Tomo a primeira parte do último versículo de Tito 2 para retomar o que acaba de ser dito:
Fala estas coisas, exorta e repreende com toda a autoridade.
Então, procuramos ver quais são essas coisas e voltamos a Tito 2:11:
Porque a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos os homens,
instruindo-nos para que, renunciando à impiedade e às concupiscências mundanas,
vivamos sóbria, justa e piedosamente neste presente mundo;
aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo;
o Qual Se deu a Si mesmo por nós, para nos remir de toda a iniquidade,
e purificar para Si um povo de Sua exclusiva possessão, zeloso de boas obras.
Há três coisas nesse trecho: o dom da graça, o objetivo da graça e o método da graça.
A graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos os homens.
Vocês precisam ligar a primeira afirmação à última:
Para nos remir de toda a iniquidade,
e purificar para Si um povo de Sua exclusiva possessão, zeloso de boas obras.
Por que a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos os homens? Não apenas para que fossem salvos e depois descansassem no fato de serem pessoas salvas, e nada mais. Mas para que Ele redimisse para Si um povo de Sua exclusiva possessão.
É algo além de possuírem a salvação pela graça. O objetivo da graça é que Ele tenha um povo de Sua exclusiva possessão. O tipo de povo que constitui Sua exclusiva possessão também é definido.
Não nos deteremos nas características e nos traços desse povo. Vocês veem as diversas palavras e afirmações de ambos os lados: do lado negativo, as várias coisas das quais esse povo, Sua exclusiva possessão, deve ser redimido, e as coisas às quais deve renunciar.
O lado negativo é muito positivo como afirmação negativa. Algo precisa existir. A graça exige um caráter que Deus precisa ter no povo de Sua exclusiva possessão. Trata-se de um determinado tipo de povo.
Creio, queridos amigos, que talvez uma das grandes necessidades do nosso tempo seja recuperar a grandeza do custo da graça. Talvez a graça tenha sido tornada um pouco barata demais.
A maior palavra do nosso vocabulário tornou-se, talvez, uma das palavras mais baratas — uma das mais facilmente usadas — porque é a palavra comum e abrangente do vocabulário cristão. Mas, ah, quanto a graça custou!
E, portanto, o que realmente está por trás de sermos redimidos e nos tornarmos um povo de exclusiva possessão de Deus? Creio que vocês não entenderão mal o uso desta palavra: essa passagem sugere que esse povo deve ser uma aristocracia espiritual.
Essa palavra pode, naturalmente, ser usada num sentido muito errado, mas significa um povo de elevado caráter, de elevada dignidade, que olhou para essas coisas mencionadas de um lado e disse: “Não, nada mais disso. Para mim, isso acabou. Isso pertence a um nível baixo de vida”.
E olhou para o outro lado e disse: “Este é o padrão que Deus estabeleceu, e esse é o meu padrão, pela graça de Deus”.
Vejam, a graça de Deus não é apenas aquele favor que não merecemos. Ela é uma exigência; é um chamado; é uma energia. É algo pelo qual somos capazes de nos elevar a um nível muito alto de caráter espiritual — um povo de Sua exclusiva possessão.
A graça veio, mas seu alto custo faz grandes exigências, exigências muito grandes. E o objetivo é este:
O Qual Se deu a Si mesmo por nós, para nos remir de toda a iniquidade,
e purificar para Si um povo de Sua exclusiva possessão, zeloso de boas obras.
O dom: a graça. O objetivo: um povo de Sua exclusiva possessão. O caminho, ou método, da graça encontra-se nesta única palavra no início de Tito 2:12.
Na Versão Autorizada, a palavra é traduzida como “ensinando-nos”. Na Versão Revisada, é “instruindo-nos”. Talvez vocês se perguntem qual é a diferença entre ensinar e instruir. Bem, há uma diferença.
Os revisores procuravam uma palavra que transmitisse um pouco mais do que a palavra “ensinar”. Voltem a Tito 1:11:
Aos quais convém tapar a boca; homens que transtornam casas inteiras,
ensinando o que não convém, por torpe ganância.
Ora, essa palavra “ensinando” é inteiramente diferente daquela que aparece em Tito 2:12. Não é a mesma palavra grega. A primeira palavra, no capítulo 1, significa o que entendemos por ensinar: dizer coisas às pessoas, dizer coisas às pessoas.
Mas esta palavra aqui, em Tito 2:12, é outra palavra inteiramente diferente. É a mesma palavra traduzida três vezes em Hebreus 12:
O Senhor corrige a quem ama.
É para correção que suportais as provações.
Eles, na verdade, por poucos dias, nos corrigiam como bem lhes parecia;
Ele, porém, para nosso proveito.
A palavra “correção” é a mesma palavra grega que aqui se traduz por “instruindo-nos”. Ora, todos podem ver a diferença entre ensinar — dizer coisas às pessoas — e corrigi-las. A correção é algo muito mais ativo, não é?
Portanto, aqui o método da graça é instruir-nos, corrigir-nos, educar-nos como filhos. Educar-nos como filhos para que…
Agora, vejam: a graça nos conduz a dificuldades, ou a graça nos conduz à disciplina. A graça nos leva a uma escola difícil. É graça.
Ah, que ideia diferente daquela em que a graça é simplesmente recebida — o dom da graça — e tudo está bem. Você nunca mais precisa se preocupar com coisa alguma e está simplesmente indo para o céu. Vai ser lindo. Tudo é pela graça, entendem? Na graça temos tudo, e não precisamos mais pensar nisso.
Mas aqui se diz que a graça veio para nos disciplinar, para nos levar a uma escola. Mas é a escola da graça.
Não costumamos pensar assim. Nessa escola difícil, nessa disciplina, nessa educação de filhos, nessa correção, muitas vezes pensamos: “Isto é tudo, menos a graça de Deus”, e o que temos em mente é a bondade de Deus.
Precisamos nos ajustar a isso, mudar nossa maneira de pensar a esse respeito. Aperfeiçoar-nos é uma manifestação da graça divina para conosco tanto quanto iniciar a obra da salvação.
Não nos deixar escapar quando estamos errados, mas deter-nos de modo firme, faz parte da graça de Deus na mesma medida — e talvez seja necessário que Ele o faça com muita firmeza e de uma maneira aparentemente pouco bondosa. Fazer isso é uma expressão da graça divina tanto quanto nos conduzir à salvação.
É graça, queridos amigos. Afinal de contas, é a graça de Deus. Vocês e eu ainda precisamos aprender essa lição.
Vejam, para os novos cristãos, às vezes, quando as coisas começam a ficar um pouco difíceis e as primeiras flores na árvore do início de sua vida cristã — tudo é tão bonito — começam a ser arrancadas por ventos fortes, e nada resta além de uma aparente nudez, parece que essa vida cristã perdeu muito do seu encanto.
Você está entrando em tempos difíceis. A tentação é pensar: “Isto não é a graça de Deus. Isto não pode ser graça”. E o diabo lhe dirá que você caiu da graça.
De modo nenhum. Creiam nisso, novos cristãos: quando os tempos se tornam difíceis em sua vida cristã, tudo é pela graça. É assim que deve ser.
Ninguém quer ser um cristão fraco, infeliz e doentio — alguém que não consegue enfrentar coisa alguma, alguém que precisa ter tudo tão agradável e confortável para continuar sendo cristão.
Bem, se vocês olhassem para outras pessoas assim, não as admirariam de modo algum. Não pensariam que isso, afinal de contas, tivesse muito valor. Bem, é assim que olhamos para os outros.
Lembremos a nós mesmos: a graça de Deus está trabalhando para nos tornar capazes de permanecer firmes e atravessar as dificuldades. É graça, e isso só pode ser aprendido numa escola difícil.
As pessoas que Deus quer para Sua exclusiva possessão são pessoas assim, que realmente conseguem manter-se firmes na adversidade, que realmente conseguem perseverar quando há um abalo tremendo, que conseguem demonstrar graça em sua própria vida quando tudo ao redor é desprovido de graça.
O Senhor quer duas coisas na vida cristã — duas coisas que Ele escreveu de modo tão visível na criação — e, no entanto, são duas coisas tão difíceis de combinar no caráter humano.
Elas estão perfeitamente combinadas no Senhor Jesus, e a conformidade com a Sua imagem será conformidade com Ele nestes dois aspectos: a combinação mais difícil, beleza e força — força e beleza.
Em nosso culto doméstico nesta manhã, lemos o salmo em que ocorre esta expressão:
Força e beleza estão no Seu santuário.
Estudem o templo novamente. Vejam seu alicerce maciço e suas paredes. Observem a beleza — os entalhes, os frutos, tudo: força e beleza.
Observem isso na criação: a montanha maciça, a própria personificação da força; abrigadas ao seu pé, as belas flores silvestres, tão pequenas e, ainda assim, tão magníficas e maravilhosas. Força e beleza estão combinadas em toda a criação.
Deus declarou: “Este é o Seu pensamento”, e a graça pode produzir essa combinação. Mas é preciso graça, sabem, para sermos fortes — sermos fortes e, ao mesmo tempo, belos.
É necessária muita graça para essa combinação. Algumas pessoas tendem a ser fortes demais, e não há beleza, encanto, bondade, mansidão, amabilidade.
Por outro lado, algumas pessoas são inteiramente voltadas para o lado artístico, para esse outro aspecto, e há nelas, para usar a palavra que acabei de empregar, uma flacidez. Elas não são fortes.
Não, é uma combinação dessas coisas naquele povo de Sua exclusiva possessão.
Portanto, aqui, “instruindo” ou “ensinando”, vejam, é a escola da graça. O Diretor da escola da vida cristã é Alguém cheio de compaixão, por um lado, mas cheio de severidade, por outro, conforme a ocasião exige.
Há um equilíbrio perfeito nEle, e Seu nome é graça. Graça.
Não pensem na graça como algo que é apenas suave. A graça pode ser muito severa. Não pensem na graça como algo que sempre faz apenas exigências rigorosas. A graça é cheia de compaixão.
Pensem, então, nessas coisas. Abreviei-as bastante por causa do tempo, mas aqui estão:
Fala estas coisas.
Bem, vamos falar dessas coisas. Fale, exorte e repreenda. Vamos lá, vamos lá. Então, você se aproxima de alguém e diz: “Olhe aqui, olhe aqui. Você está passando por um tempo difícil, eu sei — um tempo difícil”.
“E você está inclinado a pensar que o Senhor o abandonou e que isso não é o que o levaram a esperar da vida cristã. Agora, vamos lá. Prossiga em busca de algo mais forte, algo mais profundo.”
“Você nunca poderá ter o fruto enquanto a flor não se for, e são necessários ventos terríveis para retirar a flor e dar lugar ao fruto. Vamos lá.” Isso é exortar.
Fala estas coisas, exorta e repreende.
Ah, será essa uma palavra adequada para usar na mesma frase que a palavra graça?
Repreende com toda a autoridade.
Sim, tudo é graça. O Espírito Santo é assim porque Ele é chamado de Espírito da graça. O Espírito da graça pode ser severo, com toda a Sua compaixão. Ele pode ser cheio de compaixão e, ainda assim, muito firme.
Ele precisa ser assim. Afinal, quando pensamos nisso, somos filhos difíceis de lidar.
E como somos filhos difíceis! Somos mesmo.
Mas a graça, na combinação de compaixão e força, fará de nós um povo de Sua exclusiva possessão.