Queridos irmãos e irmãs, quando Jó foi mergulhado nessa crise espiritual, ele conseguiu permanecer firme espiritualmente e dizer:
Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o Senhor o deu, e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor.
Quando foi provado, ele pôde dizer:
Receberemos o bem de Deus e não receberíamos o mal?
Muito corajoso. Muito vitorioso. Satanás ficou em silêncio. Deus foi honrado.
Naquele momento, quando todas essas coisas lhe sobrevieram de repente, ele conseguiu permanecer firme por Deus. Conseguiu demonstrar um amor desinteressado, um amor puro por Deus.
Sim, isso foi grandioso. Ele conseguiu agir assim por causa de toda a reserva espiritual que havia dentro dele. Sabem, ele não teve tempo para refletir. Tudo aconteceu tão de repente. Ele nem sequer teve tempo para pensar.
Ele reagiu quase automaticamente, espontaneamente. E vocês percebem que essa reação vinha de Deus:
Nu saí e nu tornarei; bendito seja o nome do Senhor.
Por que Jó teve uma reação tão imediata, tão maravilhosa, naquele momento? Isso mostra que havia uma reserva espiritual.
Sabem, quando vocês dizem alguma coisa depois de refletir, isso não necessariamente representa quem vocês são. Mas aquilo que dizem no calor do momento mostra o que vocês realmente são. Isso mostrou que Jó tinha uma reserva espiritual dentro de si.
Ah, mas, queridos irmãos e irmãs, essa reserva não é suficiente. Ele conseguiu resistir aos ataques do inimigo. Conseguiu resistir à investida do adversário. Mas vocês verão que, quando seus três amigos vieram consolá-lo, isso o sondou até o mais profundo do seu ser.
Do capítulo 3 ao capítulo 31 de Jó, temos aquilo que chamamos de sondagem da alma.
Agora, é claro, eu realmente creio que Jó foi uma pessoa real. Creio que seus três amigos foram pessoas reais. Creio que aquilo que está registrado nesses capítulos é verdadeiro. Havia uma discussão em andamento — um debate entre esses amigos. Vocês percebem que a discussão é muito interessante e que o debate é muito acalorado.
Mas, queridos irmãos e irmãs, posso sugerir uma maneira de ler esses capítulos? Lembrem-se: eu realmente creio que esses são registros históricos apresentados em forma poética. Mas são fatos: pessoas reais, discussões reais, debates reais.
Contudo, gostaria de apresentá-los de forma alegórica, ou como uma parábola. Por parábola, não quero dizer que não sejam verdadeiros e reais, pois foi nesse sentido que Jó usou a palavra parábola. Ele prosseguiu com sua parábola, e, ainda assim, ela dizia respeito à sua experiência real.
O que quero dizer é isto: gostaria de apresentar esses capítulos como o retrato de uma alma nua diante de Deus. Ela passa por um período de sondagem.
As palavras de Jó e as palavras de seus três amigos representam aquilo que está acontecendo dentro da alma. A voz de Jó e as vozes de seus três amigos são as vozes de sua alma. Ele meditava consigo mesmo. Havia coisas acontecendo dentro daquela alma. Sua alma, estando nua, era sondada sob a luz de Deus.
Agora, não sei se isso faz sentido para vocês. Para mim, faz.
Uma alma nua diante de Deus — irmãos e irmãs, vocês nunca conhecerão sua alma até que ela seja desnudada diante de Deus. Enquanto vocês têm todos os seus filhos e filhas, todos os seus bens, todas as suas virtudes, todas as suas próprias obras e todo o seu conhecimento, não conseguem penetrar nas profundezas de sua alma e conhecê-la.
É por isso que Deus precisa nos despojar. E, quando estamos nesse estado de nudez, ocorre uma profunda sondagem da alma, e aquilo que somos é revelado.
Acho isso muito difícil. Preciso ir agora ao capítulo 3 de Jó.
Vejam, se vocês quiserem saber exatamente o que está acontecendo, precisam comparar os capítulos 29 e 30 de Jó. No capítulo 29, Jó procura nos contar como vivia nos dias de sua prosperidade, quando o Senhor o guardava — uma vida de esclarecimento, de iluminação, uma vida cheia de boas obras.
E ele pensava que poderia seguir em paz até o fim. Mas havia um temor secreto de que talvez não fosse assim. Vocês entendem?
Porém, quando leem o capítulo 30 de Jó, encontram um quadro inteiramente diferente. Ele se tornou motivo de cantigas para todos. Era escarnecido, desprezado.
Alguém sugeriu que isso é quase um retrato do sofrimento de nosso Senhor. Se vocês compararem o capítulo 30 de Jó com alguns versículos dos Salmos a respeito do Messias, de como o Senhor sofreria, encontrarão paralelos por toda parte.
Aqui vocês encontram uma pessoa despojada de tudo, passando por um período de trevas. Se ao menos Deus permanecesse com ele, se ao menos Deus lhe desse a certeza de que estava com ele, Jó poderia suportar todas essas coisas. Mas ele não consegue encontrar Deus. Não consegue encontrar Deus. Está confuso, perplexo.
Algumas pessoas gostam de chamar isso de noite escura da alma. Ou vocês podem chamar de a obra mais profunda da cruz.
É quando uma pessoa passa por um período assim que começa a conhecer a verdadeira condição de sua alma.
Bem, vamos começar.
Os três amigos vieram vê-lo. Eram seus amigos, seus melhores amigos. Eles o amavam muito. Vieram de longe. Vieram com o propósito de consolá-lo.
Mas, é claro, antes de chegarem ao local, devem ter conversado entre si e chegado a um acordo antes mesmo de chegar.
Quando chegaram e viram Jó sentado no monturo, entre as cinzas, não conseguiram reconhecê-lo. Como aquele príncipe havia caído! Viram que sua agonia era tão grande que não conseguiram abrir a boca. Sentaram-se com ele durante sete dias e sete noites, em silêncio. Vocês podem perceber a grandeza da provação, a profundidade da experiência.
Jó conseguia suportar as investidas do inimigo, mas não conseguia suportar a compaixão de seus amigos. Algo estava acontecendo em sua alma durante todos aqueles dias. Ele não compreendia.
Então, por fim, ele irrompeu em maldições contra o dia de seu nascimento. Seria melhor nem ter vivido. Seria melhor morrer. Há consolo e paz na morte, na sepultura. Por que haveria eu de ver a luz em meio a tudo isso? Qual é o significado de tudo isso? Por que Deus não me permite morrer?
Aquele que dissera tão corajosamente:
Receberemos o bem de Deus e não receberíamos o mal?
Agora dizia: “Eu preferiria morrer. Não quero viver”. Aquilo era demais para ele.
Irmãos e irmãs, há uma contradição? Por que Jó, que conseguia permanecer tão corajosamente diante do inimigo, capitulou diante de seus amigos? É uma contradição?
Sabem, em um momento de crise, podemos reunir toda a nossa reserva espiritual, enfrentar a crise e parecer que a vencemos. Mas, depois disso, começamos a refletir e, à medida que refletimos, surge uma reação.
Muitas vezes, em nossa experiência espiritual, depois de uma grande vitória vem uma queda. Por quê? Porque esgotamos nossa reserva. O período mais difícil e penoso não é o momento da crise; é o período imediatamente após a crise.
À medida que Jó começou a refletir, não conseguia compreender. E, embora não compreendesse, não podia negar a Deus. Ele temia a Deus. Não podia derrubar o axioma fundamental do universo: Deus castiga o mal e recompensa os justos. Não podia derrubar esse axioma e, ainda assim, considerava-se justo. Como poderia conciliar essas coisas?
E, por causa de todos os sofrimentos exteriores e da miséria interior, ele preferia morrer a viver. Dizia: “É melhor morrer”.
Sabem, isso acontece com frequência. Quando entramos em um período de confusão, perturbação e perplexidade, também tendemos a pensar assim: “É melhor morrer do que viver”.
Não reconhecemos o privilégio de viver. Esquecemo-nos de que Deus é o Deus dos vivos, e não o Deus dos mortos. Tendemos a esquecer que a vida tem significado. Por que devemos estar aqui? Por que Deus não tira a nossa vida? Porque Deus tem um propósito a cumprir, a realizar.
E, ainda assim, Deus insiste. Às vezes, quando pensamos em nossos próprios problemas, tornamo-nos tão centrados em nós mesmos que esquecemos o propósito de Deus. Preferiríamos morrer para conseguir algum alívio para nós mesmos. Ah, como caiu um sacerdote tão poderoso!
Agora, esses três, depois de ouvirem Jó amaldiçoar o dia de seu nascimento, começaram a ensinar. Vieram como amigos, como os melhores amigos, mas quase partiram como os piores inimigos.
Antes de entrarmos nos detalhes, permitam-me mencionar um ponto. O princípio, ou a verdade, que os três amigos apresentavam a Jó era simplesmente este: Deus castiga o mal; Deus recompensa o bem.
Essa, portanto, é uma verdade fundamental, firme e imutável. Quando viram os sofrimentos de Jó, não conseguiram compreender, mas tentaram compreender. Dentro de seu entendimento limitado, a explicação era esta: “Você deve ter pecado gravemente em segredo, e foi por isso que foi castigado. Confesse seu pecado a Deus, e virão dias de consolo. Virão de Deus dias de restauração”.
Essa era a única coisa que podiam dizer, e era a única coisa que sabiam. Isso é verdade? Certamente.
Se vocês derrubarem essa verdade, todo o universo se tornará um caos. É claro que Deus é justo. É claro que Deus é o Juiz de toda a terra. Deus castiga os ímpios. É claro que Deus recompensa os justos. Essa é a verdade fundamental do universo. Como vocês poderiam derrubá-la? Se derrubarem essa verdade fundamental, tudo se torna caótico.
Os três amigos se apegavam a essa verdade — uma verdade, mas não toda a verdade. Ela também é universalmente verdadeira, mas sua aplicação precisa ser feita pelo Espírito Santo.
Em outras palavras, em casos individuais pode haver exceções — não no sentido de derrubar essa verdade, mas no sentido de que pode haver outra verdade, uma verdade além dessa verdade fundamental.
Portanto, queridos irmãos e irmãs, isso é algo que precisamos aprender. Às vezes, apegamo-nos a uma verdade e tentamos generalizá-la e aplicá-la a todos. Mas lembrem-se: ela é verdadeira, porém, às vezes, sua aplicação não pode ser generalizada.
Deus pode ter outra verdade para aplicar, em determinado momento, a determinada pessoa, além daquela verdade fundamental. Deus estava tratando com Jó segundo uma verdade mais elevada do que a verdade fundamental. Deus não havia derrubado a verdade fundamental — vocês verão isso depois —, mas estava tratando com ele, naquele momento específico, segundo uma verdade mais elevada.
Até mesmo a verdade acerca da correção, da disciplina, da formação dos filhos, é diferente. Mas, é claro, naquela época eles não sabiam disso. Por isso, os três amigos pensavam que Jó devia ter pecado, e, quanto mais insistiam, mais Jó se rebelava. Ele dizia: “Eu não pequei. Eu era justo”.
O dilema de Jó era este: ele não podia derrubar essa verdade fundamental e, ainda assim, percebia que ela não podia ser aplicada a ele. E não sabia por quê. Foi por isso que surgiu toda a confusão — toda a confusão.
Muito bem, vamos ao assunto.
Aqui vocês encontram uma alma exposta, plenamente exposta: uma alma que era boa; uma alma que entrou no cadinho da provação; uma alma que passou pelo processo da obra mais profunda da cruz, mas uma alma que não compreendia.
Ele não ousava negar a Deus, nem a justiça de Deus, mas não conseguia abrir mão de sua própria justiça.
Então, entra Elifaz.
Sabem, Elifaz representa, exteriormente, o misticismo; interiormente, a emoção.
Elifaz foi o primeiro porta-voz. Era o líder e tomou a palavra para tentar instruir Jó. Todas as suas instruções se baseavam em alguma experiência mística. Se vocês lerem o livro de Jó, perceberão isso.
Ele disse:
Uma palavra se me disse em segredo; e os meus ouvidos perceberam um sussurro dela. Entre pensamentos de visões da noite, quando cai sobre os homens o sono profundo, sobrevieram-me o espanto e o tremor, e todos os meus ossos estremeceram. Então, um espírito passou por diante de mim; fez-me arrepiar os cabelos do corpo. Parou ele, mas não discerni a sua aparência; um vulto estava diante dos meus olhos; houve silêncio, e ouvi uma voz que dizia: Seria, porventura, o mortal mais justo do que Deus? Seria, porventura, o homem mais puro do que o seu Criador? Eis que Ele não confia nos Seus servos; e aos Seus anjos atribui loucura: quanto mais àqueles que habitam em casas de barro, cujo fundamento está no pó, e são esmagados como a traça!
Ele baseava toda a sua instrução em um segredo: “Um espírito apareceu a mim. Fiquei assustado. Então ouvi:
Seria, porventura, o mortal mais justo do que Deus? Seria, porventura, o homem mais puro do que o seu Criador?
Portanto, você deve ter pecado”.
Muito místico, não é? Toda a sua experiência se baseava no misticismo — algo misterioso, um espírito.
Agora, irmãos e irmãs, em um sentido muito amplo, todo cristão é um místico, porque, por místico, quero dizer simplesmente alguém que busca a Deus com o coração e tem uma experiência interior com Deus. Nesse sentido muito geral, todo cristão é um místico, porque precisamos conhecer a Deus interiormente; caso contrário, não O conhecemos.
Mas, sabem, o misticismo é outra coisa. Posso aproveitar esta oportunidade para compartilhar um pouco com vocês sobre esse assunto?
O misticismo, tal como o mundo o conhece hoje, não se restringe ao cristianismo. Mas há algumas coisas que devemos saber a respeito desse misticismo que o mundo conhece hoje.
Primeiro, os místicos acreditam que há uma centelha de vida divina em cada pessoa, e que tudo o que vocês precisam fazer é despertar essa centelha. Isso não é verdade. Não temos vida em nós mesmos. A vida está em Cristo. É somente quando cremos no Senhor Jesus que recebemos vida. Portanto, é aí que o místico começa com uma premissa errada.
Em segundo lugar, os místicos insistem no mérito de seu próprio sofrimento. Pensam que há mérito nele. Em outras palavras, não conseguem se desvencilhar da ideia de fazer penitência, o que é errado.
Sabemos que somos perdoados não por causa de quanto sofremos, mas por causa do sofrimento de Cristo.
Em terceiro lugar, os místicos não veem a diferença entre a alma e o espírito. Para eles, é uma experiência misturada. Muitas vezes, vocês encontram nos escritos dos místicos coisas altamente espirituais, mas misturadas com coisas profundamente próprias da alma.
Quarto: o misticismo tem a tendência de cair no emocionalismo. Os místicos confundem emoção com experiência espiritual.
Não sabemos que espírito apareceu a Elifaz. Não pode ter sido o espírito correto. Vocês dizem: “Mas ele disse as palavras certas”. Sim, mas talvez não fosse o espírito correto. Não sabemos que espírito era aquele.
Ah, provar os espíritos é algo que Deus quer que façamos. Nem todo espírito é bom. Há espíritos bons, há espíritos maus, e vocês precisam discerni-los.
Portanto, exteriormente, podemos dizer que Elifaz representa o misticismo. Quando uma pessoa entra em uma crise, uma crise espiritual, o misticismo tenta explicá-la. O misticismo tenta resolvê-la, dizendo que há mérito no sofrimento, que o próprio castigo é uma purificação.
Sim, às vezes vocês encontram coisas boas no misticismo, porque Elifaz mencionou essa questão da correção: Deus pode estar corrigindo você. Mas, para ele, a correção é mais negativa do que positiva. É mais castigo do que formação de filhos.
Às vezes, vocês encontram pequenas luzes surgindo no misticismo, mas ele não resolve uma crise espiritual.
Ou vocês podem considerar Elifaz como a emoção da alma. Aqui vemos o envolvimento emocional. Ah, as nossas emoções! Quando entramos em algum tipo de crise, nossas emoções começam a se agitar, e ficamos emocionalmente envolvidos.
Começamos tentando justificar a Deus. Nossas emoções parecem se posicionar a favor de Deus e ao lado de Deus:
Seria, porventura, o mortal mais justo do que Deus?
Impossível.
Mas vocês percebem que nossas emoções nunca resolvem nosso problema espiritual.
Ao responder a Elifaz, Jó também disse que era aterrorizado em seus sonhos e visões. Sim, você diz que teve uma experiência mística, na qual se dizia:
Seria, porventura, o mortal mais justo do que Deus?
Mas eu também tenho sonhos e visões assim, e quase fui esmagado. É aterrorizante.
Uma emoção diz: “Deus é justo”. A outra emoção diz: “Mas eu também sou justo”. Como vocês vão conciliar essas duas coisas? Não é possível.
E vocês percebem que, na terceira rodada, Elifaz, vendo que não conseguia subjugar Jó por meio de um apelo emocional — dizendo: “É melhor você se arrepender, e Deus será bom para você” —, finalmente ficou irado e acusou Jó de muitas coisas que não eram verdadeiras.
Não é assim a nossa emoção? Nossa emoção é instável e muda o tempo todo. Em um momento, justificamos a Deus; em outro, tentamos justificar a nós mesmos. Em um momento, tentamos fazer apelos; em outros, ficamos irados. Chegamos até a fazer acusações falsas. Ficamos completamente agitados emocionalmente.
Será que a conversa entre Elifaz e Jó representa a agitação da emoção dentro da alma? Ela não resolve o problema.
Agora, queridos irmãos e irmãs, quando olharem para sua própria experiência, perceberão que, ao entrar em uma crise espiritual, a emoção será a primeira coisa a se agitar.
E vocês perceberão que sua emoção é muito inconstante. Ela muda de uma posição para outra e pode ser muito insensata. Não é racional.
Mas, depois de passarem pela sondagem da emoção de sua alma, vocês saem sem ter realizado nada. A emoção nunca resolve o problema.
O segundo, Bildade, representa, exteriormente, o tradicionalismo; interiormente, a mente da alma.
Pois lemos em Jó 8:8-10:
Porque, eu te peço, pergunta à geração passada; e considera o que seus pais descobriram. Porque nós somos de ontem e nada sabemos; porquanto nossos dias sobre a terra são uma sombra. Porventura, não te ensinarão eles e não te falarão; e do seu coração não proferirão palavras?
Bildade não baseava sua instrução em uma experiência mística. Baseava seu ensino na tradição dos pais. Ele dizia: “Nós não sabemos nada, mas nossos pais investigaram, e certamente a conclusão deles não pode estar errada”.
E qual era a conclusão deles? Deus jamais perverterá Seu juízo. Os ímpios serão castigados, e os bons serão recompensados: a tradição dos pais.
Agora, irmãos e irmãs, a tradição não é inteiramente má. Sabem, às vezes podemos ir aos extremos. O que há de bom na tradição é que ela realmente dá estabilidade à sociedade, não é? Se não há tradição, a sociedade não tem estabilidade.
É claro que o lado ruim é que a tradição impede o progresso. Ela pode fortalecer, mas também pode se tornar uma prisão.
Não devemos descartar nossas tradições. Há tradições cristãs que precisamos conservar.
E essa é exatamente a palavra usada por Paulo em 1 Coríntios 11:2. Paulo usou essa mesma palavra, tradição. Ele elogiou os irmãos de Corinto porque conservavam as tradições — as instruções.
Há tradições que vêm do Senhor, transmitidas a nós pelos apóstolos, que devemos conservar. Por exemplo, a mesa do Senhor.
Quando estive na Nova Zelândia, sabem, os santos de lá eram tão livres no Senhor e queriam estar tão livres de toda prisão que essa questão da mesa do Senhor se tornou um problema.
Todos os domingos, eles preparavam a mesa do Senhor, mas a colocavam em um canto. Por quê? Porque nunca sabiam se partiriam o pão ou não. Se o Espírito os conduzisse assim, partiriam o pão. Caso contrário, simplesmente o deixariam sem partir.
E o motivo era que alguns jovens pensavam: “Não devemos conservar a tradição. Portanto, não devemos ter a mesa do Senhor todos os domingos — somente conforme o Senhor nos conduzir”. Isso é espiritual?
Essa é uma das tradições que devemos conservar. A tradição não é inteiramente má se vem de Deus.
E, em 2 Tessalonicenses 2:15, vocês encontram a mesma coisa. Paulo disse:
Retende as tradições.
São coisas que nos foram transmitidas da parte de Deus por meio dos apóstolos. São coisas que precisamos conservar; é claro, conservando-as em espírito, e não apenas na forma. Isso é importante.
Mas é da tradição dos pais que precisamos ser libertos. Foi à tradição dos pais que nosso Senhor Jesus Se opôs. Por quê? Porque eles se apegavam à tradição dos pais a tal ponto que transgrediam a lei de Deus. Isso se torna uma prisão.
Irmãos e irmãs, nunca se deixem aprisionar pelas tradições dos pais. Mas temos uma obrigação para com a tradição do Senhor.
Bem, Bildade baseava todo o seu ensino na tradição, e era a tradição dos pais. Mas Jó não se considerava obrigado a seguir essa tradição, porque percebia que havia situações — especialmente em seu próprio caso — às quais aquele ensino tradicional não se aplicava.
Bem, interiormente, Bildade representa a mente da alma. Quando entramos em uma crise, nossa mente começa a trabalhar. Nossa mente começa a buscar, a buscar uma resposta.
Ah, irmãos e irmãs, seja a mente representada por Bildade, seja a mente representada por Jó — a mente influenciada pelas tradições dos pais ou a mente livre para pensar —, vocês percebem que nenhuma delas resolve um problema espiritual.
Não pensem que, por terem uma mente livre da tradição, encontrarão uma solução. Não encontrarão. Nossa mente é obscura. Nossa luz é trevas. É somente na Sua luz que vemos a luz.
Por mais que busquem, vocês não encontrarão Deus. Isso apenas os confundirá. A mente não ajuda.
E então a terceira pessoa, Zofar, representa, exteriormente, o dogmatismo; interiormente, a vontade da alma.
Sabem, há uma diferença entre doutrina e dogma. Às vezes, devemos ter um pouco de cuidado com o uso das palavras. Às vezes, dizemos: “Não queremos doutrina alguma”. Vocês precisam ter doutrina.
Se não têm doutrina, não têm verdade. Não têm fundamento para a experiência espiritual. Doutrina é ensino. Doutrina é verdade. A doutrina do Novo Testamento é o fundamento de nossa fé. Como vocês podem prescindir da doutrina? Não podem.
Sim, a doutrina, por si só, não é suficiente. A experiência precisa acompanhar a doutrina. Mas vocês não podem dizer: “Não quero doutrina”. Se não querem doutrina, não têm experiência, porque tudo se baseia na doutrina, na verdade.
Mas dogma é diferente. Dogma é a afirmação arrogante de determinado ensino, imposto como se fosse um fato absoluto. Isso é dogma. Não devemos ser dogmáticos.
Mas certamente devemos conhecer a verdade, e a verdade nos libertará. A aplicação da verdade é flexível, estando nas mãos do Espírito Santo. Mas o dogma está nas mãos do homem, de uma instituição humana. É fixo e inflexível.
Assim, aqui vocês encontram Zofar vindo com o dogma: “Deus castiga os ímpios. Deus recompensa os bons. Portanto, você deve ter pecado”.
Mas, quanto mais vocês tentam forçar uma pessoa por meio do dogma, mais essa pessoa se rebela. É uma disputa de vontades: a vontade de Zofar contra a vontade de Jó, e ambos fincam os pés como se fossem de ferro. Nenhum dos dois cede.
Isso representa os dois lados de nossa vontade. Às vezes, digo: “Bem, deixe-me crer”. Mas essa mesma vontade volta a se rebelar: “Não posso. Mas eu sou justo. Não posso”.
Vejam, é o conflito da vontade dentro da pessoa.
Assim, aqui vocês têm o quadro. Nesses capítulos, encontram uma sondagem da alma. Essa alma, que está nua diante de Deus, passa por essas sondagens no âmbito da emoção, no âmbito da mente e no âmbito da vontade. Cada área de sua alma está sendo sondada.
Há luta e esforço, mas ele não chega a nenhuma conclusão. Não resolve o problema.
Contudo, todo esse processo não é um desperdício. Por quê? Porque, no processo de sondagem da alma, às vezes vocês encontram lampejos de luz divina irrompendo na alma.
Ah, é muito interessante. Leiam esses capítulos e procurem identificar esses sinais da luz divina penetrando na alma obscurecida. Por exemplo, quando Jó não conseguia convencer seus amigos e eles não acreditavam nele, Jó disse:
Mas a minha testemunha está no céu.
Essa é a única esperança.
E então, quando Jó tentou se defender, disse:
Ainda que Ele me mate, esperarei por Ele.
E irrompeu com estas palavras:
Eu sei que o meu Redentor vive; e que, por fim, Se levantará sobre a terra.
Vocês percebem que, de tempos em tempos, essas luzes irrompem na alma obscurecida. Mas elas vêm e vão. No que diz respeito à alma, depois da profunda sondagem, vocês percebem que não há nada — nada ali que explique a crise, nada ali que faça a crise chegar ao fim.
Queridos irmãos e irmãs, esse processo é necessário. Quando passam por uma crise espiritual, invariavelmente vocês perceberão que haverá sondagens em sua alma.
Isso não é inteiramente sem proveito. Mostra-nos a incapacidade da alma de resolver problemas espirituais. Se há uma solução, ela precisa vir de outro lugar.
E essa é a segunda parte: a sondagem da alma.
Creio que abordamos muita coisa nesta manhã, mas penso que isso é tudo o que podemos dizer por enquanto. E realmente espero que, ao lerem esses capítulos, vocês tenham essas coisas em mente e vejam se elas os ajudam a compreender.