Retomamos as profecias de Isaías e nos voltamos para a parte que começa em Isaías 52:13.
Lembremos que estamos examinando a questão levantada em Isaías 53:1:
Quem creu em nossa pregação?
E a quem foi revelado o braço do Senhor?
Por se tratar de profecia no sentido de predição, precisamos reconhecer que ela olha tanto para trás quanto para a frente. Para o profeta, era uma predição; mas a perspectiva da qual ele profetizava, mesmo naquele momento, era retrospectiva. Era um olhar para trás, para as reações do mundo à cruz do Senhor Jesus.
Ele está considerando o conjunto de tudo o que aconteceu no Calvário, da mensagem que se propagou a respeito daqueles acontecimentos e, então, das reações a essa mensagem:
Quem creu em nossa pregação?
À luz da aparente tragédia da cruz, esta pergunta encontra sua resposta em toda esta seção:
E a quem foi revelado o braço do Senhor?
Agora, observamos nesta tarde que, ao chegarmos a Isaías 54, nos encontramos no movimento de Deus em direção à recuperação e à reconstrução. A cruz abriu o caminho e forneceu a base para essa nova perspectiva.
Uma nova nota soa nesse ponto, em Isaías 54. Vocês perceberão como o capítulo começa. Daí em diante, há uma série de notas luminosas, cheias de esperança, que nos conduzem a palavras como as do início de Isaías 60:1:
Levanta-te, resplandece, porque vem a tua luz;
e a glória do Senhor vai nascendo sobre ti.
Aqui, então, porque os fundamentos foram lançados e a base foi estabelecida pela cruz, o caminho está aberto e o terreno está livre. O Senhor está tratando de toda essa questão da recuperação, da restauração e da reconstrução de Seu povo. Há uma nova perspectiva, uma nova esperança, uma nova mensagem de encorajamento.
Mesmo assim, se vocês lerem esses últimos capítulos de Isaías, ainda que os examinem rapidamente, perceberão luzes e sombras nessa nova perspectiva.
O sol brilha:
Vem a tua luz;
e a glória do Senhor vai nascendo sobre ti.
É como o nascer do sol numa manhã de verão. Então, se vocês são sensíveis a essas coisas, conhecem aquela sensação de quando uma nuvem pesada passa diante do sol. Pode ser apenas passageiro, mas, naquele momento, vocês procuram ver o que aconteceu. Perguntam-se se toda a perspectiva vai mudar, se aquele período luminoso está passando, se aquilo é o fim.
É exatamente assim nesses últimos capítulos de Isaías. Aqui está a glória do Senhor que nasceu, uma perspectiva luminosa; então, vocês se deparam, aqui e ali, com coisas como as de Isaías 58:1:
Clama em alta voz, não te detenhas;
levanta a tua voz como a trombeta
e anuncia ao Meu povo a sua transgressão.
De um trecho a outro, surgem essas nuvens — nuvens escuras que parecem se acumular diante do sol, diante da presença luminosa dessa nova perspectiva. Elas trazem ao coração uma sensação de incerteza: será que essa manhã radiante vai passar cedo demais?
Conhecemos essa experiência. Não temos plena certeza de que tudo se realizará segundo a aparente promessa, nem de que seguiremos até o fim nessa nova perspectiva.
Da parte do Senhor, não há dúvida. O Senhor tem Sua base estabelecida e tem demonstrado ser Alguém Que está decidido a agir de maneira positiva. Ele não está dividido entre duas intenções. Não há sombra decorrente de uma mudança ou de uma alteração nEle. Tudo o que vem do Senhor mostra que Ele realmente busca um novo dia e uma nova situação.
Eu digo: da Sua parte, o Senhor está decidido, mas parece que Ele precisa avançar com cuidado. Ele quer agir positivamente. Quer avançar plenamente, sem nenhuma reserva. De fato, parece haver algo que ainda detém esse braço do Senhor. Ele simplesmente não pode prosseguir como indica que gostaria de fazer.
O antigo terreno passou por uma poderosa purificação na cruz. Sim, toda aquela palha foi eliminada; todo aquele emaranhado de espinhos foi tratado pela cruz. Ele entrou e estabeleceu ali Seu fundamento. Mas ainda parece haver uma questão.
Vocês não conseguem ler esses capítulos sem sentir que ainda não chegamos ao fim dessa questão. Ainda não estamos inteiramente do outro lado. Ainda não temos certeza de como tudo vai se desenvolver.
O Senhor está bem seguro; o Senhor está encorajando. Ele está dizendo que, quanto a Ele, não está Se contendo por iniciativa própria, mas há algo com que está Se deparando.
Deixem-me colocar assim: o terreno foi limpo e o fundamento foi lançado. Mas agora a questão é o que será construído sobre esse fundamento. É exatamente aí que entra a incerteza. Não é o fundamento — isso está resolvido na cruz —, mas a superestrutura. É aquilo que será colocado sobre esse fundamento. O que vocês vão construir sobre esse fundamento?
Essa é a questão. É aí que entra a incerteza. O Senhor não tem certeza do que Seu povo colocará sobre Seu fundamento.
Bem, vocês veem, essa é uma questão do Novo Testamento. No que diz respeito àquele antigo sistema hebraico, a resposta à pergunta sobre a nova construção naquele novo terreno encontra-se, naturalmente, naqueles que chamamos de profetas pós-exílicos — os profetas que vieram depois do exílio: Zacarias, Ageu e Malaquias. Ali está a resposta quanto ao que o povo colocaria sobre o fundamento e quanto à natureza dessa nova construção.
Mas, como eu disse nesta tarde, vocês poderiam dizer: “Bem, isso é Antigo Testamento. Aconteceu há muito tempo e está distante de nós”. Mas vocês se lembram de que lhes disse que, no Novo Testamento, há uma correspondência disso na nossa própria dispensação.
A carta aos Romanos se situa exatamente ao lado de Isaías 53, onde a cruz confronta todo o antigo entulho, o mal e o emaranhado, trata de tudo isso por meio do juízo e limpa o terreno para uma nova perspectiva. Essa nova perspectiva aparece em Romanos 8. Com Romanos 8, Deus tem Seu fundamento estabelecido.
Mas qual é a correspondência dessa parte seguinte de Isaías? É a Primeira Carta aos Coríntios.
Isso fica tão evidente quando a examinamos. Vocês sabem que o apóstolo, ao chegar a Corinto, disse, em 1 Coríntios 2:1-2:
Quando fui ter convosco, determinei nada saber entre vós,
senão a Jesus Cristo e a Ele crucificado.
O fundamento foi lançado. Em 1 Coríntios 3:10:
Como sábio construtor, lancei o fundamento.
O fundamento é Cristo crucificado. Entendem? O fundamento está lançado.
A cruz, em Romanos, garantiu o terreno para o fundamento. Ele foi lançado; está ali. Por assim dizer, em Corinto ele está ali: Cristo crucificado, o fundamento.
Ao prosseguir na leitura dessa carta, vocês quase param. Ouvem Paulo dizer, em 1 Coríntios 3:10:
Lancei o fundamento, e outro edifica sobre ele.
É possível construir sobre ele com madeira, feno, palha, ouro, prata e pedras preciosas. A obra de cada um será provada pelo fogo.
Em 1 Coríntios 3:15:
Se a obra de alguém se queimar, sofrerá ele prejuízo;
mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo.
Ele terá perdido tudo.
A grande questão aqui é: o que vocês têm para colocar sobre o fundamento? O que vão sobrepor a essa base da cruz? Vão trazer de volta coisas que são absolutamente contrárias à cruz? Se fizerem isso, vocês veem o que acontece.
Agora, esta Primeira Carta aos Coríntios não é a carta do fundamento; Romanos é essa carta. Esta é a carta da construção.
Isso se vê no que acabei de dizer:
Determinei nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e a Ele crucificado.
E:
Lancei o fundamento.
O fundamento está lançado. Mas agora, como diz 1 Coríntios 3:10:
Veja cada um como edifica sobre ele.
É impressionante — e lamento que os tradutores não nos tenham ajudado nisso — observar que a palavra original que significa construção foi traduzida por edificar ou edificação, o que, segundo nossa maneira de pensar, acaba nos induzindo a um entendimento inteiramente equivocado.
Se vocês usam hoje a palavra “edificante”, como tantas vezes já disse, pensam que ela significa colocar informações na cabeça — conhecimento intelectual. Não significa isso de modo algum. A palavra traduzida por “edificar” é a palavra original para construir. Entendem?
Eu sugeriria que vocês examinassem as oito ocorrências dessa palavra na Primeira Carta aos Coríntios. É algo profundamente perscrutador, profundamente esclarecedor. Toca em tantas coisas.
Toda essa questão dos dons espirituais se resume nessa única palavra: eles constroem? Se não constroem, não têm utilidade no propósito de Deus. Vocês podem descartá-los; eles não cumpriram sua finalidade. Vejam, até mesmo os dons divinos podem deixar de cumprir sua finalidade. Podem ser desviados.
Teremos de voltar a tocar nisso. Mas, em muitas questões como essa, o elemento determinante, o ponto determinante, a palavra determinante para toda sorte de assuntos, em oito contextos diferentes, é esta: construção, construção, construção.
É o aspecto espiritualmente construtivo das coisas que está presente nesta Primeira Carta aos Coríntios. Sim, o fundamento está lançado: Cristo crucificado. Agora, a construção.
Quando vocês chegam à construção, começa uma verdadeira batalha. A questão é: o que vocês vão colocar sobre esse fundamento?
Deixem-me colocar de outra maneira: o que Deus permitirá que vocês coloquem sobre Seu fundamento? Ao longo de toda essa carta, há uma longa série de “Não. Não”. Coisas às quais Deus diz: “Não. Não, isso não sobre Meu fundamento, por favor. Não há lugar para isso sobre Meu fundamento”.
“Se vocês colocarem isso sobre Meu fundamento, deixarei que o fogo o prove. Vocês podem dedicar a vida inteira a isso, e então tudo se desfaz em fumaça. Não é adequado ao Meu fundamento. Não está de acordo com a cruz do Senhor Jesus.”
Eu levaria muito tempo para percorrer essa carta e examinar todas as coisas às quais Deus diz não. Talvez possamos apenas tocar em duas ou três, que apontam para muitas outras. Vocês podem ler a carta, e podem lê-la tendo isto em mente: Deus permitiria que algo assim fosse colocado sobre Seu fundamento?
Então, a resposta: muito bem, se não permitiria, deixemos que a cruz consuma isso imediatamente. Que a cruz trate disso agora. Não queremos que isso fique adiado até uma aplicação do significado da cruz quando já for tarde demais, e mal consigamos entrar no céu, sem nada que possamos levar conosco do trabalho de uma vida. Essa é a questão.
Vocês não querem que a cruz venha tarde, ou tarde demais, para salvar o trabalho de nossa vida — para salvar o fruto de toda a nossa energia.
Bem, vocês começam em 1 Coríntios 3:1-3:
E eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a crianças em Cristo.
Com leite vos criei, e não com alimento sólido, porque ainda não podíeis suportá-lo; nem ainda agora podeis, porque ainda sois carnais.
Pois, havendo entre vós inveja e contendas…
Ah, esperemos um pouco. Mesmo que isso resulte em nosso próprio julgamento e condenação, é melhor que a cruz intervenha agora.
Isso faz vocês se lembrarem de Gênesis? Deus diz não a isso sobre Seu fundamento. “Nada disso, por favor, sobre Meu fundamento. A cruz, que é Meu fundamento, diz não a isso.” Há entre vocês invejas e contendas.
Vocês precisam refletir bem sobre isso e encará-lo com honestidade. Pode parecer muito elementar, meus queridos amigos, mas aqui estamos. Não estamos tratando aqui do mundo, dos não convertidos. Estamos dentro da igreja — crentes entre crentes. Estamos tratando daquilo que se encontra entre aqueles para quem o fundamento de Deus foi lançado, que são chamados santos — isto é, que são considerados por Deus como Seu próprio povo.
Contenda: Deus diz não a isso sobre Seu fundamento. Vocês têm isso? Sabem o que vai acontecer, mais cedo ou mais tarde. Isso será exposto como madeira, feno e palha, desfazendo-se em fumaça. Esse é o valor disso.
Em 1 Coríntios 3:3:
Não sois porventura carnais e não andais segundo os homens?
Ah, vocês não têm permissão para andar segundo os homens sobre o fundamento de Deus — simplesmente não têm. Deus diz não à maneira dos homens sobre Seu fundamento.
Ah, como lemos em 1 Coríntios 3:4:
Quando um diz: Eu sou de…
Vocês precisam colocar os nomes aí — nomes bem atuais, nomes do seu próprio círculo, da sua própria congregação, do seu próprio meio cristão, ou nomes históricos da religião. Coloquem o que quiserem: um diz “Eu sou de…”, e outro, “Eu sou de…”.
Parcialidades humanas, preferências humanas, gostos humanos e aversões humanas produzem divisão. Deus diz: “Não, isso não sobre Meu fundamento. Essa não é Minha igreja; essa não é Minha construção. Eu nunca construo com isso, e vocês também não podem”.
Vocês podem ter uma pequena estrutura, uma estrutura maravilhosa que vocês mesmos criaram, com material dessa espécie. Esse tipo de material vai se desfazer em fumaça. No fim, vocês não terão nada, por mais que tenham tido nesse meio-tempo.
Vamos continuar? Vocês entendem o que quero dizer. Percorram a carta inteira assim. Parcialidades. Quanto se fala da sabedoria do mundo nessa parte inicial — a sabedoria do mundo, a sabedoria do homem, a maneira humana de pensar sobre as coisas.
Deus diz: “Nada disso sobre Meu fundamento. Nada disso. Não há lugar algum para a mente de vocês sobre o fundamento de Deus. Há lugar apenas para a mente do Espírito”.
Se não temos a mente do Espírito, não temos o direito de fazer coisa alguma sobre o fundamento de Deus. Perdoem-me por ser tão exigente, tão categórico. Mas, afinal, não são esses os problemas — justamente essas coisas — que estão arruinando o cristianismo hoje? São, sim.
Não pensemos no cristianismo como algo externo a nós. Isso nos toca muito de perto. Essas coisas também estão em mim, queridos amigos, e estão causando o dano. Talvez até mesmo entre nós estejamos trazendo para o fundamento de Deus uma mentalidade que não é a mentalidade do Espírito. É disso que se trata: uma mentalidade.
Em 1 Coríntios 2:11:
Porque qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está?
Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus.
São duas mentalidades diferentes, entendem? Mente natural, mente espiritual. Deus diz: “Nada da mente ou da mentalidade natural sobre Meu fundamento”.
Paulo chama isso aqui de o mundo entrando e construindo algo sobre o fundamento de Deus. O mundo entrando — e Deus diz: “Não há lugar algum para o mundo, sob forma alguma, sobre Meu fundamento”.
Se vocês examinarem isso de perto, perceberão que essa questão perscruta tantas coisas: como o mundo pensa, os critérios de julgamento e os valores do mundo, como o mundo faz as coisas. Vejam, o que estava acontecendo aqui era que esses coríntios tentavam causar uma impressão — tentavam causar uma impressão por meios naturais.
A cruz de Isaías 53 não é algo muito impressionante nesse sentido, é? Não há ali nada que torne o evangelho popular. Digo, como disse ontem, que ela é mais ofensiva do que qualquer outra coisa.
Vocês estão tentando tornar a obra de Deus bem-sucedida por meio de um apelo ao homem natural? Não estou defendendo a feiura. Creio que Deus é um Deus de beleza. Não sou a favor da falta de refinamento. Mas, se pensamos que tornaremos a obra de Deus bem-sucedida e aceitável apelando à alma dos homens — de maneira artística, técnica ou de qualquer outra forma —, estamos no caminho errado.
Deixem-me colocar pelo outro lado: o apelo, a impressão, a força que alcança e conquista precisam ser essencialmente e exclusivamente espirituais — de natureza interior —, e não algo que apele aos sentidos naturais das pessoas.
O braço do Senhor não será revelado ao homem natural de maneira alguma. O braço do Senhor não será revelado ao mundo para seu benefício. O braço do Senhor não será revelado a nenhuma mentalidade natural — somente contra ela. É disso que se trata aqui:
A quem foi revelado o braço do Senhor?
Vocês prosseguem nessa carta e descobrem que a cruz toca em tantas outras coisas. Toca em nossas emoções, em nossas paixões. Há muita coisa sobre isso, não há? As emoções naturais e as paixões naturais — não apenas a mentalidade, mas nossos sentimentos e emoções. O Senhor diz: “Nada disso sobre Meu fundamento. Absolutamente nada”.
Ah, há tantas coisas às quais a cruz diz não aqui, no que diz respeito à construção. Convido vocês a examinar isso mais de perto. Não é meu propósito fazer uma exposição da Carta aos Coríntios. Quero chegar ao cerne das coisas: o que Deus diz que pode ser colocado sobre Seu fundamento?
Há um lado positivo nessa carta. Seria muito triste, não seria, se tudo fosse negativo — se, do começo ao fim, fosse apenas “Não, não, não, não, não”. De modo algum! Levem isso em conta, porque, observem, já disse antes, hoje: vocês nunca poderão entrar no sim de Deus enquanto não aceitarem o não de Deus.
Mas há um sim de Deus — um sim muito poderoso — nessa carta. O que é? O que é? Vamos reconhecê-lo. Pensamos que o conhecemos. Bem, talvez conheçamos a carta, mas conhecemos as palavras? Sugiro que praticamente nada sabemos da realidade em si.
1 Coríntios 13.
O apóstolo, ao chegar a esse ponto, descarta tudo o que não é espiritualmente construtivo. Ainda que, observem bem, possa ter sido algo que Deus fez, isso foi apropriado e usado para a gratificação do homem, o prazer do homem, a satisfação do homem, a glória do homem — dons espirituais, línguas e todas essas coisas.
Eles submeteram essas coisas divinas à mente, à emoção e à mentalidade do homem natural, roubaram-lhes o valor de edificar e as transformaram em meros objetos de exibição — gloriando-se nos dons espirituais.
O apóstolo escreve que nada disso jamais foi dado para esse fim. Mesmo sendo dados por Deus, esses dons podem não resultar em nada quando se trata de construir. É essa a palavra que ele usa, vocês sabem, em 1 Coríntios 13:1:
Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor,
seria como o metal que soa ou como o címbalo que retine.
Saiam de cena os dons espirituais que não cumpriram seu propósito: construir a casa de Deus. Não se apeguem a nada que não sirva a esse propósito. Guardem isso.
Mas observem: o tempo todo, ele procura alcançar o positivo por meio do negativo. Em 1 Coríntios 13:2:
E ainda que tivesse o dom de profecia e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência;
e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes,
e não tivesse amor, nada seria.
Isso é Escritura — inteiramente bíblico. Foi isso que o Senhor Jesus disse: se vocês tiverem fé como um grão de mostarda, dirão a este monte:
Ergue-te e lança-te no meio do mar.
E isso será feito.
Essas coisas são perfeitamente bíblicas, e vocês podem ser perfeitamente bíblicos, podem ter uma fé assim, e isso pode não significar nada se não edificar a casa de Deus. Se não resultar nessa estrutura espiritual, torna-se algo negativo.
Saiam de cena todo o conhecimento, os mistérios, o saber secreto e a fé que move montanhas. Fora, se vocês não edificam. É esse o critério de valor aqui.
E não tivesse amor, nada seria.
Com tudo isso, nada sou.
Em 1 Coríntios 13:3:
E ainda que distribuísse todos os meus bens para sustento dos pobres,
e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado,
e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.
Posso ser um filantropo; posso ser generoso em minhas doações, até mesmo sacrificial. Ainda que eu seja um mártir e entregue meu corpo para ser queimado, tudo isso pode ser feito sem qualquer valor construtivo para a edificação da casa de Deus. Se for assim, não é nada.
E não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.
Agora, isso é, naturalmente, a retirada de cena de coisas — coisas maravilhosas em si mesmas — que, porém, não cumpriram o propósito para o qual foram dadas. Esse propósito é a edificação espiritual.
Agora, o apóstolo pergunta: o que vocês podem colocar sobre esse fundamento? Vamos trazer aquilo a que Deus diz sim. Ele diz não a isso, não àquilo, não àquilo outro — mas há um sim. É o amor. O amor.
Em 1 Coríntios 13:4-8:
O amor é sofredor, é benigno;
o amor não é invejoso;
o amor não se vangloria, não se ensoberbece;
não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não se irrita;
não leva em conta o mal;
não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade;
tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor nunca falha.
Isso é uma repreensão abrangente aos coríntios. Eles recorriam aos tribunais contra seus próprios irmãos em Cristo porque seus direitos haviam sido lesados ou tirados deles, e por isso os arrastavam imediatamente diante do magistrado.
O amor é sofredor, é benigno.
Vocês podem colocar isso sobre o fundamento. Esse tipo de coisa é construtivo, não é? Sim.
O amor não é invejoso.
Não sei como vocês se sentem, queridos amigos, quando, assim, com toda a calma, vamos entrando em cada frase e examinando-a. Dá vontade de parar e dizer: “Não diga mais nada. Isso me expõe demais”. E precisamos continuar. Afinal, é isso que Deus está pedindo.
O amor é sofredor, é benigno;
o amor não é invejoso;
o amor não se vangloria, não se ensoberbece.
Abram em 1 Coríntios 8:1, e vocês lerão:
O conhecimento ensoberbece, mas o amor edifica.
Há uma grande diferença entre ensoberbecer — inflar, encher de ar, quando, afinal, não há nada ali dentro — e construir.
O amor não se ensoberbece. Não há nada de falso, artificial, inflado, fictício ou fingido no amor. Ele não se ensoberbece. É a ideia do balão, não é? Ah, como vocês podem enchê-lo e fazê-lo ficar grande! Mas basta encostar nele a menor pontinha de uma agulha, e onde ele está? Acabou.
Paulo diz: “Não adianta colocar isso sobre o fundamento de Deus”. O amor não é assim de modo algum. O amor não se ensoberbece.
Não se porta inconvenientemente.
Comportamento inconveniente. Poderíamos passar muito tempo nisso, não poderíamos? É conveniente? É apropriado? Convém a um cristão? Convém ao Senhor Jesus? Convém à santa casa de Deus? Convém à cruz do Senhor Jesus?
É apropriado? O amor se porta de maneira apropriada. Não se porta inconvenientemente.
O amor não busca os seus próprios interesses.
Ele não quer fazer prevalecer sua própria vontade. Não trabalha para seus próprios fins. Não atrai tudo para si.
Não busca os seus próprios interesses, não se irrita;
não leva em conta o mal;
não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade.
O amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor nunca falha.
Vocês podem pensar que não estou dizendo muita coisa nesta noite, mas estou dizendo muito. Gosto de ler esse capítulo numa tradução que considero um clássico, se vocês me permitirem.
Posso falar nas línguas dos homens e dos anjos,
mas, se não tiver amor, sou um gongo ruidoso, um címbalo que retine.Posso profetizar, sondar todos os mistérios e todo o saber secreto;
posso ter uma fé tão absoluta que consiga mover montanhas de seu lugar;
mas, se não tiver amor, nada valho.Posso distribuir em caridade tudo o que possuo;
posso entregar meu corpo para ser queimado;
mas, se não tiver amor, nada ganho com isso.O amor é muito paciente, muito bondoso.
O amor não conhece a inveja.
O amor não se exibe, não se dá ares, nunca é rude, nunca é egoísta, nunca se irrita, nunca guarda ressentimento.
O amor nunca se alegra quando os outros erram.
O amor se alegra com a bondade.
Sempre demora a expor, sempre se apressa a crer no melhor, sempre cheio de esperança, sempre paciente.
O amor nunca desaparece.
Vocês podem colocar isso sobre o fundamento. É somente a isso que Deus diz sim.
A quem foi revelado o braço do Senhor?
Hoje, nesta noite, é exatamente isso, queridos amigos.
Perdoem-me se parece que não lhes trouxe uma grande abundância de nova luz, mas sinto tão fortemente que precisamos encarar essa questão: o que a cruz põe de lado e o que a cruz introduz — o que pode ser colocado sobre o fundamento de Deus e o que não pode.
Isso diz respeito a cada um de nós, não é, de maneira muito séria, quanto ao que haverá no fim? Na verdade, é isso que importa: o que haverá no fim, não o que há agora — vistoso, exibível, chamativo e popular, recebendo a aprovação e os aplausos dos homens. Não, mas o que haverá no fim.
Deus está agindo aqui, como vocês veem, para construir, construir, construir. Depois de mostrar o que não usará em Sua construção, Ele diz: “É isto que usarei. Esta é a matéria, o material da construção — a igreja. É isto que realmente edifica: o amor construindo”.
Ah, que o Senhor use esta palavra em nossos corações, para feri-los como precisam ser feridos, para esclarecer nossos corações quanto aos verdadeiros valores. Ah, não, todas essas coisas não são os verdadeiros valores.
Nem mesmo os dons espirituais são os verdadeiros valores, a menos que, observem bem, seu efeito seja um verdadeiro crescimento espiritual entre os crentes. Esse é o teste. Esse é o teste.
Não são as coisas em si, não é sua presença, não é o fato de o Senhor as conceder. Sejam quais forem esses dons — e há muitos deles —, o teste de cada dom é: ele realmente edifica a igreja? Realmente edifica a casa? Está realmente resultando numa medida maior de Cristo?
Está? Ou essas coisas podem estar dissociadas de Cristo. Vejam, o que esta carta diz com tanta clareza é isto: os dons espirituais não são garantia de maturidade espiritual.
Aqui vocês têm a mais imatura das igrejas:
Com leite vos criei.
Vocês são crianças; ainda são crianças. A mais imatura das igrejas e, no entanto, caracterizada por todos esses dons.
Não que os dons sejam errados, mas foram desviados ou impedidos de atuar. Não serviram ao propósito para o qual foram dados — isto é, levar à plena medida de Cristo.
Uma plena medida de Cristo: esse é o objetivo. E o amor faz isso. O amor leva à plena medida de Cristo.
Ah, que tenhamos esse amor — esse tipo de amor. Agora, isso não é natural. Esse amor brota da cruz. É o amor que procede diretamente da obra da cruz.
Não podemos obtê-lo apenas nos esforçando para alcançá-lo. Mas ele surgirá e crescerá à medida que a cruz realizar sua obra em nós. Simplesmente estará presente — cada vez mais amor —, de acordo com a obra da cruz em nossos corações e em nossa natureza.
Que o Senhor aumente nosso amor.