Permitam-me repetir o que tenho dito no início de cada ocasião anterior: estamos falando a três grupos de pessoas.
Primeiramente, àqueles que nunca tiveram uma experiência definida daquilo que a Palavra de Deus chama de nascer de novo. Isto é, nunca entraram na vida cristã por meio de uma experiência viva. Temos tido algumas dessas pessoas conosco em cada ocasião, e não queremos que sejam esquecidas enquanto falamos da vida cristã.
Em segundo lugar, há aqueles que têm pouco conhecimento e pouca experiência da vida cristã — aqueles que, há relativamente pouco tempo, entraram nessa experiência e precisam de ajuda em seus primeiros passos.
E, em terceiro lugar, há os veteranos, que já sabem tudo a respeito! Meu objetivo ao dizer isso é que vocês compreendam que, se alguma coisa não corresponde exatamente ao ponto em que vocês estão, talvez corresponda à situação de outra pessoa. Vocês não devem ficar entediados nem impacientes com aquilo que pode ser útil a alguém.
Assim, manteremos o equilíbrio e conservaremos a reunião viva e renovada, se tivermos isso em mente.
Nosso tema geral, como vocês sabem, é o que significa ser cristão. Primeiro, consideramos o imenso significado da vida cristã. Depois, na semana passada, vimos o que acontece quando nos tornamos cristãos. Agora, nesta noite: o propósito divino e os princípios que regem a vida cristã.
Primeiramente, então, um propósito divino. É muito necessário termos plena consciência de que o propósito realmente governa a vida cristã.
Essa palavra, propósito, ocupa um lugar de grande destaque no Novo Testamento. A maioria de vocês conhece uma declaração relacionada a ela, embora geralmente seja cortada pela metade. Tomamos a primeira parte:
Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus.
Mas essa não é a declaração completa:
Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o Seu propósito.
Chamados segundo o Seu propósito.
Depois temos outra expressão, não tão conhecida:
Predestinados conforme o propósito Daquele Que faz todas as coisas segundo o conselho da Sua vontade.
E, novamente:
Segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus, nosso Senhor.
E ainda:
Segundo o Seu próprio propósito e graça.
Essas declarações são suficientes para indicar, pelo menos, que o propósito é uma ideia que governa a vida cristã. Não somos salvos, não nos tornamos cristãos, apenas para sermos salvos e apenas para sermos cristãos. Isso é somente o começo de alguma coisa. Visa a algo muito maior no pensamento e na intenção de Deus.
Vocês perguntam: “Qual é o propósito?” Bem, há muitas coisas ditas a respeito dele — o que ele é e a que se destina. Não vou dedicar tempo a citar todas as passagens das Escrituras nesta noite; não devemos entrar em detalhes demais.
Mas, quando reunimos tudo o que se diz a respeito, há uma coisa que inclui, abrange e engloba todas as demais, das quais elas são apenas partes. Essa única realidade, inclusiva e abrangente, que apresenta o propósito divino, encontra-se numa expressão de uma das cartas de Paulo:
Até que todos alcancemos a plenitude de Cristo.
A plenitude de Cristo — esse é o propósito para o qual somos chamados, que governa a vida cristã e lhe dá significado.
Vamos dedicar algum tempo a examinar isso. Mas tenho certeza de que vocês reconhecerão imediatamente que isso torna Cristo muito grande. Certamente, se todos os cristãos que já existiram, que existem e que ainda existirão são chamados com esse propósito — alcançar a plenitude de Cristo —, e se o número deles é incontável em todos os séculos e em todas as gerações desde o primeiro cristão, então Cristo deve ser realmente muito grande.
A vida cristã, portanto, deve ser algo muito grande. Se ela recebe de Cristo seu caráter, seu significado e suas dimensões, então a vida cristã que corresponde a Cristo deve ser uma realidade muito grande.
Isso torna a vida cristã necessariamente progressiva. Nenhum cristão, em qualquer momento de sua experiência ou de sua história aqui na terra, pode dizer que já chegou a esse fim. Isso significa que a vida cristã é uma vida de progresso e desenvolvimento, em que tudo caminha em direção àquela plenitude final.
Assim, encontramos no Novo Testamento a vida cristã apresentada em três tempos: somos cristãos, estamos nos tornando cristãos e seremos cristãos.
Há três palavras distintas no Novo Testamento, na língua original, que indicam esses tempos. Creio que foi o bispo Handley Moule quem estava viajando certa vez. Uma jovem do Exército de Salvação entrou no mesmo compartimento que ele e, quando já estavam acomodados e a viagem seguia, embora ele fosse bispo — ou, creio, deão naquela época — e estivesse com suas vestes eclesiásticas, ela lhe perguntou: “O senhor é salvo?”
O bondoso bispo idoso olhou para ela e disse: “Você quer dizer…” — e então citou as três palavras gregas. Soaria um pouco pedante eu citá-las para vocês. “Você quer dizer: fui salvo, estou sendo salvo ou serei salvo?”
É claro que ela ficou completamente desconcertada. Foi um pouco duro com ela, e ela não soube o que dizer, mas isso levou a uma conversa muito proveitosa sobre o começo, o crescimento e o fim da vida cristã.
O que quero dizer é que isso está no Novo Testamento. Fomos salvos, estamos sendo salvos e seremos salvos. As três coisas estão lá.
Seremos salvos.
Essa é a expressão: a etapa final.
Fomos aceitos em Cristo. Estamos crescendo em Cristo. Seremos aperfeiçoados em Cristo. Cristo, portanto, abrange toda a vida do cristão, como seu começo, sua continuidade e sua consumação.
Essa é uma afirmação que, vocês todos concordarão, não precisa de muita explicação. Mas o que isso significa? O que é a plenitude de Cristo?
Bem, qual é o começo, ou a natureza simples e inicial da experiência de Cristo na qual entramos no princípio?
Quando entramos em Cristo, dizemos que entramos na vida. Entramos na vida. Encontramos vida em Cristo. O grande segredo da primeira experiência é que recebemos um dom de Deus, que é a vida eterna, e sabemos disso.
Como estávamos dizendo na semana passada, não há dúvida a esse respeito. Sabemos que a vida nos foi dada. Guardemos isso com firmeza.
Então, no começo, falamos de ter recebido luz ou de ter entrado na luz — na luz. Embora talvez não consigamos definir ou explicar tudo o que se tornou iluminado para nós, no conjunto há outro mundo. Sabemos que nossos olhos foram abertos; passamos a enxergar; a luz raiou sobre nós.
Podemos dizer:
Havendo eu sido cego, agora vejo.
Eu estava nas trevas; agora tudo é luz. Digam como quiserem: o começo da vida cristã está aí — vida, luz e, depois, liberdade.
Liberdade! Uma das grandes coisas no começo da vida cristã é um maravilhoso sentimento de libertação, de emancipação, de ter sido posto em liberdade. A liberdade à qual Cristo nos conduz é, por si só, um grande tema de ensino. É uma grande realidade — essa liberdade, essa maravilhosa libertação.
Além disso, quando nos voltamos para Cristo, entramos no amor. O amor divino entra em nosso coração. Essas são realidades fundamentais nas quais entramos, de forma inicial, e que entram em nós logo no começo.
Há muito mais nisso, e há muitas outras coisas, mas isso basta para responder à nossa pergunta: vida, uma vida nova.
Não me refiro agora à maneira como vivemos — isso vem depois, naturalmente —, mas a um novo poder dinâmico em nós, chamado vida divina. Uma vida nova, inteiramente diferente. Essa vida traz em si outra natureza, pertence a outra esfera e tem a natureza dessa outra esfera, que é a esfera do próprio Deus.
Com essa vida, recebemos uma nova natureza. Não quero dizer, neste ponto, é claro, que já sejamos criaturas inteiramente diferentes; mas esse é o começo. Temos consciência de que há uma nova natureza operando dentro de nós, agindo a favor de certas coisas e contra outras, algo que nunca antes havia acontecido conosco.
Uma vida e uma energia novas e diferentes. A vida é uma energia, não é? É maravilhoso. Energia é vida. Vejam o que a vida é capaz de fazer.
A vida realmente exige dificuldades para demonstrar sua energia. Lembro-me de que, alguns anos atrás, fui à Cornualha e fiquei hospedado numa fazenda. Essa fazenda tinha campos numa encosta, e um deles estava coberto de pedras grandes — pedras grandes por todo o campo.
Era a época do ano em que as sementes já haviam sido plantadas, mas nada estava aparecendo. Eu disse ao fazendeiro: “Certamente o senhor nunca conseguirá uma colheita de trigo nesse campo com todas essas pedras”.
“Não se engane”, disse ele. “Quando vim para esta fazenda, retirei todas elas. Tive uma colheita muito fraca, então coloquei as pedras de volta; e consigo uma colheita muito melhor com as pedras, muito mais forte e saudável do que antes.”
A vida, vejam vocês, demonstra o que é por meio das dificuldades e das oposições. Aqui está uma nova força vital, uma energia de outra espécie, de outro reino, que nos é dada em nosso novo nascimento. É diferente.
Há também uma nova capacidade de compreender, um novo entendimento, uma nova clareza acerca das coisas. Todos os que têm uma experiência cristã genuína sabem que enxergam o que nunca antes conseguiam enxergar. Estavam sempre se esforçando e lutando para ver; agora veem, e outro mundo se abre diante deles.
É como um novo mundo que se apresenta a alguém que nasceu cego e, de repente, recebe a visão. Essa pessoa pode ter ouvido falar dele, conversado sobre ele e recebido explicações a respeito, mas nunca pôde dizer: “Agora eu vejo, eu vejo”.
Sim, vocês recebem luz, liberdade, libertação e, com a libertação, amplitude. Como a vida cristã é ampla! Há algo errado com uma vida cristã pequena, mesquinha, insignificante, limitada e estreita. A vida cristã é algo amplo; é uma terra de horizontes distantes.
Com essa amplitude vem uma nova percepção interior de perspectiva — perspectiva. Há sempre mais e mais adiante. Quanto mais vocês avançam na vida cristã, mais conscientes ficam de quanto ainda há. Nunca se esgota essa percepção real de perspectiva e de futuro: uma porta grande, inteiramente aberta.
E o amor: uma nova força motivadora na vida e no coração. A nova força motivadora é o amor. A marca de um verdadeiro cristão, de uma verdadeira vida cristã, é o amor.
No começo, como dissemos na semana passada, ele se manifesta num desejo imediato de compartilhar — de fazer outra pessoa saber de tudo isso e participar do bem de que vocês passaram a desfrutar. Há um coração amplo, transbordando em favor de todo o mundo, para que o mundo saiba.
O amor é, em seu caráter, abnegado e disposto a se dar. Se vocês fizerem alguma coisa, se fizerem qualquer sacrifício, nunca pensem em si mesmos.
O amor de Cristo nos constrange.
Há grande cuidado com os interesses dos outros e uma devoção profunda e calorosa a esses interesses.
Não podemos desenvolver cada uma dessas coisas — talvez menos ainda esse maravilhoso amor de Deus derramado em nosso coração. Mas, vejam, essas quatro coisas já estão presentes logo no começo, de forma inicial.
O que é a plenitude de Cristo? É simplesmente o desenvolvimento contínuo e a consumação final dessas mesmas coisas: o crescimento contínuo da vida.
A vida, o vigor, essa força dinâmica de Deus dentro de nós, essa natureza divina que está em Sua vida, nunca, nunca deve parar. Segundo o propósito eterno, ela deve crescer, crescer e crescer cada vez mais: mais vida.
Ah, queridos amigos, levem isso a sério. Receber a vida eterna pode ser um dom concedido de uma vez por todas, mas vocês ainda precisam descobrir como essa vida é maravilhosamente plena e como ela pode se tornar cada vez mais abundante à medida que prosseguem.
Quanto mais tempo vivemos como cristãos, mais devemos ser caracterizados por essa poderosa vida de Cristo — ela é chamada de poder da Sua ressurreição. Ela deve estar presente o tempo todo.
A plenitude de Cristo é a ampliação e o desenvolvimento daquelas mesmas coisas que vieram a nós, e nas quais entramos, no começo. Se estamos avançando para a plenitude, nunca a alcançaremos aqui nesta vida, mas, finalmente, entraremos plenamente nela.
Será a universalidade de todas essas coisas. Ah, vocês podem ver como Cristo é vasto e como a vida cristã deve ser vasta.
As Escrituras falam de Cristo enchendo todas as coisas — de que Ele encha todas as coisas. Como Cristo encherá todas as coisas? Bem, exatamente desta maneira: todas as coisas estarão cheias da Sua vida, e não haverá nenhuma outra; cheias da Sua luz; cheias da Sua liberdade; cheias do Seu amor.
Cristo enchendo todas as coisas: tudo o que Cristo é expresso em toda a criação. Esse é o propósito da vida cristã. Temos falhado em cumprir esse propósito se isso não é verdade de maneira progressiva agora.
Se não é verdade que essas coisas estão aumentando em nós, perdemos o próprio objetivo da vida cristã. Se não há mais amor, e ainda mais amor, e mais amor uma vez mais, perdemos o próprio propósito da vida cristã. Isso vale para todas as outras coisas.
Cristo enchendo todas as coisas, e todas as coisas cheias para Cristo.
Não sei qual seria a melhor maneira de ilustrar isso. Tenho algumas ilustrações muito boas no Antigo Testamento, pois há ali uma ilustração para esse exato propósito. Todos sabem alguma coisa sobre o rei Salomão.
Vocês leem a história de Salomão: sua grande sabedoria. Ele é sinônimo de sabedoria — a sabedoria de Salomão. Se alguém demonstra uma sabedoria ou uma perspicácia especial, imediatamente o chamamos de um pequeno Salomão.
Salomão também é sinônimo de imensa riqueza: as riquezas de Salomão. Seu reino tinha um poder imenso, ultrapassando todos os reinos que já haviam existido em Israel; e sua glória era imensa. Até o Senhor Jesus Se referiu a isso. Era proverbial:
Nem mesmo Salomão, em toda a sua glória.
Assim eram Salomão e seu reino: tão grandes em sabedoria, riquezas, poder e glória. Seu povo participava disso — plenamente.
O relato diz que, quando a rainha de Sabá veio ver tudo isso por si mesma, seu veredito foi:
Não me contaram a metade.
“Eu tinha ouvido histórias fabulosas, mas não me contaram a metade.” O povo de Salomão desfrutava desse bem.
Mas, em certos sentidos, isso também estava neles. Temos uma descrição da mesa de Salomão e, quando aqueles que comiam à sua mesa se levantavam, sua glória estava neles, suas riquezas estavam neles, e eles sabiam disso. Funcionava nos dois sentidos. Eles participavam da grandeza de Salomão, mas a grandeza de Salomão também estava neles.
Agora, aqui no Novo Testamento, Jesus diz:
Eis que está aqui Quem é maior do que Salomão.
Cristo transcende infinitamente Salomão. Portanto, o povo de Cristo é, nessa mesma proporção, maior do que o povo de Salomão. Sua plenitude deve ser a herança deles. Eles devem estar nela, e ela deve estar neles.
O propósito de Deus está aí. O propósito de Deus é ter um povo que, em sua essência, viva em grande prosperidade, em grande riqueza, em grandes riquezas espirituais e em grande glória espiritual. Somos chamados, diz a Palavra de Deus, à Sua eterna glória.
Esse é o propósito, apresentado de maneira breve e muito simples.
Os princípios que regem a vida cristã: em primeiro lugar, não há realização do propósito à parte dos princípios. Os princípios são fundamentais para o propósito e o governam. Nunca avançamos no propósito, seja progressivamente, seja até sua realização final, a não ser pelos princípios divinos.
Se o propósito toma conta do nosso coração e respondemos: “Sim, que coisa maravilhosa é esta vida cristã; que coisa maravilhosa é ser chamado segundo esse propósito; e eu quero alcançar isso”, então é necessário conhecer alguns princípios que o governam.
Sem eles, à parte deles, não há avanço no propósito nem desenvolvimento do propósito.
O primeiro princípio fundamental do propósito é a cruz — a cruz de nosso Senhor Jesus Cristo.
A cruz opera de duas maneiras, ou tem dois lados. Primeiro, Sua cruz e o que ela significa para nós; depois, Sua cruz e o que ela significa em nós. Esses são dois lados da cruz que ocupam grande parte do ensino do Novo Testamento.
A cruz é uma obra realizada plena e definitivamente. Por um lado, é uma obra concluída: isto é, no que diz respeito a podermos chegar a Deus, termos acesso a Deus, termos união com Deus e termos comunhão com Deus. Toda a obra necessária para isso foi plenamente concluída.
Somos aproximados pelo sangue da Sua cruz. Fomos feitos um com Ele pela cruz. A cruz, desse lado, é uma obra plenamente realizada para nossa aproximação de Deus, nosso acesso a Deus e nossa união com Deus. Não há mais nada a fazer, a não ser aceitá-la pela fé.
Mas há o outro lado da cruz: o que ela deve significar em nós. A cruz também é um poder permanente em nossa vida. É um princípio que deve operar continuamente em nós.
De um lado, temos o que a cruz significa em si mesma; do outro, o que a cruz exige em nós. O que ela significou?
Bem, de maneira abrangente e inclusiva, a cruz significou a remoção, de diante dos olhos de Deus, de um tipo de homem.
Jesus Cristo, em determinado momento, assumiu a condição de representante de todos os homens tal como eram aos olhos de Deus — em pecado, sob juízo. A Escritura diz:
Aquele Que não conheceu pecado, Ele O fez pecado por nós.
E também diz que Ele Se fez maldição em nosso lugar.
Era aí que estávamos. Todos os homens estavam nessa condição: pecado — não apenas pecadores, mas algo pior aos olhos de Deus —, sob juízo, sob condenação, em rejeição.
Jesus, naquele momento, tomou esse lugar: o seu lugar, o meu lugar, o lugar de cada homem que, aos olhos de Deus, estava sob essa rejeição. Ele entrou em toda a realidade consciente dessa rejeição.
Vocês e eu nunca conhecemos, e nunca conheceremos, o menor gosto ou indício do que é ser rejeitado por Deus. Isso bastaria para nos despedaçar de terror. Se vocês e eu tivéssemos a menor consciência de sermos abandonados, isso seria devastador para nosso ser moral — intolerável e insuportável.
Ele tomou sobre Si a totalidade daquela terrível consciência. Pecado — Ele foi feito pecado. Estava sob esse peso e foi quebrantado.
Ele conheceu e suportou, naquele único e terrível momento eterno, o abandono de Deus em nosso favor:
Deus Meu, Deus Meu, por que Me desamparaste?
Isso foi feito por vocês e por mim. Nunca precisamos chegar a essa condição, se aceitarmos o que Ele fez por nós.
Mas isso foi, vejam vocês, a remoção de um tipo de homem cuja condição Ele havia aceitado voluntariamente. Ele voluntariamente permitiu que, naquela hora terrível, fosse feito aquele tipo de homem, ou tomasse seu lugar.
Era Deus dizendo: “Fechei a porta para sempre a esse tipo de criação”.
É isso que a cruz significa: na morte de Cristo, vocês e eu fomos postos de lado naquilo que somos por natureza — homens e mulheres na velha natureza. Deus, em Cristo, pôs inteiramente de lado e removeu um tipo de ser, uma espécie de criação, tirando-o do caminho.
Na ressurreição do Senhor Jesus, toda aquela condição do homem ficou para trás. Não foi aquele homem — aquele tipo de homem — que ressuscitou dentre os mortos. Foi um novo homem, outro. Ele agora Se despojou daquele homem e assume o lugar de um homem da nova criação.
Ali, o céu está aberto. Deus aceita esse Homem, e o Homem é estabelecido para sempre diante de Deus como o tipo de homem que Deus sempre teve em mente.
Assim, de um lado, Deus põe de lado um homem; do outro, estabelece outro tipo de homem. Portanto, diz o apóstolo:
Se alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo.
— 2 Coríntios 5:17
A vida cristã é exatamente isso, em princípio. A cruz estabeleceu essa diferença — uma diferença entre onde estávamos e como éramos antes aos olhos de Deus, e como é agora. Um homem diferente, uma criação diferente, em Cristo.
Em Cristo, pela fé, outro homem é colocado onde o anterior estava: na ressurreição de Cristo.
Disso surge todo o ensino sobre a necessidade, em primeiro lugar, de aceitar essa posição. Nunca chegaremos a lugar algum em Cristo, no caminho para a plenitude, até aceitarmos a posição em que Deus nos colocou na morte de Cristo.
Na prática, Ele nos diz: “Vejam bem: em si mesmos, vocês são um homem morto, uma mulher morta, no que diz respeito a Mim. Vocês precisam reconhecer que, quando Meu Filho morreu, vocês morreram Nele. Até que façam isso, não chegarão a lugar algum”.
Quando fazem isso, vocês estão em condições de tomar seu lugar em Cristo ressuscitado. Em Cristo ressuscitado, há uma nova criação.
Vejam, em primeiro lugar, trata-se de uma posição a ser assumida — deliberadamente assumida pela fé. Isso não é novo para muitos de vocês, mas precisa ser constantemente ressaltado.
Essa é a posição fundamental da vida cristã. É o princípio fundamental da vida cristã: precisamos concordar com o veredito de Deus sobre nós em nossa condição natural.
Não devemos dissecar a nós mesmos e dizer: “Isto é bom e isto é mau; isto não é tão bom, e isto não é tão mau”, e coisas desse tipo. Deus nos incluiu por inteiro em Seu Filho. Ele não faz distinção entre o que chamamos de bom e de mau. Ele nos considera inteiramente sob condenação.
Não há um justo, nem um sequer.
— Romanos 3:10
Ah, isso é fundamental. Repito: faz toda a diferença quando vocês compreendem esse princípio fundamental da vida cristã.
Muitos cristãos não fazem progresso algum, e seu desenvolvimento e crescimento em direção à plenitude ficam impedidos e paralisados porque eles não resolveram essa questão. Ainda estão tentando fazer alguma coisa daquele que Deus diz que jamais aceitará. Ainda pensam que podem ser alguma coisa em si mesmos e tentam ser alguma coisa em si mesmos.
Nunca aceitam essa posição absoluta e definitiva. Deus diz: “Coloquei vocês num túmulo com Meu Filho, e ali tudo isso terminou. Agora tudo precisa vir de uma fonte inteiramente diferente, de outra espécie. Agora tudo precisa vir de Cristo ressuscitado, e absolutamente nada de vocês”.
Essa é a chave para a plenitude. Ela abre o caminho, escancara as portas. Quando vocês realmente resolvem essa questão e assumem essa posição, não há limite para o que pode haver na vida cristã.
Então, quando essa posição foi assumida e aceita, reconhecida e recebida pela fé, começa o outro lado: a aplicação do princípio.
Aceitamos essa posição definitiva como fundamento e a reconhecemos como o próprio veredito de Deus. Então o princípio da cruz começa a operar em nós.
Sim, o primeiro lado está em Romanos 6: fomos crucificados com Cristo.
Fomos crucificados com Cristo.
Depois, Paulo diz:
Trazendo sempre por toda parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também em nosso corpo.
— 2 Coríntios 4:10
Então ele disse:
Cada dia morro.
E sua aspiração era:
Para conhecê-Lo, e o poder da Sua ressurreição.
— Filipenses 3:10
Vejam, o princípio está em ação. Foi realizado, mas agora está sendo aplicado como algo ativo na vida. De um lado, ele torna efetiva nossa morte com Cristo; do outro, correspondendo a isso e equilibrando-o, torna uma experiência real nossa união de vida com Cristo. Assim como a morte opera, a vida também opera.
O que Deus está fazendo conosco? Por que toda essa aflição, todas as dificuldades, essa disciplina, essa correção, esse caminho árduo, essa escola difícil? Por que tudo isso?
Ah, a vida cristã nunca foi destinada a ser uma canção sem fim, um piquenique e um passeio de diversão! Não, não é isso. Isso não significa que a alegria desapareça — de modo algum. A alegria continua, apesar de tudo.
Mas significa que entramos em muitas dificuldades e num caminho que, para nosso velho homem, é muito difícil. Qual é o significado disso? Deus está aplicando o princípio, tirando o velho homem do caminho e abrindo espaço para o novo.
Não é verdade que, num cristão — num verdadeiro cristão, diferentemente de qualquer outra pessoa —, o sofrimento produz beleza? O sofrimento produz a verdadeira natureza de Cristo. O sofrimento faz aparecer aquilo que Cristo é.
Em outras pessoas, tantas vezes o sofrimento faz aparecer amargura e ressentimento. Algumas das pessoas mais difíceis que já conheci e tentei ajudar eram pessoas que, por causa de alguma grande adversidade em sua vida, haviam se voltado contra Deus e se tornado amargas. O sofrimento havia feito isso.
Mas não é isso que acontece com os cristãos. A maravilha da vida cristã, o milagre da vida cristã, é encontrar alguns queridos filhos de Deus que passam a vida inteira em sofrimento e agonia, seja no corpo, seja nas circunstâncias, e que são simplesmente maravilhosamente radiantes — maravilhosamente radiantes.
Vocês entram onde eles estão: ali há a paz de Deus, a alegria. Os hinos que cantam são hinos sobre o amor de Deus; são seus hinos favoritos. Se houvesse algum assunto sobre o qual devessem cantar, falando do ponto de vista natural, não seria esse. Mas esses são seus hinos favoritos: o amor de Deus.
Vejam, isso é maravilhoso, maravilhoso. Tenho certos exemplos muito claros na memória — pessoas assim que conheci em minha própria experiência.
Para que serve tudo isso? Ora, o princípio da cruz está em ação: de um lado, desimpedindo o terreno para Cristo, para essa vida da nova criação; abrindo caminho para a plenitude de Cristo.
Esse é o primeiro princípio, e só podemos mencioná-lo brevemente, pois precisamos nos apressar para concluir.
O próximo é um princípio muito importante. O princípio, ou a lei, da plenitude é a interligação.
Nenhum cristão individualmente, e nenhum conjunto de cristãos considerados simplesmente como indivíduos separados e isolados, pode chegar à plenitude de Cristo. Isso é evidente, se vocês pensarem a respeito. Como poderia ser diferente? Se Cristo é tão grande quanto dissemos, como pode um único indivíduo conter essa grandeza? É absurdo até pensar nisso. Seria arrogante sugerir tal coisa.
Será necessária uma multidão imensa, imensa para chegar a isso. Mas eles nunca chegarão a isso apenas como uma multidão ou uma congregação de indivíduos.
Vejam a grande concepção que nos é dada no Novo Testamento: o conjunto dos cristãos é o corpo de Cristo.
Pensem por um momento em seu corpo. Vocês sabem muito bem que nenhum membro do corpo, nem mesmo todos os membros do corpo se estiverem separados uns dos outros, crescerá.
São necessários não apenas todos os membros, mas todos os membros unidos, formando um só corpo. Não pode haver desenvolvimento de qualquer membro ou de vários membros, nem mesmo do corpo inteiro, enquanto não houver articulação.
Creio que a primeira coisa que um estudante de medicina precisa aprender, logo no início do curso, vem de uma caixa de ossos que lhe entregam: todos os ossos do corpo humano. “Agora, junte-os e monte um esqueleto.” Essa é a primeira lição.
A primeira lição sobre plenitude e crescimento é a articulação dos membros: o reconhecimento, primeiro, de que pertencem uns aos outros; e, segundo, de que não podem avançar sem os outros.
Sua vida espiritual depende de sua interligação uns com os outros. A manutenção desse ajustamento mútuo é o segredo do crescimento espiritual.
Se Satanás consegue executar sua jogada decisiva de separar os cristãos, consegue paralisar seu crescimento espiritual. É sempre assim. É por isso que ele busca fazer isso. As divisões são a obra-prima do diabo, voltada contra o propósito final de Deus — a plenitude de Cristo.
Se ao menos olhássemos para nossas divisões — não apenas as maiores, mas as pequenas divisões entre nós e outra pessoa — à luz de como elas afetam nosso crescimento espiritual ou o crescimento espiritual dela, e de como se relacionam com o interesse maior do crescimento de Cristo, teríamos uma nova motivação para eliminar essas divisões, sanar essas desavenças e ajustar nossos relacionamentos.
A interligação é vital para o crescimento. Em primeiro lugar, é articulação — isto é, de membro com membro. Depois, é compartilhamento mútuo da vida.
Compartilhamento mútuo da vida: dependência e interdependência; reconhecimento de que precisamos uns dos outros, de que nossa própria vida depende disso. A comunhão é essencial; é indispensável.
Esse é um princípio de crescimento. Não se enganem a respeito disso. A medida de Cristo em vocês será maior ou menor conforme reconheçam e observem esse princípio.
Mas lembrem-se: isso não é artificial. Não é algo que organizamos. Não é institucional. É orgânico; acontece pela vida e pelo amor.
Não vem de fora — por meio de arranjos, da decisão de estabelecer isso e de montá-lo. Vem de dentro. Vem de Cristo em nós.
Paulo tocou exatamente nesse ponto na igreja de Corinto. Encontrou diferentes grupos: um centrado nele mesmo, dizendo: “Somos de Paulo”; outro centrado em Apolo, dizendo: “Somos de Apolo”; outro centrado em Pedro, dizendo: “Somos de Pedro”; e assim por diante.
Seu apelo a eles foi este:
Está Cristo dividido?
— 1 Coríntios 1:13
A resposta é não: vocês não podem dividir Cristo. Se Cristo está em vocês e governa, então tudo isso é uma contradição de Cristo. Nada disso é Cristo.
Não é de admirar que houvesse uma medida tão pobre, mesquinha e miserável de vida espiritual em Corinto naquela época. Graças a Deus, mais tarde temos outro lado da história. Evidentemente, eles superaram isso, e a segunda carta apresenta um quadro muito diferente da situação ali.
Mas Cristo não pode ser dividido. Todas as divisões, sejam entre apenas dois cristãos, sejam as grandes divisões entre os cristãos, são uma contradição de Cristo.
Não é de admirar que haja pobreza espiritual, fraqueza, ineficácia e ausência de influência e impacto sobre este mundo. O diabo triunfa aí.
Prestemos atenção nisso. Essa questão da comunhão é um grande campo de batalha. Por essa mesma razão, todas as forças do mal se levantam contra ela.
Paulo diz que essa é uma questão na qual precisamos ser muito diligentes:
Procurando guardar a unidade do Espírito.
— Efésios 4:3
Vou apenas mencionar um terceiro princípio, sem desenvolvê-lo. É o princípio da pureza de espírito.
Vocês e eu não cresceremos de modo algum no aumento de Cristo em direção à plenitude de Cristo, a menos que mantenhamos um espírito muito puro.
Vocês me perguntam o que quero dizer com um espírito puro. Quero dizer um coração aberto — um coração aberto, livre de preconceito, livre de suspeita.
É preciso haver disposição para receber, capacidade de se ajustar e nenhuma atitude de fechamento definitivo.
Mesmo que tenham sido criados de determinada maneira, estejam abertos para que, se o Senhor tiver mais luz e verdade a fazer resplandecer de Sua Palavra, vocês estejam abertos a isso.
Nunca assumam uma posição definitiva de que já sabem tudo, já possuem tudo e já participam de tudo.
Um espírito puro é um coração aberto: uma resposta pronta a cada porção de vida que Deus concede; obediência imediata, sem discutir.
Isso é um espírito puro. Vocês ficariam surpresos ao saber quanto depende disso.