Voltamos novamente à nossa passagem bíblica fundamental, Lucas 12:49-53:
Vim lançar fogo na terra; e que mais quero, se já está aceso? Tenho, porém, um batismo com que hei de ser batizado; e como Me angustio até que venha a cumprir-se! Cuidais vós que vim trazer paz à terra? Não, vos digo; mas antes divisão: Porque, daqui em diante, estarão cinco divididos numa casa: três contra dois, e dois contra três. O pai estará dividido contra o filho, e o filho contra o pai; a mãe contra a filha, e a filha contra a mãe; a sogra contra a sua nora, e a nora contra a sua sogra.
Confesso a vocês que essa é uma das coisas que o Senhor disse sobre as quais mais me custa falar. Mas aí está. Se qualquer outra pessoa, e não Ele, tivesse dito isso, talvez tivéssemos nos afastado. Tenho plena certeza de que, se isso tivesse partido de mim ou de qualquer outra pessoa aqui, teria causado uma grande ofensa. Mas foi Ele Quem disse.
E me parece que isso forma um todo com o início dessa declaração. Talvez vocês tenham notado que há aqui uma mudança muito abrupta em todo o curso da narrativa. Até o final do versículo 48, Ele parece estar tratando de um assunto; então, de maneira bastante abrupta, vem essa mudança.
Só posso pensar que houve uma pausa da parte Dele. Ele disse aquilo e, então, ficou em silêncio por um momento, e Sua mente percorreu o futuro — o futuro de Sua própria influência e de Seu efeito sobre o mundo. Então, Ele iniciou essa parte de Suas palavras em um tom e numa esfera bem diferentes:
Vim lançar fogo na terra.
Foi por isso que Eu vim. Isso resume o significado da Minha vinda:
Vim lançar fogo na terra.
Qual é o resultado? Qual é o desfecho?
E como Me angustio até que venha a cumprir-se!
O que Eu desejo? Ah, que já estivesse aceso!
Mas tenho um batismo com que hei de ser batizado. Gostaria que isso já tivesse passado. Gostaria que já tivesse sido cumprido; então, Eu estaria livre dessa angústia e dessa limitação. Aquilo para o qual vim poderia se realizar. Ah, que já tivesse sido cumprido — esse batismo da paixão, da cruz. Assim Ele pensa, e assim Ele fala.
Agora, nesta manhã, examinamos uma implicação parcial desse lançar fogo, observando, naturalmente, que seu significado era a vinda do Espírito Santo — o batismo no Espírito e em fogo. E esse fogo é algo concreto. Não há como confundir o fogo: quando ele toca você, você sabe.
Nesta tarde, vamos considerar apenas mais um aspecto disso; e creio que, provavelmente, por enquanto, será o último. Eu disse que esse parágrafo, do versículo 49 ao versículo 53, parece formar um todo: o efeito do fogo.
Aqui, isso é muito terrível. Introduz o elemento do juízo. Não há necessidade de discutir com alguém que conhece alguma coisa da Bíblia: o fogo na Bíblia é muito frequentemente — tantas vezes — o símbolo do juízo. E aqui está ele.
Mas queremos compreender o significado dessa palavra, juízo. Muitas vezes a limitamos a um de seus aspectos, talvez o último. “Juízo” — com isso queremos dizer castigo, talvez o castigo final. Mas, na Bíblia, juízo é uma palavra mais abrangente do que isso.
Na Bíblia, o juízo — e isso pode ser visto claramente em termos de fogo, ou o fogo em termos de juízo — é, em primeiro lugar, um exame das coisas, colocando-as à prova. Passagens das Escrituras virão à mente de vocês para confirmar isso. O fogo prova.
O fogo revela o que as coisas são. Esse é o primeiro efeito, e esse é o primeiro significado do juízo: colocar tudo à prova; examinar.
E, depois de fazer isso, ele distingue. Isto é, ele divide. Mostra a que categoria as coisas pertencem e as coloca ali. Bem, isso é desse tipo, e pertence a essa categoria, a essa esfera ou a esse reino; aquilo pertence a outro.
O fogo revela, distingue e divide; depois, destina cada coisa ao seu lugar. Por fim, ele diz: “Constatou-se que isto pertence a determinada esfera. Foi identificado; foi distinguido. Nós o colocamos ali. Pertence àquele lugar; nós o colocamos ali”. Esse é o efeito final do fogo.
Esse é o conteúdo da palavra juízo. Tenham sempre esse significado completo em mente quando usarem a palavra. Não nos deteremos agora numa aplicação mais ampla disso; precisamos prosseguir com a mensagem.
A Palavra de Deus nos ensina que esse juízo viria com a vinda do Espírito Santo — observem bem: o efeito da liberação de Cristo por meio da cruz, na vinda do Espírito Santo.
Em outras palavras, o efeito da liberação de Cristo seria a vinda do Espírito como o Espírito de fogo. E, como Espírito de Deus, Sua presença sempre se manifestaria em termos de juízo, nesse significado tríplice da palavra.
A presença do Espírito Santo é assim, e produz esse efeito. Isso nos conduz à Palavra para vermos a esfera em que isso opera.
Agora, aqui em Lucas 12, vemos isso operando em uma esfera. Lemos aquelas palavras terríveis:
Cuidais vós que vim trazer paz à terra? Não, vos digo; mas antes divisão.
A versão antiga diz: “uma espada”. Isso parece terrível. Estamos em terreno muito delicado; precisamos ter muito cuidado.
Ele prossegue explicando o que quer dizer com divisão. Daqui em diante, haverá cinco numa casa, divididos, três contra dois e dois contra três; depois, as divisões na família. Aqui, o fogo está operando na esfera dos relacionamentos humanos.
Agora, permitam-me abrir um parêntese e dizer antecipadamente, com bastante ênfase, que isso não tem nada a ver com divisões dentro da igreja — divisões entre aqueles que estão em Cristo. Não é disso que o Senhor está falando; esse assunto nem sequer está em vista.
Ele está pensando numa esfera totalmente diferente. Está falando na esfera espiritual. Essa divisão acontece inteiramente sobre uma base espiritual.
As divisões, como as encontramos na Primeira Carta aos Coríntios, acontecem por causa de outras coisas entre os cristãos, mas não são espirituais. Esta é uma divisão espiritual, essencial e fundamental.
Talvez a ilustração, ou o exemplo clássico disso, seja o que encontramos lá no início do Antigo Testamento, no caso dos levitas.
Vocês se lembrarão de que, quando chegaram ao deserto, Moisés foi chamado para subir ao monte. Ele permaneceu ali por tanto tempo que o povo foi submetido a uma prova muito severa — creio que deliberadamente submetido a uma prova muito severa — para revelar onde realmente estava o seu coração.
Se estavam, de fato, buscando os próprios interesses, os próprios objetivos, ou os Dele; se, nessa questão, o coração deles estava com o Senhor, ou se estava voltado para a própria satisfação. Eles foram submetidos à prova severa daquele período de quarenta dias e quarenta noites em que Moisés permaneceu no monte, e sucumbiram à prova.
Quando Moisés desceu, ouvindo o barulho no acampamento, vocês se lembram do que havia acontecido: o bezerro e as danças.
Estes são teus deuses, ó Israel, que te tiraram da terra do Egito.
Moisés tomou a tenda, levou-a para bem longe, fora do acampamento, colocou-se à entrada e clamou:
Quem é do Senhor, venha a mim.
“Quem está do lado do Senhor? Quem está do lado do Senhor? Venha a mim.” Todos os filhos de Levi foram até ele.
Ele disse:
Cada um ponha a sua espada sobre a sua coxa; passai e tornai a passar, e mate cada um a seu irmão, e cada um a seu amigo.
Vejam: a espada — a espada de fogo — entrou na esfera dos relacionamentos humanos.
Ela está revelando o coração. Está provando o coração. Está distinguindo entre os motivos, as intenções e os propósitos do coração. Vocês sabem onde ela os está colocando: está colocando essas pessoas na categoria à qual pertencem.
Bem, aqui estão os levitas, que foram submetidos à prova e passaram por ela triunfantemente. E, desde então, eles representam o pensamento de Deus a respeito de Seu povo. Permanecem como representantes do pensamento pleno e puro de Deus para o Seu povo.
A questão é esta: essa obra de juízo, esse fogo, essa espada, entrou na esfera dos relacionamentos humanos para revelar o coração — a motivação do coração. E vocês podem levar isso para Lucas 12. Bem, é isso que significa: divisão, até mesmo dentro da família e do lar.
A casa será dividida pelo Espírito Santo nessa questão da relação do coração com o Senhor. Assim, ao lermos a história de Israel, podemos ver que aquela nação no deserto — aquela geração — não tinha o coração reto diante de Deus, como disse o salmista. Em seu coração, desejavam ardentemente o Egito.
Seu coração carnal estava no Egito. O coração deles estava lá atrás, mesmo enquanto estavam no deserto; e aquela geração nunca entrou, porque seu coração não estava com o Senhor. É uma questão de divisão interior, não é? É a divisão no coração.
Agora, o Espírito Santo sempre faz a separação dessa maneira. Fazer isso é uma obra do Espírito Santo — em certo sentido, não no sentido errado. Tenham cuidado ao interpretar o que estou dizendo.
Em certo sentido, o Espírito Santo é a causa da divisão. Há uma esfera em que Ele é Aquele que divide. Agora, tomemos nossa Bíblia e voltemos ao princípio.
O Espírito de Deus Se movia sobre o caos, as trevas, o vazio. Qual foi a primeira coisa feita pelo Espírito Santo e por meio Dele? Uma separação entre as coisas — um processo de divisão entre luz e trevas.
Deus separou a luz das trevas. À luz Ele chamou dia; às trevas Ele chamou noite. Deus fez a separação, e Deus disse: “É bom”. Há uma divisão que é boa, sabem? É uma das separações que o Espírito Santo faz: entre luz e trevas.
E, depois, Deus fez uma separação entre o céu e a terra. Ele os pôs à parte; haviam ficado próximos demais. Um estava bem em cima do outro, de modo que não se podia discernir nem distinguir entre as esferas dos céus e da terra.
E Ele colocou o firmamento entre eles. Fez uma separação entre o céu e a terra; a um chamou céu, e ao outro chamou terra. E isso é muito bom. É bom.
Agora, essas são coisas do Antigo Testamento que, como sabemos, têm um significado no Novo Testamento. Encontramos sua correspondência na nova criação.
Quando vocês chegam ao livro de Atos, encontram o livro do Espírito Santo em ação em relação à nova criação. E, assim, ao longo de todo esse livro, encontrarão divisões acontecendo como resultado da ação do Espírito Santo.
De fato, pode-se dizer que essa é uma característica do Espírito em todo o Novo Testamento: separar a luz das trevas; julgar uma coisa e dizer: “Isso é trevas; isso pertence a uma esfera. Aquilo é luz e pertence a outra esfera”.
Essas duas coisas nunca podem, de maneira correta e apropriada, permanecer juntas. Não podem coexistir. Estão separadas e pertencem a duas categorias inteiramente diferentes; e foi o Espírito de Deus Quem fez isso.
Interpretem isso espiritualmente, e vocês verão o que significa. Mas uma quantidade enorme de coisas é revelada dentro da vida espiritual. Isso se manifesta desta maneira, queridos amigos: qualquer pessoa que realmente tenha o Espírito — e esta é a prova, esta é a prova —, qualquer pessoa que realmente tenha o Espírito é muito sensível à luz e muito sensível às trevas.
Ela sabe que há uma grande separação que Deus fez. E, quando toca em qualquer coisa que pertence às trevas, bem, sente as trevas em seu próprio espírito. Sabe que tocou nas trevas. Sabe que entrou em outro mundo. Essa é a obra do Espírito, e uma obra muito importante do Espírito.
Por outro lado, qualquer pessoa que tenha o Espírito será igualmente sensível à luz — e trata-se da luz verdadeira, da luz verdadeira. Vou definir isso daqui a pouco. Existe luz verdadeira, e o homem ou a mulher espiritual responde imediatamente a ela.
Por quê? Porque esse tipo de luz não é uma luz fria; é a luz da vida. É luz viva. Há energia nela.
Pode-se ter uma luz que é fria. Pode-se ter uma imitação de fogo que é fria. Temos uma dessas coisas em casa: você liga, sabe, e lá está a imitação de fogo. Mas ela não faz diferença alguma. Alguma coisa acontece psicologicamente: você vê aquilo e talvez imagine alguma coisa, mas, na realidade, tudo não passa de uma ilusão.
Pode-se ter um tipo de luz que é uma imitação, artificial, falsa. Você pode acendê-la e, com a mesma rapidez, apagá-la. Mas essa não é a luz da vida, que tem energia.
A luz do Espírito, a luz de Deus, a luz de Cristo, é sempre luz viva — vida cheia de energia. E então você e eu, que temos o Espírito, entramos em contato com a vida. Não é que fiquemos mental e intelectualmente interessados, fascinados ou cativados; algo dentro de nós salta em resposta.
Encontramos energia. Essas são marcas do Espírito: julgar o que é luz e o que é trevas, o que pertence a esta esfera e o que pertence àquela. Essas coisas são colocadas à parte, de modo que é algo bastante anormal se as trevas entram no dia ou a luz entra na noite. Esse não é, de modo algum, o curso normal das coisas.
Pode haver esferas de reinos diferentes dentro da sua própria família, da sua própria casa. Pode não haver comunhão alguma, porque existe a divisão feita pelo próprio Espírito Santo.
Agora, muitos de vocês sabem como isso é verdadeiro, e alguns estão sofrendo por causa disso. Mas a questão é esta: é assim que será se o Espírito Santo entrar, e vocês não podem evitar isso.
O Senhor Jesus foi fiel e honesto o suficiente para deixar claro que seria assim. Vocês não podem passar por cima disso; não podem construir uma ponte sobre essa separação. Aí está. É doloroso, mas basta saber que o Espírito fez alguma coisa.
Nós, como povo do Senhor, devemos nos tornar cada vez mais sensíveis às diferentes esferas que são separadas pelo Espírito de Deus. A marca do crescimento na luz e no Espírito é tornar-se cada vez mais sensível ao que pertence aqui e ao que pertence ali.
Vocês sabem que Paulo, em duas ocasiões diferentes, usou a expressão “coisas que diferem”. E ele a dirigiu aos crentes: uma vez aos crentes romanos e outra aos crentes filipenses. “Coisas que diferem.” Ele queria que os cristãos conhecessem as coisas que diferem.
Esse era o verdadeiro tipo de divisão que deveria ter existido em Corinto. A outra era a divisão falsa e errada. Mas era justamente aí que as coisas haviam se misturado: dia e noite estavam completamente misturados. Coisas que pertenciam à noite estavam presentes, e eles não eram sensíveis a elas.
E, por isso, a Primeira Carta aos Coríntios trata tanto da obra corretiva do Espírito Santo, não é? Precisamos deixar isso de lado por enquanto. Talvez seja evidente demais até para dedicarmos tanto tempo a isso; mas reconheçamos que a vida do Espírito é uma vida de separação espiritual.
O curso da vida governada pelo Espírito é o discernimento — ser sensível às coisas que diferem.
Passamos à próxima aplicação disso, que diz respeito a toda a questão da nossa obra cristã. Vocês sabem que isso nos é apresentado em 1 Coríntios 3:10-15:
Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio arquiteto, o fundamento, e outro edifica sobre ele. Mas veja cada um como edifica sobre ele. Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo. E, se alguém sobre este fundamento edifica ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha; A obra de cada um se manifestará; na verdade, o dia a declarará, porque pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual seja a obra de cada um. Se a obra que alguém edificou nessa parte permanecer, esse receberá galardão. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá detrimento; mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo.
E colocamos ao lado dessa passagem Hebreus 12:26-28:
A voz do Qual moveu então a terra, mas agora anunciou, dizendo: Ainda uma vez comoverei, não só a terra, senão também o céu. E esta palavra: Ainda uma vez, mostra a mudança das coisas móveis, como coisas feitas, para que as imóveis permaneçam. Pelo que, tendo recebido um reino que não pode ser abalado, retenhamos a graça.
Aqui, vejam, vocês entram na esfera dos valores na vida e no trabalho da vida. A distinção é introduzida pelo fogo. O fogo prova aquilo que é sólido.
E lembrem-se: isso é dirigido aos cristãos. Não é dirigido às pessoas do mundo que estão fazendo seu trabalho e exercendo suas profissões. É dirigido aos cristãos, e está falando de obra cristã.
Cristo é o fundamento, e a obra que vocês fazem sobre esse fundamento é obra cristã. A passagem diz que, na obra cristã, há uma esfera que resistirá ao fogo; e, na obra cristã, há outra esfera que virará fumaça.
Ficará demonstrado que tudo aquilo foi em vão, e o trabalhador apenas entrará no céu, e nada mais — salvo, sim, mas como pelo fogo. Aqui está uma divisão na esfera da obra cristã que o Espírito Santo faz.
Se quisermos resumir tudo isso e realmente chegar ao cerne da questão, chegamos a isto: somente aquilo que é verdadeiramente feito pelo próprio Espírito Santo e por meio Dele permanecerá, resistirá à prova e será encontrado para louvor, honra e glória na manifestação de Jesus Cristo.
Pode haver uma quantidade enorme de atividade, energia e trabalho — trabalho realizado para Cristo, em relação a Cristo, com essa intenção — que entra nessa categoria de desaparecer nas chamas, não resultar em nada e deixar o trabalhador, no fim, sem nada por todo o seu esforço.
Era isso que estava acontecendo no livro de Atos. Percorram esse livro e vejam a distinção que está sendo feita. Sim, a distinção precisa ser feita.
Ah, como aqueles judaizantes trabalharam! Como trabalharam! Como viajaram e percorreram mar e terra em suas longas jornadas. Isso deve ter lhes custado bastante.
E vocês precisam concluir que eram homens que não apenas levavam aquilo a sério, mas, na medida em que compreendiam a si mesmos e à sua posição, eram o que chamaríamos de homens sinceros.
Não vejo diferença alguma entre esses judaizantes, que perseguiam Paulo por onde quer que ele fosse e dedicavam sua vida — sua vida — a esse tipo de coisa, e Saulo de Tarso, tal como ele era antes. Era exatamente isso que ele estava fazendo. Exatamente isso que ele estava fazendo. Ele era um deles.
Agora, então, ouçam o veredito com que ele resume tudo aquilo: “Bem tinha eu imaginado”. Eu realmente — verdadeiramente, se preferirem —, eu honestamente pensava comigo mesmo que deveria fazer muitas coisas contra o nome de Jesus Cristo.
Essa é a declaração de um homem honesto e a declaração de um homem sincero. Mas: “Eu pensava”. Eu havia considerado essa questão. Não era um mero impulso; não era mero fanatismo. “Eu pensava.” Sabemos que Paulo era um homem que pensava.
“Eu pensava que devia.” Era uma questão de convicção de consciência para mim: isso era o que eu deveria fazer. Era a coisa certa a fazer. Eu era chamado a fazê-la. Era uma questão de consciência para mim fazer aquilo. “Bem tinha eu imaginado comigo.”
Sim, mas como é possível ser tão inteiramente sincero e tão inteiramente equivocado! Os judaizantes eram assim. Mas sua obra — sua obra — não perdurou.
Aqui está a obra do Espírito em andamento; ela tem prosseguido e ainda está prosseguindo. Essa obra é incontestável. Resistiu a todas as provas e a todos os exames. Demonstrou ser a obra do Espírito e sobrevive ao fogo — ao juízo de que estamos falando, ao fogo da prova.
A chave de toda essa questão é a importância suprema, não de ser sincero, não de ser entusiasmado, não de agir com base numa convicção de consciência, mas de ser governado pelo Espírito Santo. Isso é o importante.
É justamente aí que toda essa questão entra na esfera das obras cristãs. Talvez alguns de vocês tenham sentido certa resistência agora há pouco, quando falei dos judaizantes, mas vocês precisam reconhecer bastante coisa a favor deles, sabem?
Os judaizantes não eram anticristãos. O que realmente queriam era um cristianismo judaico — um cristianismo com uma configuração judaica. Essa é uma maneira justa de expressar isso: cristianismo, desde que o cristianismo se conformasse à ordem judaica, à prática judaica.
Não vou desenvolver esse argumento, mas poderíamos trazer bastante coisa para mostrar que era assim. Vejam: Paulo mostrou, por meio de sua Carta aos Gálatas, que isso não é a obra do Espírito. Não é a obra do Espírito; é algo bastante diferente.
Passemos ao próximo pensamento aqui, e ele nos leva à esfera do nosso testemunho cristão. O fogo em ação na esfera do testemunho cristão.
Voltamo-nos para uma passagem muito conhecida, 2 Coríntios 2:14-16:
E graças a Deus, que sempre nos faz triunfar em Cristo, e por meio de nós manifesta em todo lugar o cheiro do Seu conhecimento. Porque para Deus somos o bom cheiro de Cristo, nos que se salvam e nos que se perdem; Para estes certamente cheiro de morte para morte; mas para aqueles cheiro de vida para vida.
Aí está o efeito divisor do fogo. Vocês conhecem a imagem. Não preciso lhes contar tudo novamente, mas Paulo está pensando nesse cenário: a procissão romana, o general triunfante conduzindo seus prisioneiros em seu cortejo, realizando celebrações de sua vitória de lugar em lugar.
Mas, em cada um desses lugares, o fogo era aceso. Um altar era erguido, a pilha de lenha era acesa, a chama subia, e o incenso enchia o ar. E isso tinha um efeito duplo.
Havia alguns que estavam a caminho da morte, e aquele era o lugar onde seriam sacrificados. Havia outros que não estavam a caminho da morte; eles passariam por aquele fogo e seguiriam adiante; seriam salvos.
O cenário, vejam, é muito vívido, muito vívido. Aqui, o fogo está distinguindo e determinando.
Paulo diz que esse é o efeito duplo do Espírito Santo em nossa vida e em nosso ministério, à medida que vamos de lugar em lugar. Ao irmos de lugar em lugar, algo acontece em toda parte e todas as vezes.
Uma de duas coisas — ou ambas — acontece em cada lugar. Uma é que aqueles que recusam a luz, que persistem em lutar contra o Senhor vitorioso, que resistem ao Espírito Santo, são levados à condenação. São colocados na categoria à qual pertencem.
Por outro lado, aqueles que creem, aqueles que aceitam, são conduzidos à liberdade pelo mesmo Espírito Santo que faz a outra coisa. Eles passam pelo fogo da prova e prosseguem na vida:
Para estes certamente cheiro de morte para morte; mas para aqueles cheiro de vida para vida.
Agora, a questão é esta: toda a passagem está dizendo que esse é o efeito da presença do Espírito Santo em nosso ministério, em nosso testemunho. Em outras palavras, o Espírito Santo nunca deixa as coisas como estavam.
A presença do Espírito Santo sempre produz algum tipo de crise e de veredito. O Espírito Santo está presente e falando; não podemos permanecer como antes. Algo aconteceu. Ou estamos mais endurecidos ou mais abrandados; ou estamos mais condenados ou mais salvos.
Algo acontece na presença do Espírito Santo. O fogo faz essa obra de julgar. Foi isso que o Senhor Jesus disse:
Vim lançar fogo na terra.
O que ele fará? Fará essa divisão. Trará esse juízo. Determinará as coisas, as pessoas e seus destinos.
Bem, sabemos como isso é verdadeiro na história. Esse é o efeito do Espírito Santo. Mas tudo o que quero ressaltar nessa relação específica é isto, querido amigo: se você e eu somos homens e mulheres realmente governados pelo Espírito e cheios do Espírito, o efeito de nossa presença e de nossa passagem por este caminho não será deixar as coisas como estavam antes.
Haverá um veredito eterno por termos passado por este caminho, e esse é o objetivo do ministério.
E graças a Deus, que sempre nos faz triunfar em Cristo.
De lugar em lugar, para celebrar Sua vitória. E o efeito é este: uma coisa ou outra. As coisas não estão como estavam antes.
O ministério do Espírito Santo precisa ser assim. Precisa produzir alguma coisa. Precisa afetar alguma coisa. Precisa fazer diferença. E faz. Ele faz isso. Faz.
O fogo está em ação. E podemos ver, ao percorrermos este livro de Atos, todas essas coisas acontecendo. Estão acontecendo o tempo todo. Todas as coisas que eu disse estão simplesmente acontecendo aqui; vocês podem vê-las.
O fogo está revelando. O fogo está provando. O fogo está distinguindo. O fogo está destinando cada coisa ao seu lugar. O fim da história é que vocês têm duas esferas separadas, reveladas quanto ao que são e àquilo a que pertencem.
Agora, naturalmente, há muito mais que eu poderia dizer sobre essa questão da distinção espiritual — coisas que pertencem a categorias diferentes, essa diferença espiritual essencial. Mas creio que posso resumir tudo dizendo isto: se realmente, realmente somos governados pelo Espírito Santo, todos pertenceremos a uma única categoria. Essa é a questão.
Não haverá tantas categorias diferentes nas quais vivemos. Não haverá duas. Não haverá duas. Haverá apenas uma.
O Espírito Santo busca constituir uma única categoria de pessoas: um povo inteiramente governado por Ele e conduzido por Ele.
Se você tiver de dizer: “Discordo fundamentalmente de você em alguma coisa”, então, ou você está certo e eu estou errado, ou eu estou certo e você está errado, se a discordância é fundamental assim. Um de nós não está no Espírito.
Cabe a nós descobrir onde está o erro, porque o Espírito Santo não tem, fundamentalmente, duas maneiras diferentes de pensar. Ele nunca pode ter.
Estar realmente no Espírito significa, permitam-me repetir, ser de um só tipo, de uma só categoria. E, por isso, o apóstolo escreveu tanto a essas igrejas sobre essa unidade de mente, essa unidade de coração, essa unidade de espírito, esse falar todos a mesma coisa.
Bem, ele disse isso novamente. Pediu isso novamente. Estava suplicando por isso. Portanto, é possível. A solução para todos aqueles problemas e dificuldades é a vida no Espírito — a vida no Espírito.
E isso, naturalmente, como dissemos nesta manhã, está baseado na cruz, onde temos uma capacidade infinita de entregar tudo ao Senhor.
Se vocês se esquecerem de todo o restante, lembrem-se disso. Vamos orar?