Talvez interesse aos amigos que estiveram conosco no sábado, mas não puderam estar conosco ontem, saber que, neste assunto que estamos considerando, não avançamos além do ponto em que o deixamos no sábado à noite. Ontem nos ocupamos de outras coisas, de modo que podemos prosseguir juntos a partir daquele ponto, em relação a esta questão da cruz e da glória eterna.
Mas, aqui também, uma palavra preliminar. É de imensa ajuda e valor poder ver a Bíblia como um todo — ter tudo o que há nela, da primeira à última página, reunido sob uma única realidade, para que possamos ver que tudo nela é governado por essa realidade ou se relaciona com ela.
A Bíblia se tornou, em grande medida, um livro de textos ou de promessas para necessidades e situações específicas, de pequenos trechos para fins devocionais, ou de temas para pregação e ensino. Em sua maioria, são apenas fragmentos isolados. É claro que isso tem seu lugar. Queremos nossas promessas para nossas necessidades particulares; queremos nossas porções, nossas porções diárias; e queremos compreender assuntos específicos.
Mas é muito mais proveitoso poder ver que tudo na Bíblia se relaciona com uma única realidade, e perceber como se relaciona com ela. De uma forma ou de outra, tudo na Bíblia converge para uma única realidade. Se pudermos apreendê-la, teremos a chave para cada porta da Bíblia, para cada livro e para cada assunto.
E, neste momento, estamos procurando trazer à luz essa realidade abrangente, que engloba tudo. Espero que, daqui em diante, vocês tomem sua Bíblia e sempre vejam suas partes em relação ao todo. Se fizerem isso, sua Bíblia ganhará vida para vocês de uma maneira nova.
Muitas partes que vocês não compreenderiam por si mesmas — por serem complexas demais, difíceis, profundas ou até aparentemente sem sentido — adquirirão novo significado e nova vida se vocês puderem ver como se encaixam no todo.
O todo é a glória eterna. De eternidade a eternidade, o objetivo de Deus tem sido uma criação, com o homem em seu centro, que O reflita como o Deus da glória. O fim para o qual Ele está trabalhando, e que certamente realizará, é um universo assim, inteiramente cheio de Sua glória.
A Bíblia, então, deve ser vista à luz disso: ou como apresentando aquilo que pode ser glorificado, que pode chegar à glória, ou, por outro lado, aquilo que precisa ser removido para que Deus alcance esse objetivo. São esses dois aspectos, portanto, que estão governando nossos pensamentos e nossas considerações neste momento.
No sábado à noite, naquela primeira seção, chegamos ao ponto de recuar para antes do tempo — antes da fundação do mundo — e considerar aquelas indicações que nos foram dadas, especialmente pelo próprio Senhor Jesus, quanto ao Seu lugar na glória anterior à criação. Ele pediu ao Pai que O glorificasse com a glória que tinha junto Dele antes que o mundo existisse.
Ao lado disso, consideramos outra passagem que indica que Ele não estaria sozinho naquela glória, mas que Deus havia dado a conhecer o mistério de Sua vontade nesta dispensação: que fôssemos para o louvor de Sua glória. E essa, como vocês sabem, é uma expressão ligada a um povo eleito, a Igreja, para o louvor de Sua glória.
Assim, Cristo e Sua Igreja estão unidos nessas expectativas e intenções de Deus anteriores à criação, que nos são dadas a conhecer como o mistério de Sua vontade — Ele, que opera todas as coisas segundo o conselho de Sua própria vontade. Colocamos essa palavra, “VONTADE”, em maiúsculas e entre aspas porque ela governa tudo. A vontade levou à atividade criadora, trazendo uma nova ordem mundial no início desta história.
Prosseguimos observando a ruptura no céu causada por uma grande revolta que ali ocorreu, e depois suas repercussões — ou, podemos dizer, sua reprodução — na história humana: a captura do homem, criado para a glória de Deus.
Encerramos com o avanço dessa vontade, vindo diretamente da eternidade ainda por vir, com a sombra de um Homem sendo projetada através das eras até o princípio da criação. Adão era figura Daquele que havia de vir, nos é dito. A partir dessa indicação, a figura do Homem pode ser discernida ao longo de toda a Bíblia, de uma forma ou de outra — aquilo que Ele realmente é, e aquilo que é Sua caricatura ou Sua contradição.
Por meio de todas as contradições, vemos Deus dizer enfaticamente: “Isso não está de acordo com o Meu Homem”. A sombra do Homem, então, alcança esse objetivo: tornar realidade aquele Homem glorificado, enchendo toda a criação — a sombra da cruz.
Não sou artista. Se fosse artista, gostaria de representar este diagrama assim: com a luz resplandecente vindo da eternidade ainda por vir e lançando seus raios sobre aquela cruz; e então, através daquela cruz, as sombras da cruz se projetando para trás, sobre toda a história do Antigo Testamento.
Bem, é isso que acontece. É a glória tomando a cruz e fazendo dela seu instrumento para levar o homem ao lugar em que Deus pretendia que ele estivesse, e pretendia desde a eternidade. É a glória da cruz e a glória por meio da cruz.
A sombra da cruz é projetada pela própria luz da eternidade através das eras. Não se pode ter uma sombra sem luz. Se há de existir uma sombra da cruz, ela precisa ser produzida pela luz, e essa é a luz da glória. O sentido e o significado da cruz são iluminados pela glória.
Isso nos conduz, então, a esta manhã e à próxima fase e etapa de todo este assunto, que, em primeiro lugar, é apenas uma ampliação do que acabamos de dizer: a mediação e a glória.
Isso caracteriza de maneira particular aquela primeira seção da Bíblia, os cinco primeiros livros, de Gênesis a Deuteronômio. Imediatamente, por causa daquela rebelião no coração do homem, a glória foi retirada; e, com a grande obra de redenção e restauração, imediatamente o altar entrou em cena — ou, melhor dizendo, o sacrifício entrou em cena.
É uma indicação muito simples que nos é dada. A palavra altar não é usada, nem a palavra sacrifício, mas isso certamente está implícito. Vocês encontram isso em Gênesis 3:21:
E fez o Senhor Deus a Adão e à sua mulher túnicas de peles, e os vestiu.
A primeira indicação de sacrifício está ali, para reparar o dano e atender à situação que havia surgido. Era necessária uma cobertura. Não vou entrar em todos os detalhes; não é possível fazer isso. Simplesmente afirmo o fato: há muito por trás dele.
Uma cobertura é necessária, e essa cobertura é providenciada por meio da morte — a morte daqueles animais que forneceram as peles. Muito provavelmente, se tomarmos o restante das Escrituras como esclarecimento disso, eram cordeiros, cujas peles forneceram essa cobertura.
Vocês perceberão imediatamente como isso é pleno e rico quando forem lembrados de que a palavra que percorre toda a Bíblia, expiação, significa cobertura. A própria palavra significa cobertura. Expiação e cobertura indicam que a expiação era necessária e constituía o caminho de volta à glória, ou o meio de recuperar a glória.
Agora, há uma referência muito interessante e instrutiva a isso na outra extremidade da Bíblia. Vão até o livro de Apocalipse. Encontraram o capítulo 3? A partir de Apocalipse 3:16:
Assim, porque és morno, e não és quente nem frio, vomitar-te-ei da Minha boca.
Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta;
e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu:
Aconselho-te que de Mim compres ouro provado no fogo, para que te enriqueças;
e vestes brancas, para que te vistas,
e não apareça a vergonha da tua nudez.
Isso sugeriria que a nudez física de Gênesis 3:21 é um símbolo da nudez espiritual. E, se as vestes brancas, que em toda a Bíblia são símbolos de justiça, são a cobertura da nudez, então fica perfeitamente claro que essa nudez era uma condição de injustiça que precisava ser coberta — coberta com as vestes da justiça.
Assim, aqui vocês têm toda a obra da expiação: a cobertura, que consiste em remover uma condição de nudez espiritual — isto é, de injustiça — e colocar em seu lugar, como cobertura, as vestes da justiça.
O linho fino são os atos de justiça dos santos.
Tudo isso, e naturalmente muito mais, está reunido nesta indicação muito simples: Deus realizou uma expiação, em princípio e em figura, imediatamente quando a glória foi retirada. Uma cobertura por meio de sacrifício, por meio de morte — uma cobertura para uma condição de completa nudez, inteiramente exposta diante Dele.
E lembrem-se: é nesse sentido que esta questão tem sua verdadeira gravidade. Não havia outro homem, mulher ou criança no jardim para contemplar aqueles dois. Ninguém mais viu sua nudez — somente Deus. Somente Deus. Portanto, em princípio, vocês percebem, tudo isso diz respeito à nossa condição diante de Deus.
É Deus em Cristo confrontando Laodiceia a respeito dessa nudez. Trata-se de como estamos aos olhos de Deus, não, em primeiro lugar, de como aparecemos diante dos homens. Podemos criar coberturas artificiais diante dos homens, fingindo, encobrindo, fazendo de conta e enganando-os; mas não podemos fazer isso diante de Deus.
Cristo sempre se mantinha fiel ao princípio, até mesmo em Suas ilustrações. Quando colocou palavras na boca do filho pródigo arrependido, com a consciência aflita, Ele o fez dizer:
Pai, pequei contra o céu e perante ti.
Esse é um princípio tremendo, que abrange todas as eras. Não simplesmente: “Pequei contra outras pessoas”, ou: “Pequei contra mim mesmo”. O pecado e a injustiça são coisas que atingem a Deus, porque atingem a própria intenção de Deus ao criar o homem e impedem o propósito da criação do homem.
É contra Deus, contra o céu. Mas não é algo muito bendito ver que, embora seja contra Deus, e a nudez esteja aberta e exposta diante de Deus, é Deus Quem toma a iniciativa de cobri-la?
E assim o próprio Deus introduziu, pessoalmente, a função do altar e do sacerdote. Se isso não fosse mal compreendido, eu diria que Deus Se tornou o primeiro Sacerdote a exercer essa função. Ele tomou essa questão em Suas mãos.
Isso não faz parte daquilo que está incluído no Cordeiro morto desde a fundação do mundo? Ali estamos, bem no princípio da criação, e o Cordeiro é morto para cobrir esse afastamento da justiça, que sempre envolve o afastamento da glória.
Assim, chegamos ao altar e ao sacerdote nesta primeira seção, e só podemos observá-los de modo geral; os detalhes são numerosos demais. Talvez seja interessante apenas notar que, nesses cinco primeiros livros da Bíblia, a própria palavra altar aparece nada menos que oitenta e seis vezes. Isso é impressionante; isso é interessante.
Vocês encontram o altar ocupando um lugar na vida de todos os personagens de destaque que estão do lado de Deus. Evidentemente, ele ocupava um lugar na vida de Abel. Embora não se mencione que ele colocou sua oferta sobre um altar, mostra-se claramente que ele e Caim ofereceram de alguma maneira, e devem ter tido algo correspondente a um altar. Assim, podemos dizer que o altar estava ali com Abel e seu sacrifício de sangue.
Ele é mencionado expressamente no caso de Noé: Noé construiu um altar. Também no caso de Abraão, o altar está muito presente em sua vida — mais de um altar. E, no caso de Moisés, como o altar está presente! Das oitenta e seis ocorrências às quais me referi, a grande maioria está ligada à vida e à obra de Moisés.
Estou apenas destacando que, nesta primeira seção, a ideia predominante é o altar — a figura da cruz. Logo no início, onde a glória foi encoberta ou suspensa, é a cruz, em símbolo e figura, que é colocada tão plenamente em evidência como o meio de tratar dessa situação e abrir novamente um caminho para a glória.
Assim, consideramos o altar, ou a cruz, e a função do altar. Como a maioria de vocês sabe — e sempre tenho em mente que há pessoas que não conhecem o conteúdo da Bíblia como outras conhecem —, a cruz, ou sua representação na antiga dispensação, o altar, tem um duplo sentido, um duplo significado.
Por um lado, ela apresenta a presença consumidora de Deus diante daquilo que é incapaz de ser aceito por Ele e glorificado. Naquela dispensação, o sacrifício era trazido e, em um ato simbólico, o ofertante colocava as mãos sobre a cabeça do animal sacrificado. Ao fazer isso, em figura, ele transferia a si mesmo e seu pecado para aquele sacrifício.
Ao colocar as mãos sobre aquele sacrifício, ele declarava que era pecador; e, sendo pecador, merecia o juízo e a morte pelas mãos de Deus. Como pecador, ele não tinha posição diante de Deus, não tinha aceitação diante de Deus, não tinha lugar diante de Deus. Sua única esperança era que ele, como pecador, juntamente com seu pecado, fosse removido.
Essa é uma metade — apenas uma metade —, mas esse é o cerne da questão. Com a transferência dele mesmo e de seu pecado para aquela oferta, ela era inteiramente consumida sobre o altar, não restando nada além de cinzas: consumida e removida da presença de Deus.
Esse é um dos aspectos do significado da cruz de Cristo. Nós o conhecemos, mas ainda não o compreendemos plenamente. Realmente, ainda não o apreendemos; ainda não desfrutamos de sua realidade, a não ser em parte. Mas ali está: consumido e afastado de Deus mediante a transferência do pecado para a oferta.
Há o outro aspecto: consumido para Deus. Como essa oferta precisa, em si mesma, ser sem mácula nem defeito — precisa ser perfeita —, Deus vê esse lado da oferta. Não se trata de aniquilação; há uma perspectiva futura.
Se vocês e eu, tal como somos, ocupássemos aquele lugar na cruz, nada voltaria. Nada sobreviveria. Aquilo seria o fim, para sempre, de todo vestígio de nós; seríamos completamente apagados, e não haveria um depois. Mas, como o sacrifício era perfeito, sem defeito, embora tomasse sobre si o pecado, em si mesmo não era pecaminoso. Portanto, há outro aspecto, e pode haver algo que retorna.
Bem, naturalmente, vocês veem Cristo de imediato: Aquele que leva o pecado, mas que o leva sem ter pecado. Enquanto, naquela condição representativa de pecador, Ele foi consumido e afastado de Deus, como se indica naquele terrível momento em que foi abandonado por Deus:
Deus Meu, Deus Meu, por que Me desamparaste?
Ao ser consumido e afastado da presença de Deus no lugar de homens pecadores, esse aspecto foi concluído. E ouve-se a mesma Pessoa, em Seu último suspiro, orando:
Pai, nas Tuas mãos encomendo o Meu espírito.
Tudo está consumado. Tudo terminou quanto àquele aspecto, e agora Ele pode encomendar a Si mesmo a Deus. Ele é o único em todo este universo que tem o direito de usar essa palavra. Muitas vezes ouço pessoas dizerem: “Senhor, encomendamos a nós mesmos aos Teus cuidados”, e assim por diante. Não, não fazemos isso; nós nos entregamos. Não há nada em nós que possa ser recomendado a Deus.
Não há mérito a recomendar em nossa fraqueza, mas Ele podia encomendar a Si mesmo a Deus — não apenas entregar-Se. Isso parece pedante, não se preocupem; mas, vejam, Ele podia fazer isso porque há outro aspecto Nele.
Aqui está o ser consumido para Deus, de maneira tão absoluta e completa quanto o fogo do altar consumia o sacrifício, afastando-o de Deus. Assim, ele consome para Deus aquilo que está de acordo com o pensamento de Deus. Pela transferência do pecado para o sacrifício, este era separado de Deus; assim, pela oferta de Si mesmo, é levado a Deus.
A função do altar é dupla — muito mais do que isso, naturalmente, mas vou me limitar a esses dois aspectos nesta manhã. A função do sacerdote: qual era, e qual é? Ela se resume em uma palavra: intercessão. Estamos usando a palavra mediação. Ela significa a mesma coisa.
Agora, queridos amigos, a intercessão tem um significado mais amplo do que simplesmente orar. Reduzimos o significado da intercessão à oração, pensando que orar é tudo o que intercessão significa, quando a oração é apenas uma parte da intercessão. A intercessão é algo muito maior do que orar uns pelos outros.
Ela significa vir e colocar-se exatamente entre as duas partes, assumindo responsabilidade por ambas. A palavra no Antigo Testamento é muito mais forte. Significa lançar-se sobre, atirar-se sobre.
Há uma ocasião em que se fez intercessão junto ao rei. A palavra nos dá uma imagem vívida: uma pessoa entrando e se prostrando, clamando: “Ó rei, aqui está esta situação!” Significa lançar-se sobre.
Se vocês examinarem o Antigo Testamento em relação à intercessão, verão que não eram simplesmente homens que se levantavam e ofereciam orações em favor de outras pessoas. Eles entravam diretamente em uma situação. Lançavam-se sobre Deus; entregavam-se a Deus por causa daquela situação. Eles próprios se colocavam no meio, como uma questão de vida ou morte, entre as duas partes envolvidas: a necessidade e a provisão, o desamparado e aquele que socorre.
A intercessão não é uma oração e uma petição passivas, seja por nós mesmos, seja por outros. A intercessão não é algo meramente oficial. Um sacerdote não é apenas alguém que ocupa um cargo diante de Deus, realiza certos ritos e recita certas orações. Não, não é algo oficial, e certamente não é profissional — algo que vocês são pagos para fazer porque pertencem a uma ordem sacerdotal.
Não. A intercessão, que é a função do sacerdote, é responsabilidade pessoal pela situação existente: é entrar diretamente nela.
Vocês têm várias ilustrações muito vívidas disso na primeira seção da Bíblia. Tomemos uma de Números 16. Lembrem-se: o povo murmurou contra Moisés e Arão. Já havia feito isso tantas vezes, e acabara de fazê-lo de maneira muito séria e grave; agora estava fazendo novamente.
O Senhor disse a Moisés: “Saia do caminho. Deixe-Me destruir este povo”. Moisés se prostrou com o rosto em terra diante do Senhor. Então disse a Arão, o sacerdote: “Pegue um incensário; pegue fogo do altar; coloque-o no incensário; e vá para o meio do povo”.
Arão fez isso, e, quando entrou no meio do povo, a praga já havia começado. As pessoas estavam morrendo. Arão se colocou entre os mortos e os vivos, com seu fogo do altar, e assim a praga cessou. Isso é intercessão: colocar-se entre os mortos e os vivos.
Uma ilustração muito vívida do sacerdócio, não é mesmo, e da função do sacerdócio? Intercessão.
Agora, observem que, na introdução desse mesmo episódio, está escrito que a glória apareceu à porta da tenda. A glória apareceu contra a rebelião, contra aquilo que havia se levantado em oposição a Deus. Ela dava testemunho de que isso jamais poderia entrar na esfera da glória. A glória se opõe a isso; portanto, isso precisa ser tratado, removido, consumido.
A menos que se faça uma cobertura, ocorrerá destruição completa. O fogo do altar providenciou a expiação, de modo que a glória não resultasse em destruição. A expiação manteve aberto o caminho para que essas pessoas vivessem e não morressem, e a praga cessou.
Assim, vemos a sombra da cruz. Cristo é tanto sacrifício quanto sacerdote — tanto sacrifício quanto sacerdote. Deus é o Deus da glória, e, como tal, Ele desce até o homem por meio do sacrifício, por meio da cruz.
Aquele que oferece a Si mesmo a Deus, por um lado, é feito pecado por nós — Ele, que não conheceu pecado — e, por outro lado, oferece a Si mesmo sem mácula a Deus. E assim o caminho da glória é aberto.
Fiz uma anotação sobre a preservação desses valores. Não creio que possa dedicar tempo a me deter nisso, mas está muito claro que, embora sejam figuras, imagens e símbolos no Antigo Testamento, eles transmitem algo de valor para nós.
A nação judaica está agora sob o juízo de Deus, e assim tem estado por muitos séculos. É um terrível juízo de Deus. Ela está sob esse juízo não apenas por causa do que fez ao Filho de Deus, Jesus Cristo, mas porque, naquilo que fez a Jesus Cristo, agiu em relação a toda a sua história de sacrifícios.
Sobre esta geração, disse o Senhor, viria o sangue desde Abel até Zacarias, a quem mataram entre o santuário e o altar. Toda a história do sacrifício, desde Abel até o fim do Antigo Testamento, foi reunida em seu ato contra Jesus Cristo, porque Ele sintetizava o todo.
Mas olhem pelo outro lado. Onde houve fé — como em Abel, como em Noé, como em Abraão —, fé em relação a essa obra do altar, do sacrifício e do sangue, isso é creditado àqueles homens em Cristo.
Não sou uma daquelas pessoas que acreditam que os santos do Antigo Testamento não têm lugar na nova dispensação. Creio que a fé deles no sacrifício simbólico significava tanto, ou agora significa tanto, para eles quanto nossa fé no único sacrifício significa para nós.
O apóstolo diz que, sem nós, eles não poderiam ser aperfeiçoados, o que implica claramente que, conosco, eles são aperfeiçoados. Trata-se de sua fé, da preservação e da transmissão desses valores. Isso não é apenas uma história do Antigo Testamento que passou para sempre; ela continua em ambos os sentidos.
Vocês e eu teremos responsabilidade pelo Antigo Testamento neste sentido: temos um vasto documento que declara que Deus interveio ao longo de toda a história deste mundo com uma expiação e uma Pessoa para nos salvar. Ele fez isso. Portanto, as coisas que foram escritas anteriormente foram escritas para nosso ensino.
Bem, o que tudo isso significa? A expiação, a cobertura, é uma renovada concretização do propósito original de Deus. É Deus voltando e dizendo: “O propósito permanece. O propósito da glória continua válido”.
Por esse meio, damos efeito a ele; nós o ratificamos; nós o confirmamos. Pela cruz, pelo sacrifício, pela mediação, pelo altar, pelo sacerdócio, em seu significado e valor espirituais, Deus está dizendo: “Não desistimos da intenção original. Teremos a glória, custe o que custar”.
A expiação, ou a cruz, se preferirem, é, acima de tudo, uma ratificação do propósito original de Deus.
Vamos passar por alguns minutos a esta próxima seção? Apenas alguns minutos, creio: a autoridade e a glória. De Josué ao livro de Ester há um trecho muito, muito longo, com muita coisa nele. Não vamos tentar examinar todos esses livros, mas apenas procurar resumir a mensagem.
Aqui também basta consultar uma concordância para ver que lugar importante o altar ocupa nesta seção. O que entra em cena nesta nova seção, de Josué até o livro de Ester, é a questão da autoridade.
O livro de Josué introduz um novo aspecto. Até esse ponto, tratava-se de Moisés. A função de Moisés, ou a obra de Moisés, era conduzir um povo para fora, formar esse povo como nação, instruí-lo quanto às coisas de Deus e estabelecer o sistema de mediação.
Tudo isso era a obra de Moisés e aquilo que ele foi chamado a fazer. Quando isso está concluído, seu serviço termina e ele é levado. Josué, seu sucessor, entra em cena e introduz uma nova fase. Agora a função e a obra são conquista e domínio.
Isso exige outra fase de ministério. Significa a obra de subjugar toda uma esfera de antagonismo, tomar posse de toda uma esfera da promessa da aliança e governar nessa esfera. É isso que abrange toda esta seção da Bíblia: subjugar, possuir, governar. E tudo isso exige autoridade.
O fato de ser uma necessidade — de isso precisar ser feito, de precisar haver sujeição e governo — implica que existe um sistema de coisas contrário a Deus. Não pode haver glória até que isso seja tratado e submetido. Até que todo um mundo de antagonismo ao pensamento de Deus seja subjugado, não pode haver glória.
Outras pessoas têm encontrado dificuldades, e, se em algum momento vocês se depararem com esta dificuldade, permitam-me dizer-lhes uma palavra: a dificuldade de compreender como Deus poderia ser um Deus que ordena a completa eliminação e destruição de nações, até mesmo das criancinhas.
Bem, eu poderia dedicar algum tempo a isso durante o dia. Se o fizesse, não creio que lhes restaria qualquer fundamento para discutir. Vocês diriam: “Deus foi justo”. Toda a história revelou, e a investigação tornou abundantemente manifesto, um estado de iniquidade indescritível entre aquelas nações.
A própria religião delas se baseava na iniquidade moral. Um templo podia ter duas mil sacerdotisas, cada uma delas uma prostituta. Deus é justo ao eliminar isso? Alguma parte disso pode contribuir para Sua glória?
Queridos amigos, vocês e eu sabemos o suficiente sobre nós mesmos, mesmo sem tudo aquilo, para dizer: “A única coisa que seria justo fazer comigo é que eu fosse eliminado”. Vocês já chegaram a esse ponto?
Eu digo assim, e digo com sinceridade: há momentos em que poderíamos pedir desculpas a Deus por existirmos, quando conhecemos a nós mesmos. Isso não é exagero. De qualquer modo, se vocês não se sentem assim, eu muitas vezes me senti assim: “Senhor, perdoa-me por estar vivo, sendo a criatura que sou”.
Bem, aí está. Isso não pode ser glorificado. Eles tiveram a oportunidade. Tiveram a oportunidade de se arrepender. Eles sabiam.
Raabe, uma das inúmeras prostitutas daquela terra, estava bem à entrada da terra, e disse aos espias que eles tinham ouvido tudo o que Deus havia feito para libertar Israel do Egito, e o que o Senhor havia realizado. Naquela terra, eles sabiam de tudo isso. Poderiam ter se arrependido.
Os próprios gibeonitas confessaram que sabiam que Deus estava com Seu povo. Recorreram a um subterfúgio para evitar sua própria destruição porque conheciam a atitude de Deus em relação a eles e à sua terra. Poderiam ter se arrependido. Escolheram não fazê-lo. Não foi uma destruição sem oportunidade.
Perdoem toda essa digressão. Terrível, terrível. Mas não devemos ser superficiais quanto a essas coisas. Precisamos reconhecer a justiça de Deus. E, se esse é um terrível parêntese, ele apenas ressalta esta nova fase: precisa haver uma sujeição.
Precisa ser estabelecido um governo, um domínio, que não dê lugar a nada semelhante àquilo. Uma nova ordem precisa entrar em cena, e os homens precisam reconhecê-la. Assim, em princípio, ela entrou em cena com Josué.
Aqui o altar assume esse aspecto adicional. O princípio da realeza é introduzido, embora a pessoa ainda não seja mencionada por esse nome ou título. Em princípio, esse papel estava presente em Josué, e isso mostra que o princípio já era reconhecido, embora o título ou o nome não fosse usado.
O livro de Juízes vem depois do livro de Josué — na verdade, há uma sobreposição entre eles. Vocês olham para o início do livro de Juízes e percebem que ele se sobrepõe ao livro de Josué. Ali o livro de Juízes diz:
Cada um fazia o que parecia reto aos seus olhos, porque não havia rei.
Josué introduz, então, o princípio da autoridade. Esse livro mostra o que é possível quando a autoridade é estabelecida. O testemunho do livro de Josué mostra quão tremendas podem ser as coisas quando há um governo central, uma autoridade central. Houve conquista, vitória, sujeição, posse e aproveitamento daquilo que foi conquistado.
Quando o livro de Juízes vem logo em seguida, como eu disse, há uma sobreposição. Tudo o que podemos dizer a seu respeito é que se trata de um dos livros mais terríveis de toda a Bíblia. Em contraste, ele mostra os desastres e as tragédias que acontecem quando não há autoridade central e o princípio da realeza não está em vigor.
É uma história terrível, mas essa realidade é sempre verdadeira — sempre verdadeira em princípio. Essa é a maneira do Antigo Testamento de ilustrar grandes verdades espirituais e divinas. O princípio permanece válido hoje, como veremos.
O pequeno livro de Rute se sobrepõe a Juízes, ou foi escrito para retratar um intervalo nas tragédias do governo dos juízes. Ele foi escrito dentro daquela própria situação:
E sucedeu que, nos dias em que os juízes julgavam…
Em meio a tudo isso, Deus está reagindo a essa condição sem autoridade, sem governo, sem realeza. Deus está reagindo, e, no pequeno livro de Rute, o rei entra em vista — Davi.
Deus está reagindo à ausência de lei dessa maneira bela, tranquila e soberana, para introduzir Seu rei. Assim, toda esta seção, em primeiro lugar, nos apresenta a necessidade de autoridade.