Vamos à carta aos Efésios, capítulo 1 — o primeiro capítulo da carta de Paulo aos Efésios. Quero ler novamente estes versículos tão conhecidos, começando em Efésios 1:15.
Por esta causa, também eu, tendo ouvido da fé no Senhor Jesus que há entre vós e do amor que demonstrais para com todos os santos,
não cesso de dar graças por vós, fazendo menção de vós nas minhas orações;
para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos dê espírito de sabedoria e de revelação no conhecimento Dele,
sendo iluminados os olhos do vosso coração, para que saibais qual é a esperança da Sua vocação,
quais as riquezas da glória da Sua herança nos santos,
e qual a suprema grandeza do Seu poder para conosco, os que cremos, segundo a operação da força do Seu poder,
que Ele operou em Cristo, quando O ressuscitou dentre os mortos e O fez assentar à Sua direita nos lugares celestiais,
muito acima de todo principado, e autoridade, e poder, e domínio, e de todo nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro.
E sujeitou todas as coisas debaixo dos Seus pés, e O deu à igreja como cabeça sobre todas as coisas, a qual é o Seu corpo,
a plenitude Daquele que enche tudo em todos.
Vamos orar juntos?
Então, peçamos que o Senhor realmente nos dê esse espírito de sabedoria e de revelação.
Ó amado Senhor, nós nos curvamos diante de Ti com o coração cheio de gratidão. Nós Te agradecemos, amado Senhor, por tudo o que Tu és para nós. Nós Te agradecemos pela Tua salvação. Nós Te agradecemos, Senhor, pela Tua vida. Nós Te agradecemos pela Tua plenitude. Nós Te agradecemos por todos os recursos que de fato são nossos.
Nós Te agradecemos, amado Senhor, pelo Teu poder e pela Tua autoridade. E, ao nos curvarmos agora diante de Ti, Senhor, queremos dizer-Te que, ao chegarmos a este último encontro destes dias juntos, precisamos de Ti, Senhor. Precisamos que nos dês esse espírito de sabedoria e de revelação no conhecimento de Ti mesmo.
Ó Senhor, pedimos que nos livres de uma compreensão meramente acadêmica das coisas que foram ditas e daquilo que Tu tens procurado fazer. Senhor, pedimos que os olhos do nosso coração sejam iluminados, para que conheçamos essas coisas de maneira direta e pessoal.
Ó Senhor, faze a Tua luz brilhar em nosso coração. Capacita-nos a ver a luz na Tua luz. Senhor, concede, nós Te pedimos, que as Tuas palavras sejam vivas para todos nós e que habitem ricamente em nosso coração, em toda sabedoria e conhecimento.
Senhor, nós Te agradecemos porque a unção é nossa no Senhor Jesus Cristo e, pela fé, agora nos colocamos nela, tanto quem fala como quem ouve. Nós, Senhor, abrimos o nosso espírito e Te pedimos que nos envolvas com a Tua presença, concedendo e manifestando esse poder que nos capacita não apenas a falar a Tua palavra, mas também a ouvir a Tua palavra. Nós Te daremos todo o louvor, a glória e as ações de graças, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.
Pois bem, chegamos a este último encontro destes dias juntos. Há um encargo em meu coração que eu gostaria de compartilhar com vocês ao encerrarmos.
Dissemos muito sobre comunhão e também falamos sobre ver o Senhor e conhecê-Lo. Nosso irmão Stephen Kaung trouxe aquela palavra forte e, para todos vocês, inesquecível sobre o conselho de Deus.
Mas o encargo do meu coração é que Deus nos dê visão — que Deus realmente abra os olhos do nosso coração e nos dê esse espírito de sabedoria e de revelação no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo.
Meus queridos amigos, sempre sinto um grande temor quando vejo tudo sendo colocado em cadernos de anotações. Conferências são lugares terríveis, porque as pessoas ficam ali anotando tudo. Agora, não sou contra fazer anotações quando há uma luz brilhando no coração e quando há visão. Mas, ah, o perigo de simplesmente despejar conhecimento, de simplesmente acumular verdades doutrinárias e bíblicas!
O que precisamos, acima de qualquer outra coisa, é que o Senhor Se revele a nós, para que, com os olhos do nosso coração, vejamos o Senhor.
Creio que a visão espiritual é uma necessidade absoluta. E ouso dizer que, à medida que avançamos para a última fase desta era, a visão espiritual será o fator determinante para sabermos se atravessaremos tudo ou se nos desintegraremos.
Nossa adesão ou lealdade à verdade compreendida de maneira acadêmica ou intelectual não nos sustentará quando a prova da nossa fé vier com toda a sua severidade. Somente aquilo que um homem ou uma mulher viu os terá tomado de tal maneira que não conseguirão negá-lo.
O apóstolo Paulo disse certa vez:
Pelo que, ó rei Agripa, não fui desobediente à visão celestial.
— Atos 26:19
É claro que quero dizer desde já que, quando falo da necessidade de visão espiritual, não estou falando aqui de visões. Pode haver lugar para visões. Pode haver lugar para sonhos. Mas não estou falando de visões; estou falando de visão.
Quero dizer: compreender o Senhor, compreender a vontade de Deus, compreender o tempo em que vivemos e compreender o propósito de Deus a respeito do Senhor Jesus Cristo e daqueles que foram introduzidos Nele.
Percepção. Ver espiritualmente. Compreensão. É isso que queremos dizer, acima de qualquer outra coisa.
Se vocês forem àquela palavra tão conhecida de Provérbios 29:18:
Onde não há visão, o povo perece.
A antiga versão King James diz:
Onde não há visão, o povo perece.
Outra versão diz:
Onde não há visão, o povo se desfaz de toda restrição.
Mas, na verdade, a palavra hebraica traduzida por “se desfaz de toda restrição” está relacionada ao cabelo preso de uma mulher. Significa simplesmente que, quando se solta o que o prende, todo o cabelo cai.
É a palavra que encontramos a respeito dos filhos de Israel quando adoraram o bezerro de ouro. Eles haviam se desfeito de toda restrição e estavam dançando e adorando o bezerro de ouro.
Essa palavra visão, em hebraico, traz a ideia de ensino, de compreensão profética — não simplesmente antever uma imagem ou ter uma visão nesse sentido, mas compreender a palavra do Senhor.
Vocês se lembrarão de que, em 1 Samuel 3:1, se diz que não havia visão manifesta naqueles dias. Em outras palavras, não havia compreensão profética, não havia palavra profética, não havia interpretação da mente de Deus. Não havia compreensão da mente de Deus naqueles dias.
Agora, deixem-me dizer isto desde já: onde não há compreensão dos caminhos do Senhor, mais cedo ou mais tarde o povo perece. O povo se desintegra. Não importa se são os remidos do Senhor ou não; o princípio é o mesmo.
Onde não há compreensão do Senhor, onde não se vê o Senhor, onde não há compreensão do Seu propósito, não há coesão. Não há direção. Não há nada que nos mantenha unidos e nos ensine, por assim dizer, a nos movermos juntos e a fluirmos juntos. Perecemos. Nós nos desintegramos.
O apóstolo Paulo, ao escrever aquela carta aos Efésios — talvez, em certo sentido, a revelação mais extraordinária de toda a Bíblia —, chega a um ponto, logo no início, em que de repente para.
É como se ele dissesse à pessoa a quem está ditando a carta: “Será que deveríamos incluir este meu encargo de oração por todos eles?” Então, evidentemente, ele sente: “Acho que devemos”, e assim interrompe seu pensamento por um momento e diz:
Por esta causa, dobro os meus joelhos perante o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo,
o Pai da glória,
para que Ele vos dê espírito de sabedoria e de revelação no conhecimento Dele,
sendo iluminados os olhos do vosso coração, para que saibais qual é a esperança da Sua vocação,
quais as riquezas da glória da Sua herança nos santos,
e qual a suprema grandeza do Seu poder para conosco, os que cremos.
— Efésios 1:15-19
Em outras palavras, o apóstolo Paulo tinha pavor de que aquela carta se tornasse apenas, por assim dizer, um objeto literário acadêmico — de que se tornasse meramente uma base para estudos bíblicos, material para sermões ou um meio de algumas pessoas ganharem a vida produzindo esboços bíblicos, pequenos sermões e pequenas mensagens.
Não, dizia o apóstolo Paulo. Ele tinha pavor de que, ao começarmos a reduzir aquilo que Deus nos mostrou — essa visão celestial, essa compreensão do propósito de Deus a respeito do Senhor Jesus — à linguagem humana, e a defini-lo com palavras humanas, as pessoas o recebessem de maneira acadêmica.
Elas pensarão que, se conseguirem colocar isso aqui na cabeça, já o possuem. Que Deus nos preserve das pessoas que têm tudo aqui na cabeça. Elas são a maior ameaça que a igreja tem.
Alguns de nós tendem a pensar que o maior perigo para a obra de Deus são as pessoas que ignoram o propósito de Deus. Sim, de certa maneira. Mas uma ameaça ainda maior são as pessoas que têm isso aqui na cabeça e não o compreendem. Elas podem nos dar esboços. Podem definir a verdade. Mas, quando se trata de colocá-la em prática, não sabem nem por onde começar.
O apóstolo Paulo para e diz: “Agora, escutem, quero que vocês saibam — todos os que leem esta carta —, quero que saibam que, por aqueles a quem ela foi escrita primeiramente, eu me ajoelhei e orei: ‘Ó Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, Pai da glória, não permitas que esta carta seja meramente acadêmica.’”
“Não permitas que ela permaneça no âmbito da apreciação intelectual, apenas no âmbito da verdade doutrinária. Senhor, dá àqueles que recebem esta carta esse espírito de sabedoria, compreensão e revelação no conhecimento do Senhor Jesus.”
O apóstolo Paulo explica toda a sua experiência em Gálatas 1:15-16:
Mas, quando aprouve a Deus, que desde o ventre de minha mãe me separou e me chamou pela Sua graça,
revelar Seu Filho em mim, para que eu O pregasse entre os gentios,
imediatamente não consultei carne e sangue.
— Gálatas 1:15-16
É absolutamente verdade que o apóstolo teve uma visão de nosso Senhor no caminho de Damasco. Mas foi muito mais do que algo dramático e sensacional. Quando o apóstolo viu o Senhor, viu algo muito maior. Ele disse: “Aprouve a Deus revelar Seu Filho em mim.”
Em sua salvação, desde o início de sua conversão, ele começou a compreender algo: que havia sido incorporado a Cristo, que havia se tornado um com Cristo. Bem, chegaremos a isso daqui a pouco.
Essa questão da visão é um princípio. Não posso dizer que seja necessariamente o princípio da comunhão, mas é um princípio geral em toda a obra de Deus. É uma necessidade, não um luxo.
Muitos de nós tendem a pensar que essa visão é concedida apenas à elite entre o povo de Deus, àqueles que serão grandemente usados no serviço do Senhor. Mas isso não é algo para um círculo especial de pessoas, nem é um luxo com o qual você será muito abençoado se por acaso o tiver.
É uma necessidade, querido filho de Deus. É uma necessidade para cada um de nós. Nos dias de abalo e de peneiramento que certamente virão, quando o inimigo fizer tudo o que puder para resistir à obra de Deus, destruir a obra de edificação de Deus e, de alguma maneira, impedir a conclusão da casa de Deus, precisamos ser, acima de tudo, homens e mulheres de visão.
Não importa para onde nos voltemos na palavra de Deus; encontramos essa questão. As pessoas tendem a pensar que talvez isso fosse algo apenas do Novo Testamento. Não, não, não, não é. Claramente, tudo começou com Abraão, e tudo começou com visão.
O que Estêvão diz?
O Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão, estando ele na Mesopotâmia, antes de habitar em Harã.
— Atos 7:2
O Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão quando ele estava em Ur dos caldeus, na Mesopotâmia. Foi assim que tudo começou.
Existe essa ideia, tão comum em alguns círculos, de que Abraão era um pastor beduíno malcheiroso, analfabeto e errante, andando aos tropeços pelo deserto com algumas cabras e ovelhas dispersas e um camelo. A ideia é que ele não sabia ler nem escrever e não tinha nem um pingo de instrução.
Abraão não era nada disso. Ele veio de Ur dos caldeus, uma das grandes cidades da Antiguidade. Era uma cidade orgulhosa de sua civilização sofisticada.
Muitas joias femininas que estão na moda hoje são inspiradas em peças encontradas em Ur dos caldeus. Eles tinham seus cabeleireiros para senhoras, seus bancos, sua bolsa de valores, seu sistema postal — Ur tinha todo tipo de coisa.
É claro que, pelo Talmude, entendemos um pouco mais sobre Abraão. Entendemos que ele era fabricante de ídolos. Sua família controlava todo o negócio de fabricação de ídolos para a cidade. Um dia, diz o Talmude, ele pensou consigo mesmo: “Não é estranho que façamos estas coisas e depois nos prostremos diante delas?”
E então o Deus da glória lhe apareceu. Não sabemos como. Abraão viu o Senhor. Ele não viu simplesmente Deus; viu o Deus da glória.
Sua compreensão não era limitada. Ele não apenas viu o dia do Messias; não apenas viu o evangelho de longe. Mais extraordinário ainda, está escrito:
Pela fé, Abraão, sendo chamado, obedeceu, saindo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem saber para onde ia.
Porque esperava a cidade que tem fundamentos, da qual o arquiteto e construtor é Deus.
— Hebreus 11:8, 10
De onde Abraão tirou a ideia de uma cidade? Ele teve de abrir mão de uma cidade. Saiu para se tornar peregrino no deserto. Saiu para viver em tendas. Nunca, jamais, se estabeleceu numa cidade.
Como, de fato, Abraão esperava a cidade que tem fundamentos? Vejam, quando o Deus da glória apareceu a Abraão, de repente ele viu que aquela cidade terrena forte, duradoura, sofisticada, civilizada e instruída não tinha fundamentos.
Talvez, se vocês estivessem em Ur dos caldeus — como se fossem a Washington —, pensassem: “Isto nunca desaparecerá. Estes edifícios magníficos, estas avenidas maravilhosas, os monumentos, este grande sistema de civilização, esta capital de uma grande superpotência — isto nunca desaparecerá.”
Vai desaparecer. Se o Senhor tardar, tudo isso um dia desaparecerá, tão certamente quanto Ur dos caldeus desapareceu. Foi algo extraordinário para Abraão, que conhecia Ur com suas alamedas, avenidas, edifícios, monumentos, sofisticação e instrução, ver de repente que aquela cidade não tinha fundamento.
Sabem, Abraão viu mais do que muitos verdadeiros crentes da nova aliança. Quantos crentes genuínos veem o que é a cidade de Deus? Pouquíssimos, de fato. Olham para você como se fosse louco quando começa a falar sobre a cidade de Deus.
Tudo o que conhecem são hinos sobre andar em ruas de ouro, portões de pérolas se abrindo e, talvez, tomar uma xícara de chá em alguma cidade celestial. Isso é tudo o que conseguem compreender sobre a cidade de Deus. Mas essa é uma ideia de escola dominical.
Que cristão viu o que Abraão viu há mais de quatro mil anos? Onde Abraão viu a cidade que tem fundamentos? Agora, meu amigo, chegamos ao ponto.
Ele não viu uma planta de uma cidade. Não viu uma cidade física. Quando viu o Deus da glória, viu no Deus da glória a cidade de Deus. Ao ver o Senhor, viu o lugar da glória de Deus. Viu a morada da glória de Deus.
Daquele momento em diante, Abraão já não podia se satisfazer com outra coisa; nunca mais foi o mesmo. Qualquer homem ou mulher que vê algo do Senhor já não consegue se satisfazer com nada inferior. Uma vez que o Deus da glória nos aparece, nunca mais somos os mesmos.
Vemos algo. Já não somos habitantes de cidades terrenas; somos forasteiros, somos peregrinos. Vimos a cidade que tem fundamentos, cujo Arquiteto e Construtor é Deus.
Abraão viu tanto! Ó querido filho de Deus, até os menores entre os que estão no corpo de Cristo, sob a nova aliança, são maiores do que esses santos do Antigo Testamento quanto aos seus privilégios. Você percebe como está desvalorizando sua posição em Cristo se nem sequer vê o que é a cidade de Deus?
Abraão a viu. Isso mudou toda a sua vida. Mudou seu estilo de vida. Mudou toda a sua direção, para o tempo e para a eternidade. Você já foi tomado por algo assim? Isso é visão.
Deus começou tudo com Abraão por meio de visão: “O Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão.” Mas vejamos outro. Eu gostaria muito de falar mais sobre alguns dos outros. Gostaria de falar, por exemplo, sobre Jacó.
Jacó viu o Senhor. E, quando viu o Senhor, aquele grande trapaceiro, aquele grande enganador — o maior enganador do Oriente Médio — foi transformado. Seu nome, Jacó, que significa “suplantador” ou “enganador”, foi mudado para Israel.
Jacó viu o Senhor, e, quando viu o Senhor, algo aconteceu. Ele recebeu um novo nome, e seu nome se tornaria o nome do povo de Deus por todos os tempos: Israel.
Quero prosseguir para Moisés. Com Moisés, tudo começou com visão. Quando era mais jovem, ele tinha uma compreensão acadêmica.
Moisés era filho da filha de Faraó, criado no palácio. Novamente, se considerarmos algumas daquelas informações extrabíblicas — se forem verdadeiras, e não há razão para acreditar que sejam meramente mitos só porque são extrabíblicas —, entendemos pelo Talmude que Moisés foi o herói da campanha da Líbia e recebeu grandes condecorações de Faraó por suas vitórias.
Temos um indício disso na Bíblia. Somos informados de que ele considerou o opróbrio de Cristo uma riqueza maior do que os tesouros do Egito e os prazeres do pecado.
Mas Moisés via algo apenas de maneira acadêmica. Quando viu um egípcio lutando com um hebreu, interveio e matou o egípcio. Depois fugiu para salvar a própria vida e, durante quarenta anos, ficou nos confins do deserto cuidando de um bando de ovelhas tolas.
Pensem nisso: o filho da filha de Faraó cuidando de ovelhas. Os egípcios desprezavam muito as ovelhas. Durante aqueles quarenta anos, suponho que, nos primeiros dez, Moisés tivesse grandes pensamentos sobre visitações de Deus e sobre como seria levado de volta ao Egito, ao seu povo, em um grande avivamento. Mas isso nunca aconteceu.
Passaram-se vinte anos, e seus pensamentos já haviam mudado um pouco, mas ele ainda acreditava que, de alguma maneira, algo aconteceria. Passaram-se trinta anos, e a situação começava a ficar difícil, mas ele se apegava à ideia de que, de alguma maneira, algo aconteceria.
Mas, quando os quarenta anos se completaram, tudo aquilo havia morrido dentro dele. Então, um dia, no deserto, enquanto cuidava de suas ovelhas, viu um fogo no deserto.
Nós que já vivemos no deserto vimos esses fogos. Lembro-me da primeira vez que os vi. Perguntei ao beduíno que estava comigo naquele momento: “O que é aquele fogo lá?” Ele disse: “É um daqueles arbustos espinhosos. Está morto e seco, e o sol o incendiou.”
Moisés não deu atenção àquilo. Viu um fogo no deserto e continuou sonhando seus sonhos. Então olhou novamente, dez minutos depois, e ainda estava queimando. Continuou sonhando seus sonhos.
Depois de vinte minutos, pensou: “Ora, esse arbusto é mesmo extraordinário.” E, depois de talvez trinta ou quarenta minutos, pensou: “Vou até lá ver essa coisa estranha.”
Ele foi até onde aquele arbusto espinhoso estava queimando. Quando chegou lá, não tenho dúvida de que não era um arbusto muito grande. Viu que a sarça ardia em fogo, mas não se consumia. Então, de dentro da sarça, de dentro da chama de fogo, veio a voz de Deus:
Moisés, Moisés, não te chegues para cá: tira os sapatos dos teus pés, porque o lugar em que estás é terra santa.
Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó.
— Êxodo 3:4-6
Moisés viu o Senhor, e viu o Senhor de uma forma que transformaria toda a sua vida, toda a sua direção. Pois, quando viu o Senhor na sarça, Moisés viu a si mesmo.
Era como se Deus estivesse dizendo: “Querido Moisés, você é exatamente como este velho arbusto espinhoso e seco: sem valor, feio, inútil, insignificante e cheio de espinhos. Você é assim, Moisés.”
“Você pensava que era uma grande palmeira, imponente e majestosa. Eu o reduzi a um arbusto espinhoso e seco. Você pensava que era uma acácia, a árvore mais bela do deserto, da qual se fizeram os móveis do tabernáculo. Eu o reduzi a um velho arbusto espinhoso, seco e morto.”
“Moisés, você é o velho arbusto espinhoso e seco: comum, sem valor, feio e cheio de espinhos. E Eu sou o fogo. Moisés, quando Eu entrar em você e você entrar em Mim, então o Meu propósito será edificado.”
Lembrem-se: ali, diante da sarça, Moisés perguntou: “Quem direi que me enviou?” Deus disse: “EU SOU. Esse é o Meu nome. Não ‘Eu era’, nem ‘Eu serei’, mas ‘EU SOU O QUE SOU’.”
E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós.
— Êxodo 3:14
Sabem, era como se Deus tivesse dado a Moisés um cheque em branco. As pessoas muitas vezes se assustam com esse nome, “EU SOU O QUE SOU”, e pensam que ele significa algo sobre a eternidade de Deus, a autossuficiência de Deus, a onisciência de Deus e tudo o mais. E tudo isso é verdade.
Mas, meus queridos amigos, quanto ao que Deus estava fazendo, Ele estava dando a Moisés um cheque em branco. “Moisés, você precisa de amor? Eu sou amor. Precisa de poder? Eu sou poder. Precisa de graça? Eu sou graça.”
“Precisa de humildade? Eu sou a sua humildade. Precisa de força? Eu sou a sua força. Precisa de sabedoria? Eu sou a sua sabedoria. Precisa de direção? Eu sou a sua direção.”
“Moisés, Eu estou em você. Estou em você, e sou tudo de que você precisa dentro de você, Moisés. Portanto, vá a Faraó, e o Meu propósito será cumprido.”
Moisés era tão plenamente aquele velho arbusto espinhoso e seco que disse: “Senhor, eu gaguejo. Não consigo falar.” Ele nunca havia pensado nisso antes. O Senhor teve tanta misericórdia de Moisés que disse: “Então leve Arão, seu irmão, e ele falará por você.”
Daí em diante, Moisés falou tudo e Arão fez todo o trabalho. Deus sabe como lidar com as nossas fraquezas quando faz Sua obra tão bem que, no fim, nós mesmos não temos confiança em nós — nem em uma única partícula de nós mesmos.
Vocês começam a compreender como isso é maravilhoso? Quando eu era novo no Senhor, costumava me perguntar por que o Senhor não havia escolhido uma palmeira, com uma maravilhosa chama de glória no alto de alguma palmeira majestosa e ereta, e o Senhor olhando de cima e dizendo: “Moisés, Moisés, não se aproxime daqui. Isto é terra santa.”
Não teria sido maravilhoso? Especialmente porque a palmeira é um símbolo de justiça e majestade. Ou suponham que o Senhor tivesse Se manifestado numa acácia, a mais bela e delicada de todas as árvores do deserto. Os expositores bíblicos teriam se deleitado com isso.
Teríamos dito: “Agora, vejam, o tabernáculo — a morada do Senhor. Vejam, Ele estava na acácia. O Senhor está nela, entendem?” Mas o Senhor escolheu um velho arbusto espinhoso e seco.
Antes de você poder se tornar uma palmeira pela graça de Deus, precisa primeiro se tornar um velho arbusto espinhoso e seco. Antes de poder se tornar madeira de acácia para a edificação da casa de Deus, precisa primeiro saber que é um velho arbusto espinhoso e seco.
Deus é o fogo; você é a sarça. Mas Moisés viu mais do que isso. Com os olhos do coração, viu: “Isto é Israel. Este velho arbusto espinhoso é Israel.” Deus estava dizendo: “Eu, o Deus vivo, estou no meio do Meu povo.”
“Eu serei a coluna de nuvem durante o dia e a coluna de fogo durante a noite. Eu serei o maná do céu. Eu serei água da rocha. Eu os conduzirei por todo o caminho. Eu serei uma morada. Eu farei deles a Minha morada na terra.”
“Moisés, nunca se esqueça de que o Meu povo não é outra coisa senão um velho arbusto espinhoso e seco. Se colocar a mão nele, você vai se arranhar.”
Moisés descobriu isso muito depressa. Ah, como eles murmuravam, como se rebelavam, como se desviavam! Nada jamais os agradava. Eles eram o arbusto espinhoso.
Certa vez, Moisés ficou tão irado que feriu a rocha:
Ouvi agora, rebeldes; porventura tiraremos água desta rocha para vós?
— Números 20:10
Nós que trabalhamos entre o povo de Deus devemos ter a maior compreensão pelo querido Moisés.
Muitas vezes teríamos ferido a rocha não uma vez, mas dez vezes, e dito: “Seus rebeldes! Sempre temos de trazer a palavra de Deus a vocês. Tudo o que fazem é morder e devorar uns aos outros e murmurar, e nada nunca está certo.”
Mas, por causa daquela única falha de Moisés, Deus lhe disse: “Moisés, você se esqueceu. Você se esqueceu. Eles são o arbusto espinhoso, Moisés. Eu sou o fogo, e você tocou em Mim.”
“Não lhe cabia dizer o que Eu não lhe dei para dizer. Eu estou nesta sarça. Isto é terra santa. Tire os sapatos dos seus pés.”
Lembre-se disso, querido filho de Deus, da próxima vez que criticar algum filho de Deus, da próxima vez que o ferir, quando o tratar com maldade. Lembre-se: você poderá ouvir a voz de Deus lhe dizendo: “Isto é terra santa. Esta sarça — Eu estou nela.”
Assim, podemos continuar por toda a Bíblia. O apóstolo Paulo viu o Senhor no caminho de Damasco. Muitas pessoas pensam nisso apenas como alguma imagem dramática do Senhor que ele viu, quando o Senhor lhe disse:
Saulo, Saulo, por que Me persegues?
— Atos 9:4
Vocês se lembrarão de que Saulo perguntou: “Quem és Tu, Senhor?” E o Senhor disse:
Eu sou Jesus, a Quem tu persegues.
— Atos 9:5
Ora, a maioria dos cristãos conhece a Bíblia tão superficialmente que essas declarações escorrem por eles como água pelas penas de um pato. Vocês já pensaram nisso? Pensem por um momento.
Jesus já estava morto, no entendimento de Paulo. De repente, ele foi lançado ao chão, e uma luz brilhou sobre ele, mais forte do que o sol ao meio-dia. De dentro daquele resplendor, o apóstolo Paulo ouviu a voz: “Saulo, Saulo, por que Me persegues?”
Saulo perguntou: “Quem és Tu?” O Senhor disse: “Eu sou Jesus.” Saulo poderia ter dito: “Mas, Senhor, eu não estou Te perseguindo. Tu estás morto. Já foste embora há muito tempo. Estou perseguindo aquelas pessoas miseráveis que fizeram do Teu ensino uma seita extremamente fanática.”
Vocês veem o que aconteceu? Naquele dia, o apóstolo Paulo viu o Senhor e, de repente — talvez apenas de maneira vaga no início, mas depois com mais clareza durante os três anos na Arábia —, viu que as pessoas que pertenciam ao Senhor Jesus eram os Seus membros. Eram parte Dele. Quando alguém as golpeava, golpeava o Senhor.
Quando alguém as feria, feria o Senhor.
Dessa visão veio todo o ministério de Paulo. Creio que tudo o que ele diz posteriormente sobre o corpo de Cristo e sobre estarmos em Cristo veio daquela visão celestial.
O apóstolo Paulo disse, por fim:
Pelo que, ó rei Agripa, não fui desobediente à visão celestial.
— Atos 26:19
Estou começando a fazê-los enxergar que essa questão da visão é de importância absoluta?
Ó querido filho de Deus, você pode frequentar um seminário teológico por dez anos, e isso pode matá-lo. Pode fazer curso bíblico após curso bíblico após curso bíblico, mas, se não tiver visão, tudo será apenas conhecimento.
O conhecimento ensoberbece, mas o amor edifica.
— 1 Coríntios 8:1
É claro que precisamos do tipo certo de conhecimento. Entendam, não estou atacando o conhecimento. Há o conhecimento do Senhor:
Para conhecê-Lo.
— Filipenses 3:10
O apóstolo Paulo diz que o Senhor vos dê espírito de sabedoria e de revelação no conhecimento Dele, sendo iluminados os olhos do vosso coração, para que saibais. Não saber a respeito, mas conhecer de fato. Não saber a respeito Dele, mas conhecê-Lo.
Ó filho de Deus, querida família de Deus, conversamos sobre muitas e muitas coisas nestes últimos dias. Mas, se não houver visão, tudo se perderá, se, no fim, Deus não nos der essa visão de Si mesmo.
Posso dizer algo mais? Precisamos ver a grandeza do Senhor. Vivemos em dias de coisas pequenas. Cristo é tão pequeno para nós que podemos reduzi-Lo a uma fórmula. Podemos reduzi-Lo a certo número de métodos e técnicas. Podemos, de alguma maneira, torná-Lo apenas um credo.
Ah, se ao menos víssemos o Senhor e pudéssemos ver a Sua grandeza! Ele não cabe em um ensino, um credo ou uma experiência. Tampouco um único crente contém toda a plenitude que nosso Senhor contém. Ele é tão infinito, tão grande!
Quando Daniel viu o Senhor, caiu como morto. Quando Ezequiel viu o Senhor, caiu como morto. João, quando viu o Senhor, caiu como morto.
Esse tipo de visão não é o tipo de visão que leva as pessoas a fazer uma turnê mundial para contar a todos, em todo o mundo, a visão que tiveram. Deus nos livre.
Esse tipo de visão é a morte de quem a recebe. Quando a pessoa vê o Senhor em toda a Sua infinitude, grandeza, misericórdia e amor, é como se morresse em Sua presença, e o Senhor precisa vir e colocá-la de pé.
Vocês já notaram isso repetidamente na Bíblia? Quando as pessoas veem o Senhor, caem aos Seus pés como mortas, e alguém precisa vir, levantá-las, colocar a Sua mão direita sobre elas e dizer: “Não temas.”
Você já teve uma visão assim? Cada vez que vemos o Senhor, sentimos que não sabemos nada. Cada vez que vemos a grandeza do Senhor, sentimos que somos tão pequenos, tão insignificantes. É como se morrêssemos.
Ah, ver a grandeza do Senhor! Quando Isaías, no ano em que o rei Uzias morreu, estava no templo orando e adorando, de repente viu o Senhor alto e exaltado.
Ele já não conseguia ver o templo. Não conseguia ver o santuário, pois a cauda das vestes da glória do Senhor enchia e envolvia todo o santuário.
Querido filho de Deus, que Deus nos dê tal visão do Senhor que não vejamos coisas, mas vejamos a Ele. No fim, tudo está Nele.
As pessoas tornam a igreja algo separado Dele. Fazem dela uma coisa independente: aqui está o Senhor, ali está a igreja. Mas, em essência, a igreja é Cristo. É ser um só corpo Nele. É crescer para ser um templo santo no Senhor, sendo edificados juntos para habitação de Deus no Espírito. Tudo está no Senhor.
Se pudéssemos ver isso, seríamos poupados de tantas coisas. É maravilhoso quando vemos que a nossa salvação é o nosso Salvador.
Não se trata apenas de que Ele concluiu a obra. Graças a Deus por isso — o aspecto jurídico da nossa salvação. Mas que dádiva preciosa e gloriosa é o fato de Ele ser o nosso Salvador e viver sempre para interceder por nós.
Se fomos reconciliados por meio da Sua morte, quanto mais seremos salvos por meio da Sua vida? Que coisa maravilhosa é quando o Senhor entra de fato em nós. Nascemos de Deus. Descobrimos que a nossa salvação não é uma coisa; é uma Pessoa.
É maravilhoso quando descobrimos que a nossa santificação é uma Pessoa. As pessoas falam de santidade como se fosse uma experiência, uma segunda bênção. Graças a Deus que existe tal experiência do nosso Senhor, mas tudo é o Senhor.
Tive uma experiência em que compreendi que havia sido crucificado, morrido com Ele, sepultado com Ele e ressuscitado juntamente com Ele para andar em novidade de vida. Ora, isso é uma experiência de uma Pessoa. Ele é uma Pessoa.
Algumas pessoas dão muita ênfase ao batismo no Espírito Santo. Creio que existe uma unção do Espírito. Eu morreria por essa convicção. Não quero causar confusão, mas tenho certeza de que existe uma experiência de unção para o serviço.
Precisamos conhecê-la tão logo sejamos salvos; quanto mais próximo desse momento, melhor, se não for na própria salvação. Sei que algumas pessoas entendem que Deus lhes concedeu isso no exato momento em que foram salvas. Que coisa maravilhosa é conhecer a unção!
Mas a unção não é uma coisa. As pessoas estão procurando uma experiência que as derrube, que as faça cair e as leve a êxtases e tudo o mais. Bem, graças a Deus por aqueles de nós que já tiveram um ou dois êxtases neste pobre mundo. É algo especial ter um êxtase.
Não tenho nada contra alguém ter um êxtase — ser arrebatado ao terceiro céu e ver o Senhor —, desde que mantenha a boca fechada quando voltar e não saia por aí transformando isso em algo que precisa ser vendido o tempo todo.
Mas, meu querido amigo, o Senhor Jesus é Aquele que batiza no Espírito Santo. A única maneira pela qual nasci do Espírito foi por meio do Senhor Jesus. A única maneira pela qual o Espírito Santo veio habitar em mim foi pelo Senhor Jesus. A única maneira pela qual posso ser ungido com o Espírito Santo e com poder é por meio do Senhor Jesus.
Não é porque sou bom o suficiente, ou porque tenho mérito, ou qualquer outra coisa. É a obra do meu Senhor que me introduz na unção. Tudo é pela graça.
Muitas pessoas me perguntaram sobre o comentário que fiz outro dia a respeito de uma unção para uma reunião. Mas isso seria um assunto à parte: o que é a unção, como permanecer na unção, como permanecer debaixo dela e como discerni-la.
Querido filho de Deus, a unção está em Cristo. O óleo está sobre a Cabeça — assim como sobre a cabeça de Arão — e desce pela sua barba até a orla das suas vestes, incluindo cada membro do corpo.
A minha unção é o Senhor Jesus. Ele obteve algo para mim e derramou aquilo que vocês veem e ouvem.
Seja o que for — uma experiência do Senhor ou um avanço em nossa caminhada com Ele —, tudo está no Senhor. Precisamos ver isso. Ah, que o Senhor nos dê essa visão!
Por fim, gostaria de encerrar estes dias dizendo algo sobre a maneira pela qual Deus nos toma para Si por meio da visão. Como Deus toma posse de uma pessoa? Como Ele a detém? Como Ele a conquista?
Sempre por meio disso. Por meio dessa visão, somos tomados pelo Senhor.
Sabem, depois que o apóstolo Paulo viu o Senhor, já não tinha tempo para nada mesquinho. Em Filipenses 3, ele diz algumas coisas incríveis.
Se eu tivesse escrito Romanos, seria insuportável. Se eu tivesse escrito, mesmo pela graça de Deus, Romanos, 1 Coríntios, 2 Coríntios, Gálatas, 1 Tessalonicenses, 2 Tessalonicenses e talvez algumas das outras cartas, estaria abrindo institutos bíblicos, dirigindo um seminário teológico, ministrando cursos de estudo bíblico e tudo o mais.
Eu não estaria dizendo:
Considero todas as coisas como perda, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor.
— Filipenses 3:8
“Para ganhar a Cristo.” Eu chamaria o apóstolo Paulo e diria: “Paulo, você está exagerando. Ganhar a Cristo? Mas você já tem Cristo. Acorde! Você já O tem. Ele tomou posse de você no caminho de Damasco.”
“Paulo, você está revestido da justiça de Deus. É claro que está revestido de justiça — você escreveu Romanos. Ora, se escreveu aquela única carta, é evidente que já ganhou a Cristo.”
“Paulo, e Coríntios! Pense em 1 Coríntios 12. Pense em 1 Coríntios 13. Pense em 1 Coríntios 15. Se eu tivesse escrito apenas um desses capítulos, sentiria que havia cumprido a minha tarefa. Eu me deitaria num leito florido de descanso e esperaria ir para a glória. Teria feito a minha parte.”
Mas Paulo havia escrito as Escrituras. Havia nos dado Gálatas e Tessalonicenses. Em 2 Coríntios 12, havia até falado sobre ser arrebatado ao terceiro céu e ouvir coisas que não é lícito ao homem expressar.
Agora, penso que esse é o auge da experiência espiritual. Você volta e diz: “Recebi algo do Senhor. Vou contar a vocês.” Isso é uma grande coisa, não é? Mas poder vir e dizer: “Ouvi algo que não tenho permissão para contar a vocês” — esse é o ápice de toda experiência espiritual. Então você está realmente, por assim dizer, no Pentágono espiritual.
Mas, querido filho de Deus, o apóstolo Paulo havia visto de tal maneira a grandeza do Senhor e a Sua infinitude que, daí em diante, sempre soube o quanto não sabia.
Quando você é estudante, pensa que sabe tudo. Pode discursar dogmaticamente sobre isto, aquilo e aquilo outro. Mas, quando encontra um professor universitário, percebe que ele é muito mais cauteloso. “Bem”, ele diz, “poderia ser isto ou aquilo, mas acho que provavelmente é isto.”
Por quê? Porque ele sabe muito mais. O estudante sabe muito menos e, por isso, pode ser dogmático. Mas o professor sabe muito mais e, portanto, sabe que sabe muito pouco. Em outras palavras, sabe que há muito mais para conhecer.
Você já chegou a esse ponto? Tenho pena dos cristãos que sabem tudo. “Quer conhecer? Bom dia, eu tenho o Senhor. Vou apresentá-Lo a você: pontos um, dois, três e quatro.”
“Quer ter também uma experiência disto? Sim? Cinco passos — venha a mim. Vou lhe dar os cinco passos, e você chegará lá. Quer se libertar do medo? Venha a mim. Tenho sete passos aqui.”
Ah, quando, de alguma maneira, vemos a grandeza do Senhor, é como se percebêssemos quanto mais há para conhecer. Sabemos quão pouco realmente sabemos.
É como se tivéssemos lançado nosso barco num oceano infinito e, quanto mais avançamos pelo oceano, menor a embarcação se torna e maior o horizonte.
É isso que a visão faz por você. A visão sempre fará você se sentir pequeno e perceber Deus como infinito. Sempre fará você saber quão minúsculo é e quão insondável Deus é.
Mas a visão também fará você saber que a infinitude de Deus e a sua finitude estão ligadas eternamente; que a plenitude Dele e a sua pequenez são uma só coisa; que o velho arbusto espinhoso e o fogo de Deus se uniram para sempre. Isso é visão.
A medida da nossa visão determinará até onde iremos. Algumas pessoas viram apenas a questão da salvação. É até aí que irão. Ficarão perfeitamente felizes apenas com as coisas evangelísticas.
Graças a Deus pelas pessoas que têm um encargo evangelístico. Nunca tratem isso como coisa de jardim de infância, como se, ao prosseguir com o Senhor, vocês deixassem esse tipo de coisa para trás. Deus nos livre. Temos uma comissão do Senhor para fazer discípulos de todas as nações.
Ai de qualquer grupo que não alcance os de fora. Esse grupo morrerá, porque não tem em si a paixão do seu Senhor.
Mas, tendo dito isso, se você vê apenas a salvação, é até aí que irá. Se vê um pouco mais — digamos, a dimensão carismática —, esse será o seu limite. Estará sempre tentando levar as pessoas a uma experiência, e ponto-final.
Ou talvez você veja algo mais e esteja sempre tentando levar outra pessoa a isso. Viu algo sobre a segunda vinda do Senhor, e então tudo é sempre a segunda vinda do Senhor. Você entende muito de profecia, de modo que está sempre tentando fazer as pessoas compreenderem isso.
Mas, se virmos o propósito do Senhor a respeito do Senhor Jesus e daqueles que estão Nele, queridos amigos, isso determinará até onde iremos. Não há limite.
Posso dizer mais uma coisa? A visão sempre inquieta. Vou dizer de novo: a visão sempre inquieta.
As pessoas parecem pensar que, se você tem uma visão, bem, de repente está com tudo pronto. Agora você já a tem. Pode subir à plataforma, apertar o botão ao chegar, e todos ficarão ali de boca aberta, ouvindo essas palavras maravilhosas saírem da sua boca.
Não, queridos amigos. Qualquer homem ou mulher que tenha uma visão verdadeira é uma pessoa inquieta.
Abraão saiu. Não podia permanecer em Ur nem mais um momento. Moisés entrou. Não podia permanecer no deserto nem mais um momento. Precisava entrar na casa de Faraó.
Daniel ficou tão inquieto que se dedicou a um ministério de oração durante três semanas. Ah, que batalha ele enfrentou — principados e potestades resistindo ao anjo que vinha, por assim dizer, com a resposta de Deus para Daniel.
A visão sempre inquieta. Paulo não conseguia se contentar com nada pequeno. Se você pedir visão, lembre-se do que está pedindo. Está pedindo inquietação espiritual.
Alguns de vocês, que estão muito felizes em sua vida denominacional, talvez descubram que, de repente, ficam muito, muito inquietos — não amargurados nem se sentindo superiores, mas inquietos.
Alguns de vocês que estão envolvidos em outras coisas que saíram completamente dos trilhos descobrirão que, se Deus lhes der visão verdadeira, ficarão inquietos. Terão de perguntar a si mesmos: “Se o candeeiro for removido, para onde eu vou?”
A visão sempre inquietará.
A visão leva ao encargo e às dores de parto espirituais. Vocês já notaram como tantos profetas se referem à sua profecia como “o encargo do Senhor”? É porque viram o Senhor.
Há dores de parto espirituais. Alguns de vocês conversaram comigo sobre isso. Começa aqui. Essas dores de parto jamais serão confiadas a alguém que não tenha visto o Senhor.
Ó meu querido amigo, espero ter dito o suficiente neste encerramento destes dias para fazê-lo perceber que considero inútil tudo o que foi ministrado, a menos que Deus lhe conceda espírito de sabedoria e de revelação no conhecimento Dele mesmo.
Isso não é necessariamente algo sensacional ou dramático. Mas, de repente, aquilo que você pensava perceber vagamente com a mente vem, por assim dizer, como um clarão ao seu coração. Pela primeira vez, você começa a ver algo.
Aquilo que começa a ver, você verá com mais clareza, cada vez mais claramente, à medida que prosseguir com o Senhor.
A vocês, irmãos a quem Deus está usando, posso dizer isto: a visão produz ministério. Querem um verdadeiro ministério da palavra, e não apenas uma daquelas coisas estruturadas e sistematizadas? Um verdadeiro ministério da palavra nasce da visão.
Daniel viu o Senhor, e disso veio ministério, tanto em oração quanto em palavras. Ezequiel viu o Senhor, e disso veio um ministério extraordinário. Isaías viu o Senhor, e disso veio um dos maiores ministérios que o povo da antiga aliança, e nós da nova, já recebeu.
João viu o Senhor, e disso veio o livro de Apocalipse. Todo ministério, no fim, nasce da visão. Paulo viu o Senhor, e disso veio seu ministério extraordinário.
Há muitas outras coisas que a visão faz. Ela cria fé viva. Quando vemos o Senhor, a fé entra em nosso coração.
O Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão. Pela fé, ele obedeceu e saiu, sem saber para onde ia.
E a fé nos transforma à semelhança do nosso maravilhoso Senhor:
Mas todos nós, com o rosto descoberto, contemplando como num espelho a glória do Senhor, somos transformados na mesma imagem, de glória em glória, como pelo Senhor, o Espírito.
— 2 Coríntios 3:18
Querido filho de Deus, precisamos ver o Senhor.
No fim, o efeito e o valor permanentes destes dias corresponderão precisamente à medida em que virmos o Senhor.
Moisés viu o Senhor repetidas e repetidas vezes. Viu o Senhor de uma maneira como nenhum outro ser humano realmente O viu. No entanto, isto sempre me impressionou.
Quando o Senhor perguntou a Moisés: “Há alguma coisa que você deseja?”, ele disse:
Mostra-me a Tua glória.
— Êxodo 33:18
Essa é a evidência de um homem que começou a ver o Senhor. Quando você começa a ver o Senhor, quer mais.
Creio que muitos de nós teríamos ficado satisfeitos com o que Moisés já havia visto e ouvido. Mas, ó Senhor, é isso que a visão sempre faz: descobrimos que precisamos prosseguir com Ele.
Vamos orar?
Nosso amado Senhor, nós Te louvamos nesta manhã porque Tu és o Único que pode dar visão ao Teu povo.
Ó Senhor, nesta questão, Tu nos fizeste depender somente de Ti. Não podemos obter isso de um curso de estudo bíblico, de um esboço, de um instituto bíblico, nem mesmo de uma conferência em si.
Senhor, Tu és o Único que pode dar ao Teu povo esse espírito de sabedoria e de revelação no conhecimento do Teu Filho.
Ó Senhor, desperta-nos a todos para esta questão, e que de todos os nossos corações brotem, Senhor, um anseio e um profundo desejo de ver o Senhor.
Transforma, Senhor, todas estas coisas que foram ministradas ao longo destes dias, por meio de quem quer que Tu tenhas usado. Transforma todas estas coisas, nós Te pedimos, Senhor, em realidade por meio da revelação.
Ó Deus, toca os olhos do nosso coração e mostra-nos a Tua glória, Senhor.
E assim, juntos, nós nos entregamos a Ti, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.