Domingo à noite, 6 de agosto de 1972
Richfield, Virgínia
Pai, nós Te agradecemos por nos reunires nesta noite. Tu prometes que, onde dois ou três estiverem reunidos em Teu nome, ali estás no meio deles.
Com quanta alegria nos reunimos em Teu nome, porque não há outro nome para nós. Teu nome está acima de tudo, e diante desse nome todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Jesus é o Senhor.
Senhor, nós nos reunimos confessando que Tu és nosso Senhor, nosso Rei. Nós nos reunimos em torno de Ti. Queremos Te adorar. Queremos Te glorificar. Queremos Te ver e queremos ser semelhantes a Ti.
Ó Senhor, Tu és tudo para nós. Não há nenhum outro. Como nós Te louvamos e Te adoramos! Pedimos que manifestes Tua presença viva a nós nesta noite.
Oramos para que fales conosco e nos abras Tua Palavra. Senhor e nosso Pai, dá-nos o espírito de sabedoria e de revelação. Não somos capazes de compreender isso, mas nós Te louvamos porque aprouve ao Pai revelar Seu Filho em nós.
Assim, Senhor, entregamos a nós mesmos, este momento e Tua Palavra em Tuas mãos, confiando que aperfeiçoarás a obra que começaste em nós, para que sejamos para o louvor da Tua glória. Em Teu precioso nome oramos. Amém.
Nas duas últimas ocasiões, dissemos que, no sentido espiritual, há apenas um evangelho: o evangelho de Jesus Cristo, nosso Senhor.
Contudo, esse evangelho nos é apresentado na Bíblia por quatro evangelistas. Ao abrir o Novo Testamento, você encontra o Evangelho segundo Mateus, o Evangelho segundo Marcos, o Evangelho segundo Lucas e o Evangelho segundo João.
Não há quatro evangelhos — há apenas um evangelho, o evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. Mas, porque nosso Senhor Jesus Cristo é tão rico e tão pleno, são necessários quatro evangelistas para nos apresentar um retrato perfeito de nosso Senhor Jesus.
Os Evangelhos são históricos e precisam ser historicamente exatos. Mas são mais do que registros históricos. São testemunhos. Não nos oferecem apenas uma apresentação objetiva de Cristo; oferecem-nos uma apresentação subjetiva de Cristo.
O fato de conhecermos Cristo hoje vem da leitura dos quatro Evangelhos. Portanto, precisamos conhecer Cristo da mesma maneira que os evangelistas O conheceram — não apenas saber a respeito de nosso Senhor Jesus, mas conhecê-Lo por experiência pessoal.
Não lemos esses quatro Evangelhos simplesmente como registros históricos. É claro que são históricos, mas, ao lê-los, devemos experimentar esse Cristo vivo e conhecê-Lo como os evangelistas O conheceram.
Anteriormente, tivemos uma breve comunhão sobre o Evangelho segundo Mateus. Mateus era hebreu, judeu, e foi inspirado a nos apresentar Cristo como o Rei.
O próprio Mateus foi chamado por Cristo e seguiu a Cristo, reconhecendo-O como Rei. Assim, todo o Evangelho segundo Mateus apresenta Cristo como o Rei. Se estamos Nele e vivemos sob Sua autoridade, então o reino está sobre nós hoje; e, quando Ele voltar, reinaremos com Ele por mil anos.
Marcos era jovem. Ele foi inspirado a apresentar Cristo como o Servo, o Servo perfeito.
Em união com Cristo, não devemos apenas conhecer Cristo como o Servo do Senhor; nós também somos servos do Senhor. Precisamos servir a Deus dessa maneira.
Nesta noite, gostaríamos de nos voltar para o terceiro Evangelho, o Evangelho segundo Lucas. Vamos ler primeiro alguns versículos.
Colossenses 4:14:
Lucas, o médico amado, e Demas vos saúdam.
Filemom 1:24:
Marcos, Aristarco, Demas e Lucas, meus cooperadores.
2 Timóteo 4:11:
Só Lucas está comigo. Toma Marcos e traze-o contigo; porque me é útil para o ministério.
Vamos abrir em Lucas 1:1-4.
Visto que muitos empreenderam compor uma narrativa acerca dos fatos que se cumpriram entre nós, conforme no-los transmitiram aqueles que desde o princípio foram testemunhas oculares e ministros da palavra, pareceu-me também a mim, tendo investigado tudo cuidadosamente desde o princípio, escrever-te em ordem, excelentíssimo Teófilo; para que conheças a certeza das coisas em que foste instruído.
Lucas é muito diferente de Mateus e Marcos. Mateus era hebreu, judeu, e Marcos também era judeu. Mas Lucas não era judeu. Lucas era gentio.
Não sabemos muito sobre sua origem. Só podemos deduzir que, sendo médico, ele era uma pessoa instruída e refinada. A medicina era uma profissão muito honrada naquela época, assim como ainda é hoje.
Como médico, ele podia ter acesso às famílias mais nobres de sua época, àquelas que pertenciam à elite da sociedade.
Não sabemos se Lucas se tornou prosélito do judaísmo antes de conhecer o Senhor. Muitos gentios instruídos e inteligentes daquela época eram atraídos pelo judaísmo por causa de seu ensino a respeito do único Deus verdadeiro e por causa da esperança messiânica.
Havia dois tipos de prosélitos. Um deles era chamado de “prosélito da porta”. Esses gentios aceitavam o ensino do judaísmo e criam em sua esperança messiânica, mas não observavam toda a lei cerimonial do judaísmo.
O outro tipo era chamado de “prosélito da justiça”. Essas pessoas não apenas abraçavam o ensino do judaísmo, mas também observavam a lei cerimonial. Eram prosélitos completos e, muitas vezes, tornavam-se ainda mais estreitos de mente do que os próprios judeus.
Talvez esse médico, Lucas, tenha sido um desses prosélitos antes de conhecer o Senhor. Não temos registro de como ele veio a conhecer o Senhor.
Algumas pessoas dizem que Lucas estava entre os setenta que nosso Senhor enviou. Outras se arriscam a dizer que Lucas era um dos dois discípulos no caminho de Emaús, no dia da ressurreição. Mas Lucas deixa muito claro, no início de seu Evangelho, que não foi testemunha ocular.
Havia testemunhas oculares, mas ele não era uma delas. Ele reuniu suas informações a partir dessas testemunhas oculares e ministros da Palavra e organizou o material de maneira ordenada, metódica e sistemática.
Certamente, ele não havia visto o Senhor pessoalmente. Não foi discípulo do Senhor Jesus enquanto nosso Senhor estava na terra. Como ele veio a conhecer o Senhor, não sabemos.
Mas, de qualquer modo, vocês verão que o Senhor colocou Sua mão sobre aquele homem. Ao olharmos para trás, sabemos que, antes mesmo da fundação do mundo, Deus nos escolheu em Cristo, embora nada soubéssemos a respeito disso.
Antes mesmo de nascermos, antes da fundação do mundo, Deus já nos havia escolhido em Cristo. Não sabíamos nada a respeito disso.
Lucas não sabia de nada. Era um gentio, formado como médico. Talvez tivesse se tornado prosélito. Não sabia de antemão que, um dia, Deus o usaria como evangelista para nos oferecer essa apresentação de Cristo.
Ele não sabia absolutamente nada a respeito disso, mas Deus já sabia tudo. Ao olharmos para trás, não podemos deixar de adorar a sabedoria de Deus.
Isso é verdade em relação a Lucas e também em relação a nós. Ao olhar para trás — onde você nasceu, em que família nasceu, que educação recebeu ou deixou de receber —, você percebe que todas essas coisas estão nas mãos de Deus.
Não é que Deus passe a cuidar de nós somente depois que somos salvos. Ele já vinha cuidando de nós antes disso. Mesmo antes de O conhecermos, tudo em nossa vida estava sob Sua mão. Você pode ver que Deus está por trás de tudo isso, tomando-nos para Si com um propósito.
Agora, irmãos e irmãs, se vocês puderem enxergar isso, muita adoração brotará de vocês. Saber que estamos em Suas mãos eliminará muitas dúvidas e tensões. Isso nos ajudará a nos entregar mais plenamente ao Seu plano.
Caso contrário, podemos nos rebelar e lutar contra Sua mão, pensando que as circunstâncias estão contra nós. Mas, se você puder ver que, antes mesmo da fundação do mundo, Deus o escolheu em Cristo Jesus com um propósito definido, isso muda tudo.
Como Lucas veio a conhecer o Senhor, não sabemos. Sabemos apenas que ele se tornou companheiro constante de Paulo em seu ministério.
Quando Paulo e Barnabé partiram em sua primeira viagem missionária, Lucas não estava com eles. Foi somente na segunda viagem missionária, quando Paulo saiu com Silas, que encontramos Lucas se juntando a eles.
Vocês se lembram de que, depois de Paulo visitar os lugares onde já havia estado, ele pensou em ir para a Ásia, uma província romana populosa e rica. Mas o Espírito de Jesus não permitiu.
Então ele pensou que talvez pudesse ir para o norte, para a Bitínia, mas o Espírito Santo também não permitiu. Ele não podia ir para o sul nem para o norte, então foi para o oeste, até chegar a Trôade. Além dali estava o mar; não havia mais para onde ir.
Quando chegou a Trôade, ele não sabia o que fazer. Mas, naquela noite, teve uma visão: um homem da Macedônia lhe apareceu e disse:
Passa à Macedônia e ajuda-nos.
Atos 16:10 diz:
E, depois que ele teve a visão, imediatamente procuramos partir para a Macedônia, concluindo que Deus nos havia chamado para lhes anunciar o evangelho.
Esse é o início da seção do “nós” no livro de Atos. Paulo teve a visão durante a noite e, na manhã seguinte, “nós” concluímos que o Senhor nos havia chamado para ir à Macedônia.
Quem são esse “nós”? Lucas era o narrador. Ele estava ali com Paulo naquela ocasião. Antes, Lucas relatava os acontecimentos de maneira impessoal, porque não estava envolvido. Mas, a partir desse ponto, ele diz “nós”.
Algumas pessoas pensam que Lucas era sírio, de Antioquia, porque ele parece conhecer muito bem Antioquia e a igreja em Antioquia. Ele nos conta que os discípulos foram chamados cristãos pela primeira vez em Antioquia. Quando apresenta os nomes dos sete diáconos, ele identifica especialmente Nicolau como Nicolau de Antioquia.
Não sabemos ao certo, mas encontramos Lucas se juntando a Paulo em Trôade. Ali ele se tornou companheiro e cooperador de Paulo.
Eles atravessaram o mar e entraram em Filipos, a primeira cidade importante da Macedônia. Vocês se lembram do relato em Atos 16, de como o Senhor começou Sua obra na cidade de Filipos.
Não havia homens judeus suficientes em Filipos para formar uma sinagoga. Segundo a tradição judaica, eram necessários dez homens judeus para organizar uma sinagoga. Assim, Paulo encontrou uma reunião de oração à beira do rio, onde várias mulheres estavam reunidas.
Lídia e sua casa foram salvas. Mais tarde, Paulo e Silas foram presos, e o carcereiro e sua casa foram salvos. Foi assim que começou a igreja em Filipos.
Lucas estava ali com Paulo. Mas Paulo, Silas e Timóteo não permaneceram muito tempo em Filipos. A partir de Atos 17, eles seguiram para Tessalônica, enquanto Lucas parece ter ficado para cuidar daquela igreja recém-formada.
Não sabemos, pelos escritos de Lucas, exatamente como ele ajudou a igreja em Filipos. Ele era tão humilde que permaneceu no anonimato. Possivelmente, cuidou daquela igreja recém-formada por cerca de sete anos.
A próxima vez que encontramos a seção do “nós” é em Atos 20, quando Lucas voltou a se juntar a Paulo. Isso aconteceu cerca de sete anos depois. Provavelmente, durante aqueles anos, Lucas permaneceu em Filipos, ajudando fielmente aquela igreja recém-formada a crescer no Senhor.
Que igreja Filipos se tornou! De todas as igrejas ligadas a Paulo, a igreja em Filipos era uma daquelas com as quais ele tinha comunhão mais íntima. Ele podia abrir seu coração aos irmãos e irmãs dali sem medo de ser mal compreendido, e eles podiam abrir o coração a Paulo.
Isso é a obra de Deus.
Atos 20:6 diz:
E, depois dos dias dos pães ázimos, navegamos de Filipos e, em cinco dias, fomos ter com eles em Trôade; onde permanecemos sete dias.
Desse ponto em diante, a seção do “nós” continua até o fim de Atos. Lucas se juntou a Paulo e o acompanhou em sua última viagem a Jerusalém.
Lucas estava com Paulo quando ele ficou preso por dois anos. Quando Paulo foi enviado a Roma para sua apelação final, Lucas foi com ele. Permaneceu com Paulo em Roma por dois anos.
Aqui encontramos Lucas com Paulo ao longo de todos aqueles anos. Antes de morrer, Paulo escreveu:
Só Lucas está comigo.
Lucas nunca o deixou.
Paulo não era fisicamente forte. Ao ler suas epístolas, vocês percebem que Paulo era muito fraco de corpo. Em suas constantes viagens, quanto ele precisava de um médico que cuidasse dele!
E como aquele médico devia ser compreensivo! Às vezes, precisamos de um médico, mas não gostamos dele. Os médicos podem ser muito competentes, mas nem sempre são muito compreensivos.
Mas aqui encontramos esse médico amado com Paulo. Enquanto Paulo ministrava a outros, não ouvimos Lucas dizer uma palavra sobre si mesmo. No entanto, que ministério ele prestou ao grande apóstolo Paulo!
Paulo pôde fazer aquilo para o qual Deus o chamou, em parte, porque Lucas cuidava dele o tempo todo.
Irmãos e irmãs, podemos ter recebido diferentes formações. Nossas profissões podem ser diferentes. Deus não chamou todos para serem pregadores ou missionários. Todos recebemos formações diferentes.
Mas, seja qual for nossa profissão, uma coisa é certa: precisamos servir a Deus com ela. Nossa profissão não é a coisa mais importante da nossa vida. Ela é algo que nos acompanha para que possamos servir a Deus.
Lucas era médico — uma profissão honrada e, talvez, uma das mais difíceis de todas. Pela provisão soberana de Deus, ele recebeu formação médica.
Um médico podia se estabelecer numa grande cidade, abrir seu consultório, acumular riquezas, levar uma vida luxuosa e desfrutar dela. Havia poucos médicos naquela época, assim como ainda hoje são relativamente poucos. Lucas poderia facilmente ter feito isso.
Mas Lucas colocou sua profissão a serviço de Deus. Ele se dispôs a viajar de um lugar para outro com Paulo. Não exercia a medicina para construir uma grande carreira para si mesmo.
Muito provavelmente, o médico amado também usava sua habilidade para cuidar de outros pacientes, pelo menos o suficiente para se sustentar. Mas havia colocado sua profissão a serviço de Deus, em vez de usá-la para servir a si mesmo.
Isso é algo que precisamos enxergar: seja qual for nossa profissão, ela não deve servir a nós mesmos; deve servir a Deus.
Se pudermos enxergar isso, toda profissão será honrada. Se não enxergarmos, até mesmo a profissão de pregador ou ministro poderá se tornar a mais secular de todas as profissões.
Ao exercer uma profissão, você está servindo a Deus com ela ou está tentando usá-la apenas para servir a si mesmo? Essa é a questão.
Lucas servia a Deus de tal maneira que precisava viajar. Ele não podia desenvolver sua carreira num só lugar. Mas isso não é uma questão de forma exterior.
Deus não quer necessariamente que cada um de nós deixe sua casa e sua profissão e saia para pregar o evangelho. Se o Senhor chamar você para fazer isso, muito bem; mas essa pode não ser a vontade Dele para todos.
Seja qual for a formação que Deus nos deu, é nessa área que podemos servi-Lo. Nossas profissões não devem ser obstáculos ao serviço de Deus; devem ser oferecidas ao serviço de Deus.
Esse é o ministério do médico amado. Ele era cooperador de Paulo.
Muitas vezes, temos a impressão de que, se queremos ser servos do Senhor, precisamos deixar nossa profissão, dedicar-nos em tempo integral e nos tornar pregadores ou ministros. Não é isso que encontramos nas Escrituras.
Você pode ser um cooperador enquanto exerce a medicina. O Senhor não usou Lucas apenas no cuidado físico; Ele também o usou espiritualmente. Lucas foi alguém que ajudou a edificar aquela igreja recém-formada.
Lembro-me de um querido irmão em Xangai, minha cidade natal. Quando comecei a me reunir com os irmãos e irmãs, havia ali um médico. Ele era oftalmologista.
Ele amava muito o Senhor e era um dos irmãos responsáveis na igreja. Para poder servir ao Senhor, fez uma escolha definida em relação à sua profissão.
Ele poderia ter ganhado muito dinheiro em Xangai como oftalmologista. Mas queria servir ao Senhor e à igreja, então abriu um consultório particular em sua casa.
Atendia apenas o número de pacientes necessário para seu sustento. Era tudo o que queria. Então usava o restante do tempo para o Senhor.
Esse irmão foi muito usado pelo Senhor, não apenas em Xangai, mas, às vezes, também em outros lugares. O Senhor lhe deu uma vida e um ministério com os quais ele ajudou muitas pessoas. Eu fui uma delas.
Ele era alguém que realmente sabia o que significava ter uma vida oculta com Deus. Conhecia a vida de Cristo.
Em certa ocasião, a igreja ali enfrentou dificuldades. Os comunistas queriam eliminar o testemunho de Deus na China. Um dia, prenderam muitos irmãos e irmãs, inclusive aqueles que serviam ao Senhor.
Certamente, havia irmãos que haviam renunciado a muito mais do que aqueles que eram considerados ministros de tempo integral. Não estou diminuindo o ministério de tempo integral. Estou simplesmente tentando mostrar isto: esse querido irmão, como médico, servia a Deus.
Ele não era apenas um cooperador; Deus o usou entre os crentes. Ele foi um dos quatro evangelistas que escreveram a vida de Cristo e nos apresentaram Cristo de maneira tão rica.
O homem e a mensagem estão intimamente relacionados. Se você quer transmitir uma mensagem viva, ela precisa primeiro tornar-se vida em você. Caso contrário, será apenas algo objetivo.
Ao nos oferecer o Evangelho segundo Lucas, Lucas faz mais do que apresentar um relato objetivo e histórico. Ele compartilha conosco o Cristo que conheceu e o aspecto particular de Cristo que conheceu.
Mateus conheceu Cristo como Rei — Sua majestade e Sua autoridade. Marcos conheceu Cristo como o Servo do Senhor, que veio servir e dar Sua vida em resgate por muitos.
Que aspecto de Cristo Lucas conheceu? Ele nos apresenta Cristo como o Filho do Homem — o Homem que é Deus.
Como médico, Lucas sempre se interessava pelo ser humano. Um engenheiro pode se interessar por outras coisas, mas um médico estuda o ser humano — seu corpo físico e, hoje, também suas reações psicológicas e a pessoa como um todo.
Um médico sempre se interessa pelo ser humano. Aqui vemos que Deus fez uso da formação médica de Lucas e voltou seus olhos para que contemplasse:
Eis o Homem.
Como médico, Lucas havia estudado o ser humano e encontrado nele doenças de todo tipo. Isso é muito negativo. Mas aqui o Espírito Santo voltou seus olhos para o Homem, Cristo Jesus.
Assim, Lucas era especialmente capacitado para escrever a vida de Cristo como o Filho do Homem.
A expressão “Filho do Homem” é muito especial. Não significa simplesmente “filho de um homem”, como dizemos normalmente. Nas Escrituras, “Filho do Homem” significa que Ele é o princípio de um novo homem.
Em outras palavras, Ele nos leva de volta ao homem que Deus originalmente tinha em vista. Ele é a resposta ao pensamento de Deus a respeito do homem. Essa é a ênfase do Evangelho segundo Lucas.
Irmãos e irmãs, Deus sempre se interessa pelo ser humano. Ele tem mais interesse no ser humano do que em qualquer outra coisa. Vocês acham que Deus está interessado principalmente em elefantes ou em anjos? O interesse de Deus está centrado no ser humano.
Às vezes, estamos tão cansados de ser humanos que queremos ser anjos. Queremos ser espíritos. Muitas vezes dizemos: “Ah, queremos ser espirituais”, como se ser espiritual significasse que já não éramos humanos.
Vocês acham que estou brincando? Não estou brincando. Não conhecemos o propósito de Deus. Não sabemos que o pensamento de Deus está voltado para o ser humano. Por isso, queremos ser outra pessoa; queremos ser outra coisa.
Se nos tornarmos outra coisa, perderemos o propósito de Deus. Irmãos e irmãs, não tentem se tornar anjos. Não tentem se tornar apenas espírito. O propósito de Deus para nós é que sejamos humanos — verdadeiramente humanos.
Às vezes, pensamos que, quanto mais espiritual uma pessoa é, menos humana deve ser; quanto menos se parece com um ser humano, mais espiritual ela é. Isso não é verdade.
Se você não consegue ser humano, como pode ser espiritual? A espiritualidade é edificada sobre o fundamento da humanidade.
Se você não sabe ser humano, não tem uma base sobre a qual possa ser espiritual. Ser humano e ser espiritual não são coisas contraditórias. Uma se edifica sobre a outra.
Queridos irmãos e irmãs, vocês sabem de uma coisa? Hoje, não somos humanos o suficiente. Esse é o problema.
A redenção de Jesus Cristo visa nos redimir de nossa condição sub-humana e cumprir o propósito de Deus de nos tornar humanos.
A redenção não nos torna menos humanos. Ela nos torna verdadeiramente humanos, porque, por meio do pecado, nos tornamos menos que humanos. A redenção é isto: ela nos redime para que sejamos aquilo que Deus pretendia que fôssemos.
Muitas vezes pensamos: “Bem, se eu fosse espiritual, não deveria sentir nada. Deveria ser duro como uma pedra. Não deveria pensar. Não deveria ter vontade própria”. Que tipo de espiritualidade é essa?
Algumas pessoas pensam que, por viverem no espírito, tornaram-se muito desumanas. Já não conseguem pensar nem sentir adequadamente. Essas são ideias falsas.
Deus nos apresenta, por meio do Evangelho segundo Lucas, o Homem pleno. Esse Homem está inteiramente de acordo com o pensamento de Deus.
Ao ler o Evangelho segundo Lucas, é a beleza de Cristo que atrai você mais do que qualquer outra coisa. Você vê como Ele é humano. Ele é verdadeiramente um Homem perfeito, mas não é apenas um homem.
Cristo veio a este mundo para nos recriar numa nova ordem de humanidade. Somos novas criaturas, mas continuamos sendo humanos — ainda humanos.
Há muito envolvido aqui em aprender a ser humano. Somente quando somos verdadeiramente humanos é que podemos ser verdadeiramente espirituais.
Nosso Senhor Jesus é a Pessoa mais espiritual porque é a Pessoa mais humana. Não somos espirituais porque não somos suficientemente humanos.
Dizemos que cremos no Senhor Jesus e que temos vida. Qual é a natureza dessa vida? Dizemos que a vida que recebemos é a vida de Deus. Sim, é a vida de Deus.
Mas é a vida de Deus que foi vivida na terra como homem. Em outras palavras, a vida de Cristo que recebemos é mais do que a vida de Deus em abstrato; é a vida do Deus-Homem. É a vida de Emanuel.
Por ser a vida de Deus e do homem unidos, deve haver uma perfeita harmonia entre o divino e o humano. Tudo o que é correto em nossa humanidade precisa ser colocado sob a vida divina, para que possamos expressar Deus no viver humano.
Essa é toda a abordagem do Evangelho segundo Lucas. Espero que isso nos dê um fundamento sobre o qual possamos edificar mais adiante.
Irmãos e irmãs, não sei como voltar a enfatizar isso o suficiente, mas sinto que precisamos enxergá-lo. A falta de conhecimento verdadeiro e um conceito espiritual falso nos desviarão do caminho certo.
Por isso, agradecemos a Deus por esse querido médico amado, que nos apresenta Cristo como o mais completo de todos os seres humanos. É isso que Deus quer que sejamos em união com Cristo.
Nós Te louvamos e Te adoramos porque nos deste Teu servo Lucas, que nos apresenta Cristo como o Homem — o Homem segundo o Teu coração, o Homem mais humano.
Nós Te louvamos porque Tua redenção visa nos resgatar de nossa condição sub-humana, para que sejamos restaurados e nos tornemos aquele ser humano que está em Teu coração.
Nós Te louvamos e Te agradecemos porque fizeste isso, não apenas na cruz, mas também colocando essa vida em nós. É isto que Tu requeres de nós: que sejamos tão humanos quanto Cristo é.
Senhor, grava isso em nós e continua a nos conduzir, para que toda a nossa compreensão de Ti e do caminho que temos pela frente não seja, de maneira alguma, distorcida ou desequilibrada.
Nós nos oferecemos novamente a Ti, para a ação do Teu Espírito e para a Tua obra em nós e entre nós. Entregamos todas as coisas em Tuas mãos, em nome de nosso Senhor Jesus. Amém.