Richmond, Virgínia, 1974
Ministração por meio do irmão Stephen Kaung
Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em ordem as coisas que ainda faltavam e, de cidade em cidade, constituísses presbíteros, como te ordenei;
se alguém é irrepreensível, marido de uma só mulher, tendo filhos crentes, que não sejam acusados de dissolução, nem sejam insubordinados.
Porque é necessário que o bispo seja irrepreensível, como despenseiro de Deus; não obstinado, não irascível, não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância;
mas hospitaleiro, amante do bem, sóbrio, justo, santo, com domínio de si;
apegado à palavra fiel, que é segundo o ensino, para que seja capaz tanto de exortar na sã doutrina como de convencer os contradizentes.
Porque há muitos insubordinados, faladores vãos e enganadores, especialmente os da circuncisão,
aos quais é necessário tapar a boca; homens que transtornam casas inteiras, ensinando o que não devem, por torpe ganância.
Ontem à noite tivemos comunhão sobre a pessoa de Tito, sobre esse homem. Tito era um dos companheiros de Paulo e um cooperador. Embora fosse relativamente jovem, era um jovem cativante, porque Deus havia realizado uma obra tão grande em sua vida.
Parece que Paulo sempre podia enviar Tito às situações mais difíceis. Por isso, mencionamos ontem à noite como precisamos de pessoas como Tito hoje. Que Deus levante pessoas em quem Ele tenha operado profundamente, para que possa enviá-las a diferentes situações difíceis a fim de ajudar.
Agora, nesta manhã, gostaríamos de entrar nesta carta a Tito. Penso que, antes de tudo, gostaríamos de conhecer um pouco essas igrejas em Creta.
Vocês sabem, Creta é uma das maiores ilhas do mar Mediterrâneo. Mas, durante as viagens missionárias de Paulo, parece que ele nunca havia passado por aquela ilha.
Somente quando ele foi levado a Roma como prisioneiro é que encontramos seu navio fazendo escala naquela ilha. Em Atos 27, encontramos esse relato.
E ali o centurião achou um navio de Alexandria que navegava para a Itália e nos fez embarcar nele.
E, navegando vagarosamente muitos dias, e chegando com dificuldade à altura de Cnido, não nos permitindo o vento prosseguir, navegamos ao abrigo de Creta, à altura de Salmona;
e, costeando-a com dificuldade, chegamos a um lugar chamado Bons Portos, perto do qual estava a cidade de Laseia.
E, tendo passado muito tempo, e sendo já perigosa a navegação, pois também o jejum já havia passado, Paulo os advertia,
dizendo-lhes: Senhores, vejo que a viagem será com avaria e muita perda, não somente da carga e do navio, mas também das nossas vidas.
Mas o centurião dava mais crédito ao piloto e ao dono do navio do que às coisas que Paulo dizia.
E, como o porto não era próprio para passar o inverno, a maior parte aconselhou que partissem dali, para ver se de algum modo poderiam chegar a Fênix e ali passar o inverno; um porto de Creta que olha para o nordeste e para o sudeste.
Assim, vemos que, quando Paulo estava sendo levado como prisioneiro a Roma, à Itália, o navio deles contornou a ilha de Creta e chegou a fazer escala no porto de Bons Portos.
Mas não há registro de que Paulo tenha recebido permissão para visitar alguns cristãos naquela ilha. Há apenas o registro de que seu navio fez escala ali. Vocês sabem, embora Paulo fosse prisioneiro, ele desfrutava de bastante liberdade.
Não temos registro de que alguns cristãos tenham ouvido que Paulo estava naquela ilha e tenham vindo visitá-lo. Não há menção de igreja alguma, nem de cristão algum naquela ilha. Paulo passou por ela a caminho de Roma.
Depois que Paulo foi libertado de sua primeira prisão em Roma, cremos que ele visitou aquela ilha. E, quando visitou a ilha de Creta, encontrou ali várias igrejas.
Agora, irmãos e irmãs, quando vocês leem a carta a Tito, podem ter a impressão de que essas igrejas em Creta eram igrejas novas. Em outras palavras, recém-nascidas, porque certamente a condição dessas igrejas parecia ser a de quem ainda estava na infância.
Mas, na verdade, essas igrejas não foram fundadas pelo ministério do apóstolo. O apóstolo visitou a ilha e descobriu que já havia igrejas em várias cidades.
E como surgiram essas igrejas? Elas tinham uma longa história. Sua origem remontava ao dia de Pentecostes. Porque, se vocês lerem Atos 2, encontrarão isto.
E todos estavam atônitos e se maravilhavam, dizendo: Eis que não são galileus todos estes que falam?
Como, pois, os ouvimos, cada um de nós, em nossa própria língua em que nascemos?
Partos, medos e elamitas, e os que habitam na Mesopotâmia, na Judeia e na Capadócia, no Ponto e na Ásia,
na Frígia e na Panfília, no Egito e nas regiões da Líbia próximas de Cirene, e os visitantes de Roma, tanto judeus como prosélitos,
cretenses e árabes, nós os ouvimos falar em nossas línguas as grandezas de Deus.
Portanto, no dia de Pentecostes, vemos que havia cretenses ali. Havia pessoas que tinham vindo da ilha de Creta, judeus e prosélitos. Eles vieram a Jerusalém para adorar a Deus durante a festa.
Permaneceram ali e, no dia de Pentecostes, ouviram o evangelho. Sem dúvida, alguns daqueles cretenses se converteram. Naquela ocasião, arrependeram-se e receberam a promessa do Pai.
Depois de crerem no Senhor Jesus, provavelmente ficaram ali por mais tempo para estar com os crentes. Então, depois de algum tempo, Deus enviou perseguição e os dispersou por outras regiões.
O resultado deve ter sido que alguns daqueles crentes cretenses voltaram para sua ilha. Foi por meio de seu testemunho que igrejas foram estabelecidas em várias cidades daquela ilha, Creta.
Assim, quando Paulo foi àquela ilha, encontrou igrejas ali. Mas o estranho era isto: por que, quando o navio de Paulo fez escala naquela ilha a caminho de Roma, ele não encontrou nenhum cristão, nenhum crente que viesse visitá-lo?
Provavelmente diríamos que foi porque o navio de Paulo chegou inesperadamente. Vocês sabem, naqueles dias não havia horários definidos. Nunca se sabia quando um navio chegaria ao porto. Não era como hoje, quando se pode saber, mais ou menos, quando os navios chegarão. Naqueles dias, nunca havia certeza.
Quando Paulo foi levado como prisioneiro, o centurião teve de encontrar navios que seguissem na direção de Roma; por isso, iam mudando de navio ao longo do caminho. Teria sido muito difícil para os crentes da ilha de Creta saber que Paulo estava ali e ir visitá-lo.
Provavelmente isso é verdade. Mas, embora as viagens fossem tão incertas naquela época, de algum modo as notícias circulavam. Antes mesmo de Paulo chegar a Roma, os crentes de Roma ficaram sabendo e viajaram uma grande distância para encontrá-lo. Portanto, ainda era possível.
Por mais incerta que fosse a comunicação entre os crentes, havia algo que o mundo não compreendia. Contudo, isso não aconteceu ali. De algum modo, aqueles crentes que foram salvos no dia de Pentecostes e voltaram, e que Deus usou para levantar igrejas na ilha, ficaram isolados dos demais cristãos daquela época.
Geograficamente, sim, estavam isolados porque viviam numa ilha. Mas isso não deveria tê-los isolado completamente. Vocês sabem, onde quer que o povo de Deus esteja, existe uma forma peculiar de comunicação.
Onde quer que o povo de Deus esteja espalhado pela terra, é da vontade de Deus que seus membros tenham comunhão uns com os outros. Por meio dessa forma peculiar de comunicação e comunhão, vemos que eles ajudam uns aos outros no crescimento espiritual.
Isso não é verdade apenas para os indivíduos; também é verdade entre as igrejas. É verdade que cada assembleia local é independente — isto é, dependente do Senhor — e não deve ser governada por nenhuma outra assembleia local. Isso é verdade.
E, no entanto, na Bíblia, encontramos essas igrejas locais espalhadas pela Judeia, Macedônia e Ásia. Há uma maneira peculiar pela qual Deus as reúne, e existe comunhão até mesmo entre as igrejas — não de modo governamental ou administrativo, mas numa comunhão espiritual.
Há comunhão em Cristo Jesus, não apenas entre indivíduos, mas também entre igrejas. E é assim que as igrejas crescem — crescem de maneira adequada e saudável.
Mas essas igrejas na ilha de Creta pareciam estar completamente isoladas. Já existiam havia mais de trinta anos, desde o dia de Pentecostes até aquela ocasião.
Contudo, por não terem comunhão com igrejas de outros lugares, vemos que, depois de trinta anos, ainda estavam na infância — igrejas antigas, bebês velhos. É isso que encontramos ali.
Normalmente, depois de alguns anos, encontramos nas Escrituras a afirmação de que, tendo passado alguns anos, vocês já não deveriam ser crianças. E, depois de trinta e tantos anos, certamente essas igrejas deveriam estar bem estabelecidas. Mas não, esse não era o caso.
Quando Paulo as encontrou, viu que eram uma verdadeira confusão. Depois de mais de trinta anos, ainda estavam na infância. Provavelmente essa era a razão pela qual não procuraram Paulo, e Paulo não conseguiu encontrá-las: não havia vitalidade. Viviam isoladas.
Queridos irmãos e irmãs, penso que há uma lição para nós. Nós, cristãos, não podemos permanecer sozinhos. Se nos isolarmos dos outros crentes, por mais que busquemos o Senhor, nosso crescimento ficará atrofiado. É muito fácil nos desviarmos do caminho.
Se isso é verdade para os crentes individualmente, também é verdade para o crescimento de uma igreja local. É necessário haver um fluir espiritual conjunto, um intercâmbio espiritual, uma comunhão e uma comunicação espirituais.
Não que uma governe a outra, mas, à medida que fluímos juntos, aprendemos muito e crescemos. Essa provavelmente era a razão do crescimento atrasado dessas igrejas.
Assim, Paulo chegou a Creta e descobriu que as igrejas ali eram uma confusão. Deus colocou em seu coração não governá-las, mas ajudá-las. Porém, o tempo de Paulo era muito limitado. Ele tinha muitos outros lugares aonde ir.
Ele começou a ajudá-las. Começou a pôr as coisas em ordem, mas não conseguiu terminar o trabalho. Havia coisas demais que precisavam ser colocadas em ordem. Por isso, teve de seguir viagem, deixando para trás seu companheiro de confiança, Tito, para concluir o que ainda estava por fazer.
Qual era a situação das igrejas em Creta? Agora, lembrem-se: em Creta havia muitas igrejas, não apenas uma. Por quê? Porque Creta é uma ilha, uma ilha grande, e nessa grande ilha há muitas cidades. Essa é a razão pela qual Paulo disse a Tito que constituísse presbíteros em cada cidade.
Havia várias igrejas na ilha de Creta. A situação das igrejas em Creta pode ser resumida em dois pontos.
O primeiro é a desordem, ou a ausência de ordem. O segundo é a ausência de boas obras — ou, se me permitem usar essa palavra, “des-graça”: falta de graça. E, quando falta graça, faltam boas obras. Provavelmente explicaremos isso esta noite.
Agora, nesta manhã, gostaríamos de ver como Paulo ajudou numa situação assim. Nas igrejas da ilha de Creta, não havia ordem alguma — havia desordem por toda parte.
A primeira coisa que Paulo sentiu que precisava fazer era pôr a casa em ordem. Se a casa não estiver em ordem, se não houver ordem, a casa não poderá ser estabelecida. Tudo o que vocês fizerem naquela casa simplesmente se perderá. Ela nunca será firmada.
Portanto, a primeira coisa que Paulo precisava fazer era pôr a casa em ordem. Como isso é importante.
Vocês sabem, no livro de Reis, Isaías foi enviado por Deus a Ezequias e disse:
Põe em ordem a tua casa.
Até mesmo em Apocalipse 2 e 3, o Senhor estava, na verdade, procurando pôr Sua casa em ordem nas sete igrejas.
Quando olhamos para essas igrejas na ilha de Creta, vemos que não havia ordem alguma. Tudo estava em completa desordem.
Em outras palavras, era quase como a situação no final do livro de Juízes. O comentário do Espírito Santo é:
Cada um fazia o que era reto aos seus olhos.
Isso acontecia porque não havia rei em Israel.
Vemos que as igrejas ali eram uma verdadeira confusão. As pessoas não estavam unidas; estavam dispersas. Cada uma vivia por si. Havia plena liberdade, sim, mas estavam abertas a tudo e a qualquer coisa.
Essa é a razão pela qual tinham tantos mestres insubordinados: estavam abertas a qualquer coisa. Em certo sentido, eram mais democráticas, mas não havia ordem nem unidade. Como uma igreja poderia crescer dessa maneira?
Irmãos e irmãs, a igreja não é uma organização; é um organismo. Se tentarmos organizar as coisas para fazer uma igreja, o que resulta dessa organização não é uma ecclesia; é uma instituição.
Não é um corpo, um corpo vivo. É algo morto. Se a igreja é um corpo, dentro desse corpo há uma ordem.
Se não houver ordem no corpo, ele nunca poderá funcionar. Se houver alguma desordem no corpo, vocês estarão doentes. O que é doença? Doença é quando algum membro do corpo está fora de ordem.
Quando há desordem no corpo, quando, digamos, o sódio e o potássio estão em desequilíbrio, de algum modo há desordem no corpo, e vocês adoecem. Mas, quando o corpo realmente vive segundo a ordem de sua vida, ele pode funcionar, é saudável e cresce.
Assim também é com a igreja. A igreja é um organismo, não uma organização. Não devemos simplesmente sair por aí e tentar organizar as coisas para fazê-la funcionar. Não.
Contudo, quando o povo de Deus se reúne e começa a servir ao Senhor em conjunto, uma ordem divina surge naturalmente. Primeiro, precisamos nos apegar à Cabeça.
Se não nos apegarmos à Cabeça, como poderemos ser unidos e crescer? Em outras palavras, cada um deve colocar-se sob o encabeçamento de Cristo.
Quando nos colocamos sob a autoridade de Cristo, há ordem. Cristo é a Cabeça, e nós somos o corpo. Essa é a ordem. Se essa ordem não for mantida, tudo será uma confusão.
Depois de nos apegarmos à Cabeça, vemos que todos os membros são ajustados e devidamente unidos. É isso que a Escritura diz:
Sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo.
Se tememos a Cristo, se reverenciamos a Cristo, se nos apegamos à Cabeça, então começamos a ver Cristo nos outros membros do corpo de Cristo. Porque vemos Cristo, sujeitamo-nos uns aos outros.
Isso é ordem. Isso é autoridade. Isso é submissão. Não se trata simplesmente de eu me submeter a você, ou de você se submeter a mim. Eu me submeto a você no temor de Cristo, porque posso ver Cristo.
Se eu não me submeter a você, estarei desobedecendo a Cristo. Cristo em cada membro do corpo de Cristo é a autoridade, e a essa autoridade devo me submeter — não apenas a Cristo diretamente, mas também a Cristo indiretamente. Dessa maneira, precisamos nos submeter uns aos outros.
Vocês sabem, irmãos e irmãs, quando o povo de Deus se reúne, a primeira coisa é apegar-se à Cabeça. Essa é a primeira coisa. Se não nos apegarmos à Cabeça, nunca poderemos estar em ordem — nunca.
Quando dois ou três estão reunidos em Meu nome, é isso que o Senhor diz:
Ali estou Eu no meio deles.
O que significa reunir-se em Meu nome? Significa que dois ou três se colocam no nome de Cristo.
É como um casamento. Antes de o homem e a mulher se casarem, o homem tem seu sobrenome, e a mulher tem o dela. Mas, quando se unem e se tornam um, a mulher assume o nome do marido, tomando-o como sua cabeça, para que ela seja o corpo daquele lar.
Quando dois ou três estão reunidos em Meu nome, quando dois ou três se colocam sob o nome de Cristo — isto é, sob Sua autoridade, submetendo-se a Ele e permitindo que Ele seja a Cabeça —, então vemos que o Senhor diz:
Ali estou Eu no meio deles.
Esse é o significado da igreja.
Se isso puder acontecer, então o segundo passo vem naturalmente: começamos a ver Cristo uns nos outros e nos submetemos uns aos outros no temor de Cristo.
Se não nos apegarmos à Cabeça, nossos olhos estarão fechados. Não poderemos ver. Mas, se nos apegarmos à Cabeça, nossos olhos serão abertos. Começaremos a ver Cristo nos diferentes membros do corpo de Cristo e aprenderemos a nos submeter.
Às vezes, até mesmo um membro maior precisa se submeter a um membro menor. Por quê? Porque Cristo está ali. Portanto, a segunda coisa é que começamos a nos submeter uns aos outros.
Irmãos e irmãs, quando nos reunimos, quais devem ser nossa primeira e nossa segunda consideração? A primeira consideração, sem dúvida, é Cristo. Considerem-No. Essa é a primeira coisa.
Qual deve ser a segunda consideração? A segunda consideração não é: “Quem é o maior entre nós?” Vocês sabem, os discípulos que estavam com o Senhor Jesus respeitavam o Senhor. É claro que respeitavam. “Tu és o Mestre.” Não havia competição nesse ponto.
Mas, abaixo do Mestre, quem seria o maior? Em outras palavras, todos queriam se colocar como o maior, como a autoridade. Talvez sob Cristo, sim, mas, ainda assim, essa parecia ser a primeira consideração entre os discípulos. Como isso era insensato.
A segunda consideração, depois de nos apegarmos à Cabeça, é esta: como devo me submeter ao meu irmão? A quem devo me submeter? Que contraste tão grande. E vocês descobrirão que precisam se submeter a todos.
Vocês sabem, algo se tornou bastante popular hoje, e creio que seja uma reação. No passado, os cristãos, especialmente nesta terra democrática, seguiram o caminho democrático. Somos todos iguais; ninguém está acima de ninguém.
Mas agora parece haver uma reação entre os cristãos. As pessoas realmente querem seguir o Senhor, e isso parece estar se espalhando por este país. Ou seja, procura-se uma pessoa a quem se submeter e chega-se até a chamar essa pessoa de mestre. Tudo o que o mestre diz, a pessoa faz.
Mas, irmãos e irmãs, vemos que não apenas o Senhor é nosso Mestre; em certo sentido, cada crente representa o Mestre. Agora, vocês são capazes de fazer isso — submeter-se uns aos outros no temor de Cristo?
Não se trata apenas de encontrar alguém que vocês considerem espiritual e então seguir essa pessoa cegamente. Tenho receio de pessoas assim. Que distorção da preciosa verdade da submissão e da autoridade.
Precisamos nos submeter uns aos outros no temor do Senhor. Sempre que Cristo se manifesta em um irmão ou em uma irmã, não vemos apenas o irmão ou a irmã; vemos Cristo, e precisamos nos submeter. Essa é a segunda coisa.
Quando todos querem se submeter e ninguém quer governar, vocês sabem o que acontece? Deus levanta alguns entre os irmãos e irmãs para serem presbíteros, ou para ocuparem uma posição que representa a autoridade de Cristo. É assim que os presbíteros surgem.
Os presbíteros na igreja surgem da submissão de uns aos outros no temor de Cristo. Os presbíteros na igreja não surgem porque alguém passou por cima dos outros. Não, não é assim que acontece.
Isso acontece quando todas as cabeças estão curvadas. É algo curioso: quando todas as cabeças estão curvadas, Deus começa a levantar alguns. Eles não querem isso, mas Deus começa a levantar alguns.
Aqueles que têm uma medida maior de Cristo, aqueles sobre quem veio um encargo espiritual de responsabilidade, aqueles que se entregam mais para servir e dar, aqueles que estão dispostos a ir mais fundo e mais baixo — Deus os levanta como presbíteros.
Como eles surgem? Isso é ordem. Essa é a ordem da vida. A menos que essa ordem esteja presente, irmãos e irmãs, a igreja não cresce de modo algum. É difícil para os membros do corpo funcionarem e funcionarem em coordenação, porque não há ordem.
No início, quando o povo de Deus se reúne, vemos que o Senhor não impõe sobre ele uma ordem meramente natural. Parece que, quando o povo de Deus se reúne, Deus o atrai, o desperta e o constrange com amor.
O amor é a ordem do dia — apenas amor. O povo de Deus se reúne para amar o Senhor e amar uns aos outros. À medida que amamos o Senhor e amamos uns aos outros, nossa vida espiritual começa a crescer.
Mas, à medida que nossa vida espiritual começa a crescer e chega a certo estágio, vemos que essa necessidade de ordem começa a surgir de maneira muito natural — muito natural.
No início de uma igreja, não vemos os presbíteros sendo estabelecidos primeiro. Não, eles vêm depois. É por meio do processo espiritual de submissão que vemos os presbíteros surgirem.
Esse princípio é demonstrado em nosso Senhor. Em Filipenses 2, Ele, Que estava na forma de Deus, esvaziou-Se. Tomou a forma de servo, fazendo-Se semelhante aos homens. Como Ele Se humilhou, tornando-Se obediente ao Pai até a morte, sim, a morte de cruz.
Em outras palavras, o caminho é submissão, submissão, obediência. Então Deus O exaltou sobremaneira e Lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que, no nome de Jesus, todo joelho se dobre e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor.
O caminho para a autoridade é por meio da obediência, pela submissão — não subindo, mas descendo. Quem descer mais baixo do que todos os outros será estabelecido por Deus como supervisor.
Porque surge dessa maneira, não é algo técnico; é algo vivo.
Quando o povo de Deus se reúne, no início reúne-se cheio de amor. Não falamos de outra coisa senão de amor: “Ah, nós amamos o Senhor. Amamos uns aos outros.” Muitas vezes pensamos que, porque amamos, somos iguais. Somos todos iguais.
No início, isso está muito bem. Mas, à medida que nossa vida começa a crescer, o Senhor começa a nos unir, a nos entrelaçar. No viver juntos e no sermos edificados juntos, precisa haver ordem. Precisa haver submissão e autoridade.
Se não houver ordem, submissão e autoridade, os membros simplesmente não poderão ser unidos. Os membros não poderão se relacionar adequadamente. Não há como.
Se quisermos continuar como um ajuntamento sem vínculos, tudo bem. Mas, se realmente quisermos ser unidos, veremos a vida nos conduzindo a uma ordem divina.
Precisamos ser edificados uns sobre os outros, edificados pela vida. Quando isso acontece, surge uma prova. Quando falamos de amor, tudo é amor. Se é apenas natural ou se é espiritual, bem, é amor. Não sabemos o que o amor realmente é.
Passamos bons momentos juntos. Mas, quando o amor começa a nos unir, quando a ordem começa a surgir, isso mostra se nosso amor é da carne ou do Espírito. Isso revela mais do que qualquer outra coisa.
Mas, a menos que essa ordem venha, a menos que haja tal ordem, a igreja não poderá ser edificada.
Há um extremo entre o povo de Deus: “Somos todos iguais diante de Deus.” Graças a Deus, somos todos iguais diante de Deus, e queremos permanecer assim. É apenas um plano horizontal; não há edificação.
Então vemos que alguns entre o povo de Deus vão ao outro extremo, e isso acontece por toda parte. Dizem: “Queremos uma igreja. Como podemos ter uma igreja? Precisamos ter presbíteros e diáconos. Precisamos ter ordem.”
“Se vocês não têm presbíteros e diáconos, não têm igreja.” Já ouviram isso? A igreja em Jerusalém existia havia muito tempo antes de ter presbíteros. Alguns chegam a dizer que, se não houver apóstolo, não há igreja. A igreja já existia antes da chegada de qualquer apóstolo.
Assim, encontramos cristãos que dizem: “Bem, queremos mais. Não queremos simplesmente ser algo melhor do que uma congregação. Queremos viver juntos. Queremos ser edificados juntos. Sabemos que a ordem é necessária.”
“Portanto, como começamos a organizar essa igreja? Primeiro, nomeamos os presbíteros. Depois, nomeamos os diáconos. Quando tivermos essa ordem perfeita, teremos essa igreja perfeita.”
O resultado é que vocês têm uma ordem perfeita, mas não têm igreja. Têm uma instituição. Se realmente quiserem ter uma igreja, um dia terão de eliminar toda essa ordem perfeita. Entenderam?
Quando Paulo foi à ilha de Creta, o que ele viu? Eles tinham ido para um dos extremos: nenhuma ordem, liberdade completa. O resultado foi que essas igrejas permaneceram em seu estado infantil depois de mais de três décadas.
Eram crianças. Como Paulo disse, eram levadas de um lado para outro. Estavam abertas a todo tipo de ensino falso. Estavam sendo desviadas para muitas coisas. As pessoas se aproveitavam delas porque eram crianças. Não havia unidade, e não havia surpresa.
Foi isso que Paulo encontrou nas igrejas da ilha de Creta.
Portanto, quando Paulo chegou àquela ilha e viu a situação, não entrou simplesmente e estabeleceu presbíteros. Não disse: “Bem, vocês não têm presbíteros; portanto, não são igreja. Eu sou apóstolo, então venho aqui e vou nomear presbíteros.” Ele poderia ter feito isso em um dia. Não leva muito tempo.
Mas, depois de sua breve permanência ali, ele não concluiu essa tarefa. Por quê? Porque os presbíteros não eram nomeados ao acaso, pela vontade do apóstolo. Não. O Espírito Santo precisava operar algo nessas pessoas, e Paulo não as conhecia. Como poderia nomear presbíteros?
É preciso permanecer com elas por algum tempo antes de realmente conhecê-las. Paulo podia ver que muitas coisas precisavam ser colocadas em ordem, e começou a pôr muitas coisas em ordem para elas. Mas, na questão dos presbíteros, não podia agir precipitadamente.
Ele deixou Tito ali, mas o instruiu quanto às qualificações dos presbíteros. Queria que Tito acompanhasse, observasse e verificasse se, entre os crentes, havia alguns que pareciam ter avançado um pouco mais do que os outros espiritualmente.
Paulo deixou Tito ali para acompanhar, observar e orar, até encontrar alguns que tivessem as qualificações de presbíteros, e então reconhecê-los. Era algo sério. Não era algo que se fazia de qualquer maneira.
Uma coisa que devemos mencionar nessa questão do presbitério é que a Bíblia apresenta as qualificações dos presbíteros. Naturalmente, sabemos que presbíteros e bispos são, na verdade, os mesmos.
Em Tito 1:5, Paulo disse a Tito que constituísse presbíteros em cada cidade, como lhe havia ordenado. A palavra ali é presbuteros — presbíteros. Mas, em Tito 1:7, lemos:
Porque é necessário que o bispo seja irrepreensível, como despenseiro de Deus.
A palavra “bispo” ali é episkopos, ou supervisor.
Portanto, presbíteros e bispos são os mesmos. “Presbíteros” refere-se às pessoas; “bispos”, ou supervisores, refere-se à função. Os presbíteros exercem a função de supervisores. Gradualmente, no cristianismo, presbíteros e bispos passaram a designar pessoas diferentes e duas funções diferentes. Mas, na igreja primitiva, na Bíblia, os presbíteros eram os bispos, porque supervisionavam o rebanho de Deus.
Uma coisa que penso que devemos mencionar é que, em cada assembleia local, os presbíteros devem ser constituídos dentre os irmãos daquela assembleia local. Não se trazem presbíteros de fora.
Os presbíteros devem ser levantados de dentro. Como são levantados de dentro, não há, nesse sentido, um padrão fixo e absoluto.
Provavelmente, se esses presbíteros das igrejas em Creta fossem à igreja em Éfeso, nem sequer estariam aptos para ser diáconos. Por quê? Porque a condição espiritual geral da igreja em Éfeso estava num nível mais elevado. Mas a condição das igrejas em Creta estava num nível mais baixo.
É algo relativo, não absoluto. Alguns dizem: “Simplesmente não conseguimos encontrar presbíteros. Vamos trazer alguns presbíteros para cá.” Por quê? Porque estabeleceram um padrão absoluto.
É muito bom se, entre os irmãos, houver alguns que estejam um passo à frente dos outros. Por mais imaturos que sejam, são um pouco mais maduros do que os demais. Portanto, vemos que não há algo absoluto. É algo muito vivo, muito flexível.
Mas, afinal, quais são as qualificações de um presbítero? Já as encontramos em 1 Timóteo. As qualificações encontradas em 1 Timóteo são muito semelhantes às que encontramos em Tito.
Vocês poderiam pensar que, como o presbítero é um supervisor, certamente é preciso escolher alguém muito capaz para ser presbítero, pois ele governará a igreja. Mas não é assim.
Vemos que todas as qualificações, tanto em 1 Timóteo como em Tito, dizem respeito ao caráter moral e espiritual. Por quê? Porque não se está administrando uma instituição; está-se cuidando da casa de Deus.
Portanto, todas as qualificações dizem respeito principalmente ao caráter moral, não à capacidade ou ao talento. Aqui, no livro de Tito, encontramos essas qualificações.
A primeira é que ele deve ser irrepreensível. Em outras palavras, deve ser um homem contra quem ninguém possa apresentar uma acusação. Ele está acima de qualquer censura. Vive uma vida tão íntegra que não há nada suspeito nem escondido. Paga suas dívidas, e não há acusação contra ele. É uma pessoa respeitável.
Segundo, deve ser marido de uma só mulher. Não apenas sua vida pessoal deve estar acima de qualquer censura, mas e sua vida familiar? É saudável?
Deve ter filhos crentes, que não sejam acusados de dissolução nem de comportamento insubordinado. Não apenas sua vida familiar com a esposa deve estar correta, mas ele também precisa ter um bom testemunho em seu lar. Seus filhos são ordeiros e se comportam bem.
Primeira Timóteo diz que ele deve governar bem sua própria casa. Deve ser capaz de governar sua própria família.
Porque é necessário que o supervisor seja irrepreensível, como despenseiro de Deus.
Não apenas sua vida pessoal, não apenas sua vida familiar, mas também sua vida na igreja deve estar correta. Não deve haver acusação contra ele como despenseiro de Deus na casa de Deus. Sua vida na igreja deve ser pura e irrepreensível.
Aqui vemos que a ênfase está nas diferentes áreas da vida. Então Paulo passa a tratar de seu caráter.
Primeiro, do lado negativo: não obstinado. Isso significa que não deve ser uma pessoa que fala segundo sua própria índole, uma pessoa que insiste em sua própria vontade. Deve ser alguém cuja vontade esteja rendida à vontade de Deus.
Não é: “Porque eu quero assim, todos têm de me seguir.” Vocês não podem ser presbíteros dessa maneira. Um presbítero deve ter uma vontade rendida diante de Deus:
Não a minha vontade, mas a Tua.
Não irascível. Suas emoções devem estar contidas, sob controle — não explodindo de raiva nem perdendo a calma. Deve ser uma pessoa que sabe controlar suas emoções.
Não dado ao vinho. Não deve ser uma pessoa que procura escapar de seus problemas no vinho e, depois de beber, perde o controle de si e cai em desordem. Vocês não podem ser esse tipo de pessoa.
Não espancador — não alguém que agride as pessoas, vocês sabem, mas alguém bondoso, que perdoa e é atencioso.
Não cobiçoso de torpe ganância: uma pessoa que não busca nada para si mesma, que não usa a função para obter algum benefício pessoal.
Do lado negativo, essas coisas falam de uma pessoa que está sob o controle do Espírito, uma pessoa disciplinada.
Então há o lado positivo: hospitaleiro. Não é apenas uma questão de praticar a hospitalidade, mas, principalmente, uma questão de coração, de desejo e de disposição para receber — para ser hospitaleiro.
Amante do bem: alguém que ama as coisas boas; sóbrio, justo, santo, temperante, com domínio de si. Essas são as características positivas.
Agora, perguntamos novamente: como essas características surgem numa pessoa? Não de maneira natural. Algumas pessoas podem ser naturalmente hospitaleiras, vocês sabem, mas não é disso que estou falando aqui.
Sejam negativas ou positivas, essas características são desenvolvidas pelo Espírito Santo. São o fruto de uma pessoa que vive com o Senhor e permite que o Senhor a transforme, para que o caráter de Cristo seja manifestado nela.
Uma pessoa assim, com esse caráter, pode ser reconhecida como presbítero. Por quê? Porque dá um bom exemplo ao povo de Deus.
Por fim, deve apegar-se à palavra fiel, segundo o ensino. Novamente, na questão da vida da igreja, vemos que ele é irrepreensível e se apega à palavra fiel, para que possa ajudar os que estão necessitados.
Ele tem um bom entendimento da verdade e é capaz de comunicar, corrigir e ajudar os que estão se desviando. Portanto, essas são as qualificações do presbítero.
Tito deveria observar e ver como o Espírito de Deus manifestaria, entre os cretenses, aqueles que tinham essa natureza e esse caráter, e então reconhecê-los como presbíteros na igreja.
Os presbíteros deveriam colocar o conjunto em ordem, não dominar sobre as pessoas, mas ser exemplos. Quando essa ordem é estabelecida, vemos que tudo começa a ocupar seu devido lugar. Todos os membros do corpo começam a ocupar seus lugares apropriados, relacionados uns aos outros, e o corpo inteiro pode funcionar em conjunto.
Isso é para o crescimento da igreja.
Irmãos e irmãs, muitas vezes nosso entendimento é diferente. Frequentemente pensamos que, se houver ordem, ela impedirá a liberdade e o funcionamento do corpo de Cristo, dos membros do corpo.
Pensamos que, para haver liberdade, não deve haver ordem alguma. Mas, se lermos a Palavra de Deus, veremos que não é assim.
Se a ordem vem da vida, nada ajuda mais o funcionamento e o crescimento do que a ordem divina. Sempre que Deus começa a edificar Seu povo, invariavelmente vemos que chega um momento em que uma ordem correta precisa ser estabelecida — não pelo homem, mas pelo Espírito de Deus.
Então a casa, a igreja, crescerá. Assim, em meio à desordem, Paulo foi usado por Deus para trazer ordem. Onde não havia ordem, ele trouxe a ordem divina. Esse é o caminho para ajudar a estabelecer a igreja.
Nosso Pai celestial, nós Te louvamos e Te agradecemos porque Tu sabes todas as coisas. Tu colocas em Tua Palavra nossas necessidades e a provisão para todas elas.
Oramos para que aprendamos muito com Tua Palavra da maneira mais prática. Livra-nos de manusear Tua Palavra com a mão da carne.
Mas, Senhor, que Teu Espírito Santo cumpra Tua Palavra na vida de Teu povo, para que Teu nome seja glorificado.
Pedimos em nome de nosso Senhor Jesus. Amém.