Apenas uma breve palavra, queridos amigos, neste momento.
Abram, por favor, no conhecido capítulo vinte e quatro do Evangelho de Lucas.
Lucas 24:16:
Mas os olhos deles estavam retidos, para que não O conhecessem.
Lucas 24:31:
E abriram-se-lhes os olhos, e O conheceram.
Primeiro, gostaria que vocês observassem a maneira exata como essas coisas são ditas:
Os olhos deles estavam retidos, para que não O conhecessem.
E:
Abriram-se-lhes os olhos.
Observem que, nas duas passagens, é como se algo lhes tivesse acontecido deliberadamente. É como se houvesse um ato da parte de Alguém que os tornasse incapazes de reconhecê-Lo.
É como se Alguém tivesse colocado deliberadamente um véu sobre os olhos deles — deliberadamente mesmo — para que não O reconhecessem. Depois, é como se esse véu tivesse sido removido de maneira igualmente deliberada, e os olhos não estivessem apenas abertos, mas tivessem sido abertos: houve um ato que removeu aquela cegueira. E, por meio desse ato, eles O reconheceram.
Vocês podem não concordar comigo. Não me importo se não concordarem. Mas creio que, desde a ressurreição até o dia de Pentecostes, os discípulos estavam num período entre parênteses. Tudo era parentético.
Esse período entre parênteses foi concentrado e culminou nos quarenta dias após a ressurreição. Assim, o que acontecia naquele período parentético consistia em episódios isolados — isto é, uma série de acontecimentos sem um resultado definitivo. Algo acontecia, depois outra coisa acontecia, mas nada chegava à sua plena realização. Simplesmente acontecia.
No dia de Pentecostes, esses episódios foram reunidos e se tornaram a vida cristã permanente, normal — algo contínuo.
Algo acontecia naquele momento, e Ele desaparecia. Aquilo não havia chegado à sua plena realização; não havia sido estabelecido. Nada de definitivo permanecia. Outra coisa acontecia assim — acontecia num instante e depois desaparecia. Era um episódio, depois outro episódio.
Quando chegamos ao dia de Pentecostes, todos esses episódios são reunidos numa única base de vida para toda a dispensação. E creio que esse é o significado aqui.
Esse episódio específico em Emaús, no caminho de Emaús e em Emaús — vocês percebem? Durante aquela caminhada e à mesa… Esperem um pouco. Esta não será uma mensagem longa. Trata-se de um ponto central que, sinto eu, está no centro de toda esta conferência.
No caminho de Emaús, aqueles dois caminhavam e estavam tristes. Estavam desanimados e desesperados. Estavam com o coração no chão, como costumamos dizer.
Tudo havia acabado. Não restava nada.
Eles estavam considerando a cruz pelo lado puramente natural — pelo aspecto da morte na cruz.
O aspecto da morte na cruz. Se vocês permanecerem ali, é nesse estado que ficarão.
Bem, houve uma época da minha vida em que estive ali: a mensagem da cruz, sim, a mensagem da cruz, mas sempre o aspecto da morte. É como se alguém estivesse debruçado sobre um cadáver, dissecando-o, pedaço por pedaço — desmembrando esse cadáver, expondo-o, detendo-se nele, examinando-o: o eu, o eu.
Inteiramente ocupado com esse miserável cadáver. E essa era a interpretação da mensagem da cruz: a morte, a morte, a morte. E, sabem, isso não levava a lugar nenhum. Levava a muita confusão e a muita contradição.
E era aí que aqueles dois estavam: apenas no aspecto da morte na cruz, do ponto de vista natural. Como disseram em Lucas 24:21:
E nós esperávamos que fosse Ele o que remisse Israel.
Mas três dias haviam se passado, e assim por diante.
Estavam tristes e infelizes, perplexos e abatidos, porque estavam somente no aspecto da morte.
O Senhor Jesus, sem Se dar a conhecer, aproximou-Se deles, tomou a Bíblia e percorreu a Bíblia, mostrando que, embora a cruz fosse parte integrante do propósito, da obra e do plano de Deus, a cruz não era um fim.
A cruz não era um fim — a não ser para aquilo que é natural. A cruz, na verdade, destinava-se a ser uma porta aberta para uma nova esperança.
Bendito seja Deus! Pedro, que era um daqueles homens lá em Jerusalém, muito infeliz, finalmente chegou a enxergar e disse em 1 Pedro 1:3:
Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo,
que, segundo a Sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança,
pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos.
O Senhor Jesus, naquela caminhada, abriu as Escrituras e, por assim dizer, abriu a cruz para uma nova vida, uma nova esfera — não um fim na morte.
Não um fim na morte, mas um começo na vida.
E observem a mudança que aconteceu. Ao fim do dia, ao término da jornada, eles haviam dito: “O dia já está terminando. É perigoso estar na estrada agora. A noite está chegando; os salteadores estão na estrada. É perigoso. Bem, estamos cansados”.
Mas, com salteadores ou sem salteadores, com cansaço ou sem cansaço, eles voltaram a Jerusalém a toda pressa.
Porque Ele havia mostrado que a cruz, embora estivesse no plano de Deus com um propósito, não era, na verdade, um fim, mas um começo.
Agora, então, voltemos às nossas palavras: os olhos deles foram deliberadamente retidos para que não O reconhecessem. Mas, depois que Ele explicou o verdadeiro significado da cruz — seu significado pleno, o aspecto da vida, o aspecto glorioso —, os olhos deles foram abertos. Como Ele disse em Lucas 24:26:
Porventura não convinha que o Cristo padecesse estas coisas e entrasse na Sua glória?
Deliberadamente abertos.
O que estou dizendo é isto, queridos amigos: há um ato soberano de Deus que deve ocorrer quando a cruz já ocupou o seu lugar, realizou a sua obra e foi aceita em seu verdadeiro significado, mas nós avançamos para o terreno da ressurreição — para o aspecto da vida.
Então nossos olhos são abertos.
E sinto que é muito importante concentrarmos a atenção nisso. Ah, não consigo lhes dizer o quanto sei que isso é importante.
O verdadeiro resultado de compreender corretamente a cruz e entrar em seu significado é que uma faculdade espiritual é criada no nosso interior para a compreensão espiritual.
Deixem-me explicar desta maneira. Durante anos, durante anos, eu fui cristão. Sim, eu sabia que pertencia ao Senhor. Era um pregador do evangelho. Era um expositor das Escrituras.
Sim, eu podia conduzir vocês por todas as Escrituras e encontrar Cristo em todas elas. Podia fazer tudo isso: expor as Escrituras, analisar os livros da Bíblia e apresentar tudo a vocês dessa maneira.
Então veio uma crise — uma crise profunda, uma crise da cruz. Sim, para pôr fim a algo; um fim tem seu lugar, um lugar essencial. Mas a crise da cruz, ou o ponto culminante da cruz, me levou a uma nova posição.
Uma nova posição.
E qual era a principal característica dessa nova posição? É aquilo que sempre chamei — muitos de vocês já me ouviram falar disso — de meu céu aberto.
Um céu aberto: uma faculdade, uma faculdade espiritual, por assim dizer, nascida no meu interior.
Antes, porém, todo esse trabalho com as Escrituras era um trabalho árduo — ter de conseguir os livros mais recentes sobre a doutrina da cruz, acumular todas as obras, ser membro de bibliotecas teológicas. Nossa, como era trabalhoso!
Como já disse: “Eu mesmo tinha de encontrar a palha para fazer os tijolos”. Ah, foram anos assim.
A crise, o ponto de virada — isso foi, digamos, há quarenta e sete anos. Daquele dia até hoje, nunca mais precisei fazer um trabalho exaustivo para obter uma mensagem.
Um céu aberto? Vocês não acreditam? Acreditem em mim. Lembrem-se do que eu disse nesta manhã: quero mais uma semana inteira apenas para abordar um aspecto dessas coisas. Sabem, é assim. É assim.
São os doze cestos que sobram cheios depois de todos terem sido alimentados, depois de todos os dias e de todas as horas.
Céu aberto: enxergar, enxergar cada vez mais.
Mas o que foi que passei a enxergar com essa nova faculdade? É uma faculdade maravilhosa. Não é, de modo algum, uma capacidade intelectual ou algo assim. Não sou uma pessoa de grande inteligência. Sou um homem sem talento. Pois bem — não, não está aí.
O que eu vi? Vi a cruz? Não, não em primeiro lugar. Vi a igreja? Não em primeiro lugar.
Por mais que eu tenha passado a enxergar a cruz e por mais que tenha passado a enxergar a igreja, como foi que cheguei a enxergar? Eu vi o Senhor Jesus.
E passei a compreender que é a Pessoa que dá à cruz o seu significado. Vocês podem ter mil, um milhão de cruzes, sem aquele efeito. É a Pessoa. Vocês precisam interpretar a cruz à luz da Pessoa.
Quem está na cruz? É por isso que Paulo disse àqueles coríntios tão, tão intelectuais, em 1 Coríntios 2:2:
Porque nada me propus saber entre vós,
senão a Jesus Cristo, e Este crucificado.
Não, é ver o Senhor Jesus — somente essa é a maneira de enxergar o significado.
A igreja é um assunto maravilhoso. A igreja — um assunto maravilhoso! Vocês podem continuar falando sobre a igreja durante anos e anos. Como foi que passei a enxergar a igreja? Passei a enxergá-la — e creio que realmente a enxerguei — porque, quando a vi, aquilo me libertou de todas as imitações, de toda a imitação, de toda a tradição.
Vi a igreja porque vi o Senhor Jesus. Se vocês compreendem o Senhor Jesus, sabem o que é a cruz. Sabem o que é a igreja se enxergam o Senhor Jesus.
Porque, afinal, o que é a igreja? Ela nada mais é do que a expressão corporificada, a expressão coletiva, Dele próprio.
E essa igreja é algo imenso, porque é tão grande quanto Cristo. Vocês não conseguem abarcar as dimensões de Cristo. Assim, percebem as dimensões da igreja. Entendem o que estou tentando dizer?
Aqui, então, tudo é reunido e concentrado numa única coisa. Vocês ouviram a exposição.
Talvez vocês tenham estado no desespero da morte. Talvez tudo tenha acabado. Tudo tenha acabado. Ou talvez tenham estado em confusão.
Mas vocês ouviram a exposição — Moisés, os profetas e todas as Escrituras — e, ainda assim, seus olhos continuam retidos. É necessário um ato de Deus, o Espírito Santo.
Isso significa que seus olhos são abertos — os olhos interiores são abertos. Algo aconteceu.
“Ah, eu já sabia de tudo isso.” Aqueles homens eram homens da Bíblia. Eram hebreus, pelo que podemos saber. Conheciam as Escrituras — homens da Bíblia.
Mas, quando tiveram os olhos abertos, foi como se nunca tivessem conhecido a Bíblia. Era uma nova Bíblia.
Vocês receberam todo o ensino, todas as exposições. Queridos amigos, o que precisamos é desse ato, desse ato interior.
Bem, não consigo explicá-lo. Não tenho tempo nem sequer para tentar expô-lo. Mas é algo infinitamente precioso, infinitamente maravilhoso. Se os olhos são abertos, vocês enxergam — não Sião como uma doutrina ou um ensinamento, nem mesmo os vencedores como certas coisas na Bíblia —, vocês O enxergam.
Ah, não estou pensando em visões, sabem. Não estou pensando em aparições ou visitações psíquicas pessoais. Estou pensando em enxergar espiritualmente o significado — o significado e as implicações — do Filho de Deus.
Imensa, eterna, além de toda compreensão — a Sua grandeza.
E é Ele próprio Quem interpreta tudo. Isso toca em tudo. Mas o ato do Espírito — esse ato do Espírito — precisa vir sobre toda a Escritura e sobre tudo o mais em nossa tradição, e abrir os nossos olhos.
Foi isso que eu quis dizer. Vejam, eles tiveram aquele episódio — o episódio dos olhos abertos —, e aquilo significou muito. Voltaram a Jerusalém e contaram tudo aos demais.
Mas ainda não haviam enxergado, porque, pouco depois, diriam, em Atos 1:6:
Senhor, restaurarás Tu neste tempo o reino a Israel?
Ainda presos ao mesmo nó. Não haviam enxergado; não haviam enxergado.
Mas, no dia de Pentecostes, pelo ato do Espírito, houve uma concepção inteiramente nova, porque agora, pelo Espírito, eles haviam visto o Senhor.
Deus nos livre de apenas dizer: “Eu Te digo, Senhor”, com todo o ensino, tudo o que ouvimos, toda a Bíblia diante de nós. Realiza esta obra interior: cria esta faculdade espiritual, capaz de enxergar o que nenhum olho natural pode enxergar.
Isso será transformador.
E eles foram a Jerusalém e chegaram de repente entre os outros. O que diz o capítulo? Lucas 24:35:
E eles lhes contaram o que lhes acontecera no caminho,
e como deles foi conhecido no partir do pão.
A cruz em todos os seus aspectos: morte e vida.
Ah, que o Senhor faça deste momento simples, deste momento curto, breve, no partir do pão, um momento em que O vejamos.
Nossos olhos não estão apenas abertos; eles foram abertos. Algo acontece conosco. Peçam ao Senhor que, depois desta semana, seja assim: olhos abertos.
Ao nos aproximarmos da mesa do Senhor, a convite Dele, o apóstolo Paulo nos lembra de que há apenas três palavras que retratam o que estamos fazendo.
Não é um ritual. Não é uma cerimônia vazia. Mas essas três palavras apontam em três direções.
Em primeiro lugar, ele diz que é um memorial Dele — Daquele que ressuscitou e foi exaltado, e de tudo pelo que Ele passou. Voltamos nossa atenção nessa direção: ali está Ele.
A segunda palavra: isto é uma proclamação. Nós nos voltamos nesta direção e, ao expressarmos isso, anunciamos a todos os principados e potestades, a todos os que observam, o valor da morte e da ressurreição do Senhor Jesus.
A terceira palavra nos volta para esta direção. Ele diz: “Examinamos a nós mesmos”. E leio apenas estes versículos, de 1 Coríntios 11:23-32:
O Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão;
e, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei;
isto é o Meu corpo, que é partido por vós;
fazei isto em memória de Mim.
Semelhantemente também tomou o cálice, depois da ceia, dizendo:
Este cálice é a nova aliança no Meu sangue;
fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de Mim.
Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice,
anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha.
Portanto, qualquer que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente,
será culpado do corpo e do sangue do Senhor.
Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice.
Porque o que come e bebe, come e bebe juízo para si,
se não discernir o corpo.
Por causa disto, há entre vós muitos fracos e doentes,
e não poucos dormem.
Mas, se nos discerníssemos a nós mesmos, não seríamos julgados.
Mas, quando somos julgados, somos disciplinados pelo Senhor,
para não sermos condenados com o mundo.
Este é o convite que nos é feito. É este o nosso entendimento neste momento em que estamos reunidos, nesta tarde.