Se vocês quiserem abrir as Escrituras nesta manhã, vamos primeiro a João 17:20 em diante.
Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que creem em Mim por meio da palavra deles;
para que todos sejam um; assim como Tu, Pai, estás em Mim, e Eu em Ti, que também eles estejam em Nós: para que o mundo creia que Tu Me enviaste.
E a glória que Me deste, Eu lhes dei; para que sejam um, assim como Nós somos um;
Eu neles, e Tu em Mim, para que sejam aperfeiçoados em um; para que o mundo saiba que Tu Me enviaste e os amaste, assim como Me amaste.
Pai, desejo que também aqueles que Me deste estejam Comigo onde Eu estou, para que contemplem a Minha glória, que Me deste: porque Me amaste antes da fundação do mundo.
Pai justo, o mundo não Te conheceu, mas Eu Te conheci; e estes conheceram que Tu Me enviaste;
e Eu lhes fiz conhecer o Teu nome, e o farei conhecer: para que o amor com que Me amaste esteja neles, e Eu neles.
Agora, em Efésios, na carta aos efésios, Efésios 4:1 em diante.
Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação com que fostes chamados,
com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor;
diligenciando por guardar a unidade do Espírito no vínculo da paz.
Agora, no Antigo Testamento, o Salmo 133.
Eis como é bom e agradável
que os irmãos vivam juntos em unidade!
É como o óleo precioso sobre a cabeça,
que desceu sobre a barba, a barba de Arão;
que desceu sobre a orla das suas vestes;
como o orvalho do Hermom,
que desce sobre os montes de Sião:
porque ali o Senhor ordenou a bênção,
a vida para sempre.
Vamos inclinar a cabeça juntos em oração.
Pai, nós Te agradecemos por estarmos reunidos aqui na Tua presença nesta manhã. Queremos reconhecer e confessar que Tu constituíste nosso Senhor Jesus Cristo como Cabeça sobre todas as coisas para a igreja. Nós Te agradecemos, Pai, porque Tu O constituíste nosso Senhor e nosso Cabeça. Reconhecemos Sua autoridade como Cabeça nesta manhã e olhamos para Ti, Pai, para que possamos conhecer o maravilhoso ministério do Teu Espírito em nosso coração.
Que as coisas que talvez já conheçamos cheguem a nós com nova vida e poder. Que possamos enxergar coisas que talvez nunca tenhamos visto antes. E, onde houver apenas uma compreensão mental ou acadêmica dessas coisas, ó Pai, concede-nos aquele espírito de sabedoria e revelação no conhecimento de Ti mesmo, para que, sendo iluminados os olhos do nosso coração, possamos conhecer essas coisas.
Senhor, nós Te agradecemos porque há essa unção sobre o Cabeça, que desce até a própria orla das vestes. Nós Te agradecemos pela unção sobre o Cabeça, nosso Senhor Jesus, que desce, por assim dizer, para incluir cada membro do corpo. Juntos, agora, tomamos nossa posição nessa unção, Senhor.
Seja ao ouvir, seja ao falar, todos confessamos, Senhor, nossa falência quando se trata de coisas espirituais. Mas, Senhor, nós Te louvamos porque Tu fizeste provisão para nós. Queremos nos achegar, Senhor, pela justiça do Teu Filho e com base em Sua obra consumada, e nos apropriar da provisão de que precisamos nesta manhã.
Tomamos nossa posição nessa unção em favor de cada membro do corpo aqui nesta manhã, tanto de quem fala quanto de quem ouve, para que possamos conhecer, Senhor, Tua presença em nosso meio, ouvir Tua voz para além das palavras humanas e ouvir o que o Espírito nos diz. Nós Te pedimos isso, Pai, com ações de graças, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.
Ontem à noite, introduzi este assunto da comunhão. Falamos sobre comunhão — sobre o que é a verdadeira comunhão. Lembrem-se daquele versículo em 1 Coríntios 1:9:
Fiel é Deus, por Quem fostes chamados à comunhão de Seu Filho, Jesus Cristo, nosso Senhor.
Creio que vimos que comunhão não é apenas um pouco de cordialidade, informalidade, conversa espiritual ou simplesmente nos reunirmos. É compartilharmos algo juntos. Temos algo em comum, e, naturalmente, esse algo é nosso Senhor Jesus Cristo.
Deus é fiel, por Quem vocês foram chamados a compartilhar de Seu Filho, Jesus Cristo, nosso Senhor. Eu estou no Filho, e você está no Filho; e o Filho está em você, e o Filho está em mim. Tenho algo do Filho para oferecer que você não tem, e você tem algo do Filho para oferecer que eu não tenho. Ao compartilharmos do Filho, chegamos à plenitude; chegamos ao entendimento; crescemos na graça; crescemos em direção a Ele, o Cabeça.
Naturalmente, esse compartilhar fundamental do Senhor Jesus Cristo afeta todas as outras coisas: nosso tempo, nossa casa, nossos bens, nossa energia. Tudo isso é compartilhado.
Isso não significa que você permita que suas coisas sejam maltratadas ou usadas indevidamente. Existe essa ideia de que, quando você percebe que tudo o que tem pertence ao Senhor e, portanto, está à disposição da igreja, de alguma forma as outras pessoas podem simplesmente entrar e fazer o que quiserem. Você teria de ficar parado, vendo-as estragar sua casa ou seu carro.
Conheço pessoas, por exemplo, que acham que precisam emprestar o carro a qualquer um. Há pessoas que aparecem e não sabem dirigir nem um pouco. Mas, por acharem que o carro já não é delas, e sim do Senhor, elas entendem que devem permitir que alguém que não sabe dirigir o dirija. Vocês sabem o que quero dizer. A pessoa acha que sabe dirigir e tem carteira de motorista, mas o jeito como dirige é de fazer qualquer um se preocupar.
Embora não sejamos os donos daquilo que possuímos, somos os administradores e somos responsáveis diante de Deus por tudo o que pertence a Ele. Nossa casa, embora seja Dele e esteja à disposição da família de Deus, nos foi confiada para que a administremos. Ela não está ali para qualquer fulano, sicrano ou beltrano tomar conta.
Somos responsáveis diante do Cabeça. Somos responsáveis diante do Senhor Jesus por prestar contas da maneira como esses nossos bens são usados. Esse é um ponto muito importante que eu queria destacar.
Mas creio que vimos algo a respeito da comunhão. Então, nesta manhã, quero falar sobre um desses princípios da comunhão. No tempo que temos, só conseguiremos abordar um ou dois desses princípios, e quero que consideremos aqueles que, creio eu, o Senhor deseja que realmente compartilhemos, pois são fundamentais e essenciais para toda essa questão da comunhão.
O primeiro princípio é o princípio da unidade — o princípio da unidade. Não creio que haja algum princípio relacionado a essa questão da comunhão que seja mais importante do que o princípio da unidade.
A unidade do povo de Deus não é apenas um luxo desejável, do qual podemos abrir mão. Não é simplesmente uma espécie de regulamento que podemos transgredir impunemente se ninguém estiver lá para nos ver transgredi-lo, ou se não sofrermos algum acidente, por assim dizer. Isso é um princípio.
Se transgredirmos o princípio da unidade de Cristo, as consequências serão sempre as mesmas e sempre virão. Não há como impedi-las. Quando transgredimos ou contrariamos o princípio da unidade de Cristo, o resultado é morte; o resultado é paralisia; o resultado é fraqueza; o resultado é escravidão; o resultado é um impedimento à vida coletiva. Há uma espécie de tensão e desgaste em tudo.
Quando reconhecemos e obedecemos ao princípio da unidade de Cristo, imediatamente descobrimos que há desenvolvimento, crescimento, expressão de Cristo e capacitação dos santos. Há o surgimento de ministros em nosso meio e a qualificação da liderança. Todas essas coisas resultam de reconhecermos e obedecermos ao princípio da unidade de Cristo.
Portanto, querido filho de Deus, não há princípio mais importante do que esse. Visito muitos, muitos grupos por toda parte, e vejo muitos grupos nos quais as pessoas reconhecem certa medida da verdade acerca da igreja. Elas enxergam algo da natureza da igreja, algo dos ministérios da igreja e algo, por assim dizer, do propósito de Deus.
No entanto, o grande clamor é: “Por que não há liderança? Por que não há liderança de verdade? Por que não há verdadeiros ministros entre nós? Por que não estão surgindo em nosso meio homens que tenham o ministério da Palavra de Deus — profetas, mestres, evangelistas?”
Isso sempre volta a este ponto: em algum lugar, algum princípio essencial e fundamental da comunhão está sendo contrariado. Qual é um deles? Qual é a base da nossa comunhão uns com os outros? Essa é uma boa pergunta.
Qual é a única base sobre a qual podemos conhecer a verdadeira comunhão? Ouçam isso com atenção, porque, mesmo dizendo que a base da nossa comunhão é Cristo, podemos enganar a nós mesmos. Embora digamos que é Cristo, na prática podem ser muitas outras coisas.
Não é a verdade, por mais importante que seja. Não é o ensino, por mais correto que seja. Não são as experiências, por mais necessárias que sejam. Não é uma ênfase em determinada verdade, nem a sua técnica, nem nossas denominações, nem a lista de membros. Todas essas estão entre as muitas coisas que transformamos em base da nossa comunhão.
Alguns grupos, por exemplo, fazem do batismo nas águas a regra para alguém se tornar membro. Você pode frequentar as reuniões, mas, até ser batizado por imersão, não está na igreja. Não é membro da igreja.
Outros estabelecem algum outro critério. Alguns, por exemplo, fazem de uma experiência com o Espírito Santo uma espécie de chave para estar realmente dentro. Muitos grupos dizem: “Não, nós não exigimos isso”. Ainda assim, há cidadãos de primeira e de segunda classe. Há os que enxergaram e os que não enxergaram. Os que enxergaram estão dentro, e os que não enxergaram estão fora.
Mais tarde, os que não enxergaram acabam se sentindo completamente de fora por causa dos que estão dentro e enxergaram. Em outras palavras, a insistência, o tempo todo, é: “Você precisa enxergar. Você precisa enxergar. Você precisa enxergar”. De alguma forma, não deixamos que o Espírito Santo atraia as pessoas à nossa comunhão porque todos amamos a Cristo e porque incluímos cada pessoa que está Nele.
Ah, não, não, não. Estamos o tempo todo insistindo que há algo que essa pessoa não experimentou ou algo que essa pessoa não enxergou. Portanto, podemos ter, em nossa comunhão, cidadãos de primeira e de segunda classe. Há os cidadãos de primeira classe — aqueles que enxergaram ou experimentaram e fazem parte do círculo íntimo da elite — e há os que não enxergaram e estão fora.
Agora, não me entendam mal nessa questão. É claro que há coisas que precisamos enxergar. Numa igreja viva, na igreja como Deus deseja que ela seja, haverá crentes de todos os tipos, de todas as formas e cores. O fato é que sempre haverá aqueles que não enxergaram, e sempre haverá aqueles que enxergaram e que estão enxergando progressivamente mais do Senhor.
Mas tudo depende da atitude daqueles que enxergaram. Não são os que não enxergaram que constituem o problema; são as pessoas que enxergaram que constituem o problema. Não são os que não tiveram experiências que constituem o problema; são os que tiveram as experiências que constituem o problema.
Às vezes, o Senhor leva anos conosco para nos conduzir a um ponto em que enxergamos alguma coisa. Mas, no momento em que a enxergamos, esperamos que os outros cheguem ali imediatamente, num instante. Vamos lhes dar folhetos, livretos, cursos por correspondência e sei lá mais o quê, para que entrem o mais rápido possível. A impressão que transmitimos é que nós estamos dentro e eles estão fora.
Ora, nós os amamos. Por que lhes damos os livretos? Por que lhes damos os planos? Nem sempre é porque, como acontece em alguns casos, os vemos como um troféu a ser contabilizado. Em muitos casos, temos verdadeiro amor e preocupação pelo povo de Deus. Mas toda a nossa concepção de comunhão está errada.
Bebês são bebês. Você não coloca bebês no ensino médio. Cuida deles até que cresçam e cheguem à idade em que possam passar pelas diversas etapas da educação, depois pelo ensino médio e, finalmente, pela universidade.
O que há de errado com a nossa comunhão? O tempo todo, esperamos que, assim que uma pessoa nasça de novo, ela cresça numa espécie de estufa, de modo que, em questão de instantes, já tenha enxergado tudo o que nós enxergamos. Esse tipo de entendimento é quase sempre artificial.
Creio que, quando em qualquer grupo do povo de Deus há um núcleo daqueles que realmente enxergaram e experimentaram coisas do Senhor, que se aprofundaram e estão se aprofundando Nele, e que entregaram a vida pelo conjunto, então os que são salvos crescem rapidamente.
Eles não precisarão passar pelos anos que nós passamos. Lembro-me de que passei por quatro anos de escuridão antes de chegar a uma experiência com o Espírito Santo. Quando cheguei ali, prometi ao Senhor que, pela Sua graça, daria a cada pessoa que viesse a encontrar o Senhor por meu intermédio um evangelho pleno — todo o conselho de Deus —, e não apenas aquele pouquinho com que eu tivera de viver.
Ainda assim, precisamos entender que as coisas espirituais são orgânicas. Elas não podem ser organizadas. Querido filho de Deus, você não percebe que nós, que tanto cremos na natureza orgânica de tudo o que é espiritual, somos nós mesmos culpados de organizar as coisas?
Estamos sempre organizando tudo para que os que fumam deixem de fumar, os que bebem deixem de beber, os que são mundanos deixem de ser mundanos, os que não tiveram uma experiência de santidade tenham imediatamente uma experiência de santidade, e os que não tiveram um batismo no Espírito tenham um batismo no Espírito. Estamos organizando tudo o tempo todo. Não deixamos espaço para o desenvolvimento orgânico.
Qual é a base da nossa comunhão? É preciso haver uma verdade mínima; isso é óbvio. Precisamos ter muito cuidado para não ir longe demais nessa questão, dizendo que a verdade não é a base da nossa comunhão, mas Cristo, e dando a impressão de que Ele é um Cristo etéreo, abstrato, vago.
Cristo é uma Pessoa. Há um sentido em que existe um mínimo de verdade acerca da pessoa de Deus, da pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo, de Sua morte expiatória e de Sua ressurreição corporal. Essas coisas também são essenciais. Ninguém pode realmente estar na comunhão sem ao menos reconhecer e compreender esse mínimo.
Mas, além disso, há milhares de outras verdades. Conheço grupos dos quais pessoas foram excluídas por crerem que passaremos pela tribulação. Meu Deus! Imaginem excluir pessoas da comunhão porque creem que vocês passarão pela tribulação. Quem dera eu pudesse ser tão dogmático assim.
“Então todos nós seremos arrebatados antes da tribulação, não é?” Porém, outros grupos olham com desprezo para qualquer pessoa que creia que seremos arrebatados antes da tribulação. E há ainda aquelas pessoas abençoadas e mais espirituais do que todas as outras, que creem que seremos levados durante a tribulação, e que somente os que estiverem prontos para o Senhor serão levados. Eles acabam se dividindo por coisas assim.
Conheço uma assembleia num lugar da Grã-Bretanha chamado Topperdown. Excluíram um querido irmão, que conheço muito bem, simplesmente porque ele cria que somente o vencedor seria arrebatado. Ele não pregava isso. Nem sequer fazia disso sua ênfase principal. Apenas acontecia de ele crer nisso; então o excluíram.
É claro que fizeram jus ao nome. Puseram abaixo.
Você não pode excluir alguém que Deus recebeu com base numa coisa dessas. O grande perigo do movimento carismático — e falo com alguma experiência do movimento carismático — é fazermos de uma experiência carismática a base da comunhão.
Graças a Deus por todos os que foram renovados pelo Espírito de Deus. Você pode me dizer que o movimento carismático está completamente fora de controle, cheio de extremos e excessos. Eu lhe digo que conheço literalmente milhares de pessoas que eram ossos mortos e secos antes de o Espírito de Deus vir sobre elas.
Devo negar que o Espírito de Deus veio sobre elas? De repente, eu as encontro cheias de vida espiritual, cheias do Senhor, cheias de louvor. De repente, os que estavam estagnados estão avançando com Deus. Não posso negar que Deus fez alguma coisa.
Do fundo do coração, agradeço a Deus por tudo o que Ele fez por meio do movimento carismático. Mas fazer do movimento carismático a base da comunhão, ou mesmo criar cidadãos de primeira e de segunda classe, é totalmente errado.
Há, naturalmente, os que se reúnem sobre a base do denominacionalismo. Há os que se reúnem sobre a base de Cristo mais o metodismo; outros se reúnem sobre a base de Cristo mais a tradição batista; outros sobre a base de Cristo mais o episcopalismo; e outros sobre a base de Cristo mais o pentecostalismo.
Mas essa não é a base da nossa comunhão. Qual é a base da nossa comunhão? Somente Cristo — não Cristo mais alguma coisa, nem Cristo menos alguma coisa; não menos que Cristo, nem mais que Cristo. O fundamento da nossa comunhão, a base da nossa comunhão, é Cristo.
Precisamos receber a todos sobre essa base. Não podemos rejeitar alguém que Cristo recebeu. Pois está escrito em Romanos 15:7:
Portanto, recebei-vos uns aos outros, assim como também Cristo vos recebeu, para a glória de Deus.
Como Cristo me recebeu? Ele me recebeu como um santo de elite, que estava avançando espiritualmente? Não. Ele me recebeu como alguém que seria um servo do Senhor? Não. Ele me recebeu como alguém que Lhe agradaria? Não. Ele me recebeu como alguém pronto para passar pelas águas da morte? Não. Ele me recebeu como alguém disposto a conhecer uma experiência da cruz? Não.
Como Ele me recebeu? Ele me recebeu como um pecador sem esperança, a quem salvou pela Sua graça, mediante a obra do Senhor Jesus Cristo. Essa foi a base sobre a qual Ele me recebeu.
Como devo receber você? Ora, se eu recebesse você sobre essa base mínima de que é um pecador salvo pela graça, todos os meus problemas acabariam. Mas não recebemos uns aos outros como pecadores salvos pela graça. Recebemos uns aos outros como grandes santos.
Ah, vemos aqueles rostos bonitos e radiantes e dizemos: “Ah, como é bom estar com fulano. Fulano é um santo e tanto”, até conhecermos a pessoa. Então, de repente, descobrimos que a maquiagem desaparece. A maquiagem espiritual vai embora. Os penteados espirituais vão embora.
Nós os vemos, por assim dizer, em seu quarto, espiritualmente falando. Nós os vemos de cabelo solto, ou de bobes, ou seja lá como for — sem a dentadura. Então, de repente, ficamos chocados até os ossos. “Ah”, pensamos, “meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus. Eu nunca teria imaginado isso de fulano. Achei que ele fosse tão espiritual. Não consigo mais ter comunhão com fulano. Não dá. Minha comunhão com ele está arruinada”.
Pobre criatura! Essa é a base da sua comunhão? Então você rejeita alguém que Cristo recebeu.
Temos essa ideia esquisita de que Deus está sempre tendo surpresas a nosso respeito. É estranho que todos tenhamos essa ideia de que Deus nos acolheu e ficou muito satisfeito conosco depois de nos salvar, e então começa a descobrir coisas a nosso respeito.
Perdemos a paciência e sentimos: “Ah, Ele está tão desiludido. O Senhor está tão desiludido”. Então o diabo vem e diz: “Não ore de novo. Como você poderia orar? Deus está tão aborrecido”. Ou você fica irritado, ou algum pensamento impuro lhe vem à cabeça, e o diabo diz: “Agora você não pode orar. Deus está tão desiludido com você — decepcionado. Essa é a palavra. Ele está decepcionado com você”.
Mas você sabe que, quando Deus o salvou, toda a sua vida estava diante Dele como um livro aberto? Ele viu cada coisa que você faria, como se tudo já estivesse num livro aberto. Nessa questão, sou um bom calvinista.
Deus viu cada coisa a seu respeito quando o salvou. Não há mais nada sobre você que vá surpreendê-Lo. Você sabe que, ainda assim, Ele o salvou, com toda aquela rebeldia no futuro, com toda aquela resistência que Ele viu, com toda aquela feiura, com toda aquela recusa em permitir que Ele tratasse com você? Ainda assim, Ele o salvou, com toda a sua vida como um livro aberto diante Dele.
Ele não está surpreso. Quem está surpreso é você. Sabe o que nos impede de voltar? É o nosso orgulho. Como podemos ficar tão surpresos conosco mesmos, tão chocados? Porque estamos chocados conosco mesmos, achamos que Deus também está.
Ora, Deus não aprova nosso pecado, mas Ele não está surpreso. Deus conhece nossa capacidade para o mal muito, muito mais plenamente do que nós. Ele sabe do que somos capazes se formos submetidos a determinadas tentações. É por isso que Ele nos ensinou a orar:
Não nos conduzas à tentação,
mas livra-nos do maligno.
Meu ponto é este: nada em você é capaz de chocar Deus. Ele sabe tudo a seu respeito, e muito mais do que você sabe sobre si mesmo e sobre aquilo de que é capaz, e ainda assim Ele o recebeu como um pecador a quem salvou.
Você e eu devemos receber uns aos outros como Cristo também nos recebeu. Ele me recebeu como pecador; preciso receber você como pecador. Agora vamos aos detalhes práticos. Isso significa que não recebo você só quando está com a dentadura espiritual no lugar. Tenho de receber você como você é.
O fato é este: se Deus recebeu você por meio de Cristo, preciso receber você. Posso rejeitar alguém que Cristo recebeu? As pessoas me dizem repetidas vezes, a respeito da minha comunhão com católicos, que eu não deveria ter nada a ver com eles, que estou sendo iludido e enganado, e sei lá mais o quê.
Mas posso rejeitar alguém que, por acaso, é católico romano e que Deus recebeu? Nunca. Devo receber como irmão algum liberal espiritualmente morto, apenas nominal, que Deus não recebeu por meio de Jesus Cristo, mas rejeitar o católico romano que Deus recebeu por meio de Jesus Cristo? Não posso fazer isso.
Se Deus recebeu uma pessoa, preciso receber essa pessoa. Se Deus a recebeu com base em Sua obra consumada, eu a recebo com base em Sua obra consumada.
Esse é o princípio da unidade. Vejam, é um princípio. Você retira sua comunhão de alguém que o Pai recebeu e, com isso, contraria o princípio da unidade de Cristo. Exclua alguém por qualquer motivo que não seja apostasia ou disciplina, e você terá excluído Cristo.
Agora, gostaria de dizer mais alguma coisa sobre toda essa questão da unidade. Quero que vocês observem que há dois tipos de unidade em Efésios 4.
Em Efésios 4:3, temos a unidade do Espírito. Observem como ela nos é apresentada:
Diligenciando por guardar a unidade do Espírito no vínculo da paz.
Depois, observem Efésios 4:13:
Até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, chegando à condição de homem plenamente desenvolvido.
Vocês percebem que há dois tipos de unidade aqui? Primeiro, temos a unidade do Espírito, e nos é dito que devemos guardar, ou manter, a unidade do Espírito. Depois, temos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, que devemos alcançar.
Ora, nós, nos círculos cristãos, invertemos a ordem. Fizemos da unidade da fé a base da nossa comunhão, e da unidade do Espírito algo a que estamos chegando. Deus diz que a unidade do Espírito é algo que já pertence a vocês, e vocês entraram nela pelo novo nascimento.
Quando você nasceu de Deus, nasceu na unidade do Espírito. Nasceu na unidade de Cristo. Você percebeu aquelas palavras maravilhosas de nosso Senhor Jesus Cristo?
Para que todos sejam um; assim como Tu, Pai, estás em Mim, e Eu em Ti, que também eles estejam em Nós.
Você compreende que essa unidade que nos pertence é a mesma unidade inexplicável que existe entre o Pai e o Filho, e que jamais, em tempo algum, foi adequadamente expressa em palavras humanas?
Assim como Tu, Pai, estás em Mim, e Eu em Ti, que eles estejam em Nós.
Agora vocês começam a compreender algo dessa ideia sobre a qual o irmão Stephen Kong falou: o conselho de Deus. Aqui vocês realmente o têm — o desejo de Deus de nos trazer para dentro Dele mesmo, de nos trazer, por assim dizer, à união Consigo mesmo, de nos fazer participantes de Sua própria natureza e, ao fazê-lo, nos tornar, por assim dizer, um só corpo.
Que eles estejam em Nós.
Agora vocês entendem o princípio da unidade. Se contrariamos o princípio da unidade, atentamos contra a própria natureza de Deus. De alguma forma, não se trata apenas da natureza da igreja, mas da própria natureza da Trindade. De alguma forma, pecamos contra ela quando fazemos parte de uma facção ou de uma divisão.
Se eu saísse e me embriagasse, como já lhes disse em outras ocasiões, todos vocês ficariam chocados. Diriam imediatamente: “Que coisa terrível. Convidaram aquele irmão para vir falar conosco, e ele ficou bêbado. Imaginem! Que tipo de gente organizou este encontro? Convidaram para vir até nós um irmão com tamanha inclinação para a bebida?”
Se eu me embriagasse — e de modo algum estou minimizando esse pecado —, o fato é que eu teria pecado contra meu próprio corpo. Mas é extraordinário que todos nós possamos fazer parte de divisões ou facções, ou estar em desavença uns com os outros, e ninguém veja isso como um pecado contra o corpo de Cristo.
Se cometo imoralidade, peco contra meu próprio corpo, contra meu próprio ser. Mas, quando faço parte de uma facção ou de uma divisão, ou quando estou em conflito com outro santo, estou pecando contra o corpo de nosso Senhor Jesus.
Aquelas palavras muito solenes foram ditas acerca dos que não discernem o corpo de nosso Senhor — não se referindo ao pão e ao vinho, mas à realidade espiritual que está, por assim dizer, contida e expressa no pão e no vinho:
Por esta causa, há entre vós muitos fracos e enfermos, e não poucos dormem.
É isso que esse princípio da unidade significa. É causa e efeito. Há enfermidades entre o povo de Deus que se devem inteiramente ao fato de as pessoas estarem em estado de divisão. Há fraqueza entre o povo de Deus que se deve inteiramente ao fato de estarmos em estado de divisão. Há até mortes.
Não discutam comigo a respeito disso. Leiam 1 Coríntios 11:27-29. Então vocês começarão a compreender a seriedade de toda essa questão — nossa unidade. Quando começamos a enxergar que a unidade existente entre nós e nosso Senhor, e entre nós mesmos, é a mesma unidade essencial que existe entre o Pai e o Filho, vemos que é algo em que Deus nos introduziu: uma só vida, a vida eterna, a vida de Deus. É uma só vida.
Tendo dito isso, posso dizer mais alguma coisa sobre esse assunto, para que toda a verdade fique ainda mais clara? Temos uma unidade do Espírito, e em Efésios 4:3 nos é dito que devemos diligenciar por guardar essa unidade. Ela é nossa. Nascemos nela, graças a Deus.
Você é filho de Deus? Você nasceu nessa unidade. Não precisa lutar para chegar a ela. Não precisa, de alguma forma, alcançá-la. Não precisa fazer dela sua meta. Ela é sua. Você pode ser o cristão mais novo neste lugar, mas nasceu nessa unidade. Pela graça de Deus, foi introduzido na unidade de Cristo. Você a está experimentando, mesmo que não saiba disso.
É por isso que vocês perceberão que todo novo crente, antes de os crentes mais antigos colocarem suas mãos pegajosas sobre ele, sente um amor maravilhoso por todo o povo de Deus. Nunca conheci uma única pessoa que, ao ser salva, pensasse que era batista, metodista, episcopal ou pertencente a qualquer uma das inúmeras denominações que vocês têm deste lado do Atlântico.
O que sempre encontrei foi que, quando uma pessoa é salva, ela se apaixona por todo o povo de Deus. É depois que os crentes mais antigos começam a colocar suas mãos pegajosas sobre ela e dizer: “Não, você é batista. Você é metodista. Você precisa entender: nasceu entre as pessoas certas, as pessoas adequadas, as únicas pessoas”.
Mas há uma unidade da fé à qual devemos chegar. Precisamos alcançá-la:
Até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus.
Vejam, essa unidade que nos pertence é um fato, mas precisamos ser aperfeiçoados em um. Vocês perceberam que, em João 17:21, nosso Senhor primeiro diz:
Para que todos sejam um.
E depois, em João 17:23:
Eu neles, e Tu em Mim, para que sejam aperfeiçoados em um.
Primeiro, temos algo completo, algo realizado, algo que já é nosso — o fato. Mas a segunda coisa é esta: estando nessa unidade, precisamos ser aperfeiçoados nela. Devemos crescer em direção ao Cabeça. Precisamos ser unidos uns aos outros. Precisamos ser bem ajustados uns aos outros. Precisamos encontrar uns aos outros no Senhor. Precisamos trabalhar nisso.
Essa unidade do Espírito não é algo sobre o qual você possa simplesmente dizer: “Ah, sim, sim, é claro que todos somos um. Somos um. Cristo é a nossa unidade. Ah, até logo”. E então você vive sua própria vidinha agradável, restrita ao seu círculo familiar. Vai às reuniões, vê os santos, canta alguns hinos, faz algumas orações, ouve uma palavra ou duas, participa, se tiver um tipo de reunião mais livre, e vai embora.
De alguma forma, você acha que, em algum lugar no grande mundo invisível, esse ajustamento mútuo está acontecendo de uma maneira mágica que ninguém jamais vê. Todos estamos sendo unidos e bem ajustados uns aos outros. Mas a Bíblia diz que devemos crescer juntos; devemos ser bem ajustados uns aos outros; devemos ser edificados juntos como habitação de Deus no Espírito.
Em outras palavras, precisamos diligenciar por guardar essa unidade do Espírito. Não basta enxergarmos a unidade de Cristo. A próxima coisa que precisamos fazer é nos comprometer com a unidade de Cristo e, então, estar preparados para todas as muitas dificuldades, limitações e problemas que surgirão ao sermos aperfeiçoados em um.
Ah, se ao menos fosse uma daquelas coisas instantâneas maravilhosas que vocês têm por aqui — creme instantâneo, café instantâneo, chá de limão instantâneo e sei lá mais o quê instantâneo. Seria maravilhoso se pudéssemos ter esse tipo de aperfeiçoamento instantâneo na unidade. Mas é justamente aqui que temos todos os nossos problemas.
É muito mais fácil ser um com os santos em Melbourne, na Austrália, do que ser um com os santos em Ashland, na Virgínia. Sempre ouço as pessoas dizerem: “Ah, é tão maravilhoso estar no corpo de Cristo”, e o que elas querem dizer com corpo de Cristo são os santos na África, na Ásia, na Australásia, na América do Sul e do outro lado dos Estados Unidos.
Mas Deus diz que tudo isso se resume ao lugar onde você mora. Não adianta dizer: “Creio na unidade de Cristo”, se não reconhecemos essa unidade onde moramos.
De uma forma ou de outra, precisamos ser edificados juntos na região em que moramos, porque, no fim das contas, tudo se resume ao lugar onde moramos. Seja o que for que pensemos sobre a questão da localidade, o fato é que, no fim, todas as coisas espirituais se concretizam por meio do seu corpo, e seu corpo está localizado nesta terra.
Isso chega à sua casa, e sua casa está localizada em algum lugar da terra. Isso se concretiza por meio do grupo de crentes com quem você vive em alguma localidade desta terra. É lógico. Posso falar até perder o fôlego sobre avançar com o Senhor, e tudo isso pode ser apenas uma espécie de fantasia — lá em cima, nas nuvens.
Todos nós já conhecemos pessoas que falam, falam, falam e falam, e que não têm nada em sua vida além de teoria. Vivem numa espécie de paraíso ilusório, numa espécie de devaneio o tempo todo. Deus traz tudo isso para a questão de onde moramos, dos crentes na mesma região em que moramos, de como estamos nos relacionando com eles e de que maneira estamos sendo edificados juntos.
Você pode dizer: “Bem, isso não é tão fácil, porque na região em que moro há episcopais, batistas, metodistas e outros, e eles realmente não querem se reunir”. Mas talvez haja alguns que ao menos enxerguem algo da unidade de Cristo, com quem você possa caminhar, ter comunhão e ser edificado junto.
Não excluímos as outras pessoas; nós as incluímos. A igreja não é exclusiva; é inclusiva. Esse tem sido um dos grandes erros da história da igreja. Toda vez que as pessoas enxergaram alguma coisa, tornaram-se exclusivas em vez de inclusivas.
Em vez disso, deveríamos acolher toda a família de Deus e dizer: “Bem, se querem seguir seu próprio caminho, não podemos impedi-las, mas não lhes colocaremos nenhuma barreira. Elas pertencem a nós; nós pertencemos a elas. Vamos amá-las, vamos servi-las e, se necessário, vamos entregar a vida por elas”.
A atitude de algumas pessoas é esta: “Se uma pessoa é crente, mas batista, não vou entregar minha vida por ela. Isso seria um desperdício. Se alguém é um crente que realmente enxergou alguma coisa, vou entregar minha vida por ele”. Mas isso não é a cruz.
A cruz é que o Senhor Jesus entregou Sua vida por todos nós. A grande maioria de nós que fomos salvos Lhe dá um bocado de trabalho. Não progredimos como deveríamos progredir. Não crescemos como deveríamos crescer. Mesmo assim, Ele entregou Sua vida por todos nós.
Que o Senhor nos ajude a enxergar essa base da nossa comunhão em termos práticos e a perceber que precisa haver um aperfeiçoamento nessa unidade. Precisa haver edificação; precisa haver crescimento em direção ao Cabeça, de Quem todo o corpo, bem ajustado e unido por aquilo que cada junta fornece, cresce e edifica a si mesmo no amor de Deus.
Isso me leva a outro ponto que gostaria de destacar: a grande variedade que há nessa unidade. Agora, tenham paciência comigo por alguns instantes nesse assunto.
É extraordinário, na história da obra de Deus e da igreja, como, assim que os homens — e verdadeiros homens de Deus — começam a enxergar algo da natureza do propósito de Deus, acabam reduzindo tudo à uniformidade. Parecem equiparar unidade a uniformidade.
Muitos deles serão os primeiros a negar isso e dizer: “Não, não, não, cremos na diversidade dentro da unidade”. Mas, na prática, todos nós temos de fazer o que eles dizem. Todos temos de pensar como eles pensam. Todos temos de agir como eles agem. Todos temos de nos vestir como eles se vestem. Não nos é permitido ser pessoas originais. Todos temos de ser pequenas cópias uniformes de algum modelo principal.
Você vê isso vez após vez. Tomem os quakers. Houve alguma vez um movimento do Espírito de Deus mais adequado? Mas, em pouco tempo, tudo se resumia a formas antigas de tratamento, como “tu” e “vós”, fivelas nos chapéus e fivelas nos sapatos. Perdoem-me, mas vocês sabem o que quero dizer.
Depois, vocês vão aos menonitas: nada de botões, certas roupas. Graças a Deus pelos menonitas. Que movimento de Deus foi aquele! Mas ele foi reduzido à uniformidade. Posso identificar que tipo de pentecostal uma pessoa é pela maneira como ela ora. É impressionante essa uniformidade que produzimos.
De alguma forma, precisamos reduzir tudo a um sistema, tudo a uma estrutura, tudo a uma espécie de uniformidade. Mas, nessa unidade de Cristo, há tremenda variedade, tremenda diversidade e tremenda originalidade.
Nunca tenha medo de ser você mesmo. Deus nunca poderá ser Ele mesmo por meio de você até que você seja você mesmo. Deus nunca poderá ser Ele mesmo em um grupo de pessoas até que cada membro do corpo de Cristo seja ele mesmo ou ela mesma.
Quando todos odiamos uns aos outros e tentamos ser uns como os outros, causamos danos terríveis a toda a obra do Espírito de Deus na verdadeira edificação do corpo de Cristo. Movimentos inteiros do Espírito de Deus, como os Irmãos Exclusivos, saíram completamente dos trilhos nessa questão. Reduziram tudo a tamanha uniformidade que perderam a autoridade de Jesus Cristo como Cabeça e encontraram a autoridade dos homens.
Precisamos ser edificados juntos. Ao sermos edificados juntos, precisamos sacrificar nossa individualidade — nosso individualismo, seria mais correto dizer. Precisamos conhecer certa limitação.
Como uma pedra pode ser edificada ao lado de outra pedra, com outra pedra por cima e outra por baixo, sem sentir um pouco de claustrofobia? Há uma limitação na comunhão. Há uma disciplina na comunhão. Há algo em toda essa questão da comunhão que atinge a própria raiz da queda: queremos continuar sendo nós mesmos, sem que ninguém toque em nós.
Mas, tendo dito isso, nossa edificação conjunta, e toda a disciplina e limitação da comunhão, nunca devem extinguir a variedade e a originalidade.
Não é interessante que, no início de todos esses movimentos do Espírito de Deus, tenha havido tanta expressão — às vezes, por exemplo, na hinologia, no canto e em todo tipo de coisa — porque cada pessoa, sob o governo do Senhor, acolheu o Senhor de maneira original? Mas, com o passar do tempo, você encontra cada vez menos, menos e menos. Quando finalmente aparece algo escrito, é horrível, porque é apenas a linha oficial do grupo.
Agora preciso dizer uma palavra de advertência sobre a excentricidade. Deus, em Sua grande misericórdia, salvou várias pessoas excêntricas. Todo grupo do povo do Senhor tem pessoas excêntricas em seu meio. E não devemos excluí-las por serem excêntricas.
Algumas pessoas excêntricas — e eu poderia manter vocês aqui por uma ou duas horas contando histórias sobre pessoas excêntricas que conheço — foram realmente usadas pelo Senhor de sua maneira estranha e excêntrica. Ainda assim, nunca devemos pensar que originalidade é excentricidade.
Há em todos nós algum desejo de nos exibir, mesmo nos mais introspectivos. Muitas vezes, é apenas o orgulho que os faz permanecer retraídos, em segundo plano. Na verdade, eles têm tanto desejo de se exibir quanto o restante de nós, mas temos um pouco de medo disso, porque receamos cometer algum erro ao nos exibirmos. Eu estava tentando revelar o que está por trás disso.
Precisamos ter cuidado com as pessoas excêntricas e, ao mesmo tempo, alimentá-las espiritualmente. Essa unidade de Cristo não significa que toleremos qualquer coisa. Há disciplina no corpo de Cristo. Há ocasiões em que os irmãos precisam falar com alguém cuja excentricidade está prejudicando o testemunho do Senhor.
Temos visto pessoas excêntricas — e eu poderia contar sobre várias em nosso próprio grupo — que realmente foram ajustadas e tiveram sua maneira de agir modificada. Continuam excêntricas, porque Deus as fez excêntricas, mas foram modificadas e ajustadas sem que sua originalidade fosse destruída.
Cada um de nós é diferente. Cada um de nós tem algo a oferecer. Temos formações diferentes, temperamentos diferentes e ênfases diferentes.
Se tivéssemos John Newton conosco, ele poderia fazer outra coisa senão enfatizar a graça de Deus? Sua própria história e seu temperamento fariam com que sua ênfase fosse a graça de Deus. Sempre que nos reuníssemos, de uma forma ou de outra, você perceberia que sua contribuição estaria relacionada à graça de Deus.
Você pode ter outras pessoas que, da maneira mais maravilhosa, tenham algo diferente a oferecer — talvez o amor de Deus. Elas estão sempre maravilhadas com o amor de Deus. Têm isso a oferecer porque sua própria história, seu temperamento e tudo mais, de alguma forma, as levaram a uma compreensão do amor de Deus.
Todos nós apreciamos o amor de Deus, mas elas têm algo a oferecer nessa questão. Vocês entendem? Deus nos livre de sermos todos iguais.
Em nosso grupo, temos aqueles que creem na predestinação, normalmente chamados calvinistas — sou um deles —, e temos outros que são arminianos, aqueles que creem na liberdade e na responsabilidade do ser humano. Tenho liberdade para simplesmente dizer que creio firmemente na soberania de Deus em todas as coisas, e outros continuam falando sobre a responsabilidade do ser humano. Precisamos uns dos outros.
Não vejo como as pessoas possam ser outra coisa senão calvinistas quando certas coisas lhes acontecem. Tive um amigo que já há muito foi para o Senhor. Ele era capitão da marinha mercante e ficou bêbado. Não queria aquilo, mas, em seu torpor de embriaguez, Deus lhe apareceu. Quando saiu daquele estado, com ressaca, estava orando. Aquele homem tornou-se calvinista. O que mais poderia ser?
Seria tolice dizer-lhe: “Ah, mas você está em erro. Você está em erro”. O homem foi convertido em um torpor de embriaguez! Ainda mais impressionante, sua querida esposa, que viveu vários anos depois dele e só recentemente foi para o Senhor, ficou tão intrigada com aquela mudança surpreendente no comportamento dele que me disse: “Eu estava varrendo o corredor e, de repente, me apoiei no cabo da vassoura e, de repente, fui convertida. Eu apenas pensei: ‘O que será que aconteceu com Charles?’”
Ela foi salva, naturalmente, e os dois se tornaram calvinistas de destaque. Outra pessoa será salva ao ir à frente numa reunião, e sua conversão será igualmente real. Essa pessoa enxerga a liberdade do ser humano e sua responsabilidade; ela enxerga isso.
Mas vocês não percebem que, nessa unidade, precisa haver lugar para nós dois? Somos todos pequenos demais para conter a infinitude de Deus. Não conseguimos fazê-lo. Por mais que saibamos, conhecemos apenas em parte. O que eu enxergo precisa ser equilibrado pelo que você enxerga, e o que eu ofereço precisa ser, por assim dizer, equilibrado pelo que você oferece.
Quando fui salvo, eu costumava me perguntar por que havia Mateus, Marcos, Lucas e João. Não entendia isso, embora, quando fui salvo, nunca tivesse lido a Bíblia. Não sabia nada a respeito dela.
Quando nasci de novo, consegui uma Bíblia inteira e comecei a lê-la. Fiquei muito, muito incomodado com Mateus, Marcos, Lucas e João, especialmente quando ouvi de alguns cristãos que havia contradições. Que coisa extraordinária, pensei. Eles me dizem que é a Palavra de Deus e que é verbalmente inspirada, mas há contradições.
Então fui a um senhor idoso e piedoso da igreja e lhe perguntei a respeito de tudo isso. Ele me disse: “Mateus revela Cristo como Rei, Marcos revela Cristo como Servo, Lucas revela Cristo como Homem e João revela Cristo como Deus”.
Então lhe disse — sendo um jovem muito irreverente; eu tinha apenas treze anos: “Bem, não consigo entender isso. Se eu fosse Deus, teria escolhido João. O senhor diz que ele é o mais espiritual. Por que João não poderia ter escrito tudo e revelado Cristo como Rei, Cristo como Servo, Cristo como Homem e Cristo como Deus? Então vocês não teriam essas contradições”.
É claro que ele desistiu de mim. Achou que eu era um caso perdido. Eu continuava crendo na autoridade e na inspiração da Bíblia. Só muitos anos depois comecei a enxergar que, quando Deus quis revelar Cristo, o Rei, escolheu Mateus, que era um fiscal de impostos.
Você lê a respeito de reis, de seu governo e de suas instituições. Por causa de sua formação, sua formação hebraica muito conservadora — ele era do tipo levítico —, Mateus pôde, por assim dizer, expressar Cristo como Rei.
Depois, Ele escolheu Marcos. Naturalmente, como costumamos dizer, era a voz de Pedro e a mão de Marcos. O fato é que era Pedro, o pescador, e, por meio de Pedro, vemos Cristo como o Servo do Senhor.
Depois, Ele escolhe o doutor Lucas e revela Cristo como Homem por meio de um homem que entende de anatomia e compreende algo da constituição humana. Finalmente, Ele escolhe João e revela Cristo como Deus.
Você traz essa perspectiva, e outras mais, e então, juntos, vocês têm plenitude. Quando as separa, fragmenta a unidade. Nossas igrejas são todos os Mateus aqui, os Marcos ali, os Lucas aqui e os Joões ali. Fragmentamos a unidade de Cristo. Quando os reunimos, temos plenitude.
Todos nós somos Mateus, ou Marcos, ou Lucas, ou João. Encontramos isso por toda parte. Você ainda consegue distinguir o apóstolo Paulo de Tiago pelo próprio estilo de escrita. Consegue distinguir o apóstolo João do apóstolo Pedro pelo estilo de seus escritos.
Por que não é uniforme? Por que todos esses estilos não foram anulados pelo Espírito de Deus? Porque o Espírito de Deus não ignora a personalidade humana; Ele Se expressa por meio da personalidade humana.
A inspiração pagã sempre deixa a mente de lado. É um estado de êxtase. Os médiuns entram nesse estado e dizem coisas, sem sequer saber o que estão dizendo. Mas a verdadeira inspiração, o exercício do dom espiritual, está sempre sob o controle do profeta.
Os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas.
Talvez nem sempre compreendam exatamente o significado do que dizem, mas sabem quais palavras estão usando. Por exemplo, investigaram o que o Espírito de Cristo que estava neles queria dizer quando Ele indicava essas coisas. Não estavam simplesmente atordoados, inconscientes e manipulados pelo Espírito de Deus, como algumas pessoas imaginam. Não, de modo algum.
O Espírito de Deus entra em nós. Ele nos toma por inteiro. Creio que há coisas que Paulo nunca teria escrito se tivesse percebido que eram Escritura. Vocês acham que o apóstolo Paulo teria escrito coisas como: “Todos vocês estão me fazendo vangloriar”, ou: “Fiquei tão triste por causa daquela primeira carta que escrevi a vocês. Derramei rios de lágrimas ao escrevê-la. Recebi a segunda carta de vocês e então percebi que estava tudo bem”?
Se ele tivesse percebido que milhares e milhares de cristãos, ao longo das gerações, estudariam aquelas palavras, talvez tivesse dito: “Preciso cortar isso. Vou cortar isso”. Mas, quando o Espírito de Deus Se expressou por meio do apóstolo Paulo, vemos que algo do próprio apóstolo Paulo também aparece. Vemos que o homem está ali.
Ele é disciplinado, é quebrantado, está unido ao Senhor, mas continua sendo Paulo. Continua sendo Pedro. Continua sendo Tiago. Continua sendo João. Essa é a maravilha. Se realmente quisermos conhecer essa unidade de Cristo e a interdependência uns dos outros da maneira correta, precisamos também conhecer a originalidade, a variedade e a diversidade nessa unidade.
Agora vou encerrar, mas posso dizer quatro coisas? Vou apenas mencioná-las. Na manutenção dessa unidade, que é muito essencial, aqui está a primeira: reconhecimento. Romanos 12:3-6. Talvez vocês queiram examinar essa passagem depois.
Nunca conseguiremos manter a unidade do Espírito até primeiro reconhecermos a unidade do Espírito. Em outras palavras, às vezes isso pode nos custar tudo.
Não posso me envolver com coisas que são divisões. Amo todo o povo de Deus, mas não posso me tornar batista. Não posso ser metodista. Não posso ser episcopal. Não posso me envolver com essas coisas que dividem o corpo de Cristo.
Mas pertenço ao povo de Deus que está dentro delas. Vou servi-los até meu último dia. Pertenço a eles, e eles pertencem a mim. Somos o Israel de Deus.
Reconhecimento: somos um. Não é que deveríamos ser um — somos um. Parto dessa base. Não olho para minha irmã e digo: “Vou aceitá-la como minha irmã ou não?” Parto da base de que ela é minha irmã.
Às vezes temos problemas, especialmente no passado, mas ela é minha irmã, minha carne e meu sangue. Pertenço a ela; ela pertence a mim. Estamos na mesma família. Portanto, precisamos reconhecer todo verdadeiro filho de Deus como membro da família.
Talvez não sejam exatamente do nosso agrado, mas são nossos irmãos e irmãs, e precisamos amá-los e servi-los. Essa é a primeira coisa.
A segunda coisa é que precisamos receber uns aos outros. Isso está em Romanos 15:7. Comparem com Romanos 14:1:
Recebei aquele que é fraco na fé, mas não para discutir suas dúvidas.
Ora, não é justamente isso que fazemos às vezes? Assim que encontramos um novo crente, queremos descobrir: ele foi batizado? Teve uma experiência com o Espírito Santo? Sabe o que é santidade? Está separado do mundo? Investigamos sua consciência.
Se achamos que ele não tem muita consciência, vamos lhe dar uma. Vamos suprir sua deficiência de consciência, garantindo que saiba muito bem o que é certo e errado nessas coisas. Não conseguimos deixá-lo aos cuidados do Espírito de Deus.
Devemos receber uns aos outros como Cristo também nos recebeu. Se quiserem outra passagem, Filipenses 3:15-16:
Somente, naquilo a que já chegamos, andemos segundo a mesma regra.
Em outras palavras, não recue daquilo que Deus fez com você. Se Deus o levou a determinado ponto, permaneça nele, porque Deus tratou com você. Mas não espere que todos os outros sejam imediatamente levados ao mesmo nível. Deus pode ter tratado com você por razões específicas. Obedeça ao Senhor, prossiga com Ele e ame os demais.
Em terceiro lugar, manutenção: Efésios 4:3. Isso significa que precisamos trabalhar nessa questão.
Diligenciando por guardar a unidade do Espírito no vínculo da paz.
Você não pode simplesmente deixá-la como uma questão vaga e abstrata. Precisa diligenciar por guardá-la. Ora, às vezes isso pode lhe custar muito.
Há ocasiões em que você sente que alguém tem alguma coisa contra você, e talvez precise ir até essa pessoa e dizer: “Tenho percebido que você tem alguma coisa contra mim”. Há outras ocasiões em que você tem alguma coisa contra outra pessoa. Depois de buscar o Senhor, precisa ir e resolver isso. Guarde a unidade do Espírito.
Lembrem-se do que nosso Senhor disse:
Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará.
Mas, se não perdoardes aos homens as suas ofensas, tampouco vosso Pai celestial perdoará as vossas ofensas.
Lembrem-se de que Ele nos ensinou a orar, na oração-modelo:
Perdoa-nos as nossas ofensas,
assim como nós perdoamos aos que nos ofendem.
Isso é algo tremendo para se pedir em oração, pois estamos pedindo que Deus nos perdoe somente na medida em que perdoamos os outros. Nosso Senhor destacou essa única coisa de toda a oração-modelo e disse que é a coisa mais importante de todas. Primeiro a colocou de forma positiva e depois de forma negativa: se vocês perdoarem aos homens, seu Pai os perdoará; se não perdoarem, tampouco seu Pai os perdoará.
Isso não é tremendo? Leva vocês imediatamente à tremenda importância dessa questão da unidade de Cristo.
Por último, transparência. 1 João 1:7 diz:
Se andarmos na luz, como Ele está na luz, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, Seu Filho, nos purifica de todo pecado.
Você não pode manter a comunhão quando faz coisas no escuro. Às vezes, as pessoas têm todo tipo de assunto, mas não querem trazê-lo à vista. Não querem compartilhá-lo em comunhão. Não querem trazê-lo à luz. Elas o escondem.
Têm tanto medo do que seus irmãos e irmãs farão se trouxerem aquilo à vista. Às vezes, não é algo obscuro ou errado. É simplesmente uma questão de carreira ou emprego: para onde você vai? Temos tanto medo de trazer isso à vista e compartilhar, porque sentimos que, de alguma forma, talvez queiram mandar em nós, ou dizer: “Faça isto”, ou: “Faça aquilo”. Nunca.
Precisamos andar na luz, como Deus está na luz. Então temos comunhão uns com os outros. Vamos orar?
Senhor, Tu sabes como esse princípio da unidade é fundamental e essencial na questão da comunhão. Senhor, toma tudo o que foi dito nesta manhã e faz com que entre em nosso coração.
Onde já houver algum entendimento, concede maior entendimento; e onde não houver entendimento dessa questão, Senhor, deixa Tua luz brilhar e concede, nós Te pedimos, uma compreensão de toda essa questão.
Queremos ser um povo que diligencia por guardar a unidade do Espírito no vínculo da paz. Queremos conhecer todo esse crescimento com o crescimento de Deus. Queremos conhecer o corpo edificando a si mesmo em amor.
Ó Senhor, ajuda-nos. Se, Senhor, há coisas erradas entre nós, concede-nos graça e ajuda-nos, Senhor, a colocar essas coisas em ordem. Pedimos isso juntos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.