Estamos na tarde de domingo, 9 de novembro de 1975, em Richmond, Virgínia. A ministração está sendo realizada pelo irmão Stephen Kong.
Gostaria de ler nesta tarde uma passagem muito, muito conhecida: Marcos 14, o Evangelho segundo Marcos, capítulo 14. Leremos os primeiros nove versículos.
Marcos 14:1-9
Ora, dali a dois dias era a festa da Páscoa e dos Pães Asmos; e os principais sacerdotes e os escribas procuravam como O prenderiam com astúcia e O matariam.
Pois diziam: Não durante a festa, para que não haja tumulto entre o povo.
E, estando Ele em Betânia, em casa de Simão, o leproso, reclinado à mesa, veio uma mulher que trazia um vaso de alabastro com unguento de nardo puro, muito precioso; e, quebrando o vaso, derramou-o sobre a cabeça Dele.
Mas alguns se indignaram entre si, dizendo: Para que se fez este desperdício de unguento?
Pois este unguento poderia ter sido vendido por mais de trezentos xelins, e o dinheiro dado aos pobres. E murmuravam contra ela.
Mas Jesus disse: Deixai-a; por que a perturbais? Ela praticou uma boa obra para Comigo.
Porque sempre tendes os pobres convosco e, quando quiserdes, podeis fazer-lhes bem; mas a Mim nem sempre tendes.
Ela fez o que pôde; antecipou-se a ungir o Meu corpo para a sepultura.
E em verdade vos digo: Onde quer que o evangelho seja pregado em todo o mundo, também o que esta mulher fez será contado em memória dela.
Voltemo-nos ao Senhor em oração.
Nosso Pai, nós Te agradecemos por Tua preciosa Palavra. Pedimos que o Teu Espírito Santo sopre sobre a Tua Palavra e a torne nova e viva para nós nesta tarde. Pedimos a Ti, Senhor, que nos dês o espírito de sabedoria e de revelação, e que abras os olhos do nosso coração, para que possamos conhecer, para que possamos ver a Tua Palavra e, por meio da Tua Palavra, ver a Ti mesmo.
Oh, nós desejamos ver a Ti, Senhor. Desejamos ver a Ti como Teu Pai Te vê. Entregamos este tempo em Tuas mãos para que o abençoes. Pedimos em Teu precioso nome. Amém.
A ocasião foi esta: nosso Senhor Jesus estava à mesa e, de repente, uma mulher entrou com um vaso de alabastro contendo uma libra de nardo puro. Ela quebrou o vaso e derramou o unguento sobre a cabeça de nosso Senhor Jesus.
Por ela ter feito isso, alguns dos discípulos começaram a murmurar. Um deles se tornou seu porta-voz. Os outros Evangelhos nos dizem que era Judas Iscariotes. Ele falou. Simplesmente não conseguiu mais se conter. Estava muito irado com o que aquela mulher havia feito. Disse: “Por que este desperdício?”
Sabem, essa não é apenas uma pergunta feita por Judas Iscariotes dois mil anos atrás. É uma pergunta que tem sido feita ao longo dos séculos. É o tipo de pergunta que fazemos todos os dias.
Todos os dias fazemos esta pergunta: isso é um desperdício ou tem valor? Se consideramos algo um desperdício, não o fazemos. Se consideramos que vale a pena, certamente o fazemos.
Nossas ações, nossa vida, são governadas pelo nosso senso de desperdício — ou, de maneira positiva, pelo nosso senso de valor. Vejam, irmãos e irmãs, todos nós somos economistas natos. Temos dentro de nós um senso inato de desperdício e de valor, e o exercitamos o tempo todo.
Às vezes olhamos para as pessoas e dizemos: “Vejam como desperdiçam seu dinheiro, como desperdiçam seu tempo, como desperdiçam sua energia”, com algo que consideramos sem valor. Por que fazem isso?
A razão é que elas pensam que, ao gastar e entregar todas essas coisas, obtêm algum prazer e alguma satisfação. Se não houvesse absolutamente nenhum prazer nem satisfação, não desperdiçariam seu tempo, seu dinheiro e sua energia dessa maneira.
Tudo o que fazemos, tudo aquilo de que abrimos mão, é governado por esse senso de desperdício ou de valor.
É claro que, um dia, todos despertaremos para aquele padrão definitivo de verdadeiro valor. Hoje, cada um de nós tem seu próprio padrão de desperdício ou de valor, e é por isso que suas ações e minhas ações são diferentes. É por isso que aquilo de que você abre mão e aquilo de que eu abro mão são diferentes: somos governados por diferentes noções de desperdício ou de valor.
Mas um dia, quando estivermos diante do tribunal de Cristo, seremos avaliados por um padrão absoluto de valor. Quando esse dia chegar, poderá trazer uma grande surpresa.
Sabem, nosso Senhor Jesus estava prestes a ser crucificado. Mas, antes que isso acontecesse, alguns de Seus amigos O receberam na casa de Simão, o leproso.
Naturalmente, aquela casa ficava em Betânia, aquele pequeno povoado nos arredores da capital, Jerusalém. Não sabemos quem era esse Simão. Muito provavelmente, ele havia sido leproso. Nosso Senhor Jesus curou vários leprosos durante Sua vida, e é bem provável que Simão fosse um dos leprosos curados pelo Senhor. Caso contrário, ninguém ousaria entrar em sua casa e comer ali.
Então, Simão, o leproso, por gratidão ao Senhor, se dispôs a abrir sua casa para receber nosso Senhor Jesus. Essa foi sua expressão de apreço por Cristo.
Naquela noite, prepararam uma ceia para o Senhor. Muito provavelmente, Marta foi quem preparou o jantar. Lembramos que Marta, Maria e Lázaro eram órfãos. Era um lar de órfãos. Eles não tinham muito; eram pobres. Contudo, tinham tanto amor pelo Senhor que Marta estava disposta a se sacrificar e preparar um bom jantar para Ele.
Provavelmente, algumas outras pessoas ajudaram, porque o Senhor estava ali, os discípulos estavam ali e provavelmente havia outros convidados. Uma ceia dessas provavelmente estava além dos recursos de Marta, mas ela preparou o jantar, como de costume. Essa era sua maneira de expressar seu amor e sua gratidão ao Senhor.
Lázaro estava presente, sentado com o Senhor. Essa era sua maneira de expressar amor ao Senhor. Ele não sabia o que fazer. Não podia fazer nada, mas ao menos podia honrar o Senhor com sua presença. Queria honrar o Senhor estando presente, por isso estava ali.
Sem dúvida, enquanto Marta preparava o jantar, Maria deve ter ajudado. Caso contrário, Marta teria reclamado novamente. Mas não houve reclamação. Assim, vocês veem que os amigos de nosso Senhor Jesus — todos eles — estavam fazendo o melhor que podiam simplesmente para receber o Senhor.
Todos estavam fazendo alguma coisa para o Senhor: abrindo a casa, preparando o jantar ou estando presentes para fazer companhia a nosso Senhor. Todos estavam fazendo alguma coisa para o Senhor, e todos pareciam felizes com isso.
Sabem, se você pode fazer alguma coisa para o Senhor, certamente fica feliz com isso. Você encontra alguma maneira, ainda que muito pequena, de expressar seu amor, sua gratidão e seu reconhecimento ao Senhor.
Mas havia uma pessoa que não estava feliz, e essa pessoa era Maria. Assim como os outros, Maria deve ter feito sua parte para que aquela recepção ao Senhor fosse bem-sucedida. Mas, depois de fazer tudo o que podia — ajudando sua irmã e assim por diante —, ela não estava satisfeita.
O valor que ela atribuía ao Senhor era tão elevado que não podia se satisfazer apenas fazendo o que era comum. Ela estava inquieta. Queria fazer mais para o Senhor. Mas o que poderia fazer? Não havia nada que pudesse fazer.
Então, de repente, ela se lembrou de que tinha uma libra de nardo puro, muito precioso. Como havia conseguido aquela libra de nardo puro?
Aquela libra de nardo puro valia trezentos denários. Naquela época, o salário diário de um homem era um denário, e devemos lembrar que as mulheres recebiam ainda menos. Para ela juntar trezentos denários — ou, numa tradução moderna, trezentos xelins — e comprar uma libra de nardo puro, não sabemos quantos dias passou economizando aquele dinheiro.
Quantos sacrifícios ela deve ter feito! De quantas coisas deve ter aberto mão para reunir aquela quantia de dinheiro apenas para comprar uma libra de nardo puro! Ela deve ter dado muito valor àquele nardo puro. Estava disposta a abrir mão de tudo apenas para obtê-lo.
Depois de consegui-lo, colocou-o num vaso de alabastro e o guardou. Não sabemos por que fez isso. Não sabemos o verdadeiro motivo. Muito provavelmente, ela o guardou para o dia de seu casamento.
Toda mulher espera pelo dia em que vai se casar. Depois que vim para este país, ouvi dizer que as moças daqui costumavam preparar um baú de enxoval, colocando coisas nele na esperança de que, um dia, quando chegasse o casamento, pudessem usá-las. Pergunto-me se esse era o caso.
Muito provavelmente, Maria guardava aquele vaso de alabastro com uma libra de nardo puro para aquele dia. Era algo que havia reservado para usar em si mesma naquele momento tão especial.
Sem dúvida, por serem uma família pobre, deve ter havido ocasiões em que mal tinham o que comer. Mas nunca passou pela cabeça de Maria vender aquela libra de nardo puro para atender a uma emergência. Não. Aquela libra de nardo puro não devia ser tocada. Estava reservada exclusivamente para o dia dela.
Por isso, ela nem pensava naquilo. Você se lembra e, ao mesmo tempo, não se lembra, porque, em sua mente, aquilo já tem um destino certo. Estava guardado em algum lugar de sua mente.
Ela não sabia o que mais poderia fazer. Ajudou sua irmã. Fez tudo o que podia, como as outras pessoas, mas ainda estava insatisfeita. Simplesmente não conseguia pensar no que mais poderia fazer para o Senhor.
Então, de repente, aquilo voltou à sua mente: ela tinha aquela libra de nardo puro reservada para si mesma. Oh, como seu coração se alegrou quando lhe veio o pensamento: “Por que não dar aquela libra de nardo puro ao Senhor? Por que não ungi-Lo com o nardo puro?”
Ela não pensou duas vezes. Quem pensa duas vezes não consegue fazer uma coisa dessas. Por quê? Porque, humanamente falando, era um desperdício. Era um desperdício.
Aqui vemos nosso Senhor Jesus sentado à mesa, e Maria entra e derrama o nardo puro sobre Sua cabeça. Qual é o significado disso?
É verdade que, segundo o costume judaico daquela época, quando os convidados chegavam, geralmente lhes lavavam os pés. Mas, além disso, havia o costume de o anfitrião ungir com óleo o convidado de honra.
Nosso Senhor Jesus era o convidado de honra, portanto não seria descabido ungi-Lo com um pouco de óleo. Mas jamais derramariam sobre o convidado de honra uma libra de nardo puro. Você nunca faria isso.
Pelo contrário, você quase poderia estragar tudo, porque, com uma libra de nardo puro escorrendo por todo o Seu corpo, que confusão aquilo deve ter causado!
Não sei por que Maria fez isso. Se Maria tivesse apenas pensado: “Tenho uma libra de nardo puro. Vou compartilhar um pouco com o Senhor, porque O amo tanto”, ela poderia ter aberto o vaso e deixado cair algumas gotas sobre o Senhor.
Os vasos em que as mulheres judias guardavam unguento geralmente tinham um gargalo muito estreito e comprido. Quando eram abertos e inclinados, o unguento saía gota a gota. Ela poderia ter aberto o frasco e colocado algumas gotas sobre o Senhor. Isso teria sido suficiente. Teria honrado o Senhor e teria sido razoável.
Mas ela não fez isso. Entrou, quebrou o vaso de alabastro e deixou que toda aquela libra fosse derramada sobre a cabeça do Senhor. Que confusão!
Sabem, segundo o Antigo Testamento, havia uma ocasião em que se fazia algo assim. Quando o sumo sacerdote era ungido, derramava-se óleo abundantemente sobre sua cabeça.
Não colocavam apenas algumas gotas de óleo sobre a cabeça do sumo sacerdote. Não, derramavam o óleo santo abundantemente sobre sua cabeça, de modo que escorria pela barba e pelas vestes. Chegava até à orla de suas vestes. Vejam quanto óleo deve ter sido derramado.
Essa era a única ocasião em que se fazia algo assim. Então Maria fez isso. Quebrou o vaso de alabastro e derramou aquela libra sobre o Senhor. Que desperdício! Que prodigalidade!
Agora, por que Maria fez uma coisa dessas? Ela fez isso porque foi guiada por seu senso de valor. Depois de fazer tudo o que os outros haviam feito, ainda sentia que o Senhor merecia muito mais.
Sua compreensão do Senhor era extraordinária. Será que ela estava pensando que logo perderia o Senhor?
Sim, o Senhor lhe devolveu seu irmão. O Senhor chamou Lázaro para fora do túmulo e o devolveu a Marta e Maria. Mas, quando o Senhor fez isso, Ele suspirou e chorou.
Será que Maria havia compreendido uma coisa: tudo o que o Senhor havia feito por ela, por seu irmão ou nesta terra, Ele estava, na verdade, fazendo ao dar Sua vida por nós?
O Senhor curou os enfermos. O Senhor trouxe os mortos de volta à vida. O Senhor disse:
Os teus pecados estão perdoados.
Mas, quando o Senhor fazia essas coisas, Ele tinha o Calvário em vista.
É com base no Calvário que Ele pode perdoar nossos pecados. É com base no Calvário que Ele pode chamar os mortos para fora da sepultura. Em outras palavras, em tudo o que fez por nós, Ele deu Sua vida em nosso lugar.
Não se trata apenas de realizar milagres. Trata-se de dar Sua própria vida por nós. Maria compreendeu isso.
Aos discípulos que O seguiram por mais de três anos, o Senhor disse claramente, pelo menos três vezes, conforme registrado nos Evangelhos, que precisava ir a Jerusalém, que seria morto e que, ao terceiro dia, ressuscitaria dentre os mortos.
Mas os discípulos simplesmente não conseguiam compreender. Entre todos os seguidores do Senhor Jesus naquela época, ninguém compreendeu, a não ser Maria.
Maria sabia que o Senhor iria morrer e que a razão de Sua morte era ela e todos nós. Sabia que não teria o Senhor por muito tempo, e precisava fazer alguma coisa. Precisava aproveitar a oportunidade para derramar algo sobre o Senhor e demonstrar seu amor e sua gratidão. Tinha de ser algo extraordinário.
Irmãos e irmãs, creio que, quando lhe veio o pensamento — “Por que não aquela libra de nardo?” —, seu coração se alegrou. Ela pensava que não podia fazer nada, mas ali estava uma libra de nardo.
Foi quase como a viúva de um dos filhos dos profetas que veio a Eliseu e disse:
Somos tão pobres. Teu servo, meu marido, morreu, e os credores estão vindo para levar meus filhos. Não temos nada.
Eliseu disse:
Que tens em casa?
Ela respondeu:
Nada, senão uma botija de azeite.
Maria não tinha nada além daquele vaso de alabastro com uma libra de nardo puro. Precisava derramá-lo sobre o Senhor. Sem pensar duas vezes.
Por quê? Porque ela atribuía um valor tão elevado ao Senhor. Para ela, não era um desperdício. Não era um desperdício. Para ela, valia a pena. Ainda que a fragrância durasse apenas algumas horas durante a ceia e depois desaparecesse, valia a pena. Esse era seu senso de valor.
Queridos irmãos e irmãs, quem é o maior desperdiçador do mundo inteiro, segundo a medida humana? Nosso Senhor Jesus.
Ele, que era igual a Deus, esvaziou-Se. Esvaziou-Se de Sua glória, de Sua honra, de Seu poder, de Sua posição e da adoração que recebia de todos os anjos. Esvaziou-Se de tudo e veio a Se tornar homem — o mais humilde dos homens.
Mesmo como homem, Ele Se humilhou e Se tornou obediente ao Pai até a morte, sim, a morte de cruz. Que desperdício! Que desperdício!
Lembro-me de que, quando era jovem, li um pequeno livro. Não sei se algum de vocês leu esse livro. Ficou esgotado por muito tempo. Era a biografia de um jovem médico, intitulada Por que este desperdício?
Eu não o conhecia, mas conhecia muito bem sua família. Esse jovem médico nasceu e foi criado na Escócia — o dr. Fishbach. Estudou medicina e, logo depois de se formar, teve a oportunidade de se tornar sócio de um médico famoso na Escócia. Seu futuro era promissor.
Mas o Senhor o chamou para a China. Então ele abriu mão de tudo e veio para a China. Quando chegou a Xangai, minha cidade natal, era tempo de guerra. Ficou retido na concessão estrangeira e não podia ir a lugar nenhum. Permaneceu ali por bastante tempo.
Então a diretoria da Missão para o Interior da China decidiu que ele deveria ir para o Turquestão Chinês, para Sinkiang. Sabem, Sinkiang fica no extremo noroeste da China. Ir para Sinkiang era ir para a morte.
Contudo, ele sentiu que era a vontade do Senhor. Não podia sair de onde estava; estava preso ali. Já que decidiram que deveria ir para lá, ele iria.
Precisava atravessar o deserto de Gobi. Atravessou-o num caminhão que ele mesmo projetou, porque era necessário um veículo especialmente adaptado. Era um homem muito inteligente. Dirigiu aquele caminhão especialmente projetado através do deserto de Gobi até chegar ao Turquestão Chinês, hoje chamado Sinkiang.
Mas, assim que chegou, houve uma guerra civil. Naquela época, acho que eu estava no ensino médio. Ainda me lembro daquela guerra. Havia combates, e ele era o único médico em toda aquela província.
Seu hospital estava cheio de soldados feridos e enfermos. Ele era o único médico. Trabalhava dia e noite e descuidou de si mesmo. Por fim, contraiu pneumonia ou algo semelhante e morreu antes de completar um ano ali. Para ser exato, se me lembro corretamente, foram cerca de seis meses.
Foi sepultado em Sinkiang. Quando a notícia chegou à Inglaterra, as pessoas começaram a perguntar: “Por que este desperdício?” Ali estava um jovem bem preparado, com um grande futuro. Se sentia o chamado para ir à China como missionário, tudo bem — mas, se pudesse trabalhar lá por trinta ou quarenta anos, então pareceria valer a pena. Contudo, foi para lá, ficou apenas alguns meses e morreu. Por que este desperdício?
Lembro-me do querido irmão Watchman Nee. Ele era um estudante brilhante na faculdade. Antes de ser salvo, era muito ativo e presidia o corpo estudantil.
O Senhor o salvou e, depois de se formar, ele sentiu o chamado para servir ao Senhor. Então serviu ao Senhor. Em seu zelo inicial, descuidou do corpo e trabalhou muito intensamente.
Na China, era quase desconhecido alguém sem vínculos, sem apoio, que simplesmente confiasse no Senhor e trabalhasse para o Senhor. Ele passou por muitas dificuldades e, depois de alguns anos, estava fisicamente arruinado.
Ele nos contou que, certa vez, estava num barco, voltando de Xangai para sua cidade natal, Foochow. No barco, encontrou um de seus antigos professores. O professor o olhou de cima a baixo, balançou a cabeça e disse: “Que desperdício”.
“Você poderia ser um grande homem. Poderia ser bem-sucedido em qualquer área. E aqui está você — nada, ninguém. Olhe para si mesmo.” Seu professor o repreendeu e o desprezou.
Nosso irmão era um ser humano e ficou profundamente ferido. Mas então o Senhor o consolou, e ele chegou à conclusão: valia a pena. O Senhor é digno.
Agora, irmãos e irmãs, em nossa vida estamos sempre diante desta pergunta: é um desperdício ou vale a pena? Enfrentamos isso todos os dias. Enfrentamos isso a cada passo, em cada acontecimento e em cada ação.
O que é desperdício para nós, e o que tem valor para nós?
Para os discípulos, o ato de Maria parecia um desperdício. Se você considerar toda a questão logicamente, de fato parece um desperdício. Se quiser honrar o Senhor de maneira especial, pode colocar algumas gotas sobre Ele. Essa é a maneira costumeira de fazer as coisas. É algo bonito e louvável. Todos compreenderão.
Mas fazer isso com tamanha prodigalidade — isso é desperdício.
Bem, nosso Senhor Jesus é o maior “desperdício”. Deus amou tanto o mundo que “desperdiçou” Seu Filho conosco. O Filho de Deus nos amou tanto que “desperdiçou” tudo, até Sua vida, conosco. Que desperdício!
Mas nosso Senhor Jesus considerou um desperdício o que fez? Se Ele tivesse considerado isso um desperdício, onde estaríamos?
No que diz respeito a Deus, no que diz respeito a nosso Senhor Jesus, Ele não considera um desperdício o que fez. Considera que vale a pena, porque o valor de uma alma justifica tudo aquilo de que Ele abriu mão e tudo o que fez. Ele derramou Sua vida por todos nós.
A Palavra de Deus nos diz que Ele derramou Seu espírito; derramou Sua alma como água. O unguento é caro e precioso. Não se derrama unguento em abundância. Algumas gotas aqui e ali — isso basta.
Mas a água é barata. Quando nosso Senhor Jesus derramou Sua vida, derramou Sua vida como água. Não hesitou em nada. Derramou-a com toda a liberdade, toda a generosidade e toda a abundância possíveis, porque não considerava Sua vida preciosa para Si mesmo. Por quê? Porque nos considerava tão preciosos.
Maria estava simplesmente seguindo os passos de nosso Senhor. Quando fez aquilo, não estava ponderando. Não estava raciocinando. Não estava tentando calcular se receberia um retorno com juros. Não estava pensando em nada disso.
Quando decidiu fazer aquilo, tudo o que via era o Senhor. Era só o que via: o Senhor, o Senhor, o Senhor. Ele era digno. Sem pensar duas vezes. Era o Senhor.
Esse era seu senso de valor. Queridos irmãos e irmãs, qual é o nosso senso de valor ou de desperdício?
O Senhor disse:
Ela fez o que pôde.
Mas lembrem-se: Maria nunca disse isso.
Todos pensavam que haviam feito o que podiam. Simão, o leproso, pensava que havia feito o que podia: abriu sua casa. Marta pensava que havia feito o que podia: preparou o jantar. Lázaro pensava que havia feito o que podia: estava presente com o Senhor para Lhe fazer companhia.
Provavelmente, as outras pessoas pensavam que haviam feito o que podiam, pois honraram o Senhor com sua presença. Todos pensavam que haviam feito o que podiam e, por isso, estavam satisfeitos. Mas Maria, não.
Maria nunca pensou que havia feito o que podia. Sempre sentia que não havia feito o suficiente. Queridos irmãos e irmãs, isso é amor.
Vocês se lembram de que a Palavra de Deus diz:
A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor de uns para com os outros.
Em outras palavras, se você ama de verdade, sempre tem a sensação de que ainda não é suficiente. Se um dia sentir que é suficiente, o amor morreu.
Queridos irmãos e irmãs, vocês alguma vez sentem que já fizeram o suficiente para o Senhor? Às vezes se acomodam e dizem: “Bem, fiz isto, fiz aquilo para o Senhor, e isso deveria bastar”?
Em certo sentido, sim, vocês podem ter feito muita coisa. Em certo sentido, talvez tenham feito o que outras pessoas não fizeram. Mas, no que diz respeito ao amor, há algo errado.
O amor nunca, nunca tem a sensação de ter feito o suficiente. Você está sempre perguntando: “Há alguma outra coisa que eu possa fazer? Posso fazer mais alguma coisa?” Porque Aquele a Quem amo é tão digno, nunca posso fazer o suficiente para Ele.
Oh, se o Espírito Santo apenas me lembrasse de alguma coisa que posso fazer, que alegria seria! Isso é amor.
Não cabe a nós dizer que fizemos o que podíamos. Cabe ao Senhor dizer isso. Quanto a nós, sempre sentimos que não fizemos o que deveríamos ou o que poderíamos. Esse é o sentimento correto dentro de nós.
Mas, graças a Deus, Ele nos consola e diz: “Você fez o que pôde”. Isso não é consolador?
Para Maria, não era um desperdício. Não era uma extravagância. Ela estava simplesmente fazendo o que sentia que devia fazer, porque tinha o Senhor diante de si.
Mas, para os discípulos, era demais. Não apenas Judas Iscariotes, mas também os outros discípulos murmuraram e ficaram irados com Maria. Será que tinham ciúmes dela? Talvez simplesmente não conseguissem compreender.
“Maria, se você quer fazer alguma coisa, tudo bem, vá em frente e faça. Pode fazer mais do que nós fizemos. Mas não dessa maneira. Não, isso é desperdício. Você pode vender isso por trezentos denários e dar o dinheiro aos pobres. Que valor isso teria! Que retorno isso daria! Você poderia ajudar muitos pobres.”
“Por que derramar isso sobre o Senhor, apenas por algumas horas, e depois acabar? Que benefício isso traz ao Senhor? Não há efeito duradouro. Desaparece. Oh, que desperdício!”
Esse era o senso de desperdício deles. Agora, e quanto ao Senhor? Aqui vem o veredito do Senhor:
Deixai-a; por que a perturbais? Ela praticou uma boa obra para Comigo.
Porque sempre tendes os pobres convosco e, quando quiserdes, podeis fazer-lhes bem; mas a Mim nem sempre tendes.
Esse episódio termina com uma declaração: onde quer que estas boas-novas, onde quer que o Evangelho de Jesus Cristo seja pregado em todo o mundo, o que Maria fez será mencionado em memória dela.
Onde quer que o Evangelho seja pregado, o que Maria fez será mencionado em memória dela. Em outras palavras, o Evangelho e o que Maria fez estão ligados. Você não pode ter o Evangelho sem ouvir o que Maria fez.
Por quê? Em primeiro lugar, o que é o Evangelho? O que são as boas-novas? O Evangelho é que Deus amou tanto o mundo que “desperdiçou” Seu Filho conosco. Esse é o Evangelho.
O Evangelho é que Cristo amou tanto o mundo que Se entregou por nós. Ele literalmente “desperdiçou” a Si mesmo — tudo, até Sua vida. Derramou tudo sobre nós. Esse é o Evangelho.
Quando o Evangelho é pregado, quando as pessoas são tocadas pelo Evangelho, quando as pessoas recebem o Evangelho, qual deveria ser o efeito de um Evangelho assim?
O efeito de um Evangelho assim é este: porque Ele me amou primeiro, não posso deixar de amá-Lo. Porque Ele derramou Sua vida sobre mim, preciso derramar a mim mesmo sobre Ele. Foi isso que Maria fez.
Queridos irmãos e irmãs, se isso não acontece em nossa vida, há algo errado. Nossa recepção do Evangelho é falha. Há algo errado.
Se realmente sabemos o que é o Evangelho, se de fato recebemos o Evangelho de Jesus Cristo, que outra coisa podemos fazer? Podemos apenas fazer algo superficial? Podemos simplesmente fazer o que todos fazem e dizer: “Bem, já fiz. É só isso. Isso deveria bastar”?
Podemos adotar tal atitude? Nunca. Nunca. Somos constrangidos pelo amor de Cristo a sentir que deve haver algo mais.
Como posso derramar a mim mesmo sobre o Senhor? Aquela libra de nardo puro representa, na verdade, Maria. Ela se quebrou, assim como quebrou o vaso de alabastro, e derramou tudo o que era sobre o Senhor. Nada foi retido.
Alguém disse que aquela libra de nardo puro provavelmente era seu dote. Antigamente, no Oriente, nenhum homem se casava com uma mulher sem dote. Uma mulher precisava ter um dote; caso contrário, ninguém se casaria com ela.
Provavelmente, aquela libra de nardo puro era o dote de Maria. Ao entregá-lo ao Senhor, o que isso significava? Significava, por um lado, que ela havia tomado o Senhor como seu Noivo. Abriu mão da esperança de um dia se casar. Abriu mão de sua esperança e abriu mão de tudo, porque havia tomado o Senhor como seu tudo.
Queridos irmãos e irmãs, esse é o sentido. Não que em todos os casos isso tenha de acontecer literalmente, mas o sentido espiritual está presente. Derrame tudo.
Por que o Senhor disse:
Ela praticou uma boa obra.
O que é uma boa obra? Uma boa obra é qualquer coisa feita segundo a vontade de Deus.
Se você faz algo segundo a vontade de Deus, isso é uma boa obra. Maria havia feito o que era a vontade de Deus.
Não foi algo meramente emocional, naquele momento. Não foi algo decidido às pressas ou por impulso, do qual depois se arrependeu. Não. Ela estava fazendo a vontade de Deus. Havia praticado uma boa obra.
Em segundo lugar, o Senhor disse:
Ela fez o que pôde.
O Senhor lhe deu esse reconhecimento.
Por fim, Ele disse:
Ela antecipou-se a ungir o Meu corpo para a sepultura.
Entre todos os seguidores do Senhor Jesus, Maria foi a única que compreendeu que nosso Senhor Jesus morreria.
Ela queria ungir o Senhor antecipadamente para Seu sepultamento. Sabem, depois, após a morte do Senhor, Nicodemos e José de Arimateia — homens ricos — trouxeram muitas especiarias e unguentos para embalsamar o corpo do Senhor. Mas era um corpo morto.
Então, no dia de Sua ressurreição, algumas mulheres trouxeram especiarias e unguentos para ungir o Senhor mais uma vez. Elas não tiveram a oportunidade. O Senhor havia ressuscitado.
Maria foi a única que pôde preparar o Senhor para Sua morte e Seu sepultamento.
O Senhor disse:
Sempre tendes os pobres convosco; mas a Mim nem sempre tendes.
Em certo sentido, o Senhor está sempre conosco, sem dúvida. O Senhor disse:
Estarei convosco até o fim dos tempos.
O Senhor está sempre conosco.
Mas, em outro sentido, segundo nossa percepção e nosso sentimento interior, o Senhor é tão precioso. O Senhor é tão raro. Precisamos aproveitar toda oportunidade para derramar tudo sobre o Senhor.
Sabem, queridos irmãos e irmãs, do ponto de vista humano, Maria desperdiçou aquele nardo puro. Mas, do ponto de vista divino, ela não desperdiçou nada.
Quem realmente desperdiçou? Judas Iscariotes. Em João 17:12, na oração de nosso Senhor, encontramos o Senhor dizendo:
Pai, guardei todos os que Me deste, exceto aquele, o filho da perdição.
A palavra grega traduzida como “perdição” significa desperdício.
Aquele que acusou Maria de desperdiçar era justamente o filho do desperdício.
Agora, lembrem-se: todos os doze discípulos, quando seguiram o Senhor, tiveram de abrir mão de muita coisa. Sem dúvida, Judas Iscariotes teve de abrir mão de muito simplesmente para ser Seu discípulo. Você não pode ser Seu discípulo se não abrir mão de alguma coisa.
Judas realmente abriu mão de alguma coisa. Naquela época, pensava que valia a pena. Mas, depois de seguir o Senhor por mais de três anos, depois de o Senhor derramar graça sobre graça e amor sobre amor sobre ele, até o fim, Judas desperdiçou tudo.
Mesmo na última ceia — na última Páscoa —, o Senhor molhou o pão e o deu a ele, o que, naquela época, era um sinal de honra ao convidado. Mas tudo foi desperdiçado.
Aquilo de que Judas havia aberto mão foi desperdiçado. O que o Senhor havia derramado sobre ele foi desperdiçado. Ele desperdiçou sua vida; desperdiçou tudo. Era o filho do desperdício.
Que contraste! Um dia ficaremos surpresos. O que pensamos ser desperdício pode ter valor; o que pensamos ter valor pode ser desperdício.
Portanto, cabe a nós enxergar o padrão de valor de Deus. Tudo o que é derramado sobre Cristo vale a pena. Tudo o que não é para Cristo, mas para nós mesmos, pode ser um desperdício.
Judas estava disposto a deixar tudo para seguir o Senhor porque pensava que valia a pena. Pensava que, quando o Senhor recebesse o reino, ele se tornaria o ministro das finanças, o secretário do Tesouro. Valeria a pena.
Mas, quando descobriu que isso não estava acontecendo, tentou recuperar seu capital: trinta moedas de prata. Queria recuperar alguma coisa do que havia gasto. Era um economista.
Mas nem as trinta moedas de prata ele conseguiu conservar. Teve de jogá-las fora. Oh, irmãos e irmãs, que lição!
Todo esse episódio demonstra o princípio do desperdício ou do valor. Que o Senhor nos dê uma percepção correta disso. Vamos orar?
Nosso Pai celestial, como Te louvamos e Te agradecemos pelo que registraste em Tua Palavra acerca do que Maria fez. Tu estás nos encorajando a compreender o verdadeiro valor, para que de maneira alguma desperdicemos nossa vida e a nós mesmos com algo que não vale a pena.
Ó Senhor, Tu és o único digno. Ó Senhor, ensina-nos a derramar tudo sobre Ti, porque Tu és digno. Oh, nós Te adoramos, Senhor. Pedimos em Teu precioso nome. Amém.