Nesta manhã, teremos uma palavra preliminar e introdutória à mensagem principal desta conferência. Quero estabelecer a nota fundamental à qual todas as horas estarão afinadas.
Ela nasce do salmo que lemos, o Salmo 118, que eu gostaria que vocês tivessem diante de si enquanto meditamos.
Seu verdadeiro título é O Salmo do Hosana Pascal, e seu tema é o alargamento por meio da adversidade.
Martinho Lutero chamava este de seu salmo. Ele dizia: “Este é o meu salmo”, e penso que sua vida é um comentário muito bom sobre ele. Sabemos por que o tornou seu salmo. De fato, ele poderia ter sido seu autor, de tão fielmente sua vida correspondia à palavra que encontramos aqui.
Há duas coisas que dão vida a este salmo, porque, na verdade, ele nasceu da experiência. Por trás dele há uma história muito profunda, em duas conexões.
Em primeiro lugar, este salmo — ninguém parece saber se foi adaptado ou composto para a ocasião — estava ligado à Páscoa celebrada após a dedicação do segundo templo.
A maioria de vocês conhece a história do segundo templo. A esse respeito, vocês precisam recorrer ao livro de Esdras e, ao lado dele, ao livro de Neemias, e depois às profecias de Ageu e Zacarias. Ao ler esses quatro livros, vocês têm o contexto do Salmo 118.
Leiam novamente Salmos 118:5-16 à luz disso. Se vocês conhecem um pouco desses livros, verão quanta luz eles lançam sobre esses versículos.
Tomemos um trecho:
Todas as nações me cercaram;
Mas em nome do Senhor as destruirei.
Cercaram-me, e tornaram a cercar-me;
Mas em nome do Senhor as destruirei.
Abram em Esdras 4:9-10. Ali vocês encontram uma multidão de nações — e elas são chamadas de nações ali — cujos nomes podem enrolar a língua de vocês muito depressa. Todas se reuniram contra Esdras e a construção do segundo templo. Elas o cercaram; todas as nações o cercaram. Cercaram-no como abelhas.
Assim, essa descrição de adversidade e oposição dá a este salmo uma conexão e uma aplicação muito reais e práticas. Na construção e na dedicação daquele templo, realizadas por um remanescente que havia escapado do cativeiro e retornado à terra com esse objetivo em vista, certas coisas se tornam evidentes.
Se este salmo é o relato ou a descrição das coisas como eram então, ele é, de fato, a história da vida que emerge da morte. Podemos compreender a nação falando dessa maneira pessoal. Vocês devem lembrar que o “eu” e o “me”, repetidos neste Salmo 118, são a personificação do remanescente, ou da nação. É como se a nação falasse como um indivíduo; é um “eu” coletivo.
A nação está dizendo:
O Senhor me castigou muito;
Mas não me entregou à morte.
Não morrerei, mas viverei;
E contarei as obras do Senhor.
Esse remanescente, falando nessas palavras, incorpora esta grande verdade: a vida que emerge da morte e a vida que triunfa sobre a morte.
Antes de enviar Seu povo ao exílio e ao cativeiro, o Senhor lhe havia dito que abriria suas sepulturas e o faria sair delas. Aqui está esse povo, fora daquela sepultura do cativeiro — uma sepultura dolorosa.
Não há cântico na sepultura. “Os mortos não Te louvam” é uma expressão das Escrituras, e como ela era verdadeira lá, naquela terra:
Penduramos as nossas harpas nos salgueiros.
Como cantaremos o cântico do Senhor
Em terra estranha?
Mas os mortos não Te louvam. Ouçam:
Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom;
Porque a Sua misericórdia dura para sempre.
Isso se repete quatro vezes logo no início do salmo e depois é acrescentado, como uma coroa, ao final: um cântico novo, um cântico de ressurreição. Portanto, para começar, o salmo é o cântico da vida que emerge da morte.
Depois, claramente, ele trata de uma libertação da servidão. Essas pessoas estão se alegrando nesse aspecto de sua condição. Pela benignidade do Senhor, elas são lembradas dessa grande libertação.
Vocês verão aqui no salmo referências e citações do livro de Êxodo: a grande libertação do Egito. Eles reúnem as duas coisas — a libertação do Egito e a libertação da Babilônia. Em termos bíblicos, a libertação do Egito é sempre a libertação da casa da servidão:
Da casa da servidão.
Portanto, o salmo trata de uma libertação da servidão.
Situando-nos na reconstrução do segundo templo, podemos ver como essas nações, representadas pelas pessoas que haviam sido levadas a Samaria pelas autoridades persas, causaram dificuldades na reconstrução do muro. Elas pressionavam de todos os lados. Que tempos Israel viveu! Quanto aqueles profetas sofreram!
De fato, a obra ficou paralisada por mais de uma década em razão dessa oposição e dessa adversidade por todos os lados. Mas a questão é esta: o templo foi construído e dedicado, e este salmo foi cantado na dedicação, ou na Páscoa que se seguiu à dedicação do templo.
Assim, o salmo diz, em essência: “Muito bem, que façam o pior que puderem. Que pressionem de todos os lados. Que se oponham como quiserem. A obra está concluída. O Senhor a realizou apesar de tudo, e nós estamos livres”.
O Senhor me respondeu e me pôs em um lugar espaçoso.
Da morte para a vida, da servidão para a liberdade, da limitação para o alargamento — para um lugar espaçoso.
Isso representou algo tremendo da parte do Senhor. Considerem tudo o que o Senhor teve de vencer. É claro que não é correto dizer que o Senhor alguma vez tenha de lutar para lidar com alguma coisa; Ele está tão supremamente acima de toda situação. Contudo, o que aconteceu contra Seu povo não foi pouca coisa.
Conduzi-los a esse alargamento significou vencer dificuldades tremendas:
Fizeste com que os homens cavalgassem sobre as nossas cabeças;
Passamos pelo fogo e pela água;
Mas Tu nos trouxeste a um lugar de abundância.
É um salmo de triunfo sobre a limitação, que conduz ao alargamento.
Como já destacamos, ele é, de maneira muito clara, o cântico da fidelidade de Deus diante da infidelidade de Seu povo.
A versão que li usa a palavra “benignidade”. A versão que talvez vocês estejam usando diz:
A Sua misericórdia dura para sempre.
A benignidade de Deus! Acho que há uma nota sobre isso na margem.
Quando vocês pensam no fracasso e na infidelidade de Seu próprio povo, que história é essa, do começo ao fim — e depois ao longo de toda a vida dos profetas maiores e dos profetas menores. Que história de infidelidade e fracasso!
Parece que, se alguma vez a misericórdia de Deus, a benignidade de Deus, pudesse ter se esgotado, isso teria acontecido com esse povo. Tão terríveis foram suas reações à misericórdia de Deus; tão longe foram em sua oposição ao Senhor.
Mas aqui, no fim — e este é o fim do período do Antigo Testamento em que estamos nos situando, com Neemias, o último livro do Antigo Testamento na ordem histórica —, temos esta grande nota:
A Sua benignidade dura para sempre.
Eram pessoas que sabiam do que estavam falando quando usavam essa linguagem. Não era mera poesia ou sentimentalismo:
A Sua misericórdia dura para sempre.
Isso está aí para nós — uma consolação tremenda. Conhecemos nossa fraqueza. Conhecemos nossa infidelidade. Sabemos como temos falhado, e ainda falhamos, para com o Senhor.
O fim da história é:
A Sua benignidade dura para sempre.
Bem, vocês veem: é a experiência — e, dessa experiência, o testemunho — de um povo que havia comprovado a fidelidade do Senhor diante de seu próprio fracasso e de sua infidelidade, e diante de tudo o que os homens podiam fazer contra ele. Não é de admirar que Lutero tenha dito: “Este é o meu salmo”.
Mas há algo ainda maior do que isso. A segunda coisa a respeito deste salmo é que se acredita que ele tenha sido o salmo cantado pelo próprio Senhor e por Seus discípulos na noite da Páscoa.
Eu costumava dizer: “Gostaria de saber o que eles cantaram”, ao ler que, depois da ceia, tendo cantado um hino, saíram. Eu costumava dizer: “O que será que eles cantaram? Gostaria de saber”.
Descobri que há uma convicção muito forte, apoiada em fundamentos muito bons, de que este foi o salmo que cantaram — o Senhor Jesus e Seus discípulos cantando com Ele.
Não há dúvida de que este salmo está, em grande parte, se não inteiramente, relacionado ao Senhor Jesus, porque ele é citado em conexão direta com Ele em vários lugares do Novo Testamento.
Bendito Aquele que vem em nome do Senhor;
Nós vos abençoamos desde a casa do Senhor.
O título do salmo não se baseia no episódio da entrada do Senhor em Jerusalém — o que chamamos de Domingo de Ramos —, quando cortaram ramos de palmeiras e foram adiante Dele, cantando palavras deste salmo:
Bendito Aquele que vem em nome do Senhor;
Nós vos abençoamos desde a casa do Senhor.
Não é com base nesse episódio, mas por outras razões, que o salmo é chamado de Salmo do Hosana Pascal:
Hosana ao Filho de Davi;
Bendito Aquele que vem em nome do Senhor.
Isso se relaciona ao Senhor Jesus e foi tirado, em parte, deste salmo.
Depois, em várias ocasiões no Novo Testamento, são citadas estas palavras:
A pedra que os edificadores rejeitaram
Tornou-se a cabeça da esquina.
Isto foi feito pelo Senhor;
E é maravilhoso aos nossos olhos.
O próprio Senhor Jesus usou essas palavras a respeito de Si mesmo. Pedro as usou a respeito de Cristo. Portanto, este é, em grande medida, o que se chama de um salmo messiânico. Ele está relacionado ao Senhor Jesus.
Agora, se o Senhor cantou este salmo naquela noite sombria da Páscoa, depois que a traição já havia sido combinada, olhem novamente. Que triunfo da fé!
Não morrerei, mas viverei;
E contarei as obras do Senhor.
Pela fé, Ele enfrentou a provação. Ele enfrentou a cruz e, pela fé, atravessou-a até a ressurreição:
Não morrerei.
Que fé triunfante!
Que significado isso dá ao Getsêmani. A ceia terminou:
Isto é o Meu corpo, que é por vós.
Isto é o Meu sangue, que é derramado para remissão dos pecados.
E eles cantam o hino. Depois do hino, a próxima coisa é:
Atai o sacrifício com cordas,
Até às pontas do altar.
Logo em seguida, eles O amarraram. Amarraram-No e O levaram do jardim. Mas Sua interpretação daquelas amarras era:
Atai o sacrifício com cordas,
Até às pontas do altar.
Não preso ao altar pelas pontas, mas amarrado e conduzido em direção ao altar. Esse é o significado: amarrar e conduzir ao altar.
Isso lança uma nova luz sobre o Getsêmani, não é verdade? Sobre as amarras, as cordas. Não é o homem prevalecendo. Não é o homem vencendo. Não é o triunfo do homem. É o Filho de Deus permitindo que O conduzam ao altar.
É isso que vem depois do cântico:
Atai o sacrifício com cordas,
Até às pontas do altar.
E imediatamente Ele segue para o Getsêmani, depois para a traição, depois para o tribunal e depois para a cruz. Mas há o lado divino de tudo isso. Vejam: Ele toma todo esse lado humano, tal como os homens o veem e interpretam, e o transforma na redenção do mundo.
Vejamos novamente Salmos 118:5:
Na minha angústia, invoquei o Senhor;
O Senhor me respondeu e me pôs em um lugar espaçoso.
São essas palavras do Senhor Jesus? Sim: “Na Minha angústia, clamo”:
Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice.
Meu Pai, se este cálice não pode passar de Mim sem que Eu o beba, faça-se a Tua vontade.
“Na Minha angústia, clamo.” Embora não pareça que o Senhor tenha respondido e livrado, um apóstolo diz que Ele foi ouvido. Como temos a prova de que Ele foi ouvido e recebeu uma resposta?
O Senhor me respondeu e me pôs em um lugar espaçoso.
Um lugar espaçoso — sim, um lugar muito espaçoso, de fato. Ah, como nosso Senhor foi alargado por meio de Sua cruz!
Como Me angustio até que isso se cumpra!
Qual foi o alargamento? A libertação da limitação e o ser colocado em um lugar espaçoso: alargamento por meio do sofrimento.
É a voz da fé. Ele é representado aqui caminhando para a cruz, e a fé vai além da sepultura e reivindica a resposta da vida, não da morte; do alargamento, não da limitação.
Poderíamos nos deter por muito tempo no alargamento que veio ao Senhor Jesus por meio do sofrimento. Penso que talvez falemos muito sobre isso nestes dias.
Aqui está a mensagem, tudo conduzindo à sua aplicação mais ampla. Aqui, mais uma vez, vemos como o testemunho aponta para a misericórdia de Deus.
Este é o ponto que apresentei há poucos minutos: este “eu” é um “eu” inclusivo e coletivo. Em primeiro lugar, é a nação falando dessa maneira pessoal, usando este pronome pessoal: “eu”. Agora ele é retomado em relação ao Senhor Jesus:
Não morrerei.
Mas, vejam, não se trata apenas de algo pessoal. Sabemos que o Senhor Jesus não precisava ir à cruz por Si mesmo.
Muitas vezes se tem apontado que aquelas palavras usadas posteriormente por um apóstolo —
O Qual, pelo gozo que Lhe estava proposto, suportou a cruz,
Desprezando a vergonha,
E assentou-Se à direita do trono de Deus.
— deveriam ser traduzidas assim:
O Qual, em vez do gozo que Lhe estava proposto, suportou a cruz,
Desprezando a vergonha.
Isso nos leva ao monte da transfiguração.
O monte da transfiguração foi o selo da perfeição de Seu caráter moral. Não há transfiguração nem glorificação sem perfeição moral. Deus Lhe deu o grande testemunho de que Ele era perfeito, de que não via falha alguma Nele.
Ele havia passado pelo exame dos olhos da santidade divina, e não havia Nele falha nem mácula. Ele era perfeito. Portanto, tinha o direito de seguir diretamente para a glória.
No monte da transfiguração, a glória era Sua. Foi declarado que era Sua; era Sua por direito. O gozo estava proposto diante Dele. Ele Se voltou, desceu e suportou a cruz.
Olhem o contexto dessas palavras e verão por quê. Tudo foi por nossa causa. Ele não iria para a glória sem nós; levaria muitos filhos à glória. Isso exigiu que Ele descesse e, por algum tempo, abrisse mão de Seu direito imediato à glória e suportasse a cruz.
Sim, para nos levar. Naquela carta aos Hebreus, vocês sabem como estas palavras são colocadas na boca do próprio Senhor:
Eis-Me aqui, e os filhos que Deus Me deu.
Bem, vocês veem agora que este salmo glorioso, com seu pano de fundo na vida do Senhor Jesus, nos inclui por meio da cruz do Senhor Jesus. Estamos nesse “eu” coletivo. Passamos a desfrutar dos benefícios disto:
Não morrerei, mas viverei.
O Senhor me respondeu e me pôs em um lugar espaçoso.
Bem, é verdade, não é? É verdade. Temos essa vida que triunfa sobre a morte. Ele nos deu essa vida.
Não apenas naquele sentido geral —
O dom de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.
—, mas como um testemunho para toda a nossa vida, algo para agora: aquilo que emergiu da morte, da própria morte Dele, e que venceu a morte Nele é para nós.
Não deixem que a familiaridade com isso lhes faça perder sua força. Isso deve ser um testemunho todos os dias. Sim, a vida que está em Cristo precisa ser experimentada e manifestada todos os dias, e isso é possível.
Então, com base nisso, cresceremos no conhecimento muito mais pleno do alargamento que temos em Cristo. Ah, como é grande o lugar ao qual fomos conduzidos! Como são imensuráveis os recursos, como são vastos os horizontes, como são poderosas as forças às quais passamos a ter acesso em Cristo por meio de Sua cruz.
Então, encerro apenas lembrando vocês disto. Tudo está consumado Nele. No que diz respeito a Ele, não há mais nada a fazer nessa questão. É pleno e definitivo, e Ele entrou em Seu descanso, assentou-Se à direita da Majestade nos céus.
Nada do que atravessamos pode acrescentar algo a isso. Nada do que experimentamos pode subtrair algo disso.
Contudo, em certo sentido — não de forma vicária, não de forma expiatória, não no sentido de Sua grande obra redentora, mas no sentido da comunhão com Ele —, enquanto neste mundo Ele continua rejeitado e humilhado, o princípio permanece: a vida e o alargamento vêm por meio da adversidade.
Estou falando sério. É uma lei da vida. Com Ele, a adversidade resulta em vida e alargamento. Espero que vejamos como isso é verdadeiro. Mas é muito verdadeiro — muito verdadeiro.
A Bíblia está cheia desse princípio. Provações reais da fé, muita adversidade e oposição, tudo nos restringindo e nos cercando:
Todas as nações me cercaram;
Cercaram-me, e tornaram a cercar-me.
Vejam, isso é reiterado. É muito real. Contudo, a fé não encara isso como uma ameaça; ela o vê como sua oportunidade.
Amigos, diante de tudo isso, a fé se manifesta nesta declaração e diz:
Não morrerei, mas viverei;
E contarei as obras do Senhor.
A fé faz essa declaração. Esse é o caminho para uma nova experiência de vida, para novos horizontes, para uma plenitude, para um alargamento — alargamento por meio do desafio da fé.