É segunda-feira de manhã, 18 de junho de 1973, em Richmond, Virgínia. A ministração está sendo realizada pelo irmão Stephen Kong.
Mais uma vez estamos juntos. Vamos abrir na carta aos Filipenses, capítulo 2.
Começaremos a leitura em Filipenses 2:1.
Se há, pois, algum encorajamento em Cristo,
se há alguma consolação de amor,
se há alguma comunhão do Espírito,
se há algum afeto e compaixão,
completai a minha alegria, para que penseis a mesma coisa,
tendo o mesmo amor,
unidos de alma, pensando uma só coisa;
nada façais por espírito de contenda ou vanglória,
mas, em humildade de mente,
cada um considerando o outro mais excelente do que a si mesmo;
não atentando cada um para as suas próprias qualidades,
mas cada um também para as dos outros.Pois haja em vós esta mente, que houve também em Cristo Jesus,
o Qual, subsistindo na forma de Deus,
não considerou como objeto de usurpação o ser igual a Deus,
mas esvaziou-Se a Si mesmo,
tomando a forma de servo,
assumindo a semelhança dos homens;
e, sendo encontrado em figura como homem,
humilhou-Se a Si mesmo, tornando-Se obediente até a morte,
e morte de cruz.Por isso também Deus O exaltou sobremaneira
e Lhe concedeu um nome, aquele que está acima de todo nome,
para que, ao nome de Jesus, todo joelho se dobre,
dos seres celestiais, terrestres e de debaixo da terra,
e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor,
para a glória de Deus Pai.
Acabamos de ler essa passagem. Mencionamos ontem à noite que essa carta aos Filipenses, escrita pelo apóstolo Paulo, é uma carta de amor.
Nessa carta, vocês não encontram muita exposição de doutrina ou ensino, embora encontrem ensino e doutrina nela. Nessa carta, vocês percebem que Paulo não está procurando responder a perguntas ou resolver problemas, embora problemas sejam resolvidos.
Essa carta é, sobretudo, uma carta de amor. Paulo a estava escrevendo à igreja que amava profundamente. Ele estava abrindo o coração para eles. Estava procurando compartilhar sua própria vida com eles. Estava buscando o melhor para eles.
É uma bela carta. Nela, vocês encontram Paulo compartilhando com eles — e conosco hoje — o segredo da vida. Como podemos viver nesta terra como cristãos? Como podemos viver como Cristo viveu nesta terra?
Não por nós mesmos, não por nossa força de vontade, não por nossa determinação ou nossas resoluções, não por nossa própria força e esforço, mas pela vida de Cristo que está em nós. Em outras palavras, o segredo da vida cristã é Cristo. Não somos nós; é Cristo.
Paulo disse em Filipenses 1:21:
Para mim, o viver é Cristo.
Não é Paulo quem está vivendo a vida de um cristão. Não é Paulo quem tenta viver como Cristo. É Cristo Quem está vivendo novamente Sua vida em Paulo e, hoje, em cada um de nós. Este é o segredo: para mim, o viver é Cristo.
Nesta manhã, gostaríamos de avançar um pouco mais. Temos a vida de Cristo em nós e, se simplesmente permitirmos que Cristo viva por meio de nós — se deixarmos Cristo viver, ou se vivermos por Cristo —, então seremos caracterizados por determinado espírito, por determinada mente. Essa é a mente de Cristo.
Não apenas a vida de Cristo, mas a mente de Cristo. Muitas vezes, não temos o espírito de Cristo. Em outras palavras, não quero dizer que não temos o Seu Espírito — nós O temos —, mas muitas vezes não manifestamos o Seu Espírito. Não parecemos expressar Sua mente, embora Paulo diga em 1 Coríntios 2:16:
Nós temos a mente de Cristo.
No que diz respeito à nossa posição, no que diz respeito à Sua redenção, como já temos a vida de Cristo em nós, temos, portanto, o Espírito de Cristo em nós. Temos a mente de Cristo em nós. Quanto à nossa posição, isso é verdade. Mas muitas vezes vocês percebem que isso não está sendo manifestado. Por quê? Porque não vivemos realmente pela vida de Cristo.
Se vivermos pela vida de Cristo, então Seu espírito será o nosso espírito. Então Sua mente certamente será expressa como a nossa mente. E isso é muito importante.
A maneira como vivemos é regulada principalmente por nossa mente. Conforme pensamos, assim andaremos. Nossa mente estabelece a direção; ela traça o nosso caminho.
Se fixarmos nossa mente em determinada coisa, seguiremos naquela direção. Buscaremos aquela coisa, e isso se tornará nossa vida, nossa maneira de viver.
Vocês encontram em Romanos 8:6 que a inclinação da carne é morte, mas a inclinação do Espírito é vida e paz. Se nos ocupamos com as coisas da carne, somos carnais; se nos ocupamos com as coisas do Espírito, somos espirituais.
Em outras palavras, se vocês fixam a mente, o pensamento, o modo de pensar — se estão pensando o tempo todo nas coisas da carne —, como podem ser espirituais? Vocês pensam nas coisas da carne durante toda a semana e, depois, no dia do Senhor, vêm e tentam ser espirituais. Isso é impossível.
Se vocês fixam a mente nas coisas da carne, são carnais. Mas, se fixam a mente nas coisas do Espírito, são espirituais. A inclinação da carne é morte; a inclinação do Espírito é vida e paz. Nossa mente é muito, muito importante, porque afeta nossa própria maneira de viver.
Ao ler essa carta, percebemos que a igreja em Filipos parecia ser uma igreja muito madura. Ela teve um começo maravilhoso, como mencionamos ontem à noite, e continuou muito bem.
Paulo disse que, desde o primeiro dia até o momento em que estava preso em Roma, a igreja em Filipos mantinha constante comunhão com ele no evangelho. Era uma igreja que crescia muito bem. Era uma igreja bastante madura.
Parecia não haver nenhum problema naquela igreja — não era como a igreja em Corinto, cheia de problemas. Essa igreja em Filipos parecia ser uma boa igreja. Não havia muitos problemas entre eles, e, no entanto, tinham um problema.
Quando Paulo escreveu essa carta, especialmente no primeiro capítulo, uma palavra foi repetida muitas vezes. Como costumamos dizer, se vocês encontram algo repetido muitas vezes, sabem que há alguma coisa ali.
Curiosamente, Paulo não apontou o verdadeiro problema da igreja em Filipos até chegar ao último capítulo. Na verdade, o último capítulo parece ser um adendo, porque, no capítulo 3, ele já havia dito: “Quanto ao mais”. Em outras palavras, estava concluindo sua carta.
E, quando estava concluindo a carta, ele nem sequer mencionou qual era o problema deles. Somente depois de aparentemente ter concluído a carta é que acrescentou uma nota: “P.S. — vocês têm um problema aqui”. Ele o apontou de maneira tão amável e delicada.
Mas, quando vocês leem essa carta, mesmo no primeiro capítulo, percebem que ele repetiu uma palavra muitas e muitas vezes. Havia uma indicação ali. Qual é essa palavra? Essa palavra é “todos”.
Em Filipenses 1:1, Paulo e Timóteo escrevem:
A todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos.
Ele não estava escrevendo essa carta a alguns dos santos em Filipos. Estava escrevendo essa carta a todos os santos em Filipos.
Em Filipenses 1:4, ele diz:
Constantemente, em cada súplica minha, fazendo com alegria a súplica por todos vós.
Paulo não estava orando apenas por alguns, fossem eles a maioria ou a minoria. Ele fazia súplicas por todos eles com alegria.
Então, em Filipenses 1:7, ele diz:
Como é justo que eu pense assim a respeito de todos vós,
porque me tendes em vosso coração,
e, tanto nas minhas prisões como na defesa e confirmação do evangelho,
todos vós sois participantes da minha graça.
Pensar assim a respeito de todos vocês — ele não fazia distinção. Todos vocês na igreja em Filipos.
Depois, em Filipenses 1:8:
Porque Deus é minha testemunha de como anseio por todos vós
com o profundo afeto de Cristo Jesus.
Ele ansiava por todos eles, não importava quem fosse a pessoa. Todos eles.
Novamente, em Filipenses 1:25:
E, tendo esta confiança, sei que permanecerei
e continuarei junto de todos vós,
para o vosso progresso e alegria na fé.
Deus queria que ele continuasse vivendo para o progresso e a alegria deles na fé.
Aqui vocês percebem que, logo no começo, ele menciona repetidamente: todos, todos, todos.
Depois, vocês percebem que ele continua com isso em Filipenses 1:27:
Somente conduzi-vos de modo digno do evangelho de Cristo,
para que, quer eu vá e vos veja, quer esteja ausente,
ouça a vosso respeito
que estais firmes em um só espírito,
com uma só alma,
trabalhando juntos no mesmo combate
com a fé do evangelho.
Um só espírito, uma só alma, trabalhando juntos no mesmo combate. Depois, em Filipenses 2:1-2:
Se há, pois, algum encorajamento em Cristo,
se há alguma consolação de amor,
se há alguma comunhão do Espírito,
se há algum afeto e compaixão,
completai a minha alegria, para que penseis a mesma coisa,
tendo o mesmo amor,
unidos de alma, pensando uma só coisa.
A igreja em Filipos certamente tinha encorajamento em Cristo. Eles tinham consolação de amor. Tinham comunhão do Espírito. Ao enviarem Epafrodito com uma dádiva para Paulo, mesmo quando ele estava em Roma, demonstraram quanto tinham de consolação de amor, encorajamento em Cristo e comunhão do Espírito.
No entanto, Paulo disse, em essência: “Se vocês querem completar minha alegria” — já que estavam pensando nele —, “então devem pensar a mesma coisa, ter o mesmo amor, estar unidos de alma, pensando uma só coisa”.
Em outras palavras, toda a atmosfera, toda a abordagem, todo o pensamento por trás de tudo era este: Paulo pensava em todos eles e desejava que fossem um — um em espírito, um em amor, um em alma. Deviam pensar a mesma coisa, em tamanha unidade, sendo verdadeiramente um.
Por que Paulo enfatizava tanto isso nessa carta? Porque a igreja em Filipos tinha um problema. Esse era o único problema sério naquela igreja.
Irmãos e irmãs, na verdade, vocês não conseguem encontrar uma igreja perfeita na terra. Não existe nenhuma. Vocês não conseguem encontrar uma igreja sem nenhum problema.
Os problemas são bons — sim, se forem enfrentados corretamente. Se vocês enfrentarem um problema com a atitude correta e da maneira certa, isso significará progresso.
Assim, na igreja em Filipos, embora fosse uma igreja tão madura, eles tinham um problema sério. Esse problema sério parecia lançar uma sombra sobre toda a igreja.
Qual era esse problema? Havia duas irmãs na igreja, duas irmãs que exerciam liderança, duas irmãs espiritualmente fortes: Evódia e Síntique. Elas haviam ajudado Paulo na obra e, no entanto, essas duas irmãs não conseguiam se entender.
Vocês sabem, a igreja em Filipos começou com uma irmã, Lídia. Ela foi a primeira pessoa que veio ao Senhor. Parecia que, na igreja em Filipos, as irmãs eram realmente fortes — muito fortes.
Mesmo na época em que Paulo escreveu a carta, vocês encontram duas irmãs, irmãs espiritualmente muito fortes, que exerciam liderança e, ainda assim, estavam em desacordo uma com a outra. Não no sentido de não conseguirem conversar, mas no sentido de haver rivalidade entre as duas.
Agora, irmãos e irmãs, o problema na igreja em Filipos não era uma questão de verdade. Às vezes, porque as pessoas têm ênfases diferentes ou opiniões diferentes sobre a verdade, isso divide o povo de Deus, o que não deveria acontecer.
Mas, na igreja em Filipos, não havia um problema de verdade, nem um problema de ensino. Era principalmente um problema de personalidade. Era um choque de personalidades; não era um choque em torno da verdade.
Se a questão é a verdade, vocês sabem qual posição devem tomar. É claro que ficam do lado da verdade de Deus. Mas, quando se trata de personalidade, aí está um problema. Qual é a sua posição? Então vocês tomam partido.
Esse era o problema. Essas duas irmãs tinham personalidades fortes, e entraram em conflito. Não entraram em conflito por causa de ensino ou de verdade; criam na mesma coisa. No entanto, de alguma maneira, suas personalidades não pareciam se harmonizar. Entraram em conflito porque cada uma desejava ser a maior.
Então toda a igreja ficou sob uma sombra, porque os irmãos e as irmãs não sabiam que posição deveriam tomar. Deveriam ficar do lado de Evódia ou do lado de Síntique? Como não era uma questão de verdade, estavam perdidos e perplexos. Por causa disso, uma sombra foi lançada sobre toda a igreja. Eles perderam sua alegria.
Esse era o problema deles. Irmãos e irmãs, tenho visto muitos conflitos na igreja, entre o povo de Deus, que supostamente são pela verdade, mas que, na realidade, são pessoais.
Muitas pessoas usam a verdade como uma bandeira: “Não posso ceder, porque é uma questão de verdade”. Mas, se vocês investigarem um pouco mais a fundo, perceberão que elas estão usando a verdade como uma bandeira, enquanto o verdadeiro problema é a personalidade.
Se é uma questão de verdade, vale a pena lutar por ela. Mas, se é uma questão de personalidade, isso não funciona; não produz nada.
Eu me pergunto se o problema na igreja em Corinto era o mesmo. Não sei. Alguns dizem, como lemos em 1 Coríntios 1:12:
Eu sou de Paulo.
Outros dizem:
Eu sou de Apolo.
E outros:
Eu sou de Cefas.
Agora, será que isso é por causa da verdade?
Pode haver diferentes nuances, diferentes ênfases na verdade que Paulo apresenta, que Pedro apresenta e que Apolo apresenta. Isso é possível. Mas será que é por causa da verdade? Eu me pergunto.
Quando as pessoas começam a tomar partido, são guiadas pela verdade ou apenas por uma afinidade natural de personalidade? Receio que haja muitos problemas de personalidade, e não de verdade, provavelmente até mesmo na igreja em Corinto.
É simplesmente que algumas pessoas gostam de Paulo, só isso. Algumas gostam de Pedro, e outras gostam de Apolo. É uma questão de personalidade, não da essência da verdade que eles apresentam.
É a mesma verdade com diferentes nuances, e deveríamos ser capazes de receber toda a verdade com todas as suas nuances. No entanto, a personalidade é um problema. Havia rivalidade entre essas duas irmãs, e cada uma queria ser a maior.
Esse é um problema antigo. Mesmo quando os doze discípulos estavam com nosso Senhor Jesus, essa era sua dificuldade constante. Sempre discutiam entre si sobre quem era o maior. Todos queriam ser o maior.
Era uma questão de personalidade, não uma questão de verdade. Por causa disso, vocês percebem que nosso Senhor Jesus precisava procurar acalmá-los o tempo todo. É um problema que atravessa os séculos.
Como seres humanos, estamos sujeitos a isso. Estamos sujeitos a isso. É uma questão pessoal. Agora, como vocês vão resolver esse problema?
Paulo não iria tratar disso superficialmente. Ele iria até a própria raiz para procurar resolver o problema. Conhecia o problema deles. Sabia que havia rivalidade. Sabia que era um choque de personalidades. Conhecia a atividade da carne.
Essas duas irmãs eram espirituais, e estavam se esforçando para alcançar progresso espiritual. Era simplesmente carne espiritual, se podemos dizer assim — muito sutil, muito sutil. Como Paulo iria resolver esse problema?
Ele mencionou uma coisa: a mente de Cristo. A mente de Cristo. Havia algo fundamentalmente errado. Onde? Na mente. Na mente.
Elas tinham a vida de Cristo e, se vivessem por essa vida, não deveriam ter essa contenda e rivalidade. Deveria haver nelas humildade de mente. Se houvesse nelas humildade de mente, não haveria problema com as personalidades.
O que é a mente de Cristo?
Haja em vós esta mente, que houve também em Cristo Jesus,
o Qual, subsistindo na forma de Deus,
não considerou como objeto de usurpação
o ser igual a Deus.
Pensem em Cristo. Ele subsiste na forma de Deus. Aqueles que entendem grego nos dizem que a palavra “forma”, aqui, significa aquilo que Ele sempre é. Isso nunca muda. É eternamente verdadeiro.
Em outras palavras, nosso Senhor Jesus subsiste na forma de Deus. Ele é Deus. Isso é o que Ele é originalmente, o que Ele sempre é e o que jamais deixará de ser. Mesmo quando Se tornou homem, Ele ainda era Deus. Ele nunca muda, porque subsiste na forma de Deus.
Ele é o Filho de Deus eternamente. Está na forma de Deus para sempre. Não importa o que aconteça com Ele, continua sendo Aquele mesmo. Continua sendo Deus. Bendito seja o Senhor Jesus.
Como Deus, Ele é igual a Deus, porque é Deus, o Filho de Deus. Isso é o que Ele é e será para sempre. Não está sujeito a mudança; não pode ser mudado. Esse é o significado, em grego, de “a forma de Deus”.
E, no entanto, Ele esvaziou-Se a Si mesmo.
Não porque não fosse igual a Deus. Em essência, Ele era um com Deus. Mas, na Divindade — falando humanamente, usando formas humanas de expressão —, antes da eternidade, antes que houvesse tempo, houve um conselho na Divindade.
O Pai, o Filho e o Espírito estavam reunidos em conselho. Era como se estivessem conversando sobre essas coisas. O Pai tinha um plano, um propósito. Mas, para que esse propósito fosse cumprido, a Divindade precisava de Alguém que o executasse.
Então o Filho ofereceu-Se a Si mesmo, não porque não fosse igual ao Pai. Em essência, em vida, Eles eram iguais. Contudo, Ele estava disposto a esvaziar-Se a Si mesmo.
Irmãos e irmãs, lembrem-se: quando nosso Senhor Jesus, o Filho de Deus, esvaziou-Se a Si mesmo, isso não significa que Se esvaziou da forma de Deus. Ele não poderia esvaziar-Se disso, porque essa forma é eterna. Não está sujeita a mudança.
Ele esvaziou-Se da glória, da honra e da posição que tinha na Divindade. Não poderia esvaziar-Se de Sua divindade; não poderia. Mesmo quando era homem, ainda era Deus.
Mas Ele esvaziou-Se da glória, da honra, da posição, da autoridade e do poder que estavam associados à condição divina. Disso Ele podia esvaziar-Se.
Em outras palavras, Ele estava disposto a assumir uma posição inferior para que o propósito de Deus fosse cumprido. Estava disposto a assumir uma posição inferior.
Na verdade, a Trindade deve ser explicada em termos de atuação, não em termos de essência ou substância. Essa é a única maneira de compreender a Trindade, porque os Três são iguais; os Três são um. Eles Se distinguem apenas no que diz respeito à atuação.
O Pai planeja tudo, e o Filho vem para executar o plano. Para executar o plano, Ele precisa humilhar-Se. Precisa sujeitar-Se a Deus. Assim, Ele veio, deixou de lado Sua glória e Sua honra, e tornou-Se homem.
Em Filipenses 2:8, lemos:
Tornando-Se obediente até a morte.
A palavra “tornando-Se”, ali, é uma palavra diferente. Significa que Ele Se tornou aquilo que não era antes.
Sendo igual a Deus, a questão da obediência não entrava em consideração, porque Ele era um com Deus. Mas, quando tomou a forma, a semelhança de homem, então Se tornou obediente ao Pai, até a morte.
Isso significa que Ele Se tornou aquilo que não era antes. Para executar o propósito de Deus Pai, tornou-Se obediente como Filho, até a morte, e morte de cruz.
Assim, irmãos e irmãs, aqui vocês encontram a mente de Cristo — o espírito de Cristo. A mente, aqui, é, na verdade, a atitude mental. Podemos dizer que é o espírito da mente.
Aqui vocês percebem que o espírito da mente de Cristo é uma mente de humildade. Humildade. Ele pôde humilhar-Se, esvaziar-Se, assumir uma posição inferior e ser obediente ao Pai até a morte, até a morte de cruz. Essa é a mente de Cristo.
Como essa mente é diferente, como é oposta à mente de Evódia e Síntique. Essa mente é diferente da nossa. Somos bastante altivos. Em outras palavras, sempre procuramos estar acima das outras pessoas.
Mas aqui vocês percebem que a mente de nosso Senhor Jesus é a de humilhar-Se até a posição mais baixa, para servir ao propósito do Pai e nos salvar. Essa é a mente de humildade.
O que é humildade? Vocês ouvem Paulo dizer em Filipenses 2:3:
Mas, em humildade de mente,
cada um considerando o outro mais excelente do que a si mesmo.
Como podemos considerar os outros mais excelentes do que nós mesmos? Vocês sabem, na busca espiritual, é possível chegar a um ponto em que o Senhor realmente Se revelou a vocês, e vocês aprenderam muito com Ele. Em outras palavras, há estatura espiritual em vocês.
Tendo essa estatura, vocês não conseguem deixar de considerar os outros menos excelentes do que vocês — não porque estejam errados, mas porque são honestos. No entanto, Paulo diz:
Considerando os outros mais excelentes do que vós mesmos.
Não importa quanto vocês tenham avançado em Cristo, não importa quanto O conheçam: quanto mais conhecem Cristo, quanto mais têm de Cristo, mais devem considerar os outros mais excelentes do que vocês. Como isso pode ser?
Paulo diz em Filipenses 2:4:
Não atentando cada um para as suas próprias qualidades.
Quando vocês atentam para suas próprias qualidades, não conseguem considerar os outros mais excelentes do que vocês, porque, se o fizerem, isso será falso. Não estarão sendo honestos.
Mas, se não atentam para si mesmos e atentam apenas para os outros em Cristo, então é fácil considerar os outros mais excelentes. Creio que alguém disse isto: humildade não é pensar menos de si mesmo; humildade é não pensar em si mesmo.
Se vocês tentarem pensar menos de si mesmos, agirão com aparência de humildade, mas, na realidade, serão mais orgulhosos. Humildade, porém, é não pensar em si mesmo. Vocês não pensam em si mesmos de maneira alguma. Esquecem-se completamente de si mesmos.
Como se esqueceram completamente de si mesmos, quando olham para seus irmãos e irmãs em Cristo, veem Cristo neles; por isso, eles são mais excelentes do que vocês. Isso é honesto. É só isso.
Irmãos e irmãs, para resolver o problema das personalidades, há apenas um caminho. A personalidade se torna um problema porque a pessoa pensa demais em si mesma. Esse é o problema.
Se todos pensam demais em si mesmos, há um choque. É inevitável. Não há como evitar.
Se vivermos pela vida de Cristo, seremos caracterizados por um espírito de humildade. Estaremos dispostos a abrir mão de nossos direitos. Estaremos dispostos a abrir mão de nossa posição. Esqueceremos completamente de nós mesmos e pensaremos em nossos irmãos e irmãs: como podemos ministrar a eles e servi-los?
Em outras palavras, o homem desaparece; Cristo aparece. Quando há verdadeira fraternidade, não há problema de personalidade.
Vocês podem ter pessoas com personalidades fortes. Podem ter pessoas com personalidades dinâmicas, e, no entanto, elas não atraem as pessoas para si mesmas. Não se consideram mais excelentes do que os outros.
Quando outras pessoas entram em contato com elas, não é a personalidade delas que percebem; percebem Cristo nelas. São atraídas para Cristo, e não para elas. Se é assim, não há choque. Não há questão de personalidade.
Em humildade, servindo uns aos outros, apontando as pessoas para Cristo, e não para nós mesmos — não procurando reunir pessoas ao nosso redor, mas apontando-as para Cristo —, assim como João Batista disse em João 3:30:
É necessário que Ele cresça, mas que eu diminua.
Não há problema de personalidade.
Irmãos e irmãs, se o espírito de Cristo caracteriza nossa mente — isto é, se nossa disposição e nosso pensamento estão no espírito, governados e dirigidos pelo Espírito de Cristo —, não vemos a nós mesmos.
Não estaremos conscientes de nós mesmos o tempo todo. Não atrairemos as pessoas para nós mesmos. Jesus Cristo — será sempre Cristo. Não há conflito em Cristo.
Lembro-me de que nosso querido irmão Watchman Nee às vezes nos dizia isso. Ele dizia que, na verdade, não importa se vocês têm uma alma forte. Algumas pessoas têm almas muito fortes, isto é, personalidades muito fortes, personalidades dinâmicas.
Ele dizia: “Essa alma forte, se acompanhada de um espírito forte, não é um problema”. Em outras palavras, o espírito está no controle. O espírito da mente está sendo renovado.
Se o espírito da mente está sendo renovado, vocês percebem que, embora uma pessoa possa ser muito forte em todos os aspectos, Deus pode usar essa força e direcioná-la para Cristo, em vez de para a própria pessoa.
Essa é a própria raiz dessa questão da personalidade, e a solução é o Espírito, a mente de Cristo, que é humildade.
Isso se realiza de maneira bastante prática por meio da cruz. À medida que vivemos pela vida de Cristo, isso acontece invariavelmente — vocês não precisam tentar produzir essa experiência nem introduzi-la; não precisam disso. Se viverem pela vida de Cristo, o Espírito Santo chamará sua atenção para tudo o que não é Cristo, e isso significará o tratamento da cruz.
Vocês não precisam procurar uma maneira de tratar a si mesmos. Não precisam. Mas nossa personalidade precisa ser transformada. Tem de ser Cristo. Tem de ser Cristo.
Cristo passou por isso: Ele estava disposto a assumir a posição mais baixa para cumprir o propósito do Pai. Aqui vocês percebem que Deus O exaltou sobremaneira e Lhe deu um nome que está acima de todo nome. Diante desse nome, todo joelho se dobrará, e toda língua confessará que Jesus é Senhor.
Irmãos e irmãs, se lutarmos por uma posição, mesmo uma posição espiritual, entre o povo de Deus, nunca a alcançaremos. Mas, se estivermos dispostos a perder nossa vida por Cristo, a perder nossa vida da alma por Cristo e por amor a Ele, nós a ganharemos.
O caminho do Senhor é tão diferente do caminho humano. O caminho humano é lutar por algo e, se vocês não lutarem, nunca o conseguirão. Mas o caminho divino é esvaziar-se, perder, dar. Ao entregarem sua vida dessa maneira, Deus os exaltará no Seu tempo.
Agora, depois de apresentar esse princípio à igreja em Filipos, Paulo o ilustrou com três pessoas. É disso que trata o restante do capítulo.
Primeiro, ele o ilustrou com sua própria pessoa. Não estava apenas falando à igreja em Filipos e dizendo: “Agora vocês precisam esvaziar-se e humilhar-se para que esse problema seja resolvido”. Ele mesmo sabia do que estava falando, porque isso havia operado nele.
Observem aqui o que Paulo diz em Filipenses 2:17:
Mas, ainda que eu seja derramado como libação
sobre o sacrifício e o serviço da vossa fé,
alegro-me
e me alegro juntamente com todos vós.
Paulo considerava a igreja em Filipos um sacrifício e uma oferta. Ele os havia trazido ao Senhor. Ofereceu-os como sacrifício, como oferta a Deus.
Mas ele disse: “Se eu for derramado como libação, como oferta de vinho, sobre a oferta de vocês, eu me alegro”. Segundo o Antigo Testamento, quando as pessoas ofereciam um sacrifício, o próprio sacrifício poderia ser um novilho, um cordeiro, um carneiro ou até pombos.
Junto com o sacrifício, tinham de oferecer outras coisas, como a oblação, a oferta de cereais, a farinha. Depois havia a oferta de vinho. Quando ofereciam um sacrifício, derramavam uma oferta de vinho sobre ele.
Por quê? Nas Escrituras, o vinho fala de alegria. O vinho alegra o coração. Em outras palavras, quando um sacrifício é oferecido, vocês não o oferecem de má vontade. Não o oferecem apenas por um senso de dever.
Quando o oferecem, oferecem com alegria. Por ser voluntário e oferecido com alegria, ele é aceito. Como lemos em 2 Coríntios 9:7:
Deus ama ao que dá com alegria.
O mesmo princípio se aplica.
Vocês não oferecem um sacrifício simplesmente como quem diz: “Bem, é porque tenho de fazer isso”. Não, isso não é suficiente. Quando fizerem uma oferta como sacrifício, derramem vinho sobre ela. Façam dela uma oferta alegre. Se sua oferta é tão alegre, espontânea e cheia de satisfação, Deus Se agrada.
Paulo considerava os irmãos e as irmãs em Filipos um sacrifício, uma oferta. Paulo os oferecia a Deus, não para si mesmo. Deus o usou para edificar aquela igreja, mas a igreja era para Deus, não para Paulo. Eles eram uma oferta a Deus.
Paulo disse: “Quem sou eu? Vocês são a oferta. Vocês são a oferta principal. Eu sou apenas uma oferta de vinho para acompanhá-los”. Oh, como ele era humilde.
Ele não considerava a obra como sua própria obra. Considerava-a a obra de Deus e estava disposto a ser derramado sobre ela para acrescentar-lhe alegria. “Eu me alegro e me alegro com vocês.”
“Quando vejo vocês se oferecendo a Deus, alegro-me com vocês. Estou acrescentando esse elemento de alegria. Alegro-me com vocês e espero que vocês se alegrem.” Como Paulo era humilde.
Paulo disse à igreja em Corinto, em 2 Coríntios 12:15:
Estou disposto a gastar e a ser gasto por vós.
Não importava como a igreja em Corinto o tratasse, Paulo continuava disposto a gastar e a ser gasto.
O mesmo espírito está aqui — o Espírito de Cristo. Ele não se considerava nada em si mesmo, mas pensava no que seria bom para a igreja. Se pudesse acrescentar alguma coisa para que eles fossem mais aceitos por Deus, era isso que estava disposto a fazer.
Esse era o perfeito Espírito de Cristo. A mente de Cristo era a mente de Paulo.
Além de si mesmo, Paulo mencionou Timóteo. Timóteo era um jovem, e, no entanto, Paulo disse em Filipenses 2:20-21:
Não tenho ninguém de igual disposição,
que se interesse genuinamente por como estais;
pois todos buscam as suas próprias coisas,
não as coisas de Jesus Cristo.
Paulo estava esperando que o julgamento prosseguisse e, em seu espírito, sabia que seria libertado. Poderia voltar e visitar a igreja em Filipos. Mas, antes de ser libertado, assim que soubesse o que aconteceria, enviaria Timóteo primeiro para levar as boas notícias à igreja em Filipos, porque eles estavam muito preocupados com isso.
Por que Paulo enviaria Timóteo? Porque, como disse:
Não tenho ninguém de igual disposição,
que se interesse genuinamente por como estais.
Nem todos buscam as coisas de Jesus Cristo.
Irmãos e irmãs, pensem nisso. Pessoas que estão servindo ao Senhor podem estar buscando suas próprias coisas. Mas aqui estava Timóteo. Ele não buscava coisa alguma para si mesmo; tinha, porém, um interesse genuíno pelos santos.
Em outras palavras, era uma pessoa que tinha a mente de Cristo. Se pudesse fazer qualquer coisa pela igreja em Filipos, estava disposto a derramar-se por ela.
Como é triste pensar que Paulo disse: “Não tenho mais ninguém”, mais ninguém que tivesse um interesse tão genuíno por eles. É claro que isso não significa que todos os demais que estavam com Paulo buscavam suas próprias coisas. Provavelmente precisamos dizer que alguns dos que estavam com Paulo não tinham preocupação com a igreja em Filipos. Talvez tivessem um encargo por outras igrejas, mas não pela igreja em Filipos.
Timóteo, porém, tinha realmente um encargo por aquela igreja, e, por essa razão, Paulo estava muito decidido a enviá-lo, porque ele tinha a mente de Cristo.
O terceiro era Epafrodito. Epafrodito era um deles, um dos santos. Eles o enviaram a Roma para servir a Paulo.
Tendo sido enviado como representante a Roma para servir a Paulo, em nome da igreja em Filipos, ele certamente devia ser alguém que amava muito o Senhor. E realmente era, porque Paulo, ao enviar Epafrodito de volta, disse em Filipenses 2:29-30:
Recebei-o, pois, no Senhor, com toda alegria,
e honrai os que são como ele,
porque, por causa da obra,
chegou até perto da morte,
arriscando a própria vida,
para suprir o que faltava
no vosso serviço para comigo.
Em outras palavras, aqui estava uma pessoa disposta a arriscar sua vida, a entregar sua vida, para suprir o que faltava na ministração de amor por parte da igreja.
Mais uma vez, o Espírito de Cristo. Isso não era apenas uma teoria. Foi comprovado na vida de Paulo, Timóteo e Epafrodito.
Se a igreja em Filipos tivesse pessoas assim, a questão da rivalidade e dos choques de personalidade seria resolvida naturalmente. Em outras palavras, tudo é simplesmente Cristo, o próprio Cristo.
Como lemos em Efésios 1:23, a igreja é:
O corpo de Cristo,
a plenitude Daquele que enche tudo em todos.
Assim, queridos irmãos e irmãs, uma coisa é ter a vida de Cristo — todos nós temos a vida de Cristo. Outra coisa é viver por essa vida. Uma coisa é ter Sua vida; outra coisa é permitir que Ele viva em vocês e por meio de vocês.
Se permitirmos que a vida de Cristo opere em nós, um sinal seguro disso é que seremos caracterizados pela mente de Cristo.
Se não formos caracterizados pela mente de Cristo, vocês encontrarão choques de personalidade na igreja. É inevitável. Mas, se vivermos pela vida de Cristo, todos seremos caracterizados pelo Espírito de Cristo.
Nós nos revestiremos de humildade, servindo uns aos outros. O resultado é que a igreja será edificada. Esse é o único caminho para termos um só espírito, uma só alma, um só amor e pensarmos uma só coisa.
Que o Senhor use essas palavras para nos ajudar, na vida prática, a entrar nessa unidade e harmonia que há em Cristo. Isso é muito, muito importante.
Ó Pai celestial, nós Te louvamos e Te agradecemos porque nos deste Cristo como nossa vida.
Oh, não precisamos lutar e nos esforçar para viver; podemos simplesmente deixar Cristo viver em nós e por meio de nós.
Senhor, como Te louvamos e Te agradecemos porque, embora sejamos indivíduos, não precisa haver choque de personalidades, pois é Cristo em todos nós.
Senhor, que Teu Espírito de humildade caracterize cada um de nós, para que sirvamos uns aos outros com toda humildade.
Ó Senhor, nós Te pedimos que verdadeiramente tenhamos um só espírito, uma só mente e até mesmo pensemos uma só coisa. Que Tua igreja seja edificada.
Nós simplesmente nos entregamos a Ti e Te agradecemos porque isso é possível. Pode ser vivido; é verdadeiro.
Em nome de nosso Senhor Jesus.