Nosso tema geral é o significado de ser cristão.
Na semana passada, estivemos tratando do imenso significado da vida cristã — de seu lugar nos conselhos eternos de Deus. Nesta noite, vamos considerar o que acontece quando nos tornamos cristãos.
Permitam-me repetir o que disse no início da semana passada, para que possamos prosseguir juntos, em cooperação. Ao falar nestas reuniões, tenho em mente três classes, ou categorias, de pessoas.
Muito provavelmente, há aqui algumas pessoas que não têm uma experiência definida da vida cristã. Ainda não começaram. Podem estar nas mais diversas condições, mas constituem uma classe.
Depois, há aqueles que acabaram de ingressar na vida cristã; não têm muita experiência, ou não têm experiência alguma. E há também os veteranos, que já conhecem tudo isso.
Agora, se alguma coisa, ou uma parte do que for dito, não parecer corresponder à sua situação, não a despreze; talvez seja para outra pessoa. Desfrute da sua parte e procure desfrutar também da parte de outra pessoa.
Digo isso porque pode acontecer de você pensar: “Não, isso é elementar demais. Já deixamos isso para trás há muito tempo”, e se sentir entediado. Mas lembre-se: talvez outra pessoa esteja justamente nesse ponto. Vocês me ajudarão muito se, por favor, adotarem essa atitude.
O que acontece, então, quando nos tornamos cristãos?
Nesta noite, seguiremos a mesma linha da semana passada, sem gastar tempo apontando as concepções equivocadas, os mal-entendidos e as representações distorcidas da vida cristã, com suas causas e razões. Em vez disso, apresentaremos a vida cristã de maneira positiva — para ver o que ela é segundo o pensamento de Deus — e deixaremos que vocês façam as comparações e os ajustes necessários.
A única coisa que direi a esse respeito é esta: estamos procurando ser, acima de tudo, práticos.
Ou seja, não estamos ocupados com a apresentação da doutrina cristã em si mesma. A doutrina cristã estará presente, mas não estamos interessados em apresentar as doutrinas do cristianismo de maneira abstrata, por mais importantes que sejam. Nossa preocupação é tornar tudo prático e vivencial — algo que possa ser imediatamente posto à prova.
Assim, à medida que avançamos, fica claro o que são essas coisas, qual é o seu lugar e quais são as questões envolvidas.
Existe, naturalmente, uma diferença entre os fatos e a verdade da vida cristã e a explicação deles.
É possível ter a experiência e, portanto, ter todos os fatos presentes na vida, sem que a pessoa seja capaz de explicar esses fatos. Essa é uma parte da nossa tarefa: explicar os fatos e levar vocês a examinar se eles estão presentes.
A explicação da vida cristã deve ser corroborada pela experiência. Isto é, deve ser possível você dizer: “Bem, eu não teria conseguido explicar dessa maneira, mas sei exatamente, pela minha experiência, o que você quer dizer. Isso expressa precisamente a minha própria vida”.
Portanto, a explicação não deve ir além da experiência; a experiência deve corroborar a explicação.
Quanto a essa questão do que acontece quando nos tornamos cristãos, dedicaremos parte do nosso tempo a examinar o que antecede o tornar-se cristão: certos fatos revelados na Bíblia e confirmados pela experiência humana. Aqui vocês poderão dar seu próprio parecer sobre a situação.
Em primeiro lugar, então, ao examinar o que antecede o tornar-se cristão, chegamos ao homem como o conhecemos, como o encontramos por natureza.
A situação do homem por natureza é esta: seu relacionamento com Deus está completamente desajustado.
Nós, cristãos, dizemos “desajustado” porque cremos que a Bíblia ensina que, em determinado momento, tudo estava em ordem, mas deixou de estar.
Se, por enquanto, você preferir deixar de lado a palavra “desajustado”, isso não muda em nada a situação. As coisas não estão em ordem entre o homem e Deus, quer nunca tenham estado, quer tenham estado e depois chegado à condição atual. Voltaremos a isso daqui a pouco.
Mas o fato é que o relacionamento entre o homem e Deus se encontra em uma condição de ruptura. Esse é o fato básico, fundamental. O relacionamento está desarticulado; encontra-se em um estado de tensão. Há distância entre o homem e Deus.
O relacionamento — ou a ausência dele — é algo muito infeliz. No que diz respeito ao homem em sua condição natural e a Deus, a situação não é de modo algum feliz. O relacionamento é inteiramente improdutivo. Nada resulta dele. É completamente estéril e decididamente infrutífero.
Mas isso é, por assim dizer, apenas o lado negativo. A situação é pior do que isso. Em muitos casos, há um antagonismo explícito.
O homem se encontra em um estado de antagonismo a Deus em sua natureza e, muitas vezes, em sua mente, em sua atitude e na maneira como se refere a Deus. Há um estado de conflito. Há muita desconfiança na mente ou no coração do homem em relação a Deus. Existe muito ressentimento em muitos corações humanos.
E podemos ir além, porque a Bíblia vai até esse ponto, dizendo que, em alguns casos — talvez não poucos —, há até mesmo ódio a Deus no coração humano. Bem, às vezes encontramos isso: esse antagonismo e esse ódio tão explícitos.
Esse é o primeiro fato: o relacionamento entre o homem e Deus está inteiramente caótico, rompido, desajustado e marcado pelas características que mencionei.
Isso não é tudo. Precisamos examinar essa condição por dentro e ir além.
O homem possui um conjunto de sentidos que pertencem ao seu ser espiritual e que não estão funcionando — um conjunto de sentidos correspondente aos seus sentidos físicos.
Os sentidos físicos, como vocês bem sabem, são a visão, a audição, o tato, o paladar e o olfato. Mas o homem possui outro conjunto de sentidos, não físicos, que pertencem ao seu homem interior: a contraparte desses cinco sentidos físicos.
Por natureza, esses outros sentidos não estão funcionando. A Bíblia fala de todos esses sentidos de maneira espiritual, em relação a Deus.
A Bíblia fala de uma visão de Deus que não é, de modo algum, física.
Os limpos de coração verão a Deus.
Certamente, esse ver não é uma questão física.
Vejamos também a audição. Existe um ouvir espiritual de Deus que não é perceptível ao ouvido natural ou físico. É algo que acontece no coração. Não é uma voz, mas corresponde a isso de maneira espiritual.
As pessoas podem dizer: “Ouvi o Senhor falar comigo”, embora não tenham ouvido coisa alguma com sua audição natural.
E o paladar? Sim, a Bíblia diz:
Provai e vede que o Senhor é bom.
E ninguém pensa que isso seja uma questão física.
E o olfato? Talvez isso pareça difícil. Mas vejam: afinal de contas, percebemos coisas sem que nenhum fator físico entre em ação e dizemos: “Estamos sentindo alguma coisa”.
Entramos em uma sala e, embora não seja algo físico percebido pelo olfato, pelo nosso nariz, há alguma coisa no ar. As pessoas estavam conversando; vemos a expressão no rosto delas; e, quando entramos, de repente ficam em silêncio e olham umas para as outras. Percebemos alguma coisa.
E é possível perceber a presença de Deus. Entendem o que quero dizer?
Existe todo um conjunto de faculdades espirituais que, em sua ordem e funcionamento adequados, nos relacionam com Deus. No homem natural — o homem não regenerado —, esses sentidos não funcionam de modo algum.
Ele não vê Deus dessa maneira. Não ouve Deus falar com ele. Não sente Deus — não com as mãos, mas interiormente. Não prova que o Senhor é bom. No homem natural, não há essa percepção de Deus.
Todas essas coisas estão fora de ordem. A Bíblia fala muito a respeito delas. Se quiserem, voltem a examiná-la.
A Bíblia ensina qual é a condição do homem, e a condição do homem confirma e corrobora esse ensino. No que diz respeito a Deus, o homem é cego. O homem está morto. O homem está entorpecido. O homem é insensível a Deus.
Eu disse que estamos sendo práticos. Isso é verdade?
Essa é a dificuldade de qualquer um de vocês que talvez ainda não tenha tido uma verdadeira experiência cristã. Você não vê Deus dessa maneira. Não ouve Deus. Não sente Deus. Não percebe Deus. Deus é irreal, remoto, distante — se é que Ele existe. Você não O conhece.
Mas a Bíblia vai ainda mais longe. Pelo nascimento natural, falta ao homem aquela outra coisa que corresponde à sua — vou usar esta expressão — existência biológica. Isto é, a vida.
Temos uma existência biológica que chamamos de vida. É muito significativo, naturalmente, que o Novo Testamento empregue duas palavras diferentes para duas classes diferentes de pessoas. Ele usa uma palavra, bios, para a vida natural, mas nunca usa essa palavra para a vida do cristão. Usa uma palavra inteiramente diferente, que significa algo completamente distinto.
A Bíblia diz que, por natureza, não faltam ao homem apenas as funções de seus sentidos espirituais; falta-lhe também aquilo que corresponde à sua existência natural: a vida.
Em uma palavra, a Bíblia diz que o homem está morto — não apenas cego, surdo e insensível a Deus: está morto. A Palavra de Deus diz:
A morte passou a todos os homens.
O homem, por natureza, está morto para Deus.
Ele está morto para o verdadeiro significado de sua própria existência. Por natureza, não sabe por que nasceu, por que existe. Tem todo tipo de explicação para sua presença no mundo — explicações, desculpas, maneiras de fugir da responsabilidade e assim por diante —, e tudo isso demonstra que ele está inteiramente morto para o verdadeiro significado de sua própria existência.
Ele procura tirar o melhor proveito disso e, às vezes, faz realmente muito bom uso da própria vida. Mas, afinal, quando essa vida é considerada em relação a Deus e à eternidade, ele não sabe por que está vivo, por que existe. Está morto para isso.
Está morto para as coisas eternas e celestiais.
Como é inútil e sem esperança falar ao homem natural sobre as coisas do céu e as coisas de Deus. Ele olha para você; fica olhando; não sabe do que você está falando. Isso pertence a um mundo que ele desconhece completamente — distante, diferente —, e ele fica profundamente entediado.
Talvez seja um homem muito bom sob certos aspectos, muito instruído, quem sabe ocupando uma posição de grande estima e respeito entre os homens; e pode ser também um homem muito religioso.
Um homem assim veio a Jesus: um exemplar vivo do melhor que a humanidade pode produzir fora de Cristo. Sobre ele pairava um enorme ponto de interrogação. Estava cheio de perguntas: “Como? Como?”.
Jesus lhe disse, em essência: “Bem, não adianta falar com você sobre as coisas celestiais. Você não pertence a essa esfera. Está morto para ela”.
Bem, esse é o lado negativo. Agora, isso é verdade?
Eu disse no início que vocês podem pôr tudo à prova. Isso não é apenas uma afirmação de doutrina cristã abstrata. É uma afirmação de um fato que pode ser verificado.
Alguns de vocês talvez conheçam isso agora, em sua própria experiência. Muitos de vocês conheceram isso no passado, mas, graças a Deus, já não conhecem mais.
Segundo a Bíblia, o homem está morto. No que diz respeito a Deus, não há resposta. É inútil falar a um cadáver; você não obterá nada. Não há correspondência, não há intercâmbio, não há comunhão, não há convivência. É exatamente isso que a Bíblia e a experiência humana dizem sobre a condição do homem por natureza.
Isso certamente nos leva a um ponto muito prático ao abordarmos esta questão: o que acontece quando nos tornamos cristãos?
Há dois trechos das Escrituras do Novo Testamento que, creio eu, resumem isso para nós de maneira muito concisa e muito completa.
Um deles é aquela afirmação tão conhecida e, ainda assim, tão pouco compreendida, feita ao homem a quem me referi há pouco. Ele veio com sua grande pergunta, com seus repetidos “Como?”. Jesus nem sequer tentou responder à sua pergunta. Ele sabia como é inútil falar a um homem morto.
Ele olhou para o homem e disse:
Necessário vos é nascer de novo.
Ou, de maneira literal e mais correta:
Necessário vos é nascer do alto.
A outra afirmação também é muito conhecida:
Se alguém está em Cristo, nova criatura é.
Essas duas expressões mostram o que acontece: nascimento e nova criação. Isso nos leva a percorrer todo o terreno que acabamos de examinar, mas no sentido inverso.
Quando nos tornamos cristãos — nesse sentido, e não conheço outro sentido em que tornar-se cristão seja algo adequado e correto —, não nos tornamos cristãos simplesmente por aceitar os princípios da religião cristã e concordar mentalmente com eles, ou por nos associar a alguma organização chamada instituição cristã, ainda que ela leve o nome de igreja.
Isso não é tornar-se cristão no sentido do Novo Testamento. A única maneira verdadeira de tornar-se cristão é nestes termos: nascer de novo, ser uma nova criação.
Você passa a ser de uma espécie diferente daquela a que pertencia antes e daquela a que pertencem todas as outras pessoas que não tiveram essa experiência. E, quando nos tornamos cristãos dessa maneira, o que acontece?
Um estado de morte dá lugar a um estado de vida — essa outra vida, essa vida de ressurreição, que nenhum homem jamais teve por natureza, com exceção de Jesus Cristo.
Essa vida nos é dada no dia em que exercemos fé no Senhor Jesus como Senhor e Salvador. Passamos a estar vivos de uma maneira nova.
Essa é a primeira experiência maravilhosa e fundamental do cristão: naquele momento, ele entra na vida e imediatamente começa a falar uma nova linguagem, dizendo que agora conhece o significado da vida — o que é viver.
É isso. Precisamos começar bem no início. O que acontece quando nos tornamos cristãos? Bem, passamos da morte para a vida. Tornamo-nos vivos.
Mas não se trata simplesmente de reanimar alguma coisa. Trata-se de comunicar algo que nunca esteve ali antes: uma nova vida que pertence a uma nova criação. Essa é uma nova ordem, uma ordem celestial, porque isso é nascer do alto.
Jesus nunca disse nada mais verdadeiro do que isso:
Necessário vos é nascer.
Se há alguém aqui nesta noite que não teve essa experiência, você sabe disso. Você sabe, por causa da verdade do que eu disse sobre a condição natural. Você sabe muito bem que, para ver Deus dessa maneira, ouvir Deus dessa maneira, sentir e perceber Deus dessa maneira, algo precisa acontecer com você — algo que não seja menos do que o equivalente a nascer inteiramente de novo, em outra esfera.
Você sabe disso. Ao menos nesse ponto, deveria reconhecer que Jesus está certo. É verdade: você precisa nascer.
Não se trata apenas do imperativo de uma ordem. Não se trata apenas de declarar que você precisa tornar-se cristão para ser aceito por Deus. Trata-se da afirmação de um fato fundamental, que diz respeito à própria constituição do seu ser: você nunca poderá sequer perceber Deus de maneira real — muito menos ter comunhão viva com Ele —, a menos que aconteça algo que transforme a própria constituição do seu ser.
Você precisa ter uma nova vida, que é a própria vida de Deus, para compreender o que Deus é e conhecê-Lo.
Essa nova vida, então, traz imediatamente uma nova consciência em relação a Deus. É uma nova consciência de Deus.
Você está vivo para Deus; percebe Deus. Deus se torna uma realidade — uma realidade viva —, já não remota, distante, indefinida; agora, muito próxima, muito real, muito maravilhosa: a maior realidade de toda a sua vida. Deus, de uma maneira nova: uma nova consciência de Deus.
Depois, como aspecto seguinte, há uma nova consciência do significado da sua própria existência.
Todo cristão que está verdadeiramente firmado nessa base — nosso começo, nossa ressurreição — quase imediatamente chega a esta consciência: “Agora encontrei a explicação da vida. Encontrei a chave da vida”.
“Sei que nasci para alguma coisa. Antes, nunca soube que realmente havia nascido para alguma coisa. Agora sei. Há um sentido em minha presença aqui e um destino ligado a essa nova experiência. Ela dá uma explicação à minha própria vida.”
Não é verdade? Para os verdadeiros cristãos, é exatamente assim. Agora sabemos por que estamos aqui.
E, avançando apenas mais um passo, há uma nova consciência de propósito e vocação. Não apenas existe um significado em estarmos vivos, mas também um propósito que veio com essa nova vida — um senso de vocação. Somos chamados para alguma coisa.
Você não precisa receber muita instrução sobre isso. Nem sequer espera por ela. O verdadeiro filho de Deus, nascido de novo, começa espontaneamente, instintivamente, a falar disso a outras pessoas.
Você pode avaliar sua vida cristã por esse critério. Simplesmente começa: precisa contar a eles, precisa falar disso, precisa fazê-los saber. É a vocação se manifestando. Você sente que foi chamado para alguma coisa. Há uma tarefa a realizar.
E isso pode se desenvolver, como vocês sabem, em vocações específicas. Mas é uma consciência de propósito, significado e vocação que surge com essa nova vida.
Depois, há um novo conjunto de relacionamentos, desejos e interesses. Sabemos disso. É isso que acontece.
Fale dessas coisas a qualquer pessoa que não tenha tido essa experiência. Ela tem seus relacionamentos, seus interesses e seus desejos, e não entende por que você não faz o que ela faz, não vai aonde ela vai e não se envolve nas coisas que, para ela, são tudo. Ela não compreende você.
Essas pessoas pensam que você perdeu o rumo e tudo o que vale a pena ter. Mas você sabe que é exatamente o contrário. Você não as despreza, mas sente compaixão por elas. Pois esse é um conjunto de relacionamentos transcendente, incomparavelmente superior.
Os cristãos conhecem o significado daquela pequena expressão sobre os primeiros servos de Deus. Eles foram presos porque faziam exatamente isso — cumpriam e expressavam seu senso de vocação, sem guardá-lo para si. Foram presos, ameaçados e tudo o mais; e, quando foram soltos, foram para os seus.
Instintivamente, foram para os seus. Bem, sabemos o que isso significa. Há uma nova companhia, um novo relacionamento, uma nova comunhão, um novo conjunto de desejos e interesses. Ninguém mais consegue compreender ou apreciar isso; o cristão sabe.
É isso que acontece. É isso que acontece.
E há um novo conjunto de capacidades.
Essa é uma coisa maravilhosa a respeito da vida da nova criação — dessa vida de quem nasceu de novo, dessa verdadeira vida cristã. Você recebe um novo conjunto de capacidades mentais.
Algo diferente da capacidade mental natural, que se acrescenta a ela e a transcende: uma nova compreensão das coisas.
Isso é maravilhoso. Uma das maravilhas da vida cristã é que você pode encontrar uma pessoa que não teve grandes vantagens acadêmicas, educacionais ou em qualquer outra área — uma pessoa muito comum — e que, ao entrar em uma experiência real da vida cristã, se torna notavelmente inteligente, conhecedora e capaz de compreender.
Ela tem uma percepção das coisas que um homem com a mais elevada formação e a maior capacidade intelectual é inteiramente incapaz de captar ou compreender.
Nós, cristãos, sabemos como isso é verdadeiro. Muitas vezes pensamos que determinada pessoa, por causa de suas grandes realizações e qualificações acadêmicas, certamente será capaz de compreender e de ter uma boa troca conosco quando falarmos das coisas do Senhor. No entanto, falamos, e ela diz: “Do que você está falando?”.
E aqui está este homem ou esta mulher simples que sabe. É uma nova faculdade mental, um conjunto de capacidades e poderes para compreender as coisas do Espírito de Deus — conhecer aquilo que nenhum homem natural pode conhecer, não por meio do estudo, mas por meio da comunhão com Deus.
Maravilhosas novas capacidades para compreender e conhecer. Elas se desenvolvem e crescem à medida que o cristão prossegue.
Há também novas forças para agir — para fazer. O cristão tem poder para fazer coisas que outras pessoas não conseguem fazer: poder para perseverar, poder para trabalhar.
Muitos dos meus amigos aqui nesta noite me compreenderão quando digo que, às vezes, e com muita frequência, parece que o Senhor faz questão de enfraquecer nossa capacidade natural de realizar as coisas, para nos conduzir a uma vida em que podemos agir sem nenhuma explicação natural.
Olhem para muito do que foi feito por meio de verdadeiros cristãos na história deste mundo, e vocês não conseguirão explicar isso com base em fatores naturais. Eram seres fracos, frágeis — pessoas sem valor aos olhos deste mundo —, mas vejam o que Deus fez por meio das coisas fracas e das que não são.
Poder para realizar, para cumprir, para fazer, sem qualquer explicação natural.
Uma nova consciência, um novo conjunto de relacionamentos e interesses, um novo conjunto de capacidades — e uma nova esperança.
Uma nova esperança é característica do verdadeiro cristão. Uma perspectiva inteiramente nova entrou em sua vida. Veremos mais a respeito disso nas próximas noites.
Mas é preciso dizer aqui: o cristão, se for um verdadeiro cristão, não é alguém caracterizado pelo desespero, pela falta de esperança, pela frustração definitiva e pela decepção.
O cristão é alguém em cujo íntimo, no mais profundo do seu ser, está enraizada a consciência de que há algo maravilhoso à frente — algo além.
O argumento decisivo a respeito do futuro não está em algum sistema de ensino sobre o céu ou sua alternativa; ele se encontra no coração. Encontra-se na vida. Encontra-se em uma poderosa força dinâmica.
O que tem mantido os santos prosseguindo diante de dificuldades, sofrimentos e adversidades indescritíveis? O que é?
Outros desistem, abandonam tudo e caem em desespero. O cristão simplesmente prossegue — não porque tenha uma constituição natural melhor do que a dos outros, com mais tenacidade e persistência. De modo algum.
Muitas vezes, são justamente os fracos, segundo a avaliação dos homens, mas continuam prosseguindo. O que é isso? É algo que os tomou por dentro: “Este não é o fim, e isto não é tudo”. Há aquilo que está além. Há isso que veio do Deus da esperança.
Agora, depois de tudo o que eu disse, qual é a explicação de tudo isso? Uma nova vida, uma nova consciência, novos relacionamentos — todas as coisas novas. Não estou exagerando a vida cristã.
A que tudo isso se resume? Qual é o segredo que abrange tudo?
Vejam, não se trata simplesmente de o cristão receber algumas coisas abstratas. Você pode chamar isso de luz; pode chamar de entendimento; pode chamar de esperança; pode chamar de poder. Mas essas coisas não são abstrações.
O verdadeiro cristão nascido de novo não recebeu abstrações, mas uma Pessoa.
Deus dá o Espírito Santo àqueles que Lhe obedecem.
O dom do Espírito Santo é a explicação que abrange tudo isso. Digo isso para situar as coisas em sua esfera correta.
O Espírito Santo é Deus — Deus, nada menos que Deus. O Espírito Santo possui toda a inteligência e todo o conhecimento de Deus, todo o poder de Deus, todas as perspectivas eternas de Deus, os elementos da eternidade e da existência além do tempo. Tudo o que é verdadeiro a respeito de Deus é verdadeiro a respeito do Espírito Santo.
Deus concede o Espírito Santo para habitar no interior de uma pessoa. Essa pessoa aprende, como uma criança desde o início, dia após dia e ano após ano, a andar em comunhão com o Espírito Santo que nela habita.
Essa pessoa certamente crescerá em todas essas coisas de que falei — certamente conhecerá a vida divina, a própria vida de Deus em seu interior. Que coisa maravilhosa! Vocês pensam nisso? Não apenas alguma coisa, mas Ele mesmo: Deus em Cristo, pelo Espírito Santo, sendo a nossa própria vida.
Gosto muito da maneira como a Bíblia expressa isso a respeito de Deus:
Tu és a prolongação dos meus dias.
Pensem nisso.
Isso significa que, se Deus realmente é a nossa porção e habita em nós, a duração da nossa vida não é determinada por fatores naturais. Ele é a prolongação dos nossos dias.
Morreremos quando chegar a hora — não antes. As coisas estão nas mãos Dele. Até esse momento, as ameaças podem ser muitas, mas Sua vida persiste. Nós nos levantamos de novo, e de novo, e de novo. Pensávamos que o fim havia chegado; ainda assim, nós nos levantamos mais uma vez e prosseguimos.
E assim prosseguimos, porque Ele é a nossa vida. É uma Pessoa.
O Espírito Santo é chamado de Espírito de vida. Sua habitação em nosso interior é algo maravilhoso.
Se Ele possui toda a inteligência divina, e nós estamos em Sua escola, vivendo com Ele e mantendo comunhão com Ele dia após dia, crescemos nessa inteligência que nenhum homem natural possui: crescemos no conhecimento, crescemos no entendimento, crescemos na capacidade de captar coisas que nenhum homem, à parte do Espírito de Deus, pode compreender.
Quero enfatizar isto: é o próprio Espírito Santo.
Conheço cristãos que creem no Espírito Santo. A maioria dos cristãos evangélicos crê na Pessoa do Espírito Santo. Eles usam o artigo: o Espírito Santo, enquanto outros falam simplesmente em Espírito Santo.
Mas faz parte da nossa fé cristã crer no Espírito Santo como uma Pessoa e ter algum conhecimento da doutrina do Espírito Santo — de Sua obra e de Seu poder.
Contudo, queridos amigos, encontro entre os cristãos uma lamentável falta de compreensão do que significa ter o Espírito Santo realmente habitando em nós.
Isso se revela e se manifesta no fato de que podem agir e falar de maneira tão contrária ao Espírito Santo sem serem refreados por Ele.
Vocês ficariam admirados ao ver quantos cristãos conseguem falar de uma maneira com a qual o Espírito Santo certamente não concorda e, ainda assim, não têm nenhuma consciência de que o Espírito Santo discorda deles.
Há algo errado aqui nessa expressão prática da habitação interior do Espírito Santo.
Tantos cristãos conseguem acreditar em mentiras sobre outras pessoas e repeti-las sem jamais serem refreados pelo Espírito Santo em seu interior, ou sem jamais perceberem Sua discordância. Pois Ele é o Espírito da verdade. Há algo errado aqui.
Agora, a verdadeira vida cristã — e, se somos cristãos, precisamos buscar a Deus a esse respeito — significa que, sempre que o Espírito Santo discordar de qualquer coisa que dissermos ou fizermos, ou da maneira como a dissermos ou fizermos, devemos saber disso.
Devemos saber imediatamente. Devemos perceber — não uma voz, mas uma sensação interior. O Espírito Santo diz, em essência: “Eu não concordo com você. Isso não está certo. Isso não é verdade. Isso não é bondoso. Isso não é bom. Isso não expressa graça”.
Há uma necessidade muito grande de que a realidade do Espírito que habita em nós seja expressa.
Agora, não estou dizendo que deixar de reconhecer, sentir e discernir significa que o Espírito Santo não está presente. Mas estou dizendo, sim, que, se as coisas são assim, não estamos andando no Espírito. Da nossa parte, há um ajuste necessário.
Mas, passando ao lado positivo, a verdadeira vida cristã pode ser assim; pode e deve ser assim: o Espírito Santo habita em nós e, então, se você ou eu dissermos ou fizermos qualquer coisa com a qual Ele não concorde, saberemos imediatamente.
Sentimos um incômodo bem dentro de nós, e não nos livramos dele até irmos ao Senhor e dizermos: “Evidentemente, eu estava errado no que disse. Senhor, perdoa-me e remove isso. E, se isso causou algum dano a alguém, vamos procurar corrigir a situação”.
Isso é uma vida no Espírito. É algo muito prático.
É isso que acontece quando nos tornamos cristãos. Começa assim.
Bem, os começos são muito simples. Se você está apenas no início da vida cristã, certamente deve conhecer algo assim de maneiras simples. Talvez você vá fazer o que costumava fazer, e algo dentro de você diga: “Ah, não, agora não. Isso pertence ao passado”.
Bem, esse é um começo simples, não é?
Se você insistir, queimará os dedos, e saberá quando os queimar porque está vivo. Se estivesse morto, faria essas coisas sem senti-las. Mas, porque está vivo, você percebe.
Bem, em resumo e de maneira muito simples, é isso que acontece quando nos tornamos cristãos.
Embora eu saiba que muitos de vocês conhecem tudo isso, sinto que, como tantas pessoas estão vindo a Cristo nestes dias, é importante que elas saibam, no início da vida cristã, em que realmente ingressaram e o que realmente aconteceu com elas.
Talvez possam dizer, diante do que falei nesta noite: “Sim, bem, eu não teria conseguido explicar isso. Mal conseguiria expressá-lo em palavras, mas sei o que você quer dizer. É bem verdade. É bem verdade na minha experiência”.
Mas, vejam, isso é mais do que apenas sentir. Precisamos compreender. Há muito valor na compreensão.
Que Deus nos faça cristãos esclarecidos — cristãos que prosseguem em comunhão viva com Seu Espírito, que habita em nós, e que crescem continuamente.
Ah, Deus não permita que, se houver jovens cristãos aqui, daqui a cinco, dez ou vinte anos vocês estejam exatamente onde estão agora — no começo. Isso não é necessário, porque, como vocês sabem, nascer não é o fim de tudo. É apenas o começo.