É segunda-feira de manhã, 8 de outubro de 1973, em Richmond, Virgínia. A ministração é do irmão Stephen Kaung.
Vamos abrir em 1 Coríntios 6.
Todas as coisas me são lícitas; mas nem todas as coisas convêm.
Todas as coisas me são lícitas; mas eu não me deixarei dominar por nenhuma.—1 Coríntios 6:12
E 1 Coríntios 10:23, 31-33:
Todas as coisas são lícitas; mas nem todas as coisas convêm.
Todas as coisas são lícitas; mas nem todas as coisas edificam.Portanto, quer comais, quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus.
Não deis motivo de tropeço nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de Deus:
assim como também eu agrado a todos em tudo, não buscando o meu próprio proveito, mas o de muitos, para que sejam salvos.—1 Coríntios 10:23, 31-33
Isso é tudo, realmente, de que precisamos.
A igreja em Corinto estava cheia de problemas. Mas nós realmente agradecemos ao Senhor por termos a primeira carta de Paulo aos coríntios. Se não tivéssemos essa carta, e tivéssemos apenas cartas como Efésios, Filipenses e Colossenses, talvez nos perguntássemos se haveria alguma palavra para nós.
Agora, sabemos que as cartas aos efésios, aos filipenses e aos colossenses são para nós. Elas são relevantes para nós porque nos mostram o propósito de Deus, o plano de Deus e a vontade de Deus. Precisamos conhecer essas coisas.
E, no entanto, às vezes, quando olhamos ao redor e vemos a condição e a situação da igreja de Deus hoje, sentimos que estamos muito, muito distantes. Às vezes ficamos desanimados. Perguntamo-nos se Deus tem algo a nos dizer em nossa situação atual — uma situação cheia de problemas de todo tipo.
Mas graças a Deus por 1 Coríntios, porque ali vemos que eles tinham todo tipo de problema, e Deus tinha uma palavra especial para eles. Nesse sentido, creio que 1 Coríntios tem uma mensagem muito especial para nós. Ela é relevante de uma maneira muito especial para a nossa situação hoje.
Na igreja em Corinto, havia um grande problema de unidade. Eles não eram unidos. Todos eram crentes, mas estavam divididos. Alguns diziam:
Eu sou de Paulo.
Outros diziam:
Eu sou de Apolo.
Outros diziam:
Eu sou de Cefas.
E alguns se manifestavam e diziam:
Eu sou de Cristo.
Ora, não é verdade que esse é um problema hoje? Entre o povo de Deus, penso que um dos maiores problemas que temos é essa falta de unidade. Não somos um. Não somos unidos. Embora às vezes digamos que somos um em Cristo, nossas ações não parecem corresponder à nossa confissão.
É uma questão prática. Sabem, a carta aos coríntios não trata apenas de teoria; ela trata da vida prática. Todos sabemos que somos um em Cristo, mas como está a nossa prática?
Se os nossos olhos estivessem fixos no Senhor, e não em homens espirituais como Paulo, Pedro e Apolo, então, na prática, seríamos um.
Ontem à noite, tivemos comunhão a respeito do segundo grande problema na igreja em Corinto: não havia disciplina.
Aqui encontramos um grupo de crentes, e creio que não era um grupo pequeno, porque, ao ler o livro de Atos, vemos que havia muitos membros na igreja em Corinto. Contudo, não havia disciplina alguma.
Uma pessoa havia feito algo tão terrível que nem mesmo entre os gentios se encontrava coisa semelhante. No entanto, essa pessoa não foi disciplinada. Continuou como se nada tivesse acontecido, e toda a igreja se mostrava tão insensível.
As pessoas permitiram que aquilo permanecesse, e a igreja não tomou nenhuma medida disciplinar. Não havia disciplina. Talvez até se orgulhassem de ser muito liberais, extremamente tolerantes e muito amorosos. Mas, quanto à disciplina, nada.
Portanto, irmãos e irmãs, ao olharmos para a nossa situação entre o povo de Deus hoje, penso que há uma coisa, entre muitas outras, que é muito necessária na igreja: a disciplina.
Na verdade, se não há disciplina, não há realidade na igreja. Se não há disciplina, não há estabelecimento da verdade. A disciplina é muito importante na edificação da igreja.
Ontem à noite mencionamos que, na Bíblia, podemos encontrar três formas diferentes de disciplina: a disciplina paterna, a disciplina fraterna e a disciplina da igreja. Não voltaremos a elas nesta manhã, mas as menciono porque aqui encontramos outra palavra muito útil sobre como pode haver disciplina na igreja.
Nesta manhã, gostaríamos de entrar em outra área: a questão da conduta cristã.
Deus reuniu um grupo de pessoas. Como elas devem se comportar umas para com as outras? A conduta cristã nos relacionamentos mútuos é outra área em que havia muita deficiência na igreja em Corinto.
Aqui vemos que um irmão ia ao tribunal para processar outro irmão. Provavelmente, o outro irmão o havia defraudado de alguma maneira e, por isso, ele achava que a injustiça precisava ser reparada. Assim, foi ao tribunal para obter reparação pela injustiça sofrida — um irmão processando outro irmão.
Não havia apenas essa questão de processarem uns aos outros; evidentemente, a vida conjugal deles também era muito desregrada. Encontramos isso em 1 Coríntios 7. Pelo visto, eles não sabiam como viver em seus relacionamentos conjugais.
Além disso, muitos outros achavam que eram inteligentes e tinham conhecimento, e por isso iam ao templo dos ídolos para se divertir em atividades sociais. Isso chegava a tal ponto que os que tinham a consciência fraca tropeçavam, e eles não se importavam.
Em outras palavras, entre os crentes de Corinto havia uma grande deficiência na conduta cristã de uns para com os outros.
Irmãos e irmãs, pergunto-me se esse não é também um problema prático entre o povo de Deus hoje.
É verdade: ninguém pode ser salvo pelas boas obras. Em algum momento, todos nós tentamos nos comportar bem. Por quê? Porque pensávamos que a nossa salvação dependia das nossas boas ações.
Pensávamos que, se tivéssemos boas ações para apresentar a Deus, seríamos aceitos. Éramos como Caim, levando os frutos da nossa própria terra e tentando oferecê-los a Deus. Mas, é claro, isso não era suficiente.
Como encontramos no livro de Isaías:
As nossas justiças são como trapo de imundícia.
Embora possamos pensar que acumulamos alguma justiça, quando tentamos apresentá-la a Deus, ela não passa de trapos de imundícia. Não só não pode cobrir a nossa nudez diante de Deus, como também é imunda e impura.
Assim, de certa forma, penso que éramos como alguns dos crentes de Corinto. Quando o Espírito Santo nos convenceu do nosso pecado, nossa primeira reação foi tentar nos comportar bem. Tentamos fazer algo de bom. Tentamos acumular algum mérito para sermos salvos.
Então, um dia, pela graça de Deus, nossos olhos foram abertos para vermos que não somos salvos pelas obras; somos salvos pela graça. E, sabem, foi isso que aconteceu com os coríntios. Foi assim que eles vieram ao Senhor.
Era Jesus Cristo, e Ele crucificado. Esse é o evangelho que os salvou. Antes disso, os coríntios tinham uma conduta muito perversa. Havia um provérbio naquela época: “Você age como um coríntio”. Isso significava que a pessoa levava uma vida muito perversa.
Mas, graças a Deus, por meio do evangelho de Jesus Cristo, eles foram levados a Deus — não por seu próprio valor, mas pela graça.
Meus irmãos e irmãs, depois de sermos salvos, como fica a nossa conduta? É verdade que não podemos ser salvos pela nossa boa conduta. Nossa boa conduta não é a causa da nossa salvação.
Mas, depois de sermos salvos, deve haver uma boa conduta como evidência, como efeito, da salvação de Deus. Não que possamos merecer alguma coisa por meio dela — não. A vida de Cristo está em nós, e a vida de Cristo deve se manifestar em nosso viver diário.
Deve haver uma diferença. Deve haver um testemunho para o mundo.
Isso se aplica aos crentes de Corinto. Eles haviam recebido a salvação do Senhor. Eram salvos. Seus pecados haviam sido perdoados. Haviam sido lavados. E, no entanto, de alguma forma, seu comportamento e sua conduta uns para com os outros eram tais que traziam vergonha ao Senhor.
Pergunto-me se isso não se deve a uma ideia equivocada. Não somos salvos pelas nossas boas ações; somos salvos pela graça. Então, depois de sermos salvos, não estamos debaixo da graça e já não debaixo da lei? Não somos livres?
Podemos fazer tudo o que quisermos. Não seremos mais condenados porque, afinal, as boas ações nada são aos olhos de Deus. O que importa é a graça do nosso Senhor Jesus. Em outras palavras, trata-se de uma compreensão errada e de um abuso da graça.
Provavelmente, eles achavam que, por serem tão livres e desfrutarem da liberdade e da graça em Cristo, podiam fazer tudo o que quisessem.
Não é assim também com os crentes hoje?
Encontramos duas correntes diferentes. É claro que uma delas diz que precisamos ter boas obras, porque, sem boas obras, não podemos ser salvos. Com esse tipo de ensino, as pessoas realmente se esforçam para praticar boas obras.
Mas, é claro, elas não são aceitas por Deus, porque, aos olhos de Deus, essas são obras mortas. Precisamos ser libertos das obras mortas — até mesmo das boas obras.
Por outro lado, especialmente entre os chamados crentes protestantes, encontramos uma maravilhosa pregação da graça de Deus. É o evangelho da graça. Somos salvos pela graça. Mas talvez, depois de recebermos a graça de Deus, pareça faltar clareza sobre como devemos nos comportar.
Agora você está salvo. Você irá para o céu. Todo aquele que é salvo está pronto para ir para o céu. Mas e hoje? E a nossa vida nesta terra, dia após dia? Como devemos viver diante de Deus e diante dos homens? Receio que esteja faltando alguma coisa.
Ainda ontem, alguns irmãos jovens e eu estávamos conversando depois da reunião da manhã. Um irmão disse que sentia que, para nós, estava faltando alguma coisa.
É verdade que somos salvos pela graça. É verdade que um dia iremos para o céu. Mas há alguma coisa na Palavra de Deus para o nosso presente?
Somos salvos; todos seremos levados a Ele; todos iremos para o céu. Então, algumas pessoas diriam: “Por que se preocupar? Por que devemos negar a nós mesmos, tomar a cruz e seguir o Senhor? Afinal, você irá para o céu assim como o seu irmão, que talvez leve uma vida muito desregrada, desfrute desta terra e rejeite a cruz. Afinal, você é salvo pela graça. Por que é tão tolo? No fim, todos iremos para o céu. Todos somos salvos pela graça”.
Assim, esse tipo de pensamento acaba se infiltrando de alguma maneira.
Quando lemos a carta aos coríntios, vemos que esses crentes de Corinto fizeram mau uso da graça e da liberdade. Eles diziam: “Podemos fazer tudo o que quisermos”. Paulo disse:
O vosso corpo não é vosso.
Fostes resgatados por um preço.
Sois o povo de Deus.
É verdade que você é salvo pela graça, mas o Senhor o salvou e o resgatou para Deus. Você já não pertence a si mesmo. Portanto, deve glorificar a Deus em seu corpo. Ele não é seu; é de Deus.
Além disso, nenhum injusto herdará o reino de Deus. Há mais do que ir para o céu. Há o reino de Deus que está por vir.
Somente aqueles cuja justiça excede a justiça dos escribas e fariseus podem entrar no reino de Deus. Vocês se lembram de que, em Mateus, o Senhor disse:
Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.
—Mateus 5:20
Pela graça de Deus, todos iremos para o céu; isso é verdade. Mas isso não significa que todo aquele que é salvo entrará no reino de Deus que um dia virá sobre esta terra.
Reinar com Cristo por mil anos exige a justiça do reino.
Paulo disse que vocês estão numa corrida. Precisam correr de tal maneira que alcancem o prêmio; caso contrário, perderão o prêmio. É verdade que não perderão a salvação, mas perderão o prêmio. Perderão a recompensa.
Paulo até mencionou os israelitas. Todos saíram do Egito. Todos comeram o maná celestial. Todos beberam da água que saiu da rocha. Todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar.
Contudo, porque tentaram a Deus, porque não creram em Deus, porque desobedeceram, o resultado foi que caíram no deserto. Somente Josué e Calebe, juntamente com uma nova geração, entraram na terra.
Paulo disse:
Não sou eu livre?
Sou livre. Mas:
Esmurro o meu corpo e o reduzo à servidão, para que, depois de ter pregado a outros, eu mesmo não venha a ser reprovado.
Ao considerarmos a nossa situação aqui, encontramos algo muito importante para a nossa vida prática diária, e isso era algo que faltava muito entre os coríntios.
Esses irmãos e irmãs eram salvos pela graça, e pareciam desfrutar tanto da sua liberdade — desfrutavam dela em excesso. Vejam a situação entre eles. Um oprimia o outro, um fazia o outro tropeçar, e eles simplesmente não se importavam.
Não havia aquela conduta cristã adequada. Receio que isso também seja verdade entre nós hoje.
O povo de Deus parece se esquecer de que foi salvo para ser uma testemunha e um testemunho do Senhor. O povo de Deus parece se esquecer de que seu corpo não lhe pertence. Fomos comprados para Deus. Devemos glorificar a Deus em nosso corpo.
Não que estejamos, por assim dizer, acumulando méritos — de modo algum. Mas, porque não pertencemos a nós mesmos, temos de glorificar a Deus. E, porque estamos numa corrida, devemos correr de modo a alcançar o prêmio.
Receio que essa seja uma área em que o povo de Deus hoje precisa muito de ajuda.
Quando Paulo trata dessa questão da conduta cristã prática, ele o faz segundo determinados princípios. Aqui, procuraremos examinar esses princípios e aplicá-los a vários problemas.
Em outras palavras, o caminho para corrigir a nossa conduta não é estabelecer regras e regulamentos para cada detalhe. Isso formaria outra lei para nós. O caminho para tratar da nossa conduta é conhecer determinados princípios e, então, pelo poder do Espírito Santo, aplicar esses princípios à nossa vida diária.
Paulo diz:
Todas as coisas me são lícitas; mas nem todas as coisas convêm.
Esse é o primeiro princípio.
Paulo é alguém que foi liberto. Paulo é alguém que já não está debaixo da lei, mas debaixo da graça. Paulo é alguém que pode considerar todas as coisas como lícitas.
Em outras palavras, a palavra lícito tem o sentido de liberdade. “Todas as coisas são lícitas”: tenho liberdade em todas as coisas, porque Cristo já me libertou. Ele já me salvou. Sou um homem livre.
É claro que há coisas que não são lícitas. Aquilo que um homem em Corinto havia cometido, algo que nem mesmo entre os gentios se encontrava, certamente era ilícito.
Paulo não se refere a essas coisas, porque um cristão, um crente, deveria saber que não deve praticá-las. Quando ele diz: “Todas as coisas me são lícitas”, não inclui aquilo que é claramente pecaminoso. Não inclui os pecados do mundo.
Quando Paulo diz: “Todas as coisas me são lícitas”, ele se refere a uma pessoa que foi salva e liberta; uma pessoa que está em Cristo; uma pessoa que tem a vida de Cristo em si; uma pessoa em quem o Espírito Santo habita; uma pessoa que está em comunhão com o Senhor.
Para essa pessoa, não é necessário mencionar aquelas coisas ilícitas, porque ela não as praticará. Mas o problema é que as pessoas dizem: “Todas as coisas são lícitas. Sou um homem livre. Tenho liberdade. Tenho o direito de fazer tudo o que tenho vontade de fazer”.
Mas nem todas as coisas são proveitosas.
É verdade, queridos irmãos e irmãs, que somos livres em Cristo. Antes, estávamos em escravidão. Não tínhamos essa liberdade. Não podíamos fazer o que queríamos fazer, e fazíamos o que não queríamos fazer, porque não éramos livres.
Mas hoje, graças a Deus, somos livres. Podemos fazer o que queremos fazer, e podemos nos recusar a fazer o que não queremos fazer, porque o Senhor nos libertou. Temos a liberdade de escolher.
Essa é a nossa posição em Cristo. Mas nem todas as coisas são proveitosas. Você pode fazer essas coisas, mas elas são proveitosas?
Encontramos um irmão indo ao tribunal para processar outro irmão. Para esse irmão, isso pode parecer algo lícito. Ele pode dizer: “É meu direito, porque meu irmão me defraudou. Preciso corrigir essa injustiça. Tenho todo o direito de processá-lo no tribunal para que ele devolva o que tomou”.
Não é algo ilícito. Ele se sente livre para fazer isso. Mas é proveitoso?
Em 1 Coríntios 6, a ênfase está mais no seu próprio benefício. Isso lhe traz proveito? Quando você vai ao tribunal para processar seu irmão a fim de recuperar o que perdeu, material e fisicamente talvez recupere a sua perda. Mas, espiritualmente, isso lhe traz proveito?
Quando você faz essas coisas lícitas, elas prejudicam a sua vida espiritual? O ganho vale a pena? Vale a pena obter esse ganho indo ao tribunal?
Oh, irmãos e irmãs, há algo muito profundo em nossa carne: os nossos direitos.
Se algo é ilícito, sabemos que é pecado. Mas, quando se trata da nossa liberdade, quando se trata do nosso direito, é aí que muitas vezes caímos. Exercemos os nossos direitos. Fazemos uso da nossa liberdade porque sentimos que temos todo o direito de fazê-lo.
Exteriormente, talvez acreditemos que estamos fazendo algo permitido, mas como fica o nosso bem-estar espiritual? Isso é proveitoso?
Às vezes fazemos coisas que realmente prejudicam a nossa vida espiritual. Pensem no espírito que se manifesta nesse caso. Alguém vai ao tribunal para processar outro irmão. Ele pode estar fazendo algo lícito, mas, em vez de um espírito de amor e sacrifício, em vez de dizer: “Estou disposto a sofrer”, há um espírito de vingança — um espírito egoísta, centrado em si mesmo.
Então Paulo diz:
Por que recorreis aos injustos para processar vosso irmão?
Não há na igreja algum irmão sábio que possa ajudar a resolver esse problema?
Por que recorres aos gentios?
Eles não são crentes, e vocês recorrem a eles.
Paulo vai um pouco além e diz:
Por que não estais dispostos a ser defraudados por vosso irmão?
A questão é se isso é proveitoso.
Irmãos e irmãs, talvez pensemos que não temos coisas assim hoje, mas temos.
É claro que essa questão de saber se algo é proveitoso também inclui os outros. Quando você faz algo ao seu irmão, isso será proveitoso para ele?
A ênfase em 1 Coríntios 6 está mais em você mesmo. Em 1 Coríntios 10, a ênfase está mais no seu irmão, porque o princípio é repetido:
Todas as coisas são lícitas; mas nem todas as coisas convêm.
Nesse caso, porém, a ênfase está mais no seu irmão.
Quando fazemos alguma coisa, irmãos e irmãs, precisamos considerar: se eu fizer isso, será proveitoso para o meu irmão ou para a minha irmã? Se não for proveitoso para ele ou para ela, mesmo que seja lícito, é algo que não deve ser feito.
Aqui, então, encontramos o primeiro princípio de toda conduta cristã. Sempre que surgir alguma coisa, você precisa ir ao Senhor e dizer: “Senhor, sim, Tu me libertaste. Sou uma pessoa livre. Todas as coisas me são lícitas. Mas isso é proveitoso?”
Quando faço isso, prejudico a minha vida espiritual? Isso causará dano aos meus irmãos e irmãs? Estou buscando o benefício espiritual deles?
É claro que o apóstolo aqui não se refere ao proveito material, físico ou temporário. Ele se refere ao proveito eterno, espiritual.
O segundo princípio é este:
Eu não me deixarei dominar por nenhuma.
O cristão é livre. Todas as coisas são lícitas. Você tem liberdade para fazer essas coisas. Mas Paulo disse:
Eu não me deixarei dominar por nenhuma.
Se alguma coisa o escraviza, ela pode até ser lícita, mas você está escravizado. Em vez de você dominá-la, ela domina a sua vida. Em outras palavras, você tem de fazê-la. Se não a fizer, sente que não consegue viver. Você depende dela.
Isso é algo que se apoderou da sua vida. Você está debaixo do seu controle. Ora, se isso acontece, há algo muito errado.
Somos cristãos. Estamos debaixo do controle do nosso Senhor. Nossa vida está debaixo do Seu controle. Ele é o nosso Deus. Ele é o nosso Senhor. Mas, quando estamos debaixo do controle de alguma coisa, por mais lícita que ela seja, há algo fundamentalmente errado.
Provavelmente, nos primeiros dias, os coríntios tinham o mesmo problema que temos hoje com o preço da carne. Como a carne era cara, era possível encontrar carne mais barata no mercado.
Os coríntios ofereciam sacrifícios aos seus ídolos no templo. Depois de oferecerem o sacrifício, a carne pertencia aos sacerdotes. É claro que os sacerdotes daqueles templos de ídolos não conseguiam consumir toda a carne.
Então comiam parte da carne, mas levavam a maior parte ao mercado para revendê-la. O lucro ficava com os sacerdotes. Geralmente, vendiam essa carne mais barato, porque não haviam pagado por ela. Assim, a carne que havia sido oferecida aos ídolos era vendida no mercado por um preço muito mais baixo.
Se você quisesse comprar carne mais barata, era essa que procurava.
Mas algumas pessoas tinham a consciência fraca. Quando compravam essa carne e a comiam, sentiam que estavam comendo carne oferecida aos ídolos. Em outras palavras, sentiam que sua consciência era contaminada pelas coisas oferecidas no templo.
No entanto, a carne era mais barata. E, se o desejo de comer carne fosse tão forte que você sentisse que precisava dela, mas não pudesse pagar pela outra carne, então, em vez de viver sem carne, deixava que ela controlasse a sua vida. Você precisava comê-la.
Por isso, contrariando a sua consciência fraca, você comprava carne que havia sido oferecida aos ídolos. Ora, irmãos e irmãs, todas as coisas são lícitas, mas:
Eu não me deixarei dominar por nenhuma.
Talvez haja alguma coisa que você precise ter. Em certo sentido, você é um homem livre, mas aquilo passou a controlar a sua vida. Tornou-se seu senhor, em vez de você dominar essa coisa. Quando isso acontece, você sabe que agiu de maneira errada diante de Deus.
Para os crentes de Corinto, é claro, a carne era um problema. Mas você pode ampliar isso e aplicá-lo a muitas coisas.
Há muitas coisas em nossa vida que podem ser lícitas. Mas você está debaixo do controle delas?
Você pode aplicar isso não só ao comer e ao beber, mas também aos hábitos da sua vida, e até aos seus relacionamentos com as pessoas. Pode até aplicá-lo às coisas espirituais.
Se algo espiritual passar a dominá-lo em lugar do Senhor, há algo errado. Precisamos estar livres do controle de todas as coisas, porque foi para isso que Cristo nos libertou.
Ele nos libertou de todas as coisas e nos colocou debaixo do Seu exclusivo controle. Estamos sujeitos a Ele, mas estamos acima de todas as coisas.
Aqui, então, encontramos outro princípio que governa a nossa conduta cristã. Você pode aplicá-lo à medida que o Espírito Santo o convence e o conduz. Ele pode se aplicar a muitas, muitas coisas.
O terceiro princípio é este:
Portanto, quer comais, quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus.
Comer e beber, é claro, são coisas lícitas. Deus nos criou de tal maneira que precisamos comer e beber para sustentar a nossa vida. Portanto, comer e beber são perfeitamente lícitos.
Mas façam todas as coisas para a glória de Deus. É verdade que todas as coisas são lícitas, mas, quando faço determinadas coisas, Deus será glorificado?
Se Deus não é glorificado, não faça isso. Não faça.
Se como, como para a glória de Deus. Se bebo, bebo para a glória de Deus. Se o meu comer e beber trouxerem vergonha e desonra a Deus, então, mesmo em coisas tão lícitas como comer e beber, devo me abster delas.
No caso dos coríntios, era mais do que simplesmente comprar carne no mercado.
A vida social deles era assim: tinham muitas festas. Quando faziam uma festa, geralmente a realizavam no templo. Assim como hoje as pessoas podem fazer uma festa em um clube ou em um clube de campo, a vida social deles estava muito ligada aos seus templos.
Quando um vizinho dava uma festa, mandava servir o banquete no templo. Era para lá que iam para participar da vida social.
O problema dos crentes de Corinto era que agora eles eram salvos. Já não iam ao templo para oferecer sacrifícios; isso eles sabiam. Mas estavam separados de toda a vida social, porque todas as festas aconteciam nos templos. Se não fossem ao templo, não teriam vida social.
Não podiam se divertir. Gostavam de comer. Gostavam de beber. Gostavam de passar momentos agradáveis. Mas todas as festas aconteciam nos templos. O que deveriam fazer?
Sabiam que não deveriam ter nada a ver com os ídolos. Sabiam disso. Mas não estavam dispostos a pagar o preço de seguir o Senhor por um caminho solitário.
Ainda ansiavam por essa vida social. Queriam desfrutar a vida. Queriam continuar sua vida social com os vizinhos.
Então, quando eram convidados para essas festas, o que faziam? Tentavam racionalizar.
Alguns diziam: “Temos conhecimento. Sabemos que um ídolo não é nada. Eles não são deuses verdadeiros; não são nada. Sabemos que há um só Deus. Se os ídolos não são nada, então o templo construído para os ídolos não é nada, e o alimento sacrificado aos ídolos não é nada. Portanto, isso não deveria nos afetar de maneira alguma”.
Eles tinham conhecimento. Não se podia contestar esse conhecimento. O conhecimento deles era verdadeiro. Era verdadeiro.
Assim, com base nessa racionalização e nesse conhecimento, continuavam a ir ao templo e a se divertir.
Ora, irmãos e irmãs, não se pode questionar o conhecimento deles. Seu conhecimento era real. Mas a motivação era errada. Não estavam glorificando a Deus. Estavam se divertindo.
Em outras palavras, talvez isso fosse lícito para eles porque tinham conhecimento. Mas a razão pela qual iam era que queriam se divertir. Não faziam isso para glorificar a Deus.
Irmãos e irmãs, muitas vezes temos o mesmo problema. Gostamos de nos divertir e tentamos racionalizar. Mas a questão é: Deus é glorificado? Deus é glorificado?
Se Deus não é glorificado, então isso não é algo que devemos fazer. Porque o nosso corpo não é nosso; é do Senhor. Devemos glorificar a Deus no corpo.
O quarto princípio é este: não deem motivo de tropeço ao seu irmão.
Tudo pode ser lícito para você. Se você tem conhecimento, pode fazer isso. Mas deve considerar o seu irmão. Se o que você faz é lícito para você, mas fará seu irmão tropeçar, não faça.
Não por sua própria causa, mas por causa do seu irmão. Porque:
O conhecimento ensoberbece, mas o amor edifica.
Somente o amor edifica.
Portanto, façam tudo o que edifique as pessoas, tudo o que as construa, e não as destrua.
Aqui vemos que alguns dos coríntios afirmavam ter conhecimento, e por isso iam a esses templos e desfrutavam das festas.
Esqueciam-se completamente daqueles novos crentes, daqueles que haviam sido salvos recentemente, e os negligenciavam, pois antes eles haviam adorado ídolos.
Por isso, a consciência deles era contaminada. Não podiam entrar no templo. Não podiam se sentar ali e comer alimento que havia sido oferecido aos ídolos, porque, ao fazerem isso, sentiam que estavam tendo comunhão com os ídolos. Sua consciência era contaminada.
Mas então viam esses irmãos e irmãs mais antigos entrando nos templos e se divertindo. Em sua simplicidade, diziam: “Bem, se eles podem fazer isso, por que nós não podemos?”
Mas, quando entravam no templo e se divertiam, sua consciência não estava em paz. Se alguma coisa é feita sem uma consciência em paz, isso é pecado.
Assim, para eles, haviam cometido pecado.
E Paulo disse:
Como podeis fazer tropeçar um irmão por quem o Senhor morreu?
Como podeis fazer isso?
Se o meu comer carne fizer meu irmão tropeçar, então não a comerei.
Nunca mais comerei carne.
Não há nada de errado em comer carne. Mas, se isso fizer seu irmão tropeçar, Paulo disse:
Prefiro não comer.
Você pode ir ao mercado, comprar carne e comê-la — tudo bem. Se algumas pessoas o convidarem para comer com elas, coma o que for colocado diante de você. Mas, quando alguém disser: “Isto foi oferecido em sacrifício”, então não coma — não por sua própria causa, mas por causa dele.
Ora, irmãos e irmãs, é verdade que algumas pessoas têm a consciência fraca. Precisamos distinguir uma consciência sensível de uma consciência fraca. Uma consciência fraca se deve à falta de conhecimento.
Devemos ajudar esses irmãos e irmãs de consciência fraca, para que possam ser libertos dessa fraqueza de consciência. Mas, antes que sejam libertos, você precisa respeitar até mesmo a consciência fraca deles.
Você não pode se orientar apenas pela sua consciência forte. Precisa levar em conta a consciência deles. Isso é amor. Isso é amor. E somente o amor edifica.
Irmãos e irmãs, aqui vemos esses quatro princípios. Pelo poder do Espírito Santo, pratiquem esses princípios em sua conduta diária uns para com os outros. Que diferença isso fará!
Eles são muito práticos. Antes de tudo, conhecemos a nossa posição. Sabemos que a nossa posição é esta: somos livres em Cristo. Essa é a nossa posição.
Não estamos sendo colocados novamente debaixo da lei. Não há contradição aqui. Em Romanos, Paulo disse que não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça. Em Gálatas, Paulo disse:
Não volteis a vos colocar debaixo da escravidão da lei, porque Cristo já vos libertou.
É verdade. Somos livres, irmãos e irmãs. Nós, que somos salvos, somos livres. Para nós, todas as coisas são lícitas. Temos nossos direitos. Temos nossas liberdades. Graças a Deus por isso.
Essa é a nossa posição. Mas tenham cuidado com a maneira como usam seus direitos.
Paulo disse:
Não sou eu livre?
Não sou eu apóstolo?
Não posso fazer como os demais?
Pedro pode levar sua esposa e viajar com ela?
Não posso fazer como os demais, tendo minhas necessidades físicas supridas enquanto vos levo o evangelho?
Mas Paulo disse:
Não faço uso do meu direito.
Não faço pleno uso do meu direito.
Não o faço.
Isso é muito importante. Somos livres. Todas as coisas são lícitas. Mas isso significa que você tem de usar todas as suas liberdades?
Você pode, por amor a Cristo, abrir mão de algumas das suas liberdades? Pode deixá-las de lado para ajudar seus irmãos e irmãs e para glorificar a Deus? Está disposto a fazer isso?
É ao abrir mão dos nossos direitos por amor a Cristo, ao não fazer uso da nossa liberdade por amor a Cristo e por causa de um irmão mais fraco, que se manifesta o amor. Isso é amor.
E, quando há esse amor entre o povo de Deus, a igreja é edificada e Deus é glorificado.
Por isso, agradecemos a Deus. Por causa da confusão na igreja em Corinto, recebemos alguma compreensão daqueles princípios espirituais que precisam ser aplicados ao nosso relacionamento uns com os outros.
Que o Senhor use estas palavras para nos ajudar de maneira prática. Vamos orar.
Ó Senhor, nós Te louvamos e agradecemos porque Tu nos libertaste. Todas as coisas são lícitas para nós que estamos em Cristo.
Mas, Senhor, estamos debaixo da graça. Somos livres, mas estamos debaixo da graça. A Tua vida em nós é a nossa lei.
Nós Te louvamos e agradecemos porque Tu nos deste liberdade para escolher. Tu nos dás a força para fazer aquilo que Te agrada.
Senhor, não permitas que sejamos tão centrados em nós mesmos a ponto de vivermos para nós mesmos. Mas, Senhor, capacita-nos a abrir mão dos nossos direitos, até mesmo da nossa liberdade, por amor a Ti e por amor aos nossos irmãos.
Ó Senhor, enche o nosso coração com o Teu amor, para que realmente busquemos o benefício dos outros; para que não estejamos debaixo do controle de coisa alguma; para que, em todas as coisas, possamos glorificar-Te, edificar os outros e não ser motivo de tropeço para ninguém.
Ó Senhor, ajuda-nos a enxergar todas essas coisas. Sustenta-nos pelo Teu Espírito.
E pedimos tudo em nome do nosso Senhor Jesus, e somente para a Sua glória. Amém.