Hoje estamos nos ocupando do aspecto da ressurreição relacionado à cruz.
Nesta tarde, vou pedir que vocês considerem comigo alguns dos títulos do Senhor ressuscitado — os títulos do Senhor Jesus em Sua ressurreição — em Apocalipse 1:4-5.
João, às sete igrejas que estão na Ásia: graça e paz a vós, da parte Daquele Que é, Que era e Que há de vir; e da parte dos sete Espíritos Que estão diante do Seu trono; e da parte de Jesus Cristo, a fiel testemunha, o primogênito dos mortos e o soberano dos reis da terra.
Vocês têm três títulos do Senhor em Apocalipse. Que eles se referem a Ele em Sua ressurreição fica bem claro pelo contexto, no qual Ele mesmo diz a João:
Eu sou Aquele Que vive; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos.
Três títulos: a fiel testemunha, o primogênito dos mortos e o soberano dos reis da terra.
É importante observar duas coisas ao avançarmos neste assunto. Primeiro, este é o livro da revelação, ou do desvelamento, de Jesus Cristo, como declara a primeira frase.
Segundo, é a revelação Dele exercendo autoridade e juízo: primeiro, nas igrejas; segundo, nas nações; e terceiro, no reino de Satanás. Essas três coisas abrangem todo este livro.
Essa autoridade, que Ele é aqui revelado exercendo, está, por sua vez, fundamentada em três coisas:
À primeira vista, vocês perceberão que essas três coisas são uma exposição dos três títulos. Aquilo que Ele demonstrou ser em Sua Pessoa, na encarnação: a fiel testemunha, acompanhando-O até a cruz e em toda a experiência da cruz. Aquilo que Ele Se tornou ao triunfar sobre a morte: o primogênito dos mortos. E aquilo que Ele é em Sua exaltação, pela vindicação divina: o soberano dos reis da terra.
Toda a Sua autoridade e todo o Seu juízo se fundamentam nessas três coisas — naquilo que Ele demonstrou ser. Vamos considerá-las uma por uma, até onde o tempo permitir.
A fiel testemunha: o testemunho na encarnação — isto é, em Sua Pessoa enquanto esteve aqui na terra.
Ora, uma testemunha é a personificação da verdade. Se ela é uma testemunha verdadeira, se tem o direito de ser chamada de testemunha, ela mesma deve ser a própria personificação da verdade.
Jesus, como a fiel testemunha, era, podemos dizer, a representação fiel do pensamento de Deus acerca do homem. Toda a raça humana havia fracassado em ser aquilo que Deus pretendia que o homem fosse. Jesus Se tornou isso: uma representação fiel do pensamento de Deus na criação do homem.
É assim que devemos olhar para Ele enquanto esteve aqui na terra — não apenas seguindo Seus passos, observando Suas palavras e Suas ações, interessando-nos ou até ficando fascinados com Seus ensinamentos e Suas obras poderosas, mas olhando mais profundamente: mais profundamente para o Seu coração, para a Sua mente, toda a Sua maneira de pensar, todo o Seu espírito.
Olhando mais profundamente, para ver que tipo de homem é este. O que procede da própria natureza deste Homem? Todas as Suas reações a todas as circunstâncias, condições, provações, sofrimentos e decepções; tudo o que Ele encontra neste mundo e tudo o que encontra nos homens; tudo o que encontra nas circunstâncias de Sua vida e como Se comporta — a disposição de coração que manifesta —, aquilo que procede do homem interior. Que tipo de homem é este?
Creio que podemos resumir a vida do Senhor Jesus de três maneiras: amor perfeito, fé perfeita e obediência perfeita.
Amor perfeito a Deus, Seu Pai. Isso não se vê apenas nas coisas que Ele diz a esse respeito e no que acrescenta sobre o assunto, mas se vê em Seu relacionamento com o Pai do princípio ao fim: um amor perfeito.
Se Ele tivesse sido diferente do que era, talvez tivesse feito algumas perguntas acerca do Pai: por que Sua sorte tinha de ser aquela; por que isto e por que aquilo Lhe aconteciam, até mesmo a cruz; por que era chamado a fazer isto, a suportar isto; por que era tão provado pelos próprios homens que, segundo Ele dizia, o Pai Lhe havia dado.
Ele disse:
Aqueles que Tu Me deste.
Se vocês fossem diferentes de Cristo, poderiam ter olhado para aqueles homens e dito: “Veja o que Tu me deste! Veja o que Tu me deste — e eu tenho de suportar tudo isso! São estes que Tu me deste!” Entendem o que quero dizer?
Mas em nenhum momento, em ocasião alguma, sob circunstância alguma — sofrimento, adversidade, provação, provocação, decepção — vocês encontram uma nuvem encobrindo Seu amor pelo Pai.
E o que diremos sobre Seu amor por eles? Precisa ser um amor perfeito, não é?
Mas aqui está a declaração:
Tendo amado os Seus que estavam no mundo, amou-os até o fim.
Até o fim. Esse é o amor que nunca falha, que nunca desiste, que nunca desaparece. Poderia ter sucumbido muitas vezes, mas aqui está o amor perfeito.
E quanto ao mundo? Refiro-me ao mundo da humanidade pecadora, fraca, má e perseguidora — não ao sistema do mundo, que Ele decididamente odiava e repudiava, mas ao mundo dos homens: aquele mundo que Deus amou tanto que Se entregou por ele.
E diante de seus piores representantes — seus piores representantes, que exerciam seu poder para destruí-Lo completamente, para abatê-Lo —, Ele disse:
Pai, perdoa-lhes.
Não, “abater” não é uma palavra forte demais. Ele foi levado como uma ovelha ao matadouro — para abaterem o Filho de Deus.
Amor perfeito. Ele é o Homem que Deus pretendia que o homem fosse. E aqui está o Homem à semelhança de Quem Deus trabalhará para conformar todos os homens em Seu reino: amor perfeito, a fiel testemunha.
Fé perfeita. É muito claro que Sua vida, desde o início até o fim, foi deliberadamente colocada por Deus sobre uma base de fé.
Em todas as questões materiais e temporais, Sua vida foi uma vida de fé; mas, de maneira muito mais profunda e sujeita a provas do que no âmbito temporal, no âmbito espiritual Sua vida foi uma vida de fé.
Basta vocês se sentarem e pensarem um pouco em até onde sua fé os sustentaria nas condições da vida Dele. Vocês descobrirão, tenho plena certeza, que não irão muito longe com Ele. Sua fé não resistirá a boa parte do que sobreveio a Ele.
Se compreendêssemos tudo o que estava envolvido nessa necessidade de fé — Alguém Que, por toda a eternidade passada, nunca precisara viver pela fé, nunca precisara viver pela fé; Ele tinha tudo o que o céu pode dar: suas riquezas, sua honra, sua glória, seus servos para servi-Lo, para cumprir Suas ordens a uma palavra. Nunca precisara viver pela fé; tudo era visão, tudo era manifestação — e agora estava esvaziado de tudo isso.
Uma coisa é nunca ter tido nada além disso. Não é tão difícil passar sem algo quando você nunca o teve. Mas, se você teve tudo e de repente se encontra numa posição em que simplesmente não pode fazer o que fazia antes — não dispõe dos recursos para fazê-lo; de qualquer forma, não lhe é permitido fazê-lo; está moralmente obrigado a não fazê-lo —, você aceitou uma vida, um caminho e uma ordem que o proíbem de recorrer àqueles outros recursos e o obrigam a viver inteiramente a partir de Outro, a partir de Deus, em todas as coisas.
É uma mudança enorme. E isso é fé. Isso é fé.
Sua fé era perfeita, e é assim que Deus pretendia que o homem fosse. Foi justamente nesse ponto que o primeiro homem fracassou: ele não confiou plenamente em Deus. Amor perfeito e fé perfeita.
E obediência perfeita. Obediência perfeita.
Não precisamos nos deter nisso. Sabemos como, em todos os momentos e em todas as coisas, tendo Se comprometido com a vontade de Seu Pai, Ele lutou até o fim sobre essa base:
Não a Minha vontade, mas a Tua.
A Tua vontade, a Tua vontade, até o fim e através de tudo.
E que vontade era essa!
Tornou-Se obediente até a morte, e morte de cruz.
Perfeito nessas três coisas — e foi assim que Ele foi a fiel testemunha do pensamento de Deus acerca do homem. Ele era uma representação perfeita da mente de Deus. Nessa medida, Ele era uma testemunha fiel.
Além disso, Ele era uma testemunha fiel da verdade. A palavra que estava muito frequentemente em Seus lábios era “verdade”. Em outro lugar deste livro de Apocalipse, Ele é chamado de “a testemunha fiel e verdadeira”: a fiel testemunha da verdade.
Havia fidelidade em Seu testemunho — em Seu testemunho acerca da verdade sobre o homem. Ele não encobria nada. Não fingia que o homem era melhor do que realmente é. Era fiel em Seu testemunho acerca do que o homem é.
Nós poderíamos ter medo de fazer isso. Poderíamos pensar que não seria prudente. Certamente saberíamos que falar a verdade sobre os homens seria impopular. Mas Jesus era fiel nisso: em descobrir e expor a verdade sobre o homem.
Ele era fiel à verdade sobre Deus. Era fiel em Seu testemunho da verdade sobre o pecado — o pecado. E era fiel em Seu testemunho da verdade sobre Satanás.
Ele não trata esse assunto com evasivas. Não hesita em desmascarar o diabo. Ele o expõe, arrasta-o diretamente para a luz, diz exatamente o que ele é: é mentiroso desde o princípio; é homicida.
Uma fiel testemunha da verdade, porque Ele era a verdade. Sua natureza era a verdade.
Isso é tremendamente importante em relação ao poder e à ressurreição, à autoridade, ao governo — àquilo que aqui é revelado acerca de Cristo em Sua ressurreição. É algo básico, fundamental, que haja a verdade: uma testemunha verdadeira.
Vejam, Sua autoridade, Seu juízo, Seu governo, tudo o que Lhe pertence — Seu direito de chamar as igrejas a prestar contas, Seu direito de julgar as nações, Seu direito de lidar com o reino de Satanás — fundamenta-se nesta única coisa: Ele é a verdade. Ele é verdadeiro. Ele é verdadeiro.
Não pode haver nenhuma contestação por parte da igreja, do mundo ou de Satanás que encontre Nele algum ponto defeituoso, que comprove alguma falta, que invalide toda a Sua autoridade e Seu direito de julgar. Tudo repousa sobre o fato de que Ele é verdadeiro.
Queridos amigos, passemos agora Dele para nós mesmos, para a igreja. Vejam a fraqueza, a incapacidade de produzir impacto, a falta de autoridade, a ausência de autoridade e todo esse terrível estado de fraqueza.
O mundo pode olhar para a igreja, apontar o dedo e dizer que a igreja não tem influência nem poder sobre o mundo; e Satanás pode permanecer firme, conservar seu território e quase rir da igreja. Isso se deve, em grande parte, ao fato de que a verdade não está aqui. Não é verdadeiro. Simplesmente não é verdadeiro.
Muitas das coisas que vocês dizem podem ser verdadeiras em si mesmas, mas não são verdadeiras em vocês. Muitas das coisas que vocês professam, embora em si mesmas possam estar corretas, não são verdadeiras a respeito de vocês. Há uma distância entre aquilo que vocês professam e dizem e aquilo que vocês mesmos são. Essas coisas simplesmente não são reais no caso de vocês. Só de pensar nisso, toda a sua posição fica comprometida.
Vocês entendem aonde quero chegar. Essa é uma questão muito importante para o testemunho, para a influência, para a eficácia, para nos apresentarmos diante de Deus, diante do mundo e diante de Satanás. Que grande lugar Deus deu a essa questão da verdade.
Ele mesmo é o Deus da verdade. Sua Palavra mostra que Ele é muito zeloso pela verdade. Diz-se que Ele deseja a verdade no íntimo. Somos informados de que Ele considera abomináveis todas as mentiras. Ele destinou todos os mentirosos ao lago de fogo, assim diz a Palavra.
Ele exclui da cidade, a Nova Jerusalém, tudo o que pratica a mentira. Isso não tem lugar lá dentro. Ele mesmo é chamado de a verdade. Ele Se chamou de a verdade, e aqui Ele é a testemunha fiel e verdadeira.
Enquanto, do outro lado, Satanás — o outro extremo, um reino inteiramente diferente — é chamado de mentiroso e pai da mentira.
Toda a estrutura da criação desmoronou quando a mentira, quando a falsidade, entrou. Naquele momento, toda aquela bela estrutura simplesmente se despedaçou. Tudo por causa de uma mentira. Uma mentira entrou.
E, se houver uma mentira em alguma coisa, é isso que lhe acontecerá mais cedo ou mais tarde. A presença de uma mentira em qualquer estrutura significará seu colapso, sua desintegração.
O resultado da entrada daquela mentira no princípio foi que o próprio homem se tornou uma mentira. O homem se tornou uma falsidade. Não apenas havia algo falso nele — ele mesmo se tornou falsidade. É uma criatura enganada. Há uma mentira em sua própria natureza.
Ele não é aquilo que Deus verdadeiramente o criou e pretendia que fosse. É uma representação falsa do pensamento de Deus acerca do homem. Há uma mentira não apenas em sua natureza e constituição, mas também em sua vida e em seu trabalho.
Ele espera e crê, trabalha e se esforça — e tudo é em vão. Tudo é em vão.
O sábio disse que havia explorado todos os campos do conhecimento e do saber. Havia investigado todas as leis ocultas. Havia feito disso sua ocupação: entrar em todos os campos, descobrir seus segredos e conhecer e familiarizar-se com todas as coisas — com todas as coisas.
E ele disse, depois de ter feito isso — e, sabem, ele realmente alcançou muita coisa; a rainha do Sul veio para conhecer sua sabedoria, e a sabedoria de Salomão é proverbial, para não dizer fabulosa —, depois de ter feito tudo isso e de ter feito disso a ocupação de sua vida, ele disse:
Tudo é vaidade. Tudo é vaidade.
Ah, é vaidade. Há uma mentira em tudo isso. Há uma falsidade em toda essa realidade.
Decepção — por melhor que seja o que o homem possa fazer, a decepção é seu destino. Esse é o fim. O homem pensa que é livre, mas é prisioneiro. Pensa que sabe — que tolo!
Não há outra palavra. À luz das coisas de hoje, temos de dizer: “Ah, como os homens são tolos!” Os mais sábios, os mais inteligentes e os mais fortes — ah, como são tolos! Perderam o caminho.
Ele pensa que sabe; é um tolo. Pensa que pode fazer, e faz muitas coisas — mas onde tudo isso termina? Na bomba de hidrogênio: terror, medo em toda a terra; apreensão, pessoas prendendo a respiração; homens sem saber o que fazer, o que fazer. É isso que ele consegue fazer.
O resultado de seu maravilhoso, maravilhoso trabalho — de tudo o que ele pode fazer — apenas leva a mais problemas, ainda mais problemas. Ele constrói sobre a areia, não sobre a rocha. Todo o seu mundo é governado por mentiras: faz de conta, fingimento, falsidade.
Uma das coisas mais raras neste mundo é a honestidade absoluta — na política, na indústria, no comércio, nos negócios, na sociedade: honestidade absoluta.
De modo geral, o homem só consegue ter sucesso neste mundo se apresentar uma imagem falsa, enganar ou fingir; se misturar um pouco as coisas, exagerar um pouco. Pensem em todos os nossos anúncios.
Que mundo maravilhoso, maravilhoso seria este se uma pequena parte do que se diz em nossos anúncios fosse realmente verdade. Teríamos chegado à utopia. Todos nós teríamos corpos imortais! Bem, a era de ouro chegaria se apenas meia dúzia de anúncios fossem verdadeiros.
É verdade. Isso é um fato, sabem. Vocês os leem e, naturalmente, ao lê-los, deixam-se convencer e saem para comprar aquele alimento, remédio ou alguma outra coisa. Experimentam e, depois, bem, aquilo não fez o que o anúncio dizia que faria.
Mas o homem só consegue conduzir seu mundo assim. Só se consegue progredir, só se consegue ganhar dinheiro, só se consegue alcançar algum sucesso por meio dessas aparências e desses exageros que são uma mentira, vejam, em alguma parte de toda a criação.
E a mentira entrou na religião.
A acusação que nosso Senhor fez contra os escribas e os fariseus estava numa palavra terrível, uma palavra terrível: hipócritas. Atores, fingidos, aqueles que fazem de conta — hipócritas.
Por fora, o prato lavado; por trás dessa aparência, um sepulcro caiado de branco, mas, por dentro, ossos em decomposição. O Senhor enxergava além da aparência. É uma história terrível, não é? Essa história da natureza enganada e mentirosa do homem.
Em contraste com isso, vejam, Jesus disse:
Eu sou a verdade. Vim para dar testemunho da verdade.
Entre Suas últimas palavras diante de Pilatos estava a afirmação de que viera para dar testemunho da verdade. E Pilatos estava tão pouco familiarizado com essa realidade que disse:
Que é a verdade?
“Não estou familiarizado com isso. Não sei nada a esse respeito. O que é? O que é essa coisa que Tu chamas de verdade?” Este mundo não sabe o que isso é.
Verdade — a testemunha verdadeira. Vejam, essa é uma grande lei espiritual fundamental. É por isso que eu disse que é tão importante observar essas coisas no início: este é um desvelamento de Jesus em autoridade, em governo e em justo juízo, porque tudo repousa sobre isso.
Ninguém tem direito algum de exercer autoridade ou juízo. Ninguém tem direito de ocupar uma posição de governo, a menos que se possa dizer dele: é verdadeiro. É verdadeiro — absolutamente verdadeiro, verdadeiro de fato. Não há mentira nele, não há falsidade nele, não há nada questionável a seu respeito, não há nele duas coisas que se contradigam.
Queridos amigos, é por isso que o Senhor Jesus veio às igrejas no início. Ele começou ali, vejam. O juízo começa pela casa de Deus, e Ele iniciou todo esse exercício de Sua autoridade com as igrejas — as sete igrejas, que simbolizam, naturalmente, toda a igreja.
E Ele Se coloca diante delas e, na realidade, está dizendo: “Vejam, vocês estão fracas. Vocês fracassaram. O testemunho entrou em colapso. O mundo não está sentindo o impacto da presença de vocês. Os poderes do mal estão penetrando na vida de vocês, igrejas.”
E isso acontece porque — essa é a implicação — há algo falso ali, algo falso ali. Observem como, repetidas vezes, em Suas mensagens às igrejas, Ele levanta essa questão da falsidade e da verdade.
Onde as coisas são verdadeiras — ah, como é importante que seja assim conosco: que sejamos reais, que sejamos genuínos; que aquilo que dizemos seja verdadeiro, que aquilo que professamos seja verdadeiro a nosso respeito. Tem de ser assim.
Haveria enorme poder espiritual neste mundo se a igreja pudesse se recuperar da fraqueza resultante de uma posição falsa — algo que não é realmente verdadeiro, conforme a verdade está em Jesus.
Se a nossa representação do pensamento de Deus estivesse mais exatamente de acordo com esse pensamento, que poder haveria! Que poder haveria.
Mas, como eu disse, assim como a criação no princípio desmoronou e se despedaçou porque uma mentira entrou, permanece o fato de que, onde quer que haja algo questionável, duvidoso, que não seja verdadeiro, que não seja real, haverá, mais cedo ou mais tarde, um colapso espiritual.
Precisamos ser edificados sobre o fundamento da verdade — da verdade.
Ora, isso explica muito bem o próprio título que Jesus deu ao Espírito Santo:
Quando vier Ele, o Espírito da verdade.
O Espírito da verdade.
O Espírito Santo é exato. Ele é minucioso. Ele enxerga através de tudo. E, se vocês e eu andarmos no Espírito, seremos muito verdadeiros, seremos muito reais, sem nada duvidoso ou falso em nós.
Seremos corrigidos em tudo. Pode ser um exagero; pode ser um pretexto, um faz de conta — qualquer coisa que não seja verdadeira, que seja falsa. O Espírito Santo nos corrigirá nisso.
Não porque Ele tenha prazer em nos levar a juízo, mas simplesmente porque isso é muito importante para a edificação daquilo que permanecerá firme, subsistirá e atravessará tudo — atravessará tudo até o fim — e sairá triunfante no final.
É muito importante que, desde o fundamento, tudo seja verdadeiro. O Senhor nos fará descer, descer, descer — desmontará tudo — e nos levará até a base para começar com aquilo que é verdadeiro, caso exista uma superestrutura insegura porque não é verdadeira.
E devemos ser gratos ao Senhor por Ele fazer isso. Tenho certeza de que diríamos: “Senhor, que não haja falsidade na minha posição, nenhuma inverdade naquilo que professo. Que não haja nada que não seja absolutamente real naquilo que as pessoas pensam que eu sou.”
Muito importante. Vejam, o Senhor Jesus ocupa a posição que ocupa, e tem o direito de ocupá-la, para julgar e ser a medida, porque Ele é a testemunha verdadeira, a testemunha verdadeira — isto é, Ele é a personificação da verdade.
Ora, essa é uma palavra solene. É uma palavra que nos sonda. Talvez não seja uma palavra muito inspiradora e animadora. Mas, vejam, afinal de contas, esse é um título do Senhor ressuscitado.
Por que Deus O ressuscitou dentre os mortos? Por que Ele pôde ser ressuscitado dentre os mortos? Deus não ressuscitará uma mentira. Deus jamais sequer reanimará uma falsidade.
Ele foi ressuscitado porque era a testemunha verdadeira. Em Sua própria Pessoa, havia dado um testemunho verdadeiro de Seu Pai e dos pensamentos de Seu Pai. A presença da verdade é uma questão de vida, vejam. A vida nunca pode caminhar ao lado de algo que não seja verdadeiro. A vida exige a verdade.
Deixamos isso, então, e passamos ao segundo título: o primogênito dos mortos. Aquilo que Ele Se tornou ao triunfar sobre a morte.
Essa expressão, “primogênito”, é usada, como vocês provavelmente sabem, várias vezes no Novo Testamento. Em Romanos 8:29, nós a encontramos:
Para que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos.
A ideia aparece repetidamente no Novo Testamento. Naquele grande capítulo sobre a ressurreição, 1 Coríntios 15, ela está ali novamente: Cristo ressuscitado, as primícias dentre os mortos.
Uma referência muito interessante a isso, que me impressionou bastante, porque admito que não a havia notado, ou que ela não me havia chamado tanto a atenção antes, está em Atos 26. Há um grande significado ligado a ela.
Atos 26:23. Aqui está Paulo apresentando sua defesa diante de Festo e dos demais, e é isto que ele diz:
Que o Cristo devia padecer e que, sendo o primeiro pela ressurreição dos mortos, devia anunciar a luz tanto ao povo como aos gentios.
Ele, o primeiro pela ressurreição dos mortos — a primeira testemunha, o primeiro pregador, o primeiro a proclamar. Isso começa com a ressurreição. Ele é o primeiro de uma longa linhagem de pregadores.
Bem, não vou me deter nisso nem desenvolver muito esse ponto. Estou dizendo que essa expressão, “o primogênito”, ocorre repetidamente no Novo Testamento. Bem, o que ela implica?
Bem, em primeiro lugar, o sentido é bastante evidente: implica que haverá uma sucessão. E aqui voltamos a Isaías 53:
Ele verá a Sua descendência.
Ele verá a Sua descendência. Ele é o primogênito.
Voltamos novamente a João 12:24: o grão de trigo e o resultado abundante de sua queda na terra e de sua morte — o primogênito entre muitos irmãos.
Primogênito dentre os mortos. Isso significa, então, que todos aqueles dos quais Ele é o primeiro — os muitos irmãos, a descendência, os filhos gerados por Sua ressurreição — compartilharão a mesma vida imortal e triunfante.
Eles são uma família que possui uma vida que já demonstrou, no primeiro membro da família, ser mais do que suficiente para vencer a morte. Grande esperança, grande segurança, grande consolo! Verdade maravilhosa, se fazemos parte desse povo, da família dos muitos irmãos.
Ele nos transmitiu a mesma vida que possui, a qual demonstrou, de maneira tão maravilhosa e gloriosa, que a morte não está à altura dela.
Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó sepultura, a tua vitória?
Isso aparece, como vocês sabem, no capítulo da ressurreição. Agora Cristo ressuscitou. Os irmãos, os muitos irmãos, compartilham a mesma vida que vence a morte. Nós a temos — nós a temos —, se fazemos parte desse povo.
Mas isso significa um povo de caráter distinto. Eles representam uma determinada vida: um povo de caráter distinto.
Uma ilustração disso no Antigo Testamento, como vocês sabem, são os levitas. Vocês se lembram da história dos levitas e de sua origem. Quando o povo fracassou e adorou o bezerro de ouro ao pé do monte, Moisés desceu e viu o que havia acontecido.
Ele levou a tenda da congregação para bem longe do acampamento e, então, colocando-se à porta, clamou:
Quem é do Senhor, venha a mim.
E todos os filhos de Levi foram até ele.
E os levitas, como vocês bem sabem, foram tomados como representantes e em lugar de todos os primogênitos de Israel, e se tornaram a igreja dos primogênitos.
Por quê? Porque se separaram daquela iniquidade. Separaram-se daquele pecado, de toda idolatria, de toda desobediência, de toda corrupção. Separaram-se e saíram do âmbito em que aquele mal estava operando.
É um grande tipo e uma grande ilustração. Mas os muitos irmãos, dos quais nosso Senhor é o primogênito, constituem essa igreja dos primogênitos, tão diferente em caráter.
E, assim, o contexto é vividamente apropriado ao que temos aqui acerca do primogênito:
Àquele Que nos ama e, pelo Seu sangue, nos libertou dos nossos pecados.
É um caráter diferente que encontramos aqui nos primogênitos. Eles recebem Dele seu caráter. E, então, sendo o primogênito, Ele é, em todos os sentidos, o protótipo da família.
Paulo nos revelou o grande segredo que estava no coração de Deus desde a eternidade passada quando disse:
Para serem conformes à imagem de Seu Filho.
Conformes à imagem de Seu Filho. Em Sua ressurreição, Ele é o protótipo de todos os filhos que virão a existir.
Avancemos rapidamente para o terceiro título: o soberano dos reis da terra — aquilo que Ele é em Sua exaltação e vindicação.
“O soberano dos reis da terra.” Um título ainda mais pleno e forte nos é dado em Apocalipse 17:14: “Rei dos reis e Senhor dos senhores”.
Ora, no presente, isso não é oficial e temporal em sentido literal; é espiritual. É algo que se desenvolve a longo prazo.
Digo isso porque conheço o problema que surge quando se diz: “Jesus está no trono. Ele é o soberano dos reis da terra, Rei dos reis e Senhor dos senhores.” Então, por que esses homens estão fazendo o que fazem? Esses governantes da terra seguindo o caminho que seguem, esses reis das nações — por quê, se Jesus está no trono?
Lembremos que isso é, antes de tudo, espiritual, e que é algo que se desenvolve a longo prazo.
Em Seu trono, como soberano dos reis da terra, Ele demonstrará, ao longo do tempo, a completa, completa falsidade de todas as pretensões deles.
Nós, queridos amigos, todos os que estamos aqui nesta tarde — mesmo os mais jovens —, vivemos um período em que vimos certos governantes deste mundo se levantarem e erguerem a cabeça. Posso mencionar seus nomes; não vou fazê-lo. Este, aquele, durante nossa vida, ergueram a cabeça para assumir o governo deste mundo.
Toda a sua intenção era o domínio mundial. Um deles pretendia colocar todas as nações sob seu governo, ser ditador não apenas de sua própria nação, mas de todas as nações. E se empenhou em fazê-lo.
Outro pretendia ser o último César, reunir tudo sob seu controle; e ainda houve outro. Nós os vimos se levantar. Nós os vimos avançar até certo ponto e parecer estar a caminho de conseguir isso. E o que aconteceu? O fim vergonhoso desses homens.
Voltem aos outros que fizeram a mesma coisa — Faraó. Pois bem, esses homens terminaram em vergonha e desonra. Sim, há Alguém no trono Que diz: “O domínio mundial pertence a Mim, pertence a Mim.”
O Pai O fez soberano dos reis da terra, e ninguém pode tomar esse lugar. Pode ser um processo longo e doloroso, mas é assim. Isso aconteceu dessa maneira ao longo de toda a história.
Aconteceu com a Babilônia; aconteceu com Roma; aconteceu com outros impérios; e continua acontecendo até hoje — até hoje. Deus deu o império a Seu Filho.
Ele pode permitir que os homens avancem até certo ponto, mas só permitirá que avancem até esse ponto, como fez com Faraó, para mostrar Seu poder e Sua força superiores a tudo o que o homem pode fazer e pode ser. Isso é história, e ainda é história em formação. Ele é o soberano dos reis da terra.
E eu disse que isso é espiritual neste sentido: Seu governo se exerce nas coisas espirituais. Refiro-me ao caráter — a algo como a verdade.
Sabem, no fim, a verdade tem o seu dia. No fim, ela prevalece — é a única coisa que permanece.
Os homens podem estabelecer todo um regime e um sistema de mentiras, mentiras — e, ah, isso é uma coisa terrível hoje. Vejam como grandes potências mundiais se fundamentam em mentiras. De fato, parecem não saber o que é a verdade. Empenham-se em conseguir o que querem por meio de mentiras.
É assim. Mas esperem e vejam: a verdade prevalecerá, e aquilo que se fundamenta na mentira se despedaçará. Ele é o soberano dos reis da terra.
É assim agora. Está chegando o dia — e este livro de Apocalipse nos mostra o dia que está chegando — em que já não será uma questão de longo prazo, nem apenas o desenvolvimento das coisas espirituais.
Ele virá e, muito rapidamente, chamará a juízo os reis desta terra e todas as forças deste mundo. Terá os reinos diante de Si e pronunciará sobre eles o juízo e a sentença para a eternidade.
Está chegando o dia em que isso será visto por todos. Lemos nesta manhã:
Todo olho O verá, e aqueles que O traspassaram; e todas as tribos da terra se lamentarão sobre Ele.
Essa é uma declaração impressionante. Eles estão mortos há dois mil anos. Seu pó não poderia ser encontrado na terra. Seus olhos O verão — aqueles que O traspassaram.
Eles verão. Eles — ah, sim —, não se pode escapar Daquele. Não se pode escapar Dele. O tempo ou qualquer outra coisa não O elimina. No fim, você terá de encará-Lo.
Ele é o soberano dos reis da terra porque Deus O exaltou e Deus O vindicou. É assim.
Essas são grandes coisas, todas ligadas à Sua ressurreição: títulos do Senhor ressuscitado; títulos de grande consolo para a igreja, de grande instrução para nós, os que cremos, e de grande terror para os ímpios.
Que o Senhor nos dê uma nova alegria ao contemplarmos a grandeza de nosso Senhor ressuscitado.