Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis os vossos corpos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus, que é o vosso serviço espiritual.
E não vos conformeis com este mundo; mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.
Porque, pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com sobriedade, conforme a medida de fé que Deus repartiu a cada um.
Pois, assim como temos muitos membros em um só corpo, e nem todos os membros têm a mesma função:
Assim nós, sendo muitos, somos um só corpo em Cristo, e individualmente membros uns dos outros.
E, tendo dons diferentes segundo a graça que nos foi dada, se é profecia, profetizemos segundo a proporção da nossa fé;
Se é ministério, dediquemo-nos ao ministério; ou aquele que ensina, ao ensino;
Ou aquele que exorta, à exortação: aquele que contribui, faça-o com liberalidade; aquele que preside, com diligência; aquele que exerce misericórdia, com alegria.
Seja o amor sem hipocrisia. Aborrecei o mal; apegai-vos ao bem.
No amor fraternal, sede afetuosos uns para com os outros; na honra, preferindo-vos uns aos outros;
Na diligência, não sejais negligentes; sede fervorosos de espírito; servindo ao Senhor;
Alegrai-vos na esperança; sede pacientes na tribulação; perseverai na oração;
Compartilhai com os santos em suas necessidades; praticai a hospitalidade.
Abençoai os que vos perseguem; abençoai, e não amaldiçoeis.
Alegrai-vos com os que se alegram; chorai com os que choram.
Tende o mesmo sentimento uns para com os outros. Não vos ocupeis com coisas elevadas, mas acomodai-vos às humildes. Não sejais sábios aos vossos próprios olhos.
Vamos fazer mais uma breve oração nesta noite?
Senhor, queremos simplesmente nos curvar novamente em Tua presença e reconhecer, querido Senhor, que tanto quem fala quanto quem ouve está sem recursos próprios e depende inteiramente da Tua graça. Não vamos receber coisa alguma deste tempo, Senhor, a menos que Tu intervenhas pelo Teu Espírito.
Nós Te louvamos, Senhor, porque fizeste a provisão para nós em nosso Senhor Jesus e por meio Dele. E, ó Pai, não nos achegamos sobre nenhum outro fundamento, nenhuma outra base, senão aquela que Tu nos deste: nosso Senhor Jesus Cristo e Sua obra consumada.
E, Pai, nós Te pedimos agora: ao nos voltarmos para a Tua Palavra, inundarás este tempo com luz divina? E, nessa luz divina, nós Te rogamos, querido Senhor: faze passar para o nosso coração esse encargo que está no Teu coração.
Senhor, Tu vês toda a pobreza do vaso por meio do qual tens de falar. Mas, Senhor, supera tudo isso, nós Te pedimos, enquanto nos voltamos para Ti, e que a Tua força e o Teu poder se manifestem na fraqueza humana. E, Senhor, Tu vês a fraqueza da nossa capacidade de ouvir. Que o Teu poder e a Tua força se manifestem também aí, Senhor.
E que toda esta noite, Senhor, redunde em Tua glória e honra, por causa da Tua intervenção por meio de nosso Senhor Jesus Cristo. Nós Te pedimos em Seu nome. Amém.
Como todos vocês sabem, tenho tratado, conforme o Senhor me tem capacitado, de diferentes princípios da comunhão. Nesta noite, quero abordar outro princípio. Considero-o tão vital e tão estratégico — um princípio tão importante — quanto qualquer um daqueles de que tratamos até aqui.
É o princípio orgânico. O princípio orgânico — uma expressão um tanto complicada —, o princípio orgânico.
Creio que este é outro princípio da comunhão contra o qual o inimigo tem empregado todos os recursos que conhece e todas as armas do seu arsenal, procurando, de uma forma ou de outra, induzir o povo de Deus a contradizê-lo. Porque o inimigo sabe, infelizmente muito melhor do que a maioria de nós, que esse princípio é tão vital para a edificação do corpo de nosso Senhor Jesus Cristo — tão vital para a comunhão verdadeira na prática — que fará tudo e qualquer coisa para cegar o povo de Deus quanto a esse assunto.
A ignorância quanto ao significado desse princípio e à sua expressão prática tem levado a muitas, muitas tragédias — não apenas na história da igreja, da qual poderíamos passar a noite inteira tratando, mas também em nossa situação contemporânea.
Vemos, por todo o mundo, coisas que realmente, creio eu, começaram com o Espírito de Deus, mas que contradizem esse princípio orgânico e produzem uma estrutura e um sistema que, no início, parecem ser muito do Senhor, mas que, mais tarde, se mostram terríveis para a vida de Deus.
São uma imposição sobre a vida do povo de Deus, sobre a vida de Cristo no povo de Deus e, por isso, acabam por desfazer o desejo mais profundo do próprio povo de Deus.
Alguns desses queridos irmãos, nesses moveres do Espírito de Deus, desejam, mais do que qualquer outra coisa, ver a casa de Deus edificada. Desejam, mais do que qualquer outra coisa, ver a recuperação da verdade acerca do corpo do Senhor Jesus Cristo. Mas eles mesmos, ao contradizerem ou violarem esse princípio orgânico, desfazem precisamente aquilo que tanto anseiam ver realizado em nossos dias e em nossa geração.
O apóstolo Paulo disse certa vez ao povo de Deus, em 2 Coríntios 2:11:
Não ignoramos os seus ardis.
Precisamos reconhecer, tristemente, contra nós mesmos, que, em grande parte, ignoramos os ardis de Satanás.
Ah, que o Espírito Santo pudesse, nesta noite, retratar algo desse assunto, retratar esse princípio orgânico e colocá-lo em nosso coração! Ah, que, de alguma forma, eu pudesse ser capacitado pelo Espírito de Deus a esclarecer esse princípio, a apresentá-lo de tal maneira que até o mais jovem entre nós pudesse enxergá-lo! Louvado seja o Senhor. Ajuda-nos.
A comunhão verdadeira é orgânica por natureza. A comunhão verdadeira é orgânica por natureza. Você não pode estruturá-la. Não pode sistematizá-la. Não pode reduzi-la a uma técnica, a uma questão de métodos, a uma questão de regulamentos.
Todos vocês conhecem aqueles momentos constrangedores que podemos ter quando, de repente, dizemos que esta é a técnica para a comunhão. Não colocamos exatamente nesses termos, mas dizemos: “Agora vamos ter um tempo de comunhão”.
Sentamo-nos em círculo, todos olhando uns para os outros, e dizemos: “Agora, é assim que se tem comunhão: um, dois, três e quatro”. E aquele tempo fica tão constrangedor! Todos olhamos uns para os outros, depois olhamos para o chão, olhamos para o teto, olhamos para lá, voltamos a olhar uns para os outros, e ficamos tão agradecidos quando alguém sequer abre a boca.
“Aqui estamos nós — ah, alguém está dizendo alguma coisa.” Mas, mesmo depois de a pessoa falar, aquilo é artificial. E então, assim que tudo termina, saímos e temos comunhão.
Cometemos esse erro repetidas vezes. Não me entendam mal. Não estou dizendo que um tempo como aquele que tivemos outro dia de manhã, quando tivemos um tempo de comunhão, não possa ser um tempo extremamente abençoado.
Mas, quando você tenta estruturar esse tipo de comunhão, quando tenta definir, por assim dizer, métodos de comunhão, técnicas de comunhão — quando tenta sistematizá-la —, de alguma forma perde de vista todo o sentido da comunhão verdadeira. A comunhão verdadeira é orgânica.
A comunhão é algo que está dentro da própria vida de Deus. A comunhão é inerente à vida de Deus.
Sabe, quando a verdadeira vida espiritual entra em um ser humano, ele passa a desejar comunhão. Surge o desejo natural de encontrar alguém que tenha a mesma vida, alguém que conheça o mesmo Senhor, alguém que tenha sido salvo pelo mesmo Salvador.
Anelamos pela comunhão, e, quanto mais vida temos em nós, mais sentimos que precisamos uns dos outros. O curioso a respeito da vida de Deus é que ela nunca nos torna autossuficientes.
O conhecimento que temos em nós mesmos sempre nos torna autossuficientes. Sentimos que, quanto mais sabemos na cabeça, mais podemos dispensar as outras pessoas, mais independentes e autossuficientes podemos nos tornar. Mas a vida de Deus, de algum modo, cria em nós uma fome pelo restante do povo de Deus. Cria em nós uma fome uns pelos outros. Cria em nós a consciência da necessidade de compartilhar com os outros.
Nosso Senhor Jesus explicou isso de maneiras tão simples. Em certo sentido, Ele não o explicou: estava orando e falando com Seu Pai em João 17. Mas isso está explicado naquelas palavras maravilhosas Dele em João 17:21:
Para que todos sejam um; assim como Tu, Pai, estás em Mim, e Eu em Ti, que também eles estejam em Nós.
Isso é orgânico. Isso é comunhão orgânica. Você não pode estruturá-la. Não pode sistematizá-la. Não pode reduzi-la a métodos ou a uma técnica. É uma questão de vida.
Você encontra a mesma coisa novamente em Romanos 12, na passagem que lemos juntos, em que o apóstolo diz, em Romanos 12:4-5:
Pois, assim como temos muitos membros em um só corpo, e nem todos os membros têm a mesma função:
Assim nós, sendo muitos, somos um só corpo em Cristo, e individualmente membros uns dos outros.
E aqui está o ponto, em Romanos 12:6-7:
Tendo dons diferentes segundo a graça que nos foi dada, se é profecia, profetizemos segundo a proporção da nossa fé;
Se é ministério, dediquemo-nos ao ministério; ou aquele que ensina, ao ensino.
De repente, descobrimos que toda essa questão de estar em Cristo, de ser um só corpo em Cristo, de ser membros de Cristo e membros uns dos outros é uma questão de comunhão. Nem todos temos a mesma coisa. Temos dons diferentes segundo a graça que nos foi dada. Um tem uma coisa; outro tem outra; e a comunhão flui disso. É algo orgânico.
Agora vamos examinar esse princípio um pouco mais de perto. O que quero dizer é isto: a igreja, o corpo de nosso Senhor Jesus Cristo, é um organismo — ou, dito de outra maneira, é orgânica por natureza.
A maioria dos evangélicos reconhece isso apenas da boca para fora. A maioria dos seminários teológicos e das faculdades bíblicas ensina que a igreja do Senhor Jesus Cristo é um organismo vivo. Depois, ensina a todos como organizar o organismo.
Você pode passar por muitas, muitas faculdades bíblicas e seminários de convicções cristãs e fundamentalistas, e descobrirá que ensinam que a igreja é um organismo vivo — um organismo vivo.
Alguns, é verdade, fazem uma distinção entre o que chamam de corpo místico de Cristo e a igreja na terra. Isto é, estabelecem uma diferença entre algo que está lá em cima, no ar, nas regiões celestiais — invisível, universal, espiritual — e aquilo que está aqui embaixo, na terra, que é organizado, institucional, terreno e contém todo tipo de contradição.
Ora, existe um tipo de ensino — que, devo dizer, não consigo encontrar no Novo Testamento — segundo o qual, de alguma forma, lá em cima temos o corpo místico de Cristo, e aqui embaixo temos uma coisa institucional, organizada.
O fato é este: se você tomar o seu Novo Testamento e deixar de lado todas as ideias que já teve sobre igreja e igrejas formais, terá de concluir que a Palavra de Deus nos ensina que a igreja na terra é a expressão da igreja. Na verdade, tudo se resume a isto: em algum lugar da terra encontra-se uma comunhão produzida pelo céu, governada pelo céu, desenvolvida a partir do céu, que um dia será arrebatada ao céu e voltará do céu para a terra.
É a essa conclusão que você chega.
Nestes dias em que vivemos, graças a Deus, cada vez mais crentes verdadeiros estão começando a enxergar o mal do denominacionalismo. Vinte anos atrás, ainda era muito respeitável ser denominacional. Agora, mesmo que você esteja em uma denominação, já não é tão respeitável ser denominacional.
Temos de agradecer ao Conselho Mundial de Igrejas por isso, e também ao Concílio Vaticano II, assim como ao fato de os evangélicos estarem sendo pressionados a uma situação em que precisam repensar todo o significado do termo igreja.
Descobrimos, por toda parte, que, de repente, é respeitável ser não denominacional. Mesmo que você frequente uma igreja batista, é aceitável ser não denominacional — mesmo que o papel timbrado diga “Batista”, é aceitável ser não denominacional. É respeitável, meu amigo.
Temos até grupos que parecem achar que o principal é ser não denominacional.
Já coloquei meus dentes de volta no lugar. Podemos continuar.
O denominacionalismo não é a doença. Escutem-me com atenção: o denominacionalismo é o sintoma. Você pode eliminar todos os casos de denominacionalismo e terá eliminado os sintomas, mas a doença continuará ali.
Sabe, às vezes você vai ao médico — e não estou depreciando o médico — porque tem algumas espinhas ou uma erupção na pele. Ele diz: “Ah, sim, sim, sim” — um homem muito ocupado, especialmente do nosso lado do Atlântico —, e diz: “Sim, sim, aqui está. Pegue a receita e vá”.
Você vai à farmácia e, agora, com o Estado de bem-estar social, recebe alguma coisa para isso. Passa o remédio na erupção, e ela desaparece. Depois, ela aparece aqui. Então você passa o remédio aqui, e ela aparece ali. Passa ali, e ela aparece em outro lugar.
O fato é que você pode eliminar um sintoma, mas a doença pode continuar dentro de você. Livrar-se do denominacionalismo é, graças a Deus, um grande passo adiante. Mas ainda é apenas livrar-se dos sintomas.
Qual é a doença? A doença é o organizacionalismo. Essa é a doença.
Você descobrirá que cada uma das grandes denominações começou como algo orgânico, tornou-se organizada e estruturada à parte da vida de Cristo e, por fim, cristalizou-se em uma denominação. A doença é o organizacionalismo. O denominacionalismo — o hábito de nos rotularmos com todos os diversos nomes que temos — é apenas um sintoma.
Agora, qual é a diferença entre um organismo e uma organização?
Um organismo tem uma organização muito complexa — muitas vezes, muito complexa e intrincada. Não se enganem a esse respeito: um organismo é inteiramente organizado.
Mas a diferença entre uma organização e um organismo é que uma organização é estática e feita pelo homem. Ela é montada de fora para dentro. Já um organismo precisa nascer, e sua organização está dentro da vida.
Agora vocês estão começando a entender? Por exemplo, meu corpo é um organismo. Cada um de vocês aqui nesta noite tem um corpo. É um fato notável, mas cada um de vocês neste lugar trouxe o próprio corpo consigo. Sou grato por isso.
Vocês têm consigo a ilustração de todo esse assunto. Estão dentro de um organismo, e o organismo está sentado em uma cadeira.
Esse organismo, esse corpo, é uma coisa incrível, não é? Há muitos anos, eu nasci e não era maior do que isto. Tudo o que tenho — exceto estas roupas — veio daquilo. Como fiquei assim? Meus pais me esticaram? O que fizeram? Como isso aconteceu? Não, eu cresci. Eu cresci.
Vocês sabem que este meu corpo tem uma organização absolutamente incrível? Tenho um sistema central de inteligência — acreditem ou não. Vocês também têm. Esse sistema de inteligência em vocês é mais intrincado do que qualquer coisa no Pentágono, e muito mais preciso.
Você tem uma central telefônica. Tem todo tipo de coisa no corpo. Sabe que tem um controle termostático embutido? Quando fica frio demais, você treme, e isso é o seu termostato funcionando. Ele diz: “Agora produza um pouco de calor”, e você começa a tremer.
Quando fica quente demais, você transpira — não sua, transpira. É a maneira pela qual, de algum modo, seu corpo tenta resfriá-lo.
De onde veio tudo isso? De onde veio esse sistema de inteligência no seu corpo, tão notável e tão preciso? Veio da leitura de livros? Não. Seus pais ficaram tocando sem parar algum tipo de fita que lhe dizia como deveria reagir e de que maneira deveria crescer? Não.
Você tem tudo isso na sua vida. Tudo está na sua vida, e tudo já estava ali quando você nasceu. Algumas partes estavam presentes, mas não desenvolvidas, porque você não precisava delas. Porém, à medida que cresceu, desenvolveu-se toda a organização de que precisava para ser um ser humano adequado ao seu tempo.
Entendem o que quero dizer? Toda a organização está dentro de você; por isso, um organismo é sempre contemporâneo. Ele nunca fica para trás; é sempre contemporâneo.
Aqui estou eu, muitos anos depois de ter nascido, mas sou contemporâneo. Talvez vocês não achem, mas sou. Sou contemporâneo. Entendem a palavra contemporâneo? Espero que vocês a usem por aqui.
Em outras palavras, meu corpo é absolutamente contemporâneo. Não estou vivendo lá em 1935. Estou vivendo aqui, em 1975. Tenho um corpo que é inteiramente renovado. Todas as células do meu corpo estão sendo renovadas o tempo todo. Vivo uma vida contemporânea. Tenho um corpo contemporâneo. Tenho uma organização contemporânea.
Algumas coisas tiveram de ser reduzidas porque envelheci, e outras tiveram de ser desenvolvidas para manter tudo contemporâneo.
Ora, essa é a diferença entre uma organização e um organismo. Uma organização é algo que se monta. Ela nunca cresce, a menos que os homens a modifiquem de fora para dentro. A única maneira de atualizar uma organização, digamos, de 1935, é tentar modificá-la de fora para dentro. Ela não cresce a partir de dentro.
Se você tivesse um carro de 1935 — um automóvel, como vocês dizem —, ele ainda seria um carro de 1935 em 1975. É uma organização, mas uma organização estática.
Mas meu corpo é contemporâneo em 1975. Como pode ser? Porque meu corpo tem uma organização que se desenvolve a partir de sua vida.
Agora, a chave de toda essa questão da organização é onde ela tem sua origem. Não podemos prescindir de organização. É tolice pensar que o povo de Deus pode prescindir de toda organização. As coisas precisam ser feitas com decência e ordem. Tem de haver certa medida de organização. Isso é óbvio.
Mas de onde ela vem? De onde ela vem? Tem sua origem na vida de Deus, ou é algo que estamos elaborando e concebendo a partir da Bíblia e impondo à vida de Deus?
Às vezes, vejam, achamos que enxergamos uma fraqueza. Ah, eu poderia falar por uma hora sobre isso, apenas com base em observações e experiências que tive em todo tipo de situação, por toda parte.
As pessoas enxergam uma fraqueza entre o povo de Deus, e é uma fraqueza real. Então começam a conversar, discutir e pensar, pensar, pensar, e discutir mais. Depois olham para a Bíblia, pensam novamente e discutem mais. Talvez, no final, façam uma breve oração.
Então produzem alguma coisa para responder àquela fraqueza. Naturalmente, quando aquilo aparece, parece maravilhoso. Absolutamente maravilhoso. Parece ser uma resposta à fraqueza.
O que fizemos, sem perceber, foi introduzir uma estrutura que não veio da vida. Veio da nossa cabeça. E, no fim, essa estrutura matará a vida de Deus que está dentro. Vai sufocá-la. Vai estrangulá-la. Vai fazê-la sangrar até morrer.
Como um parasita que vive de outra coisa, vai sugar tudo dela até matá-la.
Isso me leva a dizer que tudo está dentro da vida de Cristo. Tudo está dentro da vida de Cristo. A igreja está dentro da vida de Deus. Você não pode montar a igreja.
Esse é todo o perigo dos livros que definem para nós os princípios da igreja. Precisamos enxergar claramente o que são essas coisas, mas o perigo sempre foi o mesmo: assim que algumas pessoas se apropriam disso, dizem: “Agora entendemos. Agora podemos montar tudo”.
“É só juntar algumas pessoas, e teremos isto, e teremos aquilo, e teremos mais aquilo.” Vocês deste lado são extraordinários nisso. Em um instante, já estão a todo vapor. Nós somos muito mais lentos e menos inteligentes do nosso lado do Atlântico.
Mas aqui vocês têm um instinto para os negócios. Assim que enxergam a técnica, o caminho ou a ideia — zás! —, já entraram em ação.
Esse é todo o perigo desse assunto. Tendemos a pensar que qualquer pessoa salva pode montar a igreja; que, de alguma forma, basta conhecer certos ensinamentos, certos princípios, e então começar.
Os princípios são coisas vivas. Estão dentro da vida. O que precisamos fazer é reconhecer um princípio e então cuidar para obedecê-lo. Isso é diferente de tentar estruturá-lo.
Será que vocês entendem o que estou tentando dizer nesta noite?
Qual é o significado de Pentecostes? Aqueles queridos irmãos, os cento e vinte no cenáculo, não tinham o que parecia ser uma igreja perfeita? Cento e vinte crentes salvos em um cenáculo, reunidos em torno de um Cristo ressuscitado, com uma Bíblia aberta e doutrina pura. Creio que já disse isso antes, quando começamos este período juntos.
Não poderíamos ter pedido mais.
Mas algo aconteceu no dia de Pentecostes que pertencia a uma esfera inteiramente diferente. Quando o Espírito Santo veio, qual foi o significado de Sua vinda? Que pudéssemos falar em línguas? Que pudéssemos ter dons? Que pudéssemos ter manifestações?
Meu querido amigo, todas essas coisas podem ser verdadeiras, mas esse não é o significado da vinda do Espírito Santo. Essas coisas são as evidências, ou os recursos concedidos. Qual é a finalidade? A finalidade era esta: dentro da vida de nosso Senhor ressuscitado, transmitida a nós pelo Espírito Santo, de repente descobrimos que a igreja veio à existência.
Em outras palavras, foi a vida ressurreta de nosso Senhor glorificado que, pelo Espírito Santo, entrou em cento e vinte membros daquele grupo e os transformou em cento e vinte membros do corpo. Daquele momento em diante, eram parte integrante uns dos outros. Pertenciam a Cristo e uns aos outros. Compartilhavam de uma maneira como nunca haviam compartilhado antes.
Agora estavam em contato vivo com a Cabeça. Agora podiam receber direção da Cabeça. Lenta, mas seguramente, uma organização começou a se desenvolver. Mas é interessante observar o tipo de organização e a maneira como se desenvolveu: tudo veio da vida de Deus.
Em outras palavras, foi a comunhão que veio com o Espírito Santo. Como lemos em 1 Coríntios 1:9:
Fiel é Deus, por Quem fostes chamados à comunhão de Seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor.
O padrão da igreja, os dons necessários para a edificação da igreja, as funções do corpo — tudo isso está dentro dessa vida de Cristo.
Quando conseguimos enxergar a vida de Cristo fluindo pelos membros do corpo, começamos a ver o desenvolvimento de um padrão. As pessoas ficam tão presas a essa questão de presbíteros e diáconos! Ah, por toda parte há essa concentração no pastoreio e em tudo o mais: “Precisamos ter presbíteros. Precisamos ter pastores. Precisamos ter isto. Precisamos ter aquilo”.
Ah, meu querido, querido amigo, a primeira coisa com que precisamos nos preocupar é amar uns aos outros, cuidar uns dos outros. E, à medida que compartilhamos essa vida e realmente nos submetemos, por assim dizer, uns aos outros, Deus, por Seu Espírito, levanta aqueles que devem assumir responsabilidade entre nós, e todos saberemos quem são. Não haverá dúvida alguma a respeito.
A tragédia é esta: você pode começar a fazer de pessoas presbíteros, sem que elas sejam presbíteros. Pode começar a fazer de pessoas diáconos, sem que elas sejam diáconos. Pode começar a fazer de pessoas apóstolos, sem que elas sejam apóstolos.
Há pessoas que chegam até nós dizendo: “Eu sou apóstolo”. Deus nos ajude.
“Ah, eu sou apóstolo.”
“É mesmo?”
“Sim, sim. Fulano impôs as mãos sobre mim e me separou. Sou apóstolo.”
Não tenho dúvida de que há ocasiões em que se devem impor as mãos sobre pessoas e reconhecê-las. Não é de admirar que o apóstolo Paulo diga, em 1 Timóteo 5:22:
A ninguém imponhas precipitadamente as mãos.
Deem tempo ao desenvolvimento orgânico, para que possamos ver algo acontecendo nessas pessoas. Ah, existe um padrão. Não se enganem a esse respeito: existe um padrão para a igreja.
As pessoas sempre dizem que o padrão metodista se encontra na Bíblia, que o padrão batista se encontra na Bíblia e que o padrão presbiteriano se encontra na Bíblia. Dizem que o padrão episcopal se encontra na Bíblia, que o padrão dos Irmãos se encontra na Bíblia e que o padrão pentecostal se encontra na Bíblia. Todos esses padrões se encontram na Bíblia. Incrível, não é?
Estou absolutamente certo de que nosso Senhor, Cujo conhecimento não era limitado de maneira alguma, poderia ter esclarecido toda essa questão dando-nos um simples capítulo no Novo Testamento que tratasse exclusivamente do padrão da igreja, de uma vez por todas. E Ele nunca o fez.
É por isso que temos um padrão construído sobre uma coisa, outro padrão construído sobre outra e outro padrão construído sobre outra — e tudo são fragmentos do padrão. Por quê? Vocês não acham que nosso Senhor, se estava tão interessado na edificação da igreja, poderia ter nos comunicado tudo isso com clareza? É claro que poderia.
Mas o que nosso Senhor estava tentando nos dizer era isto: tudo isso é uma questão espiritual. Está dentro da vida, e aquilo com que devemos nos preocupar é a vida — a vida de ressurreição de pelo menos dois ou mais membros de Cristo. Quando começarmos a nos preocupar com isso, então, por fim, o padrão se desenvolverá.
Eu lhes disse isso alguns anos atrás — talvez tenha dito no ano passado. Vou dizer novamente, porque precisa ser dito repetidas vezes.
Se eu pegasse algumas coisas e as colocasse diante de vocês — um bulbo de narciso e um bulbo de cebola —, eles pareceriam tão semelhantes. Como é que, quando planto um bulbo de cebola e um bulbo de narciso, o narciso nasce como narciso e a cebola como cebola? Vocês não achariam que, de vez em quando, eles poderiam se enganar?
Você pode pegar um bulbo de narciso e plantá-lo em um campo com um milhão de cebolas. O milhão de cebolas nascerá como cebolas, e aquele único e pequeno bulbo de narciso, completamente sozinho no meio do campo, nascerá como narciso.
Vocês não achariam que aquele bulbo, tão parecido com aquele milhão de cebolas, pensaria: “Bem, sou tão parecido com elas; vou ser uma cebola”?
Qual é a chave de tudo isso? A chave é esta: o narciso tem um padrão dentro de sua vida. Tem vida de narciso. A cebola tem vida de cebola. O padrão está na vida. Entendem? Está tudo na vida.
Assim que a vida começa a se desenvolver e crescer, você tem o padrão.
Aprendemos essa lição entre nós de maneira tão profunda e tão dolorosa. Quando começamos, anos atrás, éramos inexperientes ao extremo. A única coisa que fazíamos era buscar o Senhor a respeito de tudo. Mas, nesse assunto, naturalmente estávamos muito impressionados com o que víamos nas Escrituras.
Começamos a perguntar ao Senhor sobre presbíteros e diáconos, porque víamos na Bíblia que havia presbíteros e diáconos. Ao buscarmos o Senhor, percebemos: “Bem, eles oraram e jejuaram”. Então tivemos duas semanas de oração e jejum.
Ao final daquelas duas semanas de oração e jejum, três homens foram constituídos presbíteros e quatro homens foram constituídos diáconos. Não poderíamos ter tido um padrão de igreja mais perfeito, nem poderíamos ter produzido esse padrão de maneira mais espiritual. Afinal, não são tantas as pessoas que jejuariam e orariam durante duas semanas.
Oramos e jejuamos por duas semanas, e terminamos com três presbíteros e quatro diáconos. Tudo prosseguiu tranquilamente por um ou dois anos. As pessoas diziam que tudo parecia certo e bom.
Mas, depois de um ou dois anos, comecei a perceber — e creio que um dos outros também percebeu — uma espécie de tremor, uma espécie de abalo espiritual, bem no fundo da própria vida daquele grupo do povo de Deus.
Isso culminou, em certo outono, com treze de nós, irmãos, passando juntos um dia de jejum e oração para buscar o Senhor. No escritório da Halford House, havia sobre a mesa um recipiente para germinar uma bolota. Era um daqueles pequenos recipientes em que você coloca uma bolota de carvalho e pode observá-la crescer. Você vê as raízes surgirem e depois vê a planta crescer para cima.
Na metade do dia, eu estava com os olhos abertos durante a oração. Olhei para o recipiente de vidro e vi a bolota sobre a mesa. Enquanto olhava para ela, o Senhor me disse: “Essa é a resposta à sua oração”.
Olhei com muita atenção para aquele recipiente com a bolota. Pensei: “Agora estou ficando louco”. Mas, novamente, a voz me disse: “Essa é a resposta à sua oração”. Então olhei outra vez para a bolota.
Então o Senhor disse: “Você está vendo a bolota? O padrão que vocês têm é como aquela casca exterior — perfeito —, mas é estático. Dentro dessa bolota há vida, e essa vida tem em si o padrão de um carvalho”.
“Essa vida interior, se vocês permitirem, romperá a casca exterior e crescerá, tornando-se um carvalho capaz de reproduzir outros carvalhos.”
Então enxerguei tudo em um instante. Havíamos produzido, pelos meios mais espirituais possíveis — jejum e oração —, um padrão.
Não sabíamos o que fazer. Compartilhei isso com os irmãos. Todos oramos a respeito. Tornamo-nos unânimes e buscamos o Senhor: “O que faremos com esse padrão que produzimos?”
Sentimos que a coisa certa a fazer era entregar tudo a Deus, e foi o que fizemos.
Chegou aquele domingo maravilhoso em que, um após outro, todos os que tinham responsabilidade foram, de certa forma, saindo de cena. Uma moça que tocava piano era presbítera. Ela também tocou — aquilo soou como uma mistura de briga de gatos e música desafinada. Tentou novamente, e ficou pior. Então parou de vez, chorando, e disse que não conseguia mais tocar. Foi assim que ela saiu de cena.
Um dos irmãos que tinha um dom de línguas bastante expressivo se levantou, e o que saiu dele não era nem uma língua nem inglês. Certamente não foi impressionante. Ele parou e começou novamente; então, completamente constrangido, sentou-se. Foi assim que ele saiu de cena.
Terminamos aquele domingo com um presbítero e um diácono. Então dissemos: “Bem, isso já não é um padrão do Novo Testamento”. Assim, tudo aquilo foi deixado de lado, e todos nos tornamos irmãos.
Então aconteceu a coisa mais extraordinária. Quando todos voltamos a ser irmãos e simplesmente nos comprometemos uns com os outros no Senhor, o Senhor começou a fazer coisas bastante notáveis. Pessoas de quem menos esperávamos começaram a se destacar no ano seguinte, muito acima das demais.
O ponto era que o padrão que tínhamos estava impedindo o desenvolvimento orgânico. Aquilo estava produzindo um efeito. Vejam, não estamos tratando de algo que seja apenas um conto de fadas. Estamos tratando de realidades.
Isso estava acontecendo nas profundezas daquele grupo. Era a vida orgânica que havia esbarrado na casca exterior e não conseguia atravessá-la, porque havíamos imposto a estrutura. A única maneira de ela passar era rompendo tudo aquilo.
Ora, tenho visto mais obras que, creio eu, eram de Deus em seu início serem arruinadas por essa obsessão com presbíteros e diáconos, essa obsessão com o pastoreio, do que por qualquer outra coisa. Você pode constituir pessoas como presbíteros; é muito difícil “despresbiterizá-las”.
Essas coisas deveriam entrar na própria corrente da nossa vida. Ah, eu gostaria de continuar falando sobre esse assunto, mas, se vamos abranger o que desejo abordar nesta noite, realmente não podemos.
Meu ponto é simplesmente este: dentro da vida de Cristo, vocês têm todo o padrão da igreja. Quando nos preocuparmos em assegurar que a vida do Senhor Jesus esteja fluindo por nós, o padrão virá. E os dons também.
À medida que nos apegarmos à Cabeça pelo Espírito Santo, encontraremos o corpo, e o corpo crescerá com o crescimento de Deus. O corpo edificará a si mesmo em amor. Todas essas funções e todos esses dons necessários virão.
Houve ocasiões em que ficamos profundamente preocupados, na obra entre nós, com certas fraquezas. Pela graça de Deus, Ele nos impediu, todas as vezes, de estruturar alguma coisa, sistematizar alguma coisa ou, de algum modo, combater aquela fraqueza por esses meios. Em vez disso, o que fizemos foi ter uma semana de oração.
Fomos muito francos com todo o grupo. Dissemos: “Teremos um dia inteiro de oração e jejum. Teremos uma semana de oração. Vamos nos dedicar a isso. Diremos ao Senhor que há uma fraqueza”.
Quando sentimos que há, em nosso grupo, falta de disciplina ou de relacionamento em algum ponto específico, então dizemos isso como irmãos. Depois dizemos ao grupo: “Sentimos que agora precisamos nos colocar diante do Senhor e pedir a Ele: ‘Senhor, faze alguma coisa a respeito desta fraqueza entre nós’”.
Deus nos tem preservado de tentar, de alguma forma, responder a essas fraquezas com nossas próprias soluções espirituais e bíblicas. Em vez disso, temos visto o Espírito de Deus intervir e relacionar as pessoas umas com as outras.
Veja, querido filho de Deus, tudo volta a essa questão de Cristo como Cabeça. Tudo vem desse princípio de autoridade. Quando realmente enxergamos que Ele foi constituído Cabeça sobre todas as coisas para a igreja, ao percebermos fraquezas, recorreremos à Cabeça.
Diremos à Cabeça: “Agora, Senhor, cremos que isto, isto e isto precisam ser feitos. Libera algo do céu. Faze alguma coisa a respeito deste assunto”.
Vocês estão começando a entender o que quero dizer? Não teríamos sido poupados de algumas inovações, de algumas coisas que destruíram verdadeiras obras de Deus, se, em vez de apenas tentar responder à falta de vivacidade em nossas reuniões, à impureza em nossas reuniões, à falta de ministério em nossas reuniões, tivéssemos nos ajoelhado e pedido ao Senhor que fizesse alguma coisa?
Se tivéssemos compreendido o que o Senhor disse em Mateus 9:38:
Rogai, pois, ao Senhor da seara que envie trabalhadores para a Sua seara.
Por favor, virem a fita cassete neste ponto.
Esse é o princípio. Então Ele envia trabalhadores para a Sua seara. Se percebemos que há necessidade de ministério entre nós, por que não nos reunimos e dizemos: “Senhor, Senhor, trata daquilo que está Te impedindo de levantar ministério entre nós, seja o que for”?
Vamos ao cerne da questão. Pelo próprio ato de estarmos juntos no Senhor e orarmos juntos, encontramos uns aos outros no Senhor. Isso é comunhão verdadeira. É comunhão verdadeira.
A Cabeça nos transmitiu, pelo Espírito, a percepção de uma fraqueza. Começamos a enxergar uma área de fraqueza e, em vez de tentar respondê-la imediatamente por nós mesmos, voltamos à Cabeça e dizemos: “O que queres que façamos? Há uma dor aqui. Há uma área de paralisia aqui no corpo. O que queres que façamos?”
E a Cabeça sempre tem uma resposta. Às vezes, é simplesmente: “Esperem”, e Ele agirá. Às vezes, é tomar alguma atitude que Ele nos mostrará. Mas vocês estão começando a entender meu ponto?
As pessoas frequentemente chegam até mim e perguntam se sou carismático. Eu digo categoricamente: “Certamente sou carismático”. Quero saber o que elas querem dizer com carismático. Normalmente querem dizer: “Você fala em línguas?”
Então digo que as Escrituras afirmam com muita clareza, em Romanos 6:23:
Porque o salário do pecado é a morte; mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.
A palavra traduzida por “dom gratuito” é charisma. Todos os dons estão na vida de nosso Senhor.
Todo aquele que nasceu de Deus é carismático. Então esqueçam essa história de ser carismático. Vocês todos são carismáticos, ótimo. O que alguns de nós talvez precisem é que o Espírito Santo venha sobre nós e seja a força propulsora do dom, para que aquilo que está dentro da vida venha para fora.
A palavra para dom espiritual, naturalmente, é pneumatika. Em 1 Coríntios 14:12, essa é a palavra. Muitas vezes me perguntei o que aconteceria se todos fôssemos chamados de pneumáticos em vez de carismáticos.
Alguém diz: “Você é pneumático?”
“Sou. Sou carismático e pneumático. Sou calvinista. Sou um Irmão de Plymouth pentecostal. Sou batista com convicções luteranas e um calvinista que, às vezes, enxerga a necessidade da responsabilidade humana.”
Bem, esqueçam isso. Sou um crente, e vocês também não são? Se estamos no corpo de nosso Senhor Jesus Cristo, descobriremos que todas essas barreiras e ênfases são demais para nós. Realmente, não consigo acomodá-las todas dentro de mim.
Tudo o que posso fazer é ser aquilo que Deus me fez em Cristo. Tudo o que você pode fazer é ser aquilo que Deus fez de você em Cristo. Mas, quando nos reunimos, temos uma plenitude.
Ah, que Deus nos ajude nessa questão dos dons! Precisamos deles. Precisamos deles. Precisamos do dom da fé. Precisamos de palavras de sabedoria e de conhecimento. Precisamos do discernimento de espíritos. Precisamos de profecia. Precisamos dessas coisas.
Precisamos desesperadamente da manifestação do Espírito, especialmente à medida que avançamos cada vez mais nesta última fase da história do mundo.
Sem a vida de Cristo, não podemos ter o que é orgânico. Você pode ter organização, mas, sem a vida de Cristo, é impossível ter o que é orgânico.
Isso me leva a dizer simplesmente isto: não pode haver vida de ressurreição sem a cruz.
Meu querido amigo, por que todos nós somos tão capazes de produzir uma estrutura que não é orgânica e, assim, frustrar nossos próprios desejos mais profundos de ver a casa de Deus edificada? Como é que somos tão capazes disso?
A capacidade de produzir sistemas, de reduzir as coisas a técnicas, métodos ou regulamentos é algo que exercemos naturalmente. Pertence à nossa vida natural. É o que somos por natureza.
Ver algo orgânico significa que precisamos conhecer a vida de Cristo fluindo por nós. Não podemos conhecer a vida de Cristo fluindo por nós sem conhecer a morte de Cristo em nossa experiência. Aqui está o nosso dilema, querido filho de Deus. Este é o nosso dilema.
O problema não é como viver, mas como morrer.
Esse é o problema que todos nós enfrentamos, e que enfrentam todos os grupos representados nesta sala. Continuamente, pessoas chegam e dizem: “Ah, se ao menos pudéssemos conhecer a vida, se ao menos pudéssemos conhecer a vida”. Mas esse não é o problema. O problema é como podemos morrer.
Vou lhes dizer isto, com tanta certeza quanto estou aqui em pé nesta noite — com uma certeza ainda maior do que a de estar aqui nesta noite: se uma pessoa morrer, Deus cuidará da ressurreição. Onde dois ou mais membros de Cristo se entregarem deliberadamente à morte do Senhor Jesus Cristo, Deus cuidará da ressurreição.
Agora vocês entendem por que as pessoas dizem que somos todos místicos. É muito mais fácil, não é, produzir uma estrutura? Muito mais fácil produzir um sistema.
Simplesmente precisamos examinar algumas passagens das Escrituras, pensar juntos e ter um pouco daquilo que se chama comunhão, e podemos produzir algum tipo de estrutura, algum tipo de regulamento, algum tipo de técnica. Podemos estudar isso por toda parte. Podemos escrever livros sobre isso, fazer todo tipo de coisa.
Mas, meu querido amigo, se o que digo é verdade — que o padrão está na vida de Cristo, que os dons estão na vida de Cristo, que as funções estão na vida de Cristo, que a própria igreja está dentro da vida de Cristo e que a comunhão está na vida de Cristo em mais de um crente —, então a grande necessidade é conhecer a vida de ressurreição.
Você não pode conhecer a vida de ressurreição sem a morte. Não pode morrer senão pelo Espírito.
Se acha que consegue morrer, tente. As pessoas estão sempre chegando até mim e dizendo: “Ah, preciso morrer. Preciso morrer”. Pois bem, morra. Tente.
As pessoas dizem: “Você poderia me indicar um livro sobre como morrer?” Ele só vai deixar você ainda mais sobrecarregado. Posso lhe dar inúmeros livros que falarão sobre a necessidade de morrer. Mas como morrer?
Nosso Senhor disse, em João 12:24:
Se um grão de trigo não cair na terra e morrer, permanece só;
Mas, se morrer, produz muito fruto.
O vento é a única coisa que faz o grão cair na terra. O Espírito de Deus é o Único que, depois de você enxergar a necessidade de morrer, pode conduzi-lo ao lugar em que você cai na terra e morre.
Talvez Ele use seus irmãos e irmãs. Talvez use suas circunstâncias. Talvez use seu emprego. Talvez use alguns parentes desagradáveis. Talvez, talvez, talvez. Mas Ele usará algo como o vento de Deus. O vento virá e sacudirá você. Se estiver pronto, porque enxergou a necessidade, você cairá na terra e morrerá.
Como o Senhor Jesus morreu? Pelo Espírito eterno, Ele ofereceu a Si mesmo a Deus, sem mancha nem defeito. Se nosso Senhor Jesus não pôde morrer na cruz à parte do ministério do Espírito Santo, quanto mais você? Como poderá conhecer a morte de Cristo, senão pelo Espírito Santo?
Caso contrário, tudo se torna um peso miserável. As pessoas andam por aí com semblante sombrio. Como dizem na Noruega: “É mais fácil usar meias pretas e ter um coração puro”.
O fato é este: você pode pregar a cruz, pregar a cruz, pregar a cruz e pregar a cruz até que, no fim, ela se torne uma coisa em si mesma. Todos ficam sobrecarregados, todos tentam morrer, e ninguém consegue morrer.
No fim, somente o Espírito de Deus pode capacitar as pessoas a morrer. Ninguém pode morrer por si mesmo. Você precisa querer fazer a vontade de Deus, mas não consegue morrer.
Quantas vezes fiquei preso naquele maravilhoso hino que cantamos nesta manhã:
Ó Deus, a Ti levanto a cabeça;
Não ouso pedir provisão para mim.
Deponho no pó, morta, a Tua glória,
Para que do chão floresça, rubra,
A vida que não terá fim.
É aí que posso ficar preso. Vocês não?
Há momentos em que você sabe que deveria morrer. Há momentos em que sabe que deveria entregar sua vida. Há momentos em que sabe que deveria perder sua vida. Há momentos em que sabe que deveria negar a si mesmo. Mas não consegue. O próprio conhecimento de que deveria fazê-lo apenas aumenta sua aflição.
Ah, nós, pobres cristãos!
Mas, quando o Espírito de Deus vem soprando e estamos prontos, então fazemos aquilo que não podemos fazer naturalmente.
Ah, querido filho de Deus, o que significa Filipenses 3:10?
Para que eu O conheça, e o poder da Sua ressurreição, e a comunhão dos Seus sofrimentos, conformando-me à Sua morte.
O que significa ser feito conforme à Sua morte — conformado à Sua morte?
Não é de admirar que vejamos tão pouco da vida da igreja. Não é de admirar que vejamos tão pouco da expressão do corpo de Cristo. Não é de admirar que experimentemos tão pouco da comunhão verdadeira.
O problema é que tudo isso não está fluindo da vida de Cristo. Para que a vida de Cristo realmente flua, é necessária a morte da cruz.
Agora, entendam-me bem nesse assunto. Recebemos vida por meio da morte de nosso Senhor Jesus Cristo. Mas, para experimentar a vida fluindo por nós, precisamos conhecer o que é estar crucificado com Cristo.
É pelo Espírito que fazemos morrer as obras do corpo. Ah, queridos, o problema não é como viver; é como morrer.
Não tenho dúvida de que há mil situações representadas neste lugar nesta noite, e cada uma delas seria resolvida por meio da morte — alguma medida de morte.
Agora, posso dizer algo aqui, já que estou falando de comunhão, e não apenas de vida pessoal, crescimento pessoal ou caráter?
O fato é que, se você e eu vamos conhecer a vida da igreja, se vamos conhecer a comunhão, então dois ou mais irmãos ou irmãs precisam morrer pelo Espírito.
Agora quero dizer algo que espero que, para alguns de vocês, tire tudo isso da esfera de um problema: Deus nem sequer exige que todos morram, mas um núcleo precisa morrer pelos demais.
Agora vocês me entendem? Caímos nessa armadilha e dizemos: “Você quer dizer que todos precisam morrer? Que todos precisam descer? Eles nunca farão isso”. Não, nunca farão.
Quem estiver procurando a igreja perfeita nunca a encontrará. Foi Moody quem disse: “Quando você entrar nela, ela será imperfeita”.
Todos temos isso: todos estamos procurando a igreja perfeita. Meu querido amigo, Deus nunca pretendeu que a igreja fosse perfeita aqui embaixo. A própria evidência de que ela é a igreja está em ser imperfeita, mas estar sendo aperfeiçoada.
Como você pode ter uma igreja perfeita aqui embaixo? Se todos os crentes se reunissem em uma determinada localidade, teríamos todo tipo de problema. Teríamos os coxos, os paralisados, os rebeldes e a turma dos difíceis, dos quais Deus salvou muitos. Teríamos pessoas de todo tipo e condição. Teríamos jovens e idosos.
O que é necessário? O necessário é isto: não que todos morram — embora Deus saiba como seria maravilhoso se isso pudesse acontecer.
O que Deus deseja — escutem isto, meus queridos irmãos responsáveis —, se vocês querem ver comunhão verdadeira na região em que vivem, se querem ver a casa de Deus edificada, se querem ver o corpo do Senhor Jesus Cristo expresso, se querem ver algo que tenha equilíbrio, meus queridos amigos, é que vocês, os responsáveis, morram.
Vocês podem ter as pessoas mais difíceis do mundo em seu grupo. Isso não faz diferença. Afinal, todo grupo tem o diabo.
Você pode ter a pessoa mais difícil do mundo inteiro em seu grupo, mas, se apenas aprender a morrer, Deus usará as pessoas difíceis para fazer algo em seu grupo.
Nosso tempo está quase acabando. Gostaria de poder dizer algo agora sobre as dores de parto.
Depois de dizer algo sobre esse outro assunto, o fato é que, se você e eu queremos ver o que é orgânico realmente surgir, isso precisa nascer. Se há de nascer, é necessário que haja aqueles que sofram as dores de parto.
Agora chegamos ao dilema de Deus, se podemos falar assim, de Deus ter um dilema. É este: bebês não podem sofrer dores de parto, nem crianças. É preciso haver certa maturidade, certa capacidade.
O apóstolo Paulo diz em Gálatas 4:19:
Meus filhinhos, por quem de novo sofro as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós.
De novo sofrendo as dores de parto. Portanto, ele primeiro sofreu essas dores por eles quando vieram a Cristo, quando nasceram de Deus. Isso não era um evangelismo superficial. Aqui estava alguém que sofreu dores de parto por essas pessoas, para que o testemunho de Jesus viesse a existir naquele lugar.
Aqui estava um evangelismo com uma maravilhosa visão panorâmica do propósito de Deus. Mas: “Meus filhinhos, por quem de novo sofro as dores de parto”.
Sabem qual é o problema? Somos todos bebês. Onde Deus pode encontrar aqueles que sofrerão as dores de parto? O grupo inteiro não pode sofrer essas dores.
Deus precisa encontrar aqueles que tenham maturidade suficiente, capacidade espiritual suficiente, e que não apenas tenham entregado a própria vida — porque isso vai além de entregar a própria vida. Entregar a vida é uma coisa; um passo além é estar pronto para as dores de parto.
Não seria fácil se aqueles irmãos responsáveis entre nós só precisassem entregar a própria vida uma vez, quando a igreja viesse à existência? Ah, como seria maravilhoso se pudéssemos resolver tudo em alguns meses!
Quero dizer algo a vocês, queridos responsáveis: vocês terão de entregar a própria vida de uma vez por todas, e terão de entregá-la não uma vez apenas, mas de novo, e de novo, e de novo, e de novo, e de novo.
Para que a igreja de Deus seja edificada, para que a igreja de Deus cresça com o crescimento de Deus, para que a vida de Deus flua, para que o que é orgânico seja realmente conhecido entre vocês.
Então, querido, querido povo de Deus, há alguns de vocês que são um pouco mais maduros no Senhor, e Deus os está preparando para um ministério de dores de parto. Que Deus nos ajude nestes dias que temos pela frente. Não temos tanto tempo.
Este é o dilema de Deus: encontrar capacidade espiritual e visão suficientes nas quais o Espírito Santo possa conceber algo.
Então, creio que devo encerrar. Quero terminar com uma nota um tanto negativa. Quero falar do terrível perigo de violar esse princípio.
É muito mais fácil produzir um sistema ou uma estrutura, regulamentos ou uma técnica, do que andar pelo Espírito e ser guiado pelo Espírito. Que condenação isso representa!
É muito mais fácil, querido filho de Deus, simplesmente produzir algo que seja bíblico, fundamentado nas Escrituras, mas que não venha da vida de Deus, do que realmente andar pelo Espírito.
Conheço pessoas — agora, deixem-me dizer isto: creio na cura —, mas conheço pessoas que estabeleceram alguma regra sobre a cura. Ah, é muito mais fácil ter uma regra sobre a cura. A regra é que todos devem ser curados. Esperem um pouco.
É muito mais fácil ter uma regra porque você não tem problemas — bem, por algum tempo não tem problemas. Depois, os problemas aparecem, problemas muito reais. Então você precisa justificá-los e dizer: “Bem, naturalmente, a pessoa estava em pecado”, ou: “A pessoa não tinha fé”.
Ou então você tem outras doutrinas extraordinárias, como a cura adiada, que significa que, quando a pessoa morre, é curada.
Ora, considero isso a coisa mais incrível que já ouvi. Um médico da Harley Street me falou sobre cura adiada. Eu disse: “O que você quer dizer? Quando morrem, são curados?”
Depois eu disse: “Você quer dizer, então, que algumas pessoas entram no céu com doenças, enquanto outras são curadas?” Todos nós somos curados quando morremos, graças a Deus.
É muito mais fácil seguir uma regra sobre a cura do que seguir o Espírito.
O que significa Tiago 5:15?
A oração da fé salvará o enfermo.
Significa que a oração da fé foi concedida; que, quando a oração da fé é concedida, Deus sempre age — quando ela realmente é a oração da fé. Deus sempre age. Mas ela veio do céu, pelo Espírito, para dentro de nós.
A história da igreja está cheia de tragédias: coisas que aparentemente começaram em vida e terminaram em morte; estruturas, sistemas, técnicas e métodos, todos introduzidos de maneira aparentemente bíblica para tentar suprir alguma fraqueza, alguma morte ou algum empobrecimento espiritual.
Na época, enquanto o número de pessoas crescia e tudo parecia avançar, tudo parecia maravilhoso. Mas aquilo acabou por desfazer aquele mover do Espírito de Deus. A estrutura assumiu o controle e o matou.
Quando esse princípio é violado, há fraqueza, há paralisia, há engano e há morte.
O que quero dizer com engano? Quero dizer isto: quando violamos esse princípio, quando começamos a constituir presbíteros ou apóstolos, ou seja lá o que façamos, estamos dando às pessoas títulos que Deus não reconhece. É um engano.
Um homem foi chamado de apóstolo, e Deus nunca o fez apóstolo. Um homem foi chamado de presbítero, e o céu nunca o fez presbítero. Um homem foi separado como diácono, e ele não é diácono. Chama-se uma coisa por um nome que não corresponde ao que ela é. É um engano.
Em vez de buscar o Senhor, consultar o Senhor, esperar no Senhor por uma nova liberação de vida divina, produzimos nossa própria resposta à necessidade. Que Deus nos ajude.
Precisamos do Senhor, e precisamos muito Dele. Pensei, nesta noite, em falar sobre esse princípio, o princípio orgânico. Não é um princípio fácil de abordar. Normalmente, as pessoas nos acusarão de misticismo quando falarmos nesses termos.
Meus queridos amigos, isso não é misticismo; é prática espiritual.
Qual é o sentido de ter um sistema, uma estrutura, uma técnica, um conjunto de métodos, um livro de regulamentos, quando a própria coisa se torna a morte da obra de Deus? Isso não é falta de praticidade? Isso é bom senso? Nunca.
O bom senso espiritual é reconhecer que precisamos da vida de Deus. Precisamos de mais da vida de Deus. Precisamos da vida de Deus em abundância. Precisamos de um transbordar da vida de Deus.
A única maneira de tê-la é conhecer o que significa entregar nossa vida pelo Senhor e pelos irmãos. Somente o Espírito de Deus pode nos capacitar a fazer isso.
Se não houvesse nenhuma outra razão, cada um de nós deveria buscar uma nova liberação do Espírito Santo sobre nós.
Vamos orar?
E agora, Senhor, entregamos todo este tempo em Tuas mãos. Ah, preserva-o, Senhor, de mal-entendidos, de interpretações equivocadas e de conclusões extraídas do que foi dito que sejam incorretas ou erradas.
Querido Senhor, pedimos que, pelo Teu Espírito Santo, nos convenças. Ó Deus, convence-nos, nós Te rogamos. Convence-nos, Senhor, da necessidade, em nossa vida, de conhecer a morte da cruz, para que também conheçamos o que significa andar em novidade de vida.
Ó Deus, convence-nos da necessidade de abrir mão da nossa vida, de perder nossa vida por Tua causa e por causa do evangelho, para que possamos encontrá-la.
Convence-nos, Senhor, da necessidade de cairmos na terra, para que, Senhor, haja muito fruto.
Ah, Pai, preserva-nos de falar sobre a igreja, sonhar com a igreja, sonhar com a igreja e nunca experimentar a igreja.
Senhor, opera. Ah, nós Te pedimos em nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.