Ao aprofundarmos aquilo que o Senhor trouxe à nossa consideração nesta conferência, apresentamos algumas das passagens das Escrituras que têm orientado nossos pensamentos.
Mais uma vez, as palavras da profecia de Isaías, em Isaías 53:10-11:
Quando a Sua alma se puser por expiação do pecado,
Ele verá a Sua posteridade.
Ele verá o fruto do trabalho da Sua alma,
E ficará satisfeito.
Aqui, vejam, está o trabalho da Sua alma.
Depois, esta outra passagem da carta aos Romanos, Romanos 9:6-8:
Porque nem todos os que são de Israel são israelitas;
Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos;
Mas: Em Isaque será chamada a tua descendência.
Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus;
Mas os filhos da promessa são contados como descendência.
E, na carta aos Gálatas, Gálatas 3:7:
Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão.
Vejam: o trabalho da Sua alma. Creio poder dizer que, neste momento, estamos sendo conduzidos a compreender aquilo em que o coração do Senhor está empenhado: uma descendência divina e espiritual, nascida do Seu trabalho de parto.
Nestes poucos minutos desta manhã, quero me deter em outro aspecto de toda essa questão, contido nas últimas palavras que lemos:
Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão.
Há uma característica suprema dessa descendência divina, e essa característica é a fé. Quer gostemos disso, quer não, o cristianismo repousa sobre uma única palavra, e essa palavra é fé.
O início da vida cristã repousa sobre isso. A continuidade da vida cristã repousa sobre isso. A consumação da vida cristã, a sua conclusão, repousa sobre essa única coisa: a fé.
Ela está relacionada à salvação, inicialmente. Está relacionada a todo o curso do progresso espiritual e o governa. Está relacionada ao serviço. Está relacionada à oração. Está relacionada ao aperfeiçoamento do crente. Está relacionada à vitória final.
Não há fase, aspecto ou etapa da vida cristã que não esteja ligada a essa questão. Do começo ao fim, em todo tempo e em todas as coisas, é simplesmente uma questão de fé.
É justamente aí que encontramos o ponto mais fraco da natureza humana. Não há dúvida disso — não há dúvida disso. Mais cedo ou mais tarde, descobrimos que esse é sempre o nosso ponto mais fraco.
Eu costumava olhar para certas pessoas que pareciam ter uma fé natural, para quem crer em Deus não parecia ser nada difícil — parecia muito natural para elas crer em Deus. Não tinham dificuldade alguma com isso. Sabem, eu nasci com um coração incrédulo, uma mente descrente. Elas pareciam não ter nenhuma dessas dificuldades.
Mas vivi alguns anos, observei essas mesmas pessoas e as vi chegar a uma situação em que, naquele momento, a coisa mais difícil do mundo para elas era crer em Deus. Mais cedo ou mais tarde, descobrimos que esse é o nosso ponto mais fraco.
Por outro lado, esse é o ponto mais forte da natureza divina.
Essa questão da fé, portanto, é fundamental para a nossa união com Deus.
Se esse é o ponto mais forte da natureza divina e o ponto mais fraco da nossa natureza, essas duas coisas não podem coexistir e prevalecer numa verdadeira união. São contraditórias. São inteiramente opostas uma à outra.
A questão é esta: ou Deus, ou nós mesmos. A união com Deus sempre repousa sobre essa questão da nossa fé.
O mesmo se aplica à nossa comunhão. A continuidade da união e o viver desfrutando dela — sua expressão, a comunhão — tudo isso é uma questão de fé.
Trata-se do agrado que Deus encontra em nós, e essa é uma questão importante.
Ora, sem fé é impossível agradar-Lhe.
— Hebreus 11:6
Essa questão do agrado que Deus encontra em nós faz uma diferença muito profunda. É possível, graças a Deus, que Ele, em Sua graça e misericórdia, nos use como instrumentos e, ao mesmo tempo, não encontre muito prazer em nós.
Você pode ser usado pelo Senhor e, ainda assim, saber que o Senhor não está tendo prazer em usá-lo. Ele o faz por graça e misericórdia. Talvez você não consiga compreender isso, mas é verdade.
Em algum ponto, até mesmo no servo, há uma reserva em relação ao Senhor que impede o pleno agrado do Senhor no serviço desse servo.
É algo além de receber a bênção do Senhor, algo além até mesmo de ser usado pelo Senhor. É o Senhor ter prazer em nós. E, prestem atenção, o ponto em que esse elemento do prazer entra é justamente a questão da fé.
Não está escrito: “Sem fé é impossível receber qualquer bênção do Senhor”. Não está escrito: “É impossível fazer qualquer obra para o Senhor”. Mas está escrito:
Sem fé é impossível agradar-Lhe.
E quantas outras coisas dependem desse fundamento da fé e repousam sobre ele! Vou apenas mencioná-las e deixar que vocês reflitam a respeito.
Sabem, afinal de contas, o amor repousa sobre a fé. Pensem nisso. Ele depende da fé, não é verdade?
A alegria repousa sobre a fé. Pensem nisso. Vocês sabem tão bem quanto eu como ficam infelizes quando perdem a fé ou quando têm alguma dúvida. É somente quando a sua fé está clara e firme que vocês são verdadeiramente felizes. A alegria depende da fé.
E a paz também não depende dela? Vocês poderiam mudar a palavra e chamá-la de descanso. Essa é a maneira bíblica de expressar isso: descanso, paz. Tudo isso repousa sobre a fé. Não há descanso nem paz sem fé. O descanso e a paz são proporcionais à fé.
Depois, a mansidão — a mansidão. Qual é o contrário da mansidão? Bem, é tentar forçar as coisas, impor-se, tentar defender a própria posição, justificar-se. A fé tira a base de tudo isso — tira a base de tudo isso.
Vocês não precisam se preocupar com coisa alguma. Se têm fé, devem estar perfeitamente tranquilos diante das questões.
A paciência — bem, isso é tão evidente, não é? A paciência repousa sobre a fé. Essas duas coisas aparecem juntas na Palavra de Deus.
E o mesmo acontece com todas as outras coisas: esperança, longanimidade, bondade. Todas as virtudes divinas repousam sobre o fundamento da fé. E, se a fé não está presente, essas outras coisas ou estão ausentes, ou são fracas.
Essa questão da fé é algo de enorme importância. Ao percorrer a Bíblia, vocês veem todas as tragédias e calamidades que resultaram da falta de fé.
A primeira grande tragédia e calamidade de todas é chamada de Queda, e ali a fé falhou; não estava presente.
A tragédia de Israel no deserto — a mesma razão. A ida de Israel para o exílio e o cativeiro — a mesma razão. E talvez o pior de tudo: a atual rejeição de Israel e o fato de ter sido posto de lado — a mesma razão.
Há exemplos pessoais, como Ismael, Esaú e Saul, na história dos propósitos de Deus neste mundo. Muitos outros poderiam ser mencionados, mas digo novamente: as tragédias e calamidades, sejam pessoais, nacionais ou coletivas, podem ser atribuídas a essa única causa — uma falha, em algum ponto, nessa questão da fé.
Agora, permitam-me dizer uma obviedade: a fé é sempre fé. A fé é sempre fé. Ela sempre terá um objeto.
Ela sempre estará voltada para o próprio caráter de Deus. Esse é o ponto focal da fé: o próprio caráter de Deus.
E lembrem-se de que qualquer fraqueza ou ausência de fé — e agora estou falando de coisas espirituais — é uma contestação do caráter de Deus.
É aí que começamos a nossa Bíblia:
É assim que Deus disse?
É assim que Deus disse?
Isso é contestar o caráter de Deus, questionar o caráter de Deus, lançar dúvida sobre o caráter de Deus. Essa foi a falha inicial, que abrangia tudo.
E sempre foi assim, vejam, porque o ponto focal da fé é nada menos e nada além do próprio caráter de Deus: se cremos que Deus é aquilo que Ele diz ser. Essa é a questão definitiva em relação à fé.
É sempre fé. Estamos sempre querendo que a fé seja algo diferente de fé, tentando transformá-la em outra coisa — em visão, em experiência, naquilo que recebemos ou naquilo que Deus faz por nós. Mas Deus sempre mantém essa questão no âmbito em que ela é, afinal de contas, fé. Ele nunca a retira desse âmbito.
Vejam as profundas implicações desse único trecho da declaração de Paulo sobre essa questão em Gálatas 3:7:
Os que são da fé são filhos de Abraão.
Ele disse:
Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos.
Ah, a descendência — a descendência. Ele disse:
Não diz: E às descendências, como falando de muitas,
Mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo.
Essa é a verdadeira descendência da fé no Senhor Jesus Cristo.
À luz disso, por um momento ou dois, examinemos essas implicações da descendência de Abraão. Pois a aliança não foi feita segundo a carne — isso está estabelecido. É algo espiritual e, como vemos nas Escrituras, revela-se como aquilo que nasce do trabalho de parto de Cristo, o fruto do Seu trabalho, a reprodução e a multiplicação dEle mesmo.
O grão de trigo caiu na terra e morreu — essa é a descendência. Todas as promessas da aliança feitas a Abraão são cumpridas e concretizadas em Cristo e em Sua descendência. Herdamos tudo isso, é claro; vocês conhecem essa verdade. Mas tudo isso nos vem por meio da fé em Jesus Cristo, porque somos a descendência mencionada a Abraão.
Olhem, portanto, para Abraão, o grande exemplo de fé dado por Deus. Deus fez passar todo o Seu plano e propósito, de eternidade a eternidade, na criação, na redenção e no cumprimento definitivo, pela alma de um único homem. Ele fez passar todo esse universo pela alma desse homem.
Sim, Abraão ocupa, com razão, um lugar de grande importância. É como se Deus tivesse feito passar, pela própria alma daquele homem, toda a extensão do Seu propósito divino na redenção, inteiramente sobre o princípio da fé, mediante uma longa sucessão de exigências de fé.
Isso foi escrito para a nossa instrução. Primeiro, a promessa de uma terra:
Sai-te da tua terra, e da tua parentela, e da casa de teu pai,
Para a terra que Eu te mostrarei.
E então Ele lhe prometeu aquela terra:
Eu a darei.
Sua promessa e Sua aliança.
Abraão fez isso. Deixou sua terra e, posteriormente, a casa de seu pai, e entrou naquela terra. Durante toda a sua vida, percorreu-a de um lado para o outro, habitando em tendas, e nunca chegou a tomar posse dela — nunca chegou realmente a tomar posse dela — conforme a aliança e a promessa.
Podemos ler a história em poucos minutos, mas ela levou alguns anos. E muitos de vocês — bem, o que vão fazer diante disso?
Houve muita oportunidade, ao longo dos anos, com todas as exigências de paciência e todas as provações e adversidades de muitos anos, para dizer: “Cometi um erro. Cometi um erro tremendo. Tive uma ideia. Evidentemente, alguma coisa aconteceu. Segui por um caminho completamente errado. Nada do que me foi dito está sendo confirmado”.
Houve muito espaço para todo esse tipo de coisa. Podemos nos estender sobre isso, e não creio que conseguiríamos exagerar o que Abraão teve de enfrentar em seu próprio coração quanto a essa única questão de uma terra.
Mas isso não basta. Foi-lhe prometida uma descendência.
Na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra.
“A tua descendência” — vez após vez, essa palavra está nos lábios de Deus ao falar com Abraão: descendência.
E nenhum filho — nem um sequer — e, naturalmente, pouca ou nenhuma perspectiva de algo assim. Sua própria situação contradizia inteiramente a promessa de Deus acerca da descendência.
Havia muita oportunidade aí, não é verdade, para entrar em conflito com o Senhor e se enredar em toda espécie de confusão na própria alma? Que confusão vocês poderiam criar numa situação dessas!
Bem, não foi por um dia, uma semana, um mês ou um ano que Abraão teve de lutar com um problema como esse.
E então, então Deus veio e repetiu isso, reiterou isso e concentrou essa questão em um filho. A essa altura, toda esperança natural já havia recuado e desaparecido, e Ele o deixou com uma promessa por mais alguns anos.
Apenas algo que lhe fora dito, sem nada que o sustentasse ou confirmasse na realidade. Se a esperança já havia recuado até o horizonte antes de a promessa ganhar uma forma concreta, certamente agora havia ido para além do horizonte. Ele olhava para o próprio corpo como já amortecido.
Deus havia dito que isso aconteceria, e Ele o estava deixando naquela situação.
E então o filho lhe é dado. Sim, nasce um filho.
Conhecemos a grande prova de fé que surgiu naquele período entre a promessa e a sua concretização. Até Abraão falhou. Sabemos de Ismael. Entretanto, o filho nasce. O filho está ali. Ali está o bebê.
E com que admiração devem ter olhado para aquele filho! Ali estava a criancinha crescendo em seu lar, e como devem ter cuidado dela com carinho, à luz de tudo o que Deus havia vinculado à sua vida. E ele cresceu até a juventude.
Sem dúvida, era objeto de grande amor, cuidado, dedicação, atenção e expectativa. Então veio o golpe:
Toma agora o teu filho, o teu único filho, a quem amas.
Deus parece estar pondo sal na ferida, não parece?
“O teu único filho” — não tenho nenhum outro. “A quem amas” — por outro lado. Bem, não precisamos nos deter mais nisso.
Abraão prosseguiu, chegou ao seu próprio altar e morreu sem ter recebido a promessa.
Diz o escritor:
Todos estes morreram na fé,
Sem terem recebido as promessas.
Não, ele não havia recebido a terra. Não havia recebido a descendência em proporção correspondente à promessa. Mas morreu na fé. Esse é o ponto.
Os que são da fé são a descendência de Abraão. Essa descendência, esses filhos, esse povo, esse verdadeiro Israel de Deus se constitui sobre essa base, segundo esse princípio e com essa mesma natureza.
Não nos enganemos a esse respeito. Comecei dizendo: quer gostemos disso, quer não — e não gostamos. Não, não gostamos. É a coisa mais árdua, a mais difícil, mas aí está. Aceitem ou deixem.
É uma questão de crer em Deus, e crer em Deus não por causa do que Ele pode fazer ou fará, mas por causa do que Ele é.
E isso vai muito longe, muito fundo. Isso nos prova em tudo — nos adiamentos de Deus, nas demoras de Deus, nas aparentes contradições e nos paradoxos de Deus, em mil e uma coisas.
Afinal de contas, a questão final é: o que vocês vão fazer diante disso? Deus é Deus? Deus é aquilo que Ele diz ser, ou não?
A sua interpretação, o seu argumento, a sua posição, o seu modo de pensar sobre as coisas realmente colocam Deus de lado? Deus sabe o que está fazendo.
Se eu tivesse tempo, levaria isso para o âmbito da vida espiritual. Sabem, em nossa vida espiritual, em nosso crescimento espiritual, em nosso aperfeiçoamento à semelhança de Cristo, há muitas coisas que achamos que o Senhor já deveria ter removido há muito tempo, e Ele não as removeu — até mesmo questões do nosso caráter.
Se pudéssemos, faríamos com que Deus nos tornasse absolutamente sem pecado neste exato momento. Ele não o faz, e não o faz.
É assim que começamos nessa questão da fé, até mesmo em nossa transformação espiritual. E quantas outras coisas gostaríamos que Deus fizesse para a Sua própria glória, e Ele não as faz — para facilitar Seus próprios propósitos e Sua obra, e assim por diante —, e Ele não as faz.
Bem, ou Deus é, ou Ele não é. Ou Ele é fiel, ou não é. Ou Ele é coerente, ou não é.
Vejam, afinal de contas, queridos amigos, somos trazidos de volta a isso. É simplesmente a questão prática da fé — a questão da fé.
Os que são da fé são a descendência de Abraão. O que é a descendência de Abraão? Ora, são aqueles que nasceram do seu trabalho de parto. E quanto trabalho de parto está relacionado ao fruto da fé! Não há fruto verdadeiro que não seja fruto disso, e o trabalho de parto é sempre uma questão de fé.