Em Efésios 4:1:
Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno do chamado com que fostes chamados.
“Eu, o prisioneiro no Senhor.” Em Efésios 3:1, Paulo havia falado de si mesmo como prisioneiro do Senhor. Agora ele dá um passo adiante e fala de si mesmo como prisioneiro no Senhor. Temos aqui a imagem de alguém reinando com Cristo. Ele encontrou uma dimensão, uma esfera de glória, no Senhor. Embora seja prisioneiro, ele se considera um prisioneiro no Senhor.
Ele diz que devemos andar de modo digno do chamado com que fomos chamados. Depois, em 1 Tessalonicenses 2:12:
Para que andeis de modo digno de Deus, Que vos chama para o Seu próprio reino e glória.
Para que vocês andem de modo digno de Deus, Que os chama para o Seu próprio reino e glória. Agora, lembrem-se do que dissemos ontem à noite sobre o reino. Todos nós nascemos no reino; todos somos súditos do reino. O que significa, então, andar de modo digno de Deus, Que nos chama para o Seu próprio reino? Deve significar mais do que simplesmente estar sob um governo.
Certamente, traz este pensamento: fomos chamados à Sua própria realeza e glória, a reinar com Ele.
Vejam agora Filipenses 3:13-14:
Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado ainda; mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que estão diante de mim,
Prossigo para o alvo, para o prêmio do supremo chamado de Deus em Cristo Jesus.
Literalmente, o chamado do alto em Cristo Jesus. Vocês perceberam isso? Ele fala de algo aqui: em direção ao alvo, para o prêmio do chamado do alto em Cristo Jesus.
Há algo aqui pelo qual, segundo o apóstolo Paulo, vale a pena considerar tudo como refugo. Ele fala de ganhar Cristo, de ser achado em Cristo. No entanto, bem poderíamos dizer: “Paulo, você está salvo. Você já está salvo. Você já ganhou Cristo. Cristo já é seu. Por que, então, nesse maravilhoso terceiro capítulo de Filipenses, ele fala de deixar para trás as coisas que ficaram e prosseguir para o alvo, para o prêmio desse chamado do alto em Cristo Jesus?”
Bem, creio que ontem à noite procurei, na medida em que o Espírito Santo me capacitou, mostrar a vocês que esse chamado de Deus não diz respeito apenas a ser salvo. Não diz respeito apenas a conhecer o Senhor. Não se trata sequer de conhecer os recursos do Senhor, de conhecer a união com Deus em Cristo. Não se trata sequer de sermos edificados juntos, embora isso seja uma parte muito importante.
Trata-se de aprendermos, tendo sido salvos, conhecendo o Senhor Jesus Cristo, em união com Ele, experimentando os Seus recursos e sendo edificados juntos como Sua morada eterna, a reinar com Ele. De aprendermos a administrar a vontade e o pensamento de Deus, a possuir o reino, a realmente fazer valer o trono de Deus sobre a terra e sobre as circunstâncias em que nos encontramos.
Gostaria de levá-los a mais algumas passagens das Escrituras relacionadas a esse assunto. 2 Tessalonicenses 1:5:
Isso é sinal evidente do justo juízo de Deus; para que sejais considerados dignos do reino de Deus, pelo qual também sofreis.
Ora, o reino de Deus nos foi dado pela graça. Nascemos nele pela graça de Deus. Não é pelas obras; não é pelo nosso zelo; não é pela nossa devoção. Por que, então, diz que devemos ser considerados dignos do reino de Deus, pelo qual também sofremos?
Deve haver este outro pensamento aí: que sejamos considerados dignos da realeza de Deus, pela qual também sofremos; que sejamos considerados dignos desse poder de governar e exercer autoridade.
Vejam também 2 Pedro 1:11:
Porque assim vos será amplamente concedida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
Não é uma palavra interessante? “Porque assim vos será amplamente concedida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.” Nascemos de Deus. Nesse sentido, estamos no reino de Deus. Mas aqui o apóstolo Pedro fala de uma entrada amplamente concedida no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
2 Timóteo 4:18:
O Senhor me livrará de toda obra maligna e me salvará para o Seu reino celestial: a Ele seja a glória pelos séculos dos séculos. Amém.
Livrado de toda obra maligna e preservado para o Seu reino celestial. Você está sendo preservado para o Seu reino celestial? Está correndo o risco — não de perder a sua salvação, mas de perder o seu lugar no governo de Deus?
Atos 14:22 diz:
Fortalecendo as almas dos discípulos, exortando-os a permanecer na fé e dizendo que, por muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus.
Romanos 8:15-17 diz:
Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes em temor; mas recebestes o Espírito de adoção, pelo Qual clamamos: Aba, Pai.
O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus:
E, se filhos, também herdeiros; herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo; se com Ele sofremos, para que também com Ele sejamos glorificados.
2 Timóteo 2:12:
Se perseverarmos, também com Ele reinaremos.
Se perseverarmos, também com Ele reinaremos.
Agora quero que vejam outras duas passagens que não estão no quadro. 1 Coríntios 9:23:
E tudo faço por causa do evangelho, para dele também ser participante.
Não sabeis vós que os que correm numa corrida correm todos, mas um só recebe o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis.
E todo aquele que compete nos jogos exerce domínio próprio em todas as coisas. Eles o fazem para receber uma coroa corruptível; nós, porém, uma incorruptível.
Eu, portanto, assim corro, não sem direção; assim luto, não como quem golpeia o ar:
Mas esmurro o meu corpo e o reduzo à servidão; para que, depois de ter pregado a outros, eu mesmo não venha a ser reprovado.
Uma coroa incorruptível — isso tem algo a ver com um trono. O que ele quer dizer? Reprovado quanto à salvação? Na mesma carta, em 1 Coríntios 3:14-15, ele diz:
Se a obra que alguém edificou sobre esse fundamento permanecer, esse receberá galardão.
Se a obra de alguém se queimar, sofrerá perda: mas ele mesmo será salvo; todavia, como que através do fogo.
Portanto, o apóstolo Paulo deixou bem claro nessa mesma carta que você não perde a sua salvação. Mas ele diz que você pode pregar a outros, ter comunhão com outros, instruir outros e, você mesmo, ser reprovado no que diz respeito ao trono de Cristo. No fim, você não está qualificado para se assentar com Ele no Seu trono.
Agora vamos nos curvar juntos para uma palavra de oração, sim?
Pai, nós nos curvamos juntos aqui na Tua presença e queremos, com toda simplicidade, todos nós, Senhor, reconhecer a nossa fraqueza — fraqueza ao falar, fraqueza, Senhor, ao ouvir. Precisamos de Ti, Senhor. Não podemos nos aproximar da Tua Palavra com a nossa mente natural.
Sabemos, Pai, que todo este tempo será perdido se dependermos dos nossos próprios recursos, da nossa própria energia, seja ao falar, seja ao ouvir. Mas, Pai, Tu fizeste uma provisão para nós no Senhor Jesus Cristo, uma provisão de unção. Juntos, nós nos firmamos nessa graça para este momento e nessa unção para este momento, para que, Senhor, possamos receber de Ti.
Faz deste momento, Senhor, um encontro Contigo. Escreve a Tua Palavra de maneira indelével em nosso coração. Pedimos isso em nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.
Nesta manhã, quero abordar essa questão do nosso chamado e da realeza, ou do vencer, como a vemos em algumas das vidas dos santos de Deus no Antigo Testamento. Por meio de cada uma dessas vidas, conforme registradas pelo Espírito Santo, o Senhor revelou e ilustrou características essenciais da realeza, ou do vencer.
Nunca devemos esquecer que, no pensamento de Deus, o vencedor não é alguém extraordinário. Ele ou ela é o padrão normal de Deus, não uma categoria especial. Em outras palavras, não se trata simplesmente de uma espécie de elite escolhida para ser vencedora. Na verdade, aquilo que Deus realmente desejava para todos, no fim Ele só obteve em alguns poucos. Entendem? E eles foram até o fim em favor dos outros.
Não encontro muito na Palavra de Deus essa ideia de que, de alguma maneira, o vencedor seja alguém tão especial que esteja completamente separado do restante do povo. Mas encontro repetidas vezes, como vemos na Palavra de Deus, essas pessoas entregando a própria vida para que os demais possam entrar na bênção.
O propósito de Deus se cumpriu para a bênção de todos porque uma pessoa, ou uma família, ou alguns poucos, ou um remanescente, deram a Deus espaço em suas vidas para fazer algo — para cumprir o Seu propósito, para levar tudo mais uma etapa adiante.
Assim, não importa para onde você se volte na Palavra de Deus, encontrará essas características da verdadeira realeza. Agora, tenho uma grande tarefa nesta manhã, porque quero abordar quatro vidas e dar apenas uma visão geral. Ah, eu adoraria dedicar uma sessão a cada uma delas, mas nunca chegaríamos aonde precisamos chegar nestes dias. Então, tenham paciência comigo.
Nesta manhã, se o Senhor me capacitar, vou falar de Abraão, Isaque, Jacó e José. Eles representam a primeira fase do tratamento de Deus tendo um povo em vista. Até Abraão, tudo dizia respeito apenas a indivíduos. Mas, quando Deus escolheu Abraão, quando Deus selecionou Abraão, quando o Deus da glória apareceu ao nosso pai Abraão enquanto ele estava na Mesopotâmia, em Ur dos Caldeus, foi tendo um povo em vista.
Nessas quatro vidas, descobrimos as características fundamentais da realeza. Não importa para onde nos voltemos no restante da Palavra; descobrimos que nessas quatro vidas temos as características essenciais do vencer, ou as características essenciais da verdadeira realeza.
Abraão é chamado, naturalmente, de pai de todos os que creem. Se vocês abrirem o Novo Testamento em 1 João 5:4-5, encontrarão uma passagem que a vida e o caráter de Abraão ilustram maravilhosamente:
Porque tudo o que é nascido de Deus vence o mundo: e esta é a vitória que venceu o mundo, a nossa fé.
E quem é o que vence o mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?
“Tudo o que é nascido de Deus” — não “todo aquele” —, “tudo o que é nascido de Deus vence o mundo”. Abraão teve de aprender isso desde o princípio.
Foi o Deus da glória Que apareceu a Abraão quando ele ainda estava em Ur dos Caldeus e lhe disse:
Sai da casa de teu pai, do meio da tua parentela, para uma terra que Eu te mostrarei.
Tudo começou com revelação. Começou com visão.
Sempre que Deus vai fazer algo, a primeira coisa que Ele faz é conceder um espírito de sabedoria e revelação no conhecimento do Seu Filho. Caso contrário, passamos o tempo todo brincando de igreja. Vemos coisas que encontramos nos livros e depois tentamos colocá-las em prática. Vamos montando coisas. Vamos montando uma espécie de vida cristã.
Encontramos os trinta e quatro passos para a vitória. Encontramos os passos para a plenitude do batismo no Espírito Santo. É só montar, montar, montar, montar, em vez de enxergar algo em Deus, de enxergar isso em Cristo.
Quando vemos Cristo como a vida cristã, quando vemos Cristo como a salvação de Deus, quando vemos Cristo como a plenitude de Deus, quando vemos Cristo como Aquele Que batiza com o Espírito Santo, quando vemos Cristo como Aquele Que nos dá o poder de manifestar os dons do Espírito, quando vemos Cristo como o vencedor, então percebemos que não podemos fazê-lo. Ele é Quem tem de fazê-lo.
É como se caíssemos aos Seus pés como mortos. Entendem o que estou tentando dizer? Quando é um conhecimento apreendido apenas pela mente, conseguimos tocar o trabalho adiante. Vemos algo, lemos algo, estudamos algo, decoramos aquilo, por assim dizer, deixamos tudo claro e então entramos em ação e o fazemos.
Todo o cenário cristão está cheio de coisas que exteriormente são bíblicas, mas cuja origem, interiormente, não é Deus; é a carne.
Havia três coisas na vida de Abraão: a terra, a cidade e a descendência.
Primeiro, Deus falou de uma terra que lhe mostraria. Depois, em certa passagem — ah, se tivéssemos tempo, eu os levaria a todas essas passagens; mas, se quiserem as referências, venham me perguntar depois —, o Senhor lhe disse:
Levanta os teus olhos. Olha para o ocidente, para o oriente, para o norte e para o sul. Toda a terra que vês, Eu te darei.
Mas Deus nunca lhe deu um único torrão daquela terra. Ele teve de comprar um pequeno campo em Macpela para sepultar sua amada Sara. Quando morreu, não possuía um único pedaço da terra. No entanto, Deus lhe dissera:
Sai para uma terra que Eu te mostrarei.
E também:
Eu te darei essa terra.
Pobre Abraão, teve até de comprar o terreno em que sepultou sua amada Sara. Ele foi provado ao extremo nessa questão. Conseguiria vencer? Permaneceria na terra, peregrinando em tendas, em vez de ter uma morada permanente? Ou desceria ao Egito?
Bem, a maioria de vocês que conhece alguma coisa da vida de Abraão sabe como ele foi provado. E quanto à cidade? Hebreus 11:10 diz:
Porque aguardava a cidade que tem fundamentos, da Qual Deus é o Arquiteto e Construtor.
Mas Abraão nunca viu fisicamente aquela cidade. Não chegou nem mesmo a tomar posse de Jerusalém, embora ela já existisse. Vocês se lembram de que Melquisedeque saiu de Jerusalém para encontrá-lo, mas ela não se tornou sua. Ele nunca chegou a ver nem mesmo o símbolo daquela realidade eterna como algo que lhe pertencesse. Ela nunca veio a estar em sua posse.
A terra, a cidade — e quanto à descendência? Deus disse:
Na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra.
Mas o querido Abraão tinha oitenta anos e não tinha um filho. Sara tinha setenta. Eles não tinham filho algum.
Vocês não acham que ele deve ter sido provado ao extremo? “Ora, ora, ora, o que é isso? Certamente fui enganado. Certamente me iludi. Deus disse: ‘Sai para uma terra’. Ele disse: ‘Olha para o sul, para o norte, para o oriente, para o ocidente; Eu a dou a ti’. E Ele não a deu a mim. Vivo aqui há anos. Continuo numa tenda. Continuo vivendo numa terra como se ela não fosse minha.”
Então ele diz: “Estou aguardando uma cidade que tem fundamentos, da Qual Deus é o Arquiteto e Construtor. Ainda não a vi fisicamente”. E Deus diz que nele serão benditas todas as famílias da terra, mas ele não tem um único filho. “Devo estar iludido.”
Agora, aqui neste país, onde vocês têm uma fixação tão grande pelo sucesso, conseguem imaginar o que teríamos feito com Abraão? Nossa, nós o teríamos passado pela máquina de moer carne. Nós o teríamos chamado e dito: “Abraão, Abraão, seu tolo, o que você tem para mostrar como resultado dessa sua visão? O que você tem para mostrar como resultado desse chamado de Deus?”
“Você não tem uma terra. Não tem uma cidade. Não tem nem sequer um filho. Onde estão todas essas pessoas que deveriam ser abençoadas em você? Onde estão todos esses convertidos? Vamos, mostre-os a nós.” No fim de sua vida, ele tinha apenas um filho da promessa e um filho da carne.
Tudo o que é nascido de Deus vence o mundo.
Não bastava que fosse de Deus; o próprio cumprimento da visão tinha de ser de Deus. Sua origem, seu desenvolvimento, seu cumprimento tinham de ser de Deus.
Agora, querido filho de Deus, a coisa mais difícil que você e eu aprendemos nessa questão da realeza é que somente aquilo que tem sua origem em Deus chega até o fim. Somente aquilo que tem sua fonte na vida de Deus, no propósito de Deus, na obra de Deus, entra no reino. Nada mais entra. É madeira, feno e palha, destinados a ser queimados. Somente aquilo que tem sua origem em Deus.
Agora, se você tivesse visto Ismael, talvez ele se parecesse mais com Abraão do que Isaque. Ora, ao ver o pequeno Ismael correndo, você poderia ter dito: “Ora, ora, ora, já sei de quem esse menino é filho. Ele é igualzinho a Abraão. Tem o nariz de Abraão. Tem o jeito de andar de Abraão. Dá para ver que é filho de Abraão”.
Mas, se visse Isaque, talvez dissesse: “De quem esse menino é filho?” Ele poderia ser igualzinho à mãe, Sara. Na verdade, talvez se parecesse bastante com o avô, ou talvez, pelo lado materno, se parecesse com o tio.
Se você se guiasse pelas aparências exteriores, poderia dizer: “Ismael, Ismael, é claro que ele vem de Abraão. Só pode ser. Veja, ele é a cara de Abraão”. Ah, Ismael não chega até o fim. Ismael significa problemas. Ele nunca chega ao cumprimento do propósito de Deus. Nunca termina na cidade de Deus. Nunca chega ao trono.
Exteriormente, Isaque talvez não se pareça com Abraão, mas ele é o filho da promessa. Sua origem está em Deus, nascido de Deus, por assim dizer, desenvolvido por Deus, guardado por Deus. Ele tem de chegar até o fim.
Mais tarde, chega um momento em que Deus põe Abraão à prova novamente nessa questão da fé. Ele diz a Abraão:
Abraão, toma o teu único filho e oferece-o em holocausto.
Conseguem imaginar o que isso deve ter causado em Abraão?
Ora, se fosse comigo, eu teria dito imediatamente: “Isso é o inimigo. Cuidado agora, cuidado. Deus fez você esperar até os noventa e nove anos por esse filho da promessa. Você acha que Deus pediria que o oferecesse em holocausto — que tomasse aquele em quem todas as famílias da terra serão abençoadas, por meio de quem, no fim, sua descendência será tão numerosa como as estrelas do céu e como os grãos de areia à beira-mar?”
No entanto, ele o levou. Hebreus diz que ele creu que, se o matasse, Deus o devolveria por meio da ressurreição.
Vejam, quando algo nasce de Deus, não pensem que nossas mãos pegajosas não podem se apoderar disso. Há muitas obras verdadeiras de Deus que começaram com o Senhor, mas logo os servos do Senhor colocaram sobre elas as mãos pegajosas da sua carne. Eles as destroem.
Fé vencedora.
Tudo o que é nascido de Deus vence o mundo: e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé.
E quem é o que vence o mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?
Você quer saber algo sobre a realeza? Quer saber algo sobre vencer? Meu querido amigo, isso tem de começar aqui: obediência à visão celestial. Tem de começar com visão.
O que todos nós, como povo de Deus, precisamos acima de tudo é de visão divina. Precisamos ver o Senhor. Precisamos ver o propósito de Deus no Senhor. Precisamos ver todos os recursos e riquezas de Deus no Senhor. Precisamos ver a casa de Deus no Senhor. Precisamos ver o propósito eterno de Deus no Senhor.
Entendem? Vê-lo com os olhos da fé e, então, sermos tomados por aquilo que vimos.
Há pessoas que veem as coisas de maneira mental, de maneira acadêmica. O que acontece? Mais tarde vêm a desilusão, a decepção, os problemas, as dificuldades, e elas acabam abandonando com a mesma facilidade aquilo que viram apenas de maneira acadêmica.
Mas, quando você realmente vê algo pelo Espírito de Deus, quando realmente vê o Senhor, é como se contradizer aquilo fosse cometer suicídio espiritual.
Fé vencedora. Essa é uma das grandes lições da vida de Abraão.
Tudo o que é nascido de Deus.
Diga-me, querido filho de Deus, existe em sua vida aquilo que é nascido de Deus? Existe em sua vida aquilo que é nascido de Deus? Como grupos de filhos do Senhor, podemos realmente dizer que aquilo que temos é nascido de Deus?
Porque tudo o que é nascido de Deus vence o mundo.
A origem determina o destino.
Agora precisamos passar a Isaque, se quisermos percorrer essas vidas. Pobre Isaque. Ele é o esquecido. É como um vale aberto, fértil e iluminado pelo sol, ligando duas grandes cadeias de montanhas: Abraão e Jacó.
O pobre Isaque fica entre os dois. Na verdade, não há muita coisa sobre o querido Isaque. Aparentemente, ele não tem os traços marcantes de personalidade que seu pai e seu filho tinham. Mas tem uma lição tremenda para nós.
Se vocês abrirem em Romanos 5:17, lemos:
Porque, se pela transgressão de um só a morte reinou por esse um; muito mais os que recebem a abundância da graça e do dom da justiça reinarão em vida por meio de Um só, Jesus Cristo.
Reinar em vida. Ah, meu querido amigo, você está ouvindo essa palavra? Não reinar na verdade — isso já é maravilhoso. Reinar em vida por meio de Um só, Jesus Cristo.
Qual é a característica mais marcante de Isaque? Bem, se você ler o relato em Gênesis, verá que ele está sempre cavando poços. Essa é a coisa que você vê no querido Isaque. Ele passa o tempo todo cavando poços. Em sua maioria, os poços que ele cava são aqueles que seu pai Abraão havia cavado.
Se quiserem as passagens sobre isso, abram em Gênesis 26. Gênesis 26:18:
E Isaque tornou a cavar os poços de água que haviam cavado nos dias de Abraão, seu pai.
Depois, Gênesis 26:20-22:
E os pastores de Gerar contenderam com os pastores de Isaque, dizendo: A água é nossa; por isso chamou ao poço Eseque, porque contenderam com ele.
Então cavaram outro poço, e também contenderam por ele; por isso chamou-lhe Sitna.
E partiu dali e cavou outro poço; e por esse não contenderam; por isso chamou-lhe Reobote, e disse: Porque agora o Senhor nos deu espaço, e seremos frutíferos na terra.
Gênesis 26:25:
E edificou ali um altar, e invocou o nome do Senhor, e armou ali a sua tenda; e os servos de Isaque cavaram ali um poço.
Depois, Gênesis 26:32-33:
E aconteceu, naquele mesmo dia, que os servos de Isaque vieram e lhe deram notícia do poço que haviam cavado, e lhe disseram: Achamos água.
E chamou-lhe Seba; por isso o nome daquela cidade é Berseba até o dia de hoje.
Isaque estava sempre cavando poços. Agora, nós sabemos a respeito dos poços, não sabemos? Sabemos que, em João 4:14, o Senhor Jesus disse:
A água que Eu lhe der se tornará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna.
Uma fonte de água a jorrar para a vida eterna. Ah, que coisa maravilhosa é descobrir que temos a fonte dentro de nós. Não precisamos ficar o tempo todo recorrendo a outra pessoa, a uma conferência ou a uma reunião, como se a fonte estivesse sempre fora de nós. Temos uma fonte por dentro, e ela jorra.
Há momentos em que ela flui só um pouquinho, e há outros em que jorra com toda a força.
O Senhor Jesus disse em João 7:37-38:
Se alguém tem sede, venha a Mim e beba.
Quem crê em Mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva.
Ele disse isso a respeito do Espírito. Rios de água viva! Que coisa tremenda é quando não temos apenas um pequeno filete saindo, nem apenas um riacho, nem mesmo apenas um rio — nem mesmo o rio Tâmisa, que consideramos bastante maravilhoso, já que moro às suas margens —, ou um rio como o Mississippi.
Mas imaginem um Nilo, um Amazonas, um Yangtzé e um rio Amarelo, todos juntos, fluindo de vocês em diferentes direções. Há uma região do Himalaia onde nascem quatro dos maiores rios do mundo: o Ganges, o Brahmaputra, o Irrawaddy e o Yangtzé.
Pensem nisso. Jesus não disse: “Quem crê em Mim, do seu interior fluirá um canal de água viva”. Ele não disse que do seu interior fluiria um Mississippi. Ele disse:
Quem crê em Mim, do seu interior fluirão rios de água viva.
Um Yangtzé, um Brahmaputra, um Irrawaddy, um Amazonas, um Nilo, todos fluindo em diferentes direções.
Isaque nos ensina uma grande lição: não pode haver realeza fora da vida de Cristo. Não pode haver vitória fora da vida de ressurreição.
Qual é a lição que ele nos ensina? Que precisamos aprender a receber. Você não pode dar o que não recebeu. O vencedor só pode dar aquilo que recebeu. Ele recebe de Abraão; passa adiante para Jacó. Recebe; dá. Recebe; dá. É uma lei de Deus.
Entendem o que estou tentando dizer? Essa é uma das lições mais difíceis que todos nós aprendemos: que você e eu somos apenas aqueles que recebem. Não gostamos disso. Gostamos de ser algo muito mais impressionante, mais marcante, mais original.
Mas a grande lição, se você quer conhecer o poder da ressurreição e a vida de ressurreição, é que precisa aprender a ser um vaso — apenas um vaso, nada mais.
Sabem, tantos crentes têm problemas com a vida cristã. Eles dizem: “Ah, é tão difícil. É tão difícil. Realmente, tenho certas circunstâncias. Se você conhecesse a minha história, se conhecesse o temperamento que tenho, se soubesse o que herdei!”
É interessante para mim: por todas as regiões do mundo por onde viajo, as pessoas vêm falar comigo como se fossem casos únicos. Têm complexos, histórias familiares, fraquezas herdadas, chefes, maridos, esposas que são verdadeiros tigres. Dizem: “Sabe, se eu fosse como fulano, conseguiria chegar até o fim. Mas Deus certamente entende que eu não consigo”.
Meu querido amigo, isso é um absurdo. É uma bobagem.
Deus sabe tudo a respeito das suas circunstâncias. Ele as determinou. Pense nisso. Você precisa ser um bom calvinista nessa questão. Ele predeterminou as suas circunstâncias e o colocou nelas para que você não esteja embaixo, mas somente em cima; para que não seja a cauda, mas a cabeça, se ouvir o Senhor, seu Deus, e fizer tudo o que Ele lhe ordena.
Vejam, é tão simples. Em certo sentido, viver a vida cristã é tão simples. Tudo o que você precisa fazer é aprender a receber.
Toda a tensão desaparece quando você aprende a ser alguém que recebe, porque nós provamos da árvore do conhecimento do bem e do mal. Não gostamos de receber. Queremos ser alguma coisa em nós mesmos. Queremos ter o centro de comando dentro de nós. Queremos ser alguma coisa. Queremos nos exibir. Queremos ser poderosos. Queremos ser vistos. Às vezes, queremos ser aceitos.
Chegamos perto da ideia de apenas receber. Mas era só isso que Isaque fazia, e foi por isso que lhe deram o nome, em hebraico, de Yitzhak — riso. Riso.
Aconteceu com tanta facilidade. Eles esperaram quase cem anos, mas, quando ele veio, foi tão fácil. A Bíblia Viva expressa isso de maneira belíssima. Ela traduz o hebraico para uma linguagem moderna e diz:
E Abraão deu uma festa.
Ele deu uma festa. Depois que a criança nasceu, foi tão fácil. Tudo o que precisavam fazer era cuidar do menino, alimentar o menino, consolar a criança, zelar por ele. Ele tinha vida dentro de si.
Riso — o riso do cumprimento, o riso da experiência, o riso da vida de Deus. Quando você tem a vida de Deus dentro de si, pode rir das impossibilidades. Pode rir pela primeira vez. Pode sorrir e ser feliz.
Só peixe morto segue a correnteza. As pessoas me dizem que este mundo é tão difícil, que tudo está contra elas, que, de alguma maneira, têm obstáculos e problemas. Meus queridos amigos, pela graça de Deus vocês têm uma vida dentro de si que foi feita para nadar contra a correnteza. Ela pode, de fato, usar a correnteza que vem contra ela para subir o rio.
Então, sorria pela primeira vez. Não fique sempre por aí dizendo: “Ah, é tão difícil”. E quanto a esta palavra?
Reinar em vida por meio de Um só, Jesus Cristo.
Não pode haver vitória à parte da vida de Deus. Os vencedores não são pessoas infelizes. Se estiveram na fornalha, saem sem cheiro de queimado. Se souberam o que é jejuar e se entristecer, lavam o rosto e apresentam um semblante sorridente.
O vencedor não é alguém que fica o tempo todo contando aos outros como suas circunstâncias são difíceis, como são difíceis os problemas que enfrenta.
Não me entendam mal nisso. Há lugar para a comunhão. Há lugar para compartilhar. Mas vocês sabem do tipo de coisa de que estou falando: quando estamos passando por dificuldades, todos — quero dizer, todos — precisam saber. Nós somos os fiéis e, porque somos os fiéis, ah, é terrível. Cantamos um hino com os dentes cerrados.
Mas Isaque é riso.
Abraão caiu no chão e riu. Abraão era um homem tão natural. Você pode ser assim quando sabe que tudo precisa nascer de Deus. Pela primeira vez, pode simplesmente ser você mesmo, em vez de tentar ser aquele cristão maravilhoso. Pode simplesmente descansar em ser aquilo que você é em Deus.
Ele caiu no chão quando o Senhor lhe disse que teria um filho, que Sara o conceberia, e riu. O Senhor lhe disse: “Abraão, você está rindo, não é?” O Senhor tem humor. Ele lhe disse que chamaria o menino de Isaque — riso.
Vocês se lembram daquela outra ocasião em que o Senhor veio falar com Abraão, acompanhado dos dois anjos? Sara estava atrás da aba da tenda, é claro, escutando. Ela ouviu o Senhor dizer que, no tempo determinado, sua esposa conceberia e daria à luz um filho. Atrás da aba da tenda, Sara riu.
O Senhor disse através da aba da tenda: “Sara, por que você riu?” De trás da aba da tenda, Sara disse: “Eu não ri”. O Senhor disse através da aba da tenda: “Riu, sim”.
Acho que esse é um dos pequenos episódios mais divertidos de Gênesis. Então o Senhor disse: “Por causa disso, vocês o chamarão de Isaque”. Deus é tão incrivelmente gracioso que não estava sendo sarcástico. O que Deus realmente estava dizendo era: “Quando esse menino nascer, a boca e a vida de vocês se encherão de riso”.
Bem, agora preciso prosseguir para chegarmos à próxima pessoa, e essa pessoa é Jacó.
Todo o nosso problema é este: podemos ter visto o propósito de Deus. Podemos ter uma visão e uma compreensão do propósito de Deus em Cristo. Podemos tê-lo visto no Senhor Jesus Cristo. Podemos saber que essa é a chave. O nosso problema é a nossa vida do eu. Você já descobriu isso?
Agora, posso falar de Jacó. Sinto que o conheço por dentro.
Podemos ter visto o propósito de Deus. Podemos ter visto que tudo precisa nascer de Deus. Podemos compreender que a fé é a grande questão. Podemos compreender que contemplar Jesus como o Filho de Deus é a chave. Sabemos que se trata de receber, simplesmente receber o tempo todo essa vida dentro de nós, jorrando.
Mas o nosso problema é a força da nossa vida do eu. Há muitas maneiras diferentes pelas quais essa força se manifesta. A maneira como ela se manifesta em mim talvez não seja a maneira como se manifesta em você.
Por natureza, Jacó não era um príncipe com Deus. Tampouco era alguém que abençoava os outros. Nem era um adorador.
É interessante que a última imagem que temos de Jacó na Bíblia se encontra em Hebreus 11:21:
Pela fé, Jacó, quando estava para morrer, abençoou cada um dos filhos de José e adorou, apoiado na extremidade do seu bordão.
No fim, ele abençoou e adorou. Esse homem se tornou um príncipe com Deus, tornou-se uma pessoa capaz de transmitir bênção e um adorador.
Mas, por natureza, Jacó não era um príncipe com Deus. Não era alguém capaz de transmitir uma bênção. Não era um adorador. Na verdade, longe de ser um príncipe com Deus, ele era alguém que fazia negócios com Deus. Tudo o que fazia era uma negociação.
Toda vez que o Senhor lhe aparecia, ele dizia: “Está bem, Senhor, está bem. Se Tu me trouxeres de volta para cá em segurança, construirei uma casa para Ti. Que tal?” Ele não conseguia evitar. Não tenho dúvida de que o Senhor sorria. Ele sabia o que faria com Jacó, mas conhecia a força incurável da sua vida do eu.
Pelo menos havia uma coisa boa em Jacó: ele não tentava esconder isso.
Muitos cristãos passam o tempo todo reprimindo a sua vida do eu. Não sei como vocês chamam isso por aqui. Sempre penso que ela se parece mais com uma almofada de ar: você aperta uma ponta e a outra sobe.
Estive na Flórida há algum tempo e ouvi uma senhora descrevendo isso. Ela disse: “A vida do eu é como batizar um gato”. Achei aquilo divertidíssimo. Eu era batista do sul, então perguntei depois: “Os batistas do sul batizam gatos?”
Ela disse: “Não, mas certa vez vimos alguém tentando batizar um gato. Era um menino, filho de um pastor. Ele tinha pegado aquele pobre gato preto e estava colocando-o debaixo d’água. Mas toda vez que o colocava debaixo d’água, o rabo subia. Então ele abaixava o rabo e a cabeça subia. Abaixava a cabeça e o rabo subia”.
A vida do eu é exatamente assim. Tentando nos livrar dela, procuramos colocá-la debaixo d’água: para baixo, e o rabo sobe; abaixamos o rabo, e a cabeça sobe; abaixamos a cabeça, e outra coisa sobe. É um trabalho muito cansativo.
Pelo menos Jacó era ele mesmo. Ele negociava até com Deus. Cada vez que o Senhor vinha a ele, dizia: “Agora, Senhor, Tu fazes isto e aquilo, e eu farei isto e aquilo”.
Certamente, ele não conseguia transmitir a bênção. Ele a roubava. Nunca transmitia bênção às pessoas; roubava a bênção delas. Há muitos cristãos assim. Ah, não conhecemos todos nós pessoas desse tipo em nossos grupos? Pessoas que estão o tempo todo roubando as bênçãos. Elas chegam com a sua vida do eu, e o restante de nós fica enfraquecido.
Ele não era um adorador. Era um trapaceiro.
Jacó, Yaakov em hebraico, provavelmente vem da palavra hebraica para calcanhar. É um jogo de palavras. Ele se agarrou ao calcanhar do irmão. Era um suplantador — um enrolador é a melhor maneira de dizer. Ele nasceu com o braço enroscado na perna do irmão gêmeo.
Não sei se você já encontrou o Jacó que há em você. Mas, mesmo que fosse a pessoa mais doce deste mundo, há um Jacó em você. Em algum lugar, bem lá no fundo, debaixo de toda essa maquiagem espiritual, desse rejuvenescimento espiritual, de todo esse verniz cristão, existe uma vida do eu feia.
O problema de Jacó não era o seu desejo pelo Senhor, porque a única coisa que podemos dizer de Jacó é que ele desejava o Senhor. Foi por isso que roubou o direito de primogenitura. Foi por isso que roubou a bênção. Ele desejava o Senhor.
Estava até disposto a construir uma casa para o Senhor. Foi por isso que chamou de Betel, a casa de Deus, o lugar onde Deus lhe apareceu pela primeira vez.
O problema de Jacó não era deixar de reconhecer a realidade espiritual. Ele reconhecia as realidades espirituais. O problema de Jacó era a sua velha natureza.
Sabemos bastante a respeito disso na Palavra de Deus, não sabemos? Romanos 6:6; Efésios 4:22; Romanos 7:18-19:
As coisas que quero fazer, não faço; e as coisas que não quero fazer, essas faço.
Esse é Jacó.
Mas Deus persistiu. Hoje, não sabemos realmente o que o nome Israel significa. Muitos rabinos acreditam que significa: “Deus persevera”. Certamente isso era verdade. Jacó nunca teria sido Israel se Deus não tivesse perseverado.
Mas Deus perseverou, e o mais maravilhoso a respeito de Jacó foi que Deus o transformou em Israel.
Vemos duas passagens maravilhosas que, a meu ver, resumem esse aspecto do vencer, ou da realeza. Romanos 12:2:
E não vos conformeis com este mundo; mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.
Ou, ainda, 2 Coríntios 3:18:
Mas todos nós, com o rosto desvendado, contemplando como em um espelho a glória do Senhor, somos transformados na mesma imagem, de glória em glória, como pelo Senhor, o Espírito.
Antes que Jacó pudesse se tornar Israel, o Senhor precisava levá-lo a enxergar a si mesmo. Não pode haver realeza nem vitória sem essa obra da graça.
Foi por isso que o Senhor mandou Jacó passar vinte anos com seu tio Labão. Jacó era o maior trapaceiro do Oriente Médio e Deus, para curá-lo da trapaça, o enviou ao segundo maior trapaceiro do Oriente Médio — seu tio Labão. Os dois passaram vinte anos inteiros trapaceando um ao outro.
Vocês não sabiam disso, sabiam? Quando Deus quer levar você a enxergar a si mesmo, Ele o coloca com outra pessoa que serve de espelho. Talvez seja a sua esposa. Talvez seja o seu marido. Talvez sejam os seus filhos. Talvez sejam os seus pais. Talvez seja o seu chefe. Talvez seja algum funcionário. Talvez seja uma igreja.
Ficamos tão zangados com as pessoas. Criticamos; não queremos mais saber delas; nós as condenamos. Até que, no fim, às vezes depois de anos, percebemos que estamos apenas vendo a nós mesmos nelas.
Ora, o querido Jacó foi trabalhar com Labão. Viu sua bela filha Raquel e propôs trabalhar sete anos para poder se casar com ela. O tio Labão disse: “Meu querido rapaz, certamente”. Jacó trabalhou durante aqueles anos e, então, vocês sabem o que aconteceu. Chegou o casamento.
O tio Labão enganou Jacó. Quando Jacó finalmente estava casado, descobriu que não tinha se casado com Raquel, sua amada Raquel, mas com Lia. Vocês não acham que essa foi a maior trapaça da história?
Não conseguem ouvir Jacó dizendo a si mesmo: “Escutem, alguém do meu próprio sangue! Vocês já ouviram falar de um crime tão odioso? Alguém do seu próprio sangue — meu tio — enganando o sobrinho num casamento! Trapacear nos negócios, trapacear em outras coisas, mas num casamento? Sete anos! Dá para acreditar?”
Ele ficou tão chocado com o tio. Nunca lhe passou pela cabeça que ele próprio havia enganado seu irmão gêmeo e seu velho pai cego.
Isso é como você, querido amigo, mesmo que não reconheça. Aquilo de que você tanto desgosta nos outros muitas vezes é um espelho de imagens reprimidas na sua própria vida.
Só chegamos a encarar isso quando, finalmente, somos colocados com outra pessoa. Lia também participou da trapaça. O pai deve ter dito a ela: “Agora escute, Lia, se você quer se casar e não ficar encalhada pelo resto da vida, mantenha essa sua boca bem fechada. Não abra a boca uma única vez durante toda a cerimônia”.
“Fique debaixo desse véu, fique em silêncio e tome o lugar da sua irmã. Quando tudo tiver acabado, você poderá abrir essa sua boca. Será tarde demais.” Então havia dois trapaceiros.
Ah, Jacó. Talvez alguns de vocês nunca tenham percebido que o escritório onde trabalham tem Jacós, Labões e Lias. É claro que tem.
A única pessoa que Jacó sempre julgava não ser trapaceira era sua amada Raquel. Para ele, Raquel era a criatura mais pura e doce que já havia agraciado esta terra.
Quando, finalmente, depois de vinte anos de trapaças, chegou ao fim de tudo aquilo e decidiu partir e voltar para casa, mesmo que isso significasse morrer pelas mãos do irmão gêmeo Esaú, no caminho, a dois dias de viagem dali, em algum lugar de Gileade, eles viram a poeira de camelos se aproximando muito depressa.
Era o velho Labão com um grupo de homens, e ele estava furioso. “Como você pôde sair às escondidas, sem nem sequer se despedir, e furtar os deuses da família?”
Jacó sabia que essa era a única coisa que não faria. Podia ter roubado todo o resto, mas não roubaria os deuses da família. Ele se aprumou em toda a sua altura e disse: “Agora escute aqui. Eu não tocaria nos seus deuses da família por nada neste mundo. Não sou adorador de ídolos”.
Labão, que conhecia muito bem seu sobrinho Jacó, revistou todo mundo. Quando chegou à amada Raquel, sentada no camelo, ela disse: “Papai, não reviste o camelo. Não estou me sentindo muito bem”.
Então o querido pai não desconfiou de nada e seguiu adiante. Raquel estava sentada sobre todos os deuses da família. Ela também era uma trapaceira.
Assim, Jacó viu a si mesmo primeiro em Labão, depois em Lia e depois em Raquel. Ao fim de tudo isso, estava pronto para Jaboque. Quando o anjo do Senhor apareceu, ele era um homem desesperado, porque tinha visto a força da sua própria vida, da sua vida do eu.
Ele se agarrou ao Senhor e não O deixou ir. Querido filho de Deus, você acredita numa segunda experiência? Não digo que sempre haja uma segunda experiência, mas creio que muitas vezes há. Nunca se force nem lute para produzi-la; ela vem no tempo determinado por Deus.
Mas escute-me: mesmo que isso ainda esteja a anos de distância, quando esse momento chegar, não deixe o Senhor ir.
Jacó chamou aquele lugar de Peniel — a face de Deus —, pois disse:
Vi a face de Deus.
Naquela luta, Deus disse a Jacó:
Qual é o teu nome?
Jacó poderia ter dito: “Sou neto de Abraão”. Isso lhe teria rendido favor. Ou poderia ter dito: “Sou filho de Isaque”. Mas não disse. Ele disse: “Meu nome é Jacó — enrolador”.
O Senhor lhe disse:
Não mais serás chamado Enrolador, mas Israel; porque lutaste com Deus e com os homens.
Então ocorreu uma transformação de caráter que fez com que Jacó se tornasse um adorador e alguém capaz de transmitir uma bênção.
Você consegue transmitir uma bênção? Os cristãos deveriam ser capazes de abençoar uns aos outros em nome do Senhor. Não quero dizer apenas com palavras. Deveria haver a capacidade de abençoar. Você pode deixar com os outros algo que nunca tiveram antes.
Quem jamais teria imaginado que ele se tornaria um adorador e alguém capaz de transmitir uma bênção?
Não pode haver vitória sem que a nossa vida do eu seja tratada. Pode ser um trabalho longo. Mas os vencedores são adoradores e pessoas capazes de transmitir uma bênção.
Por fim, há José. Vou dedicar apenas alguns momentos a José, pois ele é, de fato, a figura do vencedor. Tecnicamente, quando seus irmãos falham, ele se torna o meio pelo qual são preservados.
No Salmo 105, lemos aquelas palavras maravilhosas — aquele comentário sobre a vida de José. Salmos 105:16-22:
E Ele fez vir fome sobre a terra; quebrou todo o sustento do pão.
Enviou um homem adiante deles; José foi vendido como servo:
Feriram-lhe os pés com grilhões; foi posto em cadeias de ferro:
Até o tempo em que se cumpriu a Sua palavra, a palavra do Senhor o provou.
O rei mandou soltá-lo; o governante dos povos o pôs em liberdade.
Constituiu-o senhor de sua casa e administrador de todos os seus bens;
Para sujeitar os seus príncipes segundo a sua vontade e ensinar sabedoria aos seus anciãos.
Deus enviou esse único homem adiante de todos os outros que iriam falhar, para que ele pudesse salvar os outros que iriam falhar.
Jacó, quando estava para morrer, abençoou José e disse:
Ele é um ramo frutífero, um ramo frutífero junto a uma fonte, cujos ramos se estendem sobre o muro.
Não há fruto apenas para Israel; há fruto também para as nações.
O que José nos ensina? Que não se pode chegar ao trono sem sofrimento.
Não basta sermos transformados pela renovação da nossa mente. Não basta que a força da nossa vida do eu seja quebrada. É necessário outro tipo de sofrimento: disciplina.
Mesmo que fôssemos perfeitos, mesmo que nunca tivéssemos trapaceado, enganado ou roubado, ainda assim precisaríamos dessa disciplina. Muito cedo na vida de José, Deus lhe revelou o Seu propósito para ele, e José teve uma visão. Viu todos os feixes, cada um representando um de seus irmãos, e sua mãe e seu pai, e viu todos eles se inclinando diante do seu feixe.
Depois, viu as estrelas, o sol e a lua se inclinando diante dele, representado como uma das estrelas. É interessante que aquilo que ele contou, ainda menino, foi que todos se inclinavam diante dele.
Ele viu algo. Não era falso. Não temos registro de José trapaceando, nenhum registro de José enganando, nenhum registro de José mentindo. Talvez ele fosse diferente.
Mas, antes que Deus pudesse levá-lo ao trono, precisava torná-lo pobre de espírito.
Se eu fosse apresentar três passagens que resumem a vida de José, seriam estas. Mateus 5:3:
Bem-aventurados os pobres de espírito: porque deles é o reino dos céus.
No início, José era muito cheio em seu espírito. Foram necessários anos na prisão, anos de rejeição, anos após ter sido vendido, até que chegasse ao ponto de ser pobre de espírito. Então o reino lhe foi dado. No momento em que se tornou pobre de espírito, o reino era seu.
Ou, ainda, penso em Efésios 2:6:
E nos ressuscitou juntamente com Ele, e nos fez assentar com Ele nas regiões celestiais, em Cristo Jesus.
Ou, ainda, 2 Timóteo 2:12:
Se perseverarmos, também com Ele reinaremos.
Não há outro caminho para o trono além deste: sofrimento e disciplina.
Eu disse ontem que Deus não quer uma burocracia sem rosto para administrar o céu, para administrar a eternidade, os séculos vindouros. Ele quer pessoas que, em sofrimento profundo, profundo, tenham chegado a uma experiência do Senhor e nas quais tenha sido formada compaixão.
Você já percebeu que a maneira como uma pessoa que não sofreu trata você é bem diferente da maneira como uma pessoa que sofreu o trata?
Se você tem uma dor de cabeça, uma dor de cabeça forte, e alguém que nunca teve dor de cabeça tenta fazer algo por você, essa pessoa não é bem igual a alguém que sofre de dores de cabeça. Há uma compaixão. Essa é uma maneira muito simples de explicar, mas é compaixão.
Só podemos consolar os outros com a consolação com que nós mesmos fomos consolados. Essa é uma lição de José.
Filipenses 3:10 diz:
Para que eu O conheça, e o poder da Sua ressurreição, e a comunhão dos Seus sofrimentos, sendo conformado à Sua morte.
A comunhão dos Seus sofrimentos. Que palavra extraordinária era aquela:
Sua alma entrou no ferro.
Ou, ainda:
Até o tempo em que se cumpriu a sua palavra, a palavra do Senhor o provou.
Esse é o caminho da disciplina. Mas não há outro caminho para o trono, nenhum outro caminho para vencer, além desse.
Quatro vidas, e cada uma apresenta uma característica essencial nessa questão da realeza.
Aliás, é muito interessante que hoje os rabinos acreditem que o quadril de Jacó foi deslocado. Se isso for realmente verdade, significaria que ele deve ter sentido isso por toda a vida.
Como você chega a estar somente em cima? Somente descendo. Como você é exaltado? Humilhando-se. Como você conhece uma colheita? Caindo na terra e morrendo.
O caminho para cima é o caminho para baixo. Se você quer ser a cabeça, precisa permitir que Deus o esvazie. Se quer estar somente em cima, precisa aprender o que é perder a própria vida por causa Dele e do evangelho.
Se você a entrega, encontra a sua vida para a vida eterna. Se se agarra a ela, perde o seu lugar no governo de Deus.
Vamos orar?
Ó Senhor, Tu sabes que abordamos muita coisa nesta manhã, e somente Tu, Senhor, podes tomar aquilo que foi dito e mantê-lo vivo em nosso coração. Apaga, Senhor, tudo o que não veio de Ti.
Mas, Senhor, vela por tudo o que veio de Ti, para que encontre morada abundante em todos nós, em toda sabedoria e conhecimento. Pai, Tu sabes como cada um de nós precisa que essas lições sejam aplicadas.
Aplica-as, Senhor, pelo Teu Espírito. Pedimos tudo em nome de nosso Senhor Jesus. Amém.