Quanto a essa questão da restauração da honra e da glória do nome do Senhor em Seu povo, permitam-me dizer algumas palavras para fazer a ligação com o que estávamos dizendo antes.
Estávamos apontando certa correspondência entre o tempo de Gideão e o nosso tempo. Por um lado, havia uma condição entre o povo do Senhor inteiramente contrária à glória e à honra do Seu nome. Havia fraqueza, em grande parte um estado de desamparo e impotência.
Eles não desfrutavam verdadeiramente da terra, embora ela continuasse sendo a terra da promessa e da aliança, que manava leite e mel. Mas, na condição em que se encontravam, não era assim para eles. Havia escassez de alimento e falta de forças; confusão, questionamentos e incerteza constante quanto ao significado de tudo aquilo.
Não havia coesão, unidade nem estabilidade, e eles não tinham líderes que pudessem falar com firmeza e autoridade em nome do Senhor, infundindo-lhes nova esperança e confiança. Essas eram as condições no tempo de Gideão e, como dissemos, há algo semelhante hoje.
Não vamos percorrer novamente esse terreno para enfatizar ou demonstrar isso. Mas, por outro lado, Deus está agindo para restaurar, por amor ao Seu nome: para restaurar Sua glória e Sua honra, mudando essas condições.
A honra e a glória do nome do Senhor se encontram em um povo que desfruta de sua herança em Cristo e das riquezas Dele — não em um povo que vive o tempo todo na pobreza espiritual; não em um povo sem os recursos necessários para prosperar na terra.
Sua glória está ligada a um povo que realmente desfruta das profundezas de sua redenção e que tem alimento. É uma situação lastimável quando não há uma provisão real da qual possam se alimentar.
A glória do Senhor requer um povo seguro, que tenha confiança e certeza — não um povo constantemente dominado por dúvidas e perguntas que o perturbam, o desestabilizam e lhe roubam o senso de segurança. Eles têm a grande resposta no coração: sabem onde estão firmados e por que estão ali. A vida deles é uma vida de certeza.
Além disso, o nome do Senhor certamente é glorificado em um povo unido. Sua honra tem sido profunda e dolorosamente ultrajada pela fragmentação do povo do Senhor — por sua dispersão.
A grande oração de nosso Senhor em João 17 está, em grande parte, centrada nessa única questão: a unidade. A unidade do povo do Senhor deve contribuir grandemente para a glória do Seu nome. Jesus Se referiu repetidas vezes ao nome naquela oração, como em João 17:11:
Guarda em Teu nome aqueles que Me deste.
Era por amor ao nome que Ele desejava continuar tendo um povo assim. Não se trata de mero idealismo; é algo muito próximo do coração do Senhor.
Como dissemos, Gideão apresenta o fato de que o Senhor quer que as coisas sejam diferentes e age para que sejam diferentes. Gideão traz à vista a ação do Senhor para mudar aquele estado de coisas por amor ao Seu nome.
Então, prosseguimos examinando Gideão como o tipo de instrumento que o Senhor usará para restaurar a honra do Seu nome, produzindo entre Seu povo essas condições que honram o Seu nome.
Trata-se, portanto, da restauração e da continuidade do testemunho do nome do Senhor.
Gideão, por um lado, de fato representa a soberania absoluta de Deus, como estávamos dizendo. Por outro, indica a base sobre a qual essa soberania opera.
Não é uma contradição dizer que, embora Deus aja em soberania absoluta, Ele procura certas coisas para colocar essa soberania em ação. Mesmo no âmbito da soberania, há certas condições que dizem respeito ao povo de Deus.
Essas condições são indicadas, pelo menos, no caso de Gideão — esse instrumento representativo para a honra do Senhor.
Agora vou dedicar algum tempo a dizer algumas coisas que, creio, nunca disse aqui antes, mas que nascem de um profundo exercício em meu próprio coração e que considero muito, muito importantes.
Isso se concentra no primeiro fato a respeito de Gideão: Gideão era um jovem.
Ao dizer isso e considerar o que implica, chegamos ao cerne dessa questão da restauração e da continuidade do Seu testemunho, de Sua honra e de Sua glória. Isso é verdadeiro na natureza e também no mundo espiritual.
O grande fator e princípio da utilidade espiritual é a reprodução sempre renovada. Assim que qualquer organismo deixa de se reproduzir, a morte começa e passa a atuar. A lei da vida é a reprodução.
Deus, tendo criado uma vez, não cria uma segunda vez. Ele prossegue por meio da reprodução, não de uma criação especial.
Cada nova geração foi destinada por Deus a dar uma expressão renovada aos valores do passado. A nova geração não é uma nova criação.
Criação e geração são duas palavras diferentes, que se referem a coisas inteiramente diferentes. Acho que alguns jovens pensam que são um novo começo. Não são.
Eles devem reunir e levar adiante o que veio antes, mas reunir e levar adiante com novo vigor. Devem ser a soma do que os precedeu, trazendo-o novamente à expressão plena de seu precioso valor.
Aquilo que é, se vocês quiserem, antigo — hesito em usar essa palavra, mas a uso para explicar — é mantido vivo e renovado por uma nova geração.
Agora, isso tem dois lados: o nosso lado, de nós que somos uma geração que passa, e o lado daqueles que são uma geração que chega, se vocês estão incluídos nela.
Nosso vigor na vida será proporcional ao quanto prepararmos a próxima geração. Se guardarmos as coisas para nós — e quanta tragédia resultou de sistemas que retiveram tudo para si, de antigos servos de Deus que se apegaram às coisas e as mantiveram nas próprias mãos —, então chegamos ao fim, e as coisas morrem conosco. Estamos levando as coisas ao fim.
Essa, naturalmente, é a lei espiritual por trás da bênção das famílias. Na mente de Deus, tudo tem uma lei espiritual por trás. A bênção das famílias, por um lado, é manter os idosos jovens.
Encontrem idosos que não têm jovens ao seu redor, e eles são velhos de fato. São mais velhos do que deveriam ser. Às vezes, vocês podem sentir que é preciso fazer uma ressalva a essa afirmação, pois os jovens têm um jeito de nos deixar exaustos! Ainda assim, o princípio permanece válido. É um princípio divino.
A bênção das famílias, por um lado, é manter os idosos jovens — impedir que envelheçam. Esse é o princípio, a lei, o pensamento divino.
O Senhor não chegou ao fim; Ele não está encerrando Sua obra. Isso significa que Ele prossegue e traz os jovens para participar. Meus amigos mais velhos, prestem atenção nisso. Não tenham ciúmes dos jovens. Não pensem que eles estão tomando o lugar de vocês, que vocês estão tendo de lhes entregar tudo e que se está dando importância demais a eles.
Vou falar com eles daqui a pouco. Deixem-me falar primeiro com vocês.
Vejam, de algum modo estamos envelhecendo e avistando o dia de nossa partida. Podemos nos tornar limitados e perder algo daquela preciosidade que repousava sobre nós e envolvia nossa vida, entrando assim em limitações cada vez mais severas.
Precisamos de algo que nos salve. Precisamos ser libertos. Qual é a nossa salvação? O que renova nossa perspectiva? Qual é a saída dessa tendência de chegar ao fim e de nos tornarmos cada vez mais limitados?
A saída é preparar outra geração e prover o necessário para ela: fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para garantir que aquilo que recebemos seja transmitido a eles e que estejam prontos para assumi-lo.
Não desconfiem deles nem os critiquem por serem jovens. Não façam o que alguns evidentemente estavam inclinados a fazer com Timóteo, de modo que o apóstolo teve de dizer, em 1 Timóteo 4:12:
Ninguém despreze a tua mocidade.
Quando comecei no ministério, eu era bastante jovem e tive de assumir a responsabilidade por uma igreja. Havia alguns homens mais velhos que diziam: “Ele é tão jovem”. Mas eu tinha um defensor entre eles que dizia: “Mas ele está superando isso a cada dia”.
É verdade, não é?
Sim, repito: Deus está prosseguindo e precisa prosseguir. Ele faz os jovens avançarem; Ele traz os jovens para participar. Graças a Deus. Eles não vão morrer — isso é verdade para eles.
Mas, vejam, afinal de contas, não se trata de anos. Os anos não são o critério; a espiritualidade é o critério. Isso não precisa ser uma questão de idade. Há pessoas idosas que, espiritualmente, estão muito à frente de muitas outras mais jovens.
Mas vamos olhar para o outro lado. Uma nova geração deve dar continuidade, de maneira interior, àquilo que veio antes. Sublinho essas palavras: de maneira interior.
Os jovens, aqueles que vêm depois, devem suceder aos que carregaram o testemunho do Senhor antes deles. Devem sucedê-los não oficialmente, mas com um espírito de continuidade — interiormente.
Aqui está novamente a rigorosa lei da Bíblia e seu princípio. Sempre há algo mais profundo do que aquilo que aparece na superfície de qualquer coisa que está na Bíblia.
Considerem a lei rigorosa quanto à penalidade por desonrar e repudiar os pais. Na antiga dispensação, poucas leis e penalidades eram mais rigorosas do que aquelas relacionadas aos filhos que desonravam, desprezavam ou repudiavam seus pais.
Naqueles dias, bastava que um filho fizesse isso ao seu pai, e logo conheceria a penalidade. Mas, por trás disso, há um princípio divino.
Que princípio divino é esse? Do ponto de vista divino, espera-se que um pai ou uma mãe tenha um conhecimento do Senhor que seja indispensável aos filhos. Quando os filhos desprezam ou deixam de lado o pai ou a mãe, desprezam aquilo de que precisam para sua própria vida e prosperidade espiritual.
O Senhor não considera a rebelião contra os pais ou a desobediência aos pais apenas como atos em si mesmos. Ele olha para o princípio que está por trás.
Na ordem divina, os filhos não podem viver sem os pais. Eles morrem sem os pais, neste sentido: são absolutamente dependentes daquilo que o Senhor já reservou para eles em uma geração anterior.
Sim, essa é uma lei muito, muito forte na Bíblia. Os jovens não são uma humanidade recém-criada; são uma geração renovada, uma expressão do bem que veio antes.
É significativo, não é, nesse contexto, que, quando Gideão se tornou um homem idoso, os homens daquela terra foram até ele e disseram: “Domina sobre nós”. Gideão não quis saber disso, mas eles queriam que seus filhos governassem sobre eles. Em lugar do pai que havia realizado a obra, olharam para os filhos. O princípio está ali.
A idade não pode ser tratada apenas em termos de anos; ela significa maturidade espiritual. Jovens, se vocês compreenderam isso, e os mais velhos também, estamos no caminho da restauração de algo: a restauração do nome do Senhor.
Aquilo que está espiritualmente envelhecido e esgotado diminui a glória e a honra do Senhor. Em outras palavras, a glória e a honra do Senhor se expressam em uma juventude perene.
Por outro lado, não quero dizer que os jovens, simplesmente por serem jovens, devam repudiar os mais velhos, assumir o controle, colocá-los de lado e começar a governar e dirigir as coisas como se tudo começasse e terminasse com eles. Quanta desonra isso tem trazido ao Senhor.
Não, essas são realidades espirituais das quais precisamos nos apropriar. Talvez o que ainda tenho a dizer nesta noite ajude a compreendê-las. Gostaria de examinar algumas das qualidades de Gideão sobre as quais a soberania divina operou — algumas das qualidades que o caracterizavam como jovem.
Aqui encontramos uma extraordinária medida de maturidade espiritual. Quais eram as marcas de espiritualidade e maturidade espiritual nesse jovem?
A primeira — e ela está na base de todas as outras — era a humildade. A humildade dele.
A humildade é a marca principal da espiritualidade e da maturidade espiritual. Ah, quanto tempo muitas vezes leva até que o Senhor produza humildade em Seu povo, naqueles que Lhe pertencem.
Olhem para Gideão. Nenhum orgulho pessoal. Ele não se considerava alguém importante; tinha uma opinião muito modesta de si mesmo. Leiam novamente a história.
Nenhum orgulho de família, como vemos em Juízes 6:15:
A minha família é a mais pobre em Manassés, e eu, o menor na casa de meu pai.
Ainda assim, ele pôde levar dez servos da casa de seu pai. Evidentemente, havia ali certa posição, reconhecimento e influência. Joás tinha o altar de Baal e o poste de Aserá; os homens da cidade vinham adorar ali de manhã cedo. Mas não havia orgulho de família em Gideão.
A questão é esta: se você tinha dez servos, tinha alguma coisa. Tinha posição, reconhecimento, influência. Alguém poderia dizer: “Bem, naturalmente, em tais circunstâncias, é apropriado tornar-se alguém importante”. Mas Gideão disse: “Eu sou o menor”.
Não havia orgulho de realizações. Ele não podia apontar conquistas, diplomas, sucesso no campo militar, acadêmico, científico ou em qualquer outro. Nenhum orgulho de realizações; nenhum orgulho de ambição; nenhum vestígio dessas coisas.
E certamente não havia superioridade espiritual. Ele não apontava o dedo para outras pessoas, dizendo: “Olhem para elas. Olhem a confusão em que estão. Olhem a condição delas”. Ele estava envolvido na condição delas. Não havia superioridade.
Rapazes e moças, não é por serem jovens que vocês vão assumir a responsabilidade pelo testemunho do Senhor. Não é por terem a vida pela frente que vão abrir caminho à força em busca de reconhecimento e posição. Não; será dessa maneira que estamos descrevendo.
Muitas vezes ouvi pessoas dizerem, quando se esperava algo mais dos jovens: “Não devemos colocar cabeças velhas sobre ombros jovens”. Mas o Senhor faz isso, e Ele o exige.
Vocês precisam assumir aquilo que veio antes. O que o Senhor tem feito espiritualmente é produzir esta condição: humildade. Vocês precisam começar aí e continuar aí.
Se houver qualquer sinal de orgulho pessoal, de realizações, de posição ou de superioridade espiritual — menosprezando os outros, criticando, julgando e condenando —, o Senhor não fará como fez com Gideão, de quem se diz que o Senhor olhou para ele.
Não, o Senhor não olhará para nós se formos assim. Não entraremos em Seu campo de visão. Isso não pode trazer glória ao Seu nome.
Permitam-me fazer um apelo: protejam-se da crítica que nasce da superioridade como se protegeriam de uma praga. Não é nossa tarefa fazer com que as pessoas saibam que as desaprovamos.
Nossa tarefa é encontrar a base sobre a qual podemos ajudá-las — ajudar. Podemos, no íntimo do coração, sentir pesar por certas coisas, mas que isso permaneça ali, sem se expressar em nossa influência, atitude, olhares, palavras, discussões ou tentativas de provar em que as pessoas estão erradas.
Essa não é nossa tarefa. Humildade é encontrar um ponto em que possamos oferecer ajuda espiritual e trabalhar nele.
A próxima coisa que encontramos em Gideão era sua diligência — sua disposição para trabalhar.
Ele estava malhando trigo no lagar para escondê-lo dos midianitas. Muito pouco parecia possível. A maioria das pessoas havia fugido para cavernas, e toda a situação parecia sem esperança.
Alguém poderia ter olhado para a situação e dito: “Ah, o que podemos fazer? Não conseguimos”. Diante da situação, alguém poderia simplesmente recuar e dizer: “De que adianta?”.
Mas Gideão não era assim. Ele não negava a força do inimigo nem o pouco que se podia fazer. Ainda assim, empenhou-se em fazer até o mínimo que fosse possível. Não desistiu. Não abandonou tudo. Dedicou-se a fazer o que podia ser feito.
Era como se dissesse: “Pelo menos posso separar alguns grãos aqui, neste canto. Pelo menos posso fazer alguma coisa diante desta situação”. O Senhor tomou nota disso.
Foi ali, no lagar, enquanto Gideão fazia aquilo, que o Senhor veio e olhou para ele. Pergunto-me se foi por isso que o Senhor disse, em Juízes 6:12:
O Senhor é contigo, varão valoroso.
Isso tem grande importância para o Senhor, como lemos em Romanos 12:11:
Não sejais vagarosos no cuidado; sede fervorosos no espírito, servindo ao Senhor.
Isso pode ocorrer em uma esfera muito limitada e restrita, mas é para o espírito que o Senhor olha.
Era o espírito de Gideão, que fazia tudo o que podia ser feito, por menor que fosse. Prestem atenção nisso, meus queridos amigos. Um gesto basta para o Senhor — não um mero gesto exterior, mas a indicação de que vocês estão vivos, atentos e prontos para assumir responsabilidade.
O Senhor olhou para Gideão. A Escritura diz, em Juízes 6:14:
Então, o Senhor olhou para ele.
O cuidado de Gideão com os outros fazia parte dessa mesma questão. Ele olhava para a condição do povo. O inimigo estava tirando deles os meios de subsistência, procurando mantê-los em tamanha pobreza e escravidão que jamais pudessem levantar uma mão em favor de sua própria salvação ou libertação.
Gideão tinha uma preocupação real com a condição das outras pessoas — com a situação de necessidade em que se encontravam. Vocês sabem quanto Paulo tem a dizer sobre isso, como em Filipenses 2:4:
Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros.
Gideão não era um daqueles introvertidos sempre ocupados consigo mesmos e com sua triste situação. Era um jovem em uma situação difícil, mas nunca se sentou para ficar alimentando as adversidades que haviam entrado em sua vida de jovem.
Ele não sentia pena de si mesmo, sufocando-se com autopiedade e chamando atenção para si em seus próprios infortúnios. Não era esse tipo de homem, e o Senhor não volta Seu olhar para esse tipo de pessoa.
Vocês podem continuar assim e não verão o Senhor voltar-Se para vocês. Mas Ele Se voltará para aqueles que, embora sua sorte seja difícil — e Deus sabe disso melhor do que qualquer outro —, voltam-se para fora com verdadeiro cuidado pelos outros.
Vejam a atividade e o exercício secretos de Gideão em relação à situação do nome do Senhor — atividade secreta, exercício secreto.
Em seu coração, Gideão parece ter dito: “Vou derrotá-los, se puder. Vou frustrar o inimigo, se puder. Vou fazer com que tenham o menor sucesso possível”. Era uma preocupação e um sofrimento espirituais reais, fruto de um verdadeiro exercício da alma.
Quando o Senhor veio e lhe falou, como lemos em Juízes 6:12:
O Senhor é contigo.
Gideão respondeu, em essência: “Se o Senhor é conosco, onde estão todos os Seus feitos e maravilhas de outrora, dos quais nossos pais nos contaram?”. Havia um clamor profundo em seu coração por causa daquela situação.
Aquilo o inquietava profundamente. Ele estava preocupado. Tentava encontrar alguma explicação. Buscava alcançar a chave daquela questão.
A situação estava produzindo uma dor real — algo semelhante à amargura, mas não uma amargura errada de espírito. Se nos tornamos amargos e ressentidos contra o Senhor, em rebelião, essa é uma amargura errada.
Mas havia amargura no coração de Ana. Vocês se lembram? Ela orava, e Eli interpretou mal o movimento de seus lábios, acusando-a de embriaguez. Ela disse, em 1 Samuel 1:15:
Não, senhor meu, eu sou uma mulher atribulada de espírito.
Havia uma amargura por causa da situação em Israel. Há em vocês alguma coisa que corresponda a isso?
Isso é tão diferente de uma posição teórica, não é? Podemos ter toda a doutrina e todo o ensino; podemos saber como as pessoas deveriam ser, o que deveriam fazer e o que deveriam saber. Podemos pensar que temos a resposta para tudo. Ah, não.
Se não vier do lagar, é algo vazio. Tem de vir do lagar. Tem de vir das dores de parto, de um profundo exercício nessa questão.
É para pessoas assim que o Senhor olhará. Creiam no que lhes digo: seja o que for que vocês pensem, não saiam imaginando que vão salvar o nome do Senhor e libertar Seu povo por meio de doutrinas, de maravilhosas interpretações da verdade ou de panoramas maravilhosos das coisas espirituais. De modo algum.
Deus está procurando a condição espiritual. Gideão estava verdadeiramente angustiado e perplexo interiormente. Seu clamor não era apenas o clamor de um homem em dificuldades, perguntando: “Por que as coisas estão assim?”.
Minha última palavra nesta noite diz respeito a Gideão destruindo o inimigo na casa de seu pai.
Nunca destruiremos Satanás e seu reino publicamente se, nos bastidores e em segundo plano, houver alguma cumplicidade com ele. A casa do pai está aqui dentro. Adão tem sua residência aqui, e Adão estabeleceu cumplicidade com Satanás — e isso está dentro de nossa própria alma.
Vocês sabem, e eu sei, como é fácil ouvir Satanás, concordar com Satanás e ser influenciado por seus argumentos. Há algo dentro de nós que parece estar em aliança com o próprio diabo.
A casa do pai está aqui. Enquanto isso não for tratado e vencido, enquanto o altar de Baal não for derrubado, a obra permanece incompleta. Mais do que isso, aquilo mesmo que pertence a Baal é trazido e transformado em um instrumento para a glória de Deus.
Isso é mais do que conquista: tomar aquilo que pertence ao inimigo e trazê-lo ao Senhor. Se vocês não compreendem isso, não se preocupem. Mas aqui está a questão: antes que Gideão pudesse sair e restaurar a honra do nome do Senhor, algo precisava ser feito nos bastidores.
Ele fez isso. Fez em silêncio. Não fez de modo impositivo e autoritário, com autoconfiança e autoafirmação. Não, fez com a mesma mansidão que o caracterizava desde o início.
Ele levou dez homens e, sob a cobertura da noite, fez aquilo. Vocês podem dizer que faltou coragem. Chamem como quiserem, mas a coisa foi feita. De dia ou de noite, foi feita.
Depois de termos dito tudo isso, qual é o motivo? O motivo de tudo isso?
Essas não são apenas coisas em si mesmas. Todas são motivadas e impulsionadas por uma força extraordinária. Qual é ela? O zelo pelo nome do Senhor.
O zelo pelo nome do Senhor. É o nome do Senhor. Esse estado de coisas O desonra. Seja o que for, por pouco que se possa fazer, deve ser feito por amor ao nome do Senhor.
Não honra o Senhor que eu aceite essa situação e permaneça sentado, passivo e fatalista diante dela. O nome do Senhor exige que eu faça alguma coisa, guiado pela honra do nome do Senhor.
Ah, tenhamos um coração que nos leve a ver o povo do Senhor desfrutando de sua herança. Precisamos vê-los de pé, firmes e fortes. Precisamos vê-los reunidos.
Precisamos vê-los em uma condição que glorifique o Seu nome — não porque queremos iniciar algum grande empreendimento ou alguma grande obra, nem porque queremos ver prosperar algo de que fazemos parte, mas por amor ao Seu nome.
Ah, que o Senhor nos dê um coração voltado para o Seu nome, olhando para tudo à luz do Seu nome. Isto honra o nome do Senhor? Isto glorifica o nome do Senhor? Isto é digno do nome do Senhor em meus relacionamentos com os outros?
Isto glorifica o nome do Senhor?
Se queremos que o Senhor esteja conosco e faça uso de nós, individualmente e junto com outros do Seu povo, então precisamos ser desse tipo — segundo o modelo de Gideão.
Vocês poderiam tomar a avaliação que Gideão fazia de si mesmo e dizer que ele era alguém de pouca importância. Mas lembrem-se: havia aquelas coisas que o Senhor considerava de tremenda importância, coisas com as quais Sua soberania podia contar. Eram essas as coisas.