É necessário, tanto para os que chegaram agora como para os demais, repetir as passagens das Escrituras que são fundamentais para a nossa reflexão nesta conferência.
Peço que abram novamente nas profecias de Isaías, em Isaías 53:10-11.
Todavia, ao Senhor agradou moê-Lo; Ele O fez padecer:
quando Tu fizeres da Sua alma uma oferta pelo pecado,
Ele verá a Sua descendência,
prolongará os Seus dias,
e a vontade do Senhor prosperará na Sua mão.
Ele verá o fruto do trabalho da Sua alma
e ficará satisfeito.
Depois, na carta aos Romanos, Romanos 9:6-7:
Não que a palavra de Deus haja falhado.
Porque nem todos os que são de Israel são israelitas;
nem por serem descendência de Abraão são todos filhos.
E, na carta aos Gálatas, Gálatas 3:16:
Ora, a Abraão foram feitas as promessas, e à sua descendência.
Não diz: E às descendências, como falando de muitas; mas como de uma só:
E à tua descendência, que é Cristo.
Provavelmente haverá outras passagens que reunirei à medida que prosseguirmos.
Ao chegarmos a esta nova etapa — toda essa questão da descendência divina, do fruto do trabalho de Cristo, deste novo Israel espiritual —, quero apenas fazer uma ou duas observações preliminares e gerais.
Embora isso seja tão conhecido, é muito necessário que tenhamos bastante clareza sobre esta questão: não há duas coisas, ou mais, na Bíblia, como se fossem representadas pelos dois Testamentos, o Antigo e o Novo, ou por outras subdivisões do Antigo Testamento.
Pode haver dois ou mais modos de expressar a mesma coisa, mas, do começo da Bíblia até o seu encerramento, há uma única coisa.
Tornamo-nos mecânicos em nossa maneira de lidar com a Bíblia, dividindo-a em dispensações e nas diferentes características de diferentes épocas. Isso pode ter exercido alguma influência sobre nós, por mais que creiamos na tipologia e no simbolismo.
Quero apenas ressaltar isto novamente nesta manhã: nas diferentes, e talvez numerosas, formas de expressão, Deus Se atém a uma única coisa, do princípio ao fim. Seu Filho governa tudo, em todos os tempos.
Ele governa tudo nas realidades da Sua Pessoa e da Sua obra redentora e aperfeiçoadora. É uma única Pessoa e uma única obra, do primeiro livro ao último.
A mudança do Antigo Testamento para o Novo é apenas e simplesmente a mudança do indireto para o direto, do simbólico para aquilo que é simbolizado, da representação temporal para a realidade espiritual. Isso é tudo.
Não é uma mudança de propósito ou de objetivo, nem uma mudança de base ou fundamento. De modo algum é uma mudança de princípio.
Bem, talvez vocês digam: “Nós sabemos tudo isso”. Mas há nisso mais do que nós, ou quaisquer outros, já percebemos.
Levem isso adiante. Os patriarcas estavam, em princípio, tão fundamentados no Filho de Deus quanto vocês e eu. Isso também é verdade a respeito de Israel na terra. Israel estava tão fundamentado no Filho de Deus quanto nós estamos nesta dispensação.
Deus nunca, em tempo algum, por nenhum meio, trabalhou sobre outra base senão a do Seu Filho.
Suas atividades criadoras tinham como base o Seu Filho. Nele, por meio Dele, por Ele, todas as coisas vieram a existir; e tudo prossegue sobre essa mesma base e será consumado em Cristo.
Sejam quais forem os meios, seja qual for a maneira pela qual Deus tenha trabalhado, Sua base sempre foi unicamente o Seu Filho; e, pelas eras vindouras, essa base permanecerá inalterada. É a base de Cristo.
Essa é uma afirmação geral que é muito importante recordarmos e da qual precisamos estar plenamente certos.
Tendo dito isso, agora os levo de volta ao ponto em que interrompemos no sábado à noite. Vocês se lembram de que estávamos nos referindo ao Evangelho de João, especialmente ao ponto dessa narrativa que, segundo a nossa divisão, corresponde a João 3 e, talvez, João 4.
Eu estava dizendo que achamos que sabemos alguma coisa sobre João 3, não é verdade? É um grande capítulo:
Necessário vos é nascer de novo.
— João 3:7
É um grande capítulo:
Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito.
— João 3:16
Não o conhecemos? Não o ouvimos cem vezes, mil vezes? E, no entanto — no entanto —, quanto sabemos a respeito dele?
Como eu disse no sábado à noite, essa parte da narrativa, marcada por João 3 e abrangendo João 4, traz diretamente à luz toda essa questão da descendência celestial — sua natureza, seu princípio e muito mais.
Vejamos, então, João 3. Será necessário que eu volte a enfatizar o contexto disso? O Senhor Jesus sabia de tudo. O Espírito de Deus, que levou João a escrever, sabia de tudo. João sabia muito mais do que chegou a escrever — não mais do que Jesus sabia —, mas há aqui uma plenitude que representa um conhecimento espiritual tremendamente abrangente.
Talvez algo disso se revele a nós à medida que prosseguirmos. Talvez tenhamos aqui o que considero uma divisão infeliz em relação às palavras imediatamente anteriores. Contudo, tomemos o texto:
Ora, havia um homem dos fariseus, chamado Nicodemos, um dos principais dos judeus.
— João 3:1
Em João 3:10, Jesus lhe disse:
Tu és o mestre de Israel e não compreendes estas coisas?
Um homem dos fariseus, um dos principais dos judeus, o mestre de Israel: aqui vocês têm, numa pessoa, num indivíduo, a plena personificação de Israel segundo a carne.
Um desenvolvimento pleno — os fariseus, com o significado técnico e intrínseco dessa designação. Tenho de resistir continuamente à tentação de me deter nos detalhes. Poderíamos facilmente passar meia hora na história dos fariseus, e isso é um grande problema.
Contudo, observemos simplesmente que os fariseus eram o ponto culminante, a expressão final de Israel segundo a carne. Reuniam em si tudo o que Israel afirmava ser, ou que supostamente era. Metaforicamente, encontraríamos neles a expressão máxima da identidade israelita e do judaísmo.
Assim, temos aqui uma plena personificação de Israel segundo a carne: um dos principais dos judeus e, depois, o mestre de Israel. Observem a forma. Literalmente, o artigo está no texto. Jesus não disse: “Tu és um mestre de Israel?”. Ele disse: “Tu és o mestre de Israel?”.
Esse homem evidentemente se destacava, talvez acima de todos os outros, reconhecido como o mestre daquele tempo. Este homem.
Indico essas coisas para mostrar que aqui temos Israel segundo a carne presente de maneira muito plena — em todos os aspectos. É a descendência natural de Abraão, um filho de Abraão plenamente desenvolvido segundo a carne.
Todas as características e todos os elementos naturais de um filho de Abraão estavam presentes em seu estado natural. Ele havia nascido segundo a carne, de Abraão. Fora circuncidado na carne conforme a aliança feita com Abraão. Sua preocupação, seu interesse supremo, era o reino que a descendência de Abraão haveria de herdar.
Essas três coisas são fatores principais aqui. Eu as repito: ele havia nascido segundo a carne como filho de Abraão; fora circuncidado na carne como selo da aliança feita com Abraão; e seu interesse absorvente e ardente, como verdadeiro israelita, era o reino prometido à descendência de Abraão na aliança.
Bem, aqui está Abraão, com toda a sua descendência natural reunida nesse homem, e todas as suas marcas e características reunidas aqui. Não é apenas Nicodemos; Israel está presente.
Desde o tempo de Abraão até esta mesma hora, todos os filhos de Abraão estão presentes, representados por esse homem. Uma figura tremenda, esse homem, realmente.
Agora Jesus, com um gesto de mão, rejeita tudo isso. Ele não dá ouvidos a isso. Não lhe abre a porta, não lhe concede sequer um instante de consideração ou atenção.
Na verdade, na verdade te digo: necessário vos é nascer de novo.
— João 3:3, 7
Para realmente pertencer à descendência de Abraão, vocês precisam nascer do alto. Esse é, literalmente, o significado. Vocês precisam nascer do alto.
A descendência de Abraão, com toda a aliança, as promessas, a perspectiva futura e o reino, é aquela que nasce do alto, não esta.
O Senhor Jesus faz aqui, seja por afirmação direta, seja por clara implicação, alguns contrastes fundamentais. Primeiramente, entre dois nascimentos: o que nasce da carne e o que nasce do Espírito; o que nasce da terra e o que nasce do céu.
Eles pertencem a dois reinos, dois nascimentos, duas esferas; e não há passagem de uma para a outra. O caminho está fechado. Ele não está discutindo a questão de modo algum. Está simplesmente dizendo: “São tão diferentes — não, Adão pertence a uma base tão diferente — que não há como entrar nessa outra esfera, a não ser por um começo inteiramente novo, vindo do céu”.
Ora, o restante do Novo Testamento está edificado sobre essa verdade fundamental. O ministério de Paulo está edificado sobre ela. Dissemos anteriormente que essa foi a causa de todas as dificuldades que Paulo enfrentou. Vejam como isso é radical, vejam como é tremendo.
É como se o Senhor estivesse dizendo: “Afinal, vocês não são Israel. Vocês não são Israel, não é verdade? Nem começaram a enxergar o verdadeiro significado do Israel de Deus”.
Aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus.
— João 3:5
Aqui não há apenas o contraste entre o nascimento natural e o nascimento espiritual. Há uma diferença fundamental entre o mar Vermelho e a coluna de nuvem e de fogo — as representações simbólicas — e a realidade espiritual.
Nascidos da água? Sim, simbolicamente, no mar Vermelho. Nascidos do Espírito? Sim, simbolicamente, na nuvem. Todos foram batizados em Moisés, no mar e na nuvem. Vocês poderiam dizer: “Nós sabemos tudo sobre isso”. Ah, vocês acham que sabem? Nem começaram a enxergar o significado disso.
Há uma diferença entre o simbólico e o espiritual, entre a figura e a realidade. “Nascer da água e do Espírito” tem um significado muito mais profundo do que você jamais viu ou pode ver, Nicodemos.
E, então, quanto ao reino. É claro que Nicodemos não havia mencionado essa palavra, mas o Senhor Jesus, conforme as palavras imediatamente anteriores — e é por isso que considero tão infeliz essa divisão da narrativa —, sabia o que havia no homem.
Mas Jesus não Se confiava a eles, porque a todos conhecia,
e não necessitava de que alguém testificasse acerca do homem;
porque Ele próprio sabia o que havia no homem.
— João 2:24-25
E havia um homem, um fariseu, chamado Nicodemos. Ele o conhecia e sabia o que havia nele. Sabia que o único interesse desse homem na vida — um interesse honesto, sincero, apaixonado — era o reino. Essa era a grande esperança de Israel. Essa era a grande questão de Israel: o reino.
O Senhor Jesus, conhecendo o homem e conhecendo seu interesse por esse reino, deixou perfeitamente claro que o reino em que Nicodemos pensava era um reino, mas o reino em si era algo inteiramente diferente. O reino de Deus é algo inteiramente diferente do reino de Israel na terra.
Há aqui contrastes muito fortes. Vocês podem ver como, por meio disso, toda a Bíblia converge para essa mesma direção.
A conclusão abrangente de tudo isso é simplesmente esta: tudo o que era histórico não era a realidade. Não correspondia ao significado que o Senhor atribuía à palavra “verdade”.
Eu disse anteriormente que João 4 faz parte de João 3. Vocês sabem que é assim. No contraste que o Senhor Jesus apresentou à mulher de Samaria — “a hora vem, e agora é” —, há uma mudança. Aqui está a transição; aqui vocês estão passando de uma esfera para outra.
A hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade:
porque o Pai procura a tais que assim O adorem.
— João 4:23
Não neste monte, nem em Jerusalém, mas em espírito e em verdade.
Essa afirmação simplesmente exclui toda uma ordem e todo um sistema de coisas e introduz uma ordem inteiramente diferente. Tudo o que era histórico não era a realidade ou, para usar a palavra do Senhor, não era a verdade.
Este monte, Jerusalém — sim —, mas não é a verdade. Essa descendência de Abraão — sim —, mas não é a verdade. Essa esperança do reino — sim —, mas não é a verdade.
Isso nos sonda muito, muito profundamente.
O fato é que tudo, tudo, precisava ser colocado sobre a base de Cristo — sobre a base de Cristo. E isso só podia acontecer, e só pode acontecer em qualquer tempo, por meio da morte e da ressurreição, ou do novo nascimento, com base em Cristo em Sua morte e ressurreição.
Em Isaque será chamada a tua descendência.
— Gênesis 21:12
Por quê? Porque Isaque é a personificação simbólica do princípio da morte e da ressurreição.
Tudo precisa ser colocado sobre a base de Cristo em Sua morte e ressurreição. E isso era igualmente verdadeiro no Antigo Testamento e no Novo.
Ao refletir sobre esta leitura, voltei a ler aquela fascinante história de José — a fome na terra, a chegada de seus irmãos, a posterior mudança de toda a família, Jacó e todos os seus filhos, setenta almas, daquela terra para o Egito.
É uma história fascinante. A história de José e seus irmãos, creio eu, é uma daquelas que prendem vocês até o fim quando começam a lê-la. Todo esse episódio desperta um interesse absorvente.
Mas me vi detido por uma pergunta. O Senhor havia levado Abraão para aquela terra e a havia dado a ele e à sua descendência, mediante uma aliança — uma possessão perpétua. O que é isso? A descendência abandonando a terra e indo para o Egito?
Todos eles, cada alma, saindo da terra da aliança e entrando no Egito. É claro que o Senhor havia dito a Abraão que sua descendência estaria na terra do Egito, em servidão, durante quatrocentos anos, que seria maltratada, e assim por diante. O Senhor havia dito a Abraão que isso aconteceria.
Mas deixemos, por um momento, a profecia e seu cumprimento. Aqui está algo estranho: serem arrancados e saírem, até a última alma, do próprio lugar da aliança, para irem ao Egito. Qual é o significado disso? Por quê?
Pensei demoradamente nisso e, então, creio que enxerguei a resposta.
Sim, olhem para a descendência de Abraão na terra. Olhem para aqueles filhos de Jacó. Que tipo de pessoas são essas? Sim, a descendência de Abraão segundo a carne, os herdeiros da aliança segundo a carne, a linhagem histórica — mas olhem para eles.
Bem, só o incidente com José já basta para revelar que tipo de pessoas eram. A história, em seu conjunto, não é muito bonita, não é? Seus nomes, seu comportamento, sua disposição — é um retrato muito pobre da descendência de Abraão.
Vocês acham que Deus permitirá que esse tipo de pessoa prossiga até alcançar o Seu propósito final? De modo algum.
É preciso levá-los ao Egito e colocá-los, antes de tudo, sobre a base do trabalho de Cristo — a cruz. Observem, enquanto estão ali, o princípio da cruz tratando com a vida do eu, com a carne, até que cresçam — cresçam.
Depois, vejam as poderosas energias de Deus nesse trabalho, fazendo sair do Egito aquela descendência. Em princípio, entendam, em princípio, trata-se de toda essa realidade tremenda: o trabalho que conduz a um novo nascimento por meio da morte e da ressurreição.
Deus os está tirando da base natural e colocando-os sobre a base de Cristo, e isso em morte e ressurreição. Tem de ser assim. Tem de ser assim. Deus é fiel aos Seus princípios. Deus é fiel ao Seu Filho. Deus não está representando um papel. Ele não está apenas produzindo história.
Deus está gravando profundamente na história as leis eternas do Seu Filho, em Sua Pessoa e em Sua redenção.
Portanto, eles não podem herdar. Não podem herdar. Precisam passar por essa provação, essa terrível provação. Precisam, repito, ser colocados sobre o fundamento, sobre a base de Cristo em morte e ressurreição, antes que possam atravessar tudo isso e voltar a possuir a terra.
Vocês veem Deus retomando as coisas com a descendência de Abraão, com as doze tribos, desde o Egito, passando pelo êxodo, pelo deserto, até entrarem na terra. Tudo está sobre a base de Cristo. Cada parte, cada fragmento disso está, em princípio, sobre a base de Cristo.
Creio que preciso abrir um parêntese de enorme importância: essa questão da circuncisão. É um assunto delicado, mas carregado de um significado tremendo.
Vamos ler algumas passagens. Primeiramente, no livro de Atos, em Atos 7, no grande discurso de Estêvão:
E deu-lhe a aliança da circuncisão.
— Atos 7:8
Agora, abram em Romanos 2:28-29:
Porque não é judeu o que o é exteriormente,
nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne;
mas é judeu o que o é no interior,
e circuncisão é a do coração, no espírito, não na letra;
cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus.
Depois, Romanos 4:9-11:
Vem, pois, esta bem-aventurança sobre a circuncisão somente, ou também sobre a incircuncisão?
Porque dizemos que a fé foi imputada como justiça a Abraão.
Como lhe foi, pois, imputada? Estando na circuncisão ou na incircuncisão?
Não na circuncisão, mas na incircuncisão;
e recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé que teve quando estava na incircuncisão,
para que fosse pai de todos os que creem, estando eles também na incircuncisão.
Como isso é profundo. Passem para 1 Coríntios 7:19. Quase prendemos a respiração ao ler:
A circuncisão nada é, e a incircuncisão nada é;
mas o que importa é a observância dos mandamentos de Deus.
— 1 Coríntios 7:19
Imaginem alguém dizer isso! Bem, chegaremos a isso em um momento. Agora, a carta aos Gálatas, Gálatas 5:6:
Porque em Cristo Jesus nem a circuncisão nem a incircuncisão têm valor algum;
mas a fé que opera pelo amor.
E Gálatas 6:15:
Porque nem a circuncisão é coisa alguma, nem a incircuncisão, mas uma nova criatura.
Agora, uma afirmação e uma exposição tremendas na carta aos Colossenses, Colossenses 2:11-12:
Nele também fostes circuncidados com uma circuncisão não feita por mãos,
no despojamento do corpo da carne, na circuncisão de Cristo;
tendo sido sepultados com Ele no batismo,
no qual também fostes ressuscitados com Ele, mediante a fé na operação de Deus,
que O ressuscitou dentre os mortos.
Por ora, isso basta da Palavra.
Recordemos a tremenda importância que os judeus atribuíam à circuncisão. Eu poderia nos manter nesse assunto durante todo o tempo, e seria muito proveitoso se pudéssemos compreender toda a sua força.
Os judeus atribuíam uma importância tremenda a essa questão. Era o próprio sinal de sua condição nacional, de sua existência nacional, de seu pertencimento àquele nome.
Quem não tivesse esse sinal estava inteiramente de fora — fora do âmbito da promessa, da esperança, da aliança e de tudo mais. Para eles, tudo repousava sobre isso. Jamais se permitiria participar da festa da Páscoa a alguém que não tivesse esse sinal. Era a porta de entrada para tudo.
Vocês podem perceber um pouco do peso que atribuíam a isso quando chegam até mesmo ao Novo Testamento, depois do dia de Pentecostes. Por um lado, foi algo realmente tremendo para os próprios apóstolos lidar com essa questão e flexibilizar sua posição a respeito dela.
Pedro, Tiago, João e os outros — foi uma verdadeira ruptura dolorosa. Foi uma verdadeira ruptura dolorosa ter de flexibilizar sua posição quanto à circuncisão literal. A questão continuava a surgir o tempo todo, como se fosse preciso arrancar algo do íntimo do seu próprio ser.
E quanto àqueles judaizantes, que perseguiam Paulo por toda a face da terra, seguindo seus passos nas igrejas que ele havia estabelecido? Diziam àqueles a quem ele ministrava: “Se não vos circuncidardes, não podeis ser salvos”.
Eu diria que essa foi a causa de todas as dificuldades. Tanto nas Escrituras como fora delas, poderíamos apresentar tantas coisas que mostram o peso — o enorme peso — que isso tinha.
Ainda hoje, a celebração desse rito num lar judeu é marcada por festividades, ritos sagrados e tantas outras coisas. Sim, algo grande, imenso, profundamente arraigado no seu próprio ser: a circuncisão era aquilo de que tudo dependia para eles.
E eis que surge esse homem dizendo: “A circuncisão nada é”. E depois: “Nada é. Nada é”.
Paulo havia sido judeu a vida inteira, circuncidado ao oitavo dia, e diz que isso nada é. O que ele enxerga? Bem, é claro que ele enxerga o significado espiritual; e, quando enxergamos isso, a outra coisa nada é.
Ele enxerga o significado espiritual e, aqui, em sua carta aos Colossenses, para citar um exemplo, apresenta de maneira precisa e concisa qual é esse significado.
Nele também fostes circuncidados com uma circuncisão não feita por mãos,
no despojamento do corpo da carne, na circuncisão de Cristo;
tendo sido sepultados com Ele no batismo,
no qual também fostes ressuscitados com Ele, mediante a fé na operação de Deus,
que O ressuscitou dentre os mortos.
— Colossenses 2:11-12
Agora, há duas coisas aqui: a relação entre circuncisão e batismo. Aqui está o pensamento pleno de Deus tanto a respeito da circuncisão como do batismo. Não podemos nos aprofundar nisso antes de encerrarmos nesta manhã.
Mas a outra coisa é o que isso realmente significa à luz da cruz de Cristo. A relação entre circuncisão e batismo, conforme apresentada aqui por Paulo, leva ambos os termos diretamente à cruz do Senhor. Eles se unem como uma só coisa em princípio e significado.
Quanto à cruz do Senhor Jesus: sepultados com Ele e ressuscitados juntamente com Ele. Tudo é colocado sobre a base de Cristo crucificado e ressuscitado.
Bem, é claro que sabemos disso a respeito do batismo. Nós, cristãos, sabemos que esse é o significado do batismo. Mas, por outro lado, o que aquele sinal significava?
A cruz é apresentada aqui, digamos assim, como o instrumento da circuncisão. Ela realiza a obra. É isso que ela faz, e é definitivo.
Ah, se Israel tivesse enxergado — se apenas tivesse enxergado —, nada teria sido perdido. Não precisariam rebaixar sua concepção nem reduzir o valor que lhe atribuíam. Não teriam dado menos importância à circuncisão, se apenas tivessem enxergado.
Sim, é algo grandioso. É algo de enorme importância. Afinal, a existência nacional realmente repousa sobre isso. Mas não se trata apenas da existência nacional — a existência celestial, a entrada em todas as bênçãos da aliança eterna em Seu sangue, repousa sobre o princípio que está aqui.
Sim, é algo grandioso. É por essa porta que se entra em todo o reino prometido na aliança e se toma posse dele. É algo tremendo. Sua importância não foi exagerada em nada, se apenas tivessem enxergado Cristo crucificado e ressuscitado.
Vejam, foi simplesmente porque não enxergaram o verdadeiro significado desse rito predominante, supremo em sua própria vida e história, que perderam tudo. Perderam o reino; perderam seu lugar nacional nos desígnios de Deus, ao menos por enquanto.
Não tudo, porém. O problema foi terem separado uma coisa do seu significado. É esvaziar as coisas de seu significado. No caso de Nicodemos, a questão é a cegueira. Tudo o que está ali é a circuncisão — esse é o ponto.
Ele é judeu; é circuncidado; representa de maneira muito plena Israel segundo a carne, em toda a sua completude. Mas vejam como ele, nessa condição, é excluído.
Como nosso tempo está praticamente esgotado, cheguemos a isto: qual é o significado disso? O que significa na vida da verdadeira descendência de Abraão, que é a descendência de Cristo? O que significa?
Significa simplesmente isto: não é da carne, mas do coração, como diz Paulo. É uma separação que precisa acontecer profundamente, no íntimo do ser da pessoa — algo lá dentro, no homem interior. É um corte entre duas coisas, uma separação entre elas.
O relógio está me limitando. Tudo está comprimido. Se eu tivesse tempo, poderíamos desenvolver esse pensamento. Mas aqui está: na circuncisão há sangue que se interpõe e separa duas coisas.
Isso fica estabelecido para sempre. Essa separação aconteceu. Essa distinção foi feita. Essas duas coisas já não estão juntas. Deus as separou. E quantas coisas do Novo Testamento entram em cena quando dizemos isso.
Esse é o significado espiritual do batismo. Vocês não podem dizer: “Ah, essa velha vida está morta e sepultada”, e depois fugir das implicações disso. Mas Deus quer dizer tudo isso.
Vejam, Deus não nos dispensa disso. Se estamos realmente levando as coisas a sério, Ele não nos dispensa de nenhuma das implicações do que quer dizer. Embora, no começo, talvez não enxerguemos tudo — e graças a Deus por não enxergarmos —, mesmo assim, ao dizer isso, talvez fosse bom que soubéssemos um pouco mais.
O que é separado na cruz do Senhor Jesus, e pela cruz do Senhor Jesus? Que separação é essa que vocês e eu aceitamos, à qual chegamos, quando nos achegamos à cruz do Senhor Jesus e assumimos ali nossa posição no ato simbólico do batismo?
Há vários termos no Novo Testamento para isso. Às vezes, simbolicamente, é chamado de “a carne”. Paulo usa a expressão “todo o corpo da carne”. Ele não está falando do nosso corpo físico. “O corpo da carne” — ele usa essa palavra com muita frequência, não é verdade, de maneira simbólica?
Outra designação que ele dá a isso na carta aos Coríntios é “o homem natural”. Em outras palavras, a mesma coisa: o homem natural.
O que é isso realmente? Carne. Essa é uma palavra difícil, difícil. Homem natural — talvez isso seja ainda mais difícil. É muito mais técnico. O que é? O que você quer dizer?
Bem, queridos amigos, é isto que significa, pura e simplesmente: o princípio do eu na criação — um princípio do eu.
Essa é a raiz de tudo. Isso está no fundo de tudo. Foi aí que toda a dificuldade começou com Adão, e é aí que toda a dificuldade tem continuado. É aí que está a dificuldade com vocês e comigo.
Um princípio do eu cresceu, espalhou-se e tomou conta. Isso está em nossa natureza.
Ele se afirmará, se manifestará e buscará favorecer a si mesmo de todas as maneiras concebíveis. Vocês jamais conseguirão imaginar todas as formas pelas quais esse princípio se manifestará.
Ah, é como se vocês estivessem tentando mantê-lo reprimido. Eu poderia passar muito tempo percorrendo todas as situações e mostrando-o em todas as formas concebíveis — essa coisa de tantos membros, esse princípio do eu, afirmando-se.
Não é uma reflexão muito agradável ou saudável, mas aí está. Aí está. Está na mente.
Usamos nosso intelecto e nossa razão segundo esse princípio do eu, para dominar e fazer as coisas seguirem o nosso caminho, para argumentar, para sustentar nossa posição.
Antes que vocês e eu possamos entrar na verdadeira esfera das coisas celestiais, precisamos ter um intelecto circuncidado, uma razão circuncidada, uma mente circuncidada.
Não era exatamente isso que o Senhor estava dizendo a Nicodemos? Vejam, Ele permanecia nessa questão em João 3. Aqui está esse mestre de Israel vindo argumentar, discutir. Ah, não adianta, não adianta.
Você foi circuncidado na carne como um bom judeu. O que precisa é ter seu intelecto circuncidado. Se alguém não nascer do Espírito, não pode ver. Você tem tudo na mente — uma compreensão intelectual.
Mas, se lhe falei de coisas terrenas e você não entende, como será se Eu começar a lhe falar de coisas celestiais? Você está inteiramente fora dessa esfera. Precisa haver um corte entre sua vida natural, mesmo sendo um filho tão devoto de Abraão, e as coisas do céu.
A dificuldade com muitas pessoas, vejam, é que a própria cabeça delas está o tempo todo no caminho. A única coisa que as impede de avançar é a própria cabeça: obstinação, estreiteza de pensamento, superioridade intelectual, ou algo assim — sua disposição para discutir.
Assim, nessa esfera, vocês encontram essa resistência todas as vezes. Não há como avançar. Se tentarem abordá-las por esse caminho, estarão simplesmente se chocando contra uma parede.
O Senhor Jesus não agia assim ao procurar ganhar almas. Ele dizia: “Vocês precisam nascer do alto”.
Em outros casos, a circuncisão precisa acontecer na esfera dos sentimentos, dos desejos. Essa é a parte do ser que se interpõe no caminho de tantas pessoas. Elas são simplesmente dominadas por seus desejos, ou por seus sentimentos, suas emoções — inteiramente governadas por isso e escravizadas a essa parte do seu ser.
Sempre que vocês as encontram nessa esfera natural — na vida dos sentimentos, das emoções, dos desejos, dos afetos —, são pessoas muito difíceis de tratar.
Mas vejam, um verdadeiro filho do céu, fruto do Seu trabalho, é alguém em quem a circuncisão aconteceu justamente nessa esfera dos sentimentos, dos desejos, das emoções.
O que é verdadeiro nessas duas esferas também é verdadeiro na esfera da vontade. Ah, como isso é verdade: em muitas pessoas, a vontade delas está no caminho. Elas simplesmente não conseguem abrir mão. Têm uma ideia; têm uma posição; e a mantêm e defendem.
Chegam a sustentar sua posição com as Escrituras, ou com uma revelação que consideram superior às Escrituras. Toda a sua natureza natural — sua vontade — é a causa de toda a interrupção, limitação e frustração do propósito de Deus, do retrocesso de todos os propósitos de Deus.
É simplesmente a vontade delas: suas escolhas, suas decisões, suas posições, seus caminhos, sua força natural própria, ainda não quebrantada.
É precisamente aí que a circuncisão precisa acontecer, e de tantas outras maneiras. Vejam, isso chega a esta nossa vida interior. Chega bem lá dentro.
A cruz, o instrumento da circuncisão espiritual, precisa ser aplicada de maneira cada vez mais profunda a essa vida do eu, porque parece não haver fim para ela — não haver fim.
O que está acontecendo do outro lado? Aquele é o lado doloroso, e este é o lado luminoso: está-se abrindo espaço para Cristo, não é verdade? É isso que está acontecendo.
A verdadeira descendência, a descendência de Cristo, crescendo, tornando-se manifesta, abrindo espaço para Cristo.
A mansidão é exatamente o oposto do que tenho dito a respeito da força da vontade própria e da posição pessoal, seja nas emoções, no intelecto ou na vontade. A mansidão é exatamente o oposto.
Tomai sobre vós o Meu jugo, e aprendei de Mim;
porque sou manso e humilde de coração.
— Mateus 11:29
Que coração circuncidado era o Dele. Sigam esse pensamento até o fim. Ah, sim, algo havia sido realizado nas profundezas do Seu ser.
Queridos amigos, eu disse que não podemos calcular toda a extensão desse princípio do eu: introspecção, ocupação consigo mesmo, atenção a si mesmo, autocomiseração e consciência excessiva de si — até mesmo em nossa vida cristã.
Nossa devoção ao Senhor — ficamos muito felizes quando outras pessoas veem como somos devotados e como somos humildes. É tudo o eu, o miserável eu — permitam-me usar a expressão, o eu fedorento —, aparecendo o tempo todo.
Um verdadeiro filho de Deus esquece de si mesmo, tem menos consciência de si em todos os sentidos. Outras pessoas apontam coisas que ele não havia percebido — coisas boas a seu respeito. Ele não tinha consciência delas. Fica surpreso por alguém poder dizer alguma coisa boa a seu respeito.
Há neles uma fragilidade muito mais comovente. Se acontecer o contrário e as pessoas disserem coisas ruins, apenas dizem: “Bem, vocês não podem me dizer mais do que eu já sei. Estou tratando disso com o Senhor. Tenho colocado isso diante do Senhor. Não estou me enganando a esse respeito”.
Vejam, esse é um verdadeiro filho do céu. E assim poderíamos prosseguir. Esse é o significado da circuncisão. Como é diferente daquela na carne. Ela nunca produziu esse resultado.
Pensem, à luz disso — da verdade, do princípio, do verdadeiro significado —, num filho de Abraão, num fariseu, dizendo: “Sou melhor do que qualquer outra pessoa”, e fazendo longas orações para que todos vejam. Vocês sabem tudo o que o Senhor disse sobre eles. Um verdadeiro filho de Abraão? Bem, eles não compreenderam o essencial.
Ah, mas não vamos criticar e censurar. Isso nos sonda profundamente, não é verdade? Muito profundamente.
Paulo diz que, quanto a isso, a circuncisão nada é e a incircuncisão nada é, mas uma nova criação. A circuncisão não é da carne; a circuncisão é do coração.
Então, posso encerrar por enquanto. Que o Senhor nos circuncide e nos dê graça para que essa separação prossiga até sua plena realização.