Voltamos ao nosso trecho-chave das Escrituras, em Hebreus 12:22. Por mais algum tempo, continuaremos com esse fragmento simples e incompleto da declaração inteira:
Chegastes.
Se conseguiremos ir além disso, ainda veremos.
Vimos que esse trecho é muito abrangente, reunindo tudo o que Deus sempre teve em vista ao fazer provisão para a realização do glorioso destino do homem.
Começamos destacando que esse maravilhoso documento, a Carta aos Hebreus, retoma o Antigo Testamento em suas três grandes fases:
Todas essas fases — esses movimentos de Deus — são reunidas e transferidas espiritualmente para Cristo e Sua Igreja nessa carta.
Até aqui, temos nos ocupado da primeira fase, observando que, assim como Gênesis começa com:
No princípio, Deus…
A Carta aos Hebreus começa com Deus tendo falado. Tudo começa com Deus e procede Dele — somente Deus agindo, planejando, projetando e trabalhando, até ter tudo concluído para Sua própria satisfação.
Então, em Gênesis 2 e em Hebreus 2, o homem é introduzido nesse cenário. Vocês se lembrarão de que, em ambos os capítulos, é apresentada a questão da posição do homem — o propósito de Deus para ele:
Que é o homem, para que Te lembres dele?
Fizeste-o dominar sobre as obras das Tuas mãos.
Dedicamos bastante tempo ao mais glorioso de todos os fatos: Deus tem tudo concluído para o homem antes de introduzi-lo. Isto é, o homem entra em algo que Deus concluiu perfeitamente.
Não temos de produzir coisa alguma para nossa salvação, nosso aperfeiçoamento ou nossa glorificação. Deus fez tudo e, então, nos introduz naquilo que fez. Essa é a herança da fé no grande Benfeitor divino.
Prosseguimos vendo o homem colocado em sua herança e aquilo que o jardim representava e tipificava espiritualmente. Não vou retomar os detalhes. Apenas lhes faço essa lembrança, porque há mais um ou dois pontos a considerar.
Em primeiro lugar, o jardim definia a existência do homem. Ele trazia toda a criação para algo muito prático e imediato no que dizia respeito ao homem. O jardim era o microcosmo de toda a criação de Deus, que Lhe trazia satisfação, e foi dado ao homem.
Com o jardim, Deus estava, na verdade, dizendo: “Isto é seu, homem. Isto lhe pertence. Isto tem uma relação muito prática com você, e você com isto. Você não foi simplesmente deixado à solta na terra. Tudo está concentrado aqui para se tornar algo de que você precisa se apropriar, algo de que precisa tomar posse pela fé e tornar realidade em sua experiência”.
Era isso que o jardim significava no princípio. É perfeitamente claro que, quando chegamos ao Novo Testamento — e a esta Carta aos Hebreus, em particular —, toda a maravilhosa nova criação de Deus, mediante a redenção em Cristo, é apresentada à fé como uma realidade prática.
Ela se torna algo mais do que ensino, doutrina e crença em termos gerais. É algo de que você e eu realmente precisamos nos apropriar, tomar posse e crer. Deus diz: “Tudo isto é para vocês. Tudo isto lhes pertence. O que vocês vão fazer a respeito?”
Esse era o significado prático do jardim para Adão: “Isto é seu. O que você vai fazer com isto?” A grande obra que Deus aperfeiçoou em Cristo e por meio de Cristo é apresentada como uma obra acabada, concluída e inteiramente satisfatória para Deus. Ela nos é apresentada para que a aceitemos e a tornemos nossa.
Isso é muito prático.
Então, prosseguimos vendo que o jardim havia sido destinado a ser o lar do homem. Isso significa que era seu lugar de descanso, prazer, interesse e permanência. São essas as coisas nas quais somos introduzidos em Cristo, onde está a nova criação de Deus.
A correta apropriação de Cristo pela fé significa — e tem a intenção de significar — que você e eu entramos no descanso do coração.
Descanso não é inatividade, não fazer nada. Descanso não é simplesmente ficar sentado numa poltrona. Essa é a nossa ideia de lar. Bem, às vezes isso pode fazer parte; mas a poltrona não abrange toda a ideia de lar, não é?
Acho que descanso mais num trabalho satisfatório do que sem fazer nada. Fico muito inquieto quando não faço nada. O que traz verdadeira satisfação é ter em mãos algo criativo, algo que valha a pena. Em Cristo, temos esse tipo de descanso.
É interessante e significativo que, quando o Senhor Jesus disse que encontraríamos descanso ao ir a Ele, tenha associado a isso:
Tomai sobre vós o Meu jugo.
O jugo é o símbolo do serviço. Se vamos encontrar descanso no serviço, esse serviço precisa satisfazer profundamente o coração. Isso é lar; é o lugar de descanso e o lugar de permanência. Essas coisas, juntamente com muitas outras características da vida no lar, são o que devemos encontrar em Cristo.
Devemos ser — tomando muito cuidado agora, por causa dos meus amigos americanos — pessoas que se sentem bem em casa. Alguns de vocês não sabem o significado dessa expressão.
Agora, a vocação do homem era representada e indicada pelo jardim. Ele se tornou a obra de sua vida, ou deveria tornar-se a obra de sua vida: cuidar, dar forma e cultivar as coisas que lhe haviam sido confiadas. Elas deveriam ser seus interesses ativos e os meios de desenvolvimento de sua própria vida.
Essas coisas são verdadeiras em Cristo. Cristo Se torna a própria obra da vida do crente. Por Cristo e em Cristo, somos introduzidos numa grande vocação — uma grande vocação na qual tudo o que há de mais profundo em nosso ser, pela graça de Deus, encontra sua expressão.
O amor por Deus, a resposta de nosso próprio coração à bondade de Deus, se expressa e se derrama em vocação e serviço. Mas sejamos muito cuidadosos quanto ao que queremos dizer quando usamos a palavra serviço. É melhor falar de nosso ministério ao Senhor.
Isso abrange toda forma de serviço. Se o que fazemos não é ministrar ao Senhor, então não é serviço ao Senhor. Em Cristo, assim como Adão se exercitava no jardim, nossa própria vida se desenvolve. Há crescimento. Crescemos Nele em todas as coisas.
Por fim, no que diz respeito àquela tarde, vimos o jardim como o lugar da prova do homem, onde ele era provado para ser aprovado ou reprovado. O elemento da responsabilidade entra em cena em relação a tudo o que Deus fez por nós e nos ofereceu em Cristo.
Mas a responsabilidade se resume numa única palavra: fé.
Sem fé é impossível agradar-Lhe.
A fé é nossa resposta, e ela abrange tudo. Deixamos esse ponto e avançamos para mais uma ou duas coisas relacionadas a essa primeira fase de interpretação.
Dissemos que o homem precisava tomar posse, explorar os recursos e realizar tudo o que Deus lhe havia dado. Esta Carta aos Hebreus insiste muito nesse ponto. Ela nos diz o que foi feito por nós, por Ele, Nele e por meio Dele; depois, nos chama a responder.
Em primeiro lugar, há a apropriação daquilo que nos pertence: tornar nosso o que Deus ofereceu. Pode haver uma distância entre a apresentação e a provisão de Deus e nossa apropriação deliberada e efetiva delas.
Muitas das advertências e exortações dessa carta têm a ver com isso. Não vou me desviar para lembrar-lhes a ocasião em que a carta foi escrita, mas vocês verão que, repetidas vezes, o escritor retorna a esse tipo de exortação.
Aqui está o fato apresentado. Aqui está tudo oferecido. Aqui está aquilo a que vocês chegaram. A maravilhosa expressão é constantemente reiterada: “Temamos”, “aproximemo-nos”, “prossigamos” — sempre um chamado para agirmos juntos.
Temamos, pois, que, deixada a nós uma promessa, algum de vós pareça ter ficado aquém dela.
Há muito nessa linha: a distância entre a grande provisão de Deus — tudo o que constitui nossa herança em Cristo — e nosso tomar posse dela, possuindo de maneira definida e efetiva tudo o que é nosso ao possuirmos Cristo.
O Novo Testamento tem muito a dizer sobre essa questão de realmente possuir Cristo, realmente tomar posse de Cristo. Há um exercício aqui. O homem no jardim precisa tomar posse disso.
É muito bom que o Senhor diga: “Agora, olhe para tudo isto. É muito belo, muito bom, muito maravilhoso. Há grandes possibilidades aqui”. Mas você não pode simplesmente se sentar, olhar, pensar a respeito e ficar satisfeito com isso.
Não, o Senhor diz: “Faça alguma coisa. Tome posse de toda esta situação. Tenha isso em suas mãos. Faça com que produza resultados reais”.
Amigos, receio que haja aqui uma fraqueza em muitos cristãos. Eles conhecem a verdade, as promessas, os dons e todas as coisas maravilhosas que Deus fez e disse em Cristo; mas não se empenham nisso para, pela fé, tomar posse, apropriar-se e dizer: “Isso é para mim, e eu o torno meu”.
Como não há esse tipo de resposta a Deus, há perda. Vamos nos afastando. Ficamos aquém. É disso que a carta trata: primeiro, tomar posse; depois, explorar os recursos daquilo que possuímos.
Isto é, precisamos nos dedicar a isso e fazê-lo produzir suas riquezas inerentes e intrínsecas.
Essa é uma linguagem geral, mas tomemos a vida como exemplo. Bem no coração desse jardim está a vida, e tudo no jardim é vivo.
Para nós, nesta Carta aos Hebreus, o Senhor Jesus provou a morte e venceu aquele que tinha o poder da morte, isto é, o diabo. Essa carta nos apresenta a vida em muitas relações. Toda a questão da vida surge repetidas vezes.
É claro que todos nós cremos que Jesus é a vida, que a vida e a incorruptibilidade foram trazidas à luz pelo evangelho e que nossa herança é a vida eterna, o dom de Deus. Cremos em todas essas coisas; mas, como vocês sabem, muitas vezes isso é apenas doutrina, apenas verdade objetiva.
Isso precisa tornar-se algo muito prático. Afinal, estamos num domínio de morte. A morte está por toda parte ao nosso redor. Torna-se necessário que tomemos posse da vida.
Em qualquer dia, podemos perceber essa espécie de cobertor de morte sobre nós. O que fazemos a respeito? Isso pode entrar numa reunião de oração. As pessoas se reúnem para orar e, às vezes, parece que um cobertor de lã se estende sobre tudo. Podemos lutar até o fim e voltar para casa dizendo: “Está morto. Está tudo morto”.
O que fizemos a respeito? Deveria haver uma reação coletiva, de todo o corpo: “Não vamos aceitar isso. Essa não é nossa herança. A vida é o dom de Deus. Não vamos tolerar isso”.
Podemos fazer isso individualmente, fisicamente, mentalmente, espiritualmente e coletivamente. Se não resistirmos ao avanço da morte espiritual sobre nosso corpo, viveremos uma morte em vida. É uma contradição, eu sei, mas pode ser exatamente assim.
De tantas maneiras — individualmente, fisicamente, mentalmente, espiritualmente e coletivamente —, esta é a batalha: afirmar a vida. Precisamos tomar posse da vida eterna.
Toma posse da vida eterna.
Então, explore os recursos daquilo que Ele lhe deu. Ah, que Deus faça isso penetrar em nós! Isso transforma nossas reuniões. Tornamo-nos sensíveis o suficiente para perceber o avanço da morte e saber que essa é a hora de fazer alguma coisa — não de aceitar, mas de fazer alguma coisa. Explore os recursos da vida.
O que é verdadeiro acerca da vida é verdadeiro acerca de tudo o mais que constitui essa herança em Cristo. Ela nos é dada, mas não se torna eficaz nem frutífera até que façamos alguma coisa a respeito.
É algo extraordinário: Deus nos deu tudo isso em sua perfeição, como um dom, e, ainda assim, isso não se torna frutífero em nossa experiência até que exploremos seus recursos. O propósito que está ali, inerente e intrinsecamente, precisa realizar-se.
Por estranho que pareça, ele se realiza quando entramos em ação pela fé. É uma grande herança, mas, de algum modo, não experimentamos tudo o que ela significa sem fazer alguma coisa em relação a ela.
As obras são ações concretas. As obras não justificam, mas a pessoa justificada age, colocando a fé em prática e demonstrando que tem fé ao fazer alguma coisa a respeito. Mas isso não precisa de maiores explicações.
A pessoa e a obra de Cristo, em sua totalidade, são apresentadas à fé para uma apropriação plena. É algo extraordinário:
Alcançando o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas.
A fé salta por cima do tempo, toma posse do fim — do resultado definitivo — e assume essa posição aqui e agora. Alcançar o fim da sua fé significa apropriar-se, de maneira abrangente, pela fé, daquilo que Deus assegurou.
Ah, se pudéssemos deixar isso claro! Tenho certeza de que vocês estão entendendo. É necessário que você e eu, repetidas vezes, sob a pressão do tempo e em nossas dificuldades, nos levantemos e digamos: “Sim, esta é uma fase ruim. Isto é difícil. Hoje tudo está sombrio, escuro e aparentemente sem esperança”.
“Mas tudo ficará bem no final. Isto não é o que haverá no final. No final, terei saído disso, estarei de pé, terei atravessado tudo, por cima, em vitória.” Receba o fim, tome posse desse fim hoje e não abra mão de tudo por causa do presente.
Tome posse do fim que Deus tem em vista. Essa é uma fé muito prática. Isso é explorar os recursos de sua herança plena — não apenas uma parte dela, mas o todo.
Há um desenvolvimento progressivo daquilo que nos é dado em Cristo. Isso não significa acrescentar algo, porque você não pode acrescentar nada. Significa extrair o que já está ali — a possibilidade, o potencial e o valor em Cristo que ainda não vimos.
Descobriremos que Ele é uma plenitude inesgotável somente à medida que, pela fé, nos aplicarmos a Ele e àquilo que nos é dado Nele. Desenvolvimento, nesse sentido, é como um homem que desenvolve uma propriedade que herdou. Não queremos dizer que ele a esteja ampliando; queremos dizer que está extraindo dela tudo o que ela contém.
É isso que quero dizer quando falo de desenvolver Cristo: extrair o que está Nele.
Agora podemos passar ao próximo ponto: a correspondência entre essa carta e o início de Gênesis.
No jardim, foi confiado ao homem um encargo e, juntamente com esse encargo, um mandamento. O encargo era a vida, e o mandamento era:
Frutificai e multiplicai-vos.
Deus destinou o jardim a ser o lugar e o cenário da constituição de uma família — uma família em crescimento que correspondesse ao jardim, adequada ao jardim. Esse é um ponto muito importante.
Quando o homem já não era adequado ao jardim, foi expulso. Deus não teria, naquele jardim, uma família que não fosse adequada a ele ou que não lhe correspondesse. Isso teria sido uma contradição inerente.
Isso pode ser facilmente ilustrado colocando diferentes tipos de pessoas em diferentes tipos de ambientes. Elas não são adequadas àquele ambiente. Ele não combina com elas, e elas não combinam com ele. Ficam infelizes, e tudo se torna uma contradição.
As pessoas precisam ter coisas que sejam semelhantes a elas. Esse é todo o segredo da vida, não é? Tire pessoas de certos ambientes e coloque-as num lugar encantador, e elas podem ficar muito infelizes. Muito depressa, transformarão esse lugar em algo que lhes convenha.
O mesmo é verdadeiro no sentido inverso. Coloque alguém num ambiente inteiramente inferior, e essa pessoa não ficará feliz ali. Ela fará diferença; imprimirá sua marca naquele lugar. Isso corresponde ao que ela é.
Esse é o princípio de Deus. Toda pessoa que estivesse naquele jardim deveria estar em perfeita sintonia e harmonia com o próprio jardim.
Isso fica mais claro quando você o aplica a Cristo. Deixe que Cristo represente esse jardim — nosso paraíso. Vocês sabem muito bem como as pessoas não salvas se sentem infelizes entre os cristãos, e assim deve ser. Há algo errado com o cristianismo se isso não acontece.
Vocês sabem como os cristãos se sentem infelizes no mundo. Há uma diferença, não é?
Aqui poderia haver uma família inteiramente correspondente ao jardim. Apliquem isso a Cristo. Esta Carta aos Hebreus apresenta essa questão com muita força. Talvez vocês ainda não a tenham considerado dessa maneira.
Qual é o significado de expressões como estas?
Santos irmãos.
Não Se envergonha de lhes chamar irmãos.
Eis-Me aqui, e os filhos que Deus Me deu.
Trazendo muitos filhos à glória.
A universal assembleia e igreja dos primogênitos.
Vocês percebem a linguagem? É a linguagem da família. Ela está distribuída por toda essa carta, do começo ao fim.
O que isso significa? Essa família é um dos objetivos de Deus. A família é constituída daqueles que são conformados à imagem de Seu Filho, daqueles que recebem seu caráter de Cristo e daqueles que correspondem à grande herança que Deus lhes deu em Cristo.
Se Ele deu a grande herança do descanso, então deseja uma família que desfrute desse descanso. Seja qual for o aspecto, Ele deseja uma família que tenha as características de Cristo e da obra que Deus realizou perfeitamente em Cristo.
O homem foi colocado no jardim, antes de tudo, com a responsabilidade da vida. Você e eu, em Cristo e por meio Dele e de Sua obra, recebemos essa vida divina. É outra ordem de vida, um tipo de vida inteiramente diferente.
Essa vida que temos em Cristo e por meio de Cristo é outra vida, mas traz consigo uma tremenda responsabilidade. Não podemos possuí-la e fazer com que ela termine em nós mesmos. Junto com ela vem o mandamento:
Frutificai e multiplicai-vos; enchei a terra.
A justificativa da vida está na medida de Cristo que há em outros por nosso intermédio. A justificativa para sermos chamados cristãos, a justificativa para nos firmarmos na obra consumada de Cristo e a justificativa para nossa existência diária como pessoas da nova criação não estão apenas em termos vida e conhecermos coisas.
Estão em uma medida de Cristo ser encontrada em outros por nosso intermédio. Essa é a justificativa de nossa existência e a confirmação de que Deus fez bem ao dar-nos vida. Ah, isso é um desafio, não é? A prova é muito profunda.
Aqui, a família está em vista. Paulo falou de ter gerado os coríntios por meio do evangelho. A respeito de Onésimo, ele disse:
Que gerei nas minhas prisões.
Vocês percebem o ponto? O nascimento espiritual acontece pela transmissão da vida de um membro a outro.
É necessária uma igreja viva para que haja uma salvação adequada. É necessário um membro vivo da igreja para introduzir outra pessoa na vida. É sempre assim.
Isso é ilustrado pelo profeta quando a criança estava morta. Ele se estendeu sobre aquela criança — mãos sobre mãos, lábios sobre lábios — e transmitiu vida àquela criança, e ela voltou à vida.
Essa é a responsabilidade da vida. Como as Escrituras são profundas e sérias nessa questão: ninguém deve ser um ponto em que a vida se encerra.
Qualquer condição desse tipo — esterilidade vital ou ausência de fruto — é vista pelo Senhor com a maior seriedade. No âmbito natural, isso traz sua consequência inevitável. Por nossos gostos, desgostos, ressentimentos, preferências ou pura obstinação, podemos fazer com que a vida pare em nós mesmos.
Estou falando agora no âmbito da vontade. Temos uma vontade nessa questão. Se fizermos isso, encontraremos, mais cedo ou mais tarde, uma consequência inevitável no âmbito natural; e o mesmo acontecerá no espiritual.
Onde não há vida de sobra, vida que possa ser dada, vida que seja mais do que precisamos para nós mesmos, onde não há essa vida que possa ser transmitida, esse indivíduo está se tornando um fim em si mesmo.
Tal pessoa não está correspondendo à sua obrigação e responsabilidade e trará sobre si o desagrado do Senhor.
Frutificai e multiplicai-vos.
Esse mandamento pressupõe que você tem algo — um depósito — que torna isso possível.
A família está muito presente nessa carta. Ela é uma prova de que Deus fez tudo isso e deu tudo isso em Cristo, e uma prova de que realmente entramos e nos apropriamos de tudo o que Deus fez.
A prova está em quantas outras pessoas estão recebendo vida por nosso intermédio. Ah, queridos amigos, acima de tudo, não se tornem um fim em si mesmos. Que haja aqueles que, no dia de Deus, possam atribuir sua vida espiritual a vocês como um canal.
Façam disso uma tarefa de sua vida: assegurar que haja homens e mulheres que tenham recebido vida por seu intermédio. Essa é a justificativa de nossa existência. Essa é a confirmação de que Deus fez bem ao nos dar vida. De fato, é a confirmação do valor da cruz de Cristo.
Ele verá o fruto do trabalho de Sua alma.
Ele verá a Sua descendência.
A vontade do Senhor prosperará em Sua mão.
Vocês chegaram a toda a provisão para uma vida como essa, para uma vocação como essa e para uma multiplicação assim. Está tudo ali. Isso é possível porque Deus fez plena provisão para isso.
É, em grande parte, uma questão de nos exercitarmos.
Se vocês compreenderam isso, gostaria de prosseguir por algum tempo com a próxima palavra. Não é meu propósito nesta conferência, a menos que o Senhor conduza de outra maneira, ir além da próxima palavra dessa grande declaração em Hebreus. Mas isto está muito presente em meu coração:
Chegastes ao monte Sião.
A mudança de direção do argumento depende daquela pequena palavra, mas. Vocês não chegaram ao Sinai — a terremotos, relâmpagos, fogo, terror e à voz que aterrorizou aqueles que a ouviram.
Mas chegastes ao monte Sião.
O que quero que vocês vejam é que, embora seja perfeitamente verdade que Sião é a antítese do Sinai e seja mencionada aqui em contraste com ele, isso não é tudo.
O que se quer dizer aqui está de acordo com toda a questão: vocês chegaram ao fim do caminho que já estava em vista no início do caminho.
Não apenas vocês não chegam agora ao Sinai, mas já o deixaram muito para trás. Ele está bem atrás no curso dos acontecimentos. Tem seu próprio significado e suas implicações, mas ficou lá atrás.
Vocês percorreram um longo caminho desde o Sinai e agora chegaram — não a um ponto avançado da jornada, mas ao fim da jornada.
Lembrem-se: agora passamos de Gênesis para Israel. Quando estavam do outro lado do mar Vermelho, no lado da salvação e da vida, cantaram aquele cântico:
Tu os introduzirás e os plantarás no monte da Tua herança,
No lugar, ó Senhor, que fizeste para a Tua habitação,
No santuário, ó Senhor, que as Tuas mãos estabeleceram.
Logo no início da jornada, o fim estava em vista. Dizia-se que o fim era o monte de sua herança. Se vocês examinarem o Antigo Testamento, saberão que monte é esse: é sempre Sião.
Desde o início da jornada, o fim é Sião. Não é apenas um contraste com o Sinai; é o fim do caminho que já estava em vista no princípio.
Toda essa carta é uma carta sobre coisas deixadas para trás, não é? Quantas coisas são deixadas para trás! Elas pertencem àquela ordem anterior. Agora temos algo que está aqui, adiante.
Lá atrás, tudo era parcial e imperfeito. Agora chegamos ao que é completo e definitivo. Sião é um termo inclusivo e abrangente.
Se Sião entrou em vista no início da jornada, às margens do mar Vermelho, então, como fim da jornada, significa que tudo o que a jornada representava está compreendido em Sião. Tudo está incluído em Sião. Não há mais nada depois disso.
Sião é um termo tão inclusivo e abrangente. É a soma. Simbolicamente, é a soma de toda a obra de Deus em Cristo.
Basta olhar para toda a seção das Escrituras que vai do Sinai a Cristo e ver tudo falando de Cristo, apontando para Cristo, avançando em direção a Cristo e encontrando seu cumprimento em Cristo. Sião reúne tudo isso em Cristo.
Sião se torna a soma total de toda a obra de Deus em Cristo.
Chegastes a Sião.
Vocês chegaram à obra consumada, abrangente e inteiramente inclusiva de Deus em Cristo.
Essa é outra ênfase sobre a mesma coisa. Sião significa, de maneira inclusiva e abrangente, tudo o que Deus realizou em Seu Filho.
À luz do Antigo Testamento, tudo o que ele tem a dizer acerca de Sião mostra que Sião passa a significar um povo — um povo.
Sião deixa de ser uma coisa ou um objeto e passa a ser um povo:
Alegrem-se os filhos de Sião no seu Rei.
A virgem filha de Sião.
Portanto, Sião não é apenas tudo o que Deus realizou em Cristo e tudo o que Cristo significa, em Si mesmo, da parte de Deus. Sião passa, então, a significar um povo que desfruta dessa realidade.
Chegastes a Sião.
Isso significa que chegamos a desfrutar de tudo o que Deus proveu e realizou em Seu Filho. É a totalidade da salvação de Deus desfrutada por Seu povo.
Quando vocês leem sobre Sião, a nota predominante nessa relação é sempre de exultação, alegria e louvor.
Andai em torno de Sião e rodeai-a.
Observai bem os seus baluartes.
Sião, a alegria de toda a terra.
Quando se chega aos profetas, a história é outra — não a glória, mas a tristeza; não o cântico, mas o suspiro. É a história de um povo que não entrou naquilo que lhe pertence, em sua herança.
Vamos permanecer por algum tempo no lado luminoso. Sião significa um povo que realmente vive sua alegria e sua glória em Cristo.
Realmente, realmente desfrutando de bons momentos — é nisso que tudo se resume em Sião: desfrutar de bons momentos por causa de tudo o que o Senhor fez.
Se estivéssemos vivendo mais verdadeiramente sobre esse fundamento e correspondendo a esse retrato de Sião, isso seria mais verdadeiro a nosso respeito. Sim, temos bons momentos; mas estamos sempre desfrutando dessa realidade, tendo momentos realmente bons por causa do que Cristo fez e do que Cristo é para nós?
Não quero dizer porque as coisas estejam sempre indo bem, mas simplesmente por causa do que o Senhor tem e é. Deveria haver muito mais desse desfrutar entre nós, vocês não acham, nesse sentido?
Em Sião, as pessoas estão desfrutando de bons momentos, e tudo isso está ligado à vida. É por causa do que o Senhor fez e do que o Senhor é. Muito simples, mas esse é o significado de:
Chegastes.
Deus fez toda a provisão para nós. Sião é um símbolo de Sua vitória abrangente e transcendente.
Vocês se lembram do início de Sião: era uma fortaleza nas mãos dos jebuseus, considerada inexpugnável. Quando Davi chegou, eles a defenderam com os cegos e os coxos — algo impossível, acreditavam, de ser vencido por qualquer pessoa.
Davi a venceu e fez dela sua cidade. O ponto é este: Sião simboliza a vitória transcendente — vitória sobre todos os inimigos de Deus, sobre todos os inimigos de Cristo e sobre todos os inimigos do povo de Deus.
O som de Sião é o som da vitória.
Voltem à sua Carta aos Hebreus. O que vocês encontram? Encontram um inimigo: Satanás. Encontram a morte — aquele que tinha o poder da morte, isto é, o diabo. Satanás e a morte são como fortalezas inexpugnáveis?
Depois, há o homem — não o homem deliberada e conscientemente contrário a Deus, mas o homem em sua própria condição. Ele está aqui nesta Carta aos Hebreus, e tudo o que Deus fez em Cristo tem a ver com esses inimigos.
O que significa tudo isso a respeito do sangue? O que significa tudo isso a respeito do homem longe de Deus? O que significa essa questão do Mediador entre Deus e o homem, esse grande Mediador, esse Sumo Sacerdote? O que significa tudo isso a respeito da morte e do sacerdócio aarônico, que não podia continuar porque os sacerdotes morriam?
O que significa tudo isso a respeito da morte? Quem está por trás de todas essas coisas? O pecado, a morte e o diabo.
Todo o contexto mostra que aquilo que Deus fez em Cristo foi para destruir tudo isso, para retirar disso qualquer direito de reivindicação. O pecado que nos mantém afastados de Deus foi tratado.
Cheguemo-nos com confiança ao trono da graça.
O diabo, usando a morte, poria fim a tudo; mas Cristo venceu. Que poderosa vitória Deus realizou em Cristo!
Tudo isso é reunido no final da carta em Sião:
Chegastes ao monte Sião.
O que está acontecendo? Aquilo que parecia ser a fortaleza inexpugnável de Satanás, do pecado, da condição caída do homem e da morte foi vencido e conquistado por Cristo mediante Sua cruz.
Essa vitória lhes é dada. Sião é um símbolo de vitória abrangente em todos os âmbitos. Que herança é a nossa!
Isso não é ficção. Isso não é teoria. É algo, como eu disse, que deve ser colocado à prova.
Chegastes a Sião.
Acho melhor terminar em algum ponto. Talvez essa seja uma boa nota para encerrar. Há outras coisas de tremendo valor relacionadas a Sião, e elas poderão ser consideradas mais tarde.
Terminamos com essa nota do tempo perfeito. Aqui está escrito no tempo perfeito:
Chegastes.
Não diz: “Estais chegando”. Não diz: “Ides chegar”, ou: “Chegareis um dia”. Diz:
Chegastes.
Como isso pode ser possível? Bem, novamente, é simplesmente isto: Deus fez tudo e nos entregou. Aí está. Isso é para vocês.
Se vocês crerem, se aceitarem isso pela fé, tudo isso será seu. Tomem posse. Ponham-se a trabalhar. Prossigam desfrutando dessa realidade. Prossigam até a plenitude da herança.