Reunião da noite, 2 de outubro de 1972 — Richmond, Virgínia
Ministração por Stephen Kaung
Ó meu Pai celestial, oro sempre, agradecendo-Te por nos reunires aqui em nome de Teu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo. Não há nome mais nobre nem mais elevado do que esse nome. Diante desse nome, Senhor, de bom grado dobramos os joelhos e de bom grado confessamos que Jesus é Senhor.
Ó Senhor, desejamos que, ao nos reunirmos a Ti, Tu Te reveles a nós, conforme prometeste aos Teus discípulos. Tu Te manifestarás àqueles que Te amam. Nós Te louvamos e agradecemos porque colocaste amor em nosso coração. Nós Te amamos e desejamos que nesta noite Tu Te manifestes a nós de maneira nova, de maneira viva.
Senhor, tudo de que precisamos é de Ti mesmo. Queremos o Senhor mais do que qualquer outra coisa. Entregamo-nos a Ti nesta noite, confiando que Teu Espírito Santo nos abrirá a Tua Palavra e nos conduzirá à Tua verdade, para que sejamos para o louvor da Tua bem-aventurança. Em nome de nosso Senhor Jesus, oramos. Amém.
E, ouvindo eles isto, compungiram-se em seu coração e disseram a Pedro e aos demais apóstolos: Irmãos, que faremos?
E Pedro lhes disse: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo.
Porque a promessa é para vós, para vossos filhos e para todos os que estão longe, a tantos quantos o Senhor nosso Deus chamar a Si.
E com muitas outras palavras dava testemunho e os exortava, dizendo: Salvai-vos desta geração perversa.
Então, os que receberam a sua palavra foram batizados; e naquele dia foram acrescentadas cerca de três mil almas.
E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.
E em toda alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por meio dos apóstolos.
E todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum;
e vendiam suas propriedades e bens e os repartiam entre todos, conforme a necessidade de cada um.
E, perseverando diariamente de comum acordo no templo e partindo o pão em casa, tomavam o alimento com alegria e singeleza de coração,
louvando a Deus e tendo o favor de todo o povo. E o Senhor lhes acrescentava, dia a dia, os que eram salvos.
E a multidão dos que criam era de um só coração e de uma só alma; e ninguém dizia ser sua coisa alguma do que possuía, mas tinham tudo em comum.
E com grande poder os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus; e sobre todos eles havia abundante graça.
Pois não havia entre eles necessitado algum; porque todos os que possuíam terras ou casas, vendendo-as, traziam o valor das coisas vendidas
e o depositavam aos pés dos apóstolos; e distribuía-se a cada um conforme a sua necessidade.
É tudo de que precisamos para esta noite.
Mencionamos, logo no início, que o livro de Atos é a continuação do Evangelho segundo Lucas, porque Deus usou o mesmo escritor para nos dar esses dois livros do Novo Testamento.
No Evangelho segundo Lucas, vemos o Senhor Jesus começando a fazer e a falar. Mas, no livro de Atos, é o mesmo Senhor Jesus que continua a fazer e a falar.
A única diferença é esta: no Evangelho segundo Lucas, nosso Senhor Jesus faz e fala em Sua própria Pessoa, naquele corpo que assumiu quando veio a este mundo. Mas, no livro de Atos, Ele fala e age em um Corpo místico e coletivo.
Portanto, é muito importante conhecermos esse Corpo que nosso Senhor Jesus possui e usa para continuar a falar e a agir. Esse Corpo, como todos sabemos, é o Corpo de Cristo — a igreja do Deus vivo.
Em Atos 1, vemos o trabalho de parto durante aqueles cinquenta dias entre a ressurreição de nosso Senhor Jesus e o Pentecostes. Vocês verão que foram cinquenta dias, e esses cinquenta dias podem ser divididos em duas partes: quarenta dias e dez dias.
Durante os quarenta dias, o Senhor Jesus apareceu vivo aos Seus discípulos e lhes ensinou as coisas concernentes ao reino de Deus. Então, durante os dez dias seguintes, cento e vinte pessoas se dedicaram à oração perseverante, esperando no Senhor pela promessa do Pai.
Aqueles cinquenta dias foram muito significativos. Gostaríamos de chamá-los de dias de trabalho de parto. O Senhor Jesus passou por esse trabalho de parto, e aquelas cento e vinte pessoas participaram dele com o Senhor, para que viesse à luz algo absolutamente essencial à continuidade de Seu falar e de Seu agir. Sabemos que isso é a igreja, o Corpo de Cristo.
Nesta manhã, mencionamos o nascimento da igreja. Mais uma vez, enfatizamos: uma congregação pode ser organizada, mas uma igreja precisa nascer.
No dia de Pentecostes, aconteceu algo tremendo. Muitas vezes somos atraídos pelo espetacular, pelo visível; mas frequentemente deixamos de perceber o essencial, o invisível. Muitas vezes vocês descobrirão que aquilo que se vê é apenas o que acompanha o invisível, e é o invisível que constitui a realidade.
No dia de Pentecostes, houve o som; houve a visão de línguas que se repartiam como fogo. Mas aquilo que as pessoas viram e ouviram apontava, na verdade, para uma única coisa: a exaltação de nosso Senhor. Pedro disse que aquilo que viam e ouviam testemunhava de uma única coisa — que Deus havia feito desse Jesus tanto Cristo como Senhor.
O batismo no Espírito Santo nos traz duas coisas. Uma é a exaltação do Senhor; a outra é a formação do Corpo, a igreja.
Pois em um só Espírito fomos todos batizados em um só corpo.
— 1 Coríntios 12:13
Portanto, queridos irmãos e irmãs, no dia de Pentecostes, por meio do batismo no Espírito Santo, o Senhor batizou Seu povo em um só Corpo, sob uma só Cabeça. Isso é a igreja.
Ao olharmos individualmente para aquelas cento e vinte pessoas, podemos dizer que todas estavam vivas. Cada uma delas era um filho espiritual de Deus; não havia dúvida quanto a isso. E aquelas cento e vinte pessoas estavam juntas, reunidas como uma congregação.
Contudo, algo mais precisava ser feito. O Espírito Santo habitava em cada uma delas. Sem o Espírito Santo habitando nelas, não teriam conseguido permanecer juntas durante dez dias, dedicando-se à oração perseverante. Contudo, algo novo precisava ser feito — não apenas Ele em cada uma delas, mas também entre elas, em seus relacionamentos.
Foi pelo batismo no Espírito Santo que aquelas cento e vinte pessoas foram batizadas em um só Corpo, com cento e vinte membros. Esse é o significado do batismo no Espírito Santo. Somos feitos um só Corpo, membros uns dos outros, sob a autoridade de uma Cabeça viva, com um Corpo vivo.
Porque o Corpo é vivo, a Cabeça pode falar e agir por meio desse Corpo. Isso é o Pentecostes. Para que sejamos membros vivos e atuantes, Cristo concede dons, pois, com esses dons, podemos servir uns aos outros para a edificação do Corpo em amor.
Nesta noite, gostaríamos de considerar o passo seguinte. Vimos o trabalho de parto que levou ao nascimento; vimos o nascimento do Corpo. Naturalmente, o que vem a seguir é a vida do Corpo, ou a vida da igreja.
Uma coisa pela qual precisamos agradecer ao Senhor é que, quando lemos a Bíblia, percebemos que Deus frequentemente nos mostra a vida antes de nos dar o ensino. Deus muitas vezes demonstra primeiro, antes de nos ensinar.
Há nisso uma vantagem evidente. Por quê? Porque, se recebermos primeiro o ensino, tentaremos fabricar alguma coisa. Alguém nos diz algo, então vamos e o fazemos. Deus não nos ensina primeiro; Ele primeiro demonstra.
Essa é a razão pela qual temos os quatro Evangelhos antes do livro de Atos, e o livro de Atos antes das Epístolas. No livro de Atos, não há muito ensino, mas há uma demonstração de vida. Nas Epístolas, temos o ensino que explica essa vida.
Quando lemos o relato da igreja primitiva, o que vemos no início é uma demonstração. Aqui nasce um Corpo; nasce uma igreja pela ação do Espírito Santo. Agora, como esse Corpo vive? Como essa igreja vive? Não vemos muito ensino a respeito disso, mas vemos uma grande demonstração.
Aquelas cento e vinte pessoas, como dissemos, tinham uma excelente formação. Tinham uma longa história com o Senhor. Depois de serem integradas em um só Corpo, poderíamos esperar uma vida maravilhosa do Corpo.
Mas, assim que aquelas cento e vinte pessoas começaram a viver como um só Corpo, porque eram um, três mil foram acrescentadas. Isso era um problema.
Essas três mil pessoas não eram tão maduras quanto as cento e vinte. Eram judeus; conheciam o Antigo Testamento. Talvez tivessem tido algum pequeno contato com o Senhor enquanto Ele estava na terra — isso era possível. Mas, se compararmos as três mil com as cento e vinte, havia uma grande distância entre elas.
Humanamente falando, as cento e vinte poderiam ter dito: “Esperem um pouco. Vocês não estão preparados para entrar. Deixem que nós, as cento e vinte pessoas, vivamos essa vida do Corpo, porque estamos prontos para ela. Se vocês entrarem imediatamente, vão diluir tudo. Vai ficar muito difícil”.
Mas o maravilhoso é isto: no Corpo há membros grandes e membros pequenos. Na família de Deus, há pais, jovens e filhinhos. Portanto, desde o início da vida da igreja, encontramos pais, jovens e muitos bebês.
Esses bebês eram crentes muito genuínos. Embora talvez tivessem ouvido a doutrina pela primeira vez, clamaram:
Que faremos? Que faremos?
Seus corações foram compungidos. Eles não sabiam o que fazer.
Pedro e os onze apóstolos disseram: “Agora, isto é o que vocês devem fazer”:
Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome do Senhor Jesus Cristo; e recebereis o dom do Espírito Santo.
Pedro, com muitas outras palavras, exortou-os a serem salvos daquela geração perversa. Aqueles que receberam sua palavra — a palavra “receberam” é o mesmo que “aceitaram” — a receberam de maneira completa. Arrependeram-se, foram batizados, receberam o dom do Espírito Santo e foram salvos daquela geração perversa.
Vemos essas três mil pessoas imediatamente como membros vivos do Corpo. Muitas vezes pensamos que os maduros podem exercer sua função, mas os recém-salvos devem esperar anos antes de abrir a boca. Aqui, porém, vemos imediatamente o Corpo de Cristo: os mais antigos e os mais jovens, os maduros e os novos, integrados pelo Espírito em um só Corpo.
Cada membro é vivo, e cada membro tem consciência da função do Corpo. Todos exercem sua função, mas também crescem.
A Bíblia diz que eles perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Esse “eles” não se refere apenas às cento e vinte pessoas. Refere-se à primeira igreja, composta de três mil cento e vinte pessoas. Em outras palavras, refere-se a cada filho de Deus que estava na igreja naquele tempo.
Todos perseveravam. Todos estavam inteiramente envolvidos na doutrina e na comunhão. Era assim que viviam.
O que é a doutrina dos apóstolos? A doutrina dos apóstolos nada mais é do que o ensino de Cristo.
Vocês se lembram de que nosso Senhor Jesus, antes de subir aos céus, disse em Mateus 28:19-20 que eles deveriam ir por todo o mundo, fazer discípulos de todas as nações, batizá-los em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensiná-los a guardar todas as coisas que Ele lhes havia ordenado.
Paulo disse aos coríntios:
O que vos entreguei é o que recebi do Senhor.
Isso não significa que os apóstolos podiam ensinar o que bem quisessem, como se cada apóstolo tivesse seu próprio ensino especial. De modo nenhum. Os apóstolos não ensinavam nada além do ensino de Cristo.
Em outras palavras, o Senhor Jesus ensinava Seu povo por meio dos apóstolos. O ensino deles não vinha dos homens, nem da sabedoria humana. Seu ensino vinha por revelação.
Eles ensinavam o que haviam recebido do Senhor por revelação. Aquilo que ensinavam era o que eles mesmos tinham visto e experimentado. Seu ensino não era meramente doutrina; não era meramente teoria. Seu ensino era palavra viva.
Por ser assim o ensino deles, aqueles que o recebiam não o recebiam como palavra de homens, mas como a Palavra de Deus. Não era apenas uma teoria na mente deles; eles permaneciam nesse ensino. Em outras palavras, colocavam-no em prática.
A doutrina dos apóstolos é o ensino encontrado na Bíblia, mas tornado vivo e vivificado pelo Espírito Santo. O ministério dos apóstolos é uma ministração viva e, por isso, seu ensino tem poder.
Aqueles que os recebiam os recebiam no Espírito, de modo que a Palavra operava em sua vida. Não era algo que passava meramente de uma mente para outra; era algo que passava de um espírito para outro. Era a comunicação de Cristo e o recebimento de Cristo, e por meio disso eles cresciam.
Essa é a doutrina dos apóstolos. Todas aquelas pessoas perseveravam na doutrina dos apóstolos. Mas, junto com ela, havia a comunhão dos apóstolos.
O que é a comunhão dos apóstolos? Será que os apóstolos formaram um clube exclusivo chamado “a comunhão dos apóstolos”? De modo nenhum. Os apóstolos passaram a participar da comunhão exclusiva do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Vocês sabem, se lerem a primeira epístola de João, o que nosso irmão João disse?
O que temos visto e ouvido, isso também vos anunciamos, para que também vós tenhais comunhão conosco;
e, de fato, a nossa comunhão é com o Pai e com Seu Filho Jesus Cristo.
— 1 João 1:3
E vocês se lembram de 1 Coríntios 1:9. Paulo disse que fomos chamados à comunhão do Filho de Deus, Jesus Cristo, nosso Senhor.
Em outras palavras, a comunhão dos apóstolos não é uma comunhão criada pelo homem. A comunhão dos apóstolos é a comunhão do Filho, Jesus Cristo. É a comunhão entre o Pai e o Filho no Espírito Santo.
Ah, essa é a comunhão mais exclusiva de todo o universo. Seus participantes são muito exclusivos: o Pai, o Filho e o Espírito — somente Eles.
A comunhão que o Pai e o Filho têm no Espírito é gloriosa. Eles compartilham tudo porque são um. Trabalham em harmonia, trabalham em amor, trabalham com um só propósito. Não há reservas, não há recuos — tudo é aberto e livre, comprometidos um com o outro, em perfeita harmonia e glória.
Não há sombras, não há trevas, não há ciúme, não há suspeita, não há medo. Ah, a comunhão do Filho com o Pai no Espírito é gloriosa.
Mas então o Pai e o Filho concordaram: “Vamos ampliar Nossa comunhão exclusiva. Vamos incluir o homem em Nossa família. Que eles compartilhem Conosco aquilo que temos”.
Foi por isso que o Senhor Jesus veio a este mundo. Ele veio buscar participantes para essa comunhão. Veio abrir a porta de Sua comunhão com o Pai. Por meio de Sua morte e ressurreição, Ele disse aos discípulos:
Subo para Meu Pai e vosso Pai, Meu Deus e vosso Deus.
Como os apóstolos passaram a participar dessa comunhão? Não por meios oficiais nem por um nome. Eles passaram a participar dessa comunhão porque Deus os colocou em Cristo. Estando em Cristo, estavam nessa comunhão.
Essa é a comunhão dos apóstolos. Eles tinham comunhão com o Senhor Jesus, comunhão com o Filho, comunhão com o Pai no Espírito. Que comunhão eles tinham!
Então vocês se lembram da oração de nosso Senhor em João 17:20-21:
E não rogo somente por estes, mas também por aqueles que creem em Mim por meio da palavra deles;
para que todos sejam um; assim como Tu, Pai, estás em Mim, e Eu em Ti.
— João 17:20-21
Os apóstolos estenderam sua comunhão a nós. Ao pregarem o evangelho a nós, também somos atraídos para essa comunhão do Pai e do Filho, Jesus Cristo. Essa é a comunhão dos apóstolos.
Assim como a doutrina dos apóstolos não é outro ensino, mas o ensino de Cristo — todo o ensino de Cristo —, a comunhão dos apóstolos não é uma comunhão diferente, mas a comunhão do Filho de Deus, Jesus Cristo.
A doutrina diz respeito à verdade; a comunhão diz respeito à graça. Quando perseveramos na doutrina dos apóstolos, recebemos toda a verdade que está em Cristo.
Como Paulo diz em Efésios 4:20-21:
Mas vós não aprendestes assim a Cristo;
se é que O ouvistes e Nele fostes ensinados, como a verdade está em Jesus.
A verdade está em Cristo, porque somente em Cristo há o “Sim” e o “Amém”. Essa é a doutrina dos apóstolos que recebemos.
Mas, ao mesmo tempo, há comunhão: um compartilhar, uma participação comum, uma parceria, uma união. Essa é a comunhão dos apóstolos.
O ensino que sustentamos não pode ser maior nem ir além da doutrina dos apóstolos. A comunhão que mantemos não deve ser maior nem menor do que a comunhão dos apóstolos.
Se perseveramos na doutrina e na comunhão dos apóstolos, estamos vivendo no Corpo. Se ultrapassamos seus limites ou a restringimos, não estamos vivendo no Corpo.
É assim que o Corpo vive. O Corpo vive na doutrina e na comunhão dos apóstolos. Seus membros recebem toda a verdade que está em Cristo — não apenas uma verdade, não meramente algumas verdades, nem muitas coisas acrescentadas a ela, mas a verdade que está em Cristo, conforme transmitida pelos apóstolos. Eles têm comunhão uns com os outros no Corpo. A base da comunhão é a base do Corpo.
A doutrina e a comunhão dos apóstolos são demonstradas especialmente no partir do pão e nas orações.
O que é o partir do pão? Na noite em que foi traído, o Senhor Jesus reuniu os Seus ao redor de Si. Perto do fim da ceia pascal, Ele tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e o deu aos discípulos.
Isto é o Meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de Mim.
— Lucas 22:19
Depois, Ele tomou o cálice, deu graças e o passou aos discípulos, dizendo:
Este cálice é a nova aliança no Meu sangue, que é derramado por vós.
— Lucas 22:20
Desde aquele dia, os crentes têm se lembrado do Senhor. Na igreja primitiva, partiam o pão todos os dias. Não é maravilhoso?
No partir do pão, havia um símbolo de que se lembravam do Senhor. Em outras palavras, o partir do pão na igreja primitiva tornou-se o próprio símbolo da vida deles. Sua vida era centrada em Cristo.
Sua vida dependia inteiramente de Cristo. Cristo era sua vida, seu sustento. Viviam por causa Dele e expressavam seu amor pelo Senhor.
Isso é a doutrina e a comunhão expressas no partir do pão.
Algumas pessoas me perguntam qual versão da Bíblia eu uso. Às vezes hesito em mencioná-la, porque não é uma versão popular. Acontece que uso a tradução de J. N. Darby.
Se vocês conhecem alguma coisa sobre Darby, sabem que ele viveu na Inglaterra do século XIX. Com alguns colaboradores, traduziu a Bíblia do grego e do hebraico para o alemão, o francês e o inglês.
Sabem o que eles faziam enquanto traduziam a Bíblia? Partiam o pão todos os dias. A razão era que, enquanto se ocupavam da tradução, havia muito trabalho intelectual. Receavam que, por estarem tão ocupados com o trabalho intelectual, pudessem se afastar do Senhor.
Por isso, partiam o pão todos os dias, para que seu coração fosse guardado pelo amor de Cristo.
Hoje, às vezes participamos da Ceia como uma formalidade. Alguns o fazem quatro vezes por ano, outros uma vez por mês, outros uma vez por semana. Mas muitas vezes participamos dela apenas como um ritual, uma cerimônia, uma cerimônia cristã, ou um pequeno sacramento.
Queridos irmãos e irmãs, para a igreja primitiva não era assim. Essa era a maneira pela qual expressavam sua perseverança na doutrina e na comunhão dos apóstolos. Essa era a maneira pela qual expressavam que sua vida era centrada em Cristo. Essa era a maneira pela qual mantinham seu coração amando a Cristo. Essa era a maneira pela qual se mantinham sempre em gratidão e adoração.
Portanto, a igreja primitiva perseverava na doutrina e na comunhão dos apóstolos, no partir do pão e na oração. Cristo era o centro de todo o seu ensino. Cristo era o centro de toda a sua comunhão.
Se algum ensino ou doutrina não estiver centrado em Cristo, logo se tornará algo que se opõe a Cristo. Seja qual for o ensino ou a doutrina, por mais correto que vocês julguem que seja, se não estiver centrado em Cristo, degenerará em outra coisa.
E, se a comunhão não estiver centrada em Cristo, ela degenerará em outra coisa. Comunhão não é simplesmente falar coisas sem sentido. Não é criticar este e aquele, falar uns dos outros pelas costas. Isso não é comunhão.
Não, a comunhão é centrada em Cristo. É o Espírito de Cristo. No partir do pão, vemos um símbolo de que eles eram centrados em Cristo.
Como disse um santo de Deus: “Tenho apenas uma paixão neste mundo, e essa paixão é Jesus”.
Eles não apenas partiam o pão; também oravam. Há duas coisas que os cristãos de hoje lamentam muito ter de fazer: uma é partir o pão, e a outra é orar.
No cristianismo, de algum modo, algumas pessoas dizem: “Bem, fazemos isso com muita frequência, então vamos fazer uma vez por mês”. Isso ainda é demais. “Fazemos uma vez a cada três meses.” Isso ainda é demais. “Vamos limitar à Páscoa e ao Natal.”
E vejam a reunião de oração. Quando um pregador está ensinando, o lugar fica cheio. Mas, quando chega a reunião de oração, há muito poucos. Alguns nem sequer têm reunião de oração.
Os primeiros crentes se reuniam. Não se reuniam para serem um; eles eram um, por isso se reuniam.
Esse estar juntos é mais do que proximidade física. É a união do Corpo. Eles sabiam que estavam ligados uns aos outros. Sabiam que não podiam viver sem os outros. Precisavam estar juntos.
Nosso querido irmão Watchman Nee certa vez visitou um irmão idoso, George Cutting, que escreveu Segurança, Certeza e Gozo. É um livreto maravilhoso. Muitas, muitas pessoas foram ajudadas por esse pequeno livreto.
Nosso irmão foi à Inglaterra especialmente para visitar esse irmão idoso, que então já tinha mais de noventa anos. Naquela época, sua mente já não estava muito lúcida. Ele despertava e ficava bastante lúcido por alguns minutos; depois, voltava a cair em uma espécie de inconsciência.
Quando nosso irmão voltou, contou-nos que ficou sentado ali com o irmão idoso. O velho irmão despertava e dizia: “Ele não pode ficar sem mim. Eu não posso ficar sem você. Eu não posso ficar sem Ele. Você não pode ficar sem mim”. Naturalmente, ao dizer “Ele”, referia-se ao Senhor.
Muitas vezes dizemos: “Não podemos ficar sem Ele”. Mas sabemos que Ele não pode ficar sem nós? Esse irmão sabia.
Nosso irmão disse: “É verdade. Não podemos ficar sem Ele; Ele não pode ficar sem nós. Mas você também não pode ficar sem mim, e eu não posso ficar sem você”.
Até que ponto temos consciência do Corpo? Até que ponto realmente sabemos que, assim como não podemos ficar sem Ele, não podemos ficar sem nossos irmãos e irmãs? Precisamos estar juntos.
Eles tinham tudo em comum. Ninguém dizia: “Isto é meu”. Tudo estava à disposição dos outros.
Havia algum ensino que os obrigasse a fazer isso? Estavam tão libertos do espírito de egoísmo, de autoproteção e de interesse próprio. Estavam tão cheios do amor de Cristo que não conseguiam dizer: “Isto é meu”.
Há um impulso muito forte em nossa carne, e esse impulso é o eu. Queremos proteger o que temos; queremos reivindicar alguma coisa como nossa. Vocês veem isso até em uma criancinha: “Ah, este brinquedo é meu. Você não pode tocar nele. É meu”.
A autoproteção é um instinto do homem caído. Expressa-se de maneira grande ou pequena, mas está presente. É a expressão do individualismo.
Mas, quando a graça de Deus vem dessa maneira, quando o amor de Cristo enche assim as pessoas, elas são completamente libertas do individualismo.
Não que deixem de ser indivíduos. Continuam sendo indivíduos. Não perderam sua individualidade. Mas foram libertas do individualismo. Isso é o Corpo.
O espírito de posse egoísta desapareceu. Eles compartilham tudo em comum.
Estritamente falando, isso não significa uma vida em comuna no sentido moderno. Neste país, parece haver um movimento entre os jovens, entre aqueles que foram tocados pelo Senhor, que desejam viver em uma comuna ou em comunidade.
Assim, vemos muitas comunas sendo organizadas, muitos grupos comunitários sendo organizados e muitas chamadas comunidades cristãs sendo formadas. Agora, irmãos e irmãs, não me entendam mal. Deixem-me tentar explicar o que está em meu coração.
Por um lado, vemos que a igreja é uma comunidade. Compartilhamos tudo uns com os outros. Tudo é comum. Mas lembrem-se: isso diz respeito à igreja inteira — não apenas a algumas pessoas especiais organizadas em uma comuna ou comunidade.
Creio que o desejo é correto. Mas tentar organizar uma comuna exclusiva ou uma vida comunitária exclusiva não é a resposta. É isso que a igreja deve ser — não apenas algo para umas poucas pessoas.
O desejo é correto, mas precisamos nos lembrar de que isso não é algo que saímos por aí e organizamos. Não é um ensino que tentamos copiar. É o amor de Cristo dentro de nós que nos dá consciência do Corpo — de que somos um com os irmãos e irmãs em um só Corpo.
De fato, como havia tantas pessoas pobres naquele tempo, muitos venderam suas propriedades e depositaram o valor aos pés dos apóstolos, para que se distribuísse a cada um conforme a necessidade.
Mas tudo era voluntário. Não era algo que todos tinham de fazer. Mesmo aqueles que não haviam vendido suas propriedades abriram suas casas para a igreja. Caso contrário, se todos tivessem vendido suas propriedades, a igreja não teria lugar onde se reunir.
Portanto, não pensem que estou tentando dizer que vocês simplesmente precisam fazer isso. Não é algo organizado. Não é algo fabricado. É espontâneo. É a expressão do amor de Cristo e da consciência do Corpo de Cristo.
Há vários anos, fui a Israel e visitei alguns kibutzim. Vocês sabem, esses kibutzim eram comunidades. As pessoas se reuniam, moravam juntas, comiam juntas e trabalhavam juntas. Não possuíam nada pessoalmente; tudo pertencia àquele kibutz.
Naturalmente, ao vermos a divisão e o egoísmo na humanidade, algo assim é compreensível. Mas não é disso que estamos falando. Não é uma cópia. Não é algo involuntário, nem mesmo algo voluntário, mas organizado. É a obra do Espírito Santo em nossa vida.
Ao prosseguirem no livro de Atos, vocês verão que os apóstolos nunca disseram: “Cada um de vocês precisa vender sua propriedade e entregá-la à igreja”. Nunca.
Mesmo no caso de Ananias e Safira, eles venderam sua propriedade, retiveram parte do dinheiro e entregaram o restante aos apóstolos. Pedro disse que, enquanto a propriedade não fora vendida, pertencia a eles; ninguém os havia obrigado. Mesmo depois de vendê-la, o dinheiro ainda era deles. Mas por que enganaram o Espírito Santo?
Em outras palavras, é puramente uma questão do Espírito. É Ele Quem nos constrange.
Irmãos e irmãs, era assim que eles viviam nos primeiros dias. Essa é a vida da igreja. Isso honra a Deus.
Por fim, eles viviam diariamente no templo e partiam o pão de casa em casa, tomando o alimento com alegria e gratidão, louvando ao Senhor e tendo o favor de todo o povo. E o Senhor acrescentava pessoas à igreja diariamente.
A vida da primeira igreja era uma vida de reunião. Eles se reuniam todos os dias. Agora, provavelmente vocês diriam: “Isso é impossível”. Sim, mas o princípio está ali.
Não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns, mas exortando-nos uns aos outros.
— Hebreus 10:25
Como precisamos nos reunir para encorajar uns aos outros no Senhor! Precisamos disso. Mesmo que não possamos nos reunir todos os dias, devemos nos reunir com a maior frequência possível.
A vida do Corpo, a vida da igreja, é uma vida de reunião. Reunimo-nos para adorar ao Senhor, para exortar uns aos outros e para edificar uns aos outros.
Eles louvavam a Deus e tinham o favor de todo o povo. Tinham um bom testemunho diante do mundo.
Portanto, irmãos e irmãs, quando lemos os primeiros capítulos do livro de Atos, eles nos dão uma demonstração da vida da igreja nos primeiros dias.
O Espírito de Deus é vivo. Não tentem uniformizar tudo só porque a igreja primitiva era assim, para depois tentar copiá-la. Seus caminhos são diferentes em cada lugar, mas os princípios permanecem.
Não estamos dizendo: “Aqui está um modelo; agora copiem-no”. Estamos dizendo que o Espírito Santo nos mostrou um modelo cheio de princípios divinos. Deixemos que o Espírito nos conduza à prática.
Vocês descobrirão que cada lugar será diferente e, contudo, no fundo, os princípios são os mesmos.
Que o Senhor restaure essa vida entre nós hoje.
Nosso Pai celestial, nós Te louvamos e agradecemos pela demonstração de Tua vida na igreja. Senhor, Tua vida está em nós. Que ela não encontre impedimentos e que, pela ação vivificadora do Espírito Santo, surjam expressões espontâneas para o louvor e a glória do Teu nome.
Senhor, ouvimos essas coisas. Agora cabe a Ti realizá-las em nós. Não ousamos estender os braços e tentar organizar coisa alguma, mas nos entregamos a Ti para aquilo que Teu Espírito deseja. Em nome de nosso Senhor Jesus. Amém.