Deus.
Mas, queridos irmãos e irmãs, como esquecemos facilmente a lição que aprendemos! Depois de crermos no Senhor Jesus, tentamos de novo. Essa é a razão pela qual não conhecemos mais graça em nossa vida.
Lembrem-se: Deus só pode usar aquilo que é Dele mesmo. Deus não pode usar nada que não venha Dele. Tudo o que não é Dele precisa passar pela morte, e Deus só usará aquilo que vem Dele.
Esse é um princípio muito básico, fundamental e essencial. Ele precisa ser aplicado ao longo de toda a nossa vida. Não é algo que se aplica apenas quando somos regenerados; precisa ser aplicado a cada passo do nosso caminho.
Deus não tem nada a ver com o que é natural. Tudo o que é natural precisa ser tratado, mas não pode ser substituído pela graça até que esteja completamente esgotado. Aprendemos essa lição?
Se aprendemos essa lição, então temos a primeira qualidade de um vaso de Deus que marca uma nova época: o princípio da graça, tudo pela graça.
Em segundo lugar, João foi um dos poucos que foram nazireus por toda a vida. Segundo Números 6, se algum homem ou alguma mulher desejasse fazer o voto de nazireu — separar-se para o Senhor e consagrar-se ao Senhor —, poderia fazê-lo.
Quando Deus tirou Israel do Egito e o levou ao monte Sinai, Seu propósito era que toda a nação fosse uma nação de sacerdotes. Em outras palavras, cada israelita deveria servir a Deus.
Mas, enquanto Moisés recebia a lei no monte, os filhos de Israel pecaram contra Deus, adorando um bezerro de ouro. Assim, foram desqualificados para serem sacerdotes e servirem a Deus.
Por isso, Deus tomou daquela nação uma tribo e, daquela tribo, uma família — a família de Arão — para serem sacerdotes. O restante do povo não podia servir a Deus, mesmo que quisesse. Estavam desqualificados. Perderam esse privilégio.
Nossa compreensão do serviço está inteiramente errada. Pensamos que, se servimos a Deus, Deus é honrado. Em vez disso, deveríamos pensar que, quando Deus nos permite servi-Lo, nós é que somos honrados.
Contudo, Deus, sendo misericordioso, abriu para eles uma porta de serviço. Se algum homem ou alguma mulher de qualquer tribo realmente amasse a Deus e quisesse servi-Lo, mesmo que não pertencesse à família de Arão nem à tribo de Levi, Deus lhe dava outra oportunidade: poderia fazer o voto de nazireu.
Eles poderiam se separar por um mês, seis meses ou um ano e se dedicar completamente ao Senhor, vivendo para Deus. Normalmente, o voto de nazireu era apenas por um período limitado. Mas, na Bíblia, há alguns que foram nazireus por toda a vida. Samuel foi um deles, e João Batista foi outro.
Um nazireu não devia beber vinho nem bebida forte. João, portanto, era nazireu por toda a vida.
Segundo Números 6, um nazireu precisava se abster de três coisas:
Espiritualmente, quando o voto de nazireu do Antigo Testamento é aplicado ao Novo Testamento, ele fala de consagração.
Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus,
que apresenteis os vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus,
que é o vosso serviço espiritual.
— Romanos 12:1
Em termos do Novo Testamento, o voto de nazireu é consagração. Uma vez que nascemos de novo pelo Espírito e fomos redimidos pela graça, devemos responder à graça com uma ação, e essa ação se chama consagração.
Nós, que somos vasos da graça, nós, que somos salvos pela graça, devemos ser constrangidos pela grandeza da graça de Deus a nos oferecer de volta a Deus e dizer: “Agora, Senhor, sou Teu. Não tenho o direito de viver para mim mesmo. Estou disposto a ser separado e a viver inteiramente para Ti — ou, melhor ainda, a deixar que Tu vivas em mim”.
Isso é consagração. Esse é o voto de nazireu. Tendo feito esse voto, nós nos abstemos de certas coisas — não fisicamente, mas espiritualmente.
Nós nos abstemos de todo o produto da videira. Por quê? Porque o Senhor disse:
Eu sou a videira verdadeira.
A videira representa aquilo que o mundo pode nos dar. O mundo pode dar prazer como o vinho, doçura como as passas e satisfação como as uvas.
Mas, se somos constrangidos pela graça de Deus e nos oferecemos ao Senhor, dizemos: “Senhor, de agora em diante, não buscarei no mundo o meu tesouro, a minha satisfação nem a minha força. Tu és a minha satisfação. Tu és a minha força. Tu és o meu prazer. Tu és a fonte dos meus recursos”.
Permanecemos na videira verdadeira e desfrutamos de todos os nossos recursos provenientes Daquele que é verdadeiro. Não voltamos ao mundo para tentar encontrar ali prazer, satisfação e força. Isso é separação.
Não permitimos que a navalha passe sobre a nossa cabeça — não fisicamente, não fisicamente. Se nos consagramos ao Senhor, então O tomamos como nosso Cabeça. De agora em diante, Ele é o nosso Senhor; Ele dirige a nossa vida. Já não somos nossos próprios senhores.
Esse é o significado de nenhuma navalha passar sobre a cabeça. Deixamos o cabelo crescer como uma cobertura, porque tomamos Cristo como nosso Cabeça.
Também não nos aproximamos de nenhum cadáver — não fisicamente, mas espiritualmente. Nas Escrituras, o cadáver representa a carne. A carne sempre contamina. Não teremos nada a ver com a carne. De agora em diante, precisamos andar segundo o Espírito, e não segundo a carne.
O que é consagração? Consagração é a resposta à graça. Consagração é ser separado para Deus. Consagração é obter todos os nossos recursos do Senhor, em vez de obtê-los do mundo. Consagração é reconhecer Cristo como nosso Cabeça e estar coberto diante Dele. Consagração é andar, não segundo a carne, mas segundo o Espírito.
E isso é para toda a vida, não apenas por algum tempo. É para toda a vida. Por essa razão, João seria grande diante do Senhor.
Ah, queridos irmãos e irmãs, nós, que recebemos tanta graça, respondemos com consagração? A consagração não é algo que se faz apenas uma vez na vida. É algo que se inicia uma vez e depois se continua por toda a vida.
É por isso que o holocausto precisava ser oferecido todas as manhãs e todas as tardes. Precisamos renovar a nossa consagração todas as manhãs e todas as tardes. O fogo do holocausto nunca deve se apagar.
Essa é a segunda qualidade encontrada no vaso que marca uma nova época: consagração.
Em terceiro lugar, João Batista deveria andar diante do Senhor no espírito e poder de Elias. João Batista não era Elias; ele era semelhante a Elias porque veio no espírito e poder de Elias.
O que é o espírito de Elias? Vocês se lembram do discípulo de Elias, Eliseu. Antes de Deus levar Elias ao céu, Eliseu seguia Elias. Elias tentou se desvencilhar dele, mas Eliseu o seguiu por todo o caminho.
Depois que atravessaram o rio Jordão, Elias disse a Eliseu: “Deus vai me levar. Peça o que quiser, e isso lhe será dado”. Eliseu disse:
Dá-me uma porção dobrada do teu espírito.
Elias disse: “Pediste uma coisa difícil. Não posso dá-la a ti. Mas, se me vires quando eu for levado, então Deus a dará a ti”. Enquanto conversavam, um carro de fogo e cavalos de fogo os separaram, e Elias foi levado num redemoinho.
Eliseu clamou:
Meu pai, meu pai!
O manto de Elias caiu. Eliseu o apanhou, colocou-o sobre si e recebeu uma porção dobrada do espírito de Elias.
Agora, vocês talvez se perguntem o que era o espírito de Elias. Poderiam dizer que Eliseu era um jovem ambicioso, que queria ser duas vezes mais poderoso que seu mestre. Mas não, não era isso.
O espírito de Elias nada mais é que o zelo do Senhor.
Elias disse a Deus: “Tenho sido muito zeloso por Ti. Sou zeloso pelos Teus direitos. Estou disposto a sacrificar a minha vida, contanto que os Teus direitos e o Teu nome sejam preservados. Mas não sou melhor que meus pais. Sou o único que restou, e eles mataram todos os outros”.
Mas Deus disse: “Ainda tenho sete mil”. Esse é o espírito de Elias: o ciúme de Deus, o zelo do Senhor.
Elias era uma pessoa que literalmente ardia com a paixão de Deus. Quando via a nação tão desviada e percebia que o nome de Deus e os direitos de Deus não eram honrados, ele ardia por dentro. Não conseguia se conter. Estava disposto a se sacrificar, contanto que o nome e os direitos de Deus fossem restaurados.
Por causa desse espírito, ele foi perseguido. Por causa desse espírito, sofreu muito.
Ouçam Paulo. Paulo escreveu aos cristãos de Corinto, dizendo:
Tenho ciúme de vós com o ciúme de Deus;
porque vos desposei com um só Esposo, para vos apresentar a Cristo como virgem pura.
Mas temo que, assim como a serpente enganou Eva com a sua astúcia,
sejam corrompidos os vossos pensamentos, afastando-se da simplicidade e da pureza para com Cristo.
— 2 Coríntios 11:2-3
Paulo também disse:
Quem enfraquece, que eu também não enfraqueça?
Quem é levado a tropeçar, que eu não me inflame?
Em outras palavras, o zelo do Senhor e o ciúme de Deus ardiam dentro de Paulo, e vocês veem como Paulo sofreu.
Olhem para o nosso Senhor Jesus. No início do Seu ministério, Ele entrou no templo e viu homens comprando e vendendo na área do templo, obtendo lucros e explorando as pessoas.
O Senhor Jesus não pôde Se conter. Ele estava consumido pelo zelo do Senhor. Virou as mesas, expulsou o gado e disse:
Não façais da casa de Meu Pai uma casa de comércio.
O zelo da Tua casa Me consumirá.
— João 2:17
Por causa disso, Ele sofreu. Foi crucificado na cruz.
Que tipo de vaso é um vaso que marca uma nova época? Precisa ser um vaso cheio do espírito de Elias, um vaso literalmente consumido pelo zelo do Senhor, um vaso que tenha o ciúme de Deus.
Na época do nosso Senhor Jesus, milhares e milhares de pessoas vinham ao templo todos os dias. A compra e a venda aconteciam continuamente, e ninguém parecia se incomodar com isso. Então veio o nosso Senhor Jesus e, quando viu aquilo, não pôde suportá-lo.
Não é verdade, queridos irmãos e irmãs, que no mundo de hoje — e não apenas no mundo, mas no mundo religioso, no cristianismo — são feitas em nome de Deus coisas que são sacrílegas? Contudo, podemos entrar e sair sem sentir nada, como se tudo estivesse certo e tudo pudesse continuar como de costume.
Onde está o zelo do Senhor? Onde está o ciúme de Deus? Quando vocês veem os direitos de Deus, os direitos do nosso Senhor Jesus e o nome do nosso Senhor Jesus sendo desonrados, conseguem se conter?
Não é de admirar que Deus não consiga encontrar esse vaso que marca uma nova época. Um vaso que marca uma nova época é um vaso da graça. Um vaso que marca uma nova época é um vaso de consagração. Um vaso que marca uma nova época é alguém em quem está o espírito de Elias.
É verdade: vocês sofrerão se perceberem essas coisas. Sofrerão se arderem com o zelo do Senhor. Não poderão continuar sendo populares; serão rejeitados.
Mas, queridos irmãos e irmãs, é esse tipo de vaso que Deus pode usar para mudar a era.
Como nos acostumamos facilmente com as coisas! Como já as vimos tantas vezes, já não sentimos mais nada. Mas, se vocês estiverem cheios do ciúme de Deus, se estiverem cheios do zelo do Senhor, então, quando virem algo contrário ao Senhor, contrário ao Seu caráter ou contrário ao Seu nome, não conseguirão se conter. Não poderão ficar calados.
Vocês podem ser tolos aos olhos do mundo, mas somente um vaso assim pode mudar a era. Esse é o tipo de vaso que marca uma nova época.
Por fim, qual é a obra desse vaso? Esse vaso deve preparar um povo disposto para o Senhor.
O Senhor está vindo. Mas, quando Ele vier, encontrará um povo que esteja pronto para Ele?
Exteriormente, toda a nação de Israel estava orando pela vinda do Messias. Mas eles estavam prontos? Quando o Messias finalmente chegou, a nação estava pronta para Ele? De modo nenhum.
Até em Jerusalém, quando ouviram dos magos que havia nascido uma criança que era o Rei dos judeus, ficaram perturbados. Não estavam prontos.
Mas Deus precisa ter um povo preparado para o Senhor. Por isso, enviou João Batista para fazer essa única coisa: preparar um povo disposto para o Senhor.
Essa era a obra de João Batista. E, de fato, quando Cristo veio, todos os primeiros seguidores do Senhor eram discípulos de João Batista. João Batista os havia preparado; por isso, quando o Senhor veio, eles O seguiram.
Quando deixaram João e foram para o Senhor, João disse: “Eu me alegro. Eu me alegro, porque foi para isso que vim”.
Historicamente, isso foi verdade. Mas, queridos irmãos e irmãs, vocês sabem por que o Senhor demora? Sabem por que a era está mudando e, ainda assim, é tão difícil que essa mudança aconteça?
É por causa desta questão: se o Senhor voltasse hoje, encontraria um povo preparado para Si mesmo?
A noiva precisa se aprontar. Então o Noivo virá para tomá-la como Sua noiva.
O problema hoje é que o povo de Deus não está preparado. Podemos dizer com a boca: “Senhor, vem depressa”, mas estamos preparados? Se Ele viesse agora mesmo, você estaria pronto para Ele?
Ser salvo é uma coisa, mas estar preparado e pronto para Ele é outra coisa completamente diferente.
Somos como aquele servo mau que diz:
Meu Senhor tarda.
Ou somos aquele servo bom e fiel que sabe que Ele pode vir a qualquer momento e está preparado? Ele pode vir a qualquer momento. Você está pronto para Ele?
Para mim, o ministério mais urgente em nosso tempo é o ministério de preparar um povo disposto para o Senhor.
Creio que esse é o ministério mais urgente. Evangelizar o mundo é importante, certamente. Mas penso que a necessidade mais urgente hoje é um ministério que prepare um povo disposto para o Senhor.
Quem pode preparar um povo assim? Se nós mesmos não estamos preparados, como podemos preparar os outros? Precisamos ser preparados pelo Senhor e, então, por nossa vez, podemos preparar outros para o Senhor.
A noiva já se aprontou. É verdade que lhe foi dado o linho fino, resplandecente e puro, que é a justiça dos santos. Isso lhe foi dado e, ainda assim, ela se aprontou para o Senhor.
Queridos irmãos e irmãs, esse deve ser o ministério do vaso que marca uma nova época. Creio que esse é o ministério mais importante em nosso tempo.
Que sejamos levantados pelo Senhor como um povo preparado. Quando o Senhor vier, que Ele encontre um povo pronto para Ele. Esse povo será o vaso que marca uma nova época, que Deus pode usar para preparar o Seu povo para o Senhor.
Creio, queridos irmãos e irmãs, que queremos que o Senhor volte. Mas estamos prontos para Ele?
Pai celestial, nós Te louvamos e Te agradecemos, porque sabemos que é da Tua vontade mudar a era e trazer o Rei e o Seu reino.
Senhor, sentimos realmente que Tu estás chamando um vaso, um vaso que marque uma nova época, que Tu possas usar para realizar essa obra.
Senhor, nós nos humilhamos diante de Ti. Sabemos que somos vasos da graça, e, contudo, muitas vezes não sabemos o que é a graça.
Às vezes, confiamos em nossa própria força natural, pensando que podemos fazer coisas para Ti. Senhor, pedimos que nos mostres o que a graça realmente é. Queremos que a Tua graça tenha mais oportunidade de operar em nossa vida.
Senhor, desejamos ser um povo que responda à Tua graça com consagração: uma vida entregue a Ti, reconhecendo-Te como nosso Cabeça e como nosso Senhor.
Oramos para que o espírito de Elias nos caracterize. Ó Senhor, não podemos produzi-lo. Somente quando Te vemos, somente quando Tu Te revelas a nós, é que podemos ser cheios do zelo do Senhor.
Ó Senhor, que esse zelo nos consuma, para que realmente possamos ser usados para preparar um povo para Ti mesmo. Ó Senhor, quando Tu voltares, que a Tua noiva esteja pronta.
A Ti sejam todo o louvor e toda a glória, em nome do nosso Senhor Jesus. Amém.