Eis que ponho em Sião uma principal pedra angular, eleita e preciosa;
E quem nela crer não será envergonhado.
Para vós, portanto, os que credes, é a preciosidade;
Mas, para os que não creem,
A pedra que os edificadores rejeitaram,
Essa foi feita a principal pedra da esquina;
E uma pedra de tropeço e uma rocha de escândalo.
A Carta aos Hebreus — como tradicionalmente é chamada — tem se mostrado, nesta dispensação, um documento da maior seriedade para a Igreja. Foi escrita em meio a uma crise e dizia respeito, e voltará a dizer respeito, a uma crise num momento decisivo da dispensação.
Não sabemos ao certo quando a carta foi escrita. As opiniões diferem talvez apenas dois ou três anos, mas há uma forte convicção de que tenha sido escrita por volta de 69 d.C.
No ano 70 d.C., todo o sistema judaico, centralizado em Jerusalém, no templo e no sacerdócio, foi varrido.
Esse foi o ano em que tudo mudou em relação ao que havia sido por muitos séculos: um sistema estabelecido, um sistema religioso reconhecido e aceito, com seu ensino e suas práticas.
Em 70 d.C., ele foi arrastado para o turbilhão do mundo pagão, hostil a Deus. Daquele dia até hoje, não há templo em Jerusalém. A nação foi dispersa, e o sistema judaico, tal como existia antes, ficou praticamente inoperante.
Antecipando essa mudança na dispensação, o Espírito Santo conduziu à redação dessa mensagem — à produção desse documento.
Quando lido à luz desse grande acontecimento histórico, ele é mais bem compreendido e apreciado. Sua importância é vista com maior clareza. Sim, uma era de grande magnitude está representada na Carta aos Hebreus: nada menos que o fim de um sistema, ou de uma economia.
Se examinarmos isso e investigarmos o que estava chegando ao fim e o que isso significa, receberemos dessa carta uma mensagem verdadeiramente duradoura. Veremos que aquilo que está aqui, em sua verdadeira importância e em seu significado permanente, está por trás de outra crise — uma crise que estamos presenciando em nossos dias.
Não é exagero dizer que você e eu chegamos, de fato, a viver numa época em que, creio eu, toda a configuração da situação cristã está mudando.
Preciso procurar ter cuidado para não ser mal compreendido e para que minhas palavras não sejam relatadas de maneira incorreta. Sei que estou correndo riscos com o que vou dizer. Ainda assim, precisamos ser muito justos e encarar os fatos com imparcialidade.
Por bem mais de um século, Deus tem agido de uma determinada maneira que não tem sido Sua maneira definitiva, fundamental e suprema, mas que tem sido uma expressão de Sua soberania.
Por razões que não precisamos nos deter a discutir, nem sequer apontar, Ele tem agido por meio de um sistema de coisas, realizando grande parte de Seu propósito. Esse método da atuação divina está mudando completamente.
A época das missões estrangeiras organizadas — o auge das missões estrangeiras organizadas — está chegando ao fim. Estamos vendo o encerramento dessa ordem, e aquilo que é estrangeiro está agora sendo esmagado nas nações.
Isso não significa que Deus esteja encerrando Sua obra, ou que ela tenha chegado ao fim. Há, agora, uma necessidade de voltarmos à situação representada pela crise desta carta.
Era o fim de um sistema, ou de uma economia, que Deus havia destinado a alcançar uma única coisa. Ele alcançou essa única coisa até certo ponto e, depois, deixou de fazê-lo. A partir daí, seus dias estavam contados.
Aquilo que esse sistema deveria alcançar, na economia de Deus, era ganhar homens e mulheres espirituais.
A décima primeira seção desta carta — ou aquela parte do documento que posteriormente recebeu o número onze — merece nossa atenção. Seria bom, por um momento, deixarmos esses números de lado e considerarmos o documento como um todo.
Naquele ponto que, para nossa conveniência, está identificado pelo número onze, vemos como, por meio de uma determinada economia ao longo das eras, Deus ganhou homens e mulheres espirituais — uma constelação de homens e mulheres espirituais naquela seção.
Ela mostra como Deus retirou do mundo e vinculou a Si mesmo algo de valor intrínseco para Ele: homens e mulheres para quem o mundo não era considerado coisa alguma, e a própria vida não tinha importância, em comparação com esse relacionamento com Deus e com Seu propósito.
Essa economia foi soberanamente estabelecida e usada para isso, e para nenhum outro propósito senão ganhar homens e mulheres espirituais dentre as nações.
Não para conseguir adesão a um sistema religioso terreno, embora ele fosse uma figura das coisas celestiais; não para conseguir adesão a uma figura, mas para ganhar homens e mulheres para aquilo que a figura representava — algo do céu.
Essa é a lei e o princípio que governam todo o Antigo Testamento. O meio foi empregado não para ser um fim em si mesmo. O sacerdócio não era um fim em si mesmo, e é isso que se afirma neste documento. O tabernáculo não era um fim em si mesmo. Todo aquele sistema não era um fim em si mesmo.
Era algo usado soberanamente por Deus, ou destinado por Deus, a ganhar homens e mulheres que enxergassem, através da figura, a realidade espiritual e se vinculassem a ela: homens e mulheres nesta terra, mas ligados ao céu — a coisas que eram reais.
Esse era o sistema, e esse era o significado que Deus lhe dava. E, durante certo tempo, ele realmente cumpriu esse propósito.
Chegou o momento em que ele se tornou algo em si mesmo, um fim em si mesmo, e já não produzia homens e mulheres espirituais. Produzia pessoas religiosas que ainda mantinham as formas, as cerimônias e toda a parafernália do sistema, mas já não eram homens e mulheres espirituais em relação com o céu.
Aquilo continuava, mas estava vazio — sem significado. Não servia ao propósito para o qual havia sido destinado, e Deus o encerrou.
Deus determinou seu encerramento. A Carta aos Hebreus estava, na realidade, dando cumprimento a essa decisão. Se foi escrita em 69 d.C., isso aconteceu apenas um ano depois.
Tudo o que está escrito aqui sobre as coisas abaláveis serem abaladas, lançadas por terra, foi realizado para que permanecessem as coisas que não podem ser abaladas.
Toda a carta, veja bem, trata disto: não da perpetuação de um sistema e de uma tradição religiosos, nem mesmo de algo que Deus tenha usado no passado para alcançar Seu objetivo, mas de homens e mulheres que estejam inteira, direta e imediatamente ligados àquilo que, em última análise, Deus busca. Isto é: homens e mulheres espirituais.
Aquele sistema, que deveria alcançar esse objetivo, deixou de fazê-lo e simplesmente continuou por seu próprio impulso, por sua própria força, por causa de suas tradições, por causa de sua antiguidade, por causa de seu passado glorioso sob a mão de Deus — tudo isso agora perdido. Continuava sendo mantido como algo em si mesmo, despojado e esvaziado de seu verdadeiro significado original. No que dizia respeito a Deus, aquilo terminou no ano 70 d.C.
Essa é a crise de que trata este documento.
Aquele sistema, embora estivesse no propósito soberano de Deus, embora se destinasse a alcançar esse objetivo, era rigorosamente governado por leis espirituais. Não consigo enfatizar isso o suficiente.
Tudo era rigorosamente governado por leis espirituais. Não era algo em si mesmo. Nenhum movimento de um sacerdote ou levita de outrora, nenhum utensílio usado — absolutamente nada, em qualquer ponto daquele sistema — era algo em si mesmo.
Havia, por trás de tudo, um significado espiritual, uma importância espiritual, e tudo era governado por uma lei espiritual. Anule essa lei espiritual, e aquilo já não é sequer sagrado para Deus.
O impressionante é que, quando aquilo está em sua relação correta com Deus, você não pode tocá-lo sem se deparar com Deus. Toque num utensílio do santuário em sua relação correta, e você morrerá. Você morrerá se tocar naquele altar.
Aquilo vibra com a própria majestade, glória e santidade de Deus quando está em sua relação correta, porque está alcançando o objetivo. Mas coloque essas mesmas coisas, sejam altares ou quaisquer utensílios — qualquer outra coisa — numa situação em que o verdadeiro objetivo espiritual já não esteja sendo atendido, e elas já não são tão sagradas. Deus pode simplesmente entregar tudo e mandá-lo embora.
Houve um tempo em que os filisteus ficaram muito felizes por se verem livres da arca. Houve um tempo em que aquela arca podia ser descartada sem que ninguém sentisse seu impacto, pois já não era acompanhada por qualquer sinal de Deus.
Deus não se importa com a coisa em si. No princípio, ela era um cofre de madeira revestido de ouro, mas tornou-se algo que corporificava o céu. Mais tarde, houve um tempo em que não era mais que um cofre como qualquer outro, revestido de ouro.
Veja bem, quanto às coisas que Deus levanta, Ele não Se compromete eternamente com elas na condição de instrumentos. Ele só Se compromete com algo enquanto o objetivo para o qual aquilo foi levantado está sendo alcançado.
E o único objetivo de Deus, que abrange tudo, é ganhar homens e mulheres que sejam pessoas espirituais.
Qualquer coisa — qualquer coisa — que afirme estar relacionada com Deus e não esteja servindo a esse objetivo não tem lugar nem caráter sagrado diante de Deus. Chegará o dia em que ela poderá desaparecer.
São coisas tremendas de se dizer, mas são perfeitamente verdadeiras. São verdadeiras na história e são verdadeiras hoje.
Veja bem, tenho grande consideração pelos instrumentos que Deus tem usado. Quando falo assim, não pensem nem por um momento que estou desprezando ou desvalorizando esses instrumentos usados soberanamente.
Deus tem usado missões e instituições missionárias, e muitas coisas semelhantes. Ele as tem usado e abençoado, e muitas delas têm sido honradas por Deus.
Com o passar do tempo, vários elementos se tornaram dominantes. Um elemento é comum: aquilo que a palavra estrangeiro representa.
Ah, se os homens apenas enxergassem, compreendessem e tivessem percepção e sensibilidade espirituais, não apenas teriam refletido, mas como recuariam — recuariam — diante dessa expressão: “missão estrangeira”.
Essa palavra tem carregado a sentença de fim da atividade missionária. É estrangeira. É algo que não pertence ao lugar onde atua, mas a outro lugar.
Veja bem, Cristo nunca é um estrangeiro. Ele nunca é estrangeiro. Não há nada de estrangeiro em Cristo e na verdadeira Igreja, o Corpo de Cristo. Não há nada de estrangeiro.
O próprio elemento estrangeiro precisa ser eliminado — completamente eliminado.
Com isso, nem sequer quero dizer que vocês devam se adaptar aos hábitos e costumes locais, e assim por diante. Quero dizer que devemos nos tornar tão unidos na preocupação espiritual, em favor do interesse espiritual, que fique perfeitamente evidente que isso não é algo vindo de fora. Isso vem do céu.
Isso traz a marca do céu. Isso é Cristo, Que não pertence a uma nacionalidade, nem a nada semelhante, nesta terra. É algo inteiramente diferente, que não traz esse caráter estrangeiro.
Ainda não chegamos plenamente a isso, queridos amigos, e é por causa dessa palavra que estamos vendo essa mudança. Está sendo exigida uma orientação inteiramente nova de todo o cenário e do curso das coisas.
Se aquilo que chamamos de evangelização tiver continuidade, será simplesmente por meio de homens e mulheres, e não de instituições. Poderão ser homens e mulheres do mundo dos negócios ou de outras profissões, mas a base não deverá ser aquilo que são profissionalmente, como os chamados missionários.
Será porque são homens e mulheres de Deus, porque estão onde Cristo está, e não por causa de algum interesse institucional vindo de outro lugar.
Isso está acontecendo hoje. Isso define a crise atual e a tremenda transição.
Tudo o que Deus usa está condicionado, da maneira mais rigorosa, por leis espirituais. Quando as leis espirituais não são discernidas e observadas, os dias daquilo estão contados. Seu fim é certo.
Aquilo passará, não importa qual tenha sido sua tradição ou seu passado, se tiver se tornado algo em si mesmo e deixado de servir ao propósito divino. Será encerrado.
Quero bastante tempo — não sei se conseguiremos amanhã — para nos demorarmos mais nesse assunto. Quero tempo para refletir bem sobre isto: tudo está condicionado por leis espirituais. Mas a afirmação está feita.
Aquele sistema que estava prestes a passar, aquela crise das dispensações que era iminente quando a Carta aos Hebreus foi escrita, existia, no máximo, apenas por um período de tempo.
Por mais que digamos sobre Israel, no passado ou no futuro, trata-se apenas de algo temporário. Mesmo que haja um futuro para Israel — e alguns contestam isso, embora a maioria creia que haja —, se houver, será apenas por um tempo. Tudo dará lugar ao eterno: um novo céu e uma nova terra, nos quais não haverá uma nação judaica e outras nações, nem sequer distinções em relação à Igreja.
É, no máximo, por um tempo, e era, no máximo, por um tempo. “Até” é uma palavra determinante inscrita sobre a história de Israel. O fator tempo está estabelecido nos conselhos eternos e na presciência de Deus.
Você não consegue escapar disso ao ler a Bíblia: as coisas avançam segundo um cronograma, segundo um plano de tempo.
Lembro-me de F. B. Meyer contar sobre uma de suas primeiras viagens de trem. Sentado no compartimento do trem, ele tinha a Bíblia sobre um joelho e uma tabela de horários sobre o outro.
Alguém que estava sentado perto, olhando para ele, disse: “Você não vai me dizer que acredita nesse velho livro enorme e ultrapassado, vai?”
Ele sorriu tranquilamente e disse: “Meu caro amigo, você vê que tenho uma tabela de horários sobre o outro joelho? Sabe por que estou com essa tabela de horários aberta sobre o joelho?
“Estou fazendo esta longa viagem e vejo na tabela de horários que devemos chegar a determinados lugares em determinados horários. Agora, a próxima parada será em tal lugar, a tal hora. Estou observando para ver se chegamos no horário em cada ponto.
“Neste outro Livro que tenho aberto aqui, encontro o cronograma de Deus. Há indicações de tempo; há certas coisas previstas. Ao olhar para a história, vejo que essas coisas aconteceram exatamente quando Deus disse que aconteceriam. Jesus veio na plenitude do tempo.”
E assim ele continuou. Disse: “É por isso que creio na Bíblia. Você não quer que eu descarte as tabelas de horários de seu país, quer, dizendo que estão desatualizadas, ultrapassadas, que não servem e não são confiáveis?
“Elas demonstram ter valor porque dizem aqui: tal horário em tal lugar; e, com uma diferença talvez de poucos minutos, estamos lá. Tampouco posso descartar minha Bíblia. Vejo que Deus está trabalhando segundo um cronograma.”
O dr. Meyer foi além, e havia outros sinais relacionados ao tempo, mas isso é suficiente para o ponto que queremos destacar.
Existe um cronograma. É claro que tudo está estabelecido na presciência de Deus — que as coisas têm um lugar diante de Deus, tendo sido determinado de antemão que acontecessem.
E, no entanto, esta é uma das dificuldades e questões relacionadas a esse fato: embora os tempos estivessem estabelecidos na presciência de Deus, estranhamente eles coincidiam e se sincronizavam com determinadas condições.
Essas condições não foram produzidas por Deus. Elas surgiram, e então aconteceu algo que havia sido determinado de antemão. O tempo se sincronizou com determinadas condições.
Sei que, no caso desta carta, muito havia sido predito e conhecido de antemão a respeito de Israel e do que aconteceria.
O Senhor Jesus havia, de maneira parabólica, falado e agido em relação à figueira. A figueira secou desde as raízes, simbolizando a nação judaica sendo posta de lado.
Bem, não vou entrar em todas as profecias relacionadas a esse assunto, mas lá estava. Isso aconteceria não de maneira arbitrária, mas, curiosamente, na presciência de Deus, por causa de determinadas condições. Assim, coincidiu com o tempo de Deus.
O sistema havia se tornado um substituto do propósito essencial para o qual fora estabelecido, ou algo maior que esse propósito. Aquilo havia se tornado um substituto do propósito de sua existência, ou havia se tornado mais importante que o propósito. De alguma maneira, o verdadeiro propósito havia se perdido ou desaparecido.
Então, aquilo que estava determinado a acontecer num certo tempo se sincronizou com essa condição. E Deus age assim.
Há um tempo determinado em que Deus peneirará tudo no cristianismo — peneirará tudo — para verificar até que ponto o verdadeiro propósito de sua existência está sendo cumprido.
E as coisas que podem ser abaladas serão abaladas.
A espiritualidade nos homens e nas mulheres é aquilo que governa tudo isso e determina a crise — determina a crise.
Chegaremos ao outro aspecto, o da responsabilidade individual. Por que você leva o nome de cristão? O que significa isso: ser cristão? Chamamos a nós mesmos de cristãos. Temos esse nome apenas como um título, ou se verifica até que ponto pertencemos a Cristo?
Mas é Cristo — quanto de Cristo há em nós.
Será que me atrevo, abrindo aqui um parêntese, a apresentar algo que li recentemente? Era apenas o sonho de uma menina.
Ela disse que havia tido um sonho. Em seu sonho, viu um anjo glorioso sentado na área verde da vila onde morava. Na mão dele havia uma grande vara de medir, que ele segurava em pé ao seu lado.
Ao olhar para aquela medida, viu que nela estava escrito: “Cristo”. Havia uma quantidade de Cristo: duas polegadas de Cristo, quatro polegadas de Cristo, e assim por diante, ao longo de toda aquela grande medida.
Então ouviu o anjo chamar. O anjo chamou o nome de alguém que ela conhecia muito bem, alguém com grande reputação por fazer muitas coisas na obra cristã — sempre correndo de um lado para outro, sempre ativa em iniciativas filantrópicas em nome do cristianismo, uma pessoa muito ocupada naquilo que se chama obra cristã.
Ela conhecia muito bem aquela pessoa. Todos achavam que era uma pessoa maravilhosa, que se sairia bem no grande dia. O nome foi chamado, e essa pessoa se aproximou com muita confiança, bastante segura de que se sairia bem diante da medida.
Quando chegou perto da medida, começou a diminuir de estatura, como se ficasse cada vez menor, até se tornar uma pessoa minúscula junto à base da medida.
Todos olharam surpresos. “Afinal, essa é realmente toda a sua medida de Cristo?”
O anjo lhe deu alguns conselhos firmes, mas bondosos, procurando mostrar a diferença entre todas as atividades exteriores e a verdadeira medida de Cristo no interior. Ela se afastou muito triste.
Uma a uma, pessoas conhecidas daquela que sonhava foram chamadas pelo anjo. Houve uma pessoa cujo nome foi chamado, que a menina conhecia como uma pobre e frágil criatura. Ninguém lhe dava muita importância.
Ela morava num lugar afastado, em condições muito desconfortáveis. Ninguém cultivava grande amizade com ela; deixavam-na praticamente sozinha. Achavam que ela não tinha importância alguma.
O anjo chamou seu nome, e ela se aproximou muito tímida, muito receosa.
Ela veio e ficou em pé ao lado daquela medida. Ao entrar em contato com ela, começou a crescer, crescer e crescer. Toda a sua estatura se desenvolveu e aumentou, até que ela ficou maior que todas as outras pessoas.
O anjo não tinha muito a lhe dizer, apenas uma palavra bondosa: “Sim, Maria. Sim, Maria, sei tudo sobre seus fardos secretos, todos os seus sofrimentos secretos, e sobre a coragem com que você suportou o desprezo dos outros; sei como levou tudo isso em segredo ao Senhor em oração, recebendo Dele a força para prosseguir. Você tem grande valor aos olhos Dele.”
A menina que sonhava ouviu seu próprio nome ser chamado e precisou ficar ali. Ela gostava muito de roupas, da aparência mundana e de todas essas coisas. Para ela, as coisas deste mundo eram tudo.
Como era popular, como as pessoas achavam que ela sempre merecia ser admirada e diziam que era um modelo de pessoa bem-vestida — o tipo de pessoa que todos gostariam de ser —, ela pensou que poderia se apresentar ali diante da medida.
Mas descobriu que, ao se aproximar, ela também começou a encolher, a diminuir e a perder todo o senso de sua própria importância.
O anjo apenas lhe citou um trecho das Escrituras, de 1 Pedro 3:3-4:
O vosso adorno não seja o adorno exterior de trançar os cabelos, de usar joias de ouro ou de vestir roupas;
Mas seja o homem oculto do coração, no traje incorruptível de um espírito manso e tranquilo,
Que é de grande valor aos olhos de Deus.
Arrisquei-me a apresentar isso. Parece fantasioso e fantástico, mas talvez nos leve ao ponto central de todo esse assunto.
Veja bem, o padrão de Deus, afinal, é a medida espiritual de Seu Filho.
É isso que está realmente implícito nesta palavra de Pedro:
Eis que ponho em Sião uma principal pedra angular.
Agora, então, todos são medidos.
A preciosidade, isto é, é para vocês que creem. Para os que não creem, essa mesma pedra se torna uma pedra de tropeço e uma rocha de escândalo. A principal pedra angular é a medida de espiritualidade de Deus — a medida de Cristo.
Deus não está interessado em nada que não produza verdadeira espiritualidade. Esse é o ponto.
E Sião, como temos visto ao longo desta conferência, é o Filho — o pensamento de Deus para Seu povo: a soma das virtudes, dos valores e das vitórias do Senhor Jesus, que devem ser apreendidos, conhecidos, experimentados e desfrutados pela fé.
Sião é o grande teste. É o grande teste de tudo e de todos. Sim, Sião é como o prumo de Deus, para mudar a metáfora — o teste de tudo.
É preciso prestar contas a Deus por tudo o que Ele proporciona. Não há nada que Deus tenha proporcionado que possa ser tratado como se não existisse.
Uma afirmação muito solene — uma afirmação muito solene, desafiadora, que nos examina profundamente. Queridos amigos, se Deus levantou algo, apresentou algo de Si mesmo a respeito de Seu Filho e nos trouxe ao conhecimento Dele, à participação nisso, à associação com Ele—
Se isso entrou na esfera de nossa vida, nunca poderá ser como se jamais tivesse acontecido. Mais cedo ou mais tarde, teremos de prestar contas a Deus por isso.
Esse é o veredito já latente no Livro, que é a síntese de tudo.
Ele tem apontado tantas vezes o início da avaliação de Deus: a apresentação do prumo nos primeiros capítulos do livro de Apocalipse, nas mensagens às igrejas.
Eram igrejas na Ásia que o apóstolo Paulo havia sido usado para trazer à existência — igrejas que haviam recebido, de maneira muito especial, aquela maravilhosa revelação de Cristo e de Seu Corpo que fora dada de modo particular a Paulo.
Aquelas igrejas haviam recebido esse ministério. Paulo já havia partido para estar com o Senhor havia muito tempo. Quando sua vida se aproximava do fim, todos os que estavam na Ásia se afastaram dele — talvez o tenham repudiado; de todo modo, deixaram-no ir, possivelmente afastando-o de seu meio.
Você acha que esse é o fim? Ah, não.
Pois bem, aquelas mesmas igrejas são colocadas diante do prumo daquilo que Paulo havia dado — daquilo que Paulo havia apresentado. Esse é o padrão. Esse é o teste. Mais cedo ou mais tarde, não se pode escapar disso.
Talvez não seja necessário que eu diga isso com tanta força. Parece tão duro; é como uma expressão de reprovação, não é? Mas o que estamos dizendo é isto: Deus apresentou algo que tinha significado espiritual.
Aquilo continuou sendo mantido, continuou sendo preservado, mas o significado espiritual se perdeu. Por fim, eles foram julgados não de acordo com sua continuidade na forma, mas de acordo com seu afastamento do significado espiritual dela.
É assim. É assim. Será assim, agora e no fim.
É justamente algo mais profundo e mais interior que a estrutura e a forma, mesmo que Deus as tenha usado, que revela o que realmente somos. Revela o que realmente somos.
Eis que ponho em Sião uma principal pedra angular.
Na arquitetura, a principal pedra angular é aquela a partir da qual tudo se desenvolve. Tudo tem sua origem nela; tudo se ergue a partir dela; e tudo se relaciona de volta com ela. Toda a estrutura está relacionada à principal pedra angular.
Ponho em Sião.
Isso é algo que deverá servir de teste.
Nosso tempo desta tarde acabou. Caso contrário, eu prosseguiria mostrando como Sião foi o instrumento de teste de Deus na dispensação passada e como aquilo que Sião representa — qualidade espiritual e natureza espiritual — será um teste para tudo no fim.
Creio que posso parar por aqui, por enquanto. Talvez possamos prosseguir.
Mas esta tarde contém, no propósito de Deus, creio eu, esta única ênfase particular. Se estou errado, estou conduzindo vocês ao erro, e não gostaria de fazer isso. Submeto isso à observação investigativa de vocês com esta pergunta:
Estamos vendo uma mudança — uma mudança real — em toda a configuração das coisas neste mundo no que diz respeito à atividade cristã? Estamos?
Isso está se espalhando pela terra? Vejam, é tão diferente, não é?
Alguns de nós nos lembramos muito bem de como, quando éramos mais jovens na atividade cristã, estávamos tremendamente envolvidos com todo esse plano de evangelização mundial segundo os moldes esperados.
Agora, permitam-me dizer mais uma vez: não se trata, nem por um momento, de desvalorizar aquilo que Deus usou soberanamente, e Ele o usou. Nós, hoje, ainda não terminamos nossa vida. Podemos estar avançando em idade, mas vivemos o suficiente para ver que já não é possível fazer isso daquela maneira.
De que adianta, hoje, fazer apelos para que missionários vão à China? Em outros lugares também, essa situação está se tornando realidade, não é? Segundo os antigos moldes, da maneira antiga, agora é impossível.
Isso não significa que já tenha chegado o dia em que os missionários não sairão para a obra, mas podemos ver a tendência das coisas. É uma mudança. Há uma mudança chegando.
Se houver uma continuidade nisso — e não presumo que a evangelização mundial, em si, tenha chegado ao fim —, se houver uma extensão de tempo ou de testemunho nas nações, será de outra maneira, sobre outra base.
Eu disse que será por meio de homens e mulheres como tais, não sob algum título ou instituição, mas simplesmente homens e mulheres, talvez testemunhando no exercício de suas profissões, talvez nos negócios ou de outras maneiras, nas nações.
Se isso acontecer, esse será o caminho para o futuro. As coisas mudam, não é?
Por quê? Qual é o resultado disso? O que isso significa do ponto de vista de Deus?
Ah, vejam, é justamente esta tremenda ênfase de Deus e do céu: Deus, na consumação da era, chegará ao essencial e ao intrínseco e removerá o secundário — para ir diretamente à questão central.
Sem ficar dando voltas longas e demoradas, é preciso ir direto ao ponto. Vejam bem, vocês que estão nas nações: precisam conhecer a Deus em primeira mão, não por meio de nomes estrangeiros. Precisam conhecer a Deus por si mesmos e ser capazes de permanecer firmes, inteiramente sem ajuda estrangeira de qualquer espécie.
Homens e mulheres espirituais que conheçam a Deus em primeira mão, e grupos crescendo nessas nações — isso será realidade em todas as nações. Será realidade aqui.
Algo acontecerá que nos levará a depender inteiramente de Deus. Será diferente. Nós, aqui neste lugar, seremos levados a depender do Senhor.
De alguma maneira, acontecerá que, se não tivermos uma vida com Deus e não conhecermos o Senhor, não importará qual seja a estrutura: ela não nos salvará, não nos ajudará, não será suficiente.
Seremos pressionados nessa direção e nos depararemos com a pergunta: conhecemos o Senhor e somos homens e mulheres espirituais? Essa é a questão.
Deus derrubará qualquer coisa para alcançar isso, não importa quão antiga seja sua tradição, não importa quanto Ele a tenha usado em tempos passados.
No fim das contas, Ele Se concentrará numa única coisa: você conhece o Senhor? Quanto você conhece o Senhor? A que equivale seu conhecimento do Senhor? Como ele pode sustentar você até o fim? Como pode fazer você permanecer firme?
Aqueles em quem você se apoiou podem se revelar canas quebradas. Você pode encontrar decepção por todos os lados. Pode descobrir coisas que o choquem, que poderiam desviá-lo e levá-lo a se escandalizar.
Mas você está sendo testado agora segundo Sião — para ver se permanece firme ou se tropeça. Uma pedra de tropeço, vejam.
Se não somos realmente homens e mulheres que conhecem o Senhor — ah, compreendam isto. Se eu não dissesse mais nada, não poderia dizer nada mais importante que isto, queridos irmãos e irmãs: o que Deus está procurando fazer conosco, em nossas experiências, é nos levar a conhecê-Lo por nós mesmos.
Não tenham nada de segunda mão.
Isso não nos tornará independentes uns dos outros. Talvez nos torne ainda mais dependentes uns dos outros, mas precisa ser assim.
Deus abalará tudo o que pode ser abalado para revelar quanto há dessa realidade — em conformidade com Sião.