Abram no Evangelho segundo Lucas, capítulo 4.
E Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão;
e foi conduzido pelo Espírito no deserto,
durante quarenta dias, sendo tentado pelo diabo.
E naqueles dias não comeu coisa alguma;
e, terminados eles, teve fome.E disse-Lhe o diabo: Se Tu és o Filho de Deus, manda que esta pedra se torne pão.
E Jesus lhe respondeu: Está escrito: Não só de pão viverá o homem.E, levando-O a um lugar alto, mostrou-Lhe, num momento, todos os reinos do mundo.
E disse-Lhe o diabo: Dar-Te-ei toda esta autoridade e a glória destes reinos;
porque me foi entregue;
e a dou a quem quero.
Portanto, se Tu me adorares, tudo será Teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe: Está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e somente a Ele servirás.E levou-O a Jerusalém, e colocou-O no pináculo do templo, e disse-Lhe: Se Tu és o Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo;
porque está escrito: Aos Seus anjos dará ordens a Teu respeito, para Te guardarem;
e: Eles Te sustentarão nas mãos,
para que não tropeces com o Teu pé em alguma pedra.
E Jesus, respondendo, disse-lhe: Dito está: Não tentarás o Senhor teu Deus.E, tendo o diabo terminado toda a tentação, afastou-se Dele por algum tempo.
Na primeira carta a Timóteo, em 1 Timóteo 1:18:
Este encargo te confio, Timóteo, meu filho, segundo as profecias anteriormente feitas a teu respeito, para que, por elas, combatas o bom combate.
E em 1 Timóteo 6:12:
Combate o bom combate da fé.
Depois, na segunda carta, em 2 Timóteo 2:3-4:
Sofre comigo as aflições, como bom soldado de Cristo Jesus.
Nenhum soldado em serviço se embaraça com os negócios desta vida;
a fim de agradar Àquele que o alistou como soldado.
Não é necessário provar a vocês que a vida cristã é uma guerra. Mas esse é um assunto do qual precisamos ter uma compreensão real. Há uma grande diferença entre conhecer algo como informação e compreender o que aquilo realmente significa.
É importante, porém, para que nos lembremos e tenhamos plena consciência disso, reconhecer que a vida cristã é uma guerra. Além disso, o Novo Testamento deixa perfeitamente claro que essa guerra se estende por toda esta era. Ela prossegue até o fim desta era.
É assim que ela é apresentada em todo o Novo Testamento. O Novo Testamento aponta para o próprio fim desta era e mostra que ela é caracterizada pela guerra espiritual do começo ao fim.
Agora, o inimigo com quem temos de lutar possui um plano tático muito elaborado, abrangente e detalhado para obter vantagem.
Uma das principais táticas do inimigo é eliminar dos cristãos o próprio elemento do combate — isto é, fazer dos cristãos pessoas que não combatem; realmente, tirar deles o espírito de combate ou, de alguma maneira, levá-los a uma condição em que isso seja completamente eliminado.
Há mais baixas espirituais por não combater do que por combater.
Há muitos que ficam machucados, feridos e temporariamente derrubados na luta. Podem ficar fora de combate por algum tempo, mas se levantam e voltam a lutar.
Mas o campo inteiro está repleto de baixas — pessoas que se tornaram baixas porque não combateram. Eu digo que essas são muito mais numerosas.
Ontem, mais uma vez, fiquei impressionado com algo que tenho observado muitas vezes ao viajar de avião: quando o avião está subindo, e quando está na altitude de voo com toda a sua potência em ação, ele fica muito mais estável. Prossegue com firmeza e enfrenta as forças contrárias de maneira vitoriosa.
Mas, assim que o avião entra em descida, a aceleração diminui e a potência é reduzida, ele se torna um brinquedo do vento. Você balança de um lado para o outro, é sacudido por toda parte, porque a força propulsora diminuiu.
É muito parecido com isso. Nós nos tornamos brinquedos do diabo; somos jogados de um lado para o outro quando deixamos de agir com firmeza ou quando o espírito de combate e de avanço enfraquece suficientemente. Esse é o momento perigoso na vida cristã.
Repito: o espírito de combate no cristão é uma grande proteção. Estar sem ele é um grande perigo.
Se afrouxarmos, creio que Satanás fará o mesmo. Mas ele nos atingirá de outras maneiras. Podemos ter a impressão de que teríamos uma vida mais fácil se não fôssemos tão firmes. Ele talvez alivie a pressão, naquela forma específica, se nós afrouxarmos; mas agirá de outras maneiras, mais sutis. Ele não está desistindo.
Vocês querem ter uma vida mais fácil, mas nem por isso menos perigosa? Parem de lutar, e descobrirão que o inimigo os despedaçará. É, como eu digo, o perigo de se tornar uma baixa por não combater.
Chegamos às tentações de Cristo, essas três tentações sobre as quais acabamos de ler. Observem que a linha foi cruzada no Jordão. A batalha foi estabelecida e começou. Ele Se comprometeu com a cruz, conforme simbolizado no Jordão, e então o Espírito que unge veio sobre Ele. Esse foi o início da batalha.
Agora observem a natureza dessa guerra, conforme indicada por aquelas tentações.
Em primeiro lugar, o ataque — a investida — foi contra o Seu relacionamento com o Pai:
Se Tu és o Filho de Deus.
Seu relacionamento com o Pai, toda a questão da filiação, era um alvo da investida satânica.
Observem como o relato termina: o diabo afastou-se Dele “por algum tempo”. Mas a nota à margem diz: “até uma ocasião mais oportuna”; e ele de fato voltou a esse ponto bem no final, na hora de maior fraqueza. Voltou exatamente a isso: toda a questão do Seu relacionamento com o Pai.
Não tenho tempo nesta manhã para falar sobre o que esse relacionamento realmente significa — um filho para o Pai —, mas posso apenas indicar isto: a filiação, em seu próprio significado, implica que toda a honra do Pai está envolvida.
A verdadeira filiação significa assumir a responsabilidade pela honra do Pai. O mais terrível no fracasso da filiação, seja no caso de Cristo, seja nas relações comuns da vida, é que ele desonra o pai. Traz descrédito sobre o pai. Traz vergonha sobre o pai. O pai sofre vergonha pelo fracasso de um filho.
Assim era com Cristo. Toda a questão da honra do Pai e da satisfação do Pai estava envolvida. Por isso, o inimigo concentrou sua investida, em primeiro lugar, naquele relacionamento com o Pai.
Lembrem-se: essa é sempre a natureza desta guerra. Nosso relacionamento com Deus é um ponto central de constantes ataques e investidas do inimigo, e assim será até o fim, porque há muita coisa em jogo e ligada a esse relacionamento. O inimigo está sempre tentando criar uma divisão entre nós e o Pai.
Depois, em segundo lugar, há o relacionamento com o mundo: o relacionamento com o mundo. A oferta dos reinos do mundo, de sua glória e de sua autoridade foi feita nos termos de Satanás.
Portanto, a questão passou a ser se Cristo abriria mão deste mundo tal como ele é e de tudo o que ele tinha a oferecer — posição, recompensas, influência e tudo aquilo com que este mundo nos atrai —; se Ele abriria mão disso em sua forma atual, para tê-lo somente nos termos de Deus e conquistá-lo à maneira de Deus.
Vocês podem ver que essa é uma questão muito real na guerra espiritual, especialmente para os novos cristãos. Você se depara com isso de imediato, quase no mesmo instante. Torna-se cristão e já está diante dessa questão.
Então, o mundo ou o Senhor — qual dos dois você vai escolher? Muitas vezes, ao se tornar cristão, essa escolha se apresenta com uma divisão muito clara, e você precisa enfrentá-la diretamente.
Há muitas maneiras práticas pelas quais essa questão urgente se apresenta. Ela se torna uma batalha que prossegue até o fim. Nunca é agradável à nossa vida natural sermos menosprezados pelo mundo e vermos o mundo nos negar seu favor e seu apoio por sermos cristãos. Mas Deus falou, e chega o momento da prova.
Vocês veem como estou passando rapidamente por essas coisas, apenas dando algumas indicações.
Então, em terceiro lugar, a batalha concentrou-se no relacionamento com a igreja. Satanás O levou ao pináculo do templo. O templo. Por que não O levou ao palácio? Bem, isso teria pertencido à outra esfera. Não, foi ao templo.
O Senhor Jesus veio com o propósito de conquistar a Sua igreja. Aqui está a questão: agora ela é religiosa. Não se trata mais do mundo; trata-se de uma questão religiosa. Não se trata diretamente de Deus; trata-se de outra coisa.
Aqui vocês têm, representada pelo templo, a religião popular, a religião estabelecida, a religião tradicional, a religião formal — sim, e a religião morta. O diabo não diz isso expressamente, mas sugere, em sua tentação, que Cristo pode alcançar o mundo religioso se apenas fizer aquilo.
Ele pode conquistar o mundo religioso e obter um lugar nesse mundo. Pode conquistar uma reputação. Pode conquistar influência nesse mundo. Pode fazer um nome para Si nesse mundo. Pode obter aplausos, aceitação e seguidores no mundo religioso.
Mas Jesus sempre, em Sua vida, traçou uma linha nítida entre a religião tradicional, fria, morta e formal e uma igreja viva. Ele Se comprometeu com a igreja. Ele disse:
Edificarei a Minha igreja.
Cristo amou a igreja e entregou-Se por ela.
Agora, o diabo tem uma percepção aguçada das coisas. Ele tem um conhecimento intuitivo. Creio que sabe o que essa igreja está destinada a significar para a sua ruína. Portanto, se conseguisse desviar Cristo daquele propósito específico da igreja para alguma coisa religiosa como alternativa, teria alcançado uma tremenda vitória.
O relacionamento com a igreja: não, Cristo não Se deixa desviar disso. Não se esqueçam, queridos amigos: o inimigo está sempre tentando nos fazer aceitar algo inferior à plenitude do pensamento de Deus a respeito da igreja; fazer com que nos tornemos religiosos, sim, cristãos formais, profissionais; fazer com que sejamos rebaixados a esse nível e roubados e privados do tremendo significado do Corpo de Cristo e de seu destino no desígnio de Deus.
Mais uma vez, estou apenas dando algumas indicações sobre isso. Quero chegar a outra aplicação tríplice desse assunto. Mas estas são três esferas da batalha: nosso relacionamento com Deus, nosso relacionamento com este mundo e nosso relacionamento com a igreja. A batalha se trava nesses três pontos.
Mas agora olhem para Cristo pessoalmente, em Si mesmo: primeiro, o Seu corpo.
Houve um ataque contra o Seu corpo e contra aquilo que parecia ser uma necessidade dele. Há um aspecto, queridos amigos, em que a grande questão surge na própria esfera do corpo: se as exigências de nossa vida corporal, de nossa vida física, terão a primazia ou se a vontade de Deus prevalecerá.
Às vezes, essa é a questão. O apóstolo diz:
Rogo-vos que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo.
Seus corpos, um sacrifício vivo, porque muitas vezes é o corpo que se levanta e determina nosso caminho — aquilo de que precisamos para nossa vida tão difícil, ao que parece; aquilo que se impõe; aquilo que nos faz bem corporal e fisicamente.
Às vezes, trata-se de encontrar descanso. Ah, sim, estes corpos precisam de descanso, e Deus sabe disso. Cristo levou isso em conta com Seus discípulos. Ele conhecia a necessidade de descanso físico.
Mas há situações, eu digo, e momentos em que essa questão pode se tornar espiritual, e não apenas corporal. Pode haver fraqueza física ou alguma indisposição que passa a determinar tudo, e nós nos rendemos a ela, a aceitamos e somos retirados da batalha.
Contudo, mesmo assim, há ocasiões — não sempre, observem bem — em que somos chamados a dizer: “Sim, não me sinto muito disposto. Não me sinto muito bem. O corpo parece dizer que eu deveria fazer isto, aquilo e aquilo outro. Mas há uma questão espiritual em jogo e, por isso, eu me aproprio da vida”.
Eu me aproprio da vida. Não é verdade que, muitas vezes, quando nos pomos de pé e nos preparamos para essa batalha física, a vida vem, e fazemos o que não teríamos feito se tivéssemos cedido ao corpo? Vocês entendem o ponto.
A questão, então, naquele momento, era se o corpo iria determinar o caminho ou se a vontade do Pai prevaleceria: a esfera do corpo.
Depois, há a esfera da alma. Como observei, essa oferta dos reinos do mundo era um apelo à Sua alma — à ambição.
Ambição! Todas as mais tristes tragédias da ambição neste mundo. Os pais, em sua ambição pelos filhos, tantas vezes devastaram a vida espiritual deles.
Nossa ambição neste mundo — chegar a algum lugar, chegar ao topo, ser alguém, fazer um nome e todas as outras manifestações de nossa própria vida natural —, como ela é poderosa! Isso era um apelo ao próprio eu neste mundo: reputação, nome, posição, influência, ganho, sucesso, prosperidade, ascensão. Tudo isso estava envolvido.
Bem, não há nada de errado em fazer um bom trabalho, em trabalhar neste mundo e em progredir. Mas, se isso ocorre à custa de fazer a vontade do Pai, e se acontece por sugestão do diabo e pelo estímulo à nossa própria vida da alma, há um perigo imenso ligado a isso.
Temos de lutar até resolver essa questão e chegar ao ponto central: o que está determinando o caminho — meu próprio eu, minha própria vida da alma — ou, de fato, aquela antiga questão: o que Deus quer para minha vida? Essa é uma batalha muito intensa, não é?
Depois, quanto ao Seu espírito — o Seu espírito. Toda a questão da adoração rege essa tentação, não é? Adoração em espírito.
O espírito é aquela parte de nós em que Deus é adorado. Deus procura verdadeiros adoradores que O adorem em espírito — não no corpo, não na alma, mas no espírito.
Paulo disse:
A Quem sirvo em meu espírito.
O inimigo fará qualquer coisa para nos tirar da base desse relacionamento essencial e último com Deus em nosso espírito — qualquer coisa para nos afastar disso.
Vocês e eu temos aprendido, com uma percepção cada vez mais aguçada e clara, o que significa andar no Espírito e ter nossa vida com Deus por meio de nosso espírito: não por nossos sentimentos, nossas emoções, nossos desejos, nosso próprio raciocínio, nem, de modo algum, pelas influências dominantes deste mundo.
Com Deus no mais íntimo do nosso ser — com Deus. Vocês veem como, desde aquele momento, essa foi uma questão fundamental na vida do próprio Senhor Jesus.
Ao longo de todo o caminho, desde essa entrega no Jordão e desde essa batalha fundamental e abrangente no deserto, Sua vida se baseou nisto: Ele Se deixaria influenciar por outras considerações ou andaria com o Pai de maneira interior, em Seu coração?
Vocês veem como isso surgiu repetidas vezes. O inimigo estava tentando encontrar uma brecha ali, fazer com que Sua vida se apoiasse em outra base que não a Sua comunhão interior com o Pai.
Muito poderia ser dito, não é? Vocês percebem a batalha que se trava ali para nos tirar dessa base. Mas tudo isso levanta uma grande questão: o que vai prevalecer?
O inimigo se aproxima por meio da vida física; aproxima-se por meio da vida emocional; vem de todas essas maneiras diferentes. Mas há uma única questão em tudo isso. É uma batalha. Quem vai prevalecer, e o que vai prevalecer?
O Senhor Jesus voltava, a cada vez, àquilo que o Pai havia revelado acerca de Sua vontade. Afinal, quando Ele dizia:
Está escrito.
Ele estava apenas dizendo, em outras palavras: “Deus falou. Deus falou. Eu sei o que Deus disse”.
É isso. Essa é a palavra final nesta batalha. Esse é o argumento — não o argumento de minhas necessidades e condições físicas, nem, de modo algum, o argumento do meu bem-estar neste mundo, mas o argumento de minha vida interior com Deus.